terça-feira, 30 de outubro de 2018

O Estado de S. Paulo – As dificuldades do Ibama / Editorial


28 Oct 2018

Criado em 1989 para executar a Política Nacional do Meio Ambiente – aprovada oito anos antes – e para fiscalizar o uso dos recursos naturais, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) enfrenta grandes dificuldades materiais e institucionais para cumprir suas funções, das quais se destacam o combate a desmatamentos e a concessão de licenças ambientais.

No fim de semana passado, por exemplo, três das dez caminhonetes do órgão estacionadas em frente ao hotel onde estavam hospedados alguns fiscais, na cidade de Buritis, situada a 338 km de distância da capital do Estado de Rondônia, Porto Velho, foram incendiadas. Os fiscais iam investigar um desmatamento ilegal e roubo de madeira detectados por satélite na região quando o atentado foi cometido. Enquanto os três veículos ardiam, um homem incitava a população a pôr fogo nas outras sete caminhonetes, o que levou a direção do Ibama a pedir providências urgentes à Polícia Militar de Rondônia e a solicitar proteção da Força Nacional. Pontes de acesso aos locais onde os crimes ambientais teriam sido cometidos também foram incendiadas.

Esse tipo de agressão a fiscais e propriedades do Ibama infelizmente está se tornando rotineiro. No ano passado, na divisa dos Estados do Pará e Mato Grosso, foi queimado um caminhão-cegonha que transportava oito automóveis adquiridos pelo Ministério do Meio Ambiente para renovar a frota da autarquia na região de Novo Progresso (PA). Três meses depois, garimpeiros ilegais destruíram quatro veículos e os escritórios do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) na cidade de Humaitá, no Estado do Amazonas. Nesses locais, os fiscais do Ibama vinham promovendo operações de combate a desmatamentos e a garimpos ilegais e sofrendo fortes ameaças – inclusive de prefeitos.

Resultante da fusão de quatro entidades governamentais que atuavam na área ambiental – a Superintendência da Borracha, a Superintendência da Pesca, o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal e a Secretaria Federal do Meio Ambiente –, o Ibama, que ganhou muita visibilidade depois da Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em 1992, também enfrenta graves deficiências de recursos humanos. Para atuar em todo o País, o órgão tem apenas 3.150 funcionários, dos quais 756 estão em condições de pedir aposentadoria. No setor de análise de pedidos de concessão de licenças ambientais, onde tramitam cerca de 2.800 processos, a autarquia só tem 300 analistas, número considerado insuficiente.

Por falta de verbas, o Ibama não tem condições de convocar concurso público para preencher as vagas dos funcionários que já se aposentaram. Foram solicitadas verbas para preencher 1.630 vagas, mas o Ministério do Planejamento alegou não dispor de recursos para 2018 e 2019, por causa do déficit fiscal. O último concurso promovido pela autarquia foi realizado há quase dez anos.

Por causa do contingenciamento do Orçamento da União, nos últimos anos o Ibama teve de fechar 70 dos 140 escritórios que mantinha em todo o País. Também por causa das limitações financeiras, não há pessoal suficiente para as superintendências que o órgão mantém em cada uma das 27 unidades da Federação. Com a previsão de mais aperto nos próximos anos, a direção do Ibama teme que o órgão esteja esgotando sua capacidade de trabalho. “O Ibama tem atuado com uma força de trabalho aquém da necessária. Com esse quadro, teremos dificuldades evidentes para cumprir nossas missões institucionais, que abrangem um amplo e complexo conjunto de temas”, afirma a presidente do órgão, Suely Franco.

Independentemente das controvérsias sobre o alcance e o modo da atuação do Ibama, uma coisa é certa: o órgão pode ter sua política revista com a chegada de um novo governo, o que é comum na democracia. Mas, por sua importância, em hipótese alguma pode ser asfixiado.

Agência Brasil – Indígena brasileira eleita deputada federal vence prêmio da ONU

Agência Brasil – Indígena brasileira eleita deputada federal vence prêmio da ONU

28/10

A deputada federal Joênia Wapichana (Rede-RO), primeira indígena eleita para o cargo no país, venceu o Prêmio das Nações Unidas de Direitos Humanos. O anúncio foi feito pela presidente da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Maria Fernanda Espinosa, na última quinta-feira (25). Com 43 anos, ela está entre os oito deputados federais eleitos por Roraima este ano.

Já receberam esse prêmio - concedido a pessoas e organizações pelas suas conquistas em direitos humanos – o pastor norte-americano Martin Luther King, o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela e a ativista paquistanesa Malala Yusafzai -, além das organizações Anistia Internacional e Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

Joênia Batista de Carvalho adotou como sobrenome sua etnia. Segundo estimativas não oficiais, são 3,5 mil indígenas wapichana na Região Norte do país.

Após defender um caso de disputa de terras na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), Joênia se tornou a primeira advogada indígena a comparecer perante o Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2013, foi nomeada primeira presidente da Comissão Nacional de Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas.

“Quando eu levo a palavra como primeira mulher indígena formada no Brasil, é justamente para dar um incentivo, para que essa minha imagem possa ser reproduzida, multiplicada dentro dos povos indígenas”, afirmou Joênia em entrevista em Boa Vista ao ONU News, ao saber da premiação.

“São cidadãos, pessoas que querem fazer parte da tomada de decisões de muitos processos que estão sendo discutidos dentro dos países, são defensores de direitos, de conhecimentos, de vários saberes. A gente vai fazer também com que as crianças possam viver este exemplo. E eu entendo que este reconhecimento vai servir também para nos proteger”, declarou na ocasião.

Criado pela Assembleia Geral da ONU em 1966, o prêmio está em sua décima edição, que coincide com o aniversário dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Os vencedores são escolhidos por um comitê especial formado pela presidente da Assembleia Geral, o presidente do Conselho Econômico e Social da ONU, o presidente do Conselho de Direitos Humanos, entre outros. Para o prêmio deste ano, foram recebidas mais de 300 candidaturas. A entrega acontecerá em dezembro, na sede das Nações Unidas, em Nova York, como parte das comemorações do Dia dos Direitos Humanos.

Edição: Fernando Fraga

Folha de S. Paulo – Política da Europa vê ensaio de 'onda verde'

Folha de S. Paulo – Política da Europa vê ensaio de 'onda verde'


Lucas Neves

Quando os eleitores do estado de Hesse, no centro-oeste da Alemanha, forem às urnas neste domingo (27), estarão definindo mais do que o equilíbrio de forças no tabuleiro político local.

Podem consolidar a ascensão na cena nacional do Partido Verde, o porta-estandarte de uma onda ecologista nascente, que se espraia para outros países da Europa, como Holanda, Bélgica e Luxemburgo.

Pesquisas mostram que, em Hesse, os verdes disputam a vice-liderança com o SPD (social-democracia), com chances reais de desbancar esses que são os principais fiadores da CDU (democratas cristãos) de Angela Merkel na coalizão governamental. Ambos estão na casa dos 21% de intenções de voto.

A título de comparação, os sociais-democratas tiveram 31% dos votos em 2013, contra 11% dos ecologistas –a CDU, ainda que na liderança, deve sofrer tombo semelhante ao da sigla aliada.

Se confirmado o desempenho, os verdes alemães terão dado sua segunda demonstração de força em duas semanas.  No dia 14 de outubro, na Baviera, angariaram votos suficientes para pular de 17 para 38 cadeiras no Parlamento local e se tornar a segunda força ali, atrás apenas da CSU, “irmã” bávara da legenda comandada por Merkel.

No plano nacional, sondagens também já colocam os Grünen como o segundo partido preferido, desbancando a SPD. O índice de identificação com a agremiação é o maior em sete anos, desde o acidente nuclear em Fukushima (Japão), que obviamente pôs em relevo a plataforma ecologista.

Para além das fronteiras alemãs, há mais notícias positivas para esse campo. Na Bélgica, também em 14 de outubro, o Ecolo levou alguns distritos de Bruxelas, com porcentagens acima dos 30%, inéditas em sua história.

Em Luxemburgo, no mesmo dia, a bancada do Déi Gréng cresceu 50% (passou de 6 para 9 integrantes), maior variação positiva no xadrez legislativo do micropaís. Já na Holanda, o “boom” se deu ainda em 2017, quando os GroenLinks passaram de 4 para 14 assentos na Câmara.

Apesar do ganho de musculatura dos verdes em diferentes latitudes, é preciso ponderar que não se trata de fenômeno comparável em escala ao da ascensão da direita nacionalista e xenófoba na Europa.

O discurso ecologista conquista simpatizantes sobretudo na porção norte do continente, onde a economia vai relativamente bem e, por isso, questões como desemprego e orçamento público mobilizam menos os corações e mentes.

“O eleitorado padrão dos verdes é majoritariamente feminino e composto por pessoas com elevado nível de instrução, salários altos e que moram em perímetros urbanos”, diz o cientista político alemão Gero Neugebauer, pesquisador-sênior da Universidade Livre de Berlim.

Segundo ele, os partidos que integram esse movimento estão se beneficiando de uma gradual mudança de mentalidade sobre a dimensão do problema representado pela mudança climática e do fim do voto monolítico por categoria (tradicionalmente, trabalhadores sindicalizados votavam na social-democracia, cristãos na CDU, e assim por diante). 

Mas, sobretudo, aproveitam-se da atual vulnerabilidade dos adversários no setor da centro-esquerda –a começar pelos sociais-democratas (não só os alemães)–, do desencantamento com o establishment partidário.

“Eles se vendem como o estado da arte da política, como detentores de soluções modernas para questões como a integração europeia ou a imigração. Porém, são vagos”, afirma Neugebauer.

“Se variáveis como a guerra comercial deflagrada por Donald Trump ou a tensão com a Rússia começarem a ameaçar a economia europeia, eles podem encontrar dificuldades em responder. São, em suma, partidos para clima bom.”

O francês Daniel Boy, diretor de pesquisa na Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris), é outro a temperar a euforia verde. Na avaliação dele, o teste real para os ecologistas virá em maio de 2019, quando acontecem as eleições para o Parlamento Europeu.

A conscientização sobre a premência da pauta ambiental se disseminou ao longo das últimas décadas por causa de diretrizes continentais, muito mais do que por ações isoladas de governos nacionais, ele lembra. Diante disso, o pleito europeu deveria ser a “hora do show” do bloco verde.

Não foi o que aconteceu, entretanto, em 2014, quando essa aliança amargou o sexto lugar na votação geral (com menos de 7% dos sufrágios) e perdeu cinco cadeiras em relação a cinco anos antes.

“Os verdes padecem de um problema fundamental: a expectativa do eleitorado de que defendam a ecologia e nada mais”, afirma Boy. “Nesse campo, o público confia neles, mas não necessariamente no da política econômica ou no da gestão da educação.”

Segundo o pesquisador, esse ceticismo contrasta com o fato de as agremiações verdes com frequência adotarem discursos hiperabrangentes –na linha “temos uma solução geral, já que, de uma forma ou de outra, tudo passa pela ecologia”. “Acontece que essa mensagem não chega a lugar nenhum, não tem credibilidade”, avalia ele.

17,5%
Foi a votação dos ecologistas alemães na eleição regional da Baviera; o desempenho fez deles a segunda força política do estado

14
Número de assentos obtidos pelos verdes holandeses no pleito nacional de 2017, dez a mais do que cinco anos antes

30%
Foi a marca histórica alcançada pelos ecologistas belgas em alguns distritos da região de Bruxelas


Valor Econômico – Razões para não sair do Acordo de Paris / Artigo / Carlos Nobre

MEIO AMBIENTE E ENERGIA


29/10

Jim Cole / Associated Press

Na histórica Conferência do Clima em Paris, em dezembro de 2015, o Brasil apresentou metas que surpreenderam o mundo pela audácia e por representar solidariedade global em face dos riscos das mudanças climáticas saírem de controle: redução de 43% de suas emissões totais de gases poluentes que aquecem o planeta até 2030, em relação aos valores de 2005, a mais ambiciosa meta de redução entre os grandes países em desenvolvimento, até mais ambiciosa que a meta colocada pela super-potência americana.

Recentemente, no calor do debate eleitoral, um dos candidatos à Presidência sinalizou desejo de que o Brasil, a exemplo do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixasse o Acordo de Paris.

Nos EUA, durante o primeiro ano de Trump na Presidência, em 2017, as emissões de gás carbônico continuaram caindo no mesmo ritmo dos últimos 10 anos.

Conservação dos ecossistemas e agricultura sustentável e produtiva são duas faces da mesma moeda

A maior parte das emissões nos EUA provém da queima de combustíveis fósseis para geração de energia. As energias renováveis tornam-se cada vez mais competitivas e seu uso cresce de forma exponencial, sendo um dos setores mais dinâmicos na geração de empregos da economia americana. É bastante improvável que voltem a subir durante o mandato de Trump. Até mesmo muitos de seus eleitores migram para energias renováveis. A transição para energias limpas está se tornando irreversível.

E o Brasil? Há muitas razões para o Brasil não deixar o Acordo de Paris.

Diferentemente da maioria dos países, cerca de 65% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa advêm de mudanças de usos da terra e da agricultura e não da queima de combustíveis fósseis, responsáveis por menos de 30% das emissões. Perseguir uma vigorosa agricultura de baixo carbono traz inúmeros benefícios que vão além da redução de emissões. O conjunto de técnicas desenvolvidas para essa moderna agricultura torna os sistemas agropecuários mais produtivos, lucrativos e resilientes aos extremos climáticos que já ocorrem.

Como reiterado pela ciência com clareza cristalina no relatório especial do IPCC do 1,5° C, publicado no começo de outubro, manter o aumento da temperatura global dentro desses limites para minimizar seus múltiplos impactos negativos para a humanidade e para o planeta irá requerer a manutenção de florestas existentes e a restauração florestal como maneiras de retirar gás carbônico da atmosfera. É a solução natural mais efetiva para mitigar as mudanças climáticas. O Brasil tem um dos maiores potenciais do mundo para exercer tal papel, pois pode restaurar ecossistemas em todos os seus biomas sem comprometer a produção agrícola.

Além de não disputar espaço com a produção, a manutenção e restauração florestal contribuirão decisivamente para conservar água, reduzir a erosão e perda de solos férteis, mitigar os extremos climáticos e aumentar o número e diversidade de polinizadores. Todos claros benefícios para a própria agricultura do país. Conservação dos ecossistemas e agricultura sustentável e produtiva são duas faces da mesma moeda para o ambiente e a economia do Brasil.

Perseguir tenazmente metas de intensificação sustentável da agropecuária - em vez de expansão desmesurada das fronteiras de commodities - pode realisticamente levar o Brasil a zerar o desmatamento em todos os seus biomas e tornar-se o mais importante sumidouro de carbono da atmosfera até o final do século. Retomar a redução dos desmatamentos torna-se urgentíssimo em função das tendências recentes de aumento, especialmente neste ano eleitoral.

Também no setor de energia o Brasil tem muito a ganhar com o Acordo de Paris. As energias renováveis limpas como solar e eólica se mostram cada mais viáveis no país. É tecnológica e economicamente factível implementá-las em grande escala, aliada à eletrificação dos veículos e pensar um país livre dos combustíveis fósseis até meados deste século. Além dos benefícios climáticos, tal política energética geraria mais empregos e reduziria em muito os problemas de poluição das cidades brasileiras. O saldo é positivo: o aumento de 1 a 3 anos na expectativa de vida dos habitantes das grandes cidades e a sensível melhoria da saúde.

Desde a Rio 92, o Brasil adquiriu protagonismo e respeito internacional nas negociações diplomáticas das convenções climática e da biodiversidade. Com os ambiciosos compromissos assumidos no Acordo de Paris, o país tornou-se um dos protagonistas do esforço mundial de enfrentamento das mudanças climáticas. Isso traz responsabilidades intransferíveis, mas igualmente traz enorme prestígio e liderança.

Por que seguir uma intempestiva e irresponsável decisão de Trump, um político confuso, acusado de mentir patologicamente e considerado por importantes associações de psiquiatria americana de ser incapaz de estar a altura de tão importante cargo? O Brasil merece algo melhor, inclusive respeitando a vontade popular. Pesquisas de opinião repetidamente colocam o brasileiro como um dos mais preocupados do mundo com as mudanças climáticas. Mais de 90% dos brasileiros são contra o desmatamento da Amazônia.

Continuar a ser um dos protagonistas no combate às mudanças climáticas e cumprir os compromissos assumidos perante o Acordo de Paris coloca o país solida e irreversivelmente na trajetória de sustentabilidade. Os benefícios de médio e longo prazos são incontornáveis: maior segurança alimentar, energética e hídrica, desenvolvimento econômico seguro, agricultura sustentável, proteção das florestas e da biodiversidade, respeito pelas comunidades tradicionais. É impensável até mesmo por um segundo abandonar esta rota que, por mais desafiadora que seja, não há caminhos alternativos para a felicidade, bem-estar dos brasileiros e para a saúde planetária.

Carlos Nobre é cientista e integrou o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que ganhou o prêmio Nobel em 2007 pelas pesquisas sobre as alterações do clima no planeta

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

A água no Brasil e o mito da abundância


A água no Brasil e o mito da abundância


Garantir o acesso à água de qualidade a todos os brasileiros é um dos principais desafios para os próximos gestores do país.

ABr
Culturalmente tratado como um bem infinito, a água é um dos recursos naturais que mais tem dado sinais de que não subsistirá por muito tempo às intervenções humanas no meio ambiente e às mudanças do clima.
Em várias regiões do país, já são sentidos diferentes impactos, como escassez, desaparecimento de nascentes e rios, aumento da poluição da água. Os especialistas alertam que os problemas podem se agravar se não forem tomadas medidas urgentes e se a sociedade não mudar sua percepção e comportamento em relação aos recursos naturais.
O Brasil tem 12 regiões hidrográficas que passam por diferentes desafios para manter sua disponibilidade e qualidade hídrica. Mapeamento do Ministério do Meio Ambiente mostra que, nas bacias que abrangem a Região Norte, o impacto vem principalmente da expansão da geração de energia hidrelétrica. Na Região Centro-Oeste, é a expansão da fronteira agrícola que mais desafia a conservação dos recursos hídricos. As regiões Sul e Nordeste enfrentam déficit hídrico e a Região Sudeste apresenta também o problema da poluição hídrica.
Em nível global, o desafio é conter o aumento da temperatura do clima, fator que gera ondas de calor e extremos de seca que afetam a disponibilidade de água. O relatório especial do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas, das Nações Unidas, divulgado recentemente, mostra que, se a temperatura global subir acima de 1,5°C, em todo o mundo mais de 350 milhões de pessoas ficarão expostas até 2050 a períodos severos de seca.

Brasil: o mito da abundância

“As gerações mais antigas foram criadas com o mito do país riquíssimo em água, que água seria um problema crônico, histórico, só no Nordeste, no semiárido. Obviamente, desde 2013, na primeira crise que a gente teve, o apagão, que na verdade foi um “secão”, porque não foi resultado só de uma questão elétrica, ficou claro que o Sudeste e o Centro-Oeste têm problemas concretos, intensificados nos últimos dois anos, de disponibilidade de água”, destacou Ricardo Novaes, especialista em Recursos Hídricos do WWF-Brasil.
O pesquisador explica que a crise resulta também da falta de adequada gestão do uso da água, sobretudo em períodos de estiagem –  tendência que deve se manter tendo em vista o baixo índice de precipitação registrado no início desta primavera.
“Temos indicativos de que há um risco de, no próximo verão, ou talvez no outro ano, termos novamente um quadro muito complicado em São Paulo, talvez em todo o Sudeste. Os reservatórios estão com níveis abaixo do que estavam há dois anos,  antes da crise de 2014 e 15”, afirmou.
Depois da grave crise hídrica de 2015 que afetou a população de São Paulo, os moradores do Distrito Federal (DF) também passaram pelo primeiro racionamento nos últimos 30 anos devido à falta de água nas principais bacias que abastecem a região. Por mais de um ano, os moradores da capital do país tiveram que se adaptar a um rodízio de dias sem água devido ao esgotamento dos reservatórios das principais bacias que abastecem a cidade.
Na área rural, o governo do DF decretou estado de emergência agrícola. Na época, foi estimado um prejuízo de R$ 116 milhões com a redução de 70% na produção de milho, segundo estudo da Secretaria do Meio Ambiente do DF.

Berço de águas escassas

Os especialistas apontam que uma das principais causas para a crise hídrica é o uso inadequado do solo. No Centro-Oeste, por exemplo, estão concentradas as nascentes de rios importantes do país, devido a sua localização no Planalto Central. Conhecida como berço das águas, a região tem vegetação de Cerrado, bioma que ocupa mais de 20% do território e atualmente é um dos principais pontos de expansão da agropecuária, atividade que usa cerca de 70% da água consumida no país.
Como consequência do avanço da fronteira agrícola, o Cerrado já tem praticamente metade de sua área totalmente devastada. Os efeitos da ausência da vegetação nativa para proteger o solo já são percebidos principalmente na diminuição da vazão dos rios e na escassez de água para abastecimento urbano.
Brasília - Barragem de Santa Maria apresenta nível baixo de água (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Os especialistas apontam que uma das principais causas para a crise hídrica é o uso inadequado do solo – Arquivo/Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Segundo a coordenadora do programa Cerrado e Caatinga do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Isabel Figueiredo, que integra a Rede Cerrado, o desmatamento acelerado está impactando tanto a frequência de chuvas, que vem diminuindo nos últimos cinco anos na região, quanto na capacidade do solo de absorver e armazenar a água no subsolo e devolvê-la para os rios.
“A mudança do uso da terra tem alterado demais o ciclo da água e faz com que a gente tenha menos água nos rios, os rios muito assoreados e menor disponibilidade de chuva. Então, o ciclo da água está num pequeno colapso”, afirmou Isabel.
Projeções do Painel Brasileiro de Mudança Climática (PBMC) apontam que nas próximas três décadas o bioma do Cerrado poderá ter aumento de 1°C na temperatura superficial com diminuição percentual entre 10% a 20% da chuva.
“A contribuição do Cerrado para as bacias hidrográficas importantes do Brasil, como São Francisco, Tocantins, por exemplo, vai diminuir muito, se esse processo de desmatamento continuar nesse nível”, completou.
A especialista lembra ainda que o desmatamento do Cerrado não afeta somente as comunidades locais, que já relatam dificuldades para plantar, mas também outras regiões. “Os biomas e ecossistemas brasileiros estão todos interligados. O desmatamento do Cerrado afeta a chuva que cai em São Paulo, o desmatamento na Amazônia afeta a chuva que cai aqui no Cerrado”, explica.

Outros desafios

O desafio de garantir o funcionamento do ciclo hidrológico natural também tem impacto na manutenção dos aquíferos subterrâneos. Os pesquisadores lamentam que o assunto não tenha destaque no debate público e na agenda eleitoral e alertam que, para evitar a próxima crise, é necessário criar um modelo de gestão das águas subterrâneas.
Outro problema que leva à escassez de água é a estrutura precária de saneamento. Considerando as metas estabelecidas pelos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Nações Unidas, do qual o Brasil é signatário, uma das principais preocupações com relação à água é garantir a universalização do saneamento.
Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), mais de 35 milhões de pessoas ainda não têm acesso à água tratada no Brasil e o sistema de abastecimento de água potável gera 37% de perdas, em média. A falta de tratamento do esgoto compromete mais de 110 mil quilômetros dos rios brasileiros que recebem os dejetos.
A agência estima que, para regularizar a situação, seriam necessários pelo menos R$ 150 bilhões de investimentos em coleta e tratamento de esgotos até 2035.
“Um objetivo absolutamente fundamental, mas que vai exigir um nível de investimento, comprometimento de agentes públicos e desenvolvimento de tecnologias – e não estamos vendo energia sendo colocada pra atingir isso. E não adianta você investir em saneamento e ter de buscar água cada vez mais longe, por causa do desmatamento”, criticou Novaes.

Um problema de percepção

Doutor em ecologia e autor de vários livros sobre educação ambiental, Genebaldo Freire destaca que todos estes problemas só serão resolvidos quando os governos e sociedade mudarem sua percepção sobre a importância dos recursos naturais para a sobrevivência humana.
“Nós estamos vivendo uma falha de percepção e temos algumas evidências objetivas que comprovam isso: nós dependemos de água pra tudo e qual é o nosso comportamento? Desperdício, consumismo, poluição e desmatamento, e isso tudo numa pressa danada, com uma população que cresce em 75 milhões de pessoas a cada ano no mundo”, constata.
Segundo o professor, não há lugar seguro no planeta e, além da falta de percepção, há uma absoluta falta de governança na gestão da água. O escritor também critica a indiferença e incapacidade da classe política em lidar com o tema da educação ambiental.
“A história dos problemas ambientais passa por essa falha de percepção por várias razões: conveniência, ignorância ou apatia. Todo o processo de educação ambiental hoje tem de estar obrigatoriamente centrado na ampliação da percepção, senão não vai mudar coisa alguma”, avalia Freire.
O professor ressalta que vários colapsos já estão ocorrendo devido à grande pressão da população mundial de sete bilhões de pessoas sobre os sistemas naturais, que estão assumindo “configurações diferentes das que nós estamos acostumados para neutralizar nossas ações”.
Para evitar o agravamento da situação, é necessária uma evolução do ponto de visto ético e moral e não somente científico e tecnológico. “A mudança do clima é a maior falha de mercado da espécie humana, porque é algo em que a inteligência estratégica de sobrevivência do ser humano não funcionou e continua errando de forma insistente. E qual a consequência disso? E você ter o crescimento de conflitos que já estão estabelecidos, como disputa por água, energia e espaço, aumento de refugiados”, comenta.
Por Débora Brito – Repórter da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/10/2018
"A água no Brasil e o mito da abundância," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/10/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/10/26/a-agua-no-brasil-e-o-mito-da-abundancia/.

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Mamíferos não evoluem rápido o bastante para escapar da atual crise de extinção

Mamíferos não evoluem rápido o bastante para escapar da atual crise de extinção


Os humanos estão exterminando espécies animais tão rapidamente que a evolução não consegue acompanhar o ritmo.

Um novo estudo mostra que, a menos que os esforços de preservação sejam reforçados, um número tão grande de espécies de mamíferos se extinguirá durante os próximos 50 anos que a natureza precisará de 3 a 5 milhões de anos para se recuperar
Universidade de Aarhus*
Uma ilustração de como os mamíferos menores terão de evoluir e se diversificar nos próximos 3 a 5 milhões de anos para compensar a perda dos grandes mamíferos
Uma ilustração de como os mamíferos menores terão de evoluir e se diversificar nos próximos 3 a 5 milhões de anos para compensar a perda dos grandes mamíferos. CRÉDITO: Matt Davis, Universidade de Aarhus
Nós humanos estamos exterminando espécies animais e vegetais tão rapidamente que o mecanismo de defesa inerente da natureza, a evolução, não consegue acompanhar o ritmo. Uma equipe de pesquisa liderada pela Universidade de Aarhus calculou que, se os atuais esforços de preservação não forem reforçados, tantas espécies de mamíferos entrarão em extinção nas próximas cinco décadas que a natureza precisará de 3 a 5 milhões de anos para se recuperar.
Ocorreram cinco cataclismos nos últimos 450 milhões de anos, quando o meio-ambiente de nosso planeta mudou tão drasticamente que a maioria das espécies animais e vegetais da Terra entraram em extinção. Após cada extinção em massa, a evolução lentamente preencheu as lacunas com novas espécies.
A sexta extinção em massa está acontecendo agora, mas dessa vez não devido aos desastres naturais. Tais extinções são obra humana. Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Aarhus e da Universidade de Gotemburgo calculou que as extinções estão ocorrendo rápido demais para a evolução acompanhar o passo.
Se os mamíferos se diversificarem em seu ritmo normal, ainda assim eles levarão de 5 a 7 milhões de anos para restaurar a biodiversidade existente antes da evolução do humano moderno, e de 3 a 5 milhões de anos apenas para alcançar a biodiversidade atual, de acordo com a análise publicada recentemente na importante revista científica PNAS.
Algumas espécies são mais distintas que outras
Os pesquisadores utilizaram seu extenso banco de dados de mamíferos, que inclui não só espécies que ainda existem, mas também as centenas de espécies que viveram no passado recente e que entraram em extinção à medida que o Homo sapiens se espalhava pelo globo. Assim, os pesquisadores puderam estudar o impacto total de nossa espécie nos demais mamíferos.
No entanto, nem todas as espécies tem a mesma relevância. Alguns animais extintos, como o leão-marsupial australiano Thylacoleo, com características de leopardo, ou o estranho Macrauchenia sul-americano (imagine uma lhama com uma tromba de elefante) eram linhagens evolutivas distintas e tinham poucos parentes próximos. Quando esses animais entraram em extinção, levaram junto consigo inteiros galhos da árvore evolutiva da vida. Não perdemos apenas essas espécies, mas também as funções ecológicas únicas e os milhões de anos de história evolutiva que eles representavam.
“Mamíferos grandes, ou megafauna, como bichos-preguiça gigantes e tigres dente-de-sabre, que entraram em extinção há cerca de 10 mil anos atrás, eram muito evolutivamente distintos. Como tiveram poucos parentes próximos, suas extinções significaram que galhos inteiros da árvore evolutiva da Terra foram decepados”, diz o paleontologista Matt Davis da Universidade de Aarhus, que liderou o estudo. E ele acrescenta:
“Há centenas de espécies de musaranho, então eles podem resistir à algumas extinções. Havia apenas quatro espécies de tigre dente-de-sabre e todas entraram em extinção.”
Longa espera por rinocerontes sobressalentes
Como se já não fosse difícil o bastante regenerar 2,5 bilhões de história evolutiva, os mamíferos atuais também estão enfrentando crescentes taxas de extinção. Espécies em grande risco de extinção, como o rinoceronte-negro, enfrentam grande possibilidade de deixarem de existir dentro dos próximos 50 anos. O elefante-asiático, uma de apenas duas espécies sobreviventes de uma anterior poderosa ordem dos mamíferos que incluía mamutes e mastodontes, tem menos de 33% de chance de sobreviver além deste século.
Os pesquisadores incorporaram essas previstas extinções em seus cálculos de história evolutiva perdida e se perguntaram: Podem os mamíferos existentes regenerar naturalmente essa biodiversidade perdida?
Usando computadores potentes, simulações evolutivas avançadas e dados abrangentes sobre as relações evolutivas e o tamanho dos corpos de mamíferos existentes e extintos, os pesquisadores conseguiram mensurar quanto tempo evolutivo seria perdido por extinções passadas e potencialmente futuras e quanto tempo a recuperação levaria.
Os pesquisadores elaboraram o cenário mais otimista do futuro, onde os humanos pararam de destruir habitats e erradicar espécies, reduzindo os índices de extinção para o baixo nível histórico visto em fósseis. Porém, mesmo neste cenário demasiadamente otimista, levará de 3 a 5 milhões de anos para os mamíferos apenas se diversificarem o suficiente para regenerar os galhos da árvore evolutiva que presumivelmente perderão nos próximos 50 anos. Levará mais de 5 milhões de anos para regenerar o que foi perdido com as espécies gigantes da Era do Gelo.
Priorizando o trabalho de preservação
“Embora nós já tenhamos vivido em um mundo de gigantes, como castores gigantes, tatus gigantes e veados gigantes, agora vivemos em um mundo que está se tornando cada vez mais escasso de grande espécies de mamíferos silvestres. Os poucos gigantes remanescentes, como os rinocerontes e os elefantes, correm o risco de serem exterminados muito rapidamente,” diz o professor Jens-Christian Svenning da Universidade de Aarhus, que lidera um extenso programa de pesquisa sobre megafauna, que inclui esse estudo.
Contudo, a equipe de pesquisa não traz apenas más notícias. Seus dados e métodos podem ser usados para rapidamente identificar espécies evolutivamente distintas e ameaçadas, a fim de podermos priorizar os esforços de preservação e focar na prevenção de extinções mais sérias.
Como Matt Davis diz: “É muito mais fácil salvar a biodiversidade agora do que a re-evoluir mais tarde.”
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Referência:
Mammal diversity will take millions of years to recover from the current biodiversity crisis
Matt Davis, Søren Faurby, Jens-Christian Svenning
Proceedings of the National Academy of Sciences Oct 2018, 201804906; DOI: 10.1073/pnas.1804906115

* Tradução de Ivy do Carmo, Magma Translation (magmatranslation.com)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/10/2018
"Mamíferos não evoluem rápido o bastante para escapar da atual crise de extinção," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/10/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/10/26/mamiferos-nao-evoluem-rapido-o-bastante-para-escapar-da-atual-crise-de-extincao/.

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