quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

NTB (Noruega) – Suspende cooperação no Brasil

NTB (Noruega) – Suspende cooperação no Brasil


NTB, 18 de janeiro, 2019.
(Tradução da Embaixada em Oslo)

O governo do Brasil suspende cooperação com organizações ambientais, e pede informações sobre os pagamentos do Fundo Amazônia, que canaliza meios noruegueses.

Foi o novo Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que esta semana declarou que a cooperação com organizações não–governamentais (ONGs) será suspensa.

Segundo o jornal The Guardian todas as parcerias e todos os acordos com essas organizações permanecem suspensos durante 90 dias.

No entanto, numa entrevista quarta–feira, Salles mencionou que se dará continuação a acordos que já vêm sendo implementados. Mas, no mencionado período, não serão feitos novos acordos com as organizações.

Bilhões noruegueses

Ao mesmo tempo o ministério pede panorama dos pagamentos efetuados por entidades e instituições públicas que apoiam fins ambientais. Isso abrange o Fundo da Amazônia, que canaliza os bilhões florestais noruegueses que deverão contribuir para o combate pela preservação da floresta tropical do Brasil.

Foi confirmado às autoridades norueguesas que isto não influirá nos pagamentos do Fundo da Amazônia para organizações no Brasil, informa Atle Hamar, secretário de estado no ministério norueguês de clima e meio ambiente.

Salles terá informado que a suspensão da cooperação com ONGs tem por finalidade reavaliar todas as parcerias do governo com organizações voluntárias não–governamentais. As organizações ambientais brasileiras chamam a decisão uma guerra contra o ambiente e contra os que trabalham para o proteger.

Pessoas inúteis

Salles terá sido designado pelo presidente radical da direita, Jair Bolsonaro, e escolhido a dedo pelos interesses agrícolas poderosos do país.

Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro declarou que se ele viesse a ser presidente, interromperia os pagamentos públicos a ONGs.

“Essas pessoas inúteis terão que trabalhar”, terá declarado o então candidato presidencial.

Ele também advertiu que conferiria prioridade à agricultura em áreas florestais e que avaliaria retirar o Brasil do Acordo de Paris.

O Fundo Amazônia é subordinada ao banco BNDES, tendo sido estabelecido para receber o dinheiro florestal do estrangeiro e reparti–lo em projetos para evitar o desmatamento.

Até ao momento, a Noruega pagou 8,3 bilhões de coroas para o Fundo Amazônia, ao longo de período de dez anos em que o desmatamento no Brasil tem caído significativamente. Nos últimos anos, todavia, o desmatamento tem aumentado.

Valor Econômico – Clima: governo tem poucas ideias. E confusas


Por Daniela Chiaretti

Há 30 anos um amigo jornalista ouviu de seu primeiro editor, ao entregar o primeiro texto de sua vida profissional, a seguinte avaliação: "Suas ideias são poucas, porém confusas". A frase cômica se aplica tristemente ao reordenamento feito pelo governo do presidente Jair Bolsonaro no tópico "mudança do clima" nos ministérios pertinentes. Se há algum clima (com o perdão do trocadilho) nas pastas que eram protagonistas do assunto, a de Meio Ambiente (MMA) e a das Relações Exteriores, é o de "barata–voa". São só 22 dias de governo, é verdade, mas por enquanto reina o caos.

Caso esses ministérios tenham agora alguma atribuição verdadeira em termos de mudança climática, o tópico foi bem escondido no organograma que reestruturou o governo. O que era uma forte prioridade nas duas pastas foi enxugado, disperso e relegado a um plano indefinido. A Secretaria de Mudança do Clima e Florestas era a maior do MMA, com 140 pessoas. Produziu planos nacionais de adaptação aos impactos climáticos e levava adiante políticas de combate ao desmatamento da Amazônia e do Cerrado. Agora, ninguém sabe, ninguém viu. No Itamaraty, que tinha um formidável time de negociadores climáticos e uma subsecretaria para lidar com o tema, o assunto foi pendurado em algum lugar da recém–criada Secretaria de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania. Imagina–se que esteja em "proteção da atmosfera".

Esse redesenho traduz desinformação, ideologia e uma inevitável dose de risco à economia e à segurança do país. As declarações de "saio–e–fico" do presidente Jair Bolsonaro sobre a permanência ou não do país no Acordo de Paris, iniciadas durante a campanha e repetidas por integrantes do governo, ilustram esses equívocos.

Nenhum país pode sair do Acordo de Paris antes de 2020

Na terça–feira, a última agenda do chanceler Ernesto Araújo foi com seus pares Teresa Cristina Corrêa da Costa Dias, da Agricultura, e Ricardo de Aquino Salles, do Meio Ambiente. A agenda é pública, mas o conteúdo, não. A versão que corre é que Araújo teve que ser convencido pelos outros dois a não retirar o Brasil do Acordo de Paris. A soturna desconfiança do chanceler sobre o maior acordo climático internacional parece ter sido vencida por argumentos econômicos e ambientais dos outros dois. Basta passar os olhos pelo acordo e ver o quanto essa discussão é bizarra.

Nenhum dos 195 países signatários do Acordo de Paris pode sair dele, se assim desejar, antes de novembro de 2020. Nenhum é nenhum mesmo. Os Estados Unidos – surpresa! – continuam lá. Os negociadores americanos seguem indo a todas as conferências do clima, as famosas CoPs, sentam em seus devidos lugares e trabalham. Defendem os interesses americanos, brecam o que entendem ser recuos chineses em transparência, cuidam para que as posições dos EUA estejam lá. Não são tontos de abandonar o barco e deixar os outros decidirem à revelia. Vai que um dia os EUA tenham outro governo e voltem. Renegociar o texto é muito mais difícil, até para a nação mais poderosa do mundo.

Não se sai do Acordo de Paris com bravatas. Em 1º de junho de 2017, nos jardins da Casa Branca, o presidente Donald Trump fez seu show ao anunciar que os EUA "sairiam" do acordo. O futuro do pretérito se explica pelo artigo 28 do acordo.

Funciona assim: o acordo começou a vigorar em 4 de novembro de 2016. A comunicação oficial de um país signatário que se arrependeu só pode ser feita três anos depois de o tratado ter entrado em vigor – em 4 de novembro de 2019. Só então o país rebelde pode informar a Seção de Tratados da ONU em Nova York. Se Trump cumprir o que prometeu, os EUA poderão sair do acordo em 4 de novembro de 2020.

Há uma coincidência irônica nessas datas: trata–se do dia seguinte às eleições americanas, que devem acontecer em 3 de novembro de 2020. Seja qual for o resultado da eleição, Trump ainda será presidente, pode assinar a saída e, aí sim, os EUA terão deixado o Acordo de Paris. Mas, se o tratado tem regras para quem quer sair, não estabelece normas para quem quer voltar. O novo presidente pode decidir assim e tudo se resolver rápido. O que vale para os EUA vale para todos. O dano disso tudo está na mensagem ruim que o país dá aos outros, aos investidores em energia limpa, ao fluxo de capital da nova economia.

Outro ponto que revela desconhecimento sobre como funcionam as negociações internacionais é a conversa de Trump (copiada pelo presidente Bolsonaro e pelo ministro Salles) de que o país pode até ficar no Acordo de Paris, mas quer renegociar o texto. Não que a ideia seja impossível de concretizar, mas é improvável. As mudanças precisariam ser combinadas com os russos, com os chineses, com os indianos, com os outros 190 países que ratificaram o tratado climático. Trump quis reabrir o texto, ninguém deu a mínima abertura. Para o Brasil, este debate não faz o menor sentido econômico, ambiental e jurídico.

O que está por trás do capricho de tirar os termos que remetem a clima e ao combate ao desmatamento da estrutura dos ministérios? Supõe–se que, pela falta do nome, a sociedade não vai mais cobrar políticas para a Amazônia? Quando a seca continuar castigando colheitas e cidades, de quem se cobrará as políticas de adaptação? Quando chuvas cada vez mais fortes castigarem o país, a quem se recorrerá? Qual o entendimento do governo Bolsonaro para o maior desafio desta e das futuras gerações de humanos? Será tudo entendido como um castigo divino porque brasileiros não vestem azul e brasileiras não vestem rosa?(comentario superfluo.Não tem nada a ver.Maldade pura da autora do texto..sic...) Ou uma grande conspiração marxista para impedir nossa venda de grãos?

É um alívio notar que em outras pastas as atribuições continuam similares. O Ministério da Ciência e Tecnologia deve continuar com os inventários nacionais de emissões de gases–estufa. No da Economia juntou–se o que fazia a Fazenda e o Planejamento – estudos de precificação e mercados de carbono e o acompanhamento do financiamento climático de fontes externas – e a vida segue.

O Ministério da Agricultura é uma exceção: ali o tema ganhou status. Pode ser um bom sinal de se querer impulsionar a agricultura de baixo carbono e a pecuária sustentável. O ruim são as outras mensagens da pasta que se apropriou da demarcação de terras indígenas, territórios quilombolas e reforma agrária e do Sistema Florestal Brasileiro, com o cadastro que indica os passivos ambientais dos produtores rurais.

Daniela Chiaretti é repórter especial

Valor Econômico – Energia solar investe R$ 5,2 bi e projeta crescer 44% em 2019


Por Rodrigo Polito | Do Rio

Claudio Belli/ValorMárcio Takata: "Gestores de ativos imobiliários estão percebendo que a energia pode potencializar receitas"

O setor de geração de energia solar deverá investir R$ 5,2 bilhões neste ano, no mesmo patamar em relação a 2018, de acordo com estimativas da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar). Desse total, R$ 3 bilhões estão previstos para geração distribuída, nome dado à produção de energia próxima dos pontos de consumo, e o restante para parques solares de grande porte.

A entidade prevê que a capacidade instalada de geração de energia solar no Brasil cresça 44% em 2019, para 3.306,4 megawatts (MW) instalados. Desse montante, 2.716 MW são relativos a usinas solares de grande porte, e 1.130,4 MW, de projetos de geração distribuída espalhados pelo país.

Em 2018, o setor de energia solar praticamente dobrou de tamanho, ante o ano anterior. De acordo com a Absolar, o segmento fechou o ano passado com 2.295 MW instalados, sendo 1.793,1 de usinas solares e 501,9 MW de sistemas de geração distribuída.

Dentro da cadeia da indústria de energia solar, os números são ainda mais expressivos. Levantamento feito pela Greener, empresa de pesquisa e consultoria especializada no setor, que será lançado nesta semana indica que, em 2018, o mercado brasileiro de módulos fotovoltaicos, principal equipamento da indústria, movimentou cerca de 2.200 MW em peças, entre importações e produção nacional.

Pelos cálculos da Greener, o setor movimentou R$ 7,4 bilhões no ano passado, sendo R$ 4 bilhões no segmento de geração distribuída e R$ 3,4 bilhões na área de parques solares de grande porte.

Segundo o diretor da Greener, Márcio Takata, o número de empresas integradoras (que projetam, vendem e instalam módulos fotovoltaicos) no país cresceu de 2,7 mil, em janeiro de 2018, para mais de 6 mil, no início deste ano, um aumento de mais de 120%. "Isso dá uma ideia da evolução do setor", afirmou Takata.

Outro canal, o Portal Solar, ambiente eletrônico que faz a intermediação entre consumidores interessados, fornecedores e instaladores de sistemas fotovoltaicos, movimentou R$ 100 milhões em equipamentos de geração distribuída no ano passado. Para 2019, o portal prevê um volume de negócios fechados por intermédio do site de R$ 500 milhões.

Outro dado interessante do portal é relativo ao perfil dos interessados em adquirir equipamentos de geração fotovoltaica em telhados. Do total de 1,2 milhão de consultas feitas no portal no ano passado, a maioria delas foi de consumidores da classe C – famílias com renda mensal de R$ 2.370 a R$ 5.715. Para Rodolfo Meyer, diretor–executivo do Portal Solar, um dos motivos para a procura foi a escalada nas tarifas de energia nos últimos anos.

Com relação ao custo, Meyer indica que o preço do "kit solar" – conjunto de equipamentos necessários para um projeto de geração distribuída – caiu cerca de 75% na última década.

A queda dos preços também é observada por Takata, da Greener. Segundo ele, para ter uma ideia, um sistema residencial de 4 quilowatts (kW) de capacidade custava cerca de R$ 33 mil, em 2016. No ano passado, esse valor já havia recuado um terço, para R$ 22 mil.

O executivo enxerga continuidade na queda de preços dos equipamentos nos próximos anos, porém em ritmo menor. "O módulo fotovoltaico vai ter, sem dúvida, uma redução de preços nos próximos anos, mas não será na mesma velocidade que vinha tendo nos últimos dez anos."

Além da queda do preço e do ganho de escala, outro fator que tem contribuído para a disseminação dos sistemas de geração de energia solar distribuída é o modelo regulatório atual, que permite outras formas de aproveitamento e comercialização da energia produzida pelos equipamentos. Hoje, por exemplo, é possível produzir energia em uma fazenda solar e vender essa produção para consumidores situados na mesma área de concessão de distribuição interessados em consumir energia limpa e com custo inferior à tarifa das distribuidoras.

Nessa linha, a francesa Engie prevê concluir no primeiro semestre a construção de uma fazenda solar de 2,5 MW em Minas Gerais. "Isso facilita que você, não tendo um telhado para colocar seu painel, ainda assim possa ter uma economia", afirmou o presidente da Engie no Brasil, Maurício Bähr.

Takata cita também donos de galpões logísticos. "Até hoje, o galpão logístico ganha dinheiro arrendando o piso. E esse dono do galpão está percebendo que ele consegue ampliar a oportunidade de resultado de investimento para o ativo se investir em energia solar, gerando receitas por meio de locação [de energia] para o inquilino dele", disse. "Os grandes gestores de ativos imobiliários estão percebendo que a energia pode ser um elemento muito importante para potencializar receitas."

Valor Econômico – Dilemas da produção de soja / Artigo / Rafael Baptista Palazzi e Waldemar de Souza


Silvia Zamboni/Valor

Um dos maiores dilemas do desenvolvimento econômico é equacionar a expansão da produção agrícola para atender à crescente demanda mundial por alimentos sem prejudicar o meio ambiente. No caso, a demanda por alimentos na China, o desenvolvimento tecnológico de sementes, bem como os avanços na logística favoreceram o boom de commodities agrícolas no Brasil.

É justamente o setor agropecuário que sublinha aproximadamente 50% das exportações brasileiras. O país é o celeiro e também o pulmão do mundo. Portanto, a proteção do meio ambiente deve ser levada em consideração ao aumentar a expansão agrícola no campo. Entre as culturas de maior expansão no Brasil destaca–se a produção de soja, que hoje representa quase a metade das commodities exportadas.

Recentemente, tem havido um questionamento dos ambientalistas sobre o uso da terra para produção de soja no país e a especulação imobiliária no Cerrado. Por sua rica biodiversidade o Cerrado é fundamental para o ecossistema brasileiro. Porém é justamente na região que se concentra a maior produção de soja, dado o baixo custo da terra e as características propícias de plantio. Portanto, a preocupação é com as práticas de desmatamento excessivo e com a potencial especulação imobiliária resultante da demanda de terras para produção agrícola, que por sua vez, poderia gerar incentivo para o desmatamento do Cerrado.

Brasil avançou no alcance do equilíbrio entre a produção e a preservação ambiental em áreas frágeis

Entretanto, os últimos dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, organizações de monitoramento de práticas de agricultura, apontam notícias promissoras. Assim, nos últimos cinco anos houve uma desaceleração na expansão das terras agrícolas. Em particular, para a produção de soja, ao comparar o uso da terra em relação à produção, registrou–se incremento no rendimento médio de 3,4% nos últimos doze meses. Ou seja, o país produz mais grão com menor uso intensivo da terra.

Também, ao avaliar o desmatamento na região, ilustra–se uma desaceleração de 11% entre 2017 e 2018, o menor valor registrado na série histórica. Além disso, na última década, houve um aumento nas áreas de reflorestamento. Portanto, casos de desmatamento poderiam ser melhor explicados por fatores como extração clandestina de áreas de preservação ou aumento de áreas de pastagens. Especificamente, em Tocantins, 12% do desmatamento ocorreu em áreas de conservação, sublinhando o Estado com o maior índice de desmatamento no Cerrado.

Historicamente a produção de soja ocorre nas áreas do Cerrado do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Mais recentemente, houve uma expansão para regiões do Piauí, Tocantins e Bahia. Sem dúvida, o baixo preço das terras facilitou a expansão. Entretanto, o aumento da procura por novas áreas de plantio pode ter contribuído para a desaceleração do uso da terra no Cerrado. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que ocorre especulação imobiliária e aumento de preços, o custo de oportunidade de plantar a soja diminui e com isso limita o prolongamento das áreas de cultivo.

A maior explicação para o aumento da produtividade da soja é a evolução das técnicas agrícolas, desde a melhoria no tratamento do solo, desenvolvimento de sementes mais produtivas, mecanização da lavoura, acelerando a colheita com novas máquinas que detêm tecnologias para o preparo do solo, do que o aumento das áreas de plantio. A agricultura brasileira modernizou–se expressivamente ao longo dos anos e, apesar da crise financeira que o Brasil enfrenta, ainda é um setor em franca expansão, responsável por uma parcela estratégica do PIB.

Também, é importante notar que o país tem um grande potencial para melhorar a produtividade e exportação agrícolas, sem causar impactos ambientais. Por exemplo, melhorando a infraestrutura logística para o escoamento da soja. O custo logístico brasileiro é um dos mais caros do mundo. Escoar a produção nas novas áreas de plantio no Cerrado é custoso. Há limitação de vias de acesso aos portos fluviais e marítimos, perdas do produto durante o trajeto decorrente da distância e má qualidade das rodovias.

Não menos importante, grandes importadores de commodities agrícolas no Brasil, particularmente as grandes tradings, têm incentivo a não se associar a fornecedores irregulares ou que adotem práticas prejudiciais ao meio ambiente, dado os elevados custos legais e de imagem. No entanto, a cadeia produtiva da soja brasileira é complexa e com inúmeros fornecedores, o que exigirá melhor monitoramento dos riscos por parte das tradings representantes da maior parte das exportações de soja do país.

Em suma, a agricultura tem espaço para crescimento sustentável com papel fundamental para o desenvolvimento econômico do país. Sem dúvida, o avanço agrícola, em particular da produção da soja no Cerrado deve avaliar os desafios do meio ambiente. Porém, os dados ilustrados sugerem que o Brasil avançou no alcance do equilíbrio entre a produção da soja em novas áreas agrícolas e a preservação ambiental em áreas frágeis, particularmente no Cerrado.(SERÁ???Sic...)

Rafael Baptista Palazzi é pesquisador visitante no Department of Agricultural and Resource Economics, da University of California Berkeley e doutorando na PUC–Rio. (rafael_palazzi@phd.iag.puc–rio.br)

Waldemar Antonio da Rocha de Souza é professor livre–docente da Universidade Federal de Alagoas e pesquisador do Agricultural Economics and Agribusiness Department, da University of Arkansas–Fayetteville (wadaroch@uark.edu)

Valor Econômico – Davos e a sustentabilidade / Artigo / Marina Grossi

Valor Econômico – Davos e a sustentabilidade / Artigo / Marina Grossi


O ano de 2019 chegou com vários desafios, inúmeros questionamentos e uma certeza: chegaram ao fim os dias em que as empresas e governos poderiam pensar apenas em termos de seus resultados, sem avaliar causas e consequências socioambientais. Mais que isso, os próprios resultados agora dependem diretamente dessa variável. E a situação não é diferente para o poder público ou para a sociedade civil. A questão da sustentabilidade transcende o mundo acadêmico, invade sem cerimônia as principais salas de reunião de executivos, além de ser uma variável competitiva para os países conquistarem melhores posições na nova geopolítica global.

As empresas já perceberam valor nisso e investem. Estudo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) lançado no final de 2018, apontou que suas empresas associadas investiram US$ 85,8 bilhões nos últimos dois anos em medidas que contribuem para a redução de emissões de suas unidades de produção. A maior parte envolveu o uso de tecnologias de eficiência energética, otimização de processos e busca por fontes energéticas de baixo carbono. Juntos, esses projetos foram responsáveis pela redução de 212,1 milhões de tCO2 e no período, o que corresponde a um volume equivalente a 27% da meta total de redução assumida pelo Brasil no Acordo de Paris até 2025.

Sustentabilidade é hoje sinônimo de bons negócios no mundo empresarial e também no político. A boa notícia é que no caso do Brasil já saímos na frente em relação aos outros países. Não só temos ativos ambientais ímpares, como podemos utilizar a própria preservação das nossas florestas como variável de competitividade, tornando–as modelos para o mundo todo, com técnicas avançadas de manejo, já comuns por aqui e pouco conhecidas lá fora. Além disso, temos energias renováveis em abundância e cada vez com custo menor e mais competitivo, sem exigir subsídios e oferecendo oportunidades inúmeras de investimentos.

A sustentabilidade é importante para os países obterem melhores posições na nova geopolítica global

Por isso mesmo há uma atenção especial à primeira viagem e primeiro pronunciamento internacional do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante a reunião anual do Fórum Econômico Mundial (WEF) em Davos, na Suíça. Ele estará entre três mil tomadores de decisões da política, negócios e ciência. Ao lado do seu superministro da economia, Paulo Guedes, desperta curiosidade sobre o que terá a dizer em relação a políticas de desenvolvimento sustentável do país, cumprimento do Acordo de Paris, combate ao desmatamento e ampliação da exploração da rica biodiversidade nacional.

Elencar as vantagens brasileiras no combate às mudanças climáticas é tão importante quanto apontar as oportunidades de investimentos em saneamento básico. Mostrar ao mundo os esforços que nossas empresas vêm fazendo para aumentar sua eficiência no uso da água, o crescimento da matriz energética renovável, e as boas experiências na abordagem da biodiversidade e do reflorestamento podem atrair investimentos e ajudar a "vender muito bem o País". Há um gargalo de investimentos em infraestrutura no Brasil, e é a hora de mostrar esse espaço para atrair recursos e mudar cenários que fazem com o que ainda tenhamos um pé no século XIX, como no caso da falta de acesso ao saneamento básico, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. E tudo isso é sustentabilidade.

Uma fala internacional em um espaço tão seleto e qualificado como Davos funciona como uma plataforma prática para o Brasil explicar seus planos na área comercial, fiscal, digital, de inovação, de produtividade, desestatização e combate à corrupção. E tudo isso está diretamente conectado à sustentabilidade. Afinal, é ingenuidade pensar que esse conceito não seja utilizado ora como barreira comercial, ora como oportunidade de investimento por governos e empresas para a tomada de decisões.

Cabe ressaltar que as empresas europeias foram as responsáveis por mais da metade dos empregos gerados no Brasil por investimento greenfield de 2006 a 2015. A União Europeia é o segundo maior mercado de produtos agrícolas brasileiros e vêm de lá os principais investidores em infraestrutura nos últimos anos. Por outro lado, sabemos que os negócios gerados a partir da nova economia podem resultar em US$ 26 trilhões na forma de benefícios econômicos até 2030, criando mais de 65 milhões de postos de trabalho e evitando 700 mil mortes prematuras por poluição do ar, segundo análise do New Climate Economy. É preciso conjugar essas premissas com nossas demandas visando um futuro sustentável, que preserve as nossas riquezas naturais, mas que garanta um salto nos indicadores de qualidade de vida da população.

Além disso, temos problemas urgentes a resolver: Os números do desmatamento seguem na contramão do esforço de restauração. De acordo com o Instituto Imazon, a derrubada da floresta cresceu 40% entre agosto de 2017 e julho de 2018. Em 12 meses, foram perdidos 300 mil hectares – o que se pretende repor no principal projeto de plantio de árvores na Amazônia. Mais do que ativismo ambiental, isso é perda de recursos naturais e financeiros para o Brasil. É preciso pensar em medidas para conter essa sangria.

Não se trata mais de investir em saneamento ou energia renovável; em biodiversidade ou combate ao desmatamento; em reciclagem de lixo ou limpeza dos rios e oceanos; em exploração de petróleo ou reflorestamento. Tudo isso junto faz parte de um universo de possibilidades e novos negócios, sendo feito por empresa, sociedade e governo, e gerando lucros. Não podemos desperdiçar a chance de mostrar ao mundo nosso potencial, o acervo de experiências bem–sucedidas de nossas empresas e as enormes possibilidades de novos negócios que pode ensejar uma visão estratégica aliando desenvolvimento e sustentabilidade.

Marina Grossi é presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) desde 2009 e membro do CPLC (Carbon Pricing Leadership Colalition) do Banco Mundial desde 2018.