sexta-feira, 3 de março de 2017

Estudantes usam a ciência em prol de ambientes sustentáveis no coração do Pantanal


Por Rede de Ecomunicadores do Pantanal e da Serra da Bodoquena – Grupo Corumbá/MS
Texto: Willian Gnoatto, Gabriela de Lima Gonzaga, Greice Amanda, Jeniffer Ribeiro Braga, Jessica Ribeiro Braga – Estudantes do Ensino Médio da Escola Estadual Dom Bosco.
Feira de Ciências. Foto: Divulgação/ParaTudo
Feira de Ciências. Foto: Divulgação/ParaTudo

Há muito tempo as sociedades humanas uniram tecnologia e natureza. Um exemplo disso é a agropecuária, transformada e adaptada num modelo moderno e maquinofatureiro. Essa relação se estabeleceu visando às necessidades humanas, mas, agora, há também uma busca com o intuito de usar a tecnologia e o conhecimento científico para ajudar a natureza. E os jovens são parte dela.


Várias escolas desenvolvem projetos e feiras de ciências com seus estudantes cujo foco é o meio ambiente e a sustentabilidade. Eles são estimulados a pesquisar com profundidade e procurar maneiras de amenizar ou suprimir os danos que os homens causam à natureza.



Um exemplo é a FECIPAN (Feira de Ciências e Tecnologia do Pantanal), organizada pelo Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS). Na sua edição de 2016, foram expostos 152 trabalhos sobre à temática da preservação ambiental, com ênfase na proteção do Pantanal. Os jovens de Corumbá não apenas se orgulham de sua terra, mas também lutam para que ela desenvolva de forma sustentável.
Participamos da FECIPAN apresentando pesquisas e compartilhando nossa curiosidade e conhecimento com outros estudantes de escolas de ensino fundamental de Corumbá e Ladário, ambas cidades banhadas pelo Rio Paraguai e inseridas no território Pantaneiro do Brasil.



O Pantanal é reconhecido pela ONU como uma das mais ricas faunas de todo o continente americano, porém o bioma se encontra ameaçado. O Pantanal vem sendo destruído de várias maneiras, em especial para dar lugar ao agronegócio ou ao aumento das cidades e as estruturas que elas demandam, como é o caso da construção de hidrelétricas nos últimos anos. Entre os impactos negativos, há a poluição dos rios causada pelos garimpeiros e pelas indústrias; a pesca predatória, responsável pela extinção de espécies de peixes; e o assoreamento, que pode ser observado em especial no Rio Taquari. 


Projetos apresentados na FECIPAN 2016 revelam um olhar diferente sobre o assunto. Jovens estudantes da Escola Básica de Corumbá e Ladário apresentaram ações direcionadas ao cuidado eficiente da natureza, na tentativa de reverter as situações críticas.



Um deles é o “Pantanal Iron Brick”, dos estudantes Vinícius Rodrigo e Raphael Queiroz, ambos de 16 anos. O projeto se baseia em tijolos que contêm rejeitos de minério de ferro adicionados à composição tradicional feita de materiais cerâmicos. Isso evita que metais pesados sejam lançados na natureza, diminuindo os impactos ambientais. 




Outra consequência positiva do projeto é contemplar as muitas indústrias metalúrgicas do Pantanal que utilizam minério de ferro e que costumam despejar os rejeitos no meio ambiente. Para testar a eficiência do novo tijolo, ele foi submetido a testes de porosidade e de flexão (tensão) com o uso de diferentes taxas de minério, em comparação a tijolos com nenhuma adição de metal. Nos testes, os alunos perceberam que os tijolos com adição de rejeito tinham menos poros, algo positivo, pois “quanto maior a porosidade, menor será a sua resistência mecânica”, afirma Vinícius. Outra vantagem é que o novo tijolo suporta uma tensão maior que a do tijolo tradicional, que é de três Mpa (mega pascal).



Outro projeto que chamou atenção foi a “Turbina de Rio”, dos estudantes Gustavo Tercioti, Luiz Nascimento, Iraí Aparecido e Lucas Souza, da Escola Municipal de Corumbá (MS). Trata-se de uma balsa que sustenta uma turbina movida pela força da água, que a faz girar e produzir energia elétrica sustentável e que não causa desmatamento. Essa turbina pode beneficiar famílias ribeirinhas, sem que elas precisem se deslocar, algo essencial no Pantanal, onde as comunidades estão espalhadas ao longo do Rio Paraguai e seus afluentes, e, por isso, não costumam ter suas necessidades básicas atendidas, como é o caso de energia elétrica e saneamento. Esse projeto aponta para um sistema alternativo de energia no Pantanal usando o próprio rio Paraguai, e sem lhe causar danos.


Mayara Siqueira, de 15 anos, apresentou o projeto “Litro de Luz” ou “Poste Fotovoltaico” que utiliza garrafas pet e sensores alternativos para iluminação pública, com vistas a melhorar as condições de vida das comunidades ribeirinhas. O poste funciona de maneira simples: durante o dia, uma placa solar capta energia do Sol e a armazena em uma bateria de moto. À noite, um sensor detecta a falta de luz e usa a energia armazenada para acender pequenas lâmpadas LED. O sensor mantém as pequenas lâmpadas ligadas por toda noite. 



“Os postes funcionam bem por cerca de 20 anos e cada um custa aproximadamente R$2.740 a menos do que os postes de concreto”, explica Mayara. “Além disso, a cada poste instalado são 250 quilos de CO2, um gás intensificador do efeito estufa, que deixam de ir para atmosfera por ano”. O "Litro de Luz" concilia não apenas melhores condições de vida para os ribeirinhos, mas uma ideia sustentável para a produção de energia.
Peixes Pantanal. Foto: Mark Hillary (Flickr)
Peixes Pantanal. Foto: Mark Hillary (Flickr)


Preocupados com a constante ameaça que paira sobre a parte mais rica da fauna pantaneira, os estudantes Daniel Pereira e Thales Samir criaram o aplicativo para smartphones “FishKnow”. O objetivo do app é não somente informar características das 270 espécies de peixes que habitam no Rio Paraguai e seus afluentes, mas divulgar quais das espécies estão em maior risco de extinção e as regras de pesca que devem ser cumpridas ao longo dos ciclos do ecossistema. 


A diminuição do número de peixes preocupa profissionais há anos. Assim, um aplicativo cheio de boas informações, estimula a conscientização e gera alertas, ainda mais para uma geração acostumada a obter todas as informações com um clique. A inovação espera ajudar a proteger e recuperar a fauna dos rios do Pantanal.



A Feira de Ciências e Tecnologia do Pantanal nos mostrou que um mundo sustentável não é algo tão improvável, um mundo onde as atividades humanas suprem as necessidades atuais sem comprometer o futuro das próximas gerações. Cada vez mais jovens se preocupam em garantir que a natureza seja respeitada sem que seja necessário limitar as conquistas humanas. No futuro, nós, jovens, nos tornaremos adultos participando dos governos das cidades, da gerência das empresas, dos comércios, mas cumprindo o dever de manter a salvo o planeta que habitamos e a natureza da qual fazemos parte.

Populações tradicionais e a biodiversidade


Por Fábio Olmos
Não se preocupe, estamos aumentando a biodiversidade! Área invadida por Guaranis no Parque Estadual Intervales, em São Paulo. As árvores ao fundo dão uma idéia da floresta que foi destruída. (Foto: Fábio Olmos)
Não se preocupe, estamos aumentando a biodiversidade! Área invadida por Guaranis no 
Parque Estadual Intervales, em São Paulo. 

As árvores ao fundo dão uma idéia da floresta que foi destruída. (Foto: Fábio Olmos)
Uma das crenças mais populares do ecologismo afirma que "populações tradicionais" criam e mantêm biodiversidade. Esta afirmação, formulada de diferentes formas, tem aparecido com freqüência em artigos sócio-ambientalistas e das chamadas ciências sociais.



Esta hipótese, que para alguns se tornou dogma, é em geral associada a conflitos entre unidades de conservação que não contemplam a presença de humanos caçando, plantando ou extraindo outros recursos naturais, como parques nacionais, e populações que ocupam estas áreas. Seu corolário é de que as práticas das populações tradicionais são importantes na "conservação da biodiversidade". A retirada do homem destas áreas significaria uma perda em termos de biodiversidade e de saber "acumulado por várias gerações sobre plantas, animais e técnicas de manejo". Ou seja, é um argumento para que ocupantes de áreas protegidas sejam deixados onde estão, fazendo o que sempre fizeram.


A retórica dos criacionistas tenta dar roupagem científica às suas crendices ("desenho inteligente") e um sem-número de ativismos políticos também procura justificativas "científicas" para seus credos. Seguindo as pegadas destes antecessores, é exatamente o que ocorre no caso das supostas benesses biodiversas oferecidas pelas populações tradicionais. Trata-se de retórica com camuflagem científica.
Simples na sua formulação, a hipótese deve ser examinada em seus detalhes.



O primeiro é exatamente o que significa "populações tradicionais". O termo foi tão abusado para incluir grupos heterogêneos como índios (estes com uma gama que vai de grupos aculturados aos não-contatados), quilombolas, caiçaras, gerazeiros, seringueiros, ribeirinhos, açorianos, pomeranos etc que o termo parece ser sinônimo de populações rurais pobres. Seria piada se não fosse levado a sério por muitos.


Também é surpreendente que a crença no papel benigno de populações tradicionais exista apesar do corpo de evidência arqueológica e histórica que mostra padrões de uso insustentável de recursos que vão de esturjões na Califórnia pré-colombiana a avelãs na Escócia neolítica, além de maranhões (flamingos) no Maranhão e mutuns nas reservas extrativistas acreanas do século XX.



O Fator Humano
Se humanos que hoje seriam considerados populações tradicionais não tivessem colonizado as Américas, Colombo teria encontrado as Antilhas povoadas por preguiças terrícolas e De Soto e Cabral teriam sido recepcionados por mastodontes e tigres-dentes-de-sabre. Mamutes ainda poderiam vagar na Sibéria se humanos não tivessem chegado lá. Madagascar poderia ser coberta por florestas habitadas por aves-elefante e lêmures-gigantes se navegadores da Indonésia não tivessem colonizado a ilha. O mundo teria 2 mil espécies de aves a mais se os polinésios não tivessem colonizado o Pacífico. Os exemplos cobrem o planeta.



Um legado daquelas "populações tradicionais" é que nunca veremos estas espécies a não ser em reconstruções feitas a partir de seus ossos. Humanos não começaram a destruir a natureza após a Revolução Industrial e a ascensão do capitalismo, como querem alguns mal informados. Começamos a tornar este planeta mais pobre quando nos tornamos humanos.



A hipótese do papel gerador/mantenedor de biodiversidade, além de se chocar com as evidências históricas, tem nuances que precisam ser explicitadas. Sobre qual biodiversidade se está falando? Da mesma forma que "populações tradicionais" se tornou um guarda-chuva sob o qual quase qualquer grupo pode se abrigar, o significado do termo biodiversidade tem sido usado em um sentido que talvez seja amplo demais.



"Povos tradicionais" têm um histórico impressionante de domesticação de plantas e animais que gerou o que são, efetivamente, novas espécies. Nas Américas, povos pré-colombianos criaram a abóbora, o milho, a batata, a mandioca, o feijão, a pupunha sem espinho, a quinua, a alpaca, a lhama, a cobaia e o cão pelado peruano. Todos são resultado de seleção artificial feita ao longo de milhares de anos, e tremendamente diferentes de seus ancestrais selvagens.



É claro que este processo de "criação de biodiversidade" não é exclusivo dos povos tradicionais, mas foi continuado e aprimorado por todas as civilizações complexas. Afinal, a gênese das mesmas está ligada à agricultura e pecuária mais produtivas e seus excedentes. Não é esta a parcela da biodiversidade que necessita ser mantida em unidades de conservação.



Faz tanto sentido defender que "populações tradicionais" continuem a trocar habitats naturais por plantios para "conservar a biodiversidade" como defender que a Monsanto faça o mesmo para desenvolver novas variedades de grãos. Afinal, a agroindústria moderna, literalmente, também cria biodiversidade. E de forma mais rápida que a agropecuária tradicional.



Espécies de plantas e animais domesticados hoje ocupam a maior parte das terras férteis do planeta (ao contrário de ecossistemas naturais) e aquelas variedades que correm o risco de desaparecer por terem perdido o interesse de produtores, incluindo grupos indígenas, são melhor conservadas em instituições como a Embrapa e similares.


Outro componente da biodiversidade que pode ser gerado por populações tradicionais é exemplificado pela origem do HIV-1, por sinal um excelente exemplo de evolução darwiniana. No final do século XIX ou início do século XX, um habitante das florestas do Congo matou um chimpanzé portador do vírus SIVcpz para o jantar. Isso permitiu que o SIVcpz colonizasse um novo hospedeiro (Homo sapiens) e evoluísse rapidamente, se transformando no HIV-1 (efetivamente uma nova "espécie"). Este se tornou conhecido quando a epidemia de AIDS explodiu na década de 1980. Seu irmão, o HIV-2, descende do SIVsmm, originalmente um hospedeiro inócuo dos macacos mangabeys do oeste africano, surgiu de forma similar.



Novas contribuições deste tipo à biodiversidade deverão ser feitas conforme aumenta o número de pessoas ocupando (e detonando) áreas naturais. Nada de novo sob o sol, já que muitos patógenos novos evoluíram a partir de ancestrais adquiridos de animais domésticos (como a varíola) ou silvestres, e os hospitais modernos também têm produzido novos patógenos que podem ser considerados artefatos humanos.


Multiplicando habitats
Biodiversidade também tem sido igualada de forma simplista a número de espécies. Em geral, quanto maior a variedade de habitats existente em uma determinada área, maior a riqueza de espécies. Este conceito é importante para compreender a hipótese da biodiversidade gerada por populações tradicionais.


Imagine uma área de floresta. Temos um habitat. Se nesta área colocamos uma plantação de mandioca, temos dois habitats. Se adicionarmos uma pastagem, temos três. Se o plantio é feito através do sistema de corte e pousio de quatro anos (comum em várias regiões), temos um mosaico de floresta, capoeiras de quatro diferentes idades, áreas agrícolas ativas e pastagens. Onde havia um único habitat natural, agora temos sete!



As áreas agrícolas e pastagens têm suas espécies domesticadas e suas espécies associadas. Por exemplo, bois permitirão o estabelecimento de insetos (moscas de chifre, bernes, rola-bostas etc) que não existiam na floresta. As áreas abertas nas bordas das roças permitirão que plantas e animais de áreas abertas e detonadas, que antes não existiam na floresta intacta, também se estabeleçam. É graças a este "aumento na diversidade de habitats" que bichos bonitinhos, mas ordinários, vindos de outras regiões, como tizius e pardais, estão colonizando a Amazônia na trilha das rodovias e suas inevitáveis frentes de desmatamento.



Florestas são sistemas dinâmicos, o que significa que sua composição se altera ao longo do tempo em resposta a perturbações como alterações climáticas e nas interações ecológicas. Há todo um conjunto de espécies adaptadas a ocupar espaços deixados vagos pela queda de árvores, deslizamentos de terra, inundações, erosão das margens dos rios etc.
São estas espécies, muitas com ampla distribuição e definitivamente não-ameaçadas, que irão colonizar as áreas agrícolas abandonadas, constituindo formações bastante diferentes da floresta original. Ou mesmo de algumas áreas de perturbação natural, já que o uso do fogo destrói o banco de sementes do solo e espécies de árvores e arbustos cultivados podem continuar a crescer nestes locais, substituindo as espécies nativas.



Estes novos habitats são importantes a ponto da atividade humana necessitar ser mantida em áreas protegidas? A resposta é não. Olhando apenas o território de uma unidade de conservação, as espécies típicas das capoeiras e áreas perturbadas continuarão ocorrendo nas áreas de perturbação natural. O resultado, por exemplo, é que ao invés de ter centenas de quilômetros quadrados de embaubais, estes estarão restritos a faixas estreitas em algumas margens de rios ou clareiras.



Olhando para além de qualquer unidade de conservação, há o fato óbvio de que boa parte da vegetação existente fora da mesma é formada por aquelas espécies e suas associações que representam o "aumento" da biodiversidade de nossa área protegida.



Ou seja, manter as atividades das "populações tradicionais" no interior de uma unidade de conservação "gera e mantém" no seu interior a mesma biodiversidade que existe e se mantém em áreas alteradas que não são protegidas. Não vejo porque dedicar parte de uma área protegida para aquilo que existe alegremente nas juquiras do outro lado da cerca ou, pior, destruir áreas que podem conter espécies com distribuição restrita para substituí-las por habitats pobres e repetitivos (os que fabricamos) e que já ocupam a maior parte do planeta.



Adaptando o ambiente
Humanos não se adaptam ao ambiente, fazemos o ambiente se adaptar a nós. Isso resulta na troca de habitats mais maduros, que tendem a acumular maior riqueza de espécies e biomassa, por habitats mais jovens e pobres. Pobres e monótonos, pois enquanto florestas maduras tendem a variar bastante em composição em uma escala espacial pequena, capoeiras tendem a ser parecidas entre si. Como as tediosas capoeiras de embaúbas e manacás encontradas em toda a Mata Atlântica.



Os anus, polícias-inglesas, tizius, bem-te-vis e rolinhas que colonizam as pastagens que estão sendo abertas na Reserva Extrativista Chico Mendes (AC) representam acréscimos à biodiversidade local, compensando em número de espécies os mutuns e cujubins extintos pelas atividades dos seringueiros-boiadeiros locais. A biodiversidade ornitológica aumentou (duas espécies foram perdidas, cinco surgiram).



Mas isso é trocar quadros de Van Gogh e Leonardo por latas de Coca-Cola e mostra a falha de usar apenas o número de espécies como medida simplificada da biodiversidade. Manter agricultura e outras atividades, por quem quer que seja (a ecologia não é racista) é que resulta em perda de biodiversidade, e não o contrário.



Alguns podem argumentar com estudos que mostram que a maior parte das espécies de algumas florestas é usada por humanos e foi plantada ali, que as tais florestas são artefatos humanos que aumentaram a diversidade local etc. Se sua floresta cresceu sobre o que até a poucos séculos era uma cidade maia ou uma mega aldeia pré-colonização européia é de se esperar que seja formada pelo que os antigos habitantes plantaram, mantiveram ou não conseguiram eliminar. É óbvio que espécies beneficiadas por humanos irão dominar.



O que não se fala é das espécies intolerantes às atividades humanas que desapareceram sem deixar vestígios. E do fato óbvio que estas florestas antropogênicas só existem porque as populações humanas desapareceram. Elas não são exemplos de diversidade gerada por populações tradicionais, mas sim de como a natureza agradece quando saímos de cena e tenta retomar a vida.



Ambientes moldados ao homem
Um exemplo mostra como viver em um ambiente cronicamente afetado por atividades humanas leva a idéias erradas. As florestas européias são em sua vasta maioria bastante jovens, tendo regenerado ou sido plantadas a partir do século XIX. Além disso, são tremendamente "manejadas", ou seja, árvores não morrem de velhice e não se permite o acúmulo de "madeira morta". Para completar, grandes mamíferos como bisões, auroques, tarpans, ursos, lobos e outros foram extintos na maior parte do continente.



Apenas na Polônia e Belarus (Bialowieza) existem florestas extensas com árvores de mais de 500 anos e existe quase todo o complemento faunístico. Desgraçadamente, estas estão sendo destruídas pelo "manejo sustentado" de madeira.



As comunidades de aves das florestas européias sempre foram caracterizadas como tendo baixa riqueza de espécies, altas densidades e alta produtividade com base em estudos feitos nos remanescentes jovens e manejados que cobrem o continente. Isso até trabalhos na floresta primeva de Bialowieza mostrarem que comunidades de florestas maduras são muito diferentes, com riqueza de espécies muito superior, baixas abundâncias e presença de espécies que dependem de grandes árvores mortas e outros nichos inexistentes em florestas com poucos séculos.



Uma parcela muito importante das espécies de florestas tropicais também necessita de habitats maduros, mais estruturados, para se estabelecer. Por exemplo, veja a riqueza e densidade de bromélias e orquídeas em uma Mata Atlântica com 100 anos de sossego e outra sob manejo "tradicional".



Pesquisa sobre Mata Atlântica mostra que esta ganha riqueza conforme o tempo passa, e que necessita de 100 a 300 anos para atingir parâmetros (como porcentagem de espécies dispersas por animais) indicadores de maturidade. Mas para atingir à proporção de espécies endêmicas, as mais interessantes para serem conservadas, são necessários de 1.000 a 4.000 anos sem humanos detonando o lugar. Na Amazônia, ocorre o mesmo padrão, florestas secundárias sendo mais pobres que as maduras, e sem muitas das espécies originais (o que tem rendido uma discussão interessante).



Pelo fim dos impactos
O argumento freqüente de que não existem florestas virgens e todas apresentam impactos humanos (o que é verdade, embora o nível de impacto varie enormemente) tem levado à conclusão absurda de que estes impactos devem continuar. Ao contrário, lugares onde habitats naturais puderam maturar sem humanos caçando, queimando, derrubando e extraindo mostram biodiversidade (em quantidade e qualidade) máxima.



Ao contrário do que os sócio-ambientalistas pregam, as evidências mostram que florestas e outros ecossistemas, de savanas a recifes de coral, precisam de paz para envelhecer e atingir seu potencial pleno de diversidade. Este processo de maturação provavelmente explica porque florestas tropicais são sumidouros de carbono. No caso da Mata Atlântica, um bioma na berlinda, é uma completa aberração que atividades como agricultura de corte e queima sejam permitidas sob as desculpas esfarrapadas de "aumentar a biodiversidade" ou de que "não causam impactos negativos". Ainda mais em unidades de conservação.



A fauna é um componente da biodiversidade para os quais "populações tradicionais" tem sido um desastre. Um corpo enorme de estudos por grupos de pesquisa como os de Carlos Peres, na Amazônia, e Mauro Galetti, na Mata Atlântica, mostra como a caça "de subsistência" ou "tradicional" realizada por índios, seringueiros, caiçaras e companhia nada tem de sustentável e tem gerado florestas vazias. Populações tradicionais no interior de áreas protegidas significam uma catástrofe para a fauna, especialmente na Mata Atlântica, onde há muita gente para pouca floresta e ainda menos bichos.



Como outros já apontaram (veja sugestões de leitura abaixo) e com os dados ao seu lado, a idéia de que povos tradicionais (que não foram influenciados por alguma ONG interessada em melhorar sua imagem) deliberadamente conservam recursos naturais é mera parte da mitologia moderna do bom selvagem ecologicamente correto. Há exceções, é claro, mas que apenas confirmam a regra.



Alguns argumentam que manter "populações tradicionais" é necessário para manter "saberes acumulados sobre a biodiversidade". Não vejo o que uma coisa tem a ver com a outra e uma análise crítica destes "saberes" iria bem. Afinal, quando a coisa aperta na aldeia, a Fundação Nacional de Saúde tem mais demanda do que os pajés, e o exame das "enciclopédias da floresta" da vida lembra um mix dos livros de Eurico Santos com o bom e velho "Plantas Úteis do Brasil".



Muitos profissionais já ficaram decepcionados com o limitado conhecimento tradicional em áreas como a medicina e não me impressiona o fato da maioria das plantas medicinais usadas por caiçaras paulistas ou pataxós baianos serem as mesmas espécies introduzidas usadas por minha avó portuguesa (que era benzedeira). Na minha própria área, nunca encontrei um índio, seringueiro ou caboclo que não afirmasse que salamantas e jequitirinambóias são terrivelmente venenosas (o que é uma bobagem) ou não chamasse as 30 ou 40 espécies locais de little brown jobs (aquelas pequenas aves muito semelhantes) somente de "passarinho", sem distinguir uma da outra. Mas admito que caçadores e passarinheiros locais comumente tenham informações interessantes sobre as espécies gastronômica ou comercialmente utilizadas.



Sugestões de Leitura O Poema Imperfeito, de Fernando Fernandez
Biodiversidade: a hora decisiva, de Marc J. Dourojeanni e Maria Tereza Jorge Pádua
Requiem for nature, de John Terborgh
A primazia dos cientistas naturais na construção da agenda ambiental contemporânea, de José A. Drummond
The ecologically noble savage debate, de Raymond Hames
Seja o conhecimento tradicional útil ou não, desde a invenção da escrita há formas muito mais eficientes que a memória humana e a cultura oral para acumular conhecimento, de forma a sobreviver até mesmo à extinção da sociedade que o produziu. Conhecimento é mais bem conservado em livros e HTML (uma linguagem para se produzir páginas Web) do que em unidades de conservação.



Populações de índios, quilombolas, caiçaras e outros “tradicionais” têm se mostrado um desastre para a biodiversidade de áreas protegidas, como facilmente observado em locais como os parques nacionais Monte Pascoal (BA) e Araguaia (TO) e unidades estaduais como Serra do Mar, Intervales, Jacupiranga, Juréia e Ilha do Cardoso, essas todas em São Paulo. Acreditar que mantê-las vivendo “tradicionalmente” nestes espaços é compatível com manter a biodiversidade que deve ser protegida vai contra todas as evidências e me sinto chutando um cachorro morto ao escrever este texto. O problema é que, graças à infinita credulidade humana, o cachorro é um zumbi que ainda morde.


Vinte anos depois da morte de Chico Mendes, a primeira reserva extrativista, que leva seu nome, no Acre, não apenas mostra o fracasso do extrativismo como opção econômica (anunciado 20 anos atrás...), mas pastos crescentes e extinções locais mostram seu fracasso em conservar a biodiversidade que precisa ser conservada. Apesar de todo o dinheiro e esforço ali investidos.




Em seus 71 anos de existência, o Parque Nacional de Itatiaia (RJ/SP) não deve ter recebido metade do que foi investido na Resex Chico Mendes. Mas, apesar da crônica falta de recursos, da ação de caçadores e palmiteiros e do descaso fundiário, mostra áreas florestadas crescentes e espécies interessantes, que eram raras, se tornando mais comuns.



O contraste entre os resultados das diferentes abordagens de conservação deveria ser suficiente para mostrar o caminho a seguir.


Saiba mais:

Comendo a galinha dos ovos de ouro

Populações humanas em unidades de conservação
O incrível destino do parque Nonoai
A escolha de Chico Mendes
WikiParques, o site dedicado às áreas de preservação brasileiras

O grande pomar dos índios pré-colombianos


Por Vandré Fonseca
Esta é uma floresta com espécies domesticadas em Jkalo Ijkwala, comunidade Jotï, Venezuela. Crédito: Eglee Zent.
Esta é uma floresta com espécies domesticadas em Jkalo Ijkwala, comunidade Jotï, Venezuela.
 Crédito: Eglee Zent.


Manaus, AM -- Um mapa amplo sobre a influência dos povos pré-colombianos sobre a biodiversidade na Bacia Amazônica indica duas fortes evidências de que a natureza não é a única responsável pela generosidade da floresta. Pesquisadores liderados pela bióloga brasileira Carolina Levis descobriram que a concentração de plantas domesticadas na Amazônia é cinco vezes maior do que as não domesticadas. O estudo revela também que a presença destas espécies é maior perto de antigas povoações indígenas.


Para chegar aos resultados, os pesquisadores cruzaram dados obtidos em mais de mil parcelas estudadas pela Rede de Diversidade de Árvores Amazônicas com um mapa de mais de 3 mil sítios arqueológicos encontrados na região. O foco do estudo foram 85 espécies de árvores sabidamente domesticadas por povos amazônicos, para alimentação, construção de abrigos e outros usos.


“É surpreende a grande abundância que essas espécies têm em dominância em toda a Amazônia. Elas dominam grandes extensões da floresta e estão distribuídas em uma área bastante extensa”, afirma Carolina Levis, estudante de pós-doutorado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus, e pela Universidade e Centro de Pesquisa Wageningen, da Holanda. A distribuição e a abundância dessas plantas, de acordo com a ecóloga, só pode ser explicada pela ação humana.


Ajuda bem-vinda
A natureza precisaria de uma ajuda para colocar lado a lado espécies tão úteis quanto diferentes quanto açaizeiros -- palmeiras que preferem solos encharcados --, e castanheiras, árvores de grande porte que se dão melhor em solos drenados. A pesquisadora pondera que se a explicação para essa abundância é a mão do homem então era previsível, e foi demonstrado, que as comunidades de espécies domesticadas estivessem perto de onde viviam as pessoas. “E a gente encontrou que a comunidade de árvores e palmeiras é mais abundância, rica, em florestas próximas a sítios arqueológicos, principalmente em duas regiões, no Sudoeste da Amazônia, na Bolívia e Acre, e no Leste, Foz do Rio Amazonas”, conta.


Para o biólogo Charles Clement, pesquisador sênior do Inpa, as descobertas colocam de lado mitos de longa data sobre uma Amazônia vazia. "Os primeiros naturalistas europeus relataram populações indígenas dispersas que viviam em florestas imensas e aparentemente virgens, e essa ideia continuou a fascinar os meios de comunicação, os formuladores de políticas, os planejadores do desenvolvimento e até mesmo alguns cientistas”, afirma Clement. ”O estudo confirma que muitas áreas da Amazônia que são vistas vazias hoje estão cheias com pegadas ancestrais", completa.
Este é um machado de pedra encontrado na base de uma árvore, durante um inventário realizado no Parque Nacional Yasuní, Amazônia Equatoriana. Crédito: Nigel Pitman, The Field Museum.
Este é um machado de pedra encontrado na base de uma árvore, durante um inventário realizado no Parque Nacional Yasuní, Amazônia Equatoriana. Crédito: Nigel Pitman, The Field Museum.


Clement é um dos coautores do artigo e tem outros estudos que contribuem para a tese de uma floresta modificada pelos povos pré-colombianos. Estudos com a pupunha, da qual se aproveitam os frutos e o palmito, demonstram que há um gargalo genético, ou seja, a indicação de que houve uma seleção direcionada. Outros estudos em desenvolvimento na Amazônia demonstram que diversas espécies encontradas hoje na floresta, como açaí, castanha e mapati, foram domesticadas e selecionadas para atender aos interesses de populações locais. E é um processo que continua vivo.



“Até hoje as populações indígenas estão na Amazônia, em menor número, mas estão se utilizando dessa floresta e manejando”, diz Carolina Levis. “As espécies que foram incorporadas pelas populações modernas aumentaram mais ainda em termos de distribuição e abundâncias”, destaca. Ela cita o caso da seringa, do cacau, da castanha e do açaí, que atualmente possuem valor econômico. Há outras, porém que tiveram seu uso limitado. É o caso da palmeira caiué, oleífera do mesmo gênero do dendê, hoje pouco usada. Carolina Levis conta que essa espécie é muito comum, associada aos sítios arqueológicos e a Terra Preta, no Rio Madeira.


O estudo ainda não traz resposta para uma pergunta importante, sobre a sustentabilidade das atividades de povos pré-colombianos sobre a floresta. Há teses de que eles tenham causado grandes desmatamentos, mas os estudos dirigidos pela pesquisadora brasileira apontam em outra direção. Antes da chegada dos europeus e dos atuais conceitos de sustentabilidade, os amazônidas já sabiam usar a floresta sem destruí-la.


“Pelo que a gente tem encontrado, a grande abundância de espécies de árvores, não acredito que tenha tido um grande desmatamento, não”, afirma. “O que parece é que as pessoas estavam manejando a floresta como floresta, talvez realmente em diferentes áreas de clareira, áreas abertas, mas com pequenas manchas, mas manejando sistemas mais agroflorestais. As árvores não estariam sobrevivendo em grande quantidade, diversidade, em uma área totalmente desmatada”, acredita.

Saiba Mais
Artigo: Persistent effects of pre-Columbian plant domestication on Amazonian forest composition

Na Amazônia, o faroeste continua em ação

Na Amazônia, o faroeste continua em ação

Por Eduardo Pegurier
fazenda-de-corte-_-02-_mg_8026
Desorganização fundiária na Amazônia gera conflitos e agrava desmatamento. 

Foto: Marcio Isensee e Sá


A desordem fundiária impera na Amazônia numa repetição do que ocorreu no oeste americano no século 19. A comparação pode parecer estranha à primeira vista, mas ela está apoiada em resultados quase idênticos: grilagem, insegurança e tiros. A diferença, no nosso caso, é a busca por salvar a floresta amazônica.


Faroeste virou palavra em português durante o auge dos filmes americanos sobre o Far West (oeste longínquo) ou Western, que invariavelmente narravam histórias violentas cujos personagens eram os colonizadores vindos do leste do país, que brigavam entre si e com os indígenas.
Soa familiar? Nos estados que compõem a Amazônia Legal, o fenômeno está em pleno andamento. Ondas de migrantes do sul do país vieram para a Amazônia a partir da década de 70. Durante um bom tempo, incentivados pelo governo a ocupar e desmatar o território antes quase intacto. Aqui também a região é assolada por crimes violentos.


Além das semelhanças óbvias entre o faroeste americano e o brasileiro, há uma questão espinhosa comum entre os dois, pouco atraente para Hollywood e que parece repulsiva ao governo brasileiro: o conflito pela posse da terra baseado na mais completa e duradoura bagunça fundiária.


Os americanos tiveram severos problemas de titulação de terras na ocupação do oeste. Para dar um exemplo, após a Corrida do Ouro, em 1859, a Califórnia chegou a ter 800 jurisdições de propriedade. Esses problemas fundiários duraram décadas mas, no grosso, foram resolvidos no século 19, através de leis e procedimentos que simplificavam a emissão de títulos e consolidavam os cadastros de propriedade.


"O governo não titula e nem sabe de quem são as terras. Impera a posse, com frequência mantida por bons contatos políticos ou na base da força"
 
 
No Brasil, o problema mal foi tocado. No Pará, no ritmo atual, as estimativas para fazer a regularização fundiária de terras estaduais variam de 40 a 80 anos. Assim, se nada mudar, é possível que o estado adentre o século 22 lidando com o problema.


Na Amazônia Legal como um todo, o governo federal mapeou 60 milhões de hectares de terras "não destinadas", nome técnico que indica sem dono privado ou uso específico. Trata-se do equivalente a uma França inteira. Desse total, a Funai se interessa por 3 milhões de hectares para terras indígenas e o Instituto Chico Mendes de Conservação da  Biodiversidade (ICMBio) quer transformar 7 milhões em áreas protegidas. Outros 34 milhões de hectares devem ser destinados a propriedades privadas, quase 3 Inglaterras. Para fechar a conta, faltam 16 milhões de hectares ainda sob análise, cerca de 2 Portugais.


No caso das terras pertencentes aos estados amazônicos, esse mapa não foi feito. Eles não têm nem mesmo estimativa da quantidade de terras não destinadas dentro das suas fronteiras.


Na cobertura jornalística do desmatamento na Amazônia, do Ministério Público ao fazendeiro, todos colocam a regularização fundiária como passo essencial para se controlar a derrubada da floresta. Não é possível punir desmatadores se não se conhece quem é o dono da terra atingida. O governo não titula e nem sabe de quem são as terras. Impera a posse, com frequência mantida por bons contatos políticos ou na base da força.


Desse jeito, a versão brasileira do faroeste segue sem previsão de acabar. Como não precisamos esperar outro século para a invenção do cinema, como foi o caso dos americanos, talvez esteja na hora de fazer uns bons filmes sobre o assunto.

quinta-feira, 2 de março de 2017

A natureza também dá samba

((o))eco
As escolas de samba levam para a avenida os mais variados temas que vão desde homenagens a artistas, escritores, ambientalistas a temas gerais envolvendo a humanidade. A natureza, o meio ambiente não poderiam ficar de fora e desde muito cedo, são abordados pelas escolas. Para não sairmos do tema ambiental neste carnaval, seguem abaixo 11 enredos apresentados ao longo dos anos pelas escolas de samba. Lembra de mais? Então, comente!



 https://youtu.be/LCdG9ff7eK8

Mangueira (1970) - “Um Cântico à Natureza”
Com o samba-enredo composto por Aílton, Dilmo e Nei, a Estação Primeira de Mangueira ocupou o 3º lugar homenageando a natureza.
Brilhou no céu o sol oh! que beleza
Vem contemplar a natureza
Vem abrasar a imensidão, imensidão...
Onde na pesca ou na plantação
Pedras preciosas ou mineração
Rios cachoeiras e cascatas
Frutos pássaros e matas
Enobrecem a nação

Oh! lugar... oh! lugar...
Tudo que se planta dá
Terra igual a esta não há
Imenso torrão de natureza incomum
Onde envaidece qualquer um
Praia e flores
Inspiram amores
E o petróleo te deu mais vida
Solo de vultos imortais
Direi teu e não esquecerão jamais
Oh! pátria querida
De natureza tão sutil
Tens belezas mil |
Isto é Brasil... isto é Brasil... isto é Brasil...


 https://youtu.be/v5gUtkEhUJQ

Salgueiro (1979) - “ O Reino encantado da mãe natureza contra o reino do mal”
Nesse ano, o Salgueiro apostou as suas fichas na defesa ecológica, em que o reino do mal seria a poluição. O enredo foi dividido em quatro partes: A Mãe Natureza, o Mal, A Guerra, O Ressurgimento da Natureza Violentada pelo Mal.
Oh! Doce Mãe Natureza
Seus lindos campos
Verdes matas e seu imenso mar
Oh! que beleza... no infinito
O Sol ardente sempre a brilhar
E o revoar da passarada
Bailando neste céu sem fim
Na primavera...
As lindas flores (bis)
Desabrocham no jardim
Mas surgiu o rei do mal
Com a chegada do progresso
Abalando a estrutura mundial
Poluindo nossa terra
Aniquilando o que Deus abençoou
E quem sofre é a Nação
Nesta batalha
Onde não há vencedor
E a Natureza
Com seu cenário multicor (bis)
Refloresce novamente
Com todo seu esplendor



 https://youtu.be/gk1Hl_ajRgg

Portela (1981) - “Das maravilhas do mar fez-se o esplendor de uma noite"
De autoria de David Corrêa e Jorge Macedo, as maravilhas do mar levaram a Portela ao terceiro lugar do carnaval de 1981 com o famoso refrão "E lá vou eu, pela imensidão do mar".
Deixa me encantar, com tudo teu, e revelar, lalaiá lá
O que vai acontecer nesta noite de esplendor
O mar subiu na linha do horizonte, desaguando como fonte
Ao vento a ilusão desce
O mar, ô o mar, por onde andei mareou, mareou
Rolou na dança das ondas, no verso do cantador
Dança que tá na roda, roda de brincar
Prosa na boca do tempo e vem marear (Eis o cortejo...)
Eis o cortejo irreal, com as maravilhas do mar
Fazendo o meu carnaval, é a vida a brincar
A luz raiou pra clarear a poesia
Num sentimento que desperta na folia ( Amor, amor ... )
Amor, sorria, ô ô ô, um novo dia despertou
E lá vou eu, pela imensidão do mar
Nessa onda que corta a avenida de espuma, me arrasta a sambar (E lá vou eu... )
E lá vou eu, pela imensidão do mar
Nessa onda que corta a avenida de espuma, me arrasta a sambar



https://youtu.be/Z3fNE0_MSe4 


Mocidade Independente de Padre Miguel (1991) - “Chuê, Chuá, as águas vão rolar”
A água está presente no nosso organismo, água é fonte da vida. As águas rolaram em 1991 para a Mocidade Independente de Padre Miguel, tanto que deram a ela o campeonato de 1991.
Naveguei, naveguei, no afã de encontrar
Um jeito novo de fazer meu povo delirar
Uma overdose de alegria
Num dilúvio de felicidade (iluminado)
Iluminado encontrei
O verde e branco mar da Mocidade
Aieieu mamãe oxum
Iemanjá mamãe sereia
Salve as águas de oxalá
Uma estrela me clareia
É no chuê chuê
É no chuê chuá
Não quero nem saber
As águas vão rolar
É no chuê chuê
É no chuê chuá
Pois a tristeza já deixei pra lá
Na vida sou a fonte de energia
Sou chuva, cachoeira, rio e mar
Sou gota de orvalho, sou encanto
E qualquer sede eu posso saciar
Quem dera, um mar de rosas nesta vida
Lavando as mentes poluídas
Taí o nosso carnaval
Eu tô em todas, eu tô no ar, eu tô aí
Eu tô até na liquidez do abacaxi
(naveguei)

https://youtu.be/sU3fpr5cCio
  Lins Imperial (1991) - “Chico Mendes, o arauto da natureza”
No domingo do dia 10 de fevereiro de 1991, a Lins Imperial  desfilou no grupo especial homenageando o seringueiro e ambientalista Chico Mendes.
Quanta maldade é ver
O homem destruir
O que hoje encanta
A Sapucaí
Amazônia
Que verde encantador
Fauna tão linda
Um verdadeiro festival de cor
Terra rica em frutos e pesca
Chico foi o mensageiro
Em defesa da floresta
Os invasores, por ambição
Mataram Chico
Dando seqüência à destruição
Kararaô
O grito forte do índio ecoou
Kararaô
A natureza inteira despertou
Voa pássaro da paz
Voa livre e vai mostrar (mostrar, mostrar)
Que essa área verde existe
Para o mundo respirar, lá, lá, laiá
Para o mundo respirar

 https://youtu.be/TXj6yUVTm_0

Beija-Flor (2004) - “Manôa, Manaus, Amazônia, Terra Santa: Alimenta o corpo, equilibra a alma e transmite a paz”
Com enredo sobre a Amazônia, a Beija-Flor se consagrou bicampeã do Carnaval 2004 no Rio de Janeiro, a escola apresentou a água dos rios da região como o verdadeiro tesouro da Amazônia e alertou para a destruição da floresta.
A ambição cruzou o mar
Trazida pelo invasor
A Espanha veio explorar
Pilhar e semear a dor
Amazônia Terra Santa
Dos igarapés, mananciais
Alimenta o corpo, equilibra a alma
Transmite a paz
Brilhou o Eldorado no coração da mata as guerreiras
Belezas naturais, riquezas minerais
O reino de Tupã ergue a bandeira

Êh! Manôa
Minha canoa vai cruzar o Rio Mar
Verde paraíso é onde
Iara me seduz com seu cantar
Força, mistério e magia
Fruto da energia o meu guaraná
A lágrima que o trovão derramou
A terra guardou semente no olhar
Maués, Anauê, cultura milenar
Anauê, Manaus, Mamirauá
Viva a Paris Tropical
Água que lava minh´alma
Ao matar a sede da população
Caboclo ê a homenagem hoje é
A todo povo da floresta um canto de fé
Se Deus me deu vou preservar
Meus filhos vão se orgulhar
A Amazônia é Brasil, é luz do criador
Avante com a tribo Beija-Flor

https://youtu.be/eM44lFWv9D8

Império Serrano (2005) - “Um grito que ecoa no ar. Homem/Natureza - o perfeito equilíbrio”
Com o enredo que homenageou a natureza, o Império Serrano garantiu a permanência no grupo especial para o ano seguinte. O enredo é sobre o homem e a preservação do seu habitat e um grito de alerta pela preservação do mundo que sofre com a ganância.
Meu grito ecoa pelo ar
Faço um alerta ao mundo
O homem com a sua ambição
Trouxe a tecnologia
Fez mal uso da razão
De mãos dadas com a ganância
Tem tudo que lhe deu o criador ôô
De graça com amor
No seu futuro pode semear a dor
No meu verde das matas tem magia
Equilíbrio perfeito que irradia oi (bis)
As minhas águas cristalinas
São poluídas no seu dia a dia
Choro, com esta tal evolução
Ressentida estou ao ver minha devastação
O homem com sua sapiência
Transformou tudo em ciência
Reciclando a minha natureza
Mexeu com lixo,
Domou os ventos,
Usou o átomo sem consciência
Causou tristeza, degradação
Coloca em risco toda a civilização
E assim num grande gesto de amor
Já tem gente a refletir
E por mim vive a lutar
Um fio de esperança a reluzir
Basta reciclar os seus conceitos
Na reforma ser perfeito
Produzir sem maltratar
Sou a mãe Terra
Só o seu amor vai me salvar
Clamando numa só voz, vem meu Império
A gente tem que pensar, é caso sério (bis)
Pra natureza sorrir, o homem tem que mudar
E aprender a preservar

Mangueira (2006) - “Das águas do São Francisco, nasce um rio de esperança”
A Estação Primeira alcançou o 4º lugar homenageando na avenida o rio São Francisco. Uma carranca na comissão de frente com malabaristas que transformavam a tradicional imagem nordestina num barco para "navegar" o Velho Chico, numa coreografia assinada por Carlinhos de Jesus. Os moradores que habitam à beira do rio também foram lembrados pela escola de samba, com adereços como vasos, peixes e frutas, que são fonte econômica das populações ribeirinhas.
O sertanejo sonhou
Banhou de fé o coração
E transbordou em verde-e-rosa
A esperança do sertão
Vou navegar
Com a minha Estação Primeira
Nas águas da "integração", chegou Mangueira
Opará rio-mar, o nativo batizou
Quem chamou de São Francisco foi navegador
Na serra, ele nasce pequenino
Ilumina o destino, vai cumprir sua missão
Se expande pra mostrar sua grandeza
Gigante pela própria natureza
A carranca na mangueira vai passar
Minha bandeira tem que respeitar
Ninguém desbanca minha embarcação
Porque o samba é minha oração
Beleza o bailar da piracema
Cachoeiras, um poema à preservação
Lendas ilustrando a história
Memórias do valente Lampião
Mercado flutuante, um constante vai-e-vem
Violeiro, sanfoneiro, que saudade do meu bem
O sabor desse tempero, eu quero provar
Graças à irrigação, o chão virou pomar
E tem frutas de primeira pra saborear
Um brinde à exportação, um vinho pra comemorar
O velho Chico! É pra se orgulhar

Portela (2008) - “Reconstruindo a Natureza, Recriando a Vida: o Sonho Vira Realidade”
Com enredo homenageando a natureza, sua riqueza incitando o homem a viver em harmonia e em comunhão com ela, a Portela ficou em quarto lugar no carnaval de 2008 com samba-enredo composto por Diogo Nogueira, Ary do Cavaco, Celsinho de Andrade, Ciraninho e Júnior Scafura.
Eu sou a água, sou a terra, sou o ar
Sou Portela
Um sonho real, um grito de alerta
A natureza que encanta a passarela
Segue os passos do criador
Vai minha Águia Gerreira
Leva essa mensagem de amor
De Oswaldo Cruz e Madureira
Água, fonte eterna da vida
Terra, templo da evolução
O homem surgiu, brincou de criar
Descobriu tanta riqueza
É preciso progredir sem destruir
Viver em comunhão com a natureza
É o rio que corre a caminho do mar
A flor que se abre na primavera
Do ventre a esperança que vem renovar
O sonho de uma nova era
É hora de darmos aos mãos
Lutarmos pro mundo mudar
O líder de cada nação
Precisa parar pra pensar
A palavra é união
Pra reconstruir o nosso lar
Brasil, teu verde é o símbolo da vida
Renova a tua energia
Meu coração é o meu país
O sol vai brilhar e anunciar
Um futuro mais feliz

Portela  (2017) - “Quem Nunca Sentiu o Corpo Arrepiar ao Ver Esse Rio Passar…”
O carnavalesco Paulo Barros promete levar novidades para a avenida “Será um mergulho poético nas águas doces do nosso planeta. Vamos falar dos aspectos culturais, religiosos e dos costumes de alguns rios, como o São Francisco” , afirmou o carnavalesco.
O perfume da flor é seu
Um olhar marejou sou eu
Quem nunca sentiu o corpo arrepiar
Ao ver esse rio passar
Vem conhecer esse amor
A levar corações através dos carnavais
Vem beber dessa fonte
Onde nascem poemas em mananciais
Reluz o seu manto azul e branco
Mais lindo que o céu e o mar
Semente de Paulo, Caetano e Rufino
Segue seu destino e vai desaguar
A jangada vai chegar na aldeia
Alumia meu caminho, candeia
Onde mora o mistério, tem sedução
Mitos e lendas do ribeirão
Cantam pastoras e lavadeiras pra esquecer a dor
Tristeza foi embora, a correnteza levou
Já não dá mais pra voltar (ô aiá)
Deixa o pranto curar (ôaiá)
Vai inspiração, voa em liberdade
Pelas curvas da saudade
Oh mãmãe orayeyeo
Vem me banhar de axé orayeyeo
É água de benzer
Água pra clarear
Onde canta um sabiá
Salve a velha guarda
Os frutos da jaqueira
Oswaldo cruz e madureira
Navega a barqueada aos pés da santa em louvação
Para mostrar que na portela
O samba é religião

Imperatriz Leopoldinense (2017) - “Xingu, o clamor que vem da Floresta”
A escola de Ramos além de exaltar o povo indígena também colocará na avenida grandes dilemas enfrentados por todos como a construção da hidrelétrica de Belo Monte, o desmatamento e o uso de agrotóxicos.

Salve o verde do Xingu… a esperança
a semente do amanhã… herança
o clamor da natureza
a nossa voz vai ecoar… preservar!
Brilhou… a coroa na luz do luar!
nos troncos a eternidade… a reza e a magia do pajé!
na aldeia com flautas e maracás
Kuarup é festa, louvor em rituais
na floresta… harmonia, a vida a brotar
sinfonia de cores e cantos no ar
o paraíso fez aqui o seu lugar
jardim sagrado o caraíba descobriu
sangra o coração do meu Brasil
o belo monstro rouba as terras dos seus filhos
devora as matas e seca os rios
tanta riqueza que a cobiça destruiu
Sou o filho esquecido do mundo
minha cor é vermelha de dor
o meu canto é bravo e forte
mas é hino de paz e amor
Sou guerreiro imortal derradeiro
deste chão o senhor verdadeiro
semente eu sou a primeira
da pura alma brasileira
Jamais se curvar, lutar e aprender
escuta menino, Raoni ensinou
liberdade é o nosso destino
memória sagrada, razão de viver
“andar aonde ninguém andou”
“chegar aonde ninguém chegou”
lembrar a coragem e o amor dos irmãos
e outros heróis guardiões
aventuras de fé e paixão
o sonho de integrar uma nação
kararaô… kararaô… o índio luta pela sua terra
da Imperatriz vem o seu grito de guerra!







Desmatamento encurrala chuva na Amazônia


Por Claudio Angelo, do Observatório do Clima
Desmatamento em Rondônia visto pelo satélite Landsat. Imagem: Google Earth.
Desmatamento em Rondônia visto pelo satélite Landsat. Imagem: Google Earth.



Há tempos os cientistas intuem que o desmatamento altera o padrão de chuva na Amazônia. Um quarteto de pesquisadores dos Estados Unidos acaba de mostrar de que forma isso acontece. Em estudo publicado nesta segunda-feira (20), eles mostram que, em grandes áreas desmatadas, chove mais de um lado e menos do outro, de acordo com a direção do vento. Essa mudança pode ter consequências sérias para o clima da Terra – e para a agropecuária na região Norte.


O grupo liderado pela física indiana Jaya Khanna, da Universidade Princeton (hoje na Universidade do Texas em Austin), chegou a essa conclusão após analisar 30 anos de dados de um lugar pródigo em grandes áreas desmatadas: o Estado de Rondônia, que já perdeu mais de 50% de suas florestas.


Analisando informações de satélite e cruzando-as com medições feitas em campo e modelos de computador, Khanna e colegas mostraram que o sudeste de Rondônia está em média 25% mais seco nos meses de “verão” amazônico (a estação seca), enquanto o noroeste deve um aumento equivalente nas chuvas nestas últimas três décadas. O trabalho está na edição on-line do periódico Nature Climate Change.


Segundo os pesquisadores, a devastação foi tão extensa que alterou o próprio mecanismo de precipitação no Estado: no lugar da chuva amazônica tradicional, na qual a umidade é inicialmente trazida do Atlântico e a chuva é reciclada pela evaporação que ocorre nas próprias árvores, instaura-se um novo regime, no qual a precipitação é empurrada pelo vento por sobre a área desmatada e a floresta na sua borda.


O resultado é que a barlavento (“vento abaixo”, ou seja, no sentido do deslocamento do vento) chove mais, enquanto a sotavento (“vento acima”) fica mais seco.


“É um mecanismo semelhante, mas não equivalente, ao que acontece quando o mar bate num rochedo na praia”, diz Khanna. Segundo ela, a diferença de altura entre os dois tipos de vegetação – a floresta alta e o pasto baixo – faz com que o ar suba, o que causa o aumento da nebulosidade e da precipitação no noroeste do Estado na estação seca. “O oposto, o afundamento do ar e uma redução nas nuvens e na precipitação, é esperado no sudeste – algo similar, mas não equivalente, a uma cachoeira.”


O curioso é que nem sempre foi assim. No passado, quando predominavam pequenos desmatamentos (de cerca de 1 km) em Rondônia, a quantidade de precipitação aumentou. Isso tem a ver com o calor irradiado pelas clareiras, que subia por convecção e, no alto, se encontrava com a umidade evaporada dos remanescentes florestais. Isso favorecia a condensação.


Até hoje essa dinâmica é percebida em locais da Amazônia onde dominam os pequenos desmatamentos.


Quando as porções desmatadas cresceram para 200 quilômetros de extensão ou mais, no entanto, a situação mudou. A “bomba d’água” representada pelas árvores deixou de existir. No palavreado dos cientistas, a circulação deixou de ser “termodinâmica” (ou seja, induzida pela evaporação) para ser “dinâmica”. “Mesmo que essa chuva seja deslocada para outro lugar, você está encurralando a chuva”, diz Ane Alencar, pesquisadora do Ipam (Instituto de
Pesquisa Ambiental da Amazônia).


“Os modelos de computador já mostravam que desmatamentos grandes reduziam a chuva. O pulo do gato deste estudo é que ele propõe um mecanismo pelo qual isso acontece”, diz o físico Paulo Artaxo, da USP. Ele é autor de comentário ao estudo na mesma edição da Nature Climate Change.


Segundo Artaxo, o trabalho de Khanna e colegas é “muito relevante”, porque permitirá agora entender exatamente o que acontece em outras regiões da Amazônia que já sofreram desmatamento extenso, como Mato Grosso. De agora em diante, diz, será possível alimentar modelos computacionais com esse processo para prever o que acontecerá localmente em várias situações de desmatamento.


“Entender o mecanismo desses processos é chave para Brasil”, diz Artaxo. “Por exemplo: o meio-oeste brasileiro vai ter a mesma produtividade de soja?”


O cientista da USP e seu colega americano Jeffrey Chambers, da Universidade da Califórnia em Berkeley, também mostram-se preocupados com o que acontecerá com o carbono das florestas que sobraram na metade seca dessa equação. No limite, ele pode acabar na atmosfera, agravando o aquecimento global. “O sistema não é linear. Se num lugar que tem 2.000 milímetros de chuva você passar a ter 3.000 o fluxo de carbono não muda. Mas, se na área seca a precipitação cair abaixo de um limiar, você mata a floresta.”


“O aumento de 25% [na chuva] no noroeste (ou queda no sudeste) da Rondônia desmatada pode ter consequências para a vegetação nessas regiões, seja pasto ou floresta, e pode resultar em mudanças na vegetação dominante e no tipo e frequência dos incêndios no sudeste”, diz Khanna. “Isso deve ser investigado em estudos futuros.”


BOA NOTÍCIA (EM TERMOS)
A velocidade do desmatamento caiu 82% no bimestre dezembro de 2016-janeiro de 2017, em comparação com o mesmo período anterior. O dado é do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), que lançou nesta segunda-feira seu boletim de alertas de desmatamento. Foram 42 quilômetros quadrados desmatados, contra 227 em dezembro de 2015 e janeiro de 2016.


No acumulado desde agosto, início do período em que se mede a devastação (agosto de um ano a julho do ano seguinte), ainda estamos com problemas: neste ano já fora perdidos 1.261 quilômetros quadrados de floresta, 5% a mais que no mesmo período de 2015/2016.


Lembrando que no biênio 2015/2016 a devastação já foi 29% maior que no ano anterior.

Republicado do Observatório do Clima através de parceria de conteúdo.

Shell avisou sobre aquecimento em 1991


Por Do Observatório do Clima
Protesto do Greenpeace na Suécia contra as ambições árticas da Shell. Foto: Greenpeace.
Protesto do Greenpeace na Suécia contra as ambições árticas da Shell. Foto: Greenpeace.



As mudanças climáticas globais estão acontecendo “a uma velocidade mais rápida do que em qualquer momento desde a Era do Gelo”, aumentarão “a frequência de padrões de tempo anormal” e tornarão ilhas tropicais “inabitáveis”. As conclusões não são de cientistas, mas de uma empresa de petróleo – a anglo-holandesa Shell. E não são de hoje: elas datam de 1991, quando a multinacional produziu um minidocumentário sobre o assunto. Título: Clima de Preocupação.


O filme foi redescoberto pelo site jornalístico holandês The Correspondent e compartilhado com o jornal britânico The Guardian, que publicou reportagem a respeito na última terça-feira (28).


O documentário mostra que a Shell não tinha dúvidas sobre a ameaça da mudança do clima 25 anos atrás. Ele fala, inclusive, que embora houvesse incertezas sobre a dimensão dos impactos, os cenários de aquecimento que descrevia estavam embasados “por um amplo consenso de cientistas” – referência ao primeiro relatório do IPCC, o painel do clima da ONU, publicado em 1990.


Mesmo com o conhecimento do problema, a Shell foi uma das empresas que mais se esforçaram para minar a meta de evitar as mudanças climáticas perigosas neste quarto de século: até 1998, participou de uma organização de empresas que fez lobby para disseminar o negacionismo climático; é uma das principais investidoras no petróleo ultrapesado (e ultrasujo) das areias betuminosas canadenses; e, até 2016, liderava os investimentos em busca de petróleo no Ártico.


“Vejo como até hoje eles defendem teimosamente o uso de gás natural durante as próximas várias décadas, apesar de evidências claras de que os combustíveis fósseis precisam ser eliminados completamente”, disse ao Guardian Jeremy Leggett, o geólogo que cunhou a expressão “bolha de carbono” para se referir aos combustíveis fósseis que terão de ser deixados no subsolo se a humanidade quiser cumprir as metas do Acordo de Paris. “Eu sinceramente acho que essa empresa é culpada de uma forma moderna de crime contra a humanidade.”


A Shell não é a primeira companhia a concluir uma coisa sobre as mudanças do clima e agir no sentido oposto. Muito mais grave foi o caso da americana Exxon, que desde a década de 1970 sabia dos riscos representados pelas mudanças do clima – segundo conclusões dos próprios cientistas da empresa. Mesmo assim, a petroleira foi a maior financiadora de ataques espúrios à ciência e aos cientistas do clima durante décadas. Hoje ela é alvo de inquérito na Justiça dos EUA por ter enganado o público.


O ex-presidente da Exxon, Rex Tillerson, é hoje secretário de Estado dos EUA, responsável pelas posições do país nas negociações internacionais de clima.

Republicado do Observatório do Clima através de parceria de conteúdo.

Nova Edição do Minicurso em Princípios do Manejo Integrado de Formigas Cortadeiras no DF


A Vida Em Sauveiro

~ É dedicado a informações e atividades sobre o pequeno grande mundo das saúvas



Inscrições abertas para o Minicurso na Ecovila Aldeia do Altiplano, em Brasília

Com o objetivo de aperfeiçoar os conhecimentos sobre a biologia das formigas cortadeiras do Cerrado e as técnicas de manejo integrado de infestações em propriedades rurais, o minicurso será realizado nos dias 11 e 12 de março em duas propriedades no Altiplano Leste.
chamada_curso_11e12março2017_2.jpg
O minicurso terá duração de 12 horas de aulas práticas e teóricas, com o seguinte conteúdo básico:
  • Biologia e ecologia das formigas cortadeiras
  • Importância do controle de formigas cortadeiras
  • Identificação dos principais grupos e gêneros de formigas cortadeiras locais
  • Métodos de localização e dimensionamento de formigueiros
  • Métodos de monitoramento, prevenção e controle de infestações
  • Técnicas e práticas de prevenção de danos e de controle de colônias

O minicurso é realizado com o apoio da ONG Mutirão Agroflorestal e do grupo do CSA Brasília. O CSA significa Comunidade que Sustenta a Agricultura, um modelo onde a agricultura é apoiada pela comunidade. O agricultor deixa de vender seus produtos através de intermediários e conta com a participação das pessoas para o financiamento e escoamento da sua produção.


CSA é uma tecnologia social que apresenta alternativas para apoiar a produção local de alimentos orgânicos, promovendo espaços de interação entre as pessoas na cidade e no campo. Quem escolhe fazer parte de uma CSA, deixa de ser um consumidor e se torna um co-agricultor. Passa a colaborar para o desenvolvimento sustentável da região, valorizando a produção local, conhecendo de perto de onde vem o seu próprio alimento e podendo também participar da produção.


A Vida em Sauveiro se orgulha da parceria com o CSA Brasília e a Mutirão Agroflorestal, desejando a todos um ótimo evento.
Inscrições através do link     goo.gl/XC9qGv

Liberar a caça é também problema de segurança pública

Por Rafael Feltran-Barbieri
Javali ao longe. Foto: Carlos Affonso/Flickr.
Javali ao longe. Foto: Carlos Affonso/Flickr.


Quando o Código Florestal de 1965 foi substituído em 2012 pela Lei de Proteção da Vegetação Nativa sob o argumento de que agora teríamos diretrizes mais claras para novos desmatamentos e restauração florestal, não se conteve a mensagem de que há sempre a possibilidade de mudar as regras no meio do jogo, em favor de quem deliberadamente usa a transgressão como estratégia. Não à toa, desde então, os desmatamentos vêm crescendo vertiginosamente, impulsionados pela expectativa da apropriação de nova poupança fundiária, corroborada pelas ações oficiais que enxergam que a harmonização dos conflitos e regularização especulativa poder é advir da dissolução de Terras Indígenas e redução das Unidades de Conservação.


Paisagens assim modeladas pela falta de planejamento territorial vão então se tornando cada vez mais fragmentadas pela pecuária extensiva, ou pela agricultura que protege os silos de grãos com cercas-vivas de eucalipto para amenizar o calor produzido pela imensidão devastada a sua volta. O mosaico árido resultante empurra onças furtivas a se arriscarem contra o gado para fugirem da inanição, e herbívoros igualmente famintos vão de encontro com as monoculturas tóxicas, por serem a única fonte de alimento que resta.


Nesse cenário forjado pelo oportunismo e acordos políticos ensimesmados, a solução para a intolerável presença da fauna refugiada dos desmatamentos é a liberação da caça, segundo o Projeto de Lei 6268/16. Pelo projeto, a erradicação das “pragas” ou seu controle populacional só poderia advir de um plano de manejo aprovado pelos órgãos ambientais. Mas a imprudência dessa proposta não pode ser levada a sério, se foi justamente a negligência e imperícia – para não falar da completa ausência ou incompetência – dos planos de manejo que criaram a situação de praguejamento das pastagens e lavouras.


A fragilidade dos criadouros de javali e javaporco, espécies exóticas que figuram no cerne da discussão, ou o desequilíbrio populacional das capivaras são exemplos patentes.



Se a experiência recente dos efeitos provocados pela mudança do Código Florestal serve de guia, então pode-se esperar que a eventual aprovação da PL 6268/16 deverá trazer uma verdadeira hecatombe. Do argumento de que agora haverá regras claras não se conterá a mensagem de que a caça está liberada, ou se afrouxará no decorrer do tempo anistiando transgressores. Proibida desde 1967, e mesmo com a insuficiência de recursos financeiros e humanos, o Ibama registra em média 2 autos de infração de caça por dia. Pesquisadores dão conta de que o ato ilícito é muito maior. Apenas na região de Campinas, 3 onças-pardas monitoradas pelo Projeto Corredor das Onças, do ICMBio foram mortas em 2016, 2 delas alvejadas sob girais, enquanto a outra foi imobilizada na mata por laços preparados para caça de paca, e sucumbiu de sede, abandonada à própria sorte quando descoberta pelos caçadores que fugiram.



Cientes da inapelável proibição, outros não se intimidam em mostrar nas redes sociais os troféus de seu comportamento indecoroso, não apenas com as leis. Correram pelo país o abate de uma onça preta a remadas, esmagando-se o crânio do animal enquanto desguardado atravessava o rio junto com seu parceiro; as montarias sobre uma onça pintada agonizante em decorrência de tiros na barriga; e os couros de outras tantas estendidas em varais, com as carcaças girando no rolete. Isso se fazem com os animais mais destemidos. Não se pode imaginar o destino cruel reservado aos mais frágeis.




Efeitos extras
A eventual liberação não trará efeitos perversos somente à fauna, senão atingirá em cheio, como uma bala perdida, também nossas comunidades humanas
Oferecer a mera possibilidade do deboche petulante se sentir ainda mais à vontade em decorrência do afrouxamento da lei, ou, de fato, proporcionar o resguardo a uma maioria bem mais racional que simplesmente abateria prontamente o animal sob o argumento de prejuízo econômico, é dar um tiro no pé.


Nenhuma regra rígida que regimente a caça será mais rígida que sua proibição, não havendo razão para se crer que o relaxamento seria, portanto, mais eficiente num ambiente carente de suporte técnico, orientação jurídica, fiscalização e monitoramento.


Pior. 



A eventual liberação não trará efeitos perversos somente à fauna, senão atingirá em cheio, como uma bala perdida, também nossas comunidades humanas. Boa parte da apreensão de armas de fogo que circulam ilegalmente nas ruas, mas principalmente no meio rural, vem de denúncias da prática ilegal de caça.



Desde que a vizinhança cogite a possibilidade de uma permissão especial para abate de animais indesejáveis, a denúncia se tornará mais rara e a averiguação pelas autoridades também, de modo que se perderá de uma só vez o controle da caça e da circulação de armas não registradas.




Mas há sempre como piorar. Posta a PL 6268/16 haverá quem entenda a necessidade de se revisar o porte de arma, dando munição para quem quer relaxar o Estatuto do Desarmamento, como quer a PL 3722/12.




E isso é tudo o que o país não precisa. Atualmente há no Brasil aproximadamente 16 milhões de armas de fogo, mais da metade ilegal, e quase 1 arma para cada 12 habitantes, 1 homicídio a cada 5 horas. O Mapa da Violência de 2016 dá conta de que nenhum lugar do planeta, nem sob guerra civil como na Síria, se mata tanta gente quanto aqui, sendo as principais zonas de emergência dos homicídios os municípios de fronteira, de turismo predatório e do arco do desmatamento, justamente onde as apreensões por caça são acima da média nacional. Por isso, proteger a fauna é também questão de segurança pública.



Da Vinci já decretara há 500 anos que haveria o dia em que o crime contra um animal seria considerado crime contra a humanidade. Talvez agora comece a fazer sentido para nós, porque a arma que mata um animal é a mesma que mata o ser humano. É a mesma que atravessa as fronteiras internacionais, as porteiras das fazendas, os bloqueios nas favelas, os muros de condomínios, os portões dos presídios e as grades das celas, onde tudo termina e recomeça, porque encarcerados, homens tratados como bichos tratam outros homens como outros homens tratam mal os bichos.

quarta-feira, 1 de março de 2017

2016 foi o ano mais quente já registrado na história. O que esperar de 2017?

19 de Janeiro, 2017
   

Mapa de calor: os pontos em vermelho-escuro indicam as regiões do planeta em que as temperaturas médias foram recorde (imagem: NOAA)


A Agência Americana de Administração Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês) confirmou nesta quinta-feira (18) que a média das temperaturas em 2016 foram as mais altas já registradas.


Esse não foi o único recorde quebrado no último ano. Aqui estão apenas alguns:

  • 2016 marcou o terceiro ano consecutivo de recorde na média da temperatura global.
  • Temperaturas médias recorde foram registadas em todos os meses de janeiro a agosto (as temperaturas mensais recorde registadas para Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro ocorreram em 2015).
  • 15 eventos climáticos extremos, cada um custando mais de US$ 1 bilhão, ocorreram apenas nos Estados Unidos, causando um prejuízo total de US$ 46 bilhões em danos somados.
  • A extensão máxima da camada de gelo do Ártico foi a mesma de 2015, a menor registrada na história, e a extensão mínima de gelo foi mesma de 2007, a segunda mais baixa já registrada. 
  • 2016 foi o primeiro ano da história em que a média mensal de concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera não ficou abaixo de 400 partes por milhão (ppm). A última vez em que os níveis de gás carbônico chegaram a esta marca, os humanos ainda não existiam. Sem ações nacionais e internacionais para reduzir as emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE), é remota a chance de que os níveis de CO2 fiquem abaixo de 400 ppm durante nosso tempo de vida.

O aumento continuará em 2017?


De acordo com o Serviço Meteorológico do Reino Unido (UK Met Office), é improvável que 2017 quebre novamente o recorde de temperaturas médias mais altas. Uma das principais razões para essa perspectiva é a recente transição de um El Niño historicamente forte durante grande parte de 2015 e 2016 para uma corrente La Niña que espera-se que permaneça ou mude para condições neutras durante boa parte deste ano. Entre as muitas implicações, o El Niño resulta em anos tipicamente mais quentes do que a média, enquanto os anos de La Niña são mais frios do que a temperatura média global.

Isso significa que as temperaturas globais vão começar a cair nos próximos anos?


Não. El Niño e La Niña influenciam as temperaturas globais anualmente, mas foram os gases do efeito estufa induzidos pelo homem que impulsionaram o aumento das temperaturas globais nas últimas décadas. Mesmo com condições de El Niño e La Niña oscilando de tempos em tempos, dezembro de 2016 foi o 384º mês consecutivo (o equivalente a 32 anos), em que as temperaturas médias mensais globais ultrapassaram a média do século XX. Além disso, cada uma das últimas três décadas têm sido sucessivamente a mais quente registrada, e esta década está no caminho para seguir a tendência mesmo que 2017 não supere 2016 como o mais quente já registrado.

Agir é mais importante do que nunca 

 

 

O fato de as atividades humanas estarem impulsionando o aumento das temperaturas globais é um consenso entre cientistas do clima e instituições científicas líderes em todo o mundo (IPCCNCANASANOAAWMONAS e UK MET Office). A temperatura mundial recorde de 2016, juntamente com os vários outros recordes recentes são lembretes de que é mais urgente do que nunca tomar medidas abrangentes sobre as mudanças climáticas.


Com o aumento das temperaturas globais, surgem impactos e riscos tangíveis. A atmosfera mais quente e o aumento do nível dos oceanos amplificam a intensidade e a frequência dos eventos climáticos extremos, ameaçando comunidades, economias e a segurança nacional. As declarações recentes do presidente americano Donald Trump, retrocedendo em planos nacionais e internacionais, preocupam em uma época em que precisamos de uma ação mais urgente.



 Agora, mais do que nunca, o mundo precisa buscar tanto a mitigação quanto a resiliência para se preparar para os impactos que já são inevitáveis. Ao mesmo tempo, é necessário evitar uma piora ainda maior. Agir para combater as mudanças climáticas hoje é, além de salvar vidas, um investimento inteligente que pode economizar milhares de dólares da população ao evitar futuros danos e, ao mesmo tempo, incentivar a contrução de uma economia mais forte e limpa.
***
Este texto foi escrito por C. Forbes Tompkins e originalmente publicado no site do WRI.

Amazônia Esquartejada




Em artigo publicado neste domingo (12/2) no jornal Folha de S.Paulo, o sócio fundador do ISA, Marcio Santilli, critica o Projeto de Lei (PL) que subtrai mais de um milhão de hectares da extensão de cinco Unidades de Conservação e projeta um cenário de esquartejamento definitivo da floresta em fragmentos descontínuos

As rodovias federais (BRs) promovem a integração terrestre entre a Amazônia e o centro-sul do Brasil e se estendem a países vizinhos como Bolivia, Perú, Venezuela e Guiana Francesa. Também são fundamentais para o trânsito de pessoas e o escoamento de produtos regionais. Todavia, 80% dos casos de desmatamento na Amazônia ocorrem na faixa de 30 km ao longo das estradas pavimentadas.

Trecho da BR-163, no Mato Grosso 

Quando o governo federal anunciou, em 2003, a pavimentação da BR-163 (Cuiabá-Santarém), desencadeou-se um movimento chamado BR-163 Sustentável que propôs a implantação, concomitantemente à pavimentação da estrada, de um programa regional de desenvolvimento sustentável, para evitar a repetição dos gigantescos processos de grilagem de terras e desflorestamento dos tempos de ditadura no trecho paraense da Rodovia Transamazônica (BR-230) e entre o noroeste de Mato Grosso e Rondônia (BR-364).


Daí resultou, entre outras coisas, a criação de um mosaico de áreas de conservação federais e estaduais, que interliga blocos de Terras Indígenas nas bacias dos rios Xingu e Tapajós, visando assegurar a contiguidade da floresta. Porém, em vez de implementar e proteger essas áreas, os últimos governos vêm reduzindo sua extensão na região, liberando áreas que ficam à mercê de invasões, desmatamento e grilagem.


No governo passado, já se havia criado o precedente de alterar limites de áreas protegidas por meio de Medidas Provisórias (MPs), para reduzir áreas de Unidades de Conservação que seriam inundadas com a pretendida implantação de um sistema de hidrelétricas na Bacia do Tapajós. No governo atual, outras duas MPs tornaram a alterar limites de Unidades de Conservação nessa região.


Como se fosse pouco, deputados e senadores do Estado do Amazonas estiveram esta semana com o ministro Eliseu Padilha, da Casa Civil, para acertar com o governo o envio de um Projeto de Lei (PL) que subtrai mais de um milhão de hectares da extensão de cinco Unidades de Conservação criadas no final do governo passado. Eles querem extinguir a Área de Proteção Ambiental de Campos de Manicoré, diminuir o Parque Nacional de Acari, a Reserva Biológica de Manicoré, as Florestas Nacionais de Urupadi e Aripuanã, no sul do Amazonas e ao longo das BRs 230 e 319. Veja o mapa abaixo.


Essas Unidades de Conservação completam uma barreira de áreas protegidas que vem sendo construída há vários governos para conter a expansão das frentes predatórias de desmatamento que avançam para o sul do Amazonas a partir do norte do Mato Grosso e de Rondônia. Protegem ainda uma parte do eixo da BR-319, que liga Porto Velho a Manaus e que os políticos do Amazonas querem ver pavimentada.


O que está em jogo é muito mais do que o desmatamento e a grilagem. Estão se abrindo fendas transversais, contínuas e expansivas ao longo da Amazônia, de sul para norte e de leste para oeste, projetando um cenário de esquartejamento definitivo da floresta em fragmentos descontínuos, com graves implicações para os fluxos genéticos e de umidade. Ilhas de floresta não conservam animais, plantas e paisagens como um ambiente contínuo.

Trecho da BR-319 que liga Porto Velho a Manaus  

Outra consequência drástica é o provável impacto nos padrões de distribuição de umidade. Correntes atmosféricas amazônicas carregam vapor d´água, como rios voadores, provendo boa parte das chuvas que suprem as principais regiões agrícolas e metropolitanas do Brasil e dos países do Cone Sul.
A presente geração testemunhará o esquartejamento definitivo da maior floresta tropical do mundo se não houver resposta forte e rápida da sociedade aos que, no governo e no Congresso, só se movem em função de interesses próprios e imediatos.