Animais carbonizados e silêncio no lugar do verde e som de pássaros': biólogo descreve cenário apocalíptico após queimadas
O biólogo Izar
Aximoff estudou a recomposição de florestas no Rio de Janeiro após
queimadas. Testemunhou áreas verdes se transformarem em pó preto e o
rico som das florestas, em silêncio.
"É muito triste ver a
floresta totalmente dizimada. Aquele cenário colorido, com flores, sons
de animais, pássaros cantando, bichos se movimentando e cheiro de mata
dá lugar ao silêncio, a animais carbonizados, a um cheiro de carne
queimada, à desolação. Fica tudo preto e você fica sujo com aquele
resíduo de carvão", descreve o biólogo, lembrando-se do que viu quando
uma área que monitorava em seus estudos voltou a sofrer queimadas.
"Eu vi filhote de jiboia queimado, bicho-preguiça
carbonizado, bromélia queimada. Dá vontade de chorar. A perda é de valor
inestimável. Muito superior ao das multas aplicadas, quando se encontra
o culpado, o que é raro", compara o biológo especialista no tema em
áreas de Mata Atlântica, como o Parque Nacional de Itatiaia.
Após o quadro de destruição, novos desafios surgem no
reflorestamento, explica o biólogo, que é doutor em Botânica pelo
Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ).
"Espécies ameaçadas acabam não voltando. A cada queimada, a diversidade é perdida", disse.
"E
muitas áreas de Mata Atlântica, por exemplo, não conseguem se regenerar
sozinhas. É preciso um reforço. Temos as melhores cabeças do mundo na
área de reflorestamento, mas a demanda é grande demais", diz o biólogo,
lembrando que a situação é também grave em áreas que ganham menos
holofotes como o Cerrado e a Caatinga.
A mesma falta de recursos impede um planejamento
mais eficaz na prevenção de novas queimadas. O biólogo diz que, no nível
federal, o acompanhamento dos incidentes é melhor do que no estadual e
municipal.
"A prevenção é muito mais barata. Mas não há
planejamento também por falta de dados. Os gastos após os incêndios são
muito maiores. Você tem uso de aeronaves, equipes, sem contar o risco de
morte a que esses profissionais estão expostos", acrescentou.
A controversa ideia
de expandir para a região de Cerrado a chamada moratória da soja, um
pacto firmado em 2006 que freou parte do desmatamento da Amazônia gerado
pelo avanço do plantio da leguminosa, ganhou um novo ingrediente nesta
semana.
No primeiro estudo científico quantitativo realizado para
a eventual adoção dessa medida no Cerrado brasileiro, um grupo
internacional de pesquisadores concluiu que a medida, se implementada
até 2020, impediria a conversão direta de 3,6 milhões de hectares de
vegetação nativa em terras agrícolas nos 30 anos seguintes - área maior
do que o tamanho da Bélgica. Com um adendo importante: isso não evitaria
o avanço da agricultura de soja no país - apenas "organizaria" de um
jeito mais sustentável seus locais, priorizando áreas já desmatadas
anteriormente.
Segundo o levantamento dos cientistas, mais de 80%
dessa área que poderia ser protegida está na região conhecida como
Matopiba - entre os Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia - a
chamada nova fronteira agrícola brasileira.
O trabalho
acadêmico foi divulgado nesta semana pelo periódico Science Advances.
"Quando não há fiscalização e a governança é fraca, acordos do setor
privado se tornam relevantes para combater o desmatamento e a perda de
vegetação nativa", resume à BBC News Brasil uma das autoras da pesquisa,
a matemática brasileira Aline Soterroni, cientista do Instituto
Internacional de Análise de Sistemas Aplicados, na Áustria.
No entendimento de pesquisadores e ambientalistas, acordos como a
moratória da soja têm mais eficácia do que leis justamente por serem
pactos firmados entre os setores envolvidos - e não regras verticais que
precisam de fiscalização de órgãos públicos.
Mas
a proposta de expandir a moratória da soja para proteger o Cerrado
enfrenta resistência de grandes empresas e da chamada bancada ruralista,
influente grupo de parlamentares com ligação ao agronegócio. Em nota
divulgada no mês de junho, a Associação Brasileira dos Produtores de
Soja (Aposoja) se posicionou "totalmente contrária" a qualquer pacto do
gênero para o bioma. A entidade ressaltou que "o agro é sustentável".
A
Cargill, uma das maiores multinacionais do setor, também se manifestou.
Em carta aberta aos produtores rurais brasileiros, a companhia
americana afirmou que entende que esta não seria a solução mais adequada
para os problemas ambientais. "A moratória não endereça os desafios
sociais, econômicos e, em última análise, ambientais", diz trecho do
documento. "E é muito provável que cause consequências, mesmo que não
intencionais, para agricultores e comunidades que dependem da
agricultura para subsistência."
A origem da moratória da soja
Em
2006, um pacto foi firmado entre governos, agroindústria e organizações
de defesa ambiental: ninguém compraria soja produzida em região de
desmatamento da Amazônia. No ano passado, balanço divulgado pelo
Ministério do Meio Ambiente mostrou que a política deu resultados: a
média anual de desmatamento nos 89 municípios participantes caiu 85%
depois do acordo.
Nos últimos anos, ativistas e organismos
ambientais têm sugerido uma medida semelhante para proteger o Cerrado.
"A principal causa de desmatamento no cerrado é a expansão do
agronegócio sobre a vegetação nativa. Entre 2007 e 2014, 26% da expansão
agrícola ocorreu diretamente sobre vegetação de Cerrado. Quando
considerada somente a região do Matopiba - porções de Cerrado dos
Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia -, que é a principal
fronteira do desmatamento, 62% da expansão agrícola ocorreu sobre
vegetação nativa. Em relação às pastagens, análises recentes apontam
que, entre 2000 e 2016, 49% da expansão no Matopiba ocorreu sobre o
cerrado. Note-se que, muitas vezes, a área desmatada para pastagem
torna-se, posteriormente, área de uso agrícola", ressalta manifesto da
organização World Wide Fund for Nature (WWF).
"O setor privado
aprendeu que é possível produzir sem provocar novos desmatamentos
diretamente associados à sua cadeia produtiva, como é o caso de sucesso
da moratória da soja na Amazônia", prossegue o posicionamento da ONG.
De
acordo com o estudo de Aline Soterroni, a moratória da soja no Cerrado
não impediria o avanço da produção da mercadoria. "A área da soja
projetada para 2050 ficaria reduzida em apenas 1 milhão de hectares, se a
moratória começar a funcionar em 2020", explica ela. "Isso corresponde a
uma redução de 2% da área de soja no Brasil projetada para 2050." Para
efeitos de comparação, se o atual Código Florestal fosse cumprido
rigorosamente na região, ele evitaria, no mesmo período, o desmatamento
de um quarto desse total (0,9 milhão de hectares).
Soterroni lembra que as proteções ambientais para o
cerrado são baixas. "No cerrado, além dos níveis de proteção da
vegetação nativa, definidos pelo Código Florestal de 2012, serem baixos,
não há cumprimento dessa lei", aponta.
Um outro efeito benéfico
da medida, segundo o mesmo estudo, é que nos mesmos 30 anos ela
significaria uma redução de 8% do total de emissões de carbono do País.
China e Europa
O
estudo recém-publicado também comparou quais os riscos representam os
dois principais clientes do Brasil - China e União Europeia - para esse
cenário de desmatamento. "Surpreendentemente os riscos são semelhantes.
Apesar de o volume de soja produzido no Cerrado para o mercado chinês
ser 2,5 vezes maior do que aquele que vai para a União Europeia. Isso
acontece porque a Europa compra de traders com atividades próximas das
áreas de remanescentes de vegetação nativa no Cerrado."
A
pesquisadora espera que o estudo possa ser utilizado em futuras
tratativas comerciais internacionais, como nas negociações atuais entre
União Europeia e Mercosul, que pode condicionar a compra da produção
brasileira à preservação ambiental.
De acordo com o levantamento,
25,4 milhões de hectares de terras na região de Cerrado, desmatadas
anteriormente, já são adequadas para o uso agrícola - duas vezes o
tamanho da Inglaterra. "Com a extensão da moratória da soja para o
Cerrado, os resultados da modelagem indicam que a soja irá expandir,
sobretudo, em áreas de pastagens e áreas não produtivas que podem ser
consideradas, em grande parte, pastagens degradadas. Uma pequena
intensificação das pastagens libera terra suficiente para a soja
expandir no Cerrado sem a necessidade da conversão de vegetação nativa",
explica ela.
Cerrado em risco
Soterroni
e sua equipe quantificaram o impacto da medida na fauna e na flora
nativas. Entre plantas e animais - tanto vertebrados quanto
invertebrados - 4.800 espécies autóctones são potencialmente ameaçadas
pelo desmatamento da região. De acordo com o Instituto Chico Mendes de
Conservação da Biodiversidade (ICMBio), hoje são 624 espécies de flora
ameaçadas de extinção no bioma e 138 de fauna - sendo 95 vertebrados.
"Alguns exemplos da fauna são o lobo-guará e o tamanduá-bandeira", cita a
cientista brasileira.
A pesquisa levanta a necessidade de um
olhar mais cauteloso para o Cerrado brasileiro, bioma com gradiente de
vegetação que vai desde formações campestres a formações florestais e
que é menos "pop" do que a Amazônia e a Mata Atlântica, por exemplo.
"Estima-se que metade do Cerrado já foi convertida, e que existam menos
de 20% de vegetação nativa remanescente, ou seja, que não foi
antropizada", afirma Soterroni.
A pesquisadora afirma que acompanha atentamente o
cenário. De um lado, "a falta de fiscalização e o não cumprimento das
leis ambientais". De outro, "a demanda crescente por commodities como
soja e carne". Segundo ela, um estudo mostrou que das fazendas de soja
avaliadas na porção Amazônia do estado do Mato Grosso, 65% não cumprem o
Código Florestal, mas cumprem a moratória da soja.
Na modelagem
científica utilizada pelos pesquisadores eles procuraram saber também
quanto se perde com o atraso da implementação da moratória do cerrado na
soja, considerando a demora de o projeto sair do papel. Para tanto,
avaliaram três cenários: se a medida estivesse em vigor desde 2015, se
ela for iniciada em 2020 ou se apenas começar em 2025.
"Os
resultados indicam que esse atraso na implementação da moratória da soja
no cerrado pode causar uma perda média de 140 mil hectares por ano no
bioma", diz a cientista. Isso equivale à área do município de São Paulo.
Desde
2014, o governo norueguês vem replantando anualmente, em média, 25
milhões de m³, contra 10 milhões de m³ de cortes. Isso assegura um
crescimento por de 15 milhões m³ de suas florestas.
Alemanha
desmatou 58 mil hectares de florestas entre 2002 e 2012, de acordo com
relatório de 2017 do Ministério de Agricultura alemão, e replantou 108
mil hectares no mesmo período, ou seja, 86% a mais.
Ao
contrário de declarações dadas pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) nos
últimos dias, países como Noruega e Alemanha têm mais ações de
reflorestamento que de desmate em suas coberturas vegetais.
A
informação foi publicada neste sábado (17) pelo portal UOL, dias depois
de Bolsonaro desdenhar o recuo de ambos os países em contribuir
financeiramente com o Brasil em ações de proteção à Amazônia. Os
governos alemão e norueguês contribuíam com cerca de R$ 300 milhões para
ações nesse sentido, mas, face às notícias de má gestão ambiental no
atual governo, com aumento vultoso do desmatamento na região amazônica,
resolveram cortar os repasses.
"A
Noruega não é aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte? [...]
Não tem nada a oferecer para nós", reagiu Bolsonaro , nessa sexta (16), à
decisão do país de suspender R$ 134 milhões em repasses para o Fundo
Amazônia. Sobre a Alemanha, criticou a preservação das florestas alemãs e
alegou que o Brasil não precisa do dinheiro que era enviado até uma
semana atrás.
A
Noruega tem um território 26 vezes menor que o brasileiro, com 38% dele
coberto por florestas, ou seja, 122 mil km². O dado significa 964
milhões de m³ (metros cúbicos) de árvores preservadas, medição adotada
pelo governo para mensurar a retenção de carbono.
De
acordo com reportagem do portal, desde 2014, o governo norueguês vem
replantando anualmente, em média, 25 milhões de m³, contra 10 milhões de
m³ de cortes. Isso assegura um crescimento por de 15 milhões m³ de suas
florestas.
Com
isso, como o corte anual de madeira é de aproximadamente metade do que
cresce a cada ano, a diferença basta para compensar cerca de 60% das
emissões anuais do país em gases de efeito estufa. No século 19,
entretanto, o país era um dos principais fornecedores de madeira para o
resto da Europa. Atualmente, por outro lado, há três vezes mais floresta
em pé que há cem anos.
Ao
jornal local DN, o ministro do Clima e Meio Ambiente da Noruega, Ola
Elvestuen, disse neste sábado que o planeta não conseguirá atingir suas
metas climáticas globais sem a Amazônia.
"O
que o Brasil tem feito mostra que eles não estão preocupados em parar o
desmatamento. Em julho, ele triplicou em relação ao ano passado",
afirmou.
Alemanha refloresta quase o dobro do que derruba
Sobre
a Alemanha, que decidiu suspender semana no último final de semana um
repasse de R$ 150 milhões ao Brasil para combater o desmatamento na
Amazônia, Bolsonarosugeriu, em tom de deboche: "Eu queria até mandar um
recado para a senhora querida Angela Merkel [...] Pegue essa grana e
refloreste a Alemanha, ok? Lá está precisando muito mais do que aqui",
declarou.
A
Alemanha, porém, desmatou 58 mil hectares de florestas entre 2002 e
2012, de acordo com relatório de 2017 do Ministério de Agricultura
alemão, e replantou 108 mil hectares no mesmo período, ou seja, 86% a
mais.
Hoje,
os alemães possuem 11,4 milhões de hectares de florestas, em torno de
32% de seu território. Em 1990, eram 10,7 milhões de hectares de mata --
6,5% a mais agora, portanto.
A
despeito das providências, o país ainda é forte poluidor graças a sua
principal matriz energética, o carvão, a base de aproximadamente 30% da
energia produzida no país. O governo alemão estima acabar com esse tipo
de energia até 2038, porém, ainda que, para ambientalistas locais, esse
prazo seja "tardio". Eles pressionam para que a mudança da matriz ocorra
antes.
"Não
se ajuda a floresta tropical com declarações de efeito para a mídia",
ironizou uma porta-voz do Ministério de Cooperação Econômica e
Desenvolvimento à imprensa local após a crítica de Bolsonaro. "Quem
quiser preservar a excepcional função climática da floresta tropical tem
que intensificar as medidas, e não encerrá-las."
Esta
semana, o instituto de pesquisa Imazon publicou um relatório em que
revela crescimento de 66% no desmatamento da Amazônia Legal em julho
deste ano em comparação ao mesmo mês em 2018.
A
organização não está relacionada ao Inpe (Instituto Nacional de
Pesquisas Especiais), cuja divulgação de dados sobre desmatamento
culminou na exoneração do diretor do órgão, Ricardo Galvão.
Maior
floresta tropical do mundo, a Amazônia tem 5 milhões de km², 60% deles
no Brasil (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Roraima, Rondônia e
Tocantins). Ela ocupa 49% do território nacional, mas já teve 20% da
área desmatada, equivalente a 1 milhão de km², ao longo da história.
Cientistas questionam 'guru ambiental de Bolsonaro' que coloca Brasil como líder em preservação
Mariana Schreiber - @marischreiberDa BBC News Brasil em Brasília
23 julho 2019
"Somos o país que
mais preserva o meio ambiente". A frase, dita por Jair Bolsonaro durante
o Fórum Econômico Mundial, em janeiro, na Suíça, é repetida com
frequência pelo presidente brasileiro quando fala sobre questões
ambientais e constantemente ecoa nas vozes de seus ministros e filhos.
Embora
dados oficiais mostrem que o desmatamento na Amazônia tem crescido
desde 2012 e se intensificou neste ano, o Palácio do Planalto questiona a
veracidade dos números e insiste que o Brasil é "exemplo de
preservação" e "tem muito a ensinar" a outros países.
A ideia de
que o Brasil lidera na preservação ambiental já foi defendida pelos
ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente), Onyx Lorenzoni (Casa Civil),
Tereza Cristina (Agricultura) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança
Institucional). O senador Flávio Bolsonaro, por sua vez, usou o
argumento ao apresentar em abril um projeto de lei para acabar com a
"reserva legal", área que os produtores rurais são obrigados a preservar
dentro de suas propriedades, segundo o Código Florestal.
"Não é demais reafirmar que o Brasil é o país que mais
preserva sua vegetação nativa e o produtor rural é personagem central
desta preservação, ao bancar do próprio bolso a conservação de um quarto
do território nacional", escreveu, na justifica da proposta.
Essa
linha de que o Brasil é o país que mais preserva o meio ambientese
baseia em números do agrônomo Evaristo Eduardo de Miranda, chefe da
Embrapa Territorial, uma das unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa), estatal vinculada ao Ministério da Agricultura.
Miranda,
que está na empresa há quase quarenta anos,foi chamado, após ter
coordenado - durante a transição de governo - um grupo de trabalho sobre
política ambiental, de "guru ambiental de Bolsonaro" pelo diretor de redação do programa Globo Rural, Bruno Blecher.
Sua tese do "Brasil líder em preservação" foi sintetizada no ano passado no livro Tons de Verde,
editado com apoio de 15 instituições do agronegócio, segundo
informações da Frente Parlamentar da Agropecuária, que realizou
pré-lançamento da publicação.
Seus argumentos, porém, são contestados por
cientistas, ambientalistas e enfrentam críticas também dentro da
Embrapa. Um artigo publicado por autores brasileiros ano passado na
revista Environmental Conservation, da universidade de Cambridge (Reino
Unido), com o título "Os dados confirmam que Brasil lidera o mundo em
preservação ambiental?", chama os números de Miranda de "estatísticas
criativas", "influenciadas por uma narrativa ideológica que distorce a
realidade ambiental brasileira".
'Dá 48 países da Europa'
Em
seu livro, Miranda sustenta que áreas de mata nativa dentro de
propriedades privadas somam 218 milhões de hectares e representam 25% do
território do Brasil, fazendo do produtor rural a categoria que mais
preserva no país. Sua equipe da Embrapa estimou em R$ 3,1 trilhões o
capital imobilizado nessas áreas por não serem usadas para plantação ou
criação de gado - e em R$ 20 bilhões o custo de sua preservação.
O
cálculo da área preservada foi feito a partir do que os próprios
proprietários declararam ao realizar o Cadastro Ambiental Rural (CAR),
exigência do Código Florestal aprovada em 2012, que atualizou a
legislação ambiental de 1965. A nova lei prevê que o dono de terras é
obrigado a preservar parte da área de vegetação nativa em sua
propriedade, o que se chama de "reserva legal". Na Amazônia, o
percentual "reservado" éde 80% da propriedade, no cerrado é de 35% e nos
demais biomas 20%.
O prazo para realizar o cadastro vencia em
maio de 2015, mas vem sendo sucessivamente adiado, o que impede o avanço
da etapa seguinte, de fiscalização e regularização dos que desmataram
mais do que podiam. Depois de os ex-presidentes Dilma Rousseff e Michel
Temer terem prorrogado o período de cadastro, Bolsonaro editou uma
medida provisória em junho extinguindo o prazo, deixando produtores
livres para cumprir essa exigência quando quiserem.
É justamente essa obrigação, o cadastro de reserva
legal, que Flávio Bolsonaro quer acabar, citando em sua proposta os
números de Miranda.
"O maior trabalho escravo da história do
Brasil. Cinco milhões de pessoas obrigadas, sem ganhar nada, a fazer
esse trabalho, sob coação, sob ameaça de perda de crédito", criticou
Miranda, colocando a obrigação dos produtores de registrar suas
propriedades como um encargo pior que mais de três séculos de trabalho
forçado impostos aos negros no Brasil.
A fala pode ser vista em
vídeo que já alcançou quase 300 mil visualizações do YouTube, registro
de sua palestra no VI Fórum de Agricultura da América do Sul, há um ano,
em Curitiba.
Ao somar os hectares que estariam preservados por
produtores às áreas protegidas nas unidades de conservação, terras
indígenas e porções de terras públicas devolutas ou de controle militar,
sua equipe aponta que 66% do país é ocupado por florestas ou outros
tipos de vegetação original, o que corresponde a 48 países da Europa.
"É
um país que já resolveu todos os seus problemas de saneamento, de
saúde, de infraestrutura... Como temos um fundo soberano que as nações
invejam, a maior renda per capita do planeta, ah, vamos deixar três
quartos (do país preservados) para ajudar o planeta. Dá 48 países da
Europa", ironizou.
Ao dizer que o Brasil é líder em preservação,
Miranda usa ainda um banco de dados gerenciado pela ONU, o World
Database on Protected Areas, que compila áreas legalmente protegidas,
para comparar o desempenho dos dez maiores países em extensão
territorial.
Nessa comparação, o Brasil aparece no topo do
ranking, com 29% de território protegido, considerando unidades de
conservação e terras indígenas. A média dos outros nove (Austrália,
China, Estados Unidos, Rússia, Canadá, Argentina, Argélia, Índia e
Cazaquistão) fica em 10%.
Quando considerados todos os países do
mundo, no entanto, o Brasil aparece acima da média mundial, mas atrás de
mais de vinte nações, como Alemanha (38%), Grécia (35%), Nova Zelândia
(32%), Venezuela (54%), Bolívia (30%) e Congo (41%).
Desmatamento acelerado nas propriedades rurais
Um
dos críticos do chefe da Embrapa Territorial é o o professor da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Raoni Rajão, que tem artigos
sobre preservação ambiental publicados com colegas nas principais
revistas científicas mundiais, como a americana Science e a britânica
Nature Climate Change.
Ele também calcula que a cobertura de
vegetação nativa no Brasil supere 60%, como aponta Miranda. Porém, na
sua visão, esse índice isoladamente não atesta que o Brasil seja líder
em preservação.
"Esse número não é alvo de controvérsia. O uso que
é feito dele é que é controverso. A foto pode ser boa, mas o filme é
muito ruim. O país está perdendo rapidamente sua riqueza (florestal)",
critica Rajão.
"O que faz o Brasil ter 60% de floresta, e não 30%
ou 40%, é que a entrada (mais intensificada) na Amazônia foi a partir
da década de 70. Se for ver o percentual de floresta que tem em São
Paulo, Santa Catarina, Paraná, vai ver que índice é menor que na França,
na Alemanha", ressalta.
Dados do MapBiomas - projeto de mapeamento do uso do
solo brasileiro desenvolvido por universidades, ONGS e empresas de
tecnologia - apontam que as propriedades privadas possuem, em média,
metade de sua extensão preservada, resultado também similar ao de
Miranda. Isso corresponde a um terço das florestas brasileiras, enquanto
outro terço estão em terras indígenas e unidades de conservação, e o
terço restante principalmente em áreas públicas não demarcadas para
preservação.
No entanto, um levantamento da variação ao longo do
tempo pelo MapBiomas revela que 20% da floresta que existia em
propriedades privadas foi desmatada ou degradada entre 1985 e 2017. No
mesmo período, a perda de mata nativa em unidades de conservação e
terras indígenas foi inferior a 1%, enquanto nas demais áreas públicas
ficou abaixo de 5%.
Já uma pesquisa desenvolvida pelo promotor de
justiça Marcelo Vacchiano, na Universidade Federal do Mato Grosso,
constatou que, de 75 grandes propriedades na região de Rondonópolis
(MT), 49 declararam ter área preservada maior do que o observado nas
imagens de satélites.
Ele é um dos autores do artigo na
Environmental Conservation que contesta diretamente o uso de informações
autodeclaratórias do CAR por Miranda para sustentar que os produtores
rurais são os que mais preservam no Brasil, classificando seus números
de "estatísticas criativas".
Outra crítica à argumentação de Miranda é que ele
contrapõe as áreas preservadas à riqueza econômica gerada pelo
agronegócio, como se não houvesse atividades econômicas em florestas.
Entre os tipos de unidades de conservação, por exemplo, existem as
Reservas Extrativistas e as Florestas Nacionais (Flonas), onde é
permitido concessão para mineração e extração de madeira, de forma
sustentável. A maior mina de ferro do mundo, operada pela Vale, fica na
Flona de Carajás, no Pará.
"O Evaristo faz mágica com os números,
de má-fé", critica a especialista em biodiversidade Nurit Bensusan, do
Instituto Socioambiental (ISA).
"Não é verdade que preservamos
demais, mas se fosse, seria bom. A biodiversidade é fronteira
(econômica) a ser explorada, mas não estamos investindo nisso",
acrescenta.
'Embrapa é séria'
A
BBC News Brasil procurou Evaristo de Miranda no início de julho para
que pudesse responder as críticas, mas ele não quis falar.
Desde a
semana passada, um entusiasta de suas teses, o engenheiro agrônomo
Celso Moretti, assumiu o comando interino da Embrapa. Antes, Moretti
estava como diretor-executivo de Pesquisa e Desenvolvimento da estatal. O
futuro presidente do órgão ainda será escolhido pela ministra Tereza
Cristina.
Para o presidente da Comissão de Meio Ambiente da
Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Muni Lourenço,
não há porque desconfiar dos números da Embrapa Territorial. A
instituição premiou Miranda por seu livro no ano passado.
"A Embrapa tem sido notabilizada por ser uma instituição muito séria, com trabalho técnico de excelência", defendeu.
"O
setor está permanentemente buscando mecanismos, tecnologias, que possam
cada vez mais dar uma condição de aumento de produção e
sustentabilidade ambiental. Somos líderes em várias tecnologias de baixa
emissão de carbono, como plantio direto, fixação de nitrogênio no solo,
e a integração lavoura, pecuária e floresta", disse também.
Questionado
pela BBC News Brasil, Lourenço não quis externar a posição da CNA sobre
os constantes adiamentos da completa implementação do CAR no país.
Dentro da Embrapa, porém, há pesquisadores que preferem se distanciar de Miranda.
"Existe
uma Embrapa muito séria e existe um grupo dentro da Embrapa que não é
respeitado nem dentro da Embrapa", criticou o engenheiro agrônomo
Eduardo Assad, pesquisador da estatal desde 1987 e professor da FGV,
durante um seminário do MapBiomas, no ano passado.
"(A Embrapa
Territorial) Está a serviço do que tem de pior na política ambiental e
rural brasileira", disse também, atribuindo o espaço de Miranda no órgão
desde os anos 80 a "apoio político".
Assad e mais de cem outros
pesquisadores da Embrapa assinaram em maio uma nota técnica contra o
projeto de lei de Flávio Bolsonaro que tenta acabar com a reserva legal
nas propriedades rurais.
Desmatamento no Brasil x reflorestamento em países desenvolvidos
O
desmatamento na Amazônia Legal, que engloba a região Norte mais parte
do Maranhão e Mato Grosso, caiu de 27,8 mil km² em 2004 para o menor
resultado histórico em 2012 (4,6 mil km²), queda que é atribuída ao
aumento da fiscalização e repressão, possibilitado pela melhora do
monitoramento por satélites. A redução não freou a agropecuária - o PIB
(geração de riqueza) do setor cresceu 80% no período, segundo o IBGE.
Desde
então, porém, os dados medidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (Inpe) mostram crescimento quase contínuo do corte de
floresta. Os dados para o último ano (período que engloba de agosto de
2017 a julho de 2018) são de 7,9 mil quilômetros quadrados de perda de
mata nativa na região, aumento de 15% ante os doze meses anteriores.
Já
os números preliminares de 2019 têm indicado piora da situação: o
sistema do Inpe aponta que o desmatamento na Amazônia Legal brasileira
atingiu 920,4 km² no mês passado, um aumento de 88% na comparação com
junho de 2018. Para ambientalistas, a forte alta reflete o
enfraquecimento das políticas de preservação.
Na última sexta-feira, Bolsonaro disse que há uma
"psicose ambiental" em relação ao Brasil, tachou os números do Inpe de
"mentirosos" e insinuou que o órgão estaria "a serviço de alguma ONG".
Depois, mudou um pouco o tom sobre a veracidade dos números, mas
criticou a forma como são divulgados. "Um dado desse aí, da maneira de
divulgar, prejudica a gente", criticou no sábado.
"O Brasil não é
exemplo (de preservação) para ninguém e não deve ser comparado com
países de desenvolvimento antigo. É óbvio que (países ricos) desmataram
mais, porque a biodiversidade não tinha a importância que tem hoje, mas o
esforço que fazem de recuperação é enorme", afirma a ambientalista
Maria Tereza Pádua, conhecida como a "mãe dos parques nacionais do
Brasil" por seu esforço em implementar reservas ambientais quando
dirigiu o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, nos anos 70
e 80.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e
a Agricultura (FAO), a área da União Europeia coberta por florestas
subiu de 35% para 38% de 1990 a 2016. No mesmo período, o índice passou
de 33% para 34% nos Estados Unidos, enquanto na China aumentou de 16,7%
para 22,3%. Já no Brasil, houve queda de 65,4% para 59% no mesmo
intervalo.
'Precisamos da nossa floresta para produzir'
Na
palestra cujo vídeo viralizou, Evaristo Miranda cita um documento
financiado por produtores rurais americanos - "Farms Here, Forests
There" (Fazendas Aqui, Florestas lá) - para demonstrar que a conservação
no Brasil favorece os Estados Unidos. A publicação defende o combate ao
desmatamento em países como o Brasil, para limitar a expansão da nossa
agropecuária e reduzir a competição enfrentada pelo agronegócio
americano no mercado global.
Para o engenheiro agrônomo André
Guimarães, um dos representantes da Coalizão Brasil Clima, Florestas e
Agricultura, parte dos produtores rurais já entendeu que, na verdade, é o
desmatamento que ameaça sua atividade. A coalizão reúne dezenas de
associações do agronegócio e organizações ambientais.
"Nossa
agricultura é fortemente dependente de chuvas, mais de 90% não é
irrigável. A floresta é o que mais se assemelha a uma fábrica de água.
Se subtrair vegetação nativa, tem menos evapotranspiração, ou seja, as
plantas jogam menos umidade para a atmosfera e há menos chuva. Isso já
está acontecendo em algumas regiões do cerrado e da Amazônia", alerta.
"Comparação com outros países é inócua. Nós precisamos da nossa floresta para produzir", resume.
A construção civil é considerada uma das principais
causadoras de impacto ambiental no mundo. Um jeito de mitigar isso, por
comprovação científica e eficiência energética, é a escolha dos materiais.
O bambu é o maior exemplo disso pois apresenta um excelente
custo-benefício. Apesar de ser uma gramínea, ele é a melhor alternativa
sustentável à madeira. Ele cresce rápido nos mais diversos climas e solos, capta
uma grande quantidade de CO2 do ar, tem uma enorme resistência e flexibilidade,
além de ter um transporte fácil por ser leve e compacto.
O bambu está se tornando cada vez mais um material acessível
e altamente disponível dentro do mercado brasileiro graças ao crescimento de
fornecedores, arquitetos, designers e mão de obra especializada.
Muitas vezes nos perguntam: “Por que construir com bambu?”
Gostaríamos de compartilhar com vocês os 8 principais argumentos que
utilizamos para defender o uso dessa planta incrível no projeto e na
obra!
1. Um recurso renovável
Pode servir como substituto das madeiras de lei, oferece uma chance
de reduzir drasticamente o desmatamento das florestas nativas e proteger
as madeiras nobres em extinção.
2. Absorve gases do efeito estufa
O bambu absorve dióxido de carbono (CO2) e libera 35% de oxigênio a mais do que outras árvores na atmosfera.
3. Tem uma alta taxa de crescimento
Algumas espécies de bambu crescem mais de um metro por dia! Nenhuma
planta no planeta apresenta uma taxa de crescimento tão rápida.
4. Desperdício mínimo
Após a colheita, praticamente todas as partes da planta são usadas para fazer uma ampla variedade de produtos.
5. Versatilidade
O bambu pode substituir o uso de madeira para quase todas as
aplicações. Papel, piso, móveis, carvão, materiais de construção e muito
mais. Além disso, as fibras de bambu são mais fortes do que outras
fibras.
6. Não precisa de fertilizantes, pesticidas ou herbicidas
Ao contrário da maioria das plantas cultivadas para comercialização, o
bambu não requer produtos químicos agrícolas. O cultivo de bambu não
adiciona substâncias químicas ao meio ambiente.
7. Proteção do solo
O sistema de rizomas do bambu permanece intacto após a colheita e
impede a erosão do solo ajudando a reter nutrientes para a próxima
colheita.
8. Cresce em diversos lugares
De terras baixas à altitudes mais elevadas, o bambu prospera em uma
ampla gama de climas, pode até crescer em regiões áridas e ajuda a
preservar a umidade vital do solo.
Imagens de satélite mostraram no último sábado (17) que um “rio” de
fumaça descia da região amazônica até o sul do país. Um dia antes, a
quantidade de fumaça no céu de Porto Velho, capital de Rondônia, era
tanta que um voo chegou a mudar a rota, pois a visibilidade estava
comprometida. Focos de incêndio provocados têm ocorrido desde a semana
passada no norte do país.
A fumaça de origem amazônica já era percebida no fim de
semana em algumas cidades do sul. Nesta tarde, moradores da capital
paulista se assustaram com o céu escuro já às 15h. Segundo a empresa de
meteorologia MetSul, a fumaça que alcança o Brasil é parte da região
amazônica, mas é também resultado de focos de incêndio de enormes
proporções que ocorreram na tríplice fronteira do Brasil, Bolívia e
Paraguai nas últimas 48h.
“Esses incêndios no Paraguai e Bolívia explodiram em tamanho e
intensidade no fim de semana. A pluma de fumaça atua hoje no Mato Grosso
do Sul, São Paulo e o Norte do Paraná”, afirma o serviço
meteorológico. No Alto Paraguai, por exemplo, o incêndio queimou 21 mil
hectares e até “choveu” fuligem na região. Mas este ao contrário do que
ocorre neste momento na Bolívia, já está controlado.
Em São Paulo, a mistura de pluma de fumaça e nebulosidade
contribuíram para reduzir a luminosidade -, criando a escuridão que
virou o principal assunto nesta tarde. Ao G1, a meteorologista do
Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Helena Balbino, explica que
há também uma convergência de três massas com temperaturas distintas:
frente fria, temperaturas amenas do oceano e vento quente do interior.
Já o Climatempo ressalta que a mudança de circulação de ventos trouxe a
fumaça proveniente de queimadas no Norte do Brasil e na Bolívia.
Aumento do foco de incêndios
No último domingo (18), o Climatempo já havia ressaltado que o número
de focos de queimadas detectados pelo satélite de referência AQUA_M-T,
administrado pela NASA, era o maior nos últimos cinco anos considerando o
período de 01 de janeiro a 17 de agosto. Em 2019, houve o registro de
65.711 de focos de queimadas, cerca de 70% maior que o ano de 2018.
Os estados de Mato Grosso do Sul e Rondônia lideram o ranking de
estados com o maior aumento de registros comparados com o ano anterior.
Imagem: NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional).
por Roberto Waack, diretor presidente da Fundação Renova – “Encontrei hoje, separadamente, dois amigos meus que se haviam
zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que haviam
se zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas
razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda razão. Não era que um via
uma coisa e o outro outra, ou que um via um lado das coisas e o outro um
lado diferente. Não: cada um via as coisas com um critério idêntico ao
outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha
razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.” (Fernando Pessoa)
A reparação do Rio Doce, após o rompimento da barragem de Fundão, em
Mariana, é um dos eventos mais discutidos na agenda ambiental e social
do país. O desastre em si também. As formas de exposição são as mais
variadas possíveis. Em uma única semana, Comissão Parlamentar de
Inquérito de Brumadinho, em Belo Horizonte, e Congresso Brasileiro de
Jornalismo Ambiental, em São Paulo. Isso é muito positivo. Os dois
eventos com um objetivo comum: a busca do entendimento do problema e de
suas soluções. Sociedade atenta e protagonista. Um dos inquestionáveis
avanços oriundos desse triste acontecimento.
‘’Acontecimento? Como assim? Foi crime!”, brado comumente ouvido nos
diferentes fóruns. Argumentação que se adiciona a outras qualificações:
evento, acidente, desastre, tragédia, homicídio.
Aos poucos, o caso é aprofundado, apesar de a maior parte das
manifestações ainda ter enfoque no binômio “se não prendeu e pagou, nada
foi feito”. A pressão é válida e compreensível, mas não suficiente. As
duras e, na maior parte das vezes, honestas manifestações, demandam
maior celeridade e efetividade das realizações feitas na reparação.
Costumo repetir meu entendimento de que muito foi feito, mas ainda há
muito a fazer. Sem surpresas, o acolhimento desta posição é mínimo. Não
reclamo, aceito que a permanente pressão é necessária, mas não
suficiente.
É preciso aprofundar a discussão sobre os mecanismos e desafios da
reparação. Aos poucos, avançamos. Na CPI de Brumadinho, o representante
do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Thiago Alves, trouxe
contribuição sobre como abordar desastres dessa natureza. Não
conseguirei expressar aqui a contundência como o ativista apresenta seus
argumentos, mas me permiti tentar reproduzi-los porque acredito na sua
relevância: a) o direito à reposição dos danos causados, b) o direito à
mitigação dos danos, c) o direito à indenização, d) o direito ao
reconhecimento de danos morais, e) o direito à compensação, f) o direito
ao retorno da normalidade da vida dos atingidos e, se não for possível,
a alternativas justas, g) o direito à plena manifestação, pelos
atingidos, sobre satisfação com a reparação. A esses pontos somam dois
outros de natureza mais ampla: i) esses direitos não são mutuamente
excludentes, mas sim cumulativos e, j) a sociedade tem o direito à não
repetição de eventos semelhantes.
Esses elementos se referem ao conceito da reparação integral.
Inquestionável argumento que se adiciona ao difícil, mas frequentemente
construtivo e quase permanente embate com o Ministério Público. Assim
avança a reparação do Rio Doce, um esforço coletivo envolvendo mais de
70 organizações integrantes do Comitê Interfederativo e suas Câmaras
Técnicas, que orientam e monitoram a Fundação Renova no ambíguo, incerto
e volátil contexto dos diferentes desastres do Rio Doce: o histórico de
quase um século de desmatamento, ocupação desordenada, desassistência e
abandono pelo Estado. Situação terrivelmente agravada pelo segundo
desastre, o do rompimento da barragem de Fundão e suas consequências
agudas e as decorrentes dos próprios desafios da reparação.
No Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, discutiu-se o papel
da imprensa em situações como o rompimento das barragens, o desmatamento
e desastres naturais decorrentes de mudanças climáticas. Tratou-se da
pertinência de uma narrativa menos focada na desgraça: caloroso debate
sobre a necessidade de expor desastres como o da Barragem de Fundão.
Sim, absolutamente necessário expor externalidades (agudas e
consubstanciadas como a das barragens, ou mornas, crônicas e
subapreciadas como as do uso inadequado do solo e ativos hídricos).
Externalidades devem ser expostas amplamente, mas não é o suficiente…
A Coalizão Brasil Clima Florestas e Agricultura estuda como comunicar
essas situações. O Forest Stewardship Council – conhecido selo FSC,
depara-se com esse dilema há décadas. Como conscientizar e mobilizar a
sociedade para evitar, reparar ou mitigar essas situações. As matérias
jornalísticas e campanhas são, na sua maior parte, críticas.
Necessárias, mas não suficientes…
É preciso aprofundar o debate. Qual o melhor modelo para lidar com
transformações socioambientais? Não tenho a menor dúvida de que devem
ser participativos. Também não hesito em defender que contemplem todas
as partes afetadas, englobem as distintas instâncias dos poderes
Executivo e Legislativo nos âmbitos federal, estadual e municipal e
tangenciem de perto o campo judicial (evitando exclusiva dependência
dele).
Que incorporem a melhor ciência, o conhecimento e os distintos
matizes ideológicos trazidos por entidades da sociedade civil. Que se
assentem sobre sistemas de governança robustos e legítimos. Que entendam
a extensa participação e controle social como complexa e, muitas vezes
morosa, pois, assim como a democracia, é imperfeita e demanda contínuo
aprendizado e ajustes. Que consigam lidar com as diferentes “verdades”,
da forma como Pessoa ilumina. Por isso acredito na alternativa da
Fundação Renova como a que mais se aproxima da realidade que desafios
desta monta suscitam.
Inevitável a lembrança do conto “O Carvão Amarelo”, do escritor russo
Sigismund Krzyzanowski.
Em um mundo absolutamente degradado e exaurido,
a alternativa para manter a produção foi captar a energia oriunda da
tensão e do ódio entre as pessoas, em um ambiente insuportavelmente
populoso. A tecnologia – sistemas de captação de energia por contato com
placas instaladas em transportes públicos, cadeiras e outros pontos –
tem sucesso absoluto, restaurando a prosperidade. No entanto, a
capacidade de geração energética se exaure progressivamente, com a
sensação de um certo bem-estar, e consequente redução do ódio entre os
habitantes. O bem-estar oriundo da sensação de dever cumprido que a
expressão da raiva traz ( … o prazer do ódio – Lord Byron), no entanto,
não resulta na melhor convivência e busca pelo entendimento.
Desculpem o spoiler: a aposta no ódio gera torpor, imobilismo, proteção reativa e apatia. “(…)
já não era possível encontrar as inteligências raivosas, aquelas
inspirações iradas, as penas afiadas como ferrōes molhadas na bile. As
tintas aguadas, sem mistura de sangue e bile, sem qualquer fermentação,
só conseguiam produzir garatujas de ideias confusas, tolas, como
borrões. A cultura morria sem glória, sem estrépito. (…) e na entropia
crescente da raiva desaparecida não poderia nem mesmo surgir um escritor
capaz de narrar dignamente o fim de uma época ”. O autor do conto desapareceu na União Soviética, em meados do século passado.
Como ir além da (necessária, mas não suficiente) narrativa da
desgraça? Não vejo outra alternativa além de um diálogo com profundidade
sobre como lidar com a complexidade dessas situações, mobilizando toda a
sociedade, de uma forma construtiva. (Fundação Renova)