quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O Estado de S. Paulo – ‘Por ora, ficamos no Acordo de Paris’, diz presidente


Declaração de Bolsonaro foi feita a jornalistas após empresários cobrarem uma posição sobre os problemas climáticos

Jamil Chade
ENVIADO ESPECIAL / DAVOS COLABOROU GIOVANA GIRARDI

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, disse ontem, em reunião com empresários, em Davos, que o País vai continuar no Acordo de Paris, o tratado assinado por 195 países para estabelecer esforços conjuntos para tentar conter o aumento da temperatura do planeta a menos de 2°C até o fim do século.

Ele deu a declaração após ser cobrado pelos empresários sobre o que pretendia fazer sobre o problema das mudanças climáticas. Além de falar que fica no acordo, disse que não vai aceitar ser acusado de responsabilidade pela degradação ambiental. Depois, a jornalistas, o presidente declarou apenas: “Por ora, será mantido”.

O Estado apurou no Itamaraty que deverão, porém, ser cobradas contrapartidas. Entre elas, a de que os países desenvolvidos cumpram a promessa de dar US$ 100 bilhões ao ano, a partir de 2020, para ajudar os países em desenvolvimento a fazer sua transição para uma economia de baixo carbono.

Na reunião com empresários, que tinha representantes da Nestlé, Arcelor Mittal, Embraer e de bancos internacionais, o presidente também foi questionado sobre a Amazônia e a situação dos povos indígenas. Segundo empresários presentes à reunião, Bolsonaro disse que o fato de haver mudanças no governo na área indígena não significa que os povos serão prejudicados. Em um dos primeiros atos do governo, a tarefa de demarcação de terras indígenas passou da Fundação Nacional do Índio (Funai) para o Ministério da Agricultura.

Mais cedo, após fazer seu discurso oficial, Bolsonaro deu, pela primeira vez, uma declaração no sentido de que vai trabalhar para combater as mudanças climáticas. “Nós pretendemos estar sintonizados com o mundo na busca da diminuição de CO2”, afirmou a Klaus Schwab, fundador do fórum.

A declaração chamou atenção porque até então a posição do novo governo em relação ao problema era bastante incerta. Depois de Bolsonaro ter dito diversas vezes que deixaria o acordo, o governo começou a dar sinais de que voltaria atrás, como informado pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mas sempre com condicionais.

No Brasil. Entidades ambientalistas receberam com ressalvas as declarações de Bolsonaro. “É a primeira vez que o presidente menciona luta contra a mudança climática de forma positiva, sem senões ou condicionantes”, disse Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima.

O Greenpeace destacou que “ser o país com mais recursos naturais não significa ser o que melhor preserva o meio ambiente”. A ONG lembra que entre junho de 2017 e agosto de 2018 “o Brasil registrou o maior índice de desmatamento dos últimos 10 anos”.

Valor Econômico – Meio ambiente também é assunto para a economia / Artigo / Mercedes Bustamante, Helder Queiroz e Carlos Joly



Davilym Dourado / Valor

Os primeiros dias de 2019 trouxeram mudanças nas áreas de meio ambiente e em órgãos associados aos povos indígenas e populações tradicionais.

Embora a avaliação de políticas e de formas de gestão seja sempre necessária, e certamente na área ambiental há muito a ser aperfeiçoado, tais mudanças, com a restruturação de órgãos entre ministérios e a alteração na priorização de pautas indicam uma grave miopia sobre o tema meio ambiente e a sua relevância para o Brasil e o mundo.

"Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada", disse o jornalista americano H.L. Mencken. Orientadas pelo forte apoio do setor ruralista ao governo federal empossado, as mudanças na gestão ambiental concentraram-se no que esse setor considera como empecilhos às suas atividades. Questões complexas inerentes ao meio ambiente foram reduzidas, de forma simplista, a uma discussão sobre o uso do solo. Várias interações, humanas e ecológicas, entre ecossistemas terrestres e aquáticos e populações rurais e urbanas passaram ao largo das preocupações daqueles com a responsabilidade de governar para todos os brasileiros.

O modelo atual de uso dos recursos no Brasil deveria estar no cerne das preocupações da nova equipe econômica

O setor do agronegócio não é homogêneo. Produtores que respeitaram a legislação ambiental e trabalhista, produzindo com qualidade e alta produtividade não podem ser confundidos com grupos que se utilizam de grilagem, corrupção, violência e que prosperam na especulação fundiária.

A agricultura é uma atividade econômica altamente dependente dos recursos naturais e serviços ecossistêmicos. É também multifuncional (produz mais do que alimentos, fibras ou energia) com forte impacto em muitos elementos da economia e em nossos ecossistemas.

As mudanças recentes que agradaram a parte do setor ruralista constituem uma vitória de Pirro, prejudicial ao vencedor e obtida por alto preço, a ser pago por toda a sociedade brasileira. Tais ações enfraquecem as políticas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, de controle do desmatamento, e de demarcação de terras indígenas e territórios quilombolas com potenciais prejuízos irreparáveis.

Tais posições não surpreendem, mas é fundamental lembrar as conexões com duas áreas-chave no novo governo - Economia e Justiça e Segurança Pública - que não podem estar alheias aos temas meio ambiente, os povos indígenas e outras populações tradicionais.

A degradação ambiental impõe custos de longa duração à economia, que resultam em perdas de produção e de capital humano. A poluição do ar e da água representam um pesado tributo, acarretando sérios problemas de saúde e até mesmo mortalidade prematura. Os impactos da poluição são particularmente adversos para os jovens, os idosos e os pobres.

Se houve recuo no discurso oficial sobre a saída do Brasil do Acordo de Paris, a falta de prioridade para as Mudanças Climáticas na nova estrutura do Ministério do Meio Ambiente e a sua negação pelo titular do Ministério das Relações Exteriores são extremamente preocupantes.

A agricultura em larga escala, tão importante para a nossa economia, depende de chuva na quantidade, no momento e no local adequados. Variações atípicas de temperatura prejudicam a sua produtividade. Cerca de 65% da eletricidade produzida no país, um dos motores da economia, tem origem hídrica e também dependente de um regime adequado de chuvas.

O modelo atual de uso dos recursos no Brasil deveria estar no cerne das preocupações da nova equipe econômica, pois gera enormes passivos que comprometem a capacidade de proteger a população, e sobrecarregam as futuras gerações com escolhas que reduzem as opções de desenvolvimento.

Do lado da Justiça e Segurança Pública, é preciso lembrar os fortes laços entre corrupção, crime, desmatamento e degradação ambiental. O suborno abre portas para atividades ilegais associadas ao uso dos ambientes naturais e seus recursos. São notórios os casos de corrupção em obras de infraestrutura de duvidosos benefícios socioambientais. O sucesso do Brasil no controle do desmatamento em passado recente envolveu ampla concertação de atores públicos e privados. São essenciais o monitoramento das regulamentações florestais e o uso de novas tecnologias que possam coibir o comportamento ilegal.

No campo da segurança pública, estudos apontam que a qualidade ambiental e a saúde humana estão ligados à redução do crime. Direitos não podem ser garantidos em um ambiente degradado. 

O direito fundamental à vida é ameaçado pela degradação do solo, desmatamento, exposição a resíduos tóxicos e água potável contaminada. Mais justiça poderia ser alcançada por meio do incentivo a arranjos apropriados de governança local, ampliando a capacidade dos envolvidos para avaliar as opções de gestão do meio ambiente e dos recursos naturais e apoiar a participação informada nas decisões.

É preocupante a saída da Funai do Ministério da Justiça e o esvaziamento de suas funções entre três pastas diferentes. Hoje, minorias indígenas e defensores ambientais e de direitos civis enfrentam o perigo da injustiça e do abuso dos direitos humanos.

O Brasil é a casa de centenas de povos indígenas e outras populações tradicionais. Estudos reconhecem a importância de seus conhecimentos e práticas para o controle do desmatamento, conservação da biodiversidade e segurança alimentar.

O gozo dos direitos desses brasileiros pressupõe o exercício de atividades tradicionais em territórios protegidos por lei, com garantia de sua participação efetiva nas decisões que os afetam, O atraso nas demarcações de terras indígenas e quilombolas gera conflitos inerentes à insegurança jurídica de lado a lado o que só amplia a violência que já grassa no Brasil.

O retorno da concepção assimilacionista dos povos indígenas fere o ordenamento jurídico nacional e o direito internacional. A Constituição Federal de 1988 acolheu o respeito à multiculturalidade. O direito à diversidade cultural é um direito fundamental.

Em um projeto de governo que se colocou para a sociedade como o retorno da ética à política, cabe recordar as bases éticas do Desenvolvimento Sustentável: satisfazer as necessidades humanas, garantir a justiça social e respeitar os limites ambientais.

Restringir a questão ambiental a um gueto delimitado pelas demandas de parte de um setor específico, elude da sociedade brasileira a possiblidade de crescimento econômico com sustentabilidade, a garantia de direitos constitucionais, e a redução das desigualdades com respeito à diversidade

Mercedes Bustamante é professora titular da Universidade de Brasília

Helder Queiroz é pesquisador do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá

Carlos Joly é professor titular da Universidade Estadual de Campinas. O artigo é subscrito também pela Coalizão Ciência e Sociedade que reune cientistas de instituições de pesquisa de todas as regiões brasileira.

Não queremos um assassino de seres indefesos cuidando das nossas florestas!!!

Pessoal, a Aliança Pro Biodiversidade (APB) e o Movimento Todos Contra Caça estão em campanha contra a indicação do ex-deputado federal Valdir Colatto para chefia do SBF e do CAR. No âmbito da RMA, a AMDA também está na campanha (o texto abaixo é de seu site). Algumas petições online já estão correndo para manifestarmos que não aceitamos esta indicação POLÍTICA (e com um péssimo histórico de mal-feitos contra o meio ambiente), a um cargo que tem de ser ocupado por um TÉCNICO.
Assinem o abaixo assinado, no final deste texto (Justificativa) e compartilhem a campanha.
Abraços,
Paulo Pizzi


Autor do projeto que libera caça de animais silvestres é novo chefe do Serviço Florestal Brasileiro (e do CAR)

18 de Janeiro de 2019

Valdir Colatto/ Crédito: Luís Macêdo, Agência Brasil

Por meio de abaixo assinado, a sociedade reage à nomeação de Valdir Colatto

O Serviço Florestal Brasileiro (SFB), responsável pela concessão de florestas públicas e pelo Cadastro Ambiental Rural (CAR), terá como líder o deputado Valdir Colatto, integrante da bancada ruralista do congresso e autor da proposta que pretende legalizar a caça a animais silvestres no Brasil. 

Colatto foi indicado pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, após o SFB ser desvinculado do Ministério do Meio Ambiente para integrar a pasta da Agricultura.

No fim de seu sétimo mandato como deputado federal, o político não foi reeleito. 

Mas não foi esquecido. Companheiro constante da ministra, é conhecido pelas críticas ao percentual de terras que devem ser preservadas nas propriedades rurais e por colocar os interesses do agronegócio frente à preservação dos recursos naturais. Em seus discursos ele alega que as atuais regras de conservação ‘oneram’ o produtor rural.


“O agricultor paga essa conta sem que haja nenhum dividendo para a cidade. Quem é que deixa 20%, 35% ou 40% da sua propriedade na área urbana para preservar o meio ambiente? Só a agricultura brasileira faz isso”, declarou em fevereiro do ano passado.

Em novembro de 2017, defendeu aumentar o desmatamento no Cerrado, questionando a viabilidade de preservar, por exemplo, “90 milhões de hectares do Cerrado, que são terras férteis que podem produzir alimentos para o Brasil e para o mundo”.

Valdir ainda é autor do Projeto de Lei 6268/16, que propõe legalizar a caça a animais silvestres no Brasil, afirmando publicamente seu objetivo é proteger a biodiversidade. 

Mas propõe matar animais que forem "considerados nocivos às atividades agropecuárias e correlatas", inclusive em unidades de conservação e diz que caçar é esporte. 

 https://extra.globo.com/noticias/page-not-found/cacador-causa-revolta-por-foto-dando-soco-em-tigre-raro-ferido-23391606.html

Igualmente, é o autor do PDC 427/2016 que susta a vigência da Portaria 444/2014 do MMA - a qual estabelece a Lista Nacional das espécies da fauna terrestre ameaçada de extinção.

Para Dalce Ricas, superintendente da Amda, está ficando difícil dizer qual foi a pior medida do atual governo na área ambiental. 

“As florestas são lar de milhões de espécies animais e vegetais, não estoque de madeira ou terras. Sua gestão é antes de tudo ambiental, e qualquer exploração econômica tem de ser muito bem avaliada. Sua preservação tem a ver com o futuro do planeta e não poderia ser entregue a quem quer destruí-las", salientou.

Para ela a nomeação de Colatto não é um ato solto, mas parte do processo de esvaziar a área ambiental do governo, sob princípio de que meio ambiente atrapalha o desenvolvimento.

Abaixo-assinado

Em repúdio à nomeação de Colatto ao Serviço Florestal Brasileiro, uma petição online foi criada e em menos de dois dias já conta com mais de seis mil assinaturas. Para aderir, clique aqui.