O novo ministro do Planejamento, Valdir Simão, afirma que o governo quer
acabar com o "piloto automático" dos programas federais, inclusive os
da área social, para "descontinuar" os que não têm mais sentido e
reforçar os mais eficazes.
Para isso, revelou que fará uma avaliação de vários deles, citando
Farmácia Popular, Garantia Safra, UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e
construção de creches no Pró-Infância.
A medida faz parte da reforma do Estado que o ministro elabora, com
quatro pilares: desburocratização, reorganização administrativa,
fortalecimento da gestão e do controle e gestão da qualidade do gasto
público.
"Temos de verificar a qualidade dos programas. E para que esta
avaliação? Para aperfeiçoar e fazer o orçamento seguinte do programa
refletir as suas necessidades. Não podemos ficar ligados no piloto
automático e simplesmente colar a gestão orçamentária", afirmou.
|
Pedro Ladeira/Folhapress |
|
 |
| O ministro do Planejamento, Valdir Simão, em entrevista em seu gabinete, em Brasília |
*
Folha - O governo fechou 2015 com um déficit de R$ 115 bilhões, o maior desde sempre. Onde o governo fracassou?
Valdir Simão - Tivemos dificuldades, em especial nos últimos dois
anos: preço das commodities em queda, trazendo um desaquecimento da
atividade econômica, que teve impacto nas receitas. O Orçamento é muito
engessado, apenas 8,5% podem ser contingenciados, uma margem muito
difícil. Temos um desafio grande neste ano, temos de ter como referência
a meta aprovada no Congresso, de um superavit de 0,5% do PIB.
Como cumprir esta meta, o mercado não acredita?
Para 2016, algumas medidas são centrais para atingirmos o resultado,
aprovar a CPMF e a DRU [Desvinculação de Receitas da União], mas também
medidas do lado da despesa e da organização do Estado. A questão da
reforma da Previdência tem de ser discutida.
A Previdência é importante para o longo prazo. Mas, para a meta de 0,5%, o que fazer?
Estamos discutindo uma série de medidas, fazendo um trabalho de revisão
de parâmetros para contratação na administração pública, para focar mais
em produtividade e menos em quantidade dos serviços. Esta é uma
dimensão importante, porque nossos parâmetros ainda não são bons. É
possível fazer melhor com menos.
Este é um discurso que muitos já fizeram, sem resultado. O que leva o sr. a acreditar que será diferente?
O gestor público tem de colocar produtividade no seu processo de
decisão. Para isto, estamos discutindo no âmbito da reforma do Estado
quatro pilares. Primeiro, a desburocratização, identificando onde estão
os gargalos e eliminando-os, o que contribui para a melhoria do
bem-estar, reduz custo para o Estado e acaba com controles
desnecessários e melhora o ambiente de negócios.
O que de fato pode melhorar?
Por exemplo, todos os órgãos têm de ter prazos de atendimento. Não é
possível uma empresa um cidadão fazer uma requisição ao Estado, e ele
não ter prazo máximo para atender. Essa tem de ser uma regra, todos os
processos que não tiverem prazo máximo passarão a ter.
Qual é o outro pilar da reforma do Estado?
A reorganização administrativa do Estado. Estamos cortando cargos, o Estado tem aproximadamente 22 mil cargos comissionados.
Mas isso foi prometido e até agora não cumprido.
Estamos buscando acelerar este processo. Ainda não foram cortados, mas serão.
Os parâmetros de gastos são ruins, como o sr. disse. O que fazer para melhorar?
Aí entra o terceiro pilar da reforma do Estado, atacar a qualidade do
gasto. Temos hoje um conjunto de políticas que são implementadas, mas a
avaliação da qualidade, da efetividade destas políticas ainda não é boa.
Eu preciso sistematicamente, ano a ano, avaliar se determinado programa
social, se determinado investimento deve ou não continuar.
O que deve ser descontinuado?
É preciso verificar se o programa está se propondo aquilo para o que foi
idealizado, do ponto de vista fiscal e de investimento, se na sua
formatação existem vulnerabilidades que possam permitir desvios. Posso
falar aqui quais programas eu pretendo avaliar, sem trazer um
prejulgamento se ele é adequado ou não. O Garantia Safra, que é uma
bolsa paga ao agricultor por causa da escassez de chuva, é um exemplo.
Estamos avaliando a Farmácia Popular, o funcionamento das UPAs [Unidades
de Pronto Atendimento], do ponto de vista qualitativo, se estão
atendendo as expectativas. E para que essa avaliação?
Para aperfeiçoar e
fazer o orçamento seguinte do programa refletir as suas necessidades.
Não podemos ficar ligados no piloto automático e simplesmente colar a
gestão orçamentária.
Como o sr. avalia a qualidade?
O Bolsa Família, que é um programa de sucesso, ninguém tem dúvida do seu
impacto social, da sua efetividade e importância. Mas sempre há a
possibilidade de aperfeiçoamento. Então, esta é uma rotina que o
Ministério do Planejamento tem de desenvolver, garantir que o programa
primeiro tenha sido bem formatado e todas as suas vulnerabilidades e
riscos sejam mapeados, segundo avaliar sua efetividade. Quando eu criei o
Bolsa Família tinha o objetivo de redução da pobreza.
Ele está
contribuindo para isto? Está. Ele tem de continuar? Tem de continuar.
Isto fortalece o programa para o gestão do ciclo orçamentário. E, é
claro, quando se identificar que há programas que já cumpriram seu
papel, têm de ser descontinuados.
Tem algum caso identificado?
Estamos começando a avaliação, o que eu falar é especulação. [Estamos
avaliando] o Pro-Infância, na construção de creches. Estamos fazendo uma
avaliação dos cartões de pagamento da defesa civil. Aí é muito na
questão do controle, revisão das condições, do que da questão da
efetividade do programa.
Qual é o quarto pilar?
Fortalecimento da gestão e do controle. Tínhamos fragilidades na gestão
porque não incorporamos ainda a gestão de risco como uma rotina.
Precisamos adotar na administração pública programas de "compliance"
como estão sendo adotados no setor privado. Códigos de conduta, revisão
do processo decisório para que ele seja equilibrado, não concentrar
decisão nas mãos de poucas pessoas, fazer um trabalho de formação e
capacitação das pessoas com base nesse código de conduta. Ter canais de
denúncias, apurar efetivamente as denúncias, punir as pessoas
adequadamente.
Esta reforma, num momento de investigação sobre irregularidades na Petrobras, tem como alvo evitar a corrupção?
Ela contribui, mas não posso distinguir o controle voltado para o
"compliance", para a integridade, do controle voltado para resultado.
Por exemplo, a relação com fornecedores: como devo receber, alguém deve
estar junto? Como deve ser a política de recebimento de presentes ou de
oferta de patrocínio? Isso tem de estar claro para todos. Vamos eliminar
a corrupção? Não. Nenhum programa se propõe a isso. Ele se propõe a
evitar que ela aconteça, mas, se acontecer, possa ser identificada. E,
identificada, que o agente possa ser punido.
Comentário