quinta-feira, 25 de maio de 2023

O governo federal vai respeitar a decisão do Ibama!”, declara ministra Marina Silva sobre exploração de petróleo na bacia da Foz do Amazonas

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O governo federal vai respeitar a decisão do Ibama!”, declara ministra Marina Silva sobre exploração de petróleo na bacia da Foz do Amazonas

"O governo federal vai respeitar a decisão do Ibama!", declara ministra Marina Silva sobre exploração de petróleo na bacia da Foz do Amazonas

Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e da Mudança do Clima, conquistou uma vitória importante ontem à noite, em reunião marcada e mediada pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa, em seu gabinete, para tratar da decisão do presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, a respeito da perfuração e exploração de petróleo na bacia da Foz do Amazonas, entre o Pará e o Amapá.

“O governo federal vai respeitar a decisão do Ibama”, declarou a ministra ao final do encontro. Em 17/5, o órgão divulgou parecer de Agostinho, no qual indeferiu o pedido e a licença ambiental da Petrobras para a obra.

Assim que soube do indeferimento, Jean Paul Prates, presidente da estatal, declarou que a empresa cumpriu todas as exigências para a licença e que iria recorrer da decisão. Dias depois chegou a dizer que a empresa estava se preparando para participar de prospecções na Guiana e no Suriname, como forma de aproveitar equipamentos e sondas destinadas pela petroleira à região.

Ao mesmo tempo, o senador Randolfe Rodrigues, do Amapá (líder do governo no Senado) e, a principio, defensor do meio ambiente), se desfiliou da Rede (partido fundado por Marina) por discordar da decisão do Ibama que, no seu entender, prejudica o povo do seu estado.

“O povo amapaense quer ter o direito de ser escutado sobre a possível existência e eventual destino de nossas riquezas”. Ele não deve saber que decisões técnicas do órgão ambiental não dependem de plebiscito! Além do mais, quem precisa ser ouvido são ambientalistas, geólogos, biólogos, cientistas do clima, especialistas, não o povo! Nem políticos ou empresários!

(no final deste post, indicamos reportagem que lista bobagens ditas por políticos – entre eles, Randolfe – a respeito da exploração na região).

E, ainda no Japão, o presidente Lula comentou o assunto em coletiva de imprensa, dizendo que é “difícil ter problemas com exploração na Foz do Amazonas”. A gente sabe que ele contemporiza a favor do desenvolvimento, mas não este governo não pode repetir Belo Monte (herança dos militares, que ele desenterrou e Dilma produziu), em nenhuma instância, nem se igualar ao governo anterior nas questões ambientais.

O imbróglio levou Rui Costa (favorável à exploração, claro! basta pesquisar sua trajetória à frente do governo baiano) a marcar a reunião de ontem, da qual participaram, além de Marina e Agostinho, o ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira (e equipe), o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates (e equipe), e o ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha (que acredita ser possível conciliar exploração com proteção).

Decisão técnica

“O parecer do Ibama, considerando a posição unânime de dez técnicos que analisaram o pedido de licença para fazer a perfuração de um poço exploratório foi contrário. A partir de agora, o que está estabelecido é o cumprimento da lei“, declarou Marina Silva ao final da reunião, acompanhada pelo presidente do Ibama.

Ela destacou que a equipe técnica que elaborou o parecer entendeu que a Petrobras não apresentou uma Avaliação Ambiental de Área Sedimentar (AAAS), prevista em portaria que vigora desde 2012. Essa análise permite identificar áreas em que não seria possível realizar atividades de extração e produção de petróleo e gás em razão dos graves riscos e impactos ambientais associados.

“É uma decisão técnica, e a decisão técnica em um governo republicano e democrático é cumprida e respeitada, com base em evidências. Foi uma reunião exatamente para trazer as evidências. O procedimento que está estabelecido para o conjunto das ações dos investimentos que serão feitos, envolvendo processos de licenciamento, terão que cumprir esse requisito, que foi estabelecido pelo próprio governo em 2012″.

Terras indígenas, manguezais e parques nacionais

O presidente do Ibama ressaltou que a área de pesquisa requisitada pela Petrobras está a 189 quilômetros do município de Oiapoque, no Amapá, e a cerca de 900 de Belém, no Pará, onde seria montada a base logística da exploração.

E ainda destacou que a região tem “complexidade ambiental extremamente delicada” que inviabiliza a comprovação da viabilidade de um projeto de exploração de petróleo.

“Naquela região, temos três terras indígenas, dois parques nacionais, temos 80% das áreas de manguezais do país. Também temos as correntes da água do Rio Amazonas e as correntes marinhas do norte do país. Uma região [em] que não é fácil conseguir comprovar a viabilidade”.

De acordo com ele, o Ibama solicitou oito complementações para a Petrobras, que não foram suficientes para testar a viabilidade do projeto.

Agostinho negou que tenha havido qualquer tipo de pressão por parte da Petrobras para que a licença fosse concedida, e que o órgão ambiental continuará atuando de forma técnica. E ainda lembrou que a estatal teve outras licenças aprovadas neste governo.

“O Ibama vai continuar fazendo seu trabalho técnico ambiental de avaliar a viabilidade, ou não. Este ano, nós já emitimos, só para a Petrobras, 23 licenças – nessas licenças foi comprovada viabilidade ambiental. Nesse caso específico, da região denominada Foz do Amazonas, por uma série de motivos técnicos, o Ibama não concedeu”.

Direito a tentar uma nova licença

Como aconteceu com a petroleira francesa Total – que ficou anos tentando obter licença ambiental do Ibama para explorar a bacia da Foz do Amazonas, apresentando novas licenças, até que desistiu em agosto de 2017, após mais uma negativa do órgão -, a Petrobras pode entrar com novo pedido. Mas ele será analisado como uma nova licença, ou seja, “do zero”. Marina explicou:

“Se uma licença é negada, está negada. O empreendedor tem o direito de apresentar quantas vezes ele quiser, e vai ser analisado. É um processo que partirá do zero, se for apresentada outra licença”.

O caso

Vale lembrar que o processo de licenciamento ambiental do bloco da Bacia da Foz do Amazonas – tecnicamente chamado de FZA-M-59 -, foi iniciado em 4 de abril de 2014 [governo Dilma], a pedido da BP Energy do Brasil, empresa originalmente responsável pelo projeto. Mas, em dezembro de 2020 [governo Bolsonaro], os direitos de exploração de petróleo nesse bloco foram transferidos para a Petrobras. Sorte nossa que o processo para autorização se estendeu até agora.

Em nota divulgada na semana passada, a Petrobras afirmou que foi surpreendida pela decisão do Ibama, isto porque as condições determinadas pelo órgão foram plenamente atendidas.

A empresa também afirmou que o instituto já havia reconhecido não haver embasamento legal para cobrar a avaliação ambiental como condição para emitir licença de operação para perfuração. E mais: que, em setembro de 2022 [ainda no governo Bolsonaro], o Ibama [totalmente desestruturado, sob o domínio de militares] sinalizou, como única pendência para a realização da avaliação pré-operacional, a licença de operação do Centro de Reabilitação de Fauna em Belém e as vistorias da sonda de perfuração e embarcações de apoio.

De acordo com a mesma nota, em fevereiro de 2023 [governo Lula], o Ibama vistoriou e aprovou o centro de despetrolização e reabilitação de fauna.

Segundo a Agência Brasil, a Petrobras ainda garantiu que o tempo de resposta para atendimento à fauna, em caso de vazamento, atende aos requisitos estabelecidos no Manual de Boas Práticas do Ibama para manejo de fauna atingida por óleo e que a licença em questão se restringe à perfuração de poço com o objetivo de verificar a “existência ou não de jazida petrolífera na Margem Equatorial”.

E a nota ainda destaca: “Portanto, somente após a perfuração desse poço, se confirmará o potencial do ativo, a existência e o perfil de eventual jazida. A Petrobras pleiteou apenas a licença para atividade de perfuração do poço e, para isso, apresentou todos os estudos e projetos necessários. Em caso de confirmação do potencial da reserva, outro processo de licenciamento será realizado”.

Aliar preservação ambiental e desenvolvimento econômico é um grande dilema em qualquer lugar do mundo, Mais ainda se envolve exploração de petróleo porque os impactos negativos fazem parte do histórico e podem resultar em tragédia.

Não é possível a estatal declarar “se houver vazamento”, porque isso sempre vai acontecer. Como sempre nos lembra o jornalista Andre Trigueiro, “a questão não é SE, mas QUANDO”. A empresa tem histórico amplo nesse sentido. E sabemos que é preciso cessar a produção de combustíveis fósseis, que condena a humanidade devido às altas emissões de gases de efeito estufa.

No entanto, o poder concedido pelo petróleo, no mundo, é imensurável e cega, podendo transformar pessoas de diferentes ideologias e ativismos em “aliadas”, como aconteceu com Randolfe Rodrigues, que, por sua postura a favor da perfuração, foi “elogiado” e ironizado por Ricardo Salles no Twitter:

“Bem-vindo ao time”, escreveu o ex-antiministro do meio ambiente, que foi rechaçado por Randolfe e respondeu: “Ué, não era Randolfe, ‘o ambientalista’, que vivia criticando o governo Bolsonaro pelas obras e licenças ‘antiambientais’? Agora, ficou bravinho por que o Ibama/Marina barrou o projeto de exploração de petróleo no seu estado, bateu o pezinho e saiu do partido… O amor venceu!”.

Claro que Randolfe e Salles não são balizados pelos mesmos princípios, mas a defesa do líder do governo no Senado o coloca no grupo de políticos que apoiam o desenvolvimento a qualquer custo, mesmo que responda assim para o desafeto. “Eu quero o desenvolvimento para o povo do meu estado e sempre lutei pelo meio ambiente, o que você sempre quis era ‘passar a boiada’ para acabar com a Amazônia”.

Para entender melhor a repercussão da decisão do Ibama, leia a reportagem As bobagens ditas por políticos que defendem a exploração da foz do Amazonas: como confundir a Guiana com a Guiana Francesa…
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Fonte: Agência Brasil, G1, Correio Brasiliense

Foto: José Cruz/Agência Brasil

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Terra receberá mensagem extraterrestre nesta quarta-feira. Participe

 

Terra receberá mensagem extraterrestre nesta quarta-feira, dia 24. Participe

Redação do Site Inovação Tecnológica - 22/05/2023

Primeiro Contato: Terra receberá mensagem extraterrestre nesta quarta-feira
O projeto quer que o público participe não apenas na decodificação da mensagem, mas também com contribuições artísticas e de ideias.
[Imagem: A Sign in Space/Divulgação]

Primeiro contato

No próximo dia 24 de maio, a sonda espacial ExoMars, que está em órbita ao redor de Marte desde 2016, transmitirá uma mensagem codificada para a Terra.

O objetivo do projeto, batizado de Um Sinal no Espaço, é simular o recebimento de um sinal de uma inteligência extraterrestre - ainda não sabemos bem o que fazer quando os ETs chegarem.

Será como uma simulação, em que a comunidade SETI (Busca por Inteligência Extraterrestre) mundial, profissionais de diferentes áreas e o público em geral deverão se engajar no processo de recebimento, decodificação e interpretação de uma mensagem extraterrestre.

Este processo requer cooperação global, estabelecendo uma ponte sobre o SETI, a pesquisa espacial e a sociedade em várias culturas e áreas de especialização. Há anos a comunidade SETI vem propondo a criação de um protocolo para o primeiro contato alienígena.

"Ao longo da história, a humanidade buscou significado em fenômenos poderosos e transformadores," disse Daniela de Paulis, a idealizadora do projeto. "Receber uma mensagem de uma civilização extraterrestre seria uma experiência profundamente transformadora para toda a humanidade. Um Sinal no Espaço oferece a oportunidade sem precedentes de ensaiar e se preparar de forma tangível para esse cenário por meio da colaboração global, promovendo uma busca aberta por significado em todas as culturas e disciplinas".

Primeiro Contato: Terra receberá mensagem extraterrestre nesta quarta-feira
Três radiotelescópios receberão a mensagem: ATA, Green Bank e Medecina.
[Imagem: ATA:Joe Marfia;Green Bank Telescope:Jay Young;Medecina:Medecina Radio Astronomical Station]

Interpretando um sinal alienígena

A sonda ExoMars, da Agência Espacial Europeia, transmitirá a mensagem codificada em 24 de maio às 19:00 UTC - 16:00 no horário de Brasília. Ela chegará à Terra 16 minutos depois.

Três observatórios de radioastronomia de classe mundial detectarão a mensagem codificada: o ATA (Allen Telescope Array), do Instituto SETI, o radiotelescópio Green Bank (GBO) e o observatório da Estação Astronômica de Rádio Medecina, do Instituto Italiano de Astrofísica (INAF).

As equipes de cada telescópio irão processar a mensagem e disponibilizá-la ao público.

O conteúdo específico da mensagem codificada, desenvolvido por Daniela e sua equipe, não foi divulgado, permitindo que o público contribua para decodificar e interpretar o conteúdo.

Qualquer pessoa trabalhando para decodificar e interpretar a mensagem pode discutir o processo no servidor Discord A Sign in Space. As submissões de descobertas, comentários e contribuições artísticas e científicas poderão ser feitas através do formulário de submissão dedicado no site do projeto: https://asignin.space/decode-the-message/.

Após a transmissão, a equipe do projeto realizará uma série de discussões pelo Zoom, abertas ao público, sobre as implicações sociais da detecção de um sinal de uma civilização extraterrestre. As discussões ocorrerão ao longo de 6 a 8 semanas após a transmissão. Uma lista de eventos com links de inscrição está disponível no endereço https://www.seti.org/event/sign-space.

Outras informações podem ser obtidas no site do projeto, no endereço https://asignin.space/.

Tela flexível para realidade aumentada pode ser colada em qualquer superfície

 

Tela flexível para realidade aumentada pode ser colada em qualquer superfície

Redação do Site Inovação Tecnológica - 23/05/2023

Tela flexível para realidade aumentada pode ser colada em qualquer superfície
Isto é o que um motociclista deverá ver ao usar um capacete que incorpore a nova tela de realidade aumentada.
[Imagem: KDH Design]

Tela flexível

Pesquisadores australianos apresentaram o que eles afirmam ser "a primeira tela de exibição de realidade aumentada flexível e transparente do mundo, feita usando impressão 3D e materiais de baixo custo".

tecnologia de realidade aumentada (RA) sobrepõe o conteúdo digital ao mundo real, aprimorando a percepção do usuário em tempo real e a interação com seu ambiente.

Vinha sendo difícil criar uma tecnologia RA flexível, que possa se ajustar a diferentes ângulos de fontes de luz e ser colada em materiais transparentes, já que a fabricação convencional usa substratos de vidro, que precisam passar por fotomascaramento, laminação, corte e gravação dos micropadrões necessários para criar a tela.

Esses processos demorados são caros, têm uma baixa taxa de rendimento e são difíceis de integrar perfeitamente com a aparência dos produtos sobre os quais devem ser instalados.

A equipe do professor Ranjith Unnithan, da Universidade de Melbourne, superou essas dificuldades usando polímeros e plásticos de qualidade óptica e montou a tela usando manufatura aditiva, ou impressão 3D.

Foram quatro anos de trabalho, durante os quais a equipe aprimorou as técnicas que viabilizaram a criação de uma tela na forma de um filme fino, que pode ser aplicado como um revestimento, sobre superfícies transparentes ou não. Outra vantagem foi a otimização do brilho e da resolução, para viabilizar telas colocadas junto ao olho, como em óculos e capacetes.

A tela resultante é flexível e versátil e pode dobrar e se ajustar a diferentes formatos, como superfícies curvas ou irregulares, dando mais liberdade para ajustar o fator de forma de um produto. Como a tela é transparente, ela proporciona uma visão natural e desobstruída, sobrepondo o conteúdo digital à visão do mundo natural em volta.

Tela flexível para realidade aumentada pode ser colada em qualquer superfície
As imagens são geradas por LEDs acionados por um sistema microeletromecânico (MEMS).
[Imagem: KDH Design]

Aplicações

A equipe já lançou uma empresa emergente, a KDH Design, para colocar no mercado versões da nova tela adequadas para instalação em capacetes para motociclistas, óculos e para-brisas de automóveis.

"Na indústria de jogos, telas RA flexíveis e transparentes podem ser integradas a acessórios de jogos, como óculos ou visores, proporcionando uma experiência de jogo mais imersiva e realista. Na educação, os monitores RA podem ser incorporados a ferramentas e simulações educacionais, permitindo experiências de aprendizado interativas e envolventes.

"Na área da saúde, os monitores RA podem ser usados no treinamento médico, auxiliando os cirurgiões com informações em tempo real durante as operações, mas existem muitas outras aplicações potenciais, desde transporte até turismo," disse o professor Unnithan.


Na esteira do desmatamento que avança sobre a Amazônia, cresce no sul do Pará a cultura dos rodeios

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Na esteira do desmatamento que avança sobre a Amazônia, cresce no sul do Pará a cultura dos rodeios

Na esteira do desmatamento que avança sobre a Amazônia, cresce no sul do Pará a cultura dos rodeios

*Por Heinar Maracy

Nem bem o sol desponta por trás dos montes, a cavalgada já está a mil no Parque de Exposição Agropecuária. Cavaleiros montando potentes zebus ou mulas enfeitadas de argolas de ferro. Mulheres desfilando em roupas de cores festivas, carregadas de lantejoulas. A moda é sincrética: biquínis com chapéu de caubóis ou cocares de indígenas norte-americanos. A música sertaneja bomba nas alturas, enquanto locutores saúdam autoridades e animam o público. A carne é distribuída generosamente entre a população local.

Podia ser Barretos, capital paulista dos rodeios. Podia ser o Texas. Mas é Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, nas bordas da Amazônia. O município nasceu há 40 anos, com a regularização de terras de grileiros, mas teve seu boom no início deste milênio, após a descoberta de enormes jazidas de minério de ferro. Em três anos, de 2010 a 2013, sua população triplicou. Hoje são quase 40 mil habitantes.

Depois da mineração (legal e ilegal), veio a pecuária, que contribuiu para o aumento exponencial do desmatamento não só em Canaã dos Carajás como  em toda Amazônia paraense, sobretudo ao longo do chamado do Arco do Desmatamento – a grande franja de pastagem que vem comendo a Floresta Amazônica pelas bordas.

“Isso aqui tudo ao redor era mata”, lembra Manoel dos Santos, que está na região desde os tempos da corrida do ouro de Serra Pelada. “Parauapebas não existia, Curionópolis não existia”, diz, citando algumas das muitas cidades que cresceram naquela parte do Pará. “Era caititu, anta, tatu, paca, veado-mateiro. No começo, as pessoas se sustentavam só com carne de caça.”

Na esteira do desmatamento que avança sobre a Amazônia, cresce no sul do Pará a cultura dos rodeios

Reza durante cavalgada em Canaã dos Carajás, Pará
(Foto: Ricardo Teles)

Na esteira do desmatamento que avança sobre a Amazônia, cresce no sul do Pará a cultura dos rodeios

Queimada para fazer pasto no município de Tucumã (PA)
(Foto: Ricardo Teles)

Desmatamento exponencial

Segundo o MapBiomas, nas últimas quatro décadas de exploração e colonização intensivas, a Amazônia Legal brasileira perdeu 46 milhões de hectares de floresta, a maior parte convertidos em pastagens para gado.

No início, nos anos 1970 e 1980, a expansão da criação de gado na região amazônica brasileira era limitada a grandes fazendeiros que se estabeleceram na Amazônia Oriental, nos estados de Pará e Mato Grosso, graças à especulação fundiária, crédito e incentivos governamentais. Atualmente, são os filhos e netos dessa geração de fazendeiros e seus funcionários que estão envolvidos na pecuária, uma das poucas opções de trabalho na região.

São esses descendentes que agora se transformam em caubóis, criando uma subcultura que funde a imagem tradicional dos vaqueiros norte-americanos com a música sertaneja brasileira e normaliza o desmatamento como uma forma de exploração da terra.

Inicialmente, a criação de gado na Amazônia era altamente rentável, devido aos generosos incentivos e subsídios governamentais que estimulavam essa atividade. Embora muitos desses incentivos tenham sido cortados posteriormente, novos estímulos surgiram, o que impulsionou a expansão por toda a Amazônia.

Em 2004, o Brasil se tornou o principal exportador global de carne, com o crescimento impulsionado pela produção amazônica, que aumentou dez vezes mais rápido do que a média nacional nos anos 1990.

A erradicação da febre aftosa e as condições climáticas favoráveis tornaram a Amazônia uma região viável para a pecuária, que antes ocorria em regiões produtoras mais próximas de grandes centros urbanos, onde a terra era mais cara. Em 2021, segundo o IBGE, a região Norte já detinha 25% do rebanho bovino nacional.

Na esteira do desmatamento que avança sobre a Amazônia, cresce no sul do Pará a cultura dos rodeios

Tropeiros em Rio Verde (PA)
(Foto: Ricardo Teles)

Na esteira do desmatamento que avança sobre a Amazônia, cresce no sul do Pará a cultura dos rodeios

Fazenda Umuarama, de pecuária de ponta, em Canaã dos Carajás (PA)
(Foto: Ricardo Teles)

Ocupação especulativa

E quem está na linha de frente do desmatamento na Amazônia é justamente o peão de boiadeiro, chamado na região de tropeiro, cujas habilidades no manejo do gado são celebradas anualmente em rodeios como o de Canaã dos Carajás.  Para Paulo Barreto, pesquisador do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), o tropeiro amazônico é o principal agente do chamado “desmatamento prematuro”.

Segundo Barreto, “existem três fatores para se entender o desmatamento por razões econômicas. O primeiro é o interesse pela área de mata, se ela tem alguma atração agropecuária ou para a mineração. O segundo é se existem leis que protegem aquela área e se essas leis são realmente cumpridas. O terceiro é se o acesso à área é fácil. Se existe estrada ou rio que facilite a pessoa a chegar na área a ser desmatada. Na Amazônia, o desmatamento ocorre mesmo quando esses fatores não estão presentes. É um desmatamento prematuro onde áreas bem distantes são ocupadas por pessoas que acreditam que um dia a estrada vai chegar lá, as terras serão regularizadas e o terreno irá valorizar”.

Nessa estratégia de ocupação especulativa, a pecuária é a ferramenta ideal, pois prescinde da necessidade de infraestrutura de apoio, como silos no caso da produção de grãos.

“Se um fazendeiro decide plantar soja, ele vai precisar estar perto de uma certa infraestrutura para conseguir armazenar a produção na hora da colheita, ter uma estrada perto para transporte, etc. O gado não precisa dessa infraestrutura”, diz Barreto.

Para os produtores, a criação de gado apresenta diversas vantagens em relação a outras formas de uso da terra, especialmente para grupos pobres e isolados. É uma atividade menos arriscada e requer menos investimento inicial, além de demandar menos trabalhadores em comparação à agricultura. Além disso, o gado é um ativo líquido que preserva seu valor e pode ser facilmente transportado para mercados próximos.

Os tropeiros são fundamentais nesse processo: abrem picadas na floresta e tocam o gado por ela, andando por vezes até dias, sem precisar de estradas. Chegam até a região distante a ser desmatada e colocam novilhas por lá, que logo vão virar vacas e gerar bezerros. Entre a ocupação e a retirada do gado gordo para vender, podem demorar seis ou sete anos.

“Para o fazendeiro, isso é um ativo biológico semelhante a uma aplicação bancária”, explica Barreto. “Se, no pior cenário, a estrada não aparecer, ele tira o gado de lá e vende. Se tiver pressa, vende os bezerros para engorda a uma fazenda mais próxima de um frigorífico”.

Resumindo: é uma ocupação especulativa resultante em uma pecuária ineficiente, de baixa produtividade e um desmatamento muito além do necessário, em termos econômicos.

Queimada criminosa em Área de Proteção Ambiental do município de Anapu (PA)
(Foto: Ricardo Teles)

Lida de gado em propriedade de produção extensiva em Curionópolis (PA)
(Foto: Ricardo Teles)

Baixos salários e o sonho de ser campeão

O objetivo desse modelo de pecuária não é ampliar a produtividade por hectare, mas desmatar a maior área possível, se apropriando de terras que são públicas ou protegidas pelo Estado. Em termos de desenvolvimento regional, ele soma um desastre social ao desastre ecológico.

“Eles abrem áreas imensas, com baixíssima produtividade. Consequentemente, a geração de emprego é pequena e a qualidade do emprego é ruim”, diz Barreto. Mesmo dentro da Amazônia, quando a pecuária é comparada com outros setores, ela apresenta níveis maiores de informalidade e salários menores. “São trabalhadores espalhados em uma área gigante, que geram uma demanda por energia, saúde, educação e muito pouca arrecadação de impostos.”

Os baixos salários tornam o sonho do peão de rodeio ainda mais atraente, quando se sabe que um campeão pode ganhar até R$ 30 mil caso consiga ficar montado no touro por pelo menos 8 segundos, além da fama e oportunidades de patrocínio.

“Todo peão quer vir pro rodeio, quer ser campeão. A adrenalina que passa na cabeça quando a gente tá em cima de um boi, mete o pé na porteira e solta aquele trem pra fora… o cara que passa por isso não larga mais. Você quebra uma junta, um pé, mas não sai fora. Se o braço tá esfolado, a gente amarra e vai pra cima do boi”, diz Mateus de Assis Pereira, que trabalha em uma fazenda de gado no sul do Pará.

São dois os pontos altos da cultura country-amazônica: o rodeio e a cavalgada. Relembrando as picadas que desbravaram o centro e o sul do país desde os tempos do Brasil colonial, a cavalgada é formada por grupos distintos de cavaleiros, as comitivas, cada ums com seu patrocinador — em geral fazendas de gado, marcas de tabaco e rapé e lojas de roupas, selas ou componentes para montaria. Os cavaleiros partem de um extremo da cidade e a atravessam até chegar ao local da exposição local.

Peões rezam antes da competição de montar em touros durante rodeio em Canaã dos Carajás (PA)
(Foto: Ricardo Teles)

Os rodeios norte- americanos exercem influência direta nos da Amazônia; na foto, detalhe de peão em. Curionópolis (PA)
(Foto: Ricardo Teles)

Rainhas e princesas de comitivas de peões durante o rodeio em Canaã dos Carajás (PA)
(Foto: Ricardo Teles)

Trailers e caminhões seguem na frente, tocando música sertaneja, muitas vezes com artistas ao vivo. Após marchar pela cidade por horas, todos se reúnem em um acampamento ou em um centro de exposições para beber e comer churrasco, com carne doada por fazendeiros e comerciantes da região. Em 2022, mais de 9 toneladas de carne foram servidas durante a Expocanaã, em Canaã dos Carajás.

Até poucos anos atrás, quem quisesse participar de um rodeio precisaria se deslocar para o Sudeste ou Centro-oeste, locais tradicionais de grandes shows agropecuários. Na Amazônia, o crescimento explosivo decorrente da pecuária trouxe dinheiro e investimento em exposições de gado, cujo ápice é o rodeio. Os eventos são anuais, mas como se multiplicaram pelas cidades da região, praticamente não se passa um mês sem uma cavalgada ou rodeio.

E, assim, a cultura country-amazônica avança junto com o desmatamento, comendo a floresta pelas bordas ao som de música sertaneja, com cheiro de churrasco.

Como diz Leandro Santos, que, além de tropeiro, construiu um verdadeiro centro de treinamento para os peões que almejam participar de rodeios no Brasil e, sonho máximo, nos Estados Unidos: “Antes a cidade era pequena, tinha pouca gente. Aí foi expandindo e os trem foram valorizando. A cavalgada de Canaã é uma das mais bonitas da região e o povo começou a apoiar os rodeios. Antes, para ver um rodeio bonito, você precisava ir a Rio Verde ou Barretos. Agora tem aqui e vai crescer ainda mais, se Deus quiser.”

Desfile durante a cavalgada em Canaã dos Carajás (PA)
(Foto: Ricardo Teles)

O pasto toma o lugar da floresta. Canaã dos Carajás, Pará
(Foto: Ricardo Teles)

*Texto publicado em 22/05/23 no site do Mongabay Brasil
Todas as informações contidas na reportagens e autorizações para uso de fotos e seus devidos créditos são de inteira reponsabilidade do Mongabay Brasil

Foto de abertura: Ricardo Telles (garoto toca o berrante em cavalgada na cidade de Paragominas, Pará)