domingo, 18 de março de 2018

Estudo indica que principais marcas globais de água engarrafada estão contaminadas com partículas de plástico

Estudo indica que principais marcas globais de água engarrafada estão contaminadas com partículas de plástico


MICROPLÁSTICO ENCONTRADO EM ÁGUA ENGARRAFADA GLOBAL
Por Christopher Tyree e Dan Morrison, Orb Media
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FIBRAS MICROSCÓPICAS DE PLÁSTICO FLUORESCENTE FLUTUANDO EM UMA GARRAFA D’ÁGUA DURANTE TESTES NA UNIVERSIDADE DO ESTADO DE NOVA YORK EM FREDONIA.
O termômetro ultrapassa acelerado a marca dos 30 graus quase todos os dias na praia de Copacabana, famosa no Brasil e no mundo.
Marcio Silva é um vendedor com incontáveis quilômetros de experiência no calçadão. Ele vende água – meio litro de alívio em jeitosas garrafinhas de plástico. Com sua inseparável caixa de isopor, Marcio é um seguro contra a desidratação, tanto para os cariocas que adoram o sol quanto para os turistas de pele queimada.
“Eu bebo água porque água é vida, água é saúde, água é tudo”, diz Marcio, 51 anos. “Eu mesmo bebo e também vendo pros outros”.
Eu não venderia uma coisa que faz mal para as pessoas”.
A água da garrafa parece límpida, limpa, incorrupta. O plástico também. Para muitos, é uma opção prática. Para outros, uma proteção contra as impurezas da água da torneira.
O produto vendido por Marcio é comercializado como se fosse a essência da pureza. Avaliado em 147 bilhões de dólares1 por ano, trata-se do mercado de bebidas que cresce mais rápido no mundo.
Mas uma nova pesquisa da Orb Media, organização jornalística sem fins lucrativos sediada em Washington, mostra que uma única garrafa d’água pode conter dezenas ou talvez até milhares de partículas microscópicas de plástico.
Vários testes em mais de 250 garrafas de 11 marcas líderes de mercado revelaram contaminação por plásticos variados inclusive polipropileno, náilon e tereftalato de polietileno (PET).
Quando questionados por repórteres, representantes de duas marcas populares confirmaram que seus produtos contêm microplástico, mas que o estudo da Orb exagera significativamente a quantidade.
TweetNo caso das partículas na faixa dos 100 microns, ou 0,10 milímetros, a Universidade Estadual de Nova York conduziu testes para a Orb que revelaram uma média global de 10,4 partículas por litro. Essas partículas foram confirmadas como sendo matéria plástica usando um microscópio infravermelho de padrão industrial.
Os testes mostraram também uma quantidade muito maior de partículas de dimensões menores ainda e que provavelmente também são plástico, segundo os pesquisadores. A média global para essas partículas foi de 314.6 por litro.
“É desalentador; quer dizer, é uma coisa triste,” diz Peggy Apter, uma americana que investe em imóveis em Carmel, Indiana, e só bebe água em garrafa. “Como chegamos a esse ponto no mundo? Porque não podemos ter uma água limpa e pura para beber?”

NÃO É A VIA LÁCTEA: QUANDO FILTRADAS E VISTAS POR MEIO DE UM APLICATIVO DE CONTAGEM DE PARTÍCULAS, ESSES RESÍDUOS FLUORESCENTES DENTRO DE UMA ÚNICA GARRAFINHA D'ÁGUA LEMBRAM A ABÓBADA CELESTE EM UMA NOITE SEM NUVENS.
NÃO É A VIA LÁCTEA: QUANDO FILTRADAS E VISTAS POR MEIO DE UM APLICATIVO DE CONTAGEM DE PARTÍCULAS, ESSES RESÍDUOS FLUORESCENTES DENTRO DE UMA ÚNICA GARRAFINHA D’ÁGUA LEMBRAM A ABÓBADA CELESTE EM UMA NOITE SEM NUVENS.

Encontramos garrafas com tantas partículas que resolvemos pedir a um ex-astrofísico para usar sua experiência de contar estrelas do firmamento para nos ajudar a inventariar essas constelações fluorescentes.
TweetAs maiores eram da largura de um fio de cabelo humano e as menores do tamanho de uma hemácia sanguínea. Em certas garrafas vimos milhares de partículas. Em outras, efetivamente nenhuma.
Uma das garrafas acusou uma concentração de mais de 10.000 partículas por litro.
A água em garrafa dá uma impressão de segurança e praticidade em um mundo cheio de ameaças, reais ou deduzidas, contra a saúde pessoal e pública.
A água potável embalada é o sustento vital de muitas das 2,1 bilhões de pessoas que carecem de água segura para beber no mundo inteiro.2 Cerca de 4.000 crianças morrem todos os dias de doenças transmitidas pela água, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.3
O ser humano precisa de aproximadamente dois litros de fluidos por dia para se manter hidratado e saudável e até mais do que isso em regiões quentes e áridas.
As descobertas da Orb sugerem que uma pessoa que bebe um litro de água engarrafada por dia pode estar consumindo dezenas de milhares de partículas microplásticas a cada ano.
Os efeitos disso na saúde, tanto sua quanto da sua família, estão ainda envoltos em um certo mistério.

Da Orb Media, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/03/2018

segunda-feira, 12 de março de 2018

Estudo indica que, uma vez degradado, o Cerrado não se regenera naturalmente




Cerrado já perdeu 46% da cobertura nativa por causa do desmatamento.
Cerrado já perdeu 46% da cobertura nativa por causa do desmatamento. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Segundo estudo, após a conversão em pastagens, áreas do bioma que não recebem o manejo apropriado exibem vegetação adensada, mas pobre em biodiversidade

FAPESP
Alguns dos mais importantes rios do Brasil – Xingu, Tocantins, Araguaia, São Francisco, Parnaíba, Gurupi, Jequitinhonha, Paraná e Paraguai, entre outros – nascem no Cerrado. Trata-se da única savana do planeta dotada de rios perenes. A rápida conversão do Cerrado em pastagens e lavouras e o manejo inadequado das áreas preservadas colocam em risco esse formidável recurso natural, em um país com o terceiro maior potencial hidrelétrico tecnicamente aproveitável do mundo, e em que 77,2% da matriz elétrica é suprida pela hidroeletricidade.

Além disso, a destruição do Cerrado constitui uma perda inestimável em termos de biodiversidade, pois, na microescala, esse bioma, que pode apresentar 35 espécies diferentes de plantas por metro quadrado, é mais rico em flora e fauna do que a floresta tropical.

Sabe-se que o Cerrado tem um potencial de regeneração natural muito alto. Mas até que ponto vai sua resiliência?

A pesquisadora brasileira Gisela Durigan, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), coordena com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP um estudo realizado em áreas de antigas pastagens – originalmente pertencentes ao bioma do Cerrado, atualmente se encontram na condição de “reserva legal” e iniciaram uma regeneração natural.

Durigan explica que a regeneração natural do Cerrado se restringe às espécies arbóreas, o que significa dizer que o empobrecimento da vegetação decorrente da ação deletéria da agropecuária é definitivo – ao menos que o desenvolvimento de políticas ecológicas encontre meios de restabelecer as condições propícias para as abundantes espécies arbustivas.

“Uma vez eliminada, a vegetação rasteira ou de pequeno porte, que compõe o estrato herbáceo-arbustivo e que contém a maior parte das espécies endêmicas, não se regenera. Então, quando a pastagem é simplesmente abandonada, ela se transforma, depois de algum tempo, em um cerradão, que é uma formação caracterizada por vegetação muito adensada, com grande predomínio de árvores e pobre em biodiversidade”, afirmou Durigan.
O estudo, que teve resultados publicados no Journal of Applied Ecology, foi realizado no âmbito do doutorado de Mário Guilherme de Biagi Cava, com Bolsa da FAPESP e orientação de Durigan, e também apoiado por meio de um Auxílio à Pesquisa concedido ao professor Milton Cezar Ribeiro e de uma Bolsa de Doutorado a Natashi Aparecida Lima Pilon.


A pesquisa abrangeu 29 áreas no Estado de São Paulo, onde foi feito o levantamento da vegetação, tanto das árvores quanto das plantas pequenas que compõem o estrato herbáceo-arbustivo e que constituem a maior riqueza da flora do Cerrado. Apesar de estarem localizadas em regiões diferentes, essas 29 áreas, com idades variando de quatro a 25 anos, puderam ser ordenadas em uma sequência cronológica no que se refere ao estágio de regeneração.


Substituição do estrato arbustivo por gramíneas
As árvores se recuperam por possuírem raízes muito profundas e terem evoluído, ao longo de milhões de anos, desenvolvendo a capacidade de rebrotar inúmeras vezes. “Não é possível eliminá-la nem aplicando herbicida”, disse Durigan. Porém, segundo ela, o estrato herbáceo-arbustivo, que é removido para a implantação das pastagens, não se recompõe, devido à invasão dos terrenos por gramíneas exóticas muito resistentes e agressivas: as braquiárias.

“Essas só desaparecem com o sombreamento, causado pelo adensamento das árvores. Mas, quando desaparecem as gramíneas exóticas, as plantas originais de pequeno porte, que foram completamente erradicadas pelos herbicidas, pelas roçadas e pela competição com as braquiárias e que não toleram a sombra, também não voltam mais”, continuou a pesquisadora.

Para fazer com que a área voltasse a abrigar um cerrado típico, seria necessário eliminar as gramíneas exóticas, com manejo por meio de fogo associado a herbicida, e, depois, reintroduzir as espécies nativas. Mas isso constitui uma operação difícil e cara, que, com os recursos atuais, não pode ser realizada em larga escala.

“Temos pesquisado diferentes técnicas para promover a recuperação. Com sementes, é necessária uma quantidade gigantesca, que não há nem de onde tirar. O que deu muito certo, em escala experimental, foi o transplante do estrato herbáceo-arbustivo: a camada superficial do solo, acompanhada das touceiras de capim e das pequenas plantas”, disse Durigan.

“O grande problema é que, no Estado de São Paulo, já não há mais áreas-fonte para isso. O que sobrou de Cerrado aberto está invadido por gramíneas exóticas. Então, quando se transplanta a camada superficial do solo, a braquiária vai junto. Isso acontece inclusive nas áreas protegidas”, acrescentou.


Floresta degradada
O estudo feito na Unesp permitiu fechar um diagnóstico e fazer predições. Espontaneamente, uma vez degradado, o cerrado típico não se recompõe totalmente. Para que uma área de pastagem volte a ser um cerrado típico, com riqueza de biodiversidade, com a flora característica, com habitats para fauna especializada em savana, é necessário manejo humano: não se pode deixar que o adensamento das árvores passe do limiar de 15 metros quadrados por hectare; é preciso erradicar o capim exótico; e deve-se reintroduzir o estrato herbáceo-arbustivo nativo.

Evoluindo espontaneamente, sem manejo, em 49 anos a vegetação arbórea nas antigas áreas de pastagem irá se transformar em cerradão. A cobertura esparsa de solo característica do cerradão é alcançada em quatro anos e a biodiversidade pobre do estrato herbáceo é obtida em 19 anos. “O processo é rápido, mas os resultados não são os que procuramos. O cerradão não se distingue de uma floresta degradada”, disse Durigan.
Dois anos depois do levantamento, já na segunda fase do doutorado de Cava, os pesquisadores vão voltar às mesmas áreas ao longo do primeiro trimestre de 2018, e medir tudo novamente, para obter a taxa precisa de aumento de cobertura, densidade e biodiversidade.

“Esses valores precisos nos permitirão saber com exatidão qual é o potencial de regeneração das diferentes áreas e quais são os fatores favoráveis. É o tipo de solo? É a distância a uma fonte de sementes? É a proximidade de recursos hídricos? Todos esses parâmetros serão considerados”, disse Durigan.

Conforme afirmou, o artigo publicado por seu grupo é muito inovador porque não há ninguém em outros países tratando de recuperação de savanas.

“Isto porque ainda não ocorreu na África nem na Austrália um processo similar ao que estamos vivendo aqui, de conversão da savana em pastagens extensivas e em grandes lavouras de soja, cana ou milho. Na África, as savanas estão bem degradadas, mas devido ao sobrepastoreio, à exploração de lenha e a outras ações cujos impactos são menos visíveis no curto prazo. No Brasil, estamos presenciando transformações que ocorrem de um dia para o outro”, comentou a pesquisadora.

Referência:
Cava MGB, Pilon NAL, Ribeiro MC, Durigan G. Abandoned pastures cannot spontaneously recover the attributes of old-growth savannas. J Appl Ecol. 2017;00:1–9.
https://doi.org/10.1111/1365-2664.13046

Da FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/03/2018

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Exposição à poluição do ar na gravidez está associada a alterações no cérebro em meninos e meninas

Exposição à poluição do ar na gravidez está associada a alterações no cérebro em meninos e meninas


poluição do ar
Foto: EBC

Pesquisa indica que a poluição do ar está relacionada às mudanças no desenvolvimento do cérebro e ao funcionamento cognitivo em crianças. Os limites atuais da UE para a poluição do ar podem não ser suficientemente baixos.

Barcelona Institute for Global Health, ISGlobal*
Um novo estudo realizado pelo Centro de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) promovido pela Fundação Bancária “la Caixa” – e o Erasmus Medical Center de Rotterdam, associa exposição residencial à poluição do ar durante a gravidez com anormalidades cerebrais, que podem contribuir para a redução da capacidade cognitiva das crianças em idade escolar. O estudo, publicado em Biological Psychiatry , mostra que os níveis de poluição associados a alterações cerebrais estavam dentro dos valores considerados seguros .

A pesquisa mostrou, pela primeira vez, uma relação entre a exposição à poluição do ar e as dificuldades na inibição do controle – a capacidade de regular o autocontrole e o comportamento impulsivo – que está associada a problemas de saúde mental, como o comportamento aditivo e a desordem para déficit de atenção e hiperatividade. A exposição a partículas finas durante a vida fetal foi associada a um córtex mais fino – a camada externa do cérebro – em várias regiões de ambos os hemisférios, que é um dos fatores que explicariam as deficiências observadas no controle inibitório.

A equipe de pesquisa usou uma coorte de população na Holanda para estudar mulheres grávidas e seus filhos. Determinaram os níveis de poluição atmosférica residencial durante a vida fetal de 783 meninos e meninas. Os dados foram obtidos das campanhas de monitoramento do ar e incluíram níveis de dióxido de nitrogênio e partículas grossas e finas. A morfologia do cérebro foi avaliada a partir de ressonância magnética realizada quando as crianças tinham entre 6 e 10 anos de idade.

Observou-se a relação entre a exposição a partículas finas, as alterações estruturais no cérebro e controle inibitório, embora os níveis de partículas finas residenciais não excedam os limites definidos pela União Europeia -apenas 0,5% de mulheres grávidas foram expostas a níveis considerados inseguros. Em média, os níveis residenciais de dióxido de nitrogênio estavam apenas no limite de segurança.

Esses achados complementam estudos anteriores que associam níveis “aceitáveis” de poluição do ar com outras complicações, incluindo declínio cognitivo e crescimento fetal. “Portanto, não podemos garantir que os níveis atuais de poluição em nossas cidades sejam seguros ” , diz Mònica Guxens , coordenadora de estudo e pesquisadora da ISGlobal e do Centro Médico da Universidade Erasmus.

O cérebro do feto é particularmente vulnerável, já que ainda não desenvolveu os mecanismos para se proteger de toxinas ambientais ou eliminá-las. “Embora as conseqüências clínicas desses achados ao nível individual não possam ser quantificadas, outros estudos existentes sugerem que os atrasos cognitivos em uma idade precoce podem ter consideráveis conseqüências a longo prazo, incluindo um risco aumentado de transtornos mentais e menor desempenho acadêmico, dado a ubiquidade da exposição “, diz Guxens.

Referência:
Guxens M., Lubczyska M.J., Muetzel R., Dalmau-Bueno A., Jaddoe V.W., Hoek G., Van der Lugt A., Verhulst F.C., White T., Brunekreef B., Tiemeier H., El Marroun H. Air pollution exposure during fetal life, brain morphology, and cognitive function in school-age children. Biological Psychiatry, 2018 https://doi.org/10.1016/j.biopsych.2018.01.016

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/03/2018

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Medicamentos e Meio ambiente: soluções individuais, problemas coletivos

Medicamentos e Meio ambiente: soluções individuais, problemas coletivos 

Por Gabrielle Rabelo Quadra, Rafaela dos Santos Costa, Helena de Oliveira Souza e Marcos Antonio dos Santos Fernandez.

Foto: Josué Goge/Flickr.

Você sabia que o uso intensivo de medicamentos tem transformado resíduos destes compostos em poluentes comuns nos ambientes aquáticos? As consequências ambientais deste tipo de poluição ainda são pouco conhecidas, mas diversos estudos já indicam efeitos na reprodução e mobilidade de organismos, mesmo em baixas concentrações no ambiente. Mas devemos pensar: como os medicamentos que eu consumo chegam até o ambiente? Isso realmente é uma questão que envolve toda a sociedade. A entrada de medicamentos no ambiente via lixo comum pela população é uma forte contribuição para contaminação ambiental.


Precisamos pensar que todos nós temos uma cota de contribuição para que esses medicamentos cheguem até o ambiente e que podem voltar para nós pela água potável. Portanto, o uso indiscriminado, desde a automedicação até o descarte indevido, precisa ser controlado, e isso é uma atitude que pode ser repensada por cada um de nós.
A população mundial tem aumentado e, com isso, o consumo de medicamentos se torna maior. Além disso, o aumento da expectativa de vida dos seres humanos e a consequente inversão das pirâmides de idade populacionais têm aumentado proporcionalmente ainda mais o consumo de medicamentos.


As pessoas idosas consomem mais medicamentos, uma vez que o organismo já não funciona tão bem e o índice de doenças crônicas é mais alto nesta população. No Brasil, esse aumento é nítido: entre 2002 e 2016, a população aumentou de 180 para 205 milhões de pessoas, com maior percentual proporcional de idosos; no mesmo período, a venda de medicamentos passou de 500 milhões de unidades (caixas) para 3,5 bilhões, segundo dados do IBGE e do Sindicato das Indústrias Farmacêuticas (Sindusfarma).


Por sua vez, esse aumento de consumo aumenta a geração de resíduos. Uma vez no ambiente, estes resíduos se comportam como contaminantes e podem ser tóxicos a diversos organismos, inclusive a espécie humana. Os seres humanos ficam expostos aos resíduos de fármacos por meio da água potável e via alimentação, como os peixes. Nesse sentido, os resíduos de medicamentos também podem poluir águas superficiais e subterrâneas, solos e ar.



Medicamento na água é problema

Dezenas de frascos de medicamentos jogados em estrada no Paraná. Foto: Câmara Municipal de Guaíra.

Os resíduos de medicamentos atingem os corpos hídricos de várias maneiras: pelo descarte incorreto de medicamentos, uso intensivo de medicamentos na medicina veterinária e a não remoção completa dos resíduos de medicamentos nas estações de tratamento.



Após sua utilização, seja na medicina humana ou na veterinária, os medicamentos são excretados pelos organismos diretamente para o ambiente, sendo transportados para os corpos hídricos, ou, quando as excreções são coletadas e tratadas, passam por estações de tratamento de esgoto (ETEs). Nestas estações, normalmente os resíduos de medicamentos não são removidos completamente devido à tecnologia ineficiente, e assim, também acabam alcançando o ambiente.


As águas contaminadas pelos resíduos de medicamentos podem ser utilizadas para produção de água potável. Nas estações de tratamento de água (ETAs), a mesma situação pode acontecer, ou seja, devido a tecnologias ineficientes, os resíduos de fármacos podem ser encontrados na água potável. Todos os medicamentos são formulados para provocar um efeito, assim, eles podem atravessar as barreiras biológicas dos organismos para chegar até o órgão afetado.


Logo, devemos pensar que no ambiente eles também podem resistir a barreiras e a degradação, sendo persistentes. Além disso, algumas destas substâncias apresentam tendência cumulativa, ou seja, elas podem acumular pela cadeia trófica, sendo essa uma via de contaminação para os seres humanos – ao se alimentar de outros animais. O descarte indevido de medicamentos ou das suas embalagens também resulta em uma importante via de contaminação ambiental. Uma visão esquemática desse conjunto de processos é mostrada na Figura 1, adiante.




Figura 1. Vias de entrada e destino dos resíduos de medicamentos no ambiente.

Apesar da problemática envolvida, a detecção e quantificação de medicamentos no ambiente ainda são restritas em determinados países. A detecção dessas substâncias só foi possível devido aos avanços dos métodos analíticos, já que geralmente são encontrados no ambiente em baixas concentrações, na ordem de ng L-l e µg L-1 (Figura 2). Normalmente, nos rótulos de bebidas que ingerimos diariamente, vemos as concentrações em miligrama por litro, o que significa que estamos falando de concentrações de mil a um milhão de vezes menor do que isso.

Figura 2. Concentrações ambientais de diversos medicamentos reportadas em águas superficiais de diferentes países (Brasil, Canadá, Alemanha, Itália, Reino Unido e Estados Unidos).

Porém, não podemos nos enganar, mesmo em baixas concentrações, alguns estudos já apontam efeitos tóxicos dessas substâncias em alguns organismos aquáticos. Os hormônios são capazes de causar alterações sexuais, como, por exemplo, hermafroditismo e feminização em peixes. O Ibuprofeno (terceira droga mais popular do mundo!) foi capaz de alterar os padrões de reprodução de peixes em concentrações detectadas no ambiente. O antidepressivo Fluoxetina demonstrou ser capaz de alterar o comportamento dos peixes na fuga de predadores. Estas são somente algumas consequências já evidenciadas em laboratório, existem vários estudos com outros organismos e outras substâncias, mas ainda há muito que fazer.



Além dos efeitos isolados, estudos têm demonstrado que estes compostos podem ter efeitos sinergéticos, isto é, duas ou mais substâncias juntas podem potencializar seus efeitos. Por exemplo, os anti-inflamatórios ibuprofeno e diclofenaco podem aumentar ainda mais a mortalidade de Daphnia magna (microcrustáceo). Assim, a preocupação se agrava, uma vez que essas substâncias são sempre encontradas no ambiente em misturas. Além disso, precisamos pensar que a introdução no ambiente aquático de substâncias químicas sintéticas envolve uma enorme variedade de compostos e os efeitos sinérgicos podem ocorrer - inclusive com outras classes como metais pesados e pesticidas. Outra questão é que a entrada dos medicamentos é constante no ambiente e os organismos ficam expostos de forma contínua. Ainda sabemos pouco sobre as consequências que podem ocorrer à longo prazo e os efeitos não são detectados em bioensaios de curto período.



A legislação e a má gestão
No Brasil, o descarte indevido de medicamentos é consequência de um conjunto de fatores relacionados à má gestão, ausência de fiscalização farmacêutica e leis mais rigorosas. Normalmente, os pacientes não podem adquirir o número exato de comprimidos exigidos pelo tratamento, o que resulta em descarte dos medicamentos não utilizados.


Além disso, temos o problema da automedicação, um mau hábito que resulta, muitas vezes, em um aumento desnecessário do consumo. Ainda assim, não há legislação brasileira de obrigatoriedade por parte dos estabelecimentos para apresentar pontos de recolhimento dos medicamentos em desuso ou vencidos, o que resulta em descarte incorreto em lixo comum ou nas redes de esgotamento sanitário.


Iniciativas importantes, bons exemplos devem ser seguidos!

Ibuprofeno e diclofenaco podem aumentar ainda mais a mortalidade de Daphnia magna (microcrustáceo). Foto: Wikipédia.

No Brasil, podemos encontrar algumas iniciativas de descarte correto de medicamentos. O estado de São Paulo, por exemplo, estabeleceu uma parceria entre prefeitura e empresas privadas para o recolhimento de medicamentos em supermercados e farmácias. A empresa Brasil Health Service possui o “Programa Descarte Consciente” que apresenta estações coletoras em alguns estabelecimentos participantes das regiões Nordeste, Sul e Sudeste.


Ainda podemos citar programas como o “Papa Pílula”, realizado pelo Serviço Social da Indústria de Santa Catarina. Estas atividades são imprescindíveis para auxiliar a população em relação ao descarte correto dos medicamentos. Além destas iniciativas, podemos encontrar no Brasil, outras localidades que recorreram também a implementação de sistemas de coletas, mas desta vez fixados em lei, são os casos do Acre, Ceará, Distrito Federal, Juiz de Fora, Paraíba, Paraná e Rio Grande do Sul.


Outros países apresentam exemplos do uso de medidas bem-sucedidas, mostrando como uma correta gestão torna possível a logística reversa e a responsabilidade compartilhada dos resíduos de medicamentos. A Itália foi o primeiro país da Europa, a estabelecer um sistema de coleta de medicamentos na década de 70 com a criação da empresa Assinde Servizi. A França apresenta o sistema de coleta de medicamentos vencidos denominado Cyclamed, o qual obriga as indústrias a eliminarem os resíduos de embalagens domésticas que coloca no mercado. O Canadá possui Post-Consumer Pharmaceutical Association, uma organização sem fins lucrativos que desde 1999 realiza coletas e conta com o apoio de empresas de pesquisas farmacêuticas.


Olhando para o futuro... um salto para o futuro dos medicamentos no ambiente
Os efeitos que são reportados em organismos aquáticos e terrestres já são suficientes para demonstrar que a preocupação com a saúde humana também deve existir. E o que nós, como cidadãos, podemos fazer? Uso consciente de medicamentos. Evitar a automedicação e seguir corretamente as orientações das prescrições é fundamental.


Além disso, podemos nos conscientizar e cobrar das nossas prefeituras um local para disposição de medicamentos vencidos e/ou não utilizados. Precisamos investir mais tempo em maneiras de prevenir que estas substâncias cheguem ao ambiente. Algumas formas de se prevenir são: a questão de conscientização individual, divulgação da problemática, trabalhos de educação ambiental envolvendo descarte correto, adequação da legislação e investimento em fiscalização. Estas medidas ajudarão no desenvolvimento de cidadãos mais críticos, que reivindiquem e cobrem medidas mais eficientes.



Ainda assim, precisamos de mais estudos de detecção ambiental, de efeitos destes resíduos em organismos para determinar concentrações legais de descarte, assim como estudos que ajudem na divulgação desta problemática. Não menos importante é o investimento em técnicas eficientes de remoção destes compostos das estações de tratamento e criação de medicamentos que degradam facilmente no ambiente. Todos devemos pensar que estas substâncias vão para o ambiente, portanto, devemos certificar que elas sejam menos tóxicas possível.

Gabrielle Rabelo Quadra, doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Rafaela dos Santos Costa, mestre em Dinâmica dos Oceanos e da Terra pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
Helena de Oliveira Souza, mestre em Ciências Ambientais e Conservação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Marcos Antonio dos Santos Fernandez, doutor em Química pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Professor associado da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

Ministério abre inscrições para cursos a distância na área socioambiental

Ministério abre inscrições para cursos a distância na área socioambiental

Por Sabrina Rodrigues*

O Ministério do Meio Ambiente (MMA) promove os primeiros cursos deste ano na modalidade Educação à Distância (EAD). Inscrições vão até o dia 10 de março. Foto: Matthew Bowden/Wikicommons.

O Ministério do Meio Ambiente (MMA) promove os primeiros cursos deste ano na modalidade Educação à Distância (EAD). Sem precisar sair de casa para aperfeiçoar os conhecimentos na área socioambiental, os interessados têm até o dia 10 de março para se inscreverem no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) do MMA.
Ao todo são 10 cursos gratuitos oferecidos pelo órgão, nas áreas como agricultura familiar, água, mudança do clima, unidades de conservação, igualdade de gênero, participação social e consumo sustentável. Os cursos possuem carga horária total que vão de 20 a 180 horas.
Os cursos oferecidos são:
1- Apoio à implementação do Programa de Educação Ambiental e Agricultura Familiar _ PEAAF - voltado para gestores e servidores públicos, profissionais de ensino, representantes de organizações da sociedade civil, lideranças de movimentos de campo, o curso tem o objetivo de capacitar agentes públicos e representantes de organizações da sociedade civil para o desenvolvimento de políticas públicas, programas e projetos de Educação Ambiental no contexto da Agricultura Familiar.
2- Crianças e o Consumo Sustentável - com o curso,  pais, mães, educadores de crianças poderão trabalhar o conhecimento para construírem valores mais sustentáveis com as suas crianças, desestimulando o consumir por consumir e incentivando a prática de brincadeiras, hábitos e atitudes muito mais saudáveis e sustentáveis.
3- Juventudes, Participação e Cuidado com a Água - Para  jovens, ativistas e membros de instâncias colegiadas do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH) e do Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA), que já atuam ou possuam interesse em atuar em iniciativas de cuidado com a água ou mesmo nas instâncias formais de gestão da Política de Recursos Hídricos. O curso pretende propiciar elementos para uma percepção sistêmica e integrada da água, para a reflexão e avaliação crítica da problemática da água no Brasil e no mundo, bem como de avaliação estratégica do potencial de incidência das juventudes nas políticas e ações de águas no país, numa perspectiva inclusiva, dialógica e de atuação em rede.
4- Educação Ambiental e Mudança do Clima - O curso objetiva colaborar com a formação e a informação sobre a temática, compreendendo a interface entre Educação Ambiental e Mudanças do Clima. Público-alvo:  gestores e educadores ambientais, podendo ser aberto para público em geral.
5- Educação Ambiental e Mudanças do Clima para Gestores - Fornece material técnico e institucional, para a administração pública, sobre estratégias de mitigação e adaptação à mudança do clima, bem como algumas estratégias para o gestor público realizar uma gestão urbana de baixo carbono. Público-alvo: gestores públicos municipais e gestores estaduais.
6- Estruturação da Gestão Ambiental Municipal -  Gestores, servidores, funcionários das prefeituras e conselheiros municipais, através desse curso, serão capacitados a apoiar os Municípios na estruturação institucional e o fortalecimento da gestão ambiental municipal, com a ótica da sustentabilidade socioambiental territorial, a disseminação de conhecimentos e a reflexão crítica acerca de assuntos que visam à melhoria da gestão ambiental pública.
7- Formação de Agentes Populares de Educação Ambiental e Agricultura Familiar - O curso pretende capacitar agentes populares para identificar e refletir criticamente as questões socioambientais em seu território, de forma a promover a mobilização e sensibilização social para a realização de ações que resultem na melhoria da qualidade de vida e conservação dos recursos naturais no meio rural, bem como a elaboração e implementação de políticas públicas, ações e projetos de educação ambiental no contexto da agricultura familiar. Curso voltado a juventude rural, agricultoras e agricultores, agentes comunitários e agentes públicos, a partir de 16 anos, com Ensino Fundamental completo.
8- Igualdade de Gênero e Desenvolvimento Sustentável - O curso visa sensibilizar e capacitar os gestores públicos de todas as áreas sobre a problemática da desigualdade de gênero e a importância da transversalização dos temas “gênero” e “desenvolvimento sustentável”. Voltado para gestores públicos de todas as áreas, federais, estaduais e/ou municipais.
9- Participação Social e Cidadania Ambiental: fortalecer a democracia para promover a sustentabilidade - Público-alvo: gestores e servidores do MMA e vinculadas; Gestores e servidores de órgãos e entidades estaduais, municipais e distrital de meio ambiente; Conselheiros de órgãos consultivos e/ou deliberativos; Comissões organizadoras estaduais, distritais e municipais; Delegados da Conferências Nacional do Meio Ambiente (CNMA); Sociedade civil em geral; Adultos em faixa etária ampla; Escolaridade variada. O curso objetiva capacitar gestores, servidores, técnicos ambientais e sociedade civil, visando à ampliação e qualificação da participação social, nas esferas federal, estadual e municipal.
10- Tornar a Unidade de Conservação visível: estratégia para promover articulações e captar recursos - Para formuladores e executores das políticas governamentais relacionadas a UCs em âmbitos federal, estadual e municipal, o curso pretende facilitar o acesso a recursos e parcerias pelas Ucs por meio da educação ambiental e da comunicação.
*Com informações da Assessoria de Comunicação do Ministério do Meio Ambiente

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domingo, 11 de março de 2018

Cientistas assinam carta em favor da criação de unidades de conservação marinha

Cientistas assinam carta em favor da criação de unidades de conservação marinha

Por Sabrina Rodrigues

Arquipélago de São Pedro. Foto: Acervo/ICMBio.

Na manhã desta segunda-feira (05), uma carta aberta assinada por cientistas foi enviada por e-mail ao Palácio do Planalto, onde será protocolada e entregue ao presidente Michel Temer, em apoio a proposta de criação de áreas unidades de conservação nos arquipélagos de São Pedro e São Paulo, na costa pernambucana, e em Trindade e Martim Vaz, na costa capixaba. Os cientistas defendem que o governo amplie a área de proteção integral do mosaico, para  manter os processos ecológicos desses locais, berço da vida marinha, e que seja a proposta seja baseada na melhor informação científica disponível.


“Ambas as áreas são reconhecidas como área de alta prioridade para a conservação, inclusive internacionalmente. Estudos conduzidos por respeitados cientistas e instituições brasileiras demonstraram atributos que justificam a necessidade da proteção integral desses ambientes, como a grande diversidade de recifes de coral, ocorrência de várias espécies ameaçadas de extinção e importante sítio para a sobrevivência e reprodução de aves marinhas”, escrevem os cientistas.

O Brasil tem menos de 2% de áreas protegidas marinhas, sendo que maior parte dessa porcentagem permite o uso de recursos naturais existentes, como a pesca e o extrativismo.
O texto afirma que a criação dos dois mosaicos fará o Brasil cumprir com as metas de Aichi, do qual o país é signatário, que determina a proteção de pelo menos 10 por cento de áreas marinhas e costeiras em unidades de conservação.

Foram mais de 100 assinaturas para a ampliação das áreas de proteção integral nos mosaicos de Unidades de Conservação.

Leia a carta na íntegra:
Excelentíssimo Senhor
Michel Temer
Presidente da República Federativa do Brasil
Referente: apoio à ampliação das áreas de proteção integral nos mosaicos de Áreas Marinhas Protegidas
Exmo. Sr. Presidente, 

Cumprimentando-o respeitosamente, os grupos de pesquisas, laboratórios e pesquisadores abaixo assinado vêm por meio deste propor a ampliação das áreas de Proteção Integral das propostas de criação do mosaico de Unidades de Conservação (UC) marinhas na região da Cadeia Vitória-Trindade e do Arquipélago de São Pedro e São Paulo. 

Durante as Consultas Públicas realizadas em Recife (PE) e Vitória (ES), nos dias 07 e 08 de fevereiro de 2018, respectivamente, destacou-se a maciça participação de organizações e representantes da sociedade civil, além de pesquisadores renomados, que participaram ativamente dos eventos, numa demonstração de apoio à assinatura dos decretos de criação desses mosaicos, e uma imensa maioria sugeriu a ampliação das áreas de Proteção Integral, os Monumentos Naturais, originalmente propostas. 

Ambas as áreas são reconhecidas como área de alta prioridade para a conservação, inclusive internacionalmente. Estudos conduzidos por respeitados cientistas e instituições brasileiras demonstraram atributos que justificam a necessidade da proteção integral desses ambientes, como a grande diversidade de recifes de coral, ocorrência de várias espécies ameaçadas de extinção e importante sítio para a sobrevivência e reprodução de aves marinhas. 

Além da importância da ampliação das áreas de proteção integral para a biodiversidade brasileira, tal ampliação seria um poderoso instrumento político e econômico, uma vez que o Brasil posicionaria-se com merecida proeminência no cenário internacional. Isso atrairia para o nosso país a atenção de agências financiadoras que têm investido na gestão de áreas protegidas marinhas em todo o mundo, mas que, no entanto, têm aportado recursos efetivamente apenas em áreas de proteção integral. 

Visando suporte a essa importante decisão, anexamos a esse ofício nossa proposta para o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, que inclui um aumento de 10 vezes da área originalmente proposta pelo governo brasileiro nas consultas públicas para o Monumento Natural (MONA), mas que com base em uma abordagem científica visa proteger um pouco de cada tipo de ecossistema, montes submarinos e contribuir com a proteção de processos biogeográficos e ecológicos importantes para a região. 


Cabe destacar que essa ampliação não altera em nada a área total a ser protegida, com proposto pelo governo, apenas altera os limites da área sobre proteção integral. Para a região do Arquipélago de Trindade e Martim Vaz, fazemos coro com a proposta apresentada na consulta pública. 

Nessa proposta, o cenário 1 já prevê uma área significativa sob proteção integral. Ressaltamos, porém, que seria crucial garantir a conectividade entre as duas áreas desconexas que compõem o Monumento Natural – MONA, visando garantir uma área de proteção integral única e contínua. Essa conectividade facilitaria a fiscalização, manejo e a saúde de corredores migratórios para espécies oceânicas. 

Como cientistas, reconhecemos a necessidade de proteção dos diversos ambientes marinhos, em consonância à meta 11 de Aichi "Até 2020, pelo menos 17 por cento de áreas terrestres e de águas continentais e 10 por cento de áreas marinhas e costeiras, especialmente áreas de especial importância para biodiversidade e serviços ecossistêmicos, terão sido conservados por meio de sistemas de áreas protegidas geridas de maneira efetiva e equitativa, ecologicamente representativas e satisfatoriamente interligadas e por outras medidas espaciais de conservação, e integradas em paisagens terrestres e marinhas mais amplas". 


Embora consideramos que as UCs propostas constituem avanços importantes na representatividade dos ecossistemas marinhos sob proteção, contribuindo desta forma para as metas de Aichi, as mesmas não garantem o alcance global da referida meta, a ser atingida apenas quando porções significativas de todas ecorregiões marinhas no Brasil estiverem sob forma efetiva de proteção. 


Dessa forma, as instituições e cidadãos abaixo firmantes enfatizam a necessidade da ampliação das áreas de proteção integral nos mosaicos de UCs propostos, tendo como apoio a manifestação clara e maciça da sociedade presente nas audiências públicas realizadas. 

Respeitosamente,

Assinam

GDF diz não ao Parque do Córrego do Mato Seco

GDF diz não ao Parque do Córrego do Mato Seco

         O governador Rodrigo Rollemberg perde a oportunidade de demonstrar concretamente que se preocupa com os recursos hídricos do DF. Às vésperas da abertura, em Brasília, do Fórum Mundial das Águas, o GDF decidiu rejeitar o pleito de 22 entidades comunitárias que reivindicam a criação do Parque Ambiental do Córrego do Mato Seco. A ideia contou, inclusive, com apoio do senador Reguffe (sem partido), que sugeriu que o governador abraçasse a proposta.

Proposto, inicialmente, pela Amac-Park Way, em nome de moradores daquele bairro, o parque visa proteger as nascentes do córrego que é um dos principais tributários do Ribeirão do Gama. As nascentes do Mato Seco estão localizadas em área pública entre as quadras 27 e 28 do Park Way. Possui, aproximadamente 60 hectares e há dois anos foi alvo de um trabalho de recuperação ambiental pela Universidade de Brasília.

O local, perto do Catetinho, primeira residência oficial de Juscelino Kubitscheck em Brasília, vem sendo alvo de ocupações irregulares e grilagens. Numa das ações de grileiros, um braço menor do córrego foi aterrado. Na recente operação Água Viva, da Polícia Ambiental, verificou-se que o Mato Seco tem potencialidade hídrica importante, mas que vem sendo alvo de captação irregular de suas águas, além de desmatamento nas margens de sua calha.

A área do Parque está inserida na APA Gama – Cabeça do Veado, que envolve todo o Park Way e da qual fazem parte o Ribeirão do Gama e seus afluentes, com destaque para o Mato Seco. O complexo hídrico dessa APA responde por um terço das águas que chegam ao Paranoá e, pela baixa densidade urbana, é tida como uma água de melhor qualidade do que as advindas de ribeirões como Guará, Vicente Pires e Riacho Fundo, já afetados pelo lixo urbano.

O local ainda preserva fauna e flora ricas, com espécimes importantes, tais como lobo Guará, Suçuarana, macacos bugios, cobras e infinitas aves. Seu estado de preservação fez com que as autoridades ambientais escolhessem suas matas para reintroduzir animais silvestres apreendidos pela fiscalização.

Apesar de tudo isto, sem um estudo de campo, uma análise técnica presencial, o Ibram burocraticamente disse não ter recursos para criar um novo parque, e que os casos de degradação denunciados por questões de grilagem e por desmatamento sejam remetidos às autoridades fiscalizadoras. Fato que vem sendo feito há anos pelos moradores, mas que não resulta em solução para o problema.

Parece que o GDF prefere ver o problema se consolidar para depois tentar resolver, ou “regularizar” o ilegal, como é a palavra da moda em algumas esferas públicas. Enquanto isso, a grilagem avança, córregos e nascentes são soterrados, e flora e fauna típicas do cerrado desaparecem. Um belo panorama para que o governador Rodrigo Rollemberg comemore quando for abrir o Fórum Mundial das Águas.

Brasil deve anunciar criação de reservas marinhas no Fórum Mundial da Água

Brasil deve anunciar criação de reservas marinhas no Fórum Mundial da Água

Por Daniele Bragança
Reunião de Temer com os ambientalistas. Foto: Gilberto Soares/MMA.

Após o apoio público da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), de cientistas, ambientalistas e do endosso da bióloga celebridade Sylvia Earle, o presidente Temer anunciou nesta segunda-feira (05) que assinará os decretos de criação dos mosaicos de áreas protegidas nos arquipélagos de São Pedro e São Paulo, na costa pernambucana, e em Trindade e Martim Vaz, na costa capixaba. 

A proposta de criar as duas áreas marinhas ganhou corpo há dois anos e se intensificou de 2017 para cá. O apoio da Marinha, considerado fundamental, foi costurado entre os ministros Sarney Filho, do Meio Ambiente, e Raul Jungmann, que até pouco tempo chefiava o Ministério da Defesa. 

Na tarde desta segunda, o presidente Temer recebeu a bióloga Sylvia Earle, que veio ao Brasil lançar em português seu mais importante livro, "A Terra é Azul", e apoiar a campanha pela criação das Unidades. Sylvia roubou a cena e ofuscou os demais. Saiu com a promessa que as Unidades serão decretadas, após a tramitação do prazo do fim das audiências públicas, que termina no dia 10 de março.
Sylvia Earle em reunião com o governo federal brasileiro. Foto: Gilberto Soares/MMA.

“O que o governo brasileiro está anunciando hoje é importante não só para o Brasil, mas para toda a Humanidade”, declarou Earle.

O presidente deve decretá-las na abertura do Fórum Mundial da Água, que esse ano será sediado pelo Brasil.

"Vamos sair, com essa criação dessas unidades de conservação marinha, de 1,5% de proteção para 25% de proteção", disse Sarney Filho. Segundo o ministro, será protegida uma área total de 887.040 km² do arquipélago de São Pedro e São Paulo, na costa de Pernambuco, e da cadeia de Montes Submarinos Vitória-Trindade e Arquipélagos de Trindade/Martim Vaz, na costa capixaba. Nessa proposta, em ambas regiões seriam criadas uma Área de Proteção Ambiental (APA), que permite uso sustentável dos recursos, de 40 milhões de hectares cada. Os arquipélagos serão da categoria Monumento Natural (MONA), que é de proteção integral, ou seja, que não permite o uso direto dos recursos. 

O Monumento Natural de Trindade e Martin Vaz somará 6 milhões de hectares (ha) e o de São Pedro e São Paulo, 4 milhões de ha. Ao todo, os mosaicos de áreas protegidas, somando as APAs e as MONAs, cobrirão cerca de 24,5% de toda Zona Econômica Exclusiva (ZEE) brasileira. Com isso, o Brasil passará dos atuais 1,5% de áreas protegidas marinhas para 25%, um avanço que permitirá ao país cumprir com folga a Meta 11 de Aichi, que prevê a proteção de 17% das áreas marinhas e costeiras de cada país até 2020.

Pesquisadores propõem embargo de terras públicas sem destinação na Amazônia

Pesquisadores propõem embargo de terras públicas sem destinação na Amazônia

Por Vandré Fonseca


Manaus, AM ‒ A criação de áreas de limitação administrativas é defendida por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) e Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) para proteger as florestas públicas existentes na região, até que seja definida a destinação dessas terras. A proposta é apresentada em um artigo já disponível na internet, na edição de abril da revista Lance Use Policy, assinado pelos pesquisadores Claudia Azevedo-Ramos, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da UFPA (Naea-UFPA), e Paulo Moutinho (Ipam).

Os pesquisadores afirmam que, atualmente, cerca de 70 milhões de hectares de florestas públicas federais e estaduais, quase o dobro da área da Alemanha, estão vulneráveis à ação de grileiros e ao desmatamento ilegal, porque os governos ainda não decidiram o que fazer com elas. Segundo o estudo, florestas públicas, sejam estaduais, federais ou municipais, concentram atualmente 25% do desmatamento que ocorre na região Amazônica.

A professora da UFPA, Claudia Azevedo-Ramos, lembra que foram criadas Áreas de Limitação Administrativa Provisória (ALAP) ao longo da Cuiabá-Santarém (BR-163) e da Manaus-Porto Velho (BR-319), que se mostraram efetivas para evitar o desmatamento e grilagem nessas regiões, enquanto se planejava a pavimentação das rodovias.

“Você pode ter uma fase transitória, que já foi utilizada em outras ocasiões, para bloquear uma área maciça para estudos e consequente destinação”, afirma Claudia Azevedo-Ramos. “Enquanto a área está bloqueada, está sendo mandado o recado de que o governo está lá tomando conta e que a área vai ser alguma coisa”, completa.

Cláudia lembra que, por lei, essas florestas públicas deveriam continuar a ser florestas e públicas, mesmo após a destinação, ou seja, após o governo definir se serão transformadas por exemplo em unidades de conservação ou transferidas para os governos estaduais. Isso não significa a impossibilidade de uso econômico. Conforme a vocação identificada, podem ser concedidas para o manejo florestal ou transformadas em Reservas Extrativistas, por exemplo. Elas podem inclusive ser abertas à mineração.

“A defesa que a gente faz no artigo vem no sentido de que hoje essas áreas não estão sob a responsabilidade de ninguém”, esclarece. “Como elas não receberam uma categoria, você não tem um responsável por aquela área. Em outras palavras, elas estão praticamente livres a apropriação ilegal e ao uso inescrupuloso”, diz.

As florestas públicas estocam o equivalente a 25 bilhões de toneladas de gás carbônico, número semelhante ao que o Brasil emite ao longo de 14 anos, de acordo com dados citados no estudo. O desmatamento dessas áreas pode comprometer, conforme afirmam os pesquisadores, o compromisso do Brasil em reduzir as emissões nacionais em 37% em 2025, em comparação a 2005, ou seja, de pouco mais de 2 bilhões, registrados em 2005, para 1,28 bilhão por ano.

Cerca de 60% das florestas públicas estão no Amazonas, grande parte delas (mais de 31 milhões de hectares) como florestas estaduais, segundo dados do Cadastro Nacional de Florestas. No Pará, são mais de 97 milhões de hectares de florestas públicas. Em Roraima, embora a extensão dessas terras seja menor (3 milhões de hectares) há grande pressão para que elas sejam transferidas para o governo do estado e abertas para a agricultura, como compensação pela homologação das Terras Indígenas Ianomâmi e Raposa Serra do Sol.

De acordo com informações do Ipam, cerca de 10 milhões de hectares de florestas públicas já foram derrubados na região e estão subutilizados. “Não há nenhuma justificativa econômica suficientemente forte para defender que essas áreas com florestas públicas sejam convertidas em lavoura ou pasto frente à área já desmatada na Amazônia”, afirma Paulo Moutinho.

sábado, 10 de março de 2018

Geoengenharia pioraria o clima e não poderia ser interrompida

Geoengenharia pioraria o clima e não poderia ser interrompida

Geoengenharia pioraria o clima e não poderia ser interrompida
Uma das propostas dos defensores da geoengenharia é criar "vulcões artificiais", lançando partículas na atmosfera que reduzam a intensidade da luz solar que chega ao solo.[Imagem: Alexander Belousov]
Tiro pela culatra: na Terra inteira
Apesar das várias demonstrações de que a geoengenharia não seria a solução para as mudanças climáticas e que essas manipulações do clima seriam irracionais e irresponsáveis, muitos cientistas continuam insistindo no conceito, mesmo reconhecendo que a ciência está muito longe de conhecer todos os fatores envolvidos no clima.

E parece que a geoengenharia pode ser uma armadilha pior do que se pensava, não causando problemas apenas quando começasse: Uma vez começada, ela não poderia ser interrompida abruptamente mesmo se causasse problemas.

"Se a geoengenharia for interrompida abruptamente, seria devastador, então você teria que ter certeza de que ela poderia ser interrompida gradualmente, e é fácil pensar em cenários que impedirão isso," alerta o professor Alan Robock, da Universidade Rutgers, nos EUA.


Manipulação do clima
Um dos experimentos de geoengenharia preferido de alguns cientistas e climatologistas consistiria em criar uma nuvem de ácido sulfúrico na atmosfera superior tão grande quanto as que são geradas por grandes erupções vulcânicas. A nuvem, que seria criada fazendo aviões pulverizarem dióxido de enxofre na alta atmosfera, refletiria a radiação solar, ajudando a esfriar o planeta. O processo teria que ser feito continuamente para manter a nuvem porque ela duraria apenas cerca de um ano se a pulverização parasse.

Robock e seus colegas estudaram esse caso usando um cenário global em que a nuvem de fato gerasse um resfriamento moderado e analisaram o impacto na terra e no oceano se o processo fosse interrompido de repente.

Eles assumiram que os aviões pulverizariam 5 milhões de toneladas de dióxido de enxofre por ano na atmosfera superior na altura do Equador, de 2020 a 2070. Isso seria o equivalente anual a cerca de um quarto do dióxido de enxofre ejetado durante a erupção do Monte Pinatubo, nas Filipinas, em 1991 - que, a propósito, não foi capaz de interromper a tendência de aquecimento global. Apesar disso, a expectativa dos defensores da geoengenharia é que essa manipulação do clima poderia reduzir a temperatura global em cerca de 1 grau Celsius.

Aquecimento 10 vezes mais rápido
A conclusão da equipe de Robock, contudo, é que, se for simplesmente interrompido em um determinado ano, esse mecanismo de geoengenharia levaria a um aquecimento rápido - 10 vezes mais rápido do que se a geoengenharia não tivesse sido feita, conta Robock.
O impacto seria drástico porque os organismos animais e vegetais teriam que se ajustar para sobreviver com essa variação abrupta e acelerada de temperatura e de ritmo e intensidade das chuvas.

"Em muitos casos, você precisaria seguir numa direção para obter a mesma temperatura, mas numa direção diferente para obter a mesma precipitação," explica Robock. "Alguns animais podem se mover e alguns não podem. As plantas, é claro, não podem se mover de jeito nenhum."

Por exemplo, os parques nacionais, florestas e refúgios de vida selvagem servem como santuários para animais, plantas e outros organismos. Mas se forem forçados a se mover em razão de uma variação de temperatura e ritmo de chuvas tão rápido, ainda que possam se mover rápido o suficiente, provavelmente não conseguirão encontrar lugares similares com comida suficiente para sobreviver.

Seca devastadora na Amazônia
Outro efeito colateral que a equipe constatou se a geoengenharia começar do jeito que está sendo planejada seria um aquecimento da superfície do oceano Pacífico tropical - pelo fenômeno El Niño - que causaria uma seca devastadora na Amazônia.
Esse resultado é compatível com outros estudos que mostraram que a geoengenharia pode transformar o aquecimento global em seca global, reduzindo drasticamente as chuvas na Terra e até mesmo destruindo o azul do céu.
 

Bibliografia:

Potentially dangerous consequences for biodiversity of solar geoengineering implementation and termination
Christopher H. Trisos, Giuseppe Amatulli, Jessica Gurevitch, Alan Robock, Lili Xia, Brian Zambri
Nature Ecology & Evolution
DOI: 10.1038/s41559-017-0431-0

Animais serão monitorados pela Estação Espacial Internacional

Animais serão monitorados pela Estação Espacial Internacional
A "internet dos animais" permitirá monitorar a vida silvestre em todo o globo. [Imagem: MPI for Ornithology]
Internet dos animais
No último dia 13 de Fevereiro, um foguete russo levou para a Estação Espacial Internacional as antenas que faltavam para completar a missão Icarus, desenvolvida por uma equipe do Instituto Max Planck (Alemanha) e da Agência Espacial Russa (Roscosmos).
O objetivo do sistema é monitorar a vida animal a partir do espaço, fornecendo informações inéditas sobre como as populações desses animais vivem e se movimentam.


O conjunto receptor poderá captar dados de pelo menos 15 milhões de transmissores fixados nos animais vivendo em qualquer ponto da Terra.


Os transmissores são ultraminiaturizados em relação às etiquetas que são fixadas nos animais hoje, pesando apenas cinco gramas cada uma. Com isto, mesmo pequenos pássaros migratórios poderão ser rastreados - os primeiros animais a serem equipados com as novas etiquetas Icarus serão melros.


"A partir de junho, iremos marcar cerca de 300 melros com nossos minitransmissores em 35 locais na Alemanha. Eles nos ajudarão a aprender onde as aves vivem, por onde voam e onde morrem," disse o professor Martin Wikelski, diretor da missão Icarus, que chama o projeto de uma "internet dos animais", em uma referência à internet das coisas.


Cerca de 150 pesquisadores ao redor do mundo já se inscreveram para rastrear a migração de animais, incluindo tartarugas marinhas, jaguares, morcegos e aves migratórias.



Animais serão monitorados pela Estação Espacial Internacional
Uma das antenas de recepção durante testes em laboratório. [Imagem: MPI for Ornithology/MaxCine]
Antenas para a vida silvestre
O sistema Icarus inclui três antenas de recepção, medindo entre um e dois metros de comprimento, e uma antena de transmissão - cada uma delas pesa cerca de 200 quilogramas.


As antenas receptoras, que possuem receptores montados em duas palhetas inclinadas, receberão sinais de uma área de 30 por 800 quilômetros. Como a trajetória da Estação Espacial move-se 2.500 quilômetros para o oeste cada vez que circunda o globo, as antenas de recepção podem cobrir até 80% da superfície da Terra em um dia.


A antena transmissora, por sua vez, permitirá enviar comandos de configuração para as etiquetas, bem como dados orbitais precisos de volta para a estação receptora.


Agora é só esperar que os astronautas programem a caminhada espacial para montar as antenas no lado de fora da Estação.


Petrobras quer produzir biocombustíveis a partir de microalgas


Petrobras estuda produção de biocombustíveis a partir de microalgas
Os resultados são promissores, segundo Juliana Vaz, gerente de Biotecnologia do Centro de Pesquisa (Cenpes) da Petrobras.[Imagem: Francisco Alves de Souza/Petrobras]
Biocombustível de algas
A Petrobras está trabalhando no desenvolvimento de uma tecnologia pioneira para produzir biodiesel a partir de microalgas, uma alternativa aos combustíveis derivados do petróleo.
"É um projeto de vanguarda, pioneiro no Brasil e que logo vai estar à disposição de todos. [O projeto] vai contribuir para a construção de um futuro mais sustentável," disse Juliana Vaz, gerente de Biotecnologia do Centro de Pesquisas (Cenpes) da Petrobras.
O processo biológico das microalgas gera uma biomassa que é usada para se extrair óleo, que será a matéria-prima para a produção do biocombustível. Hoje, o biodiesel é fabricado a partir de outras fontes renováveis, entre elas óleo de soja, gordura animal, óleo de algodão e sebo de animais.
As microalgas têm como principal vantagem o fato de não ter sazonalidade (períodos de safra) e não depender de condições específicas - de solo, por exemplo - para sua produção. Sua fabricação possibilita colheitas "quase que semanais", com uma produtividade até 40 vezes maior do que a da biomassa feita de vegetais terrestres. "As microalgas têm uma produtividade muito maior do que a soja e cana," afirmou a pesquisadora.
O próximo passo é produzir o biocombustível de microalgas em escala comercial. "O biodiesel produzido já foi submetido a testes de qualificação em laboratório, sob os padrões da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), e os resultados preliminares mostraram ser promissores," disse Juliana.
Captura de CO2
A produção a partir da microalga traz ainda vantagens ecológicas, contribuindo para a redução do gás carbônico (CO2) no ar.
Cada tonelada de microalgas usadas para a produção de biodiesel pode retirar até 2,5 toneladas de gás carbônico do ar, taxa "muito maior que a de outros vegetais normalmente utilizados para a produção de biodiesel - seja a soja ou da cana-de-açúcar," disse Juliana, ressaltando que esse gás carbônico ainda será aproveitado para a produção de um substituto dos combustíveis fósseis.
Ainda dentro do contexto de maximizar a tecnologia, também está em estudo a possibilidade de cultivar microalgas em águas oriundas da produção de petróleo, contribuindo no tratamento dessa água para descarte ou para reúso. "As microalgas utilizam as substâncias presentes na água de produção, como nitrogênio e fósforo, como insumos para a conversão em biomassa," explicou a pesquisadora.
Petrobras estuda produção de biocombustíveis a partir de microalgas
A Embrapa identificou microalgas que geram biocombustíveis com uma produtividade de 10 a 100 vezes maior do que os cultivos agrícolas tradicionais. [Imagem: Embrapa/Vivian Chies]
Fotobiorreator
As pesquisas tiveram início em um fotobiorreator criado pelos próprios pesquisadores do Cenpes, em pequena escala.
"Já em Extremoz, no Rio Grande do Norte, e com apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o processo é testado em uma escala um pouco maior. O local conta com tanques abertos, com capacidade para 20 mil litros, onde as microalgas são cultivadas e possibilitam a avaliação do seu potencial produtivo, da qualidade e o teor do óleo produzido," contou Juliana.
A produção encontra-se atualmente em escala piloto, uma fase da pesquisa que deverá durar ainda de 2,5 a 3 anos.
A partir dessas avaliações, o processo será testado em escala demonstrativa, em um cultivo que atingirá de 50 a 100 hectares de tanques abertos. "Seria uma fase semicomercial, para efetivamente sabermos se há condições de se produzir este combustível em escala comercial e de forma competitiva. E aí entra a fase de estratégia de definição de análise de custo para certificar se efetivamente ele poderá entrar no mercado", explicou Juliana.
Bioquerosene de aviação
Também está sendo pesquisado o uso das microalgas na produção de bioquerosene de aviação (BioQAV), em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "As pesquisas se pautaram muito, no início, no domínio do cultivo para a produção do óleo, que uma vez produzido, pode ser utilizado para finalidades diversas, inclusive do BioQAV," afirmou Juliana.
Outra parceria, com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, também visa a produção do biocombustível de aviação.
Para a pesquisadora, é necessário garantir a viabilidade econômica para que a produção chegue à escala comercial. "A atual dificuldade a ser vencida com as pesquisas é a de otimizar o processo de tal forma que garanta viabilidade econômica e um balanço energético mais positivo, através principalmente do aumento do teor de óleo produzido pelas microalgas," concluiu Juliana.

Poluentes da água são quebrados usando um LED e vitamina C

Meio ambiente

Poluentes da água são quebrados usando um LED e vitamina C
O sistema com LEDs gera tantos elétrons hidratados quanto os sistemas de lasers de alta potência, que são muito perigosos.[Imagem: R. Naumann et al. - 10.1002/anie.201711692]

Elétrons hidratados
Químicos da Universidade Martin Luther, na Alemanha, descobriram como desintegrar de forma fácil e barata poluentes dispersos na água que até hoje só dificilmente poderiam ser retirados.


Para livrar a água dos poluentes, Robert Naumann e seus colegas só precisam de um LED verde, um catalisador e vitamina C.


Essa combinação produz tipos especiais de elétrons que destroem de forma confiável os poluentes na água - os elétrons são liberados pela energia da luz de seu composto molecular na vitamina C e então passam a nadar livremente na água, onde interagem com os poluentes.


"A ideia é que a luz penetre numa molécula e desencadeie uma reação lá," explicou o professor Martin Goez, coordenador da equipe. "Estes chamados 'elétrons hidratados' são extremamente reativos e podem, por exemplo, ajudar a quebrar os poluentes. A vantagem em relação a outras substâncias é que os elétrons desaparecem completamente após a reação, o que significa que não deixam resíduos prejudiciais."


Quebra de poluentes
Os elétrons hidratados reagem com substâncias muito estáveis, dividindo-as em seus componentes individuais, tipicamente inertes.


Até agora, isso só podia ser feito usando sistemas de laser complexos demais para usos práticos, além do que os lasers de alta potência necessários para gerar esse tipo de elétron exigem rígidas precauções de segurança. Em contrapartida, o sistema com LEDs e vitamina C é muito mais simples e barato. "Nosso sistema consiste em um diodo padrão de emissão de luz verde, traços de um complexo metálico que atua como catalisador e vitamina C. Este método pode ser ensinado aos estudantes de graduação no início do curso," disse Goez.
O grupo testou o método com vários poluentes, incluindo o ácido cloroacético, uma substância extremamente tóxica e muito estável - o ácido foi totalmente desfeito em componentes inofensivos.


Segundo a equipe, a técnica é adequada não apenas para a decomposição de cloretos ou fluoretos prejudiciais; ela pode ser aplicada a muitas outras reações fotoquímicas que são difíceis de iniciar por outros meios.
Bibliografia:

Generating Hydrated Electrons for Chemical Syntheses by Using a Green Light-Emitting Diode (LED)
Robert Naumann, F. Lehmann, Martin Goez
Angewandte Chemie
DOI: 10.1002/anie.201711692