sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

A ferro, fogo e caneta

 


A ferro, fogo e caneta

O Brasil passa por um novo ciclo de devastação da vegetação nativa. E as ações do governo brasileiro têm sido o combustível.

15 de dezembro de 2020 - Por Mario Mantovani Luis Fernando Guedes Pinto

Os incêndios no Pantanal e em matas do Brasil fazem parte de um novo ciclo de devastação da vegetação nativa. Os seus combustíveis têm sido as ações do governo brasileiro, desmontando o Sistema Nacional de Meio Ambiente, construído com muito empenho pelo Estado brasileiro.

A diminuição da fiscalização ambiental e o enfraquecimento de políticas regulatórias, como o Código Florestal e das áreas protegidas, são os principais sintomas desta estratégia. No campo, os atores são grileiros e fazendeiros irresponsáveis. A disputa é por terra e poder. O pano de fundo: a visão da natureza e de seus povos como barreira ao crescimento econômico. Um almoxarifado de curto prazo.

Uma visão tacanha que somente pode estar apoiada em outra marca dos nossos atuais líderes de Brasília: a negação da ciência e a ignorância a respeito da centralidade da natureza para a prosperidade da humanidade. O ceticismo da urgência de enfrentar as mudanças climáticas.

Este trágico quadro nos faz lembrar da magnífica obra do historiador Warren Dean de 1995: A ferro e fogo – a história e a devastação da Mata Atlântica Brasileira. Infelizmente a história da Mata Atlântica se repete pelo país.

Warren nos mostra que, da chegada de Cabral em 1500 à metade do século 20, os ciclos do pau-brasil, cana-de-açúcar, ouro e café se basearam no casamento do desmatamento com a escravidão e a violenta ocupação de terras públicas por uma pequena elite que viveu em simbiose com as canetas do poder. Ele aponta que a destruição da Mata atlântica foi feita sem a menor curiosidade pelo seu valor ecológico e econômico, escravizando seus povos e ignorando o seu conhecimento e a sua cultura.

A visão imediatista resultava no desmatamento à base do fogo e do ferro dos machados para uma produção voltada à exportação. A exaustão das terras em pouco tempo vinha acompanhada de decadência, deixando um rastro de destruição e pobreza para a população nativa e mestiça, que ficava com o papel de produzir alimentos de maneira precária para os brasileiros nas terras exauridas e sem o apoio do Estado.

Novas terras eram dadas para a elite seguir derrubando matas e repetindo o ciclo devastador indefinidamente. As terras eram dadas aos ricos enquanto a situação fundiária dos pobres agricultores não era resolvida e as regras ambientais, presentes desde a colônia, desrespeitadas impunemente pela elite. Das capitânias hereditárias de 1500 à escandalosa ocupação do Pontal do Paranapanema em São Paulo, em plena metade do século 20, a história é a mesma.

O Brasil e a sua agricultura se modernizaram rapidamente e muita coisa mudou nas últimas décadas, mas a marca da história da Mata Atlântica continua impregnada nas canetas do poder Executivo e do Congresso Nacional, nos trazendo de volta aos períodos de ferro e fogo de Warren para todos os cantos do Brasil.

Com o desmonte federal, os atuais governos estaduais e os futuros municipais têm a oportunidade e a responsabilidade de se alinharem para liderar a agenda de conservação e desenvolvimento e garantir o futuro do Brasil. A recuperação dos 7 milhões de hectares de florestas de Mata Atlântica para cumprir com o Código Florestal é um primeiro passo.

Mario Mantovani e Luís Fernando Guedes Pinto são diretores, respectivamente, de Políticas Públicas e de Conhecimento da Fundação SOS Mata Atlântica.

Crédito: Artigo publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo em 15/12/2020

71% do desmatamento da Mata Atlântica entre 2018 e 2019 ocorreu em apenas 100 municípios

 










71% do desmatamento da Mata Atlântica entre 2018 e 2019 ocorreu em apenas 100 municípios

Segundo Atlas dos Municípios, nos últimos anos de eleição municipal (2012 e 2016) houve um aumento na quantidade de cidades com desmatamento acima de 3 hectares

19 de agosto de 2020

No período entre 2018 e 2019, 71% do desmatamento na Mata Atlântica ocorreu em menos de 3% (100) dos municípios do bioma (3.429). No total, cerca de 400 cidades desmataram a floresta nativa neste período, pouco mais que 10% dos municípios do bioma. Essa também foi a média de municípios desmatadores dos últimos 10 anos, apesar de haver uma variação entre 200 e 550 cidades por ano. As informações são do Atlas dos Municípios da Mata Atlântica, iniciativa da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) realizada desde 2000. O estudo teve execução técnica da Arcplan e patrocínio de Bradesco Cartões.

Para saber se o detalhamento de cada, se ela fica na Mata Atlântica, quanto ainda há de floresta nela e onde esses fragmentos se localizam, clique aqui. De forma lúdica e prática, a iniciativa Aqui Tem Mata também apresenta os índices de desmatamento no bioma.

Os dados também serão apresentados em webinar nas redes sociais da Fundação SOS Mata Atlântica, nesta quarta (19), às 18h30. Clique aqui para se inscrever.

O Atlas dos municípios traz informações de todos os remanescentes de vegetação nativa e áreas naturais do bioma acima de três hectares. Para as cidades do Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo é possível obter dados acima de um hectare.

Conforme anunciado pelo Atlas da Mata Atlântica em maio, que traz os dados gerais nacionais e por estado, foram desmatados no período 14.502 hectares – um crescimento de 27,2%, após dois períodos consecutivos de queda – comparado com o período anterior (2017-2018), que foi de 11.399 hectares. Estes dados consideraram desmatamentos acima de três hectares. Clique aqui e acesse os dados nacionais da Mata Atlântica.

“A situação nos municípios comprova o que temos alertado há anos, mas infelizmente o cenário não muda. É de conhecimento das autoridades onde ocorre o desmatamento da Mata Atlântica ano a ano. São poucas regiões, porém com altas taxas de desmatamento e impacto ao meio ambiente. Zerar o desmatamento no bioma passa por priorização do poder público e atuações estratégicas nestes locais“, afirma Marcia Hirota, diretora executiva da Fundação SOS Mata Atlântica e coordenadora do estudo.

Clique aqui e acesse os mapas do estudo

Ranking do desmatamento

O município campeão de desmatamento entre 2018 e 2019 foi Manoel Emídio (PI), com 879 hectares suprimidos, seguido de Gameleiras (MG) e Canto do Buriti (PI), com 434 e 404 hectares de floresta nativa derrubada, respectivamente.

Veja o ranking completo

ColocaçãoMunicípio / UFHectares desmatados
Manoel Emídio (PI)879
Gameleiras (MG)434
Canto do Buriti (PI)404
Nova Laranjeiras (PR)332
Cotegipe (BA)287
Porto Seguro (BA)240
Guarapuava (PR)218
São Félix do Coribe (BA)193
Jequitinhonha (MG)191
10ºSanta Luzia (BA)188

 

 

 

 

Acesse os mapas deste ranking

Acesse os mapas das 10 cidades que mais desmataram em cada estado

Década de degradação

Nos últimos 10 anos, dois municípios do Piauí sempre lideraram o ranking dos maiores desmatadores. São eles a cidade de Alvorada do Gurguéia – que foi a líder até o último levantamento, porém agora conseguiu reverter a situação e apresentou 22 hectares desmatados –, e Manoel Emídio, que continua no ranking, desta vez no indesejável primeiro lugar.

Outro histórico que se repete é em Minas Gerais. As terceira, quarta e quinta posições no ranking de desmatamento de 10 anos são ocupadas pelos municípios mineiros de Jequitinhonha, Ponto dos Volantes e Águas Vermelhas. Jequitinhonha e Águas Vermelhas, como registraram queda de 20% e 64% com 191 e 137 hectares de desmatamento, respectivamente, também saíram do topo da lista em 2018-2019, ficando em 9º e 21º lugares em 2018 e 2019, respectivamente. Apesar de registrar aumento de 40% (51 hectares desmatados no período atual) em relação ao período anterior (36 hectares), Ponto dos Volantes também não figurou na lista. Estes municípios fazem parte, desde 2012, do chamado Triângulo do Desmatamento da Mata Atlântica. Trata-se da região mais crítica das matas secas no noroeste mineiro. Na região, as florestas nativas foram transformadas em carvão e depois substituídas por eucalipto.

Veja o ranking do desmatamento na última década

Município / UFHectares desmatados
Alvorada do Gurguéia (PI)6.869
Manoel Emídio (PI)6.693
Jequitinhonha (MG)6.174
Ponto dos Volantes (MG)5.606
Águas Vermelhas (MG)5.423
Eliseu Martins (PI)5.041
Santa Cruz Cabrália (BA)3.559
Belmonte (BA)3.303
Baianópolis (BA)2.841
Wanderley (BA)2.731

Dos 100 municípios que mais desmataram, 40 estão em Minas Gerais, 23 na Bahia, 22 no Paraná e 15 em outros estados. “Vale destacar que o histórico do ranking estadual também se repete. Estados como Bahia, Minas Gerais, Paraná e também o Piauí estão no topo da lista dos maiores desmatadores há algumas edições do Atlas com variação de colocação entre eles“, afirma Cláudio Almeida, coordenador do Programa de Monitoramento da Amazônia e demais Biomas do INPE.

Chamou a atenção dos especialistas o fato de um município conhecido por seus atrativos turísticos e um dos destinos mais conhecidos pelos brasileiros ser um dos 10 que mais perderam Mata Atlântica entre 2018-2019. Com 240 hectares desmatados, Porto Seguro (BA) ocupa o sexto lugar do ranking.

Outro dado alarmante é que nos anos de eleições municipais tem aumentado o número de municípios desmatadores, sendo cerca de 500 em 2012 e 550 em 2016, os maiores índices da década.

“As autoridades não podem se esconder no argumento de que os desmatamentos vêm de um histórico de outras gestões. É isso que dá, ano após ano, a sensação de impunidade e liberdade para os desmatadores avançarem sobre o bioma. Estamos novamente em um ano eleitoral e é importante evitar este padrão. Ferramentas e tecnologia para isso existem e nossos dados estão sendo disponibilizados para as autoridades e para a sociedade“, afirma Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica.

Do lado positivo, um dado curioso é que um dos 10 municípios que mais possuem Mata Atlântica está no Mato Grosso do Sul – é a cidade de Porto Murtinho, em parte dentro dos limites do Parque Nacional da Serra da Bodoquena. Os demais municípios estão no Paraná, no Piauí e em São Paulo.

Veja o ranking completo das 10 cidades com mais floresta

Município

Total Área Florestal (em hectares)
Guaribas (PI)176.483
Guaraqueçaba (PR)162.016
Iguape (SP)153.092
Canto do Buriti (PI)118.491
Eldorado (SP)118.024
Porto Murtinho (MS)113.642
Guaratuba (PR)106.266
Cananéia (SP)102.650
Iporanga (SP)93.989
Céu Azul (PR)85.936

Acesse o mapa das cidades que mais possuem floresta

A Mata Atlântica

A Mata Atlântica é uma das florestas mais rica em diversidade de espécies e também uma das mais ameaçadas do planeta.

Presente em 15% do território nacional, a Mata Atlântica é casa de aproximadamente 70% da população e o bioma mais próximo das grandes cidades e metrópoles brasileiras, incluindo 56% da área urbana do Brasil. Sendo assim, os especialistas acreditam que a conservação local é uma das principais ferramentas para a manutenção do bioma, que oferece uma das poucas oportunidades de contato com a natureza para a população dos 3.429 municípios inseridos na Mata Atlântica, além de garantir água, melhoria do clima, da saúde e do bem-estar das pessoas.

O bioma está em 17 Estados (Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe), dos quais 14 são costeiros. Hoje, restam apenas 12,4% da floresta que existia originalmente e, desses remanescentes, 80% estão em áreas privadas.

Crédito: Fundação SOS Mata Atlântica

Mario Mantovani “O movimento ambientalista precisa voltar às suas origens”

 





Mario Mantovani “O movimento ambientalista precisa voltar às suas origens”

Nessa entrevista especial, Mantovani fala de suas novas funções na SOS Mata Atlântica e uma análise sobre o cenário para o meio ambiente no Brasil

15 de janeiro de 2021

Com a chegada do novo ano, algumas mudanças também aconteceram na Fundação SOS Mata Atlântica. Até porque precisamos de um bocado de esperança e de novas energias para seguir lutando. E, quando se fala em energia, não tem como não citar o Mario Mantovani. Se você já viu ele alguma vez, com certeza vai se lembrar do seu sorriso escancarado – e quem sabe teve a chance de receber aquele abraço.

Virada SustentávelPois bem, após 30 anos, o Mario agora segue para uma nova fase dentro da SOS Mata Atlântica. Como ele diz, é uma volta às origens. “O movimento ambientalista precisa resgatar o que foi a sua base”, diz ele. E é isso que ele fará, incidência política em apoio às associações, frentes parlamentares e diversas outras instituições nos municípios da Mata Atlântica, principalmente visando à implementação dos Planos Municipais de Mata Atlântica (PMMA), principal instrumento para aplicação da Lei da Mata Atlântica, que contribui para o planejamento das cidades do bioma, para a proteção da floresta e a qualidade de vida da população.

Veja as mudanças na equipe da SOS Mata Atlântica

Natural de Assis, interior de São Paulo, ele já lutou contra usina nuclear na região da Jureia, no litoral Sul de SãoArtigo Mario Mantovani Paulo, berço da SOS Mata Atlântica, e contra a especulação imobiliária neste que é o bioma onde a maioria dos brasileiros vive (72% da população) e que oferece muitos cartões postais para o país. Hoje, vê a participação social ameaçada e por isso quer lutar pela manutenção do Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama). Para ele, “a preocupação do governo é desmontar Brasília, mas se mantermos as bases locais conseguiremos salvar todo o processo”.

Não tem como falar em Mata Atlântica e não lembrar de Mario Mantovani. Nessa entrevista, ele conta um pouco dessa nova função. E, mais que falar sobre sua trajetória – pois história de mobilização e, como ele mesmo diz, de desobediência civil é o que mais tem – queremos também falar do presente e do futuro. Em um momento de muita reflexão e dúvidas, é sempre bom saber o que pensam as grandes lideranças, como Mantovani.

Mais de quatro décadas pelo meio ambiente 

Geógrafo de formação, Mario Mantovani atua na área ambiental há mais de 40 anos. Em 2021, ele completa exatos 30 anos na SOS Mata Atlântica. Na organização, iniciou sua trajetória em 1991 na campanha de despoluição do Rio Tietê. Também foi Superintendente, Diretor de Mobilização e posteriormente de Políticas Públicas e, desde 2007, atua na Frente Parlamentar Ambientalista, onde luta pela aprovação e implementação de leis ambientais. Agora, ele passa o bastão da diretoria de Políticas Públicas para Malu Ribeiro, muito reconhecida também na atuação com recursos hídricos e na incidência política.

Entre 1983 a 1987, Mario trabalhou na Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, quando promoveu atividades com prefeituras e auxiliou na criação de novas ONGs ambientalistas. Entrou na área ambiental pela União dos Escoteiros, quando contribuiu para a divulgação da Conferência de Estocolmo (1972), primeiro evento da ONU a tratar da questão ambiental e onde foi cunhado o termo desenvolvimento sustentável. Apesar de que sua entrada para o grupo foi um tanto conturbada. Após viajar o Brasil fingindo ser escoteiro, foi descoberto. Mas já era um líder e entrou de vez para o movimento. E ali nascia um dos maiores ambientalistas do Brasil – fama que Mantovani refuta. “Essa é minha obrigação. Trabalho com isso. Os voluntários são os maiores ambientalistas do Brasil. Tem gente que não tem dinheiro pra comer e é ambientalista”, ressalta.

Especialista em manejo de Bacias Hidrográficas, Mantovani sempre teve a água como uma de suas principais causas. Da vida próxima ao rio Paranapanema e diversos atrativos naturais, teve parte de sua carreira também marcada na luta pela despoluição do rio Tietê, quando coordenou a campanha da SOS Mata Atlântica no tema e também já foi presidente do Comitê de Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (CBH-AT).

 

Veja a entrevista completa!

Ao lembrar de algumas músicas que marcaram sua vida, em uma entrevista dada à rádio Eldorado, anos atrás, Mantovani lembrava do clássico de Chico Buarque. Para ele, “Tristeza não muda nada”. Aos 10 anos ele já sabia o que queria e, aos 65, continua sabendo.

 

Mario, indo direto ao ponto: como está se sentindo neste novo momento na SOS Mata Atlântica? Poderia falar pra gente um pouco sobre como será esta sua nova atuação?

R.: Muito do que vou fazer é algo que já estava acontecendo. É mais uma experiência, mas vou continuar trabalhando em prol das políticas ambientais, mas cruzando com minha trajetória. Sempre fui de militância, ativista, não é uma área de conhecimento ou produção. É de quem está fazendo enfrentamento. E é isso que vou focar, trabalhar com associações, como a Associação Nacional dos Órgãos Municipais de Meio Ambiente (Anamma), que ajudei a criar, assim como a Frente Parlamentar Ambientalista. E, ao mesmo tempo, trazer oportunidades para a SOS Mata Atlântica. Tem muita coisa que a gente faz ao longo da trajetória em outros lugares, agora tem muita coisa vindo para a Fundação.

E quais são as batalhas que você espera nos próximos anos?

R.: O que pega agora é a questão do desmonte do Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama). O movimento ambientalista precisa resgatar o que foi a base. O Sisnama deu tão certo que serviu como referência para a criação do SUS. Era um exemplo. Eu fui trabalhar nessa base, fazer com que os municípios tivessem uma estrutura de meio ambiente. Isso fortaleceu a atuação em Brasília. Mas, enquanto muitos amigos meus foram para Brasília montar o sistema, eu fiz o inverso e fui para a base. Agora, Brasília conseguiu desmontar toda uma estrutura que estava no governo. É claro que não foi tudo hoje, já vem de alguns anos, mas o que vimos agora é uma destruição total.

Quando tudo começou, a questão ambiental chegou aos municípios, com a Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Meio Ambiente (Abema), que também acompanhei a criação. O subnacional – estados e municípios – ganharam grande evidência, mas agora precisamos fortalecer essa base. Tudo isso é feito com a manutenção dos Conselhos de Meio Ambiente para aplicar a lei. Se mantermos essa base, conseguimos manter todo o resto do processo.

 

Mesmo com todo o desmonte do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama)?

R.: Essa é a oportunidade. O governo achou que ao desmontar o Conama ia acontecer um efeito cascata. Para esse governo não existe município. Ele não reconhece isso e deixou pra lá. A preocupação deles era desmontar Brasília. Eu quero voltar às origens dos anos 1980 e trabalhar com isso. Não vamos olhar só para o campo da mitigação das mudanças climáticas, mas na adaptação dos municípios, principalmente nas soluções baseadas na natureza.

 

E você acha que essa necessidade de voltar às origens é um prejuízo que veio do governo?

R.: O governo não tem ideia do tamanho do mal que fez. Esse desmonte é um processo que interessa a muitos grupos, alguns dentro da Confederação Nacional da Indústria (CNI), da Confederação Nacional de Agricultura (CNA), que não querem controle social. Quando falam que o licenciamento ambiental atrapalha, não é porque estão preocupados em melhorar de atuação, não querem controle social. O próprio ministro do Meio Ambiente chegou a pedir para associações, como a Abema, assinarem um documento para não reconhecer a Lei da Mata Atlântica. Essa retomada da mobilização política é a oportunidade. Tudo que já foi construído até hoje veio de mobilização. Temos muita gente na base atuando. Não precisamos gastar energia só em Brasília. Tem muita organização acordando para isso. É o que falo desde que comecei atuar com isso. Precisamos pensar globalmente e agir localmente.

 

Aproveitando, qual a diferença do Mantovani hoje para aquele jovem dos anos 1980, quando a ONG iniciou seu trabalho?

R.: Nunca estive tão animado como hoje. Naquele momento era idealismo puro. Mesmo viajando de forma não oficial no escotismo, eu participava. Quando me chamaram para entrar oficialmente, eu já conhecia tudo. Mas aquilo que era intuitivo passou a ser compromisso. A principal vitória que temos não é um hectare restaurado, mas o número de pessoas que a gente formou, como o Rodrigo Agostinho (deputado federal), André Lima e Raul Valle (advogados ambientalistas), entre outros que já passaram por aqui. Até dentistas e pessoas que não estão na área de meio ambiente, mas foram voluntários. Muita coisa que fazemos tem validade, mas o que fica são as pessoas que a gente marca. Essa é a nossa essência, estar na ação local, no cidadão ativo num conselho, associação de meio ambiente local, sindicato etc. O que marca é o abraço que a gente dá, o acolhimento na relação com as pessoas, aqueles que participam de nossas mobilizações mais antigas e sempre lembram a gente disso. Esse é o Mario que poderia estar nos escoteiros, na SOS Mata Atlântica, nos conselhos das ONGs que colaboro e participo, em qualquer lugar, vou fazer isso. Não que estou voltando, nunca deixei de ser assim.

 

Este ano a SOS Mata Atlântica completa 35 anos. Qual é a análise que você faz do trabalho da ONG neste período, especialmente no aspecto de Políticas Públicas?

R.: Muita gratidão, pois sempre foi uma organização forte, onde você pode colocar o que acha. Esse sempre foi o sentimento mais profundo. Muita gente teve a SOS Mata Atlântica como escola, eu também. Algumas coisas que pareciam maluquices minhas deram certo. Como fui para os Estados Unidos e vi como funcionava o trabalho de monitoramento da qualidade da água e voltei com a ideia de fazer um projeto com voluntários para fazer isso. Se o Capô (João Paulo Capobianco, um dos fundadores e ex-superintendente da SOS Mata Atlântica) não me ouvisse, isso não aconteceria.

Um pouco da projeção que a ONG ganhou veio por conta dos cuidados que se teve com cumplicidade, financiamento e institucionalidade, principalmente, nas pessoas que não usaram instituição para galgar coisas pessoais. Sempre foi pelo coletivo. Estar na Fundação é ver essas pessoas, ver como a ONG é um canal.

 

E a sua trajetória? Como avalia? O que foi mais marcante para você em todos esses anos na Fundação e as maiores vitórias?

R.: Eu olho pouco pra trás, eu gosto mais de pisar no acelerador. Gosto de olhar pra frente. Não para apagar a história, pois temos que aprender, mas para evoluir. O que deixamos de ver porque não estudamos? Eu gosto mesmo de ver as pessoas que estão com a gente.

 

Você é considerado um dos maiores ambientalistas do Brasil. A que acha que se deve essa fama?

R.: Eu não me acho isso. Eu me profissionalizei. É minha obrigação. Trabalho com isso. Durante muitos anos eu não gostava de receber prêmios, pois acho que os voluntários são os maiores ambientalistas do Brasil. Eles que devem ganhar prêmios. Eu me realizei profissionalmente. Tudo que imaginei em trabalhar do meu hobby aconteceu. Passei a ganhar pra isso. Mesmo trabalhando em banco, dando aula, quando trabalhei no Estado de São Paulo, tudo isso era o que eu sempre gostei de fazer. Tem gente que não tem dinheiro pra comer e é ambientalista. Por isso, falo tanto da base, são essas pessoas que devemos valorizar. Não me considero o maior ambientalista. Gostaria de ser enquadrado como um dos principais profissionais da área. Ambientalista é outra categoria.

 

E o movimento ambientalista, como você o enxerga ao longo do tempo? Muitos outros movimentos  surgiram nas últimas décadas para lutar por mudanças sociais. Você acredita que o ambientalista evoluiu com a sociedade?

R.: O movimento esqueceu da base, não viu que tinha gente jogando lixo num terreno baldio, enquanto olhava muito para Brasília. De novo eu falando sobre a história de voltar às origens. Há algumas décadas, na ditadura, todo mundo era perseguido. Não interessava se tinha mais ou menos ideal, se estudava ou não e havia muita luta. Hoje tem muito mais gente falando de meio ambiente na área da saúde, no movimento negro. Não tem como dissociar dessas questões. Muito movimento de jovem falando de meio ambiente. Os ambientalistas vão ter mais possibilidades se estiverem na base.

 

E a sociedade, entende hoje a função do movimento?

R.: Acho que não precisamos mais de Mario Mantovani, de ter carteirinha de ambientalista. Qualquer um tem que entrar. Um artista, um grafiteiro. A beleza, a força, está em cada atitude. Vou ver um dia que não vai ter mais esse nome ambientalista, cada um vai ser da sua forma, vai fazer parte de todos. Cantando, dançando etc. Já levantamos a bandeira porque precisávamos chamar a atenção, pois pouco se sabia. Hoje, o mundo é muito mais plural. É melhor ter um grande movimento como esse surgindo, do que as pessoas em suas organizações.

 

Apesar de ser da Mata Atlântica, você é um cara de várias causas. Existe alguma que mexe mais com você? Qual a sua paixão dentro da Mata Atlântica?

R.: Quando a questão ambiental despertou em mim sempre fui louco pela água. O que me levou para a Amazônia, Pantanal etc. foi a questão da água. O que me entusiasma é ver um rio limpo. Isso que me fez vir para a SOS Mata Atlântica. Minha formação em geografia e a especialização em manejo de Bacias Hidrográficas é por conta da água. E desde aquela época (anos 1980) já falava do que hoje são as soluções baseadas na natureza. Minha defesa era sempre ver o rio em sua condição natural, ter a água como um benefício para todos, universal. E não como alguns especialistas que só pensam onde jogar o lixo humano. Talvez sou de muitas causas, pois sou como a água, não tenho forma.

 

E as belezas do bioma. Qual o local especial dentro do bioma para você?

R.: Ainda é a Jureia (Estação Ecológica de Juréia-Itatins). Além da beleza que é indiscutível, é um local que representou muito na minha vida. Quero que joguem minhas cinzas lá. Foi onde minha vida deu um salto de ser escoteiro para ser um profissional. Além de ver um rio maravilhoso, lá aprendi a forma de fazer política e de combater retrocessos.

 

Você também é muito relacionado à campanha e grande mobilização pela despoluição do Rio Tietê, a partir do Núcleo Pró-Tietê. Você acha que o rio Tietê um dia será limpo?

R.: Não vai existir milagre, gente nadando no rio. O grande sucesso será não transmitir doenças e pessoas vivendo às margens do rio. É uma questão de exclusão. O rio é o espelho da nossa sociedade. O rio Tietê vai ser aquilo que a sociedade for. Se ela evoluir, o rio melhora, se for atrasada, vai ter lixo, esgoto e uma população doente.

O que fez o Tietê começar a ser limpo foi a mobilização da sociedade. Com aquele jacaré Teimoso que apareceu. Nós mostramos que ali existia um rio, formado por outros menores. Não vai ter outra luta por um rio como essa que teve pelo tietê na década de 1990. Foi uma comoção.

 

Neste momento de muitos embates, você teme algo contra si? Durante sua trajetória já sofreu algum tipo de ameaça?

R.: Na campanha do Tietê. O governador na época (Fleury) era da polícia. Eu cheguei a denunciar o governo de São Paulo em Washington DC. Quando fazia denúncias ligavam na minha casa, ameaçando minha família. Mas aí que está a importância de estar em uma grande organização. Infelizmente, se não estivesse nessa ONG seria diferente. E hoje temos o ódio forte também contra o meio ambiente. Por isso, precisamos sim ter cuidado.

 

Uma vez você falou que não adianta uma pessoa querer mudar o mundo, se ela não consegue nem acompanhar a reunião de seu condomínio ou o dia a dia de sua comunidade. Você ainda tem sua opinião? O que diria para as pessoas em tom de mobilização para a causa?

R.: A essência é isso, a mobilização, o engajamento, a militância. Isso vem de uma geração como a minha, do Beloyanis Monteiro, que combateu a ditadura. O grande lance é a mobilização social. Essa coisa do coletivo é o que muda a sociedade.

 

E no caso das empresas. Como avalia o papel delas neste momento de extrema pressão sobre o meio

Vista aérea da Praia de Guaratuba e o Rio Guaratuba. Bertioga-SP, 2008.

ambiente?

R.: Hoje ainda não há amor à causa. É mais uma coisa com conhecimento, mas isso faz parte do processo. Não dá pra uma empresa ter o mesmo engajamento que a gente. Tirando alguns empresários negacionistas, tem muitas pequenas, médias e grandes empresas que estão fazendo aproximações. Quem dá sinal não é a gente, é o contexto social e econômico. O que cabe à empresa é mudar. Tudo que a gente conhecia antes está se transformando e as empresas precisam estar conosco nesse projeto.

Não estamos falando mais de ser paz e amor. Todos os segmentos estão envolvidos. Davos (Fórum Econômico Mundial,) por exemplo, vem chamando a atenção para a urgência climática nos dois últimos anos, de forma seguida. Este é o assunto que as pessoas vão acompanhar daqui pra frente.

 

Você é um mobilizador nato. Não tem como uma pessoa conversar com você e não sair com vontade de mudar o mundo. De onde tira essa energia para engajar as pessoas?

R.: É o acolhimento. A gente acolhe, mas também gosto de ser acolhido. É essa troca de energia. Todo mundo que conheço acrescenta algo na minha vida. É o que me leva pra frente. Não tem um segundo que não estou falando com alguém, ouvindo a história de alguém. E atualmente, até por conta das novas tecnologias de comunicação, por exemplo, nunca impactamos tanta gente. Nessa semana participei de eventos com milhares de pessoas acompanhando. Quem veio dos anos 1970 e vê isso, parece coisa de filme e aquelas coisas como Os Jetsons. Nunca falamos com tanta gente. Acho que hoje tem mais gente que vê nossas fotos e memórias das mobilizações do que quem estava lá. É claro que tem a marca, quem participou desse tipo de coisa nunca esquece. Pra isso que estou aqui até hoje.

Crédito: Fundação SOS Mata Atlântica

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Litoral do Paraná é refúgio de espécies ameaçadas, que dependem da preservação de restingas e manguezais para sobreviver

 

Litoral do Paraná é refúgio de espécies ameaçadas, que dependem da preservação de restingas e manguezais para sobreviver

Litoral do Paraná é refúgio de espécies ameaçadas, que dependem da preservação de restingas e manguezais para sobreviver

A costa paranaense é uma das menores do país, com apenas 102 quilômetros de extensão, mas é uma das áreas mais importantes do litoral brasileiro quando o assunto é biodiversidade. No Paraná estão áreas extremamente conservadas e exuberantes de Mata Atlântica e riquíssimos ecossistemas marinhos de manguezais e restingas. Há ainda extensas praias arenosas e planícies de maré, áreas rochosas e ilhas costeiras e importantes baías hidrográficas.

Não é surpresa então, que o litoral do estado abrigue diversas espécies de fauna e flora, além daquelas migratórias que, de tempos em tempos, encontram ali refúgio para a reprodução, fonte de alimentos e recuperação de forças durante suas jornadas. Essas características todas conferem ao litoral paranaense a classificação de “área prioritária para a conservação e de extrema importância” para a diversidade brasileira, conforme a Portaria do Ministério do Meio Ambiente 126/2004.

A bióloga e pesquisadora Camila Domit é responsável pelo Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e monitora populações de mamíferos, aves, tartarugas marinhas, tubarões e raias para ações de planejamento para a conservação. Ela ressalta que o Paraná é uma área extremamente importante, considerada, tanto nas avaliações do Ministério do Meio Ambiente quanto em avaliações internacionais, como de grande relevância para conservação da biodiversidade marinha e costeira mundial.

“O golfinho boto-cinza habita a região ao longo de todo ano para se reproduzir, cuidar dos filhotes e esperar o desenvolvimento deles. O tubarão-martelo também vem à costa do Paraná pelo mesmo motivo. As tartarugas verdes jovens são muito comuns por aqui e algumas espécies de aves utilizam a área para reprodução, como as fragatas e o atobás”, destaca Camila.

A bióloga explica ainda que diversos peixes e crustáceos, como caranguejos, também usam regiões estuarinas e baías para procriar. Um exemplo bastante conhecido é a tainha, que ocupa o litoral do estado pelo mesmo motivo. “Por essa grande relevância para as espécies, que chamamos essa área de berçário”, explica Camila.

Unidades de conservação

Unidades de Conservação Marinhas são a principal ferramenta de proteção e manutenção de espécies marinhas, principalmente, as ameaçadas. No Paraná, existem cinco Unidades de Conservação identificadas como “marinho costeiro”, sendo duas de uso sustentável (a APA de Guaraqueçaba, e a APA de Guaratuba) e três de proteção integral (Estação Ecológica de Guaraqueçaba, o Parque Nacional de Superagui, e o Parque Estadual da Ilha do Mel).

Apenas o Parque Nacional dos Currais representa uma unidade de conservação exclusivamente marinha. Para Juliano Dobis, diretor da Associação MarBrasil e especialista em Gestão dos Recursos Naturais, a conservação marinha apresenta desafios maiores do que a conservação terrestre, porque é preciso considerar não apenas áreas protegidas pelas Unidades de Conservação, mas tudo o que existe em volta, suas conexões, fluxos e usos.

“Sem as unidades de conservação marinha, e tirando algumas legislações, principalmente relacionadas às atividades pesqueiras, haveria a sensação de que todo mar pode ser explorado, para os mais diversos fins e de qualquer forma. A partir do momento em que as unidades de conservação são criadas, as de uso sustentável contribuem com um zoneamento e ordenamento de uso da área em busca de um uso sustentável dos recursos naturais. Já as de proteção integral, garantem que habitats importantes para a reprodução, alimentação e abrigo das espécies marinhas sejam protegidos e contribuam com a sua proteção”, esclarece Juliano.

Preservar e manter essa riqueza é fundamental para o desenvolvimento econômico e social do Paraná. O corredor ecológico marinho é fonte de renda para cerca de cinco mil pescadores artesanais e abriga diversas espécies ameaçadas de extinção.

O diretor da Associação MarBrasil explica que as unidades de conservação estão inseridas dentro da indústria do turismo, em especial, o de natureza, que cresce muito acima da média em relação a outros ramos turísticos. As unidades de conservação, portanto, têm muito potencial para gerar emprego e renda nesse setor.

“As unidades de conservação marinhas podem proteger espécies de valor comercial para a pesca, aumentando a produção pesqueira. Quanto ao aspecto social, a partir do momento que contribuem com a pesca, principalmente a artesanal, que é característica no Paraná, elas podem somar com a manutenção da atividade pesqueira artesanal e, consequentemente, com a história e a cultura da região”, completa o especialista.

Principais ameaças

A pesquisadora Natascha Wosnick, do Departamento de Zoologia da UFPR, estuda espécies de raias e tubarões no litoral e enfatiza que a poluição e o tráfego marítimo intenso são ameaças ainda maiores do que a pesca. Para a bióloga e doutora em Zoologia, o maior motivo de preocupação atual é a iminente construção de um novo complexo portuário na região. Ele não só afetaria a qualidade de vida dos animais que vivem na região, como também comprometeria a saúde do ecossistema como um todo.

“O Porto de Pontal está planejado para ser instalado em um local de grande importância para espécies ameaçadas de extinção, tais como as raias-viola, os tubarões-martelo e também os cações-anjo, uma espécie de tubarão achatado como uma raia que está criticamente ameaçado de extinção em nível mundial. A região no entorno na construção é utilizada não apenas como área de repouso e alimentação dessas espécies, mas também como área berçário, o que significa que muitos neonatos e juvenis (indivíduos sexualmente inativos) se agregam e passam parte significativa de suas vidas nessa região. As taxas de mortalidade natural de indivíduos jovens podem chegar a 90%, o que, aliado à pressão pesqueira, poluição e degradação de habitat, pode ocasionar à extinção de algumas espécies”, diz ela.

A bióloga alerta também para o risco de aumento de ataques contra humanos na região, como o que aconteceu em Recife, após a construção do Porto de Suape.

“O complexo foi construído na desembocadura de um estuário de grande importância para tubarões-tigre e tubarões-cabeça-chata. Aliado à degradação ambiental causada pelo porto, a dinâmica de correntes da região amplificou os riscos na região. Isso ocorreu porque os navios de carga tendem a atrair tubarões por motivos ainda desconhecidos (provavelmente, pela baixa frequência de funcionamento do motor – tubarões possuem um sistema sensorial de eletro-percepção), fato que acaba por aproximar esses animais das áreas de praia utilizadas por banhistas. Existem evidências na literatura que essa possibilidade existe, por isso, é necessário considerar tal possibilidade na implementação de um porto tão próximo à locais de uso recreativo”, defende Natasha.

Espécies encontradas no Paraná

Nem todos os animais que vivem ou circulam pelo litoral paranaense são conhecidos, principalmente, as espécies que habitam áreas mais profundas e escuras, onde os estudos são mais raros e esparsos. Com o impacto ambiental e humano, muitas podem desaparecer antes mesmo de serem estudadas. E algumas, já bastante conhecidas, estão sob grave ameaça. Conheça alguns desses animais impressionantes!

Mero, o Senhor das Pedras

O litoral do Paraná abriga um gigante dos mares, o mero, um enorme peixe gentil, que permite a aproximação humana e, por isso, se torna alvo fácil de caçadores do mar. Esses peixes podem ultrapassar 400 quilos e viver 40 anos. Habitam recifes e embarcações naufragadas.

Atualmente, a espécie está classificada como “vulnerável” à extinção no mundo. A morte em alta escala do mero ameaça todo o ecossistema marítimo, pois o “Senhor das Pedras”, como também é chamado, está no topo da cadeia como predador. Se alimenta de peixes, moluscos e crustáceos e sua dieta controla a população de várias espécies.

Litoral do Paraná é refúgio de espécies ameaçadas, que dependem da preservação de restingas e manguezais para sobreviver

Áreas portuárias representam grande ameaça ao mero, em razão da poluição e degradação que causam a seu habitat

Tartarugas-verdes

A tartaruga marinha é uma das espécies mais antigas do planeta e, durante sua longa jornada, leva e traz toneladas de nutrientes e energia vital à sobrevivência de diversas formas de vida. Uma infinidade de peixes, crustáceos, moluscos, esponjas e medusas dependem da existência das tartarugas marinhas, peças chave para a conservação dos oceanos.

No mundo são conhecidas sete espécies. O litoral do Paraná representa uma importante área para o ciclo de vida das tartarugas-verdes. Os principais locais de ocorrência são a Ilha do Mel e a Ilha das Cobras, os manguezais de Paranaguá e os costões rochosos de Matinhos e Guaratuba. Algumas moram na costa paranaense e outras passam pela região em processos migratórios.

Litoral do Paraná é refúgio de espécies ameaçadas, que dependem da preservação de restingas e manguezais para sobreviver

O lixo nos mares e atividades como pesca, dragagem de canais de acesso a portos, tráfego de navios e poluição ameaçam a sobrevivência das tartarugas-verdes

Raia-manta

O litoral do Paraná é um importante local de avistamento sazonal da raia-manta, a maior do mundo, podendo chegar a três toneladas e a mais de 9 metros de largura. Durante a primavera e o verão, a espécie pode ser vista dando saltos para fora da água na região do Complexo Estuarino de Paranaguá e interagindo com botos-cinza.

As espécies de raias que frequentam a costa paranaense se alimentam de organismos doentes e animais senis, garantindo, assim, a qualidade das populações de peixes e outros animais marinhos de interesse comercial. Além disso, fazem parte da dieta de alguns predadores de topo de cadeia, como é o caso dos tubarões.

Litoral do Paraná é refúgio de espécies ameaçadas, que dependem da preservação de restingas e manguezais para sobreviver

A raia-manta é classificada como “vulnerável” no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção (ICMBio). A captura e a comercialização da espécie são proibidas no Brasil, mas a pesca incidental é uma grande ameaça

Tubarão-martelo

Duas espécies de tubarão-martelo são comuns no Paraná: o Sphyrna lewini, conhecido pelos pescadores como “cambeva branca” (tubarão-martelo-recortado) e o Shyrna zygaena, ou cambeva negra (tubarão-martelo-liso). Ambas estão ameaçadas de extinção e na lista de espécies com comercialização proibida.

O Paraná é área de parto e berçário para essas espécies. Os tubarões, principalmente as fêmeas e os filhotes, nadam juntos e ficam muito próximos à costa, o que os torna vulneráveis à captura comercial. São espécies que também sofrem pressão da pesca esportiva.

Apesar da fama de predadores perigosos, eles têm bocas muito pequenas, o que os leva a consumir presas de menor porte. Apresentam pouco risco aos humanos. Muito raramente são envolvidos em incidentes com banhistas, surfistas ou mergulhadores.

*Este artigo foi publicado originalmente no jornal online e gratuito do Observatório de Justiça e Conservação. Para acessar as demais reportagens clique aqui.

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Fotos: domínio público/pixabay (abertura), Brett Seymour/Wikimedia Commons (mero), Kris-Mikael Krister/Creative Commons/Flickr (tartaruga-verde), Projeto Mantas do Brasil (raia) e Kris-Mikael Krister/Creative Commons/Flickr

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