Maior parte do microplástico que polui o Oceano Ártico vem de nossas roupas
ESTUDO PUBLICADO NA REVISTA NATURE COMMUNICATIONS INDICA QUE MICROPLÁSTICO LIBERADO NA LAVAGEM DE TECIDOS SINTÉTICOS ESTÁ SE ACUMULANDO AO NORTE DO PLANETA.
Cientistas se preocupam com presença de microplástico no oceano ao norte do planeta (Foto: Agnieszka M / Unsplash)
A maior parte das fibras de microplástico que estão poluindo o Oceano Ártico vem de roupas de tecidos sintéticos, concluiu um estudo publicado na última terça-feira (12) na revista Nature Communications.
Liderada por Peter Ross, pesquisador de poluição marinha na Ocean Wise Conservation Association, no Canadá, a pesquisa analisou a presença dessas partículas plásticas – que têm até 5 milímetros de diâmetro – em águas salgadas em 71 estações espalhadas ao norte da Europa e da América do Norte, incluindo o Polo Norte. Além de pegarem amostras que estavam a uma profundidade de 3 a 8 metros, Ross e sua equipe de cientistas também coletaram porções de água contaminada a uma profundidade de 1.015 metros.
Ao usarem uma técnica conhecida como espectrometria de infravermelho com transformada de Fourier, os pesquisadores perceberam que havia uma média de 40 partículas demicroplásticopor metro cúbico nas águas do Ártico, sendo que 92,3% delas eram fibras de microplástico – e 73,3% deste número era poliéster. A forma, o tamanho e o tipo desse material encontrado era muito parecido com aquele que é usado em roupas.
O estudo também demonstrou que as concentrações demicroplásticoseram quase três vezes maiores noÁrticoOriental (que fica acima do Oceano Atlântico Norte e da Europa Ocidental) do que no Ártico Ocidental (acima do Alasca e da costa a oeste do Canadá).
Os pesquisadores acreditam que as microfibras poluentes vêm da lavagem de roupas na Europa e na América do Norte. “Essas estimativas seguem relatórios de um grande número de microfibras sendo derramado por vários tecidos em lavanderias domésticas e uma predominância de microfibras sintéticas em águas residuais municipais”, escreveram.
Microplásticos verdes fluorescentes em um pequeno experimento (Foto: Dennis Wise/Universidade de Washington)
De acordo com um relatório coescrito por Peter Ross, estima-se que cada residência americana e canadense libere cerca de 533 microfibras (cerca de 135 gramas) da lavagem de roupas por ano.
“Embora novos inventários sem dúvida contribuirão para a identificação da fonte domicroplásticonoÁrtico, acreditamos que a liberação combinada e histórica de águas residuais da Europa, das Américas e da Ásia justifica um exame científico adicional”, afirmaram os autores do estudo publicado na Nature Communications.
Biden cancela polêmico oleoduto que atravessaria os EUA
OBRAS DO KEYSTONE XL SÃO ENCERRADAS POR DECRETO POR BIDEN, POUCAS HORAS APÓS A POSSE. OLEODUTO LEVARIA PETRÓLEO DO CANADÁ ATÉ O TEXAS, CRUZANDO OS ESTADOS UNIDOS DE NORTE A SUL.
Protesto em 2017 no Nebraska contra a construção do oleoduto
Apenas poucas horas após tomar posse, o 46º presidente dos Estados Unidos,Joe Biden, assinou nesta quarta-feira (20/01) uma série de decretos, entre eles a revogação da licença para o controverso oleoduto Keystone XL.
Suspenso pelo governo Barack Obama, mas liberado por Donald Trump, o Keystone XL seria construído entre Alberta, no Canadá, e as refinarias do estado americano de Nebraska. Ali, ele se conectaria à rede já existente de oleodutos nosEUA, chegando às refinarias do sul do Texas, quase na fronteira com o México.
Símbolo da queda de braço entre ambientalistas e a política nosEUA, o projeto, estimado em 8 bilhões de dólares, data de 2008 e permitiria que 830 mil barris depetróleofossem transportados diariamente.
Além de cancelar o projeto, o decreto baixado porBidenproíbe o desenvolvimento de petróleo e gás em reservas nacionais de vida selvagem.
Oleoduto teria 1,8 mil quilômetros
O segmento completo do gasoduto deveria cobrir uma rota de 1,8 mil quilômetros e sua produção cobriria a demanda americana hoje atendida por países latino-americanos. O oleoduto é propriedade da empresa de energia TC Energy e do governo de Alberta.
Aprovado pelos reguladores canadenses em 2010, o projeto foi bloqueado pelo então presidente, Barack Obama, em 2015. Ele alegou que os benefícios do oleoduto teriam favorecido demais o Canadá e produzia emissões adicionais de gases causadores do efeito estufa.
Sucessor de Obama, o presidente Trump mais tarde reverteu a decisão, através de decreto presidencial em 2017. O início das operações estava previsto para 2023.
Os argumentos contra o projeto
Ambientalistas, grupos indígenas e produtores rurais sempre foram vozes críticas ao projeto. Eles temiam o risco de derramamento depetróleoe alegavam que o oleoduto seria um uso abusivo de suas terras.
Um dos trechos do oleoduto Keystone no Canadá
Em 2018, um juiz federal bloqueou temporariamente a construção. Ele disse que o governo americano não havia avaliado adequadamente o impacto ambiental. Outras ações judiciais paralisaram repetidamente o progresso, dando ao Keystone XL o apelido de “oleoduto zumbi”.
Os críticos também acusaram o projeto de não proteger adequadamente os trabalhadores do oleoduto contra o coronavírus. Tribos indígenas e outras comunidades rurais localizadas ao longo da rota temiam que os trabalhadores trouxessem o vírus.
O petróleo seira extraído das areias betuminosas de Alberta, também conhecidas como areias petrolíferas, uma mistura de areia, argila, água e uma substância espessa chamada betume. Este processo de extração é mais caro e requer mais energia do que outras fontes depetróleo.
“Essas areias não são compatíveis com um futuro que lide com a mudança climática de forma significativa”, afirma Charlie Kronick, um ativista do Greenpeace do Reino Unido e analista da indústria petrolífera.
Por que Biden cancelou o Keystone?
Bidenafirma que é contra “o Keystone desde o início”. “São areias de alcatrão que não precisamos e que na verdade é um poluente muito, muito alto”, afirmou em maio passado à imprensa americana.
A luta contra a mudança climática será um dos principais pilares do governo Biden. “Um grito por sobrevivência vem do próprio planeta”, afirmou o presidente em seu discurso de posse. “Um grito que não pode ser mais desesperado ou mais claro agora.’.
“Uma vez superada a pandemia, o clima estará no topo da agenda prioritária do novo governo”, diz Adam Zurofsky, diretor executivo da Rewiring American, uma ONG dedicada a combater as mudanças climáticas através da eletrificação da economia dosEUA.
Segundo Zurofsky, particularmente empolgante para quem trabalha nesta área é a intenção do novo presidente de adotar “uma abordagem governamental completa” para enfrentar a mudança climática. “Isso significa pensar sobre como o governo federal pode usar todas as ferramentas à sua disposição […] para tentar fazer avançar a posição dosEUAe os esforços para combater as mudanças climáticas”.
Como o Canadá reagiu?
O cancelamento do gasoduto provavelmente causará tensão com o Canadá. O país tem a terceira maior reserva depetróleodo mundo e na commodity seu principal produto de exportação.
“Para os canadenses, estamos falando de 100 bilhões de dólares em exportações anuais do oleoduto”, disse na segunda-feira o governador de Alberta, Jason Kenney, respondendo aos rumores de queBidenacabaria com o projeto. “Portanto, este é um assunto que toca os interesses econômicos vitais do Canadá”.
Segundo ele, abandonar o projeto destruiria empregos em ambos os países e tornaria osEUAmais dependentes das importações de petróleo da Opep.
O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, havia conversado com Biden e outras autoridades americanas para defender o oleoduto nos últimos dias e semanas. Aparentemente sem sucesso.
“Isso torna as coisas um pouco mais desconfortáveis para Trudeau num contexto doméstico”, afirma Ryan Katz-Rosene, professor de política na Universidade de Ottawa, à agência de notícias AFP.
Embora Trudeau tenha se caracterizado como uma voz importante do ativismo climático e esteja amplamente alinhado comBidenpoliticamente, ele também prometeu supervisionar a conclusão de vários oleodutos destinados a levar opetróleocanadense a novos mercados.
Vários políticos canadenses criticaram a iniciativa de paralisar o projeto, sob o argumento de que osEUAestariam melhor recebendo petróleo de seu vizinho ecologicamente consciente do que de países como a Arábia Saudita e a Rússia.
Zurofsky chama esta linha de argumentação de “uma falsa escolha”. “Essa argumentação parte da premissa de que o petróleo vai, de qualquer forma, ter que sair do chão”, diz ele. “E o argumento do lado climático é que deveríamos estar fazendo tudo o que pudéssemos para tornar isso mais difícil, tornar isso mais caro, tornar isso menos provável, porque essepetróleosaindo do solo é prejudicial ao nosso meio ambiente.”
O que acontece agora?
Em comunicado antecipando o decreto deBiden, a TC Energy disse que está “desapontada” com a decisão e que a construção seria interrompida enquanto a empresa avalia em como proceder.
O estado de Alberta chegou a dizer que consideraria a venda de tubos e materiais do projeto para sucata, a fim de recuperar algumas das perdas financeiras. O estado canadense investiu mais de 1 bilhão de dólares do dinheiro dos contribuintes no projeto.
Ken Alex, do Centro de Direito, Energia e Meio Ambiente da Universidade da Califórnia, Berkeley, afirma que uma batalha jurídica foi aberta depois que Obama cancelou a licença pela primeira vez, e há uma série de teorias legais em torno do fato de já ter sido emitida uma licença para obra.
“Mas a questão é, para os proponentes do oleoduto, dado o tempo e o custo envolvidos no litígio, e à luz da necessidade de reduzir a demanda porpetróleoe gás, o que acontecerá com o mercado ao longo desse tempo. Será que o investimento ainda vale a pena”?, questiona.
Dados da SOS Mata Atlântica poderão auxiliar criação de políticas públicas para água
Informações do projeto Observando os Rios são disponibilizadas em site de secretaria da cidade
15 de janeiro de 2021
Os dados de monitoramento da qualidade da água de rios e córregos produzidos pelos voluntários da Fundação SOS Mata Atlântica da cidade de São Paulo foram incluídos na base da Comissão de Segurança Hídrica da Prefeitura de São Paulo.
A Comissão integra a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e tem o objetivo de elaborar propostas ao executivo municipal para a implantação da Política Municipal de Segurança Hídrica e Gestão das Águas na capital paulista, além de desenvolver relatório sobre a segurança hídrica e seus indicadores.
Na prática, a Fundação SOS Mata Atlântica passa a ser uma das organizações que participam dos espaços de diálogo na construção das políticas públicas, contribuindo assim para a gestão da cidade.
Veja as informações no site da prefeitura de São Paulo.
“Ao compor com seus dados o quadro de elementos para avaliação da situação hídrica da cidade de São Paulo, a sociedade civil aponta a importância do diálogo entre poder público e as entidades sociais. Queremos a segurança hídrica, o saneamento e a transparência“, afirma Cesar Pegoraro, educador ambiental da Fundação SOS Mata Atlântica.
A Comissão é fruto de uma mobilização da sociedade civil paulista pelo fomento à Política Municipal de Segurança Hídrica, criada em 2019. Na época, a Aliança pela Água, da qual a SOS Mata Atlântica faz parte, sugeriu um projeto de lei para implementação de uma política pela segurança hídrica da cidade. A lei foi aprovada na Câmara e sancionada pelo prefeito Bruno Covas no Decreto n° 17.104/19.
Por Pedro Grigori e Bruno Fonsecapara o especial Por Trás do Alimento*
A Anvisa usou tom otimista na publicação do relatório do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos
com resultados de testes feitos em frutas e legumes entre 2017 e 2018.
Mas o documento não colocou de forma clara informações de alto interesse
público que foram destaque na divulgação de relatórios anteriores.
Por exemplo, quais são os alimentos em que mais foram detectados agrotóxicos em doses problemáticas? Mas a Agência Pública e a Repórter Brasil analisaram os dados brutos do relatório em busca dessa e de outras respostas.
A agência divulgou que, no geral, 23% dos alimentos testados tinham agrotóxicos proibidos ou acima do volume permitido. Mas esse quadro é ainda mais preocupante quando se analisa alguns alimentos específicos.
Como ocorreu em anos anteriores, o pimentão foi o campeão de problemas. Em cada 10, oito tinham agrotóxicos proibidos ou acima do permitido. A novidade nesta edição do relatório foi o segundo lugar para a goiaba, que teve 42% das amostras testadas com doses acima do recomendado ou agrotóxicos proibidos. Em seguida ficaram a cenoura com 39% de desconformidade, e o tomate com 35%. ________________
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Além desses alimentos, também fazem parte da análise amostras de
abacaxi, alface, alho, arroz, batata-doce, beterraba, chuchu, laranja,
manga e uva (confira os resultados sobre cada um deles na arte acima).
As coletas foram realizadas entre agosto de 2017 e junho de 2018 pelas
Vigilâncias Sanitárias Estaduais e Municipais em todos os estados —
apenas o Paraná ficou de fora.
É a Anvisa que determina qual agrotóxico pode ser usado e qual a
quantidade máxima de resíduo que pode ficar em cada alimento, o chamado
Limite Máximo de Resíduos (LMR). De acordo com a agência, a detecção de
agrotóxico acima do LMR não significa necessariamente risco à saúde do
consumidor. Nesses casos, segundo a Anvisa, é necessário fazer outra
avaliação específica sobre os riscos.
“Se foi detectado acima do limite é porque ocorreu um uso
desnecessário, o agricultor usou mais agrotóxico do que precisava, seja
por não seguir a bula, por não ter sido orientado ou porque a praga não
estava morrendo”, explica a toxicologista e pesquisadora da Fiocruz
Karen Friedrich.
Laranja pode intoxicar consumidor
Laranjas apresentam riscos para intoxicação aguda no consumidor em decorrência da presença de agrotóxico / Foto: Aturkus/Flickr
Nas avaliações específicas para identificar a quantidade de
agrotóxico que pode gerar problemas à saúde de quem come o alimento, a
Anvisa criou um novo método para avaliar o risco agudo (a curto prazo) e
crônico (a longo prazo). Para isso, a agência usou dados sobre quanto
os brasileiros consomem em média de cada alimento e o peso corpóreo dos
consumidores a partir de 10 anos de idade.
Ou seja, a Anvisa ignora o risco para crianças de zero a 10 anos,
grupo cuja saúde é ainda mais suscetível à intoxicação porque tem peso
inferior ao dos adultos. Questionada pela reportagem, a agência
confirmou a informação e atribuiu a falha à limitação da Pesquisa de
Orçamentos Familiares do IBGE, usada como base para a avaliação.
A partir deste cálculo, a agência concluiu que não há casos de risco
crônico nos alimentos analisados e apenas 41 frutas e legumes tem
potencial de risco agudo. Desses, 27 eram laranjas. Ou seja, a cada 14
laranjas vendidas nos mercados, uma tinha agrotóxico suficiente para
causar uma intoxicação imediata em quem consumiu – um cenário
preocupante para um país onde a fruta é consumida com frequência.
“O risco agudo inclui uma gama de sintomas como enjoo, dor de cabeça,
alteração do ritmo cardíaco e respiratório, em alguns casos podendo
levar a pessoa a ser hospitalizada”, explica Karen, da Fiocruz.
Cinco laranjas analisadas apresentaram mais de cinco vezes o limite
de segurança de exposição, todas para o agrotóxico carbofurano, um
inseticida proibido no Brasil desde 2017 devido aos efeitos
neurotóxicos. Este produto pode afetar o desenvolvimento, incluindo
efeitos nos fetos, funcionais e comportamentais.
Especialistas alertam que o problema pode não estar apenas na
laranja. A pesquisadora da Fiocruz faz críticas ao método de avaliação
para risco à saúde humana, apontando que uma das falhas é a análise
isolada dos agrotóxicos. “Os resultados mostram que a mistura é
frequente. Interações entre os agrotóxicos podem gerar efeitos aditivos e
sinérgicos que necessariamente impactam o cálculo”, explica Karen.
Outra crítica é em relação ao cálculo de quanto o brasileiro consome.
Segundo o relatório, a abordagem da Anvisa “parte do princípio de que é
improvável que um indivíduo consuma grande porção de dois ou mais
alimentos diferentes, em um curto período, contendo resíduos do mesmo
agrotóxico nas maiores concentrações detectadas”.
Para Karen, o relatório erra ao não considerar que “a pessoa come
diferentes alimentos por dia, que podem conter resíduos de diversos
agrotóxicos com efeitos danosos para a saúde”.
21 agrotóxicos no mesmo alimento
Segundo análise independente deste mesmo relatório conduzida pelo Grupo de Trabalho de Agrotóxicos da Fiocruz, em 34% das amostras foram identificadas misturas de agrotóxicos, variando de dois a 21 tipos diferentes de ingredientes ativos.
Os produtos que apresentaram maior percentual de mistura de agrotóxicos foram o pimentão (95%), cenoura (73%) e tomate (68%).
Foram pesquisados até 270 agrotóxicos diferentes no total, 16% a mais do que na edição anterior do relatório.
Os mais encontrados
No geral, o agrotóxico mais encontrado foi o imidacloprido,
que apareceu em 16% dos casos. O inseticida é o oitavo agrotóxico mais
vendido no Brasil, com 10 mil toneladas comercializadas em 2018, segundo
o Ibama.
Ele é um neonicotinoide, derivado da nicotina que tem capacidade de se espalhar por todas as partes da planta. Ou seja, descascar o alimento ou lavá-lo não é suficiente para retirar todos resíduos. Ele também é fatal para polinizadores como a abelha.
Logo depois, aparecem os fungicidas tebuconazol e o carbendazim — este último proibido na União Europeia, Estados Unidos, Canadá e Japão por causar mutação nos genes e problemas reprodutivos. ________________
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Acefato, o mais temido
Mas o agrotóxico que mais preocupou a Anvisa no relatório foi o acefato, quinto mais vendido no Brasil,
com 24,6 mil toneladas por ano. Ele é o sétimo mais encontrado e é o
que mais apareceu em alimentos para os quais não é permitido, em 314
casos.
O acefato foi destaque em levantamento publicado pela Agência Pública
e a Repórter Brasil sobre casos de depressão e suicídio envolvendo
agrotóxicos. Ele faz parte dos organofosforados, uma classe de
agrotóxicos comprovadamente neurotóxicos que podem desenvolver
alterações no sistema nervoso do seres humanos, causando, entre outros
problemas, casos severos de depressão.
O potencial neurotóxico é um dos motivos que fez a União Europeia
banir o acefato. No Brasil, ele passou por reavaliação, e em 2013 a
Anvisa decidiu mantê-lo no mercado, mas com restrições. Entre elas, a
proibição nas culturas de tomate e pimentão e fumo, entre outros que não
são alimentos.
Mesmo proibido para essas culturas, o acefato foi identificado em 41% dos pimentões e 21% dos tomates.
No relatório, a Anvisa destaca a situação deste agrotóxico como preocupante e diz que as ações de mitigação não foram suficientes para redução significativa das irregularidades, que podem ter impacto sobre a saúde do trabalhador.
“Por isso, recomenda-se avaliar a efetividade das medidas já adotadas e
verificar a necessidade de propor novas ações ou ampliar as restrições
regulatórias”, diz.
De acordo com a assessoria de imprensa da Anvisa, os resultados não
indicaram situações de risco ao consumidor, mas sim ao trabalhador
rural. A agência informou que colocará nova regulamentação sobre o acefato em consulta pública.
A Anvisa ainda não tem previsão de quando vai
divulgar a próxima avaliação sobre agrotóxicos na comida, com análises
feitas entre 2018 e 2019. De acordo com a Anvisa, “após a publicação da
última edição, as Vigilâncias Sanitárias dos Estados e Municípios
notificaram os pontos varejistas sobre os resultados dos seus
estabelecimentos para que eles possam tomar as medidas necessárias junto
aos seus fornecedores”.
As secretarias de Agricultura também foram informadas, para que
possam orientar os profissionais envolvidos no processo produtivo do
setor primário. Confira a íntegra da resposta da Anvisa. ___________
A
agência de jornalismo investigativo Pública e a ONG Repórter Brasil,
especializada no combate a violações dos direitos dos trabalhadores, se
uniram para criar o projeto “Por Trás do Alimento” que investiga o uso
de agrotóxicos no país e publica o resultado na forma de reportagens.
Na semana passada, cuidadores notaram que dois gorilas do San Diego Zoo Safari Park, nos Estados Unidos, estavam tossindo e apresentavam outros sintomas leves associados com a COVID-19. Decidiu-se então pela análise das fezes dos animais, que confirmou a presença do vírus SARS-CoV-2, o novo coronavírus.
A suspeita é que os gorilas tenham sido infectados por um dos
cuidadores que testou positivo para a COVID. Apesar de assintomático,
ele pode ter contaminado os animais, mesmo usando máscara de proteção e
tomando todas as medidas de precaução em vigor.
Ainda não se sabe se mais gorilas também estão contaminados. No
momento, três têm sintomas. Veterinários os estão acompanhando de perto.
“Além de alguma congestão e tosse, os gorilas estão bem”, afirmou
Lisa Peterson, diretora executiva do San Diego Zoo Safari Park. “O grupo
permanece em quarentena e está comendo bem e bebendo. Temos esperança
de uma recuperação total”.
Desde março do ano passado o zoológico de San Diego está fechado para visitação pública
Logo no começo da pandemia, cientistas já tinham alertado sobre a necessidade de proteger os grandes primatas do coronavírus.
Na época, para reduzir ao máximo o risco de contágio de gorilas,
chimpanzés e macacos da COVID-19, biólogos recomendaram que fosse
suspenso o turismo em reservas e parques onde vivem esses animais, os
parentes biológicos mais próximos do ser humano, já que compartilham de
98% do nosso DNA.
A recomendação de especialistas é que quando uma pessoa testa
positivo para a COVID ela deve se manter afastada não apenas de outros
indivíduos, mas também, de animais.
Ao longo de seis anos, Guilherme Braga Ferreira e outros três pesquisadores fizeram expedições ao Cerrado mineiro para instalar armadilhas fotográficas. Seu objetivo: fotografar lobos-guará, tamanduás-bandeira, onças, antas e outros mamíferos neotropicais
que vivem na savana mais biodiversa do mundo. Os dados mostrariam onde
esses animais vivem e como é sua sobrevivência perto dos seres humanos.
Ferreira e sua equipe – ecologistas do Instituto Biotrópicos –
instalaram no total 517 armadilhas fotográficas em sete das 25 unidades
de conservação que formam o Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu,
conjunto que se espalha por 18 mil quilômetros quadrados no norte de
Minas Gerais. Localizada próxima à divisa com a Bahia, trata-se de uma
região isolada, com poucas rodovias e baixa densidade humana.
Para efeitos de comparação, o estudo incluiu unidades de proteção
integral – entre elas parques nacionais como o das Cavernas do Peruaçu e
o Grande Sertão Veredas – e Áreas de Proteção Ambiental (APAs), de uso
misto. Nestas, a lei exige que 20% da área de terra sejam preservados,
enquanto o restante pode ser usado em diversas atividades de
subsistência. O objetivo do estudo era entender como a população de
mamíferos sobrevivia nos dois tipos de reserva.
Das cerca de 200 espécies conhecidas de mamíferos do
Cerrado, os pesquisadores se concentraram em 21 — aquelas com tamanho
suficiente para serem captadas pelas armadilhas fotográficas. As câmeras
documentaram esses animais durante uma média de 50 dias por ano, de
2012 a 2017, durante a estação seca, de abril a outubro. Ao todo, as
câmeras registraram o que ocorreu em 26.367 dias de pesquisa, cujos resultados foram publicados na revista Biological Conservation.
Vídeo de tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) captado pelas câmeras do estudo
A descoberta mais importante do estudo é que os mamíferos maiores estavam ausentes nas APAs. Onças-pardas (Puma concolor), antas (Tapirus terrestris), tamanduás-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), lobos-guará (Chrysocyon brachyurus), queixadas (Tayassu pecari) e catetos (Pecari tajacu), todos se mostraram presentes apenas nos parques nacionais e estaduais, mas não nas áreas de uso misto.
Embora as APAs tenham muita vegetação natural e relativamente baixa
população, “a probabilidade de encontrar essas espécies grandes e
ameaçadas em reservas de proteção integral foi de cinco a dez vezes
maior”, diz Ferreira, autor principal do estudo. Apenas uma espécie
vulnerável, a raposa-do-campo (Lycalopex vetulus), estava presente em áreas de ocupação humana.
Quase todas as 12 espécies que viviam tanto nos parques quanto nas
áreas semidesenvolvidas eram de pequenos animais, com exceção do
veado-catingueiro (Mazama gouazoubira). Alguns, incluindo
gambás e raposas, são espécies oportunistas que prosperam entre os seres
humanos em muitas partes do mundo, aproveitando-se das criações de
animais domésticos.
Outros pequenos predadores, como jaguatiricas (Leopardus pardalis) e jaguarundis (Herpailurus yagouaroundi),
estavam em boas condições nas APAs por uma razão diferente: conseguiam
ocupar nichos que haviam sido de concorrentes maiores — entre eles
onças-pintadas e pardas, agora ausentes.
Imagens de tamanduás-mirins
(Tamandua tetradactyla), acima, e jaguaritica (Leopardus pardalis),
capturadas pelas armadilhas fotográficas da pesquisa (Foto: Guilherme
Ferreira/Instituto Biotrópicos)
Cerrado: um bioma desprotegido
Muitas espécies de animais estão em declínio no
Cerrado. Nos últimos 40 anos, metade do bioma foi devastado e convertido
em fazendas de gado e grandes lavouras destinadas à
exportação. “Primeiro eles derrubavam árvores valiosas e depois
queimavam o resto para limpar a terra”, diz Mercedes M. C. Bustamante,
professora do departamento de Ecologia da Universidade de Brasília. “Foi
gado, depois soja, cana-de-açúcar e agora é conversão direta em soja,
que é um uso mais intenso da terra.”
Os sojicultores aplicam grandes quantidades de agrotóxicos, enquanto a
irrigação nas grandes plantações está drenando os aquíferos e os
transformando em uma paisagem árida.
Esse desenvolvimento em grande escala fez da perda de habitats a
maior ameaça à vida selvagem do Cerrado, e o que resta hoje é uma
colcha de retalhos cada vez mais desconectada. Vale lembrar que apenas
3% do Cerrado estão sob proteção integral, enquanto outros 5% se
encontram em áreas de uso misto. A fragmentação ameaça
desproporcionalmente as espécies maiores, como as documentadas no
estudo, que precisam de um espaço considerável para circular.
Existem outras ameaças. O desmatamento, por exemplo,
faz com que queixadas e catetos desapareçam. Nenhum indivíduo dessas
espécies foi encontrado pelas armadilhas fotográficas instaladas em
APAs. Assim como tatus, cutias e outros mamíferos, esses animais também
são alvo de caçadores em busca de sua carne.
“Sabemos que existe caça ilegal”, diz Ferreira. “Encontramos alguns
desses caçadores enquanto fazíamos o nosso trabalho de campo, mas, como
não há dados, ninguém sabe a extensão do problema.”
Parque
Nacional das Cavernas do Peruaçu, uma das unidades de conservação que
foram foco da pesquisa. Imagem: Fernando Tatagiba/ICMBio.
Protegendo o que sobrou
Ainda assim, a nova pesquisa sobre mamíferos tem fortes implicações
para as políticas do país, diz Marcus Rowcliffe, cientista
conservacionista da Zoological Society of London e coautor do estudo.
“Isso sustenta o argumento em defesa das áreas protegidas.”
Ferreira destaca um importante argumento em defesa da proteção
integral: como os grandes mamíferos precisam de muito espaço para
sobreviver, diz ele, protegê-los conserva toda a teia de vida da região.
Ele constata que a perda dessas espécies já está começando a destruir o
tecido ecológico geral do bioma. A ausência de cutias e outras espécies
que dispersam sementes, por exemplo, está mudando a composição da
vegetação nativa. O declínio de queixadas e catetos, que escavam e
reviram o solo, por sua vez, resulta na perda do poder adubador dessas
espécies.
“O Cerrado armazena muito carbono”, ressalta Ferreira, denominando o
bioma como “floresta de cabeça para baixo”. Ele explica que as raízes em
geral são pelo menos três vezes maiores que os arbustos e árvores que
estão acima do solo. Essas raízes sequestram grandes quantidades de
carbono, ao mesmo tempo em que ajudam a repor e reter as águas
subterrâneas. Daí o fato de que o Cerrado seja conhecido como “berço das
águas”, pois seus rios e aquíferos alimentam oito das doze regiões
hidrográficas brasileiras.
Salvar os mamíferos do Cerrado e outros animais selvagens vai exigir
um conjunto de ferramentas, diz Ferreira, incluindo monitoramento da
população e controle da saúde genética. As estratégias de conservação
incluem a criação de parques totalmente protegidos, principalmente no
norte do bioma, onde predomina a vegetação original.
“A conservação também precisa acontecer fora de áreas ainda
intocadas”, ele argumenta, com cientistas e produtores agrícolas
colaborando para definir áreas de uso misto mais eficazes, que conectem
zonas naturais e proporcionem melhor proteção aos animais.
Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília, destaca a urgência:
“Não podemos esperar dez a 20 anos. Se continuarmos como estamos,
teremos apenas pequenas ilhas naturais e grandes monoculturas. O Cerrado
terá acabado”.
Vídeo de lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) captado pelas câmeras do estudo