As terras do segundo maior bioma do Brasil viraram um enorme
celeiro agrícola, à custa da perda de metade de sua cobertura vegetal
nativa. O prejuízo pode se agravar ainda mais se o desmatamento da
região não for contido
Vegetação típica do Cerrado: árvores baixas e resistentes, que vêm perdendo espaço para a agricultura (Foto: iStockphotos)
20Com 207 milhões de hectares (cerca de 22% do território
nacional), o Cerrado, o segundo maior bioma do Brasil – atrás apenas da
Amazônia –, era visto até algumas décadas atrás como um ecossistema
desinteressante, com uma vegetação raquítica e pouco diversa, de onde
quase nada se poderia aproveitar. Graças a muitas pesquisas e ciências
aplicadas, no entanto, essa imensa savana de solos pobres e sujeita a
secas se transformou numa das mais importantes zonas agrícolas do Brasil
e do mundo.
Mas essa pujança tem um preço. O agronegócio se estabeleceu abrindo a
fronteira agrícola, desmatando e degradando vastas áreas. Só entre 2013
e 2015, por exemplo, foram destruídos 18.962 km2 da região. Isso
significa que, a cada dois meses, a vegetação nativa de um território
equivalente ao da cidade de São Paulo (1.521 km2) desaparece.
Para evitar que esse quadro se agrave, 40 organizações ambientalistas
lançaram em 11 de setembro (Dia do Cerrado) o manifesto “Nas mãos do
mercado, o futuro do Cerrado: é preciso interromper o desmatamento”. No
documento, elas pedem uma medida imediata em defesa do bioma a ser
tomada pelas empresas que compram soja e carne produzidas na região,
assim como os investidores que atuam nesses setores, no sentido de
adotar políticas e compromissos eficazes para eliminar o desmatamento e
desvincular suas cadeias produtivas de áreas naturais recentemente
convertidas em agricultáveis.
O processo que culminou na atual situação vem de longe. As vastidões
do Cerrado começaram a ser ocupadas no século 18, com a mineração de
ouro e pedras preciosas. Junto com essa atividade começaram a surgir os
primeiros povoados. Esgotadas essas riquezas, os habitantes da região
tiveram que descobrir outra forma de ganhar a vida. A alternativa que
vingou foi a pecuária extensiva, principal atividade econômica daquelas
paragens até praticamente o fim da década de 1950.
Proteção pequena
Com a construção de Brasília, na virada dos anos 1950 para 1960,
vieram as estradas e ferrovias, pelas quais chegaram os migrantes.
Vinham atraídos pelas políticas agrícolas desenvolvimentistas do
governo, que queria integrar aquele território ao restante do país.
Criaram-se assim as condições para a expansão da agricultura comercial. O
resultado disso em termos ambientais pode ser medido em números. “O
Cerrado já perdeu 50% de sua cobertura vegetal nativa”, diz a bióloga
Mercedes Bustamante, professora e pesquisadora da Universidade de
Brasília (UnB). “Os remanescentes estão fragmentados e sob pressão de
conversão nas novas frentes do desmatamento. As áreas de proteção
integral cobrem um percentual muito baixo do bioma e não representam sua
variabilidade espacial.”
A construção de Brasília (acima) estimulou a ocupação do bioma, hoje marcado pelo plantio de soja (abaixo) (Fotos: iStockphotos)
Cristiane Mazzetti, especialista do Greenpeace em Desmatamento Zero,
lembra que a taxa anual de desmatamento do bioma superou a da Amazônia
nos últimos dez anos. “Em 2014 e 2015 ela ficou próxima de 9.500
km2/ano, enquanto a do Norte para os mesmos anos foi de 5.012 e 6.207
km2 respectivamente”, informa.
“Para piorar, no Cerrado a área passível de desmatamento legal (com
autorização do órgão ambiental competente) é de 65%-80% de cada
propriedade rural, enquanto na Amazônia é de apenas 20%. Isso mostra que
o simples cumprimento da legislação, embora seja fundamental, não é
suficiente para barrar a rápida perda da vegetação nativa.”
A situação é mais grave no Matopiba, região na confluência dos
estados de Mato Grosso, Tocantins, Piauí e Bahia. “Grandes áreas de lá
estão sendo perdidas para abrir espaço para pastagens e plantações de
soja”, diz Cristiane. “Ao manter esse ritmo de destruição, o Cerrado
segue o mesmo caminho da Mata Atlântica, onde restaram apenas 10% da sua
formação original, gerando assim a perda de serviços ambientais
fundamentais para toda a sociedade.”
Conflito prejudicial
Para o geógrafo Eguimar Felício Chaveiro, da Universidade Federal de
Goiás (UFG), o conflito entre a agricultura e a conservação ambiental
tem trazido grandes prejuízos para o bioma. “Ele tem potencial para
diversos tipos de usos, mas o modelo de desenvolvimento adotado tem
destruído parte considerável dessa riqueza, transformando-a em pobreza”,
critica.
“Há, inclusive, uma contradição: transformam o Cerrado em marca, mas o
destroem; enaltecem seu valor, mas consagram um modelo de
desenvolvimento econômico que extingue parte de sua diversidade genética
e cultural. Há problemas de erosão genética, de degradação ambiental de
matas ciliares, repercutindo nos seus componentes hídricos. Já se vê o
secamento de vários canais e a extinção de algumas espécies de animais,
como o tatupeba.”
Tatupeba: espécie típica já extinta em algumas áreas do Cerrado (Foto: Divulgação)
Segundo Mercedes, a falta de atenção comparada à dispensada a outros
biomas do país é outro problema que a região tem de enfrentar. “Enquanto
há uma preocupação internacional e nacional com o desmatamento na
Amazônia, há pouca divulgação sobre o acelerado processo de degradação
do Cerrado, que constitui a savana mais diversa do mundo e a origem de
três grandes bacias hidrográficas brasileiras (Tocantins, São Francisco e
Platina)”, lamenta.“Entender como ela – que apresenta zonas de contato com os principais
biomas brasileiros (Pantanal, Amazônia e Caatinga) – funciona e
divulgar esse conhecimento em nível nacional e internacional é urgente
para reverter o processo atual de uso e ocupação e preservar os
remanescentes de vegetação nativa.”
A situação se torna mais preocupante quando se sabe que, de acordo
com os signatários do manifesto, é desnecessário que a agricultura e a
pecuária continuem se expandindo sobre áreas naturais no Cerrado, pois
há cerca de 40 milhões de hectares já desmatados no Brasil com aptidão
para a expansão da soja – principal cultura agrícola associada ao
desmatamento.
“Isso é suficiente para o atendimento das metas brasileiras de
expansão produtiva de soja nos próximos 50 anos”, diz o documento. “O
setor da soja já detém conhecimento suficiente para a expansão sobre
zonas abertas, sendo esse o padrão nas demais regiões, como no bioma
Amazônia e em outros locais do Cerrado fora do Matopiba.”
Estímulo para o aquecimento
Pecuária no Cerrado: atividade que favorece a mudança climática (Foto: iStockphotos)
Afora levar ao desmatamento e à degradação ambiental de grandes
áreas, a ocupação do Cerrado pela agropecuária contribui para o
aquecimento global, constatou a bióloga Mercedes Bustamante, da
Universidade de Brasília (UnB). Ela pesquisa há vários anos os impactos
das mudanças na cobertura vegetal e do uso da terra no bioma. Mercedes
quer entender como a agropecuária no Cerrado contribui para o efeito
estufa e o aquecimento global.
Segundo ela, esse bioma tem muito dióxido de carbono (CO2) fixado no
solo, sobretudo nas raízes de sua vegetação, muito profundas devido à
escassez de água perto da superfície. “O Cerrado é como uma floresta de
cabeça para baixo. Há mais biomassa vegetal enterrada no solo do que na
parte aérea”, afirma. De acordo com Mercedes, ao mexer nisso, muito
carbono e outros gases-estufa, como o metano, são lançados no ar. Só as
queimadas liberam cerca de 17 toneladas de carbono por hectare por ano.
O Brasil está se preparando para a próxima Conferência das Partes (COP), que será realizada em dezembro, na Polônia. Durante duas semanas, os países apresentarão suas diretrizes para implementar suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês) nas áreas de mitigação, adaptação e financiamento. A regulamentação do acordo precisa ser concluída e depende de consenso global sobre pontos cruciais como o financiamento das ações de corte de emissões de carbono e a avaliação das metas de cada país.
Durante a COP 21, realizada em Paris em 2015, o Brasil se comprometeu com a redução de 37% de suas emissões de gases de efeito estufa (GEEs) até 2025, tendo como ponto de partida as emissões de 2005. Na ocasião, para alcançar essa meta o governo brasileiro apresentou uma série de ações em diversos setores da economia, que desde então estão sendo revistas e detalhadas.
Numa iniciativa muito bem liderada pelo Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC), foi elaborada por diferentes setores da sociedade – e apresentada ao governo federal – uma proposta de implementação da NDC brasileira. Fugindo do mantra de simplesmente “aumentar a participação de energias renováveis” na matriz energética – que durante anos imperou sobre as propostas apresentadas pelo Brasil de redução das emissões de GEEs para o setor de energia –, a proposta evoluiu e caminha na direção de ações que efetivamente podem contribuir para a redução das emissões de GEEs.
Um passo importante foi o reconhecimento dos setores que mais contribuem para as emissões de GEEs no Brasil: o desmatamento, a agropecuária e o setor de transportes. O passo foi crucial porque, no Brasil, diferentemente dos países desenvolvidos, a geração de energia elétrica não está entre os principais emissores de GEEs.
A falta de percepção da sociedade para os reais responsáveis pelas emissões de GEEs implica uma cobrança equivocada e o estabelecimento de metas desproporcionais para o setor elétrico, que tem cumprido seus compromissos e que pode ser “empurrado” para a ineficiência operacional e tarifária.
O setor elétrico não pode deixar de assumir compromissos cada vez mais ousados em termos de redução de GEEs, mas os setores que mais emitem e que, portanto, podem contribuir mais – e de forma mais econômica – para a redução de GEEs não podem “se esconder” atrás de setores que são cobrados em razão de um diagnóstico “importado” de cenários internacionais que, diferentemente do Brasil, têm no setor elétrico um dos grandes vilões das emissões.
A proposta apresentada pelo FBMC adotou como critérios para selecionar as ações mais relevantes para a redução das emissões de GEEs tanto o potencial de mitigação quanto a compatibilidade com a estratégia de longo prazo e com os impactos sociais. Com base nesses critérios, as principais ações de mitigação de emissões para o setor elétrico são: 1) aumento do nível de eficiência energética na ponta do consumo; 2) ampliação da geração elétrica de fontes renováveis, tanto centralizada como
Diferentemente dos países desenvolvidos, aqui o setor elétrico não está entre os principais emissores de GEEs distribuída, no sistema interligado e em sistemas isolados, bem como da capacidade de armazenamento de energia; 3) repotenciação de hidrelétricas; e 4) expansão de energias renováveis em localidades isoladas.
O setor elétrico brasileiro é limpo e a expansão das renováveis no Brasil tem sido beneficiada pela crescente competitividade econômica das fontes eólica e solar, mas a inserção dessas fontes impõe um novo desafio para o operador do sistema em razão da variação da geração ao longo do dia pela disponibilidade de vento e sol. Para fazer frente a esse desafio, podese contar com a opção termoelétrica e com o potencial hidráulico remanescente associado a um robusto sistema de transmissão.
O setor elétrico brasileiro tem espaço para todas as fontes e múltiplas alternativas para manter nosso país entre os que menos emitem GEEs na geração de energia elétrica.
SÃO PRESIDENTE E DIRETOR PARA ASSUNTOS SOCIOAMBIENTAIS E SUSTENTABILIDADE DO INSTITUTO ACENDE BRASIL
Estudo internacional com participação brasileira, mostra que os
riscos corridos pelas florestas tropicais do mundo estão se
intensificando em ritmo crescente
Desmatamento na Amazônia: só um dos fatores que estão destruindo a floresta (Foto: iStockphotos)
Como se o desmatamento já não fosse suficientemente ruim, uma
série de outras ameaças mata, num ritmo cada vez mais intenso, as
árvores da Amazônia e de outras florestas tropicais úmidas da Terra. Uma
revisão de artigos científicos feita por especialistas no tema,
incluindo o pesquisador brasileiro Paulo Brando, do Instituto de
Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), e publicada na revista “New
Phytologist” em fevereiro, indica que a taxa de mortalidade dessas
árvores mostra sinais de aceleração nos últimos anos.
Os motivos são o aumento da temperatura, secas longas e piores,
ventos mais fortes, incêndios mais extensos, mais cipós e até a
abundância de gás carbônico na atmosfera – uma das causas do efeito
estufa e elemento fundamental da fotossíntese. As mudanças climáticas
estão ligadas a todos os problemas apontados. “O trabalho mostra que há
indícios fortes que relacionam a mortalidade das árvores de florestas
tropicais úmidas às alterações esperadas para essas regiões, em escalas
global e regional”, afirma Brando.
O foco do estudo foram as florestas intactas, primárias ou antigas,
na América do Sul, África e no Sudeste Asiático. A Amazônia brasileira
aparece em destaque porque é o local mais estudado de todos. “Na
Amazônia, todas essas causas de mortalidade de árvores estão presentes”,
diz Brando. “Mas é difícil dizer que uma é mais relevante do que outra,
porque todas têm um papel. Secas causam picos de mortalidade, enquanto o
aumento de CO2 provoca mudanças de fundo. Já eventos de tempestades de
vento impactam mais áreas fragmentadas, e o fogo causa muitos danos no
sudeste da Amazônia.”
Equação letal
É impossível estabelecer qual desses ataques é pior. As secas têm se
tornado cada vez mais longas e severas – na Amazônia, episódios anômalos
ocorreram em 1997, 2005, 2010 e 2015. Como defesa imediata, as árvores
tomam atitudes extremas, como fechar os estômatos (células por onde
ocorre a respiração das plantas) e perder mais folhas. Essas folhas, por
sua vez, se acumulam em abundância no solo e servem de combustível para
incêndios florestais, que se alastram facilmente e por mais tempo.
As novas condições estão favorecendo a proliferação de cipós (Foto: iStockphotos)
Secas e temperaturas mais altas podem ainda levar as árvores a
definhar de fome, também num mecanismo de defesa que acaba se tornando
um algoz. Ao fecharem os estômatos para salvar água em seu interior,
elas deixam de capturar o CO2 do ar, sua fonte de alimentação, enquanto
consomem o que têm dentro. O regime forçado as deixa mais suscetíveis a
ataques de pestes, como insetos, ou à competição por comida com os cipós
– que, por sua vez, têm proliferado nesses ambientes. E, mesmo que a
dieta não aconteça, o excesso de CO2 no ar também não significa que as
florestas crescerão abundantemente.
“Quando há muito gás carbônico, algumas árvores podem dominar o
pedaço e roubar os recursos dos vizinhos. Assim, há um aumento esperado
na mortalidade de árvores, mas não necessariamente mudanças drásticas
nos estoques de carbono”, afirma Brando. “Outra explicação é que a
floresta se torna mais dinâmica com mais CO2; cresce e morre mais
rapidamente, tanto pelo metabolismo quanto por mudanças na sua
estrutura.” Tampouco o fato de estarem próximas à linha do equador traz
vantagem para as florestas tropicais úmidas num planeta mais quente: um
novo regime de temperatura, esperado para os próximos anos devido às
mudanças climáticas, pode mudar o metabolismo das árvores.
Segundo Brando, reduzir a taxa de mudança no clima e estabilizar o
processo o quanto antes, o que envolve tanto derrubar os níveis de
emissão de CO2 quanto os do desmatamento, são fatores essenciais para
manter as florestas tropicais. “Quanto menor a área de borda de
floresta, comum em paisagens fragmentadas, menor o impacto de seca, fogo
e ventos.” Ele ainda destaca a importância de aprofundar as análises:
“Precisamos saber o que realmente está ocorrendo, para fechar buracos
nas observações que ainda existem e nos preparar para os efeitos das
mudanças climáticas”.
Fogo
na Floresta Nacional de Brasília, em foto de 30 de agosto: para Alberto
Setzer, do Inpe, no máximo 1% das queimadas tem origem em fenômenos
naturais (Foto: Pedro Ventura/ Agência Brasília)
Até setembro, o número de focos de incêndio florestal no Brasil
em 2017 já era 51% maior do que o registrado no mesmo período em 2016,
segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Nos
primeiros 27 dias de setembro – o de maior número de registros no país –
havia 105 mil focos, recorde desde 1998, quando o Inpe começou a
monitorá-los.
Destruidor da biodiversidade, causador de várias doenças
respiratórias e responsável pela emissão de grandes volumes de
gases-estufa, o fogo castigou todos os biomas brasileiros, com destaque
para a Amazônia (49% dos focos), o Cerrado (36%) e a Mata Atlântica
(9%). O estado líder foi o Pará, seguido por Mato Grosso e Maranhão.
O Pará também registrou o maior aumento percentual no número de focos
ante o mesmo período de 2016: 233%, bem acima de Maranhão (93%) e São
Paulo (76%). Entre os municípios mais atingidos pelas queimadas em
setembro estão Grajaú, no Maranhão (onde está Bacurizinho, terra
indígena com maior número de incêndios), e Brasileia, no Acre (local da
Reserva Extrativista Chico Mendes, a unidade de conservação mais
castigada).
Para Alberto Setzer, coordenador do Programa de Queimadas e Incêndios
do Inpe, a origem de tanta destruição não é o clima seco nem outras
causas naturais. “Raios e fenômenos espontâneos respondem por, no
máximo, 1% dos focos de incêndio registrados”, disse ele ao Observatório
do Clima. “A baixa umidade do ar apenas cria condições favoráveis aos
incêndios, mas é a ação humana que causa a queimada.”
A notícia de que a Grande Mancha de Lixo do Pacífico já ocupa uma
área 16 vezes maior do que se estimava aumenta a urgência de uma solução
para o problema dos resíduos plásticos, os principais poluidores dos
mares
Acúmulo
de lixo plástico flutuando na costa norte de Honduras, em foto de
Caroline Power: o problema é global (Foto: Caroline Power Photography)
A vida moderna é inimaginável sem os plásticos. Eles estão em
praticamente todos os produtos tecnológicos que caracterizam a
civilização atual. A lista é infindável: computadores, celulares,
televisões e até contêineres e assentos de privada, afora produtos
descartáveis como talheres, pratos, canudos, garrafas, boias, cordas,
embalagens, cotonetes e redes de pesca. Não há dúvida de que é um
produto útil, durável e versátil. Mas também é incontestável que os
plásticos são uma praga ambiental, que contamina todo tipo de ambiente
na Terra. Apenas nos oceanos, estima-se que sejam despejados 8 milhões
de toneladas de plástico a cada ano.
Foca
capturada em rede de pesca (um dos principais itens dos resíduos
plásticos) no atol de Kure, na região do Havaí (Foto: Nature Picture
Library / Easypix Brasil)
Esse volume se espalha por todos os mares do planeta, com
destaque para a chamada Grande Mancha de Lixo do Pacífico, localizada
entre a costa oeste dos Estados Unidos e o Havaí. Essa “ilha” de
entulhos está crescendo mais rapidamente que se previa. Uma pesquisa
recente, publicada na revista científica “Scientific Reports”, constatou
que ela tem cerca de 80 mil toneladas de plásticos descartados, em uma
área de 1,6 milhão de quilômetros quadrados, um pouco maior que o estado
do Amazonas (1.559.159km2) e quase duas vezes e meia o território da
França (643.800km2). O estudo também concluiu que a mancha ocupa hoje
uma área 16 vezes maior do que se estimava.
De acordo com o oceanógrafo Laurent Lebreton, da fundação holandesa
The Ocean Cleanup, que desenvolve tecnologias para extrair a poluição
plástica dos oceanos e realizou a pesquisa, a situação está pior a cada
dia. “Encontramos uma quantidade impressionante e precisamos de medidas
urgentes para acabar com o plástico que ocupa a Grande Mancha de Lixo do
Pacífico”, declarou, durante a divulgação da pesquisa. Segundo ele,
cerca de 20% dos resíduos podem ter chegado à região após o terremoto e
tsunami de 2011 no Japão.
Montanha de lixo plástico em uma ilha das Maldivas, no Oceano Índico (Foto: Alison’s Adventures)
A pesquisa da Ocean Cleanup é considerada uma das maiores realizadas
até hoje para avaliar a extensão da Grande Mancha de Lixo do Pacífico.
Para fazer o trabalho, os pesquisadores contaram com o apoio de 30
navios, várias aeronaves e imagens tridimensionais obtidas do alto e na
superfície. Além disso, 1,2 milhão de amostras foram coletadas. Desse
total, selecionaram-se 50 itens com data de fabricação legível.
Verificou-se que havia plástico de 1977, sete itens da década de 1980,
17 da década de 1990, 24 da década de 2000 e um de 2010.
Fragmentos
A análise também revelou que os pedaços pequenos, que medem menos de
meio centímetro, compõem a maior parte do 1,8 trilhão de peças que
flutuam na mancha, embora respondam por apenas 8% da massa suspensa no
mar. Em todos os oceanos do planeta, estima-se que esse número chegue a
5,25 trilhões, com um peso total de cerca de 290 mil toneladas. As redes
de pesca descartadas são responsáveis por quase metade do peso dos
resíduos.
Pilhas de pneus no leito oceânico da Grande Mancha de Lixo do Pacífico (Foto: Divulgação)
Segundo a pesquisadora Daniela Gadens Zanetti, que faz pós-graduação
em oceanografia com ênfase em microplásticos na Universidade Federal de
Santa Catariana (UFSC), essas partículas estão presentes em todos os
habitats marinhos, desde a superfície oceânica até o fundo do mar, e
estão disponíveis para todos os níveis da cadeia alimentar, dos
produtores primários aos superiores. “Um relatório de 2016 da
Organização das Nações Unidas (ONU) estima que mais de 800 espécies
marinhas e costeiras são afetadas pela ingestão desses plásticos”, diz.
“Além disso, esses resíduos têm um efeito adverso nas indústrias de
pesca, navegação e turismo. O relatório da ONU avalia o custo da
poluição causada por detritos marinhos em US$ 13 bilhões.”
Para o professor Sandro Donnini Mancini, do Instituto de Ciência e
Tecnologia de Sorocaba da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o
problema do lixo de um modo geral é bem complexo e ainda sem solução.
“Se mal conseguimos resolver o problema em cidades, imagine no mar”,
afirma. “Apesar de todos os alertas, como a Grande Mancha de Lixo do
Pacífico, não creio que a situação esteja melhorando, embora tecnologias
venham sendo desenvolvidas para tentar capturar e depois tirar o
material dali. A imensidão do oceano torna isso bem difícil, quase um
sonho mesmo. Mais do que em qualquer lugar, o ideal é não sujar os
mares.”
Amostra
de água da Grande Mancha de Lixo do Pacífico coletada pelo pesquisador
Charles Moore, que descobriu essa área do oceano em 1997 (Foto: Jonathan
Alcorn, Bloomberg/Getty)
Mas os plásticos não são os únicos poluentes jogados ao mar. Como
observa Sandra Tédde Santaella, do Instituto de Ciências do Mar
(Labomar), da Universidade Federal do Ceará (UFC), o problema vai bem
além deles. “Eles são mais visíveis e por isso mais ‘lembrados’,
incomodam mais e expõem a situação”, afirma. “Mas aos oceanos chegam
vários tipos de resíduos com tempo de degradação muito elevado, como
bitucas de cigarro, latas, fraldas descartáveis, vidro, entulho de
construção civil, concreto, pneus, tecidos, entre outros.”
Praias poluídas
Seja como for, os plástico compõem o grosso da poluição marítima. Um
monitoramento que vem sendo realizado desde 2012, pelo Instituto
Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) em parceria com o
Instituto Socioambiental dos Plásticos (Plastivida), associação que
reúne entidades e empresas do setor, constatou que mais de 95% do lixo
encontrado nas praias brasileiras é composto por itens feitos desse
material.
Albatroz encontrado morto no atol de Midway, com o interior repleto de plástico (Foto: Dan Clark/USFWS/AP)
O levantamento foi feito em seis praias do estado de São Paulo
(Ubatumirim, Boraceia, Itaguaré, Barra do Una, Jureia e Ilha Comprida),
três da Bahia (Taquari, Jauá e Imbassaí) e três de Alagoas (Ipioca,
Praia do Francês e do Toco). “No total foram realizadas seis coletas,
inicialmente com intervalos de seis meses e, depois, de um ano”, conta o
biólogo Alexander Turra, do IO-USP, coordenador do trabalho. “Dessas,
as mais poluídas são Boraceia e Itaguaré, Praia do Francês e Taquari.” O
monitoramento também mostrou que, em São Paulo, o maior volume de lixo
se acumula nas dunas ou restingas e é proveniente das atividades de
pesca. No Nordeste, o grosso do material é encontrado na areia seca e
vem do turismo.
Diante desses resultados, não é de se estranhar que o Brasil ocupe a
16a posição no ranking dos países mais poluidores dos mares, segundo um
estudo realizado por pesquisadores americanos e divulgado em 2015. Eles
estimaram a quantidade de resíduos sólidos de origem terrestre que
entram nos oceanos em países costeiros de todo o mundo. Aqui, todos os
anos são lançados nas praias entre 70 mil e 190 mil toneladas de
materiais plásticos descartados. Para Sandra, o Brasil é um grande
poluidor porque não há educação, conscientização, sensibilização,
legislação, orientação e punição no que diz respeito ao lançamento de
resíduos no oceano. “Somos todos omissos e culpados, população e
Estado”, conclui.
Arraia-manta nada perto de plástico no litoral da Indonésia (Foto: Divulgação)
Mancini lista cinco condições para afirmar que o Brasil é um grande
poluidor dos mares: economia razoavelmente forte; grande população;
muita gente morando no litoral; muita troca internacional marítima e um
péssimo gerenciamento de lixo de um modo geral. “Ainda falamos em ‘jogue
o lixo no lixo’ e lutamos para acabar com os lixões”, afirma. “Não tem
por que termos realidade e comportamento diferente quando falamos de
poluição dos oceanos.”
Domínio chinês
A mesma pesquisa de 2015 mostrou que a China, a Indonésia e as
Filipinas são os países que mais poluem os oceanos, descartando até 3,5
milhões de toneladas de plásticos por ano. Elas também aparecem nos
primeiros lugares de outro levantamento, realizado pela ONG americana
Ocean Conservancy. Juntos com a Tailândia e o Vietnã, são responsáveis
por 60% dos resíduos desse material encontrados nos mares do mundo.
Segundo Sandra, também é importante lembrar os danos que os resíduos
sólidos causam à fauna marinha, pois muitos animais morrem enroscados em
linhas, sacos e redes de pesca perdidas. “Ou então por ingestão de
pedaços de lixo de diversos tamanhos que ficam no seu trato digestivo
por muito tempo e lhes dão sensação de saciedade, levando-os à morte por
inanição”, acrescenta. “Além disso, muitos ficam aprisionados nas
embalagens, tambores, outros enroscam-se e ferem-se letalmente nos
resíduos.”
Barreira
coletora de plástico que a organização The Ocean Cleanup pretende usar
na Grande Mancha de Lixo do Pacífico (Foto: Divulgação)
O mais grave é que a situação tende a piorar. Um relatório recente,
divulgado pelo governo britânico, concluiu que até 2025 os oceanos do
planeta estarão três vezes mais poluídos com plástico. Outro estudo,
tornado público em 2016 no Fórum Econômico Mundial de Davos, afirmou que
até 2050 os mares da Terra terão mais pedaços desse produto do que
peixes. São materiais que levam pelo menos 450 anos para serem
totalmente decompostos.
Para tentar mitigar a situação atual e evitar que ela piore, a Ocean
Cleanup está desenvolvendo um sistema de grandes barreiras flutuantes
com telas subaquáticas com o objetivo de coletar cinco toneladas de
lixo por mês a partir dos próximos anos. “O esforço pode ser inócuo, no
entanto, diante de um aumento desenfreado da produção de plástico que,
segundo pesquisas, pode triplicar na próxima década”, alertou Lebreton.
“É preciso reduzir o desperdício, criar opções biodegradáveis
alternativas e, principalmente, mudar a forma como usamos e descartamos
os produtos feitos com esse material.”
Depósito de detritos
Descoberta na segunda metade da década de 1980, a Grande Mancha de
Lixo do Pacífico está na área do Giro Pacífico Norte, um dos cinco
maiores giros oceânicos do mundo, entre a costa ocidental dos Estados
Unidos e o Havaí. A mancha acumula resíduos trazidos pelas correntes
oceânicas.
Os detritos (plástico fragmentado, em sua maior parte) encontrados
nessas águas calmas não são detectados em imagens de satélite por causa
de sua baixa densidade: apenas quatro partículas por metro cúbico.
Somente quem está em embarcações que se encontram na região consegue
vê-los.
Esboço de ação
A comunidade internacional também está se mexendo para tentar
resolver o problema do lixo nos oceanos. Em 2011, foi criado o
Compromisso de Honolulu, para discutir a questão de resíduos nos mares
em nível global. O documento é dirigido a governos, indústrias,
organizações não governamentais (ONGs) e demais interessados. Seu
objetivo principal é servir como instrumento de gestão para a redução da
entrada de lixo nos oceanos e praias, bem como retirar o que já existe.
Um dos resultados concretos do Compromisso de Honolulu foi a
assinatura da Declaração Global Conjunta da Indústria dos Plásticos, da
qual a Plastivida é signatária. Para implementar no Brasil esse
compromisso mundial, a associação, como uma das entidades representantes
da cadeia produtiva dos plásticos no país, e o IO-USP assinaram o
convênio em 2012. A meta é se capacitar e desenvolver estudos
científicos para embasar as discussões no Brasil sobre a questão do lixo
nos oceanos.
Habitantes
da capital indiana, Nova Délhi, enfrentam a tempestade de areia no
início de maio: pelo menos 125 pessoas morreram por causa do fenômeno no
país (Foto: AFP Photo / Dominique Faget)
Todos os anos a Índia registra tempestades de areia, mas as do
início de maio (dias 2 e 3) foram marcantes pela intensidade inédita em
décadas. Elas atingiram dois estados do norte do país, Rajastão e Uttar
Pradesh, com ventos de até 130 quilômetros por hora, que derrubaram
muros, árvores e postes de energia elétrica e causaram a morte de pelo
menos 125 pessoas e ferimentos em mais de 200 indivíduos. Na região
devastada (que inclui a capital do país, Nova Délhi) existem muitas
casas de barro, que mostraram sua fragilidade ante a força do fenômeno.
A área onde está o famoso mausoléu Taj Mahal, no distrito de
Agra, foi a mais afetada, com pelo menos 43 mortos, mas o monumento não
sofreu danos. Diante da virulência dessas tempestades e da
possibilidade de elas se repetirem nos dias seguintes, as autoridades
indianas recomendaram aos moradores das regiões atingidas que ficassem
atentos e, no caso, de novas ocorrências, dormissem do lado de fora de
suas casas, um hábito entre os mais pobres durante os meses mais quentes
do ano. Com a maior incidência de fenômenos do gênero prenunciada pelo
aquecimento global, talvez seja melhor pensar em soluções para o
problema que não se limitem ao meramente paliativo.
Viajar é muito bom! Mas o turismo precisa fazer bem tanto para
quem visita quanto para quem é visitado. Entenda como você pode deixar
uma marca positiva por onde passa
Esqueça aquelas viagens em que tudo se passa pela janela do
ônibus. O melhor upgrade que você pode dar às suas férias envolve
turismo ativo, que interage com a população local, conhece os costumes
da região, movimenta a economia do destino visitado e permite que você
renove sua bagagem cultural. Embarque nessa ideia, chamada mundo afora
de turismo responsável.
“Fazer lugares melhores para as pessoas viverem e para as pessoas
visitarem” é a missão do turismo responsável. Para isso, é preciso que
operadores de turismo, hotéis, governos, população local e cada turista
tomem para si a responsabilidade de fazer um turismo mais sustentável,
que impacte o destino da forma mais positiva possível.
Navio de cruzeiro em Veneza, uma das origens do excesso de turistas que abarrota a cidade (Foto: iStockphotos)
“É responsabilidade tanto de quem está oferecendo o serviço ou
produto quanto de quem está consumindo. O turista precisa ser um
consumidor consciente. Suas escolhas e atitudes vão fazer toda a
diferença no destino visitado”, afirma Paula Arantes, coordenadora do
Fórum Interamericano de Turismo Sustentável (Fits) – evento paralelo à
Adventure Sports Fair – e responsável por projetos e prospecção de
parcerias na ONG Garupa.
Não importa se o destino é uma praia paradisíaca, a floresta, o campo
ou uma grande cidade. Também independe de estilo – luxo, econômico,
aventureiro ou outra alternativa. A sustentabilidade abrange tanto o
pilar ambiental como o sociocultural e o econômico – todos com a mesma
importância.
Pichação antituristas em rua de Barcelona (Foto: iStockphotos)
“Na área de alimentação e da moda, por exemplo, a proposta do consumo
mais sustentável já está mais clara, mas no setor de viagens ainda
não”, afirma Ana Duék, jornalista criadora do blog Viajar Verde e
embaixadora do Green Destinations. Segundo ela, o Brasil ainda está na
fase da quantidade, de lotar os destinos, porque as pessoas estão
descobrindo que podem viajar.
No exterior, sobretudo na Europa, já existe uma compreensão melhor
das consequências do turismo de massa – e até já surgiu o ódio ao
excesso de turistas (a “turismofobia”). Preferem-se visitantes que
cuidem do destino e respeitem a cultura local, porque está provado que
sai mais caro reverter o estrago causado pelo turismo descontrolado.
Drama veneziano.
Mulher maia prepara um prato típico da região para turistas, em sua casa em Zinacantán (México) (Foto: iStockphotos)
Veneza é um exemplo do impacto negativo extremo que a atividade
turística pode causar na vida de uma comunidade. Nos últimos 30 anos, a
cidade italiana perdeu mais de 50% dos seus moradores, devido à
especulação imobiliária, aos preços praticados no comércio e à
superlotação que inviabiliza o cotidiano.
Os cerca de 55 mil habitantes atuais recebem 30 milhões de visitantes
por ano – a maioria vinda de navios de cruzeiro gigantes, que ameaçam
as estruturas da cidade. A beleza veneziana permanece nas fachadas
vistas dos canais. Mas a cidade hoje é mais cenográfica – a riqueza
humana que habitava ali foi esvaziada.
Duas
imagens (confira também a foto abaixo) das aulas de cerâmica dadas por
artesãs do Vale do Jequitinhonha (MG) a visitantes (Foto: Divulgação)
Para evitar consequências como essas, está surgindo o chamado
“turismo de base comunitária”, desenvolvido a partir dos desejos da
comunidade local. “Não chegamos lá dizendo o que fazer. Ajudamos a
desenhar o que eles querem. E nos tornamos um parceiro de
comercialização do plano que eles decidirem oferecer”, explica Marianne
Costa, turismóloga e fundadora da agência Vivejar.Nesses casos, é fundamental que a atividade de receber visitantes
seja conciliada com tradições e costumes daquela população e traga uma
fonte a mais de renda para a identidade cultural ser mantida. Os
roteiros da Vivejar oferecem aos turistas a possibilidade de vivenciar o
dia a dia de uma comunidade tradicional da forma mais autêntica
possível.
(Foto: Divulgação)
No roteiro “Do barro à arte”, desenvolvido no Vale do Jequitinhonha
(MG), por exemplo, os visitantes se hospedam em casa de família,
aprendem a fazer a cerâmica que caracteriza a comunidade (tradição
passada de mãe para filha) e têm a oportunidade de ouvir as histórias
daquela gente. “No turismo sustentável, o olhar é apreciativo. O Vale é
economicamente muito pobre, mas a visita mostra como essas mulheres são
criativas, quanto podem fazer com muito pouco. É uma questão de respeito
e de resgate de valores.”
Troca justa
Marianne frisa que é preciso questionar toda proposta de turismo
comunitário para se descobrir se ela de fato pretende deixar uma marca
positiva no visitante e no visitado. No caso de um passeio a favelas
cariocas: ele está incentivando uma relação respeitosa entre turista e
comunidade? Os turistas são estimulados a sair do carro, interagir com
os moradores e deixar renda no local? Ou estão vendo a pobreza como algo
bizarro, com um olhar depreciativo?
Resort de luxo nas Maldivas, país que depende fortemente do turismo e é vulnerável ao aquecimento global (Foto: iStockphotos)
“A gente ainda está educando o mercado. Eu brinco, para simplificar,
que somos os orgânicos das viagens, só que dez anos atrás, quando as
pessoas ainda se perguntavam ‘O que é isso?’, ‘Faz bem?’, ‘Por que vou
pagar três vezes mais?’”, afirma a turismóloga. A analogia facilita o
entendimento, mas as pessoas só percebem que o valor é justificado
depois de vivenciarem essa proposta. “O benefício de experimentar uma
viagem com mais significado é intangível, difícil de calcular na ponta
do lápis”, afirma.
O turismo de massa – convencional, passivo e sazonal – sem dúvida é
mais barato. A lei desse mercado é pagar o mínimo e ter ganho de escala
para gerar mais lucro a quem está intermediando a viagem. Nessa relação,
o cliente é quem mais perde. No fim, fica a sensação de que até se viu
algo interessante, mas não deu para sentir o espírito do lugar.
Rua
da favela do Vidigal, no Rio de Janeiro: deve-se visitar locais como
esse com o cuidado e o olhar apreciativo do turismo responsável (Foto:
iStockphotos)
Viver causa impacto, mas é possível escolher que marca você deixará
nos lugares visitados. A contribuição de cada um é importante. Afinal,
apenas em 2017, desembarcaram em destinos internacionais 1,3 milhão de
turistas, segundo dados da Organização Mundial do Turismo. Isso sem
contar as viagens dentro de cada país. E o número de viajantes deve
continuar a crescer. Em 1950 houve 25 milhões de chegadas
internacionais, número que em 1980 subiu para 674 milhões.
A indústria do turismo gera hoje um de cada 10 empregos no planeta.
Segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC), em 2017 ela
movimentou US$ 8,3 trilhões, ou 10,4% do produto interno bruto mundial.
A aviação é a responsável pelo maior volume de emissões de gases do efeito estufa da indústria turística (Foto: iStockphotos)
Pelo mais recente levantamento, o setor de turismo emite 8% dos gases
de efeito estufa do mundo, bem acima dos 3% de cálculos anteriores. O
estudo, divulgado em maio pela revista “Nature Climate Change”, foi
feito pela Universidade de Sydney (Austrália) e envolveu dados de 160
países, de 2009 a 2013. Ele contabilizou todo o ciclo de vida do setor
de viagens: funcionamento de hotéis, produção da alimentação e até de
suvenires e, claro, emissões dos voos (principal emissor).
Paraísos sob ameaça
Ilhas pequenas e paradisíacas, como Maldivas e Seychelles, vivem um
grande dilema: principal indústria local, o turismo responde por até 80%
das emissões anuais (na medição de emissões per capita), mas essas
terras são as mais vulneráveis aos efeitos da elevação dos mares causada
pela mudança climática.
Por
causa das tarifas de bagagens, brasileiros estão aprendendo a viajar
carregando menos peso, de modo mais sustentável (Foto: iStockphotos)
Além disso, tais destinos não usufruem da renda gerada com o turista.
Como estão dominados por cadeias internacionais – sobretudo em
hotelaria e alimentação –, os empregos oferecidos para a população são
de baixa hierarquia, os insumos são comprados no exterior (porque a
culinária e as cortesias são internacionais) e os turistas não são
estimulados a conhecer sabores, costumes e a realidade local. Além
disso, grande parte do que os hóspedes pagam é remetida para as sedes
das empresas, no exterior.
Diante disso, a ONU declarou 2017 o Ano do Turismo Sustentável para o
Desenvolvimento, o que estimulou debates e iniciativas nesse sentido
mundo afora. Para o brasileiro, que costuma atrelar sustentabilidade
apenas a questões ambientais, esse movimento representou uma bela
oportunidade de expandir horizontes. “O enfoque da ONU foi muito mais
social: promoção da cultura de paz, geração de empregos, fomentação da
tolerância por meio da diversidade e do conhecimento de outras
culturas”, destaca Paula, da Fits.
Outra decisão de 2017 que trouxe avanços no comportamento dos
turistas brasileiros foi a imposição de limites restritos de bagagem nos
voos. “Agora, para economizarem na tarifa, começaram a viajar mais
leves – o que é muito sustentável, porque quanto menos peso
transportado, menor a emissão do avião”, explica Paula. Ela lamenta que
poucas companhias aéreas trabalhem de modo consistente na compensação de
carbono e que as falcatruas no uso das verbas destinadas à compensação
tenham desestimulado muitas iniciativas.
Separar joio e trigo
As armações e o marketing falso são práticas comuns também no setor
do turismo e da sustentabilidade. Para ajudar a separar o joio do trigo e
livrar o turista de furadas, há premiações, selos, certificações e
sites que reúnem propostas realmente responsáveis e éticas (veja quadro
na página ao lado). Mas Paula lembra que sustentabilidade depende de uma
melhoria contínua, não é uma fotografia de um único momento.
Por isso, a norma de certificação sustentável para hotéis ISO 21401,
concluída em maio e inspirada na norma brasileira, é um programa de
gestão e prevê um monitoramento permanente. O objetivo é ajudar as
empresas de hospedagem a serem mais competitivas (gerando economia e
eficiência na operação), mais justas socialmente, impactarem menos o
meio ambiente e melhorarem a experiência dos hóspedes. “Ser sustentável é
uma abordagem nova e moderna para os negócios”, afirma Alexandre
Garrido, líder do processo de criação da norma (conheça mais sobre ela
no quadro da página ao lado).
Exposição
de suvenires, um dos itens do cálculo de emissões de gases-estufa do
turismo, em rua de Tbilisi (Geórgia) (Foto: iStockphotos)
Para Betina Neves, editora do blog Carpe Mundi, especializado em
viagem, o maior movimento de turismo responsável acontece na hotelaria,
sobretudo em redes consagradas. Nas suas escapadas pelo mundo, ela
procura viajar sempre de forma ética e responsável. “Mas vivo em
constante conflito. Há muita coisa obscura, às vezes não dá para saber o
que você está consumindo.”
O maior dilema de Betina é com os animais. Ela evita ao máximo
atrações que exploram bichos presos. “Eu me pergunto se é justo manter
alguns exemplares em cativeiro em benefício de outros, mesmo no Projeto
Tamar, que faz um belo trabalho de preservação das tartarugas. É muito
polêmico”, avalia.
“É uma via de mão dupla. A gente precisa que os empreendedores deem o
bom exemplo. Mas a iniciativa também pode partir do turista”, reflete
Paula, da Fits. Quando os negócios percebem uma demanda, procuram se
adaptar. Quando uma pessoa vinda de fora se encontra em um ambiente
diferente, aprende com a experiência. E pode levar aquela prática para
sua vida cotidiana. “O momento da viagem é de muita aprendizagem. Um
público consciente não nasce pronto. É questão de amadurecimento.”
Manual do turista responsável iniciante
Casal
de turistas usa gestos da cultura local para se comunicar com motorista
de tuk-tuk em Bangcoc, na Tailândia (Foto: iStockphotos)
• Procure deixar seu dinheiro no lugar visitado, por meio da hospedagem, dos passeios e das compras que fizer
• Aplique na viagem a mesma postura sustentável do dia a dia: economize
água e energia elétrica, reduza a geração de lixo, separe o reciclável,
use transporte público, etc.
• Escolha hospedagem que tenha práticas sustentáveis; dê preferência a hotéis independentes
• Alimente-se em cafeterias e restaurantes com culinária regional e que
comprem seus insumos de produtores locais para movimentar a economia
daquele destino
• Pesquise na internet sobre as empresas antes de contratá-las (veja
quadro à pág. 37). É bacana também olhar a avaliação de turistas que
usaram os serviços dessas empresas
• Informe-se sobre a realidade do lugar a ser visitado. Cultura geral
nunca é demais e permitirá que você veja tudo com outros olhos
• Aprenda algumas palavras na língua local. Isso é uma forma de respeito
e simpatia com os habitantes dali e pode criar oportunidades de diálogo
e troca com eles
• Compre em lojas de bairro e diretamente dos produtores tudo o que for possível, em especial artesanatos
• Contrate passeios com guias nativos e empresas comprometidas com
responsabilidade socioambiental; os preços são em geral mais altos, mas a
experiência costuma ser bem melhor e mais autêntica
• Evite locais que explorem animais ou os mantenham presos
• Opte por transportes de menor emissão de carbono
• Evite os cruzeiros de grande porte, as formas mais poluentes de turismo atualmente
• Questione os guias sobre os costumes e a realidade local. Questione-se
sobre se sua postura e seu dinheiro estão de fato ajudando o lugar e
seus moradores
Do Brasil para o mundo
Ana
Duék (de azul na foto da esquerda) e Betina Neves: blogueiras engajadas
em descomplicar e difundir a proposta de viajar de forma responsável
Tem origem brasileira a futura norma ISO 21401 de gestão sustentável
para meios de hospedagem, aprovada em maio pelo Grupo de Trabalho sobre
Turismo Sustentável, o WG 13. Sua base é a norma ABNT NBR 15401,
desenvolvida no Brasil em 2006 e atualizada entre 2012 e 2014. “Em 2015,
vimos um ambiente favorável na ISO e apresentamos nossa norma ABNT para
internacionalização”, diz Alexandre Garrido, coordenador da atualização
brasileira e do processo na ISO. O documento estava tão bem estruturado
que foi possível finalizar em dois anos um processo que, em geral, leva
de três a cinco anos.
A ISO 21401, que deverá ser publicada no segundo semestre, pretende
padronizar (e substituir) 140 normas e selos em certificação de
sustentabilidade para hotéis.
Ela serve para qualquer porte e estilo de hospedagem, independentemente
da sua localização, e cobre os três âmbitos da sustentabilidade –
ambiental, sociocultural e econômico. Na mesma reunião de maio, Garrido
iniciou os trabalhos de um novo projeto de normatização sobre os
princípios e terminologias do turismo sustentável, baseado no documento
“7 princípios de sustentabilidade”, produzido pelo Conselho Brasileiro
de Turismo Sustentável (CBTS).
A exposição pré-natal a poluentes orgânicos persistentes (POPs), como os policlorobifenilos (PCBs), foi associada a um pior desenvolvimento neurológico em crianças. O conhecimento sobre os efeitos nos resultados até a adolescência é limitado.
Objetivos
Determinar se a exposição pré-natal a POPs, particularmente PCBs hidroxilados (OH-PCBs), está associada ao desenvolvimento cognitivo e motor em crianças de 13 a 15 anos de idade.
Métodos
Este estudo de coorte observacional prospectivo é parte do estudo de Desenvolvimento na Adolescência e Exposição Química (DACE), um acompanhamento de duas coortes holandesas. Os níveis séricos da gravidez materna de PCB-153 e três OH-PCBs foram medidos, em parte da coorte também nove outros PCBs e três OH-PCBs, e em outra parte cinco éteres difenil-polibromados (PBDEs), dicloroeteno (DDE), pentaclorofenol(PCP) e hexabroomcyclododecane (HBCDD).
Dos 188 adolescentes convidados, 101 (53,7%) participaram, 55 eram meninos. Cognição (inteligência, atenção, memória verbal) e desempenho motor (motricidade fina, habilidades com bola, equilíbrio) foram avaliados. As pontuações foram classificadas em ‘normal’ (IQ> 85; pontuação> P15) e ‘(sub) clínica’ (IQ 85; pontuação P15). Foram utilizadas análises de regressão linear e logística, e ajustadas para escolaridade materna, tabagismo materno, uso de álcool materno, aleitamento materno e idade ao exame.
Resultados
Vários OH-PCBs foram associados com maior atenção sustentada e equilíbrio. O PCB-183 associou-se à menor inteligência total (OR: 1,29; IC95%: 0,99 a 1,68; P ?= 0,060), e ao HBCDD com menor inteligência de desempenho (OR: 3,62; IC95%: 0,97?13,49; P ?=. 056). PCBs, OH-PCBs e PBDEs foram associados negativamente com a memória verbal.
Conclusões
A exposição pré-natal a vários POPs pode influenciar os resultados neuropsicológicos em adolescentes holandeses de 13 a 15 anos de idade, embora a exposição à maioria dos compostos não tenha consequências clinicamente relevantes na adolescência.
Abreviaturas
TDAH transtorno de déficit de atenção / hiperatividade AVLT Teste de Aprendizagem Auditiva Verbal DDE: dicloroeteno HBCDD hexabroomcyclododecane Movimento-ABC Bateria de Avaliação de Movimento para Crianças OH-PCB bifenilo policlorado hidroxilado PBDE éter difenílico polibromado PCB bifenilo policlorado PCP pentaclorofenol POP poluente orgânico persistente WISC Escala de Inteligência Wechsler para Crianças
Prenatal exposure to persistent organic pollutants and cognition and motor performance in adolescence Sietske A.Berghuis, Koenraad N.J.A.Van Braeckel, Pieter J.J.Sauer, Arend F.Bos Environment International Volume 121, Part 1, December 2018, Pages 13-22 https://doi.org/10.1016/j.envint.2018.08.030
[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]