Medicamentos e Meio ambiente: soluções individuais, problemas coletivos
Por Gabrielle Rabelo Quadra, Rafaela dos Santos Costa, Helena de Oliveira Souza e Marcos Antonio dos Santos Fernandez.
- domingo, 11 Março 2018 14:55
Foto: Josué Goge/Flickr.
Você sabia que o uso intensivo de medicamentos tem transformado
resíduos destes compostos em poluentes comuns nos ambientes aquáticos?
As consequências ambientais deste tipo de poluição ainda são pouco
conhecidas, mas diversos estudos já indicam efeitos na reprodução e
mobilidade de organismos, mesmo em baixas concentrações no ambiente. Mas
devemos pensar: como os medicamentos que eu consumo chegam até o
ambiente? Isso realmente é uma questão que envolve toda a sociedade. A
entrada de medicamentos no ambiente via lixo comum pela população é uma
forte contribuição para contaminação ambiental.
Precisamos pensar que
todos nós temos uma cota de contribuição para que esses medicamentos
cheguem até o ambiente e que podem voltar para nós pela água potável.
Portanto, o uso indiscriminado, desde a automedicação até o descarte
indevido, precisa ser controlado, e isso é uma atitude que pode ser
repensada por cada um de nós.
A população mundial tem aumentado e, com isso, o consumo de
medicamentos se torna maior. Além disso, o aumento da expectativa de
vida dos seres humanos e a consequente inversão das pirâmides de idade
populacionais têm aumentado proporcionalmente ainda mais o consumo de
medicamentos.
As pessoas idosas consomem mais medicamentos, uma vez que o
organismo já não funciona tão bem e o índice de doenças crônicas é mais
alto nesta população. No Brasil, esse aumento é nítido: entre 2002 e
2016, a população aumentou de 180 para 205 milhões de pessoas, com maior
percentual proporcional de idosos; no mesmo período, a venda de
medicamentos passou de 500 milhões de unidades (caixas) para 3,5
bilhões, segundo dados do IBGE e do Sindicato das Indústrias
Farmacêuticas (Sindusfarma).
Por sua vez, esse aumento de consumo
aumenta a geração de resíduos. Uma vez no ambiente, estes resíduos se
comportam como contaminantes e podem ser tóxicos a diversos organismos,
inclusive a espécie humana. Os seres humanos ficam expostos aos resíduos
de fármacos por meio da água potável e via alimentação, como os peixes.
Nesse sentido, os resíduos de medicamentos também podem poluir águas
superficiais e subterrâneas, solos e ar.
Medicamento na água é problema
Dezenas de frascos de medicamentos jogados em estrada no Paraná. Foto: Câmara Municipal de Guaíra.
Os resíduos de medicamentos atingem os corpos hídricos de várias
maneiras: pelo descarte incorreto de medicamentos, uso intensivo de
medicamentos na medicina veterinária e a não remoção completa dos
resíduos de medicamentos nas estações de tratamento.
Após sua utilização, seja na medicina humana ou na veterinária, os
medicamentos são excretados pelos organismos diretamente para o
ambiente, sendo transportados para os corpos hídricos, ou, quando as
excreções são coletadas e tratadas, passam por estações de tratamento de
esgoto (ETEs). Nestas estações, normalmente os resíduos de medicamentos
não são removidos completamente devido à tecnologia ineficiente, e
assim, também acabam alcançando o ambiente.
As águas contaminadas pelos
resíduos de medicamentos podem ser utilizadas para produção de água
potável. Nas estações de tratamento de água (ETAs), a mesma situação
pode acontecer, ou seja, devido a tecnologias ineficientes, os resíduos
de fármacos podem ser encontrados na água potável. Todos os medicamentos
são formulados para provocar um efeito, assim, eles podem atravessar as
barreiras biológicas dos organismos para chegar até o órgão afetado.
Logo, devemos pensar que no ambiente eles também podem resistir a
barreiras e a degradação, sendo persistentes. Além disso, algumas destas
substâncias apresentam tendência cumulativa, ou seja, elas podem
acumular pela cadeia trófica, sendo essa uma via de contaminação para os
seres humanos – ao se alimentar de outros animais. O descarte indevido
de medicamentos ou das suas embalagens também resulta em uma importante
via de contaminação ambiental. Uma visão esquemática desse conjunto de
processos é mostrada na Figura 1, adiante.
Figura 1. Vias de entrada e destino dos resíduos de medicamentos no ambiente.
Apesar da problemática envolvida, a detecção e quantificação de
medicamentos no ambiente ainda são restritas em determinados países. A
detecção dessas substâncias só foi possível devido aos avanços dos
métodos analíticos, já que geralmente são encontrados no ambiente em
baixas concentrações, na ordem de ng L
-l e µg L
-1
(Figura 2). Normalmente, nos rótulos de bebidas que ingerimos
diariamente, vemos as concentrações em miligrama por litro, o que
significa que estamos falando de concentrações de mil a um milhão de
vezes menor do que isso.
Figura
2. Concentrações ambientais de diversos medicamentos reportadas em
águas superficiais de diferentes países (Brasil, Canadá, Alemanha,
Itália, Reino Unido e Estados Unidos).
Porém, não podemos nos enganar, mesmo em baixas concentrações, alguns
estudos já apontam efeitos tóxicos dessas substâncias em alguns
organismos aquáticos. Os hormônios são capazes de causar alterações
sexuais, como, por exemplo, hermafroditismo e feminização em peixes. O
Ibuprofeno (terceira droga mais popular do mundo!) foi capaz de alterar
os padrões de reprodução de peixes em concentrações detectadas no
ambiente. O antidepressivo Fluoxetina demonstrou ser capaz de alterar o
comportamento dos peixes na fuga de predadores. Estas são somente
algumas consequências já evidenciadas em laboratório, existem vários
estudos com outros organismos e outras substâncias, mas ainda há muito
que fazer.
Além dos efeitos isolados, estudos têm demonstrado que estes
compostos podem ter efeitos sinergéticos, isto é, duas ou mais
substâncias juntas podem potencializar seus efeitos. Por exemplo, os
anti-inflamatórios ibuprofeno e diclofenaco podem aumentar ainda mais a
mortalidade de
Daphnia magna (microcrustáceo). Assim, a
preocupação se agrava, uma vez que essas substâncias são sempre
encontradas no ambiente em misturas. Além disso, precisamos pensar que a
introdução no ambiente aquático de substâncias químicas sintéticas
envolve uma enorme variedade de compostos e os efeitos sinérgicos podem
ocorrer - inclusive com outras classes como metais pesados e pesticidas.
Outra questão é que a entrada dos medicamentos é constante no ambiente e
os organismos ficam expostos de forma contínua. Ainda sabemos pouco
sobre as consequências que podem ocorrer à longo prazo e os efeitos não
são detectados em bioensaios de curto período.
A legislação e a má gestão
No Brasil, o descarte indevido de medicamentos é consequência de um
conjunto de fatores relacionados à má gestão, ausência de fiscalização
farmacêutica e leis mais rigorosas. Normalmente, os pacientes não podem
adquirir o número exato de comprimidos exigidos pelo tratamento, o que
resulta em descarte dos medicamentos não utilizados.
Além disso, temos o
problema da automedicação, um mau hábito que resulta, muitas vezes, em
um aumento desnecessário do consumo. Ainda assim, não há legislação
brasileira de obrigatoriedade por parte dos estabelecimentos para
apresentar pontos de recolhimento dos medicamentos em desuso ou
vencidos, o que resulta em descarte incorreto em lixo comum ou nas redes
de esgotamento sanitário.
Iniciativas importantes, bons exemplos devem ser seguidos!
Ibuprofeno e diclofenaco podem aumentar ainda mais a mortalidade de Daphnia magna (microcrustáceo). Foto: Wikipédia.
No Brasil, podemos encontrar algumas iniciativas de descarte correto
de medicamentos. O estado de São Paulo, por exemplo, estabeleceu uma
parceria entre prefeitura e empresas privadas para o recolhimento de
medicamentos em supermercados e farmácias. A empresa Brasil Health
Service possui o “Programa Descarte Consciente” que apresenta estações
coletoras em alguns estabelecimentos participantes das regiões Nordeste,
Sul e Sudeste.
Ainda podemos citar programas como o “Papa Pílula”,
realizado pelo Serviço Social da Indústria de Santa Catarina. Estas
atividades são imprescindíveis para auxiliar a população em relação ao
descarte correto dos medicamentos. Além destas iniciativas, podemos
encontrar no Brasil, outras localidades que recorreram também a
implementação de sistemas de coletas, mas desta vez fixados em lei, são
os casos do Acre, Ceará, Distrito Federal, Juiz de Fora, Paraíba, Paraná
e Rio Grande do Sul.
Outros países apresentam exemplos do uso de medidas bem-sucedidas,
mostrando como uma correta gestão torna possível a logística reversa e a
responsabilidade compartilhada dos resíduos de medicamentos. A Itália
foi o primeiro país da Europa, a estabelecer um sistema de coleta de
medicamentos na década de 70 com a criação da empresa Assinde Servizi. A
França apresenta o sistema de coleta de medicamentos vencidos
denominado Cyclamed, o qual obriga as indústrias a eliminarem os
resíduos de embalagens domésticas que coloca no mercado. O Canadá possui
Post-Consumer Pharmaceutical Association, uma organização sem fins
lucrativos que desde 1999 realiza coletas e conta com o apoio de
empresas de pesquisas farmacêuticas.
Olhando para o futuro... um salto para o futuro dos medicamentos no ambiente
Os efeitos que são reportados em organismos aquáticos e terrestres já
são suficientes para demonstrar que a preocupação com a saúde humana
também deve existir. E o que nós, como cidadãos, podemos fazer? Uso
consciente de medicamentos. Evitar a automedicação e seguir corretamente
as orientações das prescrições é fundamental.
Além disso, podemos nos
conscientizar e cobrar das nossas prefeituras um local para disposição
de medicamentos vencidos e/ou não utilizados. Precisamos investir mais
tempo em maneiras de prevenir que estas substâncias cheguem ao ambiente.
Algumas formas de se prevenir são: a questão de conscientização
individual, divulgação da problemática, trabalhos de educação ambiental
envolvendo descarte correto, adequação da legislação e investimento em
fiscalização. Estas medidas ajudarão no desenvolvimento de cidadãos mais
críticos, que reivindiquem e cobrem medidas mais eficientes.
Ainda assim, precisamos de mais estudos de detecção ambiental, de
efeitos destes resíduos em organismos para determinar concentrações
legais de descarte, assim como estudos que ajudem na divulgação desta
problemática. Não menos importante é o investimento em técnicas
eficientes de remoção destes compostos das estações de tratamento e
criação de medicamentos que degradam facilmente no ambiente. Todos
devemos pensar que estas substâncias vão para o ambiente, portanto,
devemos certificar que elas sejam menos tóxicas possível.
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Gabrielle Rabelo Quadra, doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). |
| Rafaela dos Santos Costa, mestre em Dinâmica dos Oceanos e da Terra pela Universidade Federal Fluminense (UFF). |
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Helena de Oliveira Souza, mestre em Ciências Ambientais e Conservação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). |
| Marcos Antonio dos Santos Fernandez,
doutor em Química pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro. Professor associado da Universidade Estadual do Rio de Janeiro
(UERJ). |
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