sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Fundo do clima dará US$ 500 mi para combater desmatamento

Fundo do clima dará US$ 500 mi para combater desmatamento

Por Luciana Vicária, do Observatório do Clima
Plantação se expande sobre área de cerrado em Balsas (MA). Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace.

Plantação se expande sobre área de cerrado em Balsas (MA). 
Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace.


O Fundo Verde do Clima (GCF) aprovou nesta segunda-feira (2) no Cairo um pacote de apoio de US$ 500 milhões a países em desenvolvimento que comprovarem reduções de desmatamento até 2022. O Brasil está de olho no dinheiro e acha que pode receber até US$ 150 milhões por ter reduzido a devastação na Amazônia e no cerrado entre 2014 e 2018, em relação a um valor de referência.


O pacote do GCF, principal instrumento de financiamento climático existente hoje, pagará US$ 5 por tonelada de carbono florestal reduzido. Ele é uma boa notícia para países com grandes áreas florestais e grande potencial de cortar emissões de carbono por desmatamento. Ele destina 5% do valor total já arrecadado pelo fundo (US$ 10 bilhões, um décimo do que os países ricos se comprometeram a aportar por ano a partir de 2020) às chamadas ações de REDD+, sigla criada na novilíngua da diplomacia climática para “redução de emissões por desmatamento e degradação florestal” (o sinal de + inclui o papel da conservação, o manejo sustentável e o aumento de estoques de carbono).


A decisão desta segunda-feira consagra a abordagem adotada no Fundo Amazônia e defendida pelo governo brasileiro de que os pagamentos por REDD+ devem ser voluntários e mediante resultado. Alguns países tropicais, várias ONGs e parte da comunidade científica defendem que o desmatamento ao menos em parte possa integrar um mercado de carbono, no qual o desmatamento reduzido ou evitado gere “créditos” transacionáveis num mercado internacional.


Ela também ajuda, ao menos em tese, a aplacar as reclamações dos governadores dos Estados amazônicos, que criticam o monopólio do Fundo Amazônia (portanto, do governo federal) sobre os recursos para redução do desmatamento. Pelas regras aprovadas pelo GCF, os Estados poderão submeter diretamente projetos ao fundo, desde que seguindo as regras da Comissão Nacional de REDD (Conaredd) e desde que o Brasil esteja credenciado para receber o dinheiro.
Mas será que está? Atualmente existem 54 instituições autorizadas a operar os recursos do GCF. Nenhuma delas é brasileira.

Algumas estão em processo, como o BNDES, a Caixa Econômica Federal e o Funbio, mas ainda não receberam o sinal verde. “Felizmente a situação não impede o país de apresentar seus projetos e receber o benefício, mas o obriga a se associar a algum banco internacional de desenvolvimento, o que reduz o montante de repasse e pode criar dificuldades para levar os recursos até onde ele de fato é necessário”, diz o engenheiro florestal Mariano Cenamo, secretário-executivo adjunto do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (Idesam). De acordo com ele, o Brasil já tem capacidade institucional para ter uma instituição representada no GCF, mas questões políticas e burocráticas impedem esse avanço.


“O Fundo Verde do Clima, no entanto, chega em um momento em que os investimentos estão escassos para a conservação da floresta.”.

O Fundo Verde do Clima, no entanto, chega em um momento em que os investimentos estão escassos para a conservação da floresta. O Fundo Amazônia, por exemplo, que já captou ao longo da última década mais de US$ 1 bilhão e hoje é uma das principais fontes de verbas para projetos ligados à preservação do bioma, está com orçamento apertado para 2018. Isso se deve à alta de 58% no desmatamento no Brasil no ano passado, que levou ao corte de investimento de cerca de R$ 200 milhões pela Noruega, um dos principais países que sustentam o fundo.


Os recursos do governo federal também diminuíram. O Ministério do Meio Ambiente (MMA) tem de lidar com um corte orçamentário de 43% neste ano (51% se contabilizadas as emendas parlamentares). Em vez de contar com os R$ 911 milhões, previsão para custeio e investimentos, os recursos do MMA serão menos da metade, ou R$ 446 milhões, tendo de reduzir, inevitavelmente, os recursos já escassos destinados às políticas de combate ao desmatamento. Para manter a fiscalização do Ibama de pé, o ministro Sarney Filho (Meio Ambiente) precisou recorrer a R$ 56 milhões do Fundo Amazônia.


Mesmo com a inversão atual da tendência de redução do desmatamento, o Brasil deixou de emitir 6 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa entre 2006 e 2016. De acordo com Pedro Soares, gerente do Programa de Mudanças Climáticas e REDD+ do Idesam, esse resultado pode – e deve – ser usado para obtenção de créditos nas mais diversas fontes de financiamento. “Pelo menos até o momento, o que o Fundo Verde tem a oferecer é pouco diante da escala que temos a ofertar”, afirma. “Mas é um começo, e um investimento que não podemos desprezar”, diz.


O REDD+ tem sido uma ferramenta para a Amazônia, mas até agora não para o cerrado, que ano após ano vê suas florestas serem destruídas de forma muito mais veloz. O último dado divulgado (2015) revela que o desmatamento do cerrado já supera em 52% o ritmo de devastação na Amazônia. 


 O bioma ainda não conta com um mecanismo oficial para medir os níveis de emissão da floresta. O país submeteu recentemente à Convenção do Clima o chamado Frel, nível de referência de desmatamento a partir do qual as reduções poderão ser calculadas. Mas o Frel do cerrado ainda não foi aprovado, diz Brenda Brito, pesquisadora do Imazon.


A maior falha como país florestal, segundo Soares, é a falta de uma estratégia de longo prazo para a preservação da floresta, e de disposição do governo de ampliar as fontes de captação de recursos para além do Fundo Amazônia. De acordo com ele, fundos como o GCF devem se tornar comuns com os prazos de cumprimento das metas estabelecidas pelo Acordo de Paris. “É a nossa chance não apenas de conseguirmos ajuda externa para preservarmos nosso patrimônio natural, como o de cumprirmos a nossa meta de emissão e amenizarmos os efeitos das mudanças climáticas”, disse.

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ICMBio prorroga prazo para inscrição de projetos de educação ambiental

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Inscrições foram estendidas até sexta-feira, dia 13/10. Apesar de voltado para gestores/coordenadores
do ICMBio, a execução das propostas contará com participação de parceiros externos.

O  Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) busca propostas devem ser voltadas ao fortalecimento e implementação de programas, projetos e ações estruturadas de Educação Ambiental nas unidades descentralizadas do instituto. O prazo inicial terminaria na quarta-feira (04/10), mas foi prorrogado até a próxima sexta-feira (13/10) para dar chances a que mais gestores de unidades de conservação e de coordenações regionais possam se inscrever.


O processo é restrito a servidores do órgão, mas as atividades de educação ambiental são realizadas com vários parceiros externos. Serão selecionadas 20 propostas que devem estar alinhadas com as finalidades e orientações legais e institucionais do ICMBio. Cada proposta selecionada poderá receber o valor de até R$ 10 mil.  São elegíveis projetos e processos de educação ambiental que se enquadrem em ao menos uma das linhas abaixo:

  • Formação de educadores ambientais;
  • Educação ambiental nos processos de elaboração de Projetos Políticos Pedagógicos mediados pela Educação Ambiental (PPPea);
  • Educação ambiental com juventude, mulheres, ou voltada à gestão territorial, participação social, cidadania, empoderamento e autonomia de atores estratégicos na gestão da biodiversidade
  • Educação ambiental nos processos do ICMBio, em especial: na produção sustentável, monitoramento participativo da biodiversidade, gestão do fogo, plano de manejo, gestão participativa e conselhos, gestão de conflitos de interface territorial e nos processos de envolvimento das comunidades na conservação de espécies alvos de PAN.
 
Para inscrição, os coordenadores/gestores interessados devem preencher e enviar formúlarios exigidos para o e-mail dgpea@icmbio.gov.br. Mais informações também podem ser obtidas neste e-mail.


*Com informações da Comunicação ICMBio

Florestas tropicais estão perdendo carbono, revela estudo


05.10.2017Notícias
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O aumento da degradação ambiental tem feito com que florestas tropicais não consigam mais contrabalançar as emissões de carbono. Apesar de armazenarem grandes quantidades de carbono, as perdas têm sido maiores do que os ganhos. As florestas tropicais estão emitindo 861 milhões de toneladas de carbono e só conseguem absorver 436 milhões, o que representa cerca de 425 milhões de toneladas líquidas de carbono na atmosfera.


Os dados são de um estudo de pesquisadores do Woods Hole Research Center, parceiro do IPAM e da Universidade de Boston. O alerta evidencia a urgência de pararmos os processos de degradação e alcançarmos o desmatamento zero na Amazônia. Os autores, que também criaram um produto de sensoriamento remoto para a medição de emissões tanto pelo desmatamento quanto pela degradação, lembram que a América Latina é responsável por 60% das emissões contabilizadas.


“As florestas tropicais atuam como uma grande poupança de carbono.  Mas  a degradação florestal e o desmatamento acabam com esse ganho”, explica Paulo Brando, pesquisador do IPAM.  “Ou seja, se parássemos de degradar e derrubar florestas, a assimilação de carbono seria gigantesca, trazendo a balança para um equilíbrio positivo”.


Os resultados são fruto da análise de 12 anos de informações de satélite com pesquisa de campo. É a primeira vez que um estudo com esse nível de detalhamento é publicado, especialmente ao identificar os níveis de degradação interno das florestas, muitas vezes escondido por uma superfície supostamente preservada.


Este processo – normalmente causado por incêndios, extração de madeira e secas prolongadas – é responsável por cerca de 70% das emissões, contra 30% do desmatamento. Uma magnitude que era até então desconhecida.


“Isso mostra que não podemos nos acomodar. A floresta não está fazendo o que se imaginava que ela fazia. O volume de floresta não é mais suficiente para compensar as emissões”, disse o pesquisador Alessandro Baccini, um dos autores do estudo, ao jornal The Guardian. O único caminho, lembra, é restaurar as áreas degradadas.

Brasil pode ter recorde de incêndios em 2017

 

 

Nesse contexto, a realidade é preocupante. O Brasil já registrou, em 2017, mais de 204 mil focos de incêndio, quase metade deles (49%) na floresta amazônica. Muito próximo do recorde de 270 mil focos registrado em 2004. Em 90% dos casos os incêndios começam por ação humana.


Os satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – o sistema de monitoramento de queimadas mais robusto do mundo – mostram dezenas de unidades de conservação afetadas ou destruídas pelo fogo. O Parque Nacional do Araguaia acaba de perder 320 mil hectares, área duas vezes maior que a cidade de São Paulo e mais da metade da reserva, que tem 555 mil hectares de cerrado. O Parque Nacional do Xingu, também seriamente afetado, está em chamas há mais de 30 dias.


Estudos realizados na Fazenda Tanguro, no Mato Grosso, por pesquisadores do IPAM, mostram que se uma seca como a de 2010 ocorrer em meados do século, entre 2040 e 2069, cerca de 550.000 km2, uma área maior que a França, estará vulnerável a incêndios florestais intensos.


Um outro estudo mostrou que mudanças no uso da terra, juntamente com eventos climáticos extremos, tornam as florestas tropicais úmidas mais inflamáveis. Estes incêndios podem, no longo prazo, convertê-las em savanas derivadas – florestas degradadas pela ação humana, o que contribui para o aumento da emissão de carbono. O experimento aconteceu em uma área de 150 hectares na Tanguro dividida em: queimada anualmente entre 2004 e 2010 (exceto 2008), queimada trienalmente e área não queimada que serviu como controle.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Folha de S. Paulo - Com demanda aquecida, análise de oceanos vira bom negócio

NADIA PONTES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Quando se lançaram no mercado, em 2010, os sócios da Salt Ambiental ofereciam um serviço ainda incomum entre empresas de pequeno porte no Brasil: o processamento de variáveis meteoceanográficas, como altura e direção das ondas, temperatura, salinidade e nível do mar.

Apesar dos 8.600 quilômetros de costa, o monitoramento das condições do oceano no país era escasso antes do aquecimento do setor, que foi impulsionado pela exploração de petróleo e pelo transporte de carga.

Desde então, os oceanógrafos e ex-colegas que fundaram a empresa executaram mais de 200 análises para estudos e implantação de empreendimentos, a maior parte ligada às áreas petrolífera e de logística.

"As ciências marinhas no Brasil ainda são uma novidade. Na parte operacional, é quase inexistente", diz Daniel Ruffato, diretor da Salt Ambiental, incubada no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia da USP.

A empresa, que faturou R$ 1,2 milhão em 2016, recebeu alguns aportes da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), no total de R$ 2,5 milhões.

João Nicolodi, pesquisador e professor da Furg (Universidade Federal do Rio Grande), concorda que o país ainda engatinha nessa área.

Ele coordena a Rede Ondas, que tem oito boias espalhadas em águas rasas, com até 20 metros de profundidade, e disponibiliza a informação de graça na internet.

A rede faz parte da Goos-Brasil, sistema nacional de observação dos oceanos supervisionado pela Secretaria da Comissão Interministerial de Recursos do Mar.

No total, a plataforma reúne informações produzidas por mais de 400 equipamentos de monitoramento.

O acompanhamento dessas condições contou com apoio da Marinha, que, segundo Nicolodi, teve papel fundamental. "Eles têm a estrutura para monitorar águas profundas, de até 500 metros. Poucas embarcações podem fazer esse trabalho".

A disponibilização dos dados para pesquisa foi um entrave, já que informações coletadas por empresas privadas e projetos governamentais não se tornam públicas.

"As empresas geram dados, mas eles não 'conversam', não há padronização ou um sistema", diz Ruffato.

Esse cenário motivou a criação do Sistema Integrado de Monitoramento Ambiental Participativo do Litoral Norte, que contou com a Salt.

Desde 2014, a plataforma on-line produz dados georreferenciados sobre as condições ambientais, com informações sobre praias, pontos de mergulho, avistamento de animais marinhos e até crimes contra o meio ambiente. Qualquer pessoa pode acessar as informações e contribuir com o sistema.

"Ainda precisamos avançar muito. Com o que construímos nos últimos anos, melhoramos os estudos de dinâmica costeira e dos oceanos. Passamos a ter dados reais para poder comparar com os modelos, que ficaram mais realísticos", afirma Nicolodi.

Os estudos na área, que incluem do monitoramento sobre a saúde do oceano e observação das mudanças climáticas até a previsão meteorológica e planejamento, são estratégicos para o país.

"Séries estatísticas sobre comportamento das ondas são fundamentais numa obra de engenharia. Elas evitam erros e tragédias, como a que aconteceu na ciclovia que desabou no Rio", diz Nicolodi, citando a queda de parte da pista à beira-mar que matou duas pessoas em 2016, às vésperas dos Jogos Olímpicos.


Folha de S. Paulo – Devemos deixar ecossistemas íntegros e saudáveis de herança/ Artigo/ Yara Schaeffer Novelli

YARA SCHAEFFER-NOVELLI é professora da USP, sócia-fundadora do Instituto BiomaBrasil e membro do Grupo de Especialistas em Manguezal da União Internacional para a Conservação da Natureza - SSC/IUCN

Especial para a Folha

A linha de costa do Brasil tem extensão de cerca de 8.500 quilômetros e uma superfície de zona costeira, o espaço geográfico de interação do ar, do mar e da terra (que inclui seus recursos, renováveis ou não) da ordem de 600 mil quilômetros quadrados.
Nessa faixa, contamos com 463 municípios, ou 8% do total de cidades brasileiras. O número algumas inclui cidades de grande porte, como nove capitais.


É nesse espaço -caracterizado por ambientes especialmente sensíveis, vulneráveis e frágeis, devido à presença de ecossistemas como manguezais, estuários, marismas, lagunas e praias- que se encontra algo como 60% da população do país.
A interação entre os componentes desse sistema é um verdadeiro quebra-cabeça.
Temos uma zona costeira cujos limites não podem ser delineados, pois a própria linha de costa que determinaria a fronteira entre a terra emersa e o mar é dinâmica, variando com processos naturais, de ordem ambiental, e de origem antrópica, ou seja, induzidos pelo homem.


Entre os processos ambientais que geram impactos e alteram as feições dessa área litorânea, identificamos os geológicos, os climáticos e os decorrentes da própria dinâmica costeira, influenciada por tempestades, furacões, tormentas, ressacas e transgressões marinhas, quando o nível do mar sobe para perto do solo e causa inundação.
Esse último fator pode ser compreendido melhor quando se fala do aumento do nível do mar.
Estamos falando de cenários de elevação de 5,4 centímetros por ano neste século, segundo estudos conduzidos pelo físico e meteorologista José Marengo.


Esse avanço do mar em relação à terra emersa provoca inundações de água do mar nas cidades costeiras e contaminação do lençol freático, aumentando a sua salinidade.
Isso compromete a agricultura de pequena escala, além de causar o estreitamento de praias e a erosão da linha de costa, com perda de quarteirões inteiros.
Esse quadro quase sinistro pode ser equacionado a partir de mudanças ou de adaptações do comportamento dos seres humanos.


Esse avanço começa por admitir que seres vivos, manguezais e oceanos fazem parte de um mesmo sistema, o planeta Terra.

Os ciclos de vida, embora tenham suas peculiaridades, têm suas escalas de espaço e tempo próprias para se reproduzirem de forma sustentável, obedecendo às diferentes escalas produtivas.
É essa reprodução que irá repor os estoques explorados, desde que respeitem as taxas de reprodução das respectivas populações.

Esse respeito às taxas de "reposição" dos seres representa uma revisão nos moldes da sustentabilidade dos recursos naturais para retomada do desenvolvimento econômico sob bases duradouras, à semelhança do que foi proposto na década de 1970 pelo economista alemão E. F. Schumacher, no livro "O Importante é Ser Pequeno".

Atualmente lidamos com "mercados artificiais", onde são negociadas mercadorias que não foram geradas para serem "vendidas", como o meio ambiente, segundo o filósofo austríaco Karl Polanyi.
Com vista à sustentabilidade de ecossistemas complexos, como aqueles com que estamos lidando, é essencial que o uso dos recursos não comprometa a saúde ou a integridade dos sistemas em nenhum nível.

Cabe esclarecer que saúde e integridade não são sinônimos: saúde se refere ao presente e integridade faz referência a período de tempo mais abrangente, que lida com a habilidade de manutenção dos sistemas em um futuro ainda imprevisível.

Somos responsáveis pelo patrimônio herdado de nossos antepassados, de forma que ele passe para as futuras gerações. Elas, igualmente, serão responsáveis por esta cadeia de custódia.

A natureza é resiliente, capaz de auto-organização e de autorreparação. Como partes do sistema, precisamos apenas deixar de herança a saúde e a integridade deste "capital de múltiplas gerações".

Seminário Internacional Dia 5 e 6 de Outubro de 8h às 18h


 Seminário Internacional

Dia 5 e 6 de Outubro de 8h às 18h
Auditório da ADUnB na L3 Norte
Universidade de Brasília (UnB)
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O Seminário Internacional sobre Sustentabilidade intenciona gerar aproximações sucessivas entre importantes atores da área socioambiental para o permanente debate sobre Sustentabilidade e o compartilhamento de ações concretas em busca de formulações de ordem conceitual e prática, a serviço da coletividade.

A programação pode sofrer alterações sem aviso prévio.
As inscrições são limitadas.
+55 (61) 3218-9118 | 3218-9126
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Eng.a Agrônoma
Tel.: (061) 9382-0072
"Faça diferente, faça consciente"
Projeto CiclObservatório
Projeto Bicicletada Nacional Rio+20

Folha de S. Paulo - Dois anos após Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, há pouco o que comemorar/ Artigo/ HELOISA OLIVEIRA E MAITÊ GAUTO

Há dois anos, a Cúpula das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável se reunia em Nova York, na sede da ONU, para discutir o futuro do nosso planeta.


Com o encerramento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) em dezembro de 2015, era necessário estabelecer uma nova agenda de desenvolvimento para os próximos 15 anos.

Nasciam os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), um acordo internacional com 17 objetivos e 169 metas que devem ser alcançadas até 2030. Formava-se mais um pacto para o progresso e o desenvolvimento de forma justa e equitativa, integrando as dimensões social, econômica e ambiental.


Chegamos a 2017, e o Brasil patina na implementação da Agenda 2030 no país. A Fundação Abrinq, representante da sociedade civil na Comissão Nacional para os ODS, vem acompanhando de perto essa lenta jornada inicial, com a preocupação de que o país estabeleça as condições necessárias para a boa implementação nacional dos ODS e que crianças e adolescentes tenham seus direitos mantidos e olhados com a devida prioridade.


Sem dar a atenção merecida a esse público, o Brasil não se construirá sobre as bases do desenvolvimento sustentável. As desigualdades internas brasileiras pesam mais sobre as crianças e adolescentes, principalmente sobre aquelas mais pobres e em maior situação de vulnerabilidade.

Hoje, duas em cada cinco crianças de 0 a 14 anos vivem em situação de pobreza no País, ou seja, têm renda familiar per capita de até ½ salário mínimo. E esse percentual ultrapassa 60% em Estados como Alagoas, Maranhão, Ceará, Bahia e Pernambuco.


Como tornar o Brasil um país desenvolvido sem mudar essa realidade? Dez dos 17 ODS se relacionam diretamente com a vida e a cidadania de crianças e adolescentes. Se quisermos realmente nos comprometer com o cumprimento da Agenda 2030, é fundamental enfrentarmos os imensos desafios de forma equilibrada entre os Estados brasileiros.


A região Nordeste tinha mais de 60% da sua população até 14 anos vivendo em situação de pobreza, por exemplo. A redução das desigualdades deve estar calcada em uma robusta estratégia de implementação subnacional, envolvendo Estados e municípios desde o início e até 2030.

Para facilitar o monitoramento desse processo, a Fundação Abrinq atua a favor da construção de uma plataforma de metas e indicadores nacionais, que permitirão o monitoramento dos progressos nacionais na implementação da Agenda 2030 no país.


Entretanto, para que esse monitoramento seja bem-sucedido, também é importante que gestores públicos das diferentes esferas conhecem e estejam engajados, assim como o conjunto da sociedade brasileira. Ainda, é fundamental a ampliação dos mecanismos de participação da sociedade civil, que está fortemente engajada nessa agenda.


Essas são condições para fortalecer a discussão sobre o financiamento das políticas, programas e ações em âmbito federal, estadual e municipal. Somente assim, o Brasil terá os pilares necessários para construir seu caminho a favor do desenvolvimento sustentável.

HELOISA OLIVEIRA é administradora executiva da Fundação Abrinq

MAITÊ GAUTO é líder de políticas públicas da Fundação Abrinq. Heloísa e ela são representantes da sociedade civil na Comissão Nacional para os ODS

A importância das árvores mortas

A importância das árvores mortas

Por Marcos Rodrigues*

Mantenho em meu jardim três árvores mortas, que continuam em pé. Os jardineiros e paisagistas ficam horrorizados com minha decisão, aparentemente insana. Árvores mortas apodrecem, e seus galhos podem cair sobre transeuntes e residentes, levando-os à morte. Eu concordo.


A primeira delas é um ibirapitá de uns dez metros de altura e que morreu há cerca de doze anos. Aprendi que ibirapitás não têm vida muito longa, diferente dos milenares jequitibás. Os galhos foram apodrecendo e caindo. Os mais perigosos eu tive o cuidado de retirá-los com a ajuda de serrotes. Assim, ficou por ali, como um totem prateado, somente o tronco principal, de uns sete metros de altura e uns trinta a quarenta centímetros de diâmetro, ornamentando meu jardim. Certo dia, um pica-pau-carijó (Colaptes melanochlorus) começou a cavar um buraco.


Ficou dias martelando, com seu poderoso bico e infatigável pescoço um perfeito oco redondo, cuja entrada tinha cerca de menos de dez centímetros de diâmetro. Entre um turno de marteladas e outro, o pica-pau voava para uma sucupira-branca (Pterodon emarginatus) bem próxima e cantava suas notas agudas enquanto parecia descansar. Acostumou-se tanto à minha presença, que deixava que eu me aproximasse até três metros de distância; depois voava gloriosamente para a sucupira-branca. Ali botou ovos, criou os filhotes, trazendo-os insetos incansavelmente por vários dias quando, por fim, todos desapareceram. Esse ciclo se repetiu pelo menos por quatro primaveras. Todo ano o pica-pau ali aparecia, dava uma ajeitada no seu oco, criava sua prole, e desaparecia.


A partir de certo ano, o pica-pau desistiu de fazer do oco do ibirapitá sua morada, muito embora continue frequentando o jardim em busca de suas presas. Foi nesta ocasião que um bem-te-vi-rajado (Myiodnastes maculatus) apoderou-se do velho oco, e durante os dois anos seguintes botou seus ovos e criou seus ninhegos até estes alçarem voo.

Este ano fui obrigado a retirar o totem por motivos de segurança, pois a queda da árvore seria eminente. O bem-te-vi-rajado voltou; procurou pelo tronco; piou; voou por todos os lados procurando seu antigo lar, e nada. Resolveu este ano fazer o ninho entre a haste de uma folha velha de palmeira e o seu tronco, o que, de certo modo, mimetiza uma cavidade.

A segunda árvore morta que eu mantinha em pé era um capitão-do-campo (Terminalia argentea). Ela não era muito grossa, mas tinha vários ramos, e sobre ela crescia e florescia uma belíssima jibóia com suas enormes folhas em forma de orelha de elefante verde claro, manchadas de prata e ouro, a comum Epipremnum aureum. A jiboia transformava o singelo tronco da árvore morta em um ambiente complexo, tropical, cheio de reentrâncias, lacunas e raízes expostas onde eventualmente outras plantas aproveitavam o substrato para também crescer ali.

Foi num pequeno galho podre de não mais de dez centímetros de diâmetro, protegido pelas folhas da jiboia, que um pica-pau-anão (Picumnus cirratus) fez sua cavidade. Com rápidos movimentos de pescoço e um pequeno, mas poderoso bico, o pica-pau-anão foi capaz de escavar um buraco de menos de três centímetros de diâmetro, onde depositou seus ovos e criou seus filhotes. Voltou ao mesmo oco por três anos consecutivos. Infelizmente os galhos deste defunto capitão-do-campo não resistiram por muito tempo e acabaram sendo eliminados do jardim. Mas os pica-paus-anões continuam a frequentar o jardim e, vez ou outra os escuto cantando aquele inconfundível trinado fino e longo.

A terceira árvore morta eu não sei como se chama, pois já estava morta quando cheguei ao jardim pela primeira vez, há mais de quinze anos. Ela permanece até hoje, quase sem galhos, mas o tronco principal continua aparentemente firme e forte. Ali, durante nove anos consecutivos viveu uma família de João-graveto (Phacellodomus rufifrons). O joão-graveto constrói um grande ninho que é um amontoado de gravetos tão pesado que acaba por pender o galho em que está fixado. O ninho, diferente da maioria das outras aves, é usado durante todo o ano, e nele famílias de até dez indivíduos pernoitam cotidianamente.

Se várias espécies de aves podem usar o mesmo tipo de local para construírem seus ninhos, a competição entre indivíduos, tanto das mesmas quanto de diferentes espécies, é inevitável, inclusive sucedendo a morte aos mais fracos. À medida que retiramos as árvores mortas do ambiente, aumentamos a competição entre estas aves que necessitam de cavidades ou ocos. Assim, o número de espécies ou de indivíduos dominantes pode afetar o número e a distribuição dos outros subordinados. Em situações extremas, uma determinada espécie pode ser extinta de áreas onde todos os locais de nidificação adequados são ocupados por concorrentes dominantes. Em situações menos extremas, o número de espécies subordinadas pode variar de um ano para outro ou de um lugar para outro. Árvores mortas, mas ainda em pé, têm sua função no ecossistema.

Só no meu pequeno jardim pude observar interações agressivas entre os pica-paus e os bem-te-vis, entre as andorinhas (Pygochelidon cyanoleuca), os tuins (Forpus xanthopterygius), os periquitos (Brotogeris chiriri) e as curruíras (Troglodytes musculus). Sem contar que outros animais também podem usufruir destes ocos, como abelhas, roedores e gambás.

Ocos de árvores são um recurso crítico para a reprodução de muitas aves. Onde as árvores mortas estão desaparecendo, a limitação da população de aves pode ser um problema sério de conservação. Já se conhecem hoje espécies de aves com população em declínio devido à falta de árvores com ocos propícios para a construção de ninhos, como é o caso do papagaio australiano Polytelis swainsonii. A falta de ocos utilizáveis pode ser fator limitante para os psitacídeos em geral (araras, papagaios, cacatuas, maritacas e tuins), pois eles dependem de outras espécies que constroem os buracos, como pica-paus, ou de buracos produzidos ao acaso por um quebra de galhos por exemplo.

A quebra de galhos seja por apodrecimento ou por ventos fortes, por incrível que pareça, tem sido apontada como a melhor maneira de formar cavidades. São mais importantes até que as cavidades produzidas por pica-paus, pois são mais longevas, duram mais. Portanto, têm o potencial de hospedar por mais tempo os animais que usam cavidades, mas que não as constroem.

Uma árvore morta no seu jardim, ou num jardim público, faz parte de um ecossistema, abriga ainda formas de vida e potenciais locais para ninhos. Uma árvore morta não é apenas uma árvore morta.


Clique nas imagens para ampliá-las e ler as legendas.





*Marcos Rodrigues é doutor em zoologia pela Universidade de Oxford (UK). Hoje, é professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais.