quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Com aprovação de mais agrotóxicos à base de Sulfoxaflor, apicultores temem novo extermínio de abelhas


Com aprovação de mais agrotóxicos à base de Sulfoxaflor, apicultores temem novo extermínio de abelhas


Última leva de aprovações do governo Bolsonaro incluiu seis produtos com Sulfoxaflor; pesticida é apontado como causador de morte de enxames

abelha morta

Por Pedro Grigori, Agência Pública/Repórter Brasil


A Pública

Se o número de abelhas mortas desde o final do ano passado assusta – foram mais de 500 milhões em três meses –, apicultores brasileiros se preparam para uma realidade ainda pior este ano.
Isso porque, além dos agrotóxicos que já causam mortandade segundo diversos estudos, o governo de Jair Bolsonaro aprovou nada menos que seis produtos à base de Sulfoxaflor, ingrediente ativo que causa polêmica nos Estados Unidos e Europa devido ao potencial risco às abelhas.

“Estamos ainda mais preocupados agora devido à aprovação de tantos pesticidas neste ano”, conta Professora aposentada de química na Universidade Federal de Goiás (UFG) e presidente e sócia-fundadora da Associação dos Apicultores do Estado de Goiás (Apigoiás), Maria José Almeida. “No Centro Oeste, mais mortes ocorrem na época da dessecação da soja, que começa agora. Aplicam venenos altamente tóxicos para as abelhas, e o resultado são apiários inteiros mortos. No último ano chegamos a pegar pelo estado entre 60 e 80 caixas com todas as abelhas mortas”. Cada caixa pode abrigar entre 30 mil e 100 mil abelhas.

“Na nossa região são muitas as causas de morte de abelhas. A associação foi criada em 1980, e sempre foi algo comum termos casos onde morrem um enxame ou outro, mas nunca na proporção que vem ocorrendo nos últimos anos”, diz.

Em Pernambuco, a situação é semelhante. No começo do mês, o Ministério Público estadual recebeu denúncia de mortandade de abelhas no Vale do Rio São Francisco. Segundo a Associação dos

Criadores de Abelhas de Petrolina, há três anos, os 32 associados retiravam anualmente cerca de 30 toneladas de mel, número que caiu para 20 toneladas.

Os apicultores ouvidos pela reportagem reclamam que os inseticidas relacionados ao massacre do último ano, o Fipronil e os neonicotinoides Clotianidina, Imidacloprid e o Tiametoxam, ainda continuam no mercado, sem a conclusão da Avaliação do Potencial de Periculosidade Ambiental (PPA) feita pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Além disso, a chegada de pesticidas à base de Sulfoxaflor ao mercado brasileiro também preocupa. Trata-se de um produto que faz parte do grupo químico das sulfoxaminas, desenvolvido pela Dow AgroSciences desde 2013. Rapidamente, o inseticida tornou-se um fenômeno de vendas, aprovado em mais de 80 países, como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão e China.

No Brasil, o produto técnico Sulfoxaflor teve a aprovação publicada no 1º ato de 2019 da Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins do Ministério da Agricultura. Segundo o governo, o ingrediente ativo foi aprovado no ano passado, pelo antigo Governo, mas a publicação no Diário Oficial ocorreu apenas em 10 de janeiro.

Já em 22 de julho, seis produtos agrotóxicos à base de Sulfoxaflor obtiveram a permissão para serem comercializados. Eles foram classificados como “medianamente tóxicos” e “perigosos ao Meio Ambiente” e liberados para as culturas de algodão, citros, feijão, melão, melancia, soja, tomate e trigo.

Os novos agrotóxicos chegarão às lojas com os nomes Verter SC, Exor SC, Closer SC, Exor, Verter, Closer, todos comercializadas pela Corteva Agriscience — empresa que antes pertencia à gigante DowDupont (fusão da Dow AgroSciences com a Dupont) mas que foi desmembrada e se tornou, este ano, um braço independente para cuidar apenas da área agrícola, incluindo agrotóxicos. No entanto, apesar de a comercialização ser feita pela Corteva, as patentes dos produtos são da Dow, que fez o pedido antes da fusão. A Agência Pública e Repórter Brasil perguntaram à Corteva quando os produtos chegarão aos prateleiras, mas, alegando motivos comerciais e estratégicos, a empresa não revelou a data de lançamento.


Estudos são sigilosos
Para evitar o impacto nas abelhas, o Ibama impôs regras para o uso do Sulfoxaflor. Entre elas, a restrição de aplicação em períodos de floração das culturas, o estabelecimento de dosagens máximas do produto e de distâncias mínimas de aplicação em relação à bordadura para a proteção de abelhas não-apis, sem ferrão funcional. Essas restrições constarão na rotulagem dos produtos e são estabelecidas de acordo com cada ingrediente e cultura.

“Do ponto de vista da saúde humana, o Sulfoxaflor está entre os inseticidas 20% menos tóxicos hoje aprovados. Há um possível impacto sobre insetos polinizadores, por isso a importância da avaliação do Ibama. Foram apresentados estudos técnicos sobre o impacto dos resíduos nas abelhas para determinar o que pode ou não ser aprovado. O Ibama tem a liberdade técnica de aprovar ou reprovar o produto ou estabelecer restrições de uso que garantam a segurança para os insetos polinizadores”, explicou à reportagem o coordenador-geral de Agrotóxicos e Afins da Secretaria de Defesa Agropecuária, Carlos Venâncio.

Para entender melhor os potenciais impactos, a reportagem solicitou via Lei de Acesso à Informação ao Ministério do Meio Ambiente os estudos técnicos do Sulfoxaflor, mencionados pelo coordenador. O pedido foi negado pelo órgão, com base na Lei 10.603 de 2002, que estabelece que novos produtos aprovados para comercialização têm proteção de 10 anos de sigilo nas informações.

Tanto o Sulfoxaflor quanto pesticidas neonicotinóides funcionam atingindo o sistema nervoso central dos insetos. A professora da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília (UnB), Cristina Schetino explica que, no caso dos neonicotinóides, o efeito nas abelhas ocorre alterando a capacidade de aprendizagem e memória. Algumas inclusive não conseguem encontrar o caminho de volta para a colmeia.

“O Sulfoxaflor, portanto, vem sendo considerado como uma alternativa aos neonicotinóides, que foram banidos de vários países, tendo em vista seu reconhecido impacto sobre polinizadores. Uma das vantagens atribuídas ao Sulfoxaflor está no fato de que ele apresenta residual mais curto: após 5 dias da aplicação, a concentração residual do chega a cair em até 20 mil vezes”, diz Cristina Schetino. Porém, diz ela, estudos recentes já mostram consequências do uso do Sulfoxaflor nas abelhas.

O principal deles é de 2018, feito por professores da Universidade de Holloways, em Londres, e publicado na revista científica Nature, alertando para os riscos do Sulfoxaflor para as abelhas. No experimento, abelhas Bombus terrestris, conhecida no Brasil como mamangaba-de-cauda-amarela-clara, foram submetidas ao inseticida, o que levou a uma redução da capacidade de reprodução e da taxa de crescimento das colônias.

A especialista acrescenta que existem riscos na aplicação mesmo fora da época de floração. “Há espécies vegetais, que também têm glândulas de nectário nas folhas, tornando-as atrativas para as abelhas até mesmo na época onde só há a planta”, explica.

Por meio da assessoria de imprensa, a Corteva Agriscience enviou nota à Agência Pública e Repórter Brasil garantindo que os produtos à base de Sulfoxaflor que chegarão ao mercado brasileiro passaram por todos os testes necessários. “Foram realizados pela companhia diversos estudos laboratoriais para avaliar a toxicidade aguda e crônica para abelhas adultas e larvas; estudos de resíduos em néctar e pólen; e análise sobre o impacto em colônias de abelhas. Os estudos conduzidos seguiram as normas de qualidade reconhecidas internacionalmente e comprovaram que não há efeitos sobre o desenvolvimento das colônias de abelhas quando expostas aos resíduos de pólen e néctar”, escreveu a companhia.

“A empresa enfatiza, ainda que, antes de solicitar o registro de qualquer um de seus produtos, realiza uma série de pesquisas para averiguar o desempenho de suas novas tecnologias, avaliando, inclusive, todo possível impacto ambiental. Dessa maneira, a companhia assegura que, quando usado de acordo com as recomendações da bula, Sulfoxaflor não representa risco para as abelhas”, afirma a nota.
Questionados na justiça, produtos da Dow Agrosciences voltam ao mercado durante governo Trump

Desde 2015, o Sulfoxaflor está envolvido em polêmicas. Naquele ano, organizações que defendem abelhas levaram ao Tribunal de Apelações de São Francisco, nos Estados Unidos, a denúncia de que o uso do inseticida estaria ligado ao extermínio de abelhas, pedindo a suspensão da venda de produtos à base do químico. Segundo a Agência de Proteção Ambiental Americana (EPA), “o tribunal considerou que o registro não era apoiado por evidências que demonstrassem que o produto não era prejudicial às abelhas, e por isso retiraram o registro”.

Mas o produto não ficou muito tempo longe das prateleiras. Em 2016, a EPA aprovou uma nova licença, com requisitos adicionais para proteger as abelhas. A partir daí, o produto passou a ser proibido para culturas de sementes, e só pode ser utilizado em plantações que atraem abelhas após a época do florescimento.

Três anos depois, veio uma nova decisão. Em julho de 2019, já no governo de Donald Trump, a EPA expandiu a liberação de uso do Sulfoxaflor para mais culturas. A agência concluiu que o pesticida desaparece da atmosfera mais rápido do que as demais alternativas utilizadas, diminuindo assim os riscos para os enxames.

A nova decisão rendeu protestos de organizações da sociedade civil americana e levantou suspeitas – especialmente porque a Dow AgroSciences, que detém a patente do Sulfoxaflor e é ligada à Corteva, doou US$ 1 milhão para garantir as festividades da posse de Trump, segundo reportagem publicada pela Associated Press em 2017. A reportagem revelou também que o CEO da Dow, Andrew Liveris, é amigo pessoal do presidente americano.

Agrotóxicos demoram a sair do mercado
Em março, a reportagem da Agência Pública e da Repórter Brasil mostrou que uma das principais ações do governo para resolver o problema da mortandade de abelhas é a reavaliação de agrotóxicos relacionados aos casos.

O Ibama iniciou o processo em 2012, com a reavaliação do neonicotinoides Imidacloprid, o mais usado do grupo. Simultaneamente, o Instituto está reavaliando também os neonicotinoides Clotianidina e o Tiametoxam, e ao fim dos três processos iniciará os testes com o Fipronil.

Em outubro de 2017 o Ibama respondeu ação civil pública na 9ª Vara Federal de Porto Alegre, que dava o prazo de seis meses para a autarquia concluir as reavaliações. O Ibama respondeu ter dificuldade para concluir o processo no prazo. A equipe que realiza as reavaliações é composta por apenas cinco analistas ambientais: três biólogos, um químico e um zootecnista.
Cinco meses após a publicação da reportagem, os processos de reavaliação ainda não foram concluídos. Nem Ibama nem Ministério do Meio Ambiente deram alguma previsão de encerramento da reavaliação dos neonicotinoides.

Pressão do Ministério Público e da sociedade
Enquanto o processo de revisão dos agrotóxicos apontados como vilões das abelhas segue em andamento na esfera federal, há pressão nos demais poderes e da sociedade civil. A Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre encaminhou no dia 14 de agosto pedido de suspensão para que o Governo do Rio Grande do Sul avalie a possibilidade de restrição do uso do inseticida Fipronil no estado, através da suspensão provisória do registro do produto no Cadastro Estadual de Registro de Agrotóxicos – 400 milhões de abelhas foram mortas no Estado em apenas três meses, conforme revelaram Agência Pública e Repórter Brasil.

Em junho deste ano o Ministério Público do Rio Grande do Sul estadual propôs que as empresas produtoras do inseticida suspendessem voluntariamente a comercialização de produtos à base de Fipronil no estado. As multinacionais Basf e a Nufarm concordaram. “O fato é significativo porque, mesmo que outras tantas não concordassem com a proposição ancorada apenas na questão de que o princípio ativo possui registro, duas das maiores produtoras reconhecem, especificamente pela mortandade de abelhas, os danos que a versão foliar do Fipronil representa”, destacou promotor de Justiça Alexandre Saltz no pedido de suspensão.

“Impõe-se avançar na limitação da sua comercialização e uso, especialmente às vésperas do início da safra”, concluiu.

O Fipronil age nas células nervosas dos insetos e, além de utilizado contra pragas em culturas como maçã, soja e girassol, é usado até mesmo em coleiras antipulgas de animais domésticos. Muitas vezes esse veneno é aplicado em pulverização aérea, o que o expõe diretamente as abelhas. Um estudo feito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2018 analisou 30 casos de grandes baixas em enxames no estado. Os resultados mostram que cerca de 80% ingeriram ou tiveram contato com Fipronil antes de sucumbir.

“Estamos animados com essa movimentação judicial. O Fipronil é o maior matador de abelhas. Usar ele na época da florada é um grave crime ambiental”, conta o apicultor Salvador Gonçalves, presidente da Apicultores de Cruz Alta (Apicruz).

O município gaúcho foi um dos que mais sofreu com mortes de abelhas — mais de 20% de todas as colmeias foram perdidas apenas entre o Natal de 2018 e o começo de fevereiro deste ano. Cerca de 100 milhões de abelhas apareceram mortas, segundo levantamento da Apicruz.

Mas a repercussão das denúncias chamou atenção para o problema. Em maio, o Greenpeace lançou a #SalveAsAbelhas, um abaixo assinado contra o extermínio de polinizadores por uso de agrotóxicos — foram 10 mil assinaturas de apoio em uma semana.

Quase um ano depois, o sentimento é de esperança de que a repercussão traga mudanças efetivas. “Dentro de alguns dias começa a dessecagem nas lavouras de milho, então estamos muito preocupados. Mas houve uma sensibilização muito grande por parte dos produtores rurais que nos faz esperar uma diminuição da mortandade de abelhas neste período de primavera”, diz Salvador Gonçalves.

Em resposta, o setor de defensivos agrícolas, sob governança do Sindicato Nacional das Indústrias de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), criou o Colmeia Viva, um movimento para incentivar o diálogo entre agricultores e criadores de abelhas. O grupo coloca como um dos objetivos promover o uso correto de defensivos agrícolas para diminuir o impacto na apicultura.

Por sua vez, em julho foi a vez dos deputados agirem. No dia 4, parlamentares lançaram no Congresso Nacional a Frente Parlamentar Mista da Apicultura e da Meliponicultura. O grupo irá acompanhar e fiscalizar as atividades de criação de abelha e produção de mel no país, além de propor alternativas para solucionar os problemas da categoria. 256 deputados federais e nove senadores assinaram o requerimento de criação. O presidente da frente é o deputado Darci de Matos (PSD-SC) e o vice é o senador Izalci Lucas (PSDB-DF) — ambos também são membros da Frente Parlamentar da Agropecuária.

Membros da Frente Parlamentar da Apicultura reuniram-se neste mês com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, para discutir as principais pautas do setor, incluindo a mortandade de polinizadores. “Passamos para ela a nossa preocupação em relação aos agrotóxicos que tem em sua base o Fipronil e os neonicotinoides. São agrotóxicos que já foram banidos na Europa, e aqui apareceram no caso de mortalidade de 500 milhões de abelhas no ano passado em quatro estados. Precisamos agir, pois sem abelha não tem alimento”, relata o deputado Darci de Matos.

A frente também pretende se reunir com Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente para falar da reavaliação dos agrotóxicos tendo em vista o perigo as abelhas. “Estamos estudando a possibilidade de fazer um projeto de lei propondo a proibição desses agrotóxicos. É um assunto bem complexo, e o PL seria a opção mais radical, mas adiante poderá ser possível, porque não podemos continuar deixando milhões de abelhas morrendo”, diz Darci. Além disso, o deputado acrescenta o interesse em criar um mapeamento de colméias no Brasil. “O objetivo é descobrir onde estão as colmeias, para quando você for autorizar um agrotóxico, o receituário mostre onde não é permitido fazer a aplicação”, explica.

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/08/2019
Com aprovação de mais agrotóxicos à base de Sulfoxaflor, apicultores temem novo extermínio de abelhas, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/08/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/08/27/com-aprovacao-de-mais-agrotoxicos-a-base-de-sulfoxaflor-apicultores-temem-novo-exterminio-de-abelhas/.

Juristas preparam denúncia contra Bolsonaro por ecocídio


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Instituto Anjos da Liberdade enviou documento ao Tribunal Penal Internacional acusando o presidente da República de crimes contra a humanidade










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Cinco advogados do Instituto Anjos da Liberdade protocolaram um pedido ao Tribunal Penal Internacional para que o presidente da República, Jair Bolsonaro, seja investigado pelo promotor-geral da entidade por ser o principal responsável pelas recentes queimadas na Floresta Amazônica.

Na petição enviada à Corte internacional, os advogados do instituto alegam que os incêndios na Amazônia "são reflexos de projetos de Bolsonaro e seu grupo político que só se realizam mediante o genocídio de populações locais, indígenas inclusive, genocídio cultural, pelo extermínio de elementos inextrincáveis às culturas locais, passando pelo extermínio da biodiversidade".

"Notória a apologia de garimpo e mineração em terras indígenas defendida por Bolsonaro ao fundamento de declarações que por si só configuram mais que menoscabo pelos povos indígenas, pela sua cultura dependente do meio ambiente nativo, configurando apologia e estímulo de políticas concretas ao extermínio populacional e extermínio de culturas locais", escrevem os advogados no documento.

De acordo com o instituto, Bolsonaro também deve ser investigado por cometer crimes contra a humanidade. Os advogados protestam que ele faz apologia ao genocídio de índios da Amazônia, à tortura, ao desaparecimento forçado e ao homicídio indiscriminado, além de defender políticas de extermínio.

Como justificativa, os advogados citaram as declarações que Bolsonaro fez a Fernando Santa Cruz, 
pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz. Em julho, o pesselista disse que sabia como Fernando havia desaparecido na ditadura militar.

A entidade lembrou a homenagem de Bolsonaro ao coronel Brilhante Ustra, a quem o chamou de “herói nacional”, como outra atitude criminosa do presidente. Ustra foi o primeiro oficial das Forças Armadas condenado pela Justiça em ação declaratória por sequestro e tortura durante a ditadura militar, em 2008.

O Instituto Anjos da Liberdade ainda acusa o Ministério Público Federal de ser omisso por não penalizar o presidente pela "apologia a crimes e políticas públicas danosas".

"O que é comum entre Bolsonaro e o Ministério Público Federal é uma ação simétrica e convergente em querer usar o país e o governo brasileiro para exterminar seus adversários pessoais. Entre esses oponentes está a advocacia. Tentar tornar um trabalho de advogado uma ofensa criminal mina o mais fundamental de qualquer democracia. Como consequência, essa questão pode ser usada como um desenvolvimento natural de investigações que podem ser iniciadas para investigar crimes contra a humanidade no Brasil", afirmou o instituto.

Formularam o documento os advogados Flávia Pinheiro Fróes, Nicole Giamberardino Fabre, Daniel Sanchez Borges, Ramiro Rebouças e Paulo Cuzzuol.

É possível recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa do país até 2030, indica relatório


É possível recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa do país até 2030, indica relatório


Documento lançado pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos estima que restauração florestal sequestraria 1,39 megatonelada de CO2 da atmosfera e aumentaria em 200% a conservação da biodiversidade, sem prejuízos à agropecuária


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(foto: Leticia Garcia)

Elton Alisson | Agência FAPESP – O Brasil perdeu 71 milhões de hectares de vegetação nativa nos últimos 30 anos – área maior que a ocupada pela Amazônia – em decorrência de desmatamento e queimadas, entre outros fatores, apontam dados do MapBiomas. Como esse desmatamento ocorreu sem planejamento ambiental e agrícola, boa parte dessas áreas tornaram-se abandonadas, mal utilizadas ou entraram em processo de erosão, ficando impróprias para produção de alimentos ou qualquer outra atividade econômica.


A restauração florestal pode diminuir parte desse prejuízo ao possibilitar a recuperação estratégica  de 12 milhões de hectares de vegetação nativa em todo o país até 2030, conforme estabelecido no Plano Nacional de Restauração Ecológica. Dessa forma, seria possível sequestrar 1,39 megatonelada (Mt) de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, interligar fragmentos naturais na paisagem e ainda aumentar em 200% a conservação da biodiversidade.

As estimativas constam no sumário para tomadores de decisão do relatório temático “Restauração de Paisagens e Ecossistemas”, lançado na sexta-feira (23/08), no Museu do Meio Ambiente do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.

O documento é resultado de uma parceria entre a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, na sigla em inglês), apoiada pelo programa BIOTA-FAPESP, e o Instituto Internacional de Sustentabilidade (ISS), e foi elaborado por um grupo de 45 pesquisadores, de 25 instituições do país.

“O sumário mostra que as questões ambientais [conservação e restauração ecológica] e a produção agrícola são interdependentes e podem caminhar juntas, sem prejuízo para nenhum dos lados. Pelo contrário, ela só traz benefícios diretos, como a diponibilização de polinizadores para as culturas agrícolas, a conservação da água e do solo e, principalmente, a possibilidade de certificação ambiental da produção, permitindo agregar valor”, disse à Agência FAPESP Ricardo Ribeiro Rodrigues, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e um dos autores do documento.

O sumário destaca que o Brasil tem grandes oportunidades para impulsionar a restauração e a recuperação da vegetação e, com isso, aumentar a geração de benefícios socioeconômicos e ambientais, minimizar a competição de florestas com áreas agrícolas e contribuir para combater as mudanças climáticas.

No entanto, para que as oportuni¬dades se tornem realidade, o país não pode retroceder em suas políticas ambientais de redução do desmatamento, conservação da biodiversidade e impulsionamento da recuperação e da restauração da vegetação nativa em larga escala, ponderam os autores.

O fim da obrigatoriedade da Reserva Legal, as reduções das alternativas de conversão de multas e a extinção dos fóruns de colaboração e coordenação entre atores governamentais e da sociedade seriam perdas irreparáveis para uma política de adequação ambiental, afirmam.

Os autores também ponderam que Brasil tem assumido o papel de líder em negociações ambientais internacionais e qualquer ruptura desse caminho, além de afastar oportunidades, vai afugentar mercados internacionais consumidores de produtos agrícolas. Isso porque, cada vez mais, esses agentes se pautam pela produção e pelo consumo sustentáveis, incluindo políticas de não consumo de produtos provenientes de áreas desmatadas.

“O Brasil não deveria ter nenhuma dificuldade de colocar seus produtos agrícolas no mercado internacional, pois o diferencial poderia ser uma agricultura sustentável praticada em ambientes de elevada diversidade natural. Isso é um ativo que nenhum outro país tem”, avaliou Rodrigues.

Aumento de produtividade
De acordo com o documento, a intensificação sustentável da pecuária brasileira é um processo-chave para aumentar a produtividade do setor e liberar as áreas agrícolas de menor produtividade para o cumprimento de leis e metas ambientais.

O aumento da produtividade média da pecuária brasileira de 4,4 para 9 arrobas por hectare por ano permitiria não só a atingir a meta brasileira de recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, como também zerar o desmatamento ilegal e liberar 30 milhões de hectares para a agricultura.

“Três quartos da área agrícola brasileira são ocupados hoje pela pecuária, com baixíssima produtividade média. Se tivéssemos uma boa política agrícola, voltada à tecnificação da pecuária, seria possível aumentar a produtividade da atividade e, assim, liberar pelo menos 32 milhões de hectares de pastagem para outras culturas, mantendo a mesma quantidade de cabeças de gado atual”, disse Rodrigues.

O aumento da produtividade das pastagens nos próximos 30 anos seria suficiente, considerando o Brasil como um todo, para garantir o cumprimento de leis e metas ambientais, como pode ser confirmado nos resultados regionais, afirmam os pesquisadores.

Na Amazônia, por exemplo, para atender a todas as metas de produção agrícola e florestal, de desmatamento ilegal zero e de recuperação da vegetação nativa – visando legalizar ambientalmente as propriedades rurais e ainda potencializar os serviços ecossistêmicos –, seria preciso ampliar a produtividade das pastagens do nível atual de 46% para 63-75% do seu potencial sustentável, em 15 anos.

Na Mata Atlântica, esse mesmo processo necessita de um aumento dos atuais 24% para 30-34% do seu potencial, sendo que tal incremento é possível apenas aplicando o conhecimento básico de manejo de pastagens. No Cerrado, bastaria sair dos 35% vigentes para 65% do seu potencial sustentável até 2050 para harmonizar expansão agrícola sustentável, restauração em áreas prioritárias e desmatamento ilegal zero

“Não há nenhuma justificativa para o desmatamento que está acontecendo na Amazônia e no Cerrado agora, porque estamos gerando ainda mais pecuária de baixa produtividade”, afirmou Rodrigues.
Segundo o documento, o aumento da produtividade nas áreas já agrícolas e a adoção de modelos econômicos alternativos nas áreas com menor potencial agrícola – como aquelas com restrições à produção mecanizada, as ocupadas por vegetação nativa, florestas nativas com aproveitamento econômico sustentável e sistemas agroflorestais biodiversos – também são essenciais para alavancar os benefícios financeiros diretos e indiretos em curto prazo.

Somando a exploração econômica das áreas marginais restauradas com fins comerciais, como sistemas agroflorestais biodiversos, e o ganho proporcionado pelo uso destas áreas para compensação de Reserva Legal de propriedades rurais com débito ambiental, torna-se financeiramente viável a reconversão de áreas agrícolas marginais para vegetação nativa.

Em Paragominas, no Pará, em apenas quatro anos, propriedades de pecuária irregulares ambientalmente e de baixa produtividade regularizaram suas exigências ambientais legais e aumentaram a produtividade da agropecuária em quatro vezes e ainda passaram a explorar a Reserva Legal de forma sustentável, plantando madeira e frutíferas nativas, diversificando a produção, exemplifica o sumário.

“Há vários outros exemplos de projetos de pecuária sustentável no país, em que são tecnificadas as melhores áreas para a pastagem e as áreas marginais, que são as Áreas de Preservação Permanente [APPs] para proteção da água, do solo e da biodiversidade.  As áreas agrícolas de menor aptidão agrícola, que cabem no conceito de reserva legal, são ocupadas com florestas econômicas biodiversas, para a recuperação ambiental e produtiva da propriedade”, disse Rodrigues.

Restauração planejada
De acordo com Carlos Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), membro da coordenação da BPBES e do BIOTA-FAPESP, o Brasil tem a oportunidade de desenvolver um programa de recuperação da vegetação nativa ímpar no mundo para áreas florestadas da Mata Atlântica e Amazônia. Isso porque o país pode contar com uma grande diversidade de espécies em projetos de restauração.

“Há projetos grandes e bem-sucedidos de restauração em andamento em países como a China, mas a diversidade de espécies usadas é baixa, pois a variedade que possuem é muito menor do que a encontrada na Mata Atlântica e na Amazônia, por exemplo”, comparou.

A alta diversidade de espécies encontrada nesses biomas brasileiros permite que a restauração seja muito mais funcional, explicou Joly. “Além das vantagens comuns, como a melhoria da estabilidade do solo e o aumento na retenção de água – e, consequentemente, maior recarga de aquíferos –, um programa de restauração com alta diversidade de espécies permite incluir plantas que podem ser fontes de alimentos ou que são importantes para manutenção de polinizadores, como abelhas”, disse.
Um dos gargalos para implantar grandes projetos de restauração em biomas como a Amazônia é a disponibilidade de mudas, apontam os pesquisadores. Mas esse problema seria dirimido à medida que aumentasse a demanda, ponderam.

“Se realmente existir vontade política de implementar programas de restauração em larga escala, o mercado de produção de mudas imediatamente aqueceria, porque há conhecimento suficiente”, afirmou Joly.

“Hoje é difícil encontrar uma alta diversidade de mudas de espécies nativas para restauração porque a demanda é muito baixa. Mas ao estabelecer um programa de restauração, é possível reativar toda uma cadeia, que vai desde a coleta de sementes, passando pelo plantio até o acompanhamento das mudas no campo”, afirmou.

A restauração, se bem planejada e implementada na paisagem, pode aumentar em mais de 200% a conservação da biodiversidade, indica o sumário.

Na Mata Atlântica, por exemplo, a recuperação do débito de Reserva Legal (de 5 milhões de hectares) pode evitar até 26% de extinção de espécies (2.864 espécies de plantas e animais) e sequestrar 1 bilhão de toneladas de CO2 equivalente. A relação custo-efetividade desse cenário é oito vezes maior se comparada a um contexto sem priorização espacial, o que aumenta em 257% a extinção evitada de espécies e em 105% o sequestro de carbono, além de reduzir os custos em 57%.

A condução da regeneração natural em áreas com condições ambientais e socioeconômicas favoráveis no bioma pode reduzir em até 77% o custo de implementação da restauração nos próximos 20 anos.

“Hoje, por meio de ferramentas de modelagem, é possível avaliar o custo-benefício da restauração com diferentes funções, como para ter a maior diversidade possível de espécies de árvores ou maior eficiência em termos de custo da área e da mão de obra empregada”, disse Joly.

“Ao cruzar esses objetivos, os sistemas de modelagem permitem mapear e selecionar áreas com maiores chances de atingir os objetivos de baixo custo, com a maior diversidade de espécies e efetividade de restauração. Com isso é possível aumentar a escala de restauração”, explicou.

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/08/2019

É possível recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa do país até 2030, indica relatório, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/08/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/08/27/e-possivel-recuperar-12-milhoes-de-hectares-de-vegetacao-nativa-do-pais-ate-2030-indica-relatorio

Sob panelaço e manifestações, Bolsonaro diz que Brasil é 'exemplo de sustentabilidade'

NOTÍCIAS
23/08/2019 21:32 -03 | Atualizado 24/08/2019 01:07 -03

Sob panelaço e manifestações, Bolsonaro diz que Brasil é 'exemplo de sustentabilidade'

Presidente autorizou uso das Forças Armadas na Amazônia. “Somos um Governo de tolerância zero com a criminalidade”, disse Bolsonaro em pronunciamento nesta sexta.

Adriano Machado / Reuters
Presidente Jair Bolsonaro fez pronunciamento na TV sobre a Amazônia.
No momento em que acontecem protestos pelo País em favor da Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro, na noite desta sexta-feira (22), fez pronunciamento em rede nacional, no qual disse que Brasil é “exemplo de sustentabilidade” e que terá “tolerância zero com a criminalidade” ao se referir às queimadas.

No pronunciamento, o presidente anunciou que autorizou uma operação de Garantia da Lei e da Ordem, ou seja, apoio do Exército no combate ao desmate. “Somos um governo de tolerância zero com a criminalidade, e na área ambiental não será diferente. Por essa razão, oferecemos ajuda a todos os estados da Amazônia Legal. Com relação àqueles que a aceitarem, autorizarei operação de Garantia da Lei e da Ordem, uma verdadeira GLO ambiental.”

Segundo o presidente, “o emprego de pessoal e equipamentos das Forças Armadas, auxiliares e outras agências permitirão não apenas combater as atividades ilegais como também conter o avanço de queimadas na região”.

Bolsonaro ainda disse que a Floresta Amazônica ”é parte essencial da nossa história” e que sua proteção não depende somente de ações de fiscalização, mas que é necessário “dinamismo econômico” para proporcional oportunidades de desenvolvimento para a população da região.

“A proteção da floresta é nosso dever. Estamos cientes disso e atuando para combater o desmatamento ilegal e quaisquer outras atividades criminosas que coloquem a nossa Amazônia em risco”, disse. “Para proteger a Amazônia não bastam operações de fiscalização, comando e controle. É preciso dar oportunidade a toda essa população para que se desenvolva junto com o restante do País. É nesse sentido que trabalham todos os órgãos do governo.” 

O presidente, que nesta semana chegou a sugerir que ONGs ligadas à preservação do meio ambiente estariam por trás do crescente número de queimadas, minimizou críticas ao afirmar que queimadas sempre acontecem.

“Estamos numa estação tradicionalmente quente, seca e de ventos fortes, em que todos os anos infelizmente ocorrem queimadas na região amazônica”
NELSON ALMEIDA via Getty Images
Protesto é realizado na avenida paulista. Bolsonaro fez pronunciamento no momento em que manifestação acontecia.
 
A informação, no entanto, não é verdade. Segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), não é possível atribuir as queimadas apenas à seca. Os municípios com maior índice de focos de incêndio também são os com maior índice de desmate.

Após reação das ONGs envolvidas e de líderes de governos estrangeiros, como o presidente francês, Emmanuel Macron, Bolsonaro admitiu que poderia haver envolvimento de fazendeiros nas queimadas e reconheceu que elas eram prejudiciais ao país.

Em seguida, Bolsonaro exaltou a legislação ambiental brasileira. “Somos exemplo de sustentabilidade. Temos uma lei ambiental moderna e um Código Florestal que deveria servir de modelo para o mundo inteiro.”

No pronunciamento, também Bolsonaro reafirmou estar aberto ao diálogo, mas destacou que isso precisa se dar com respeito à soberania do país.

Ao final, o presidente afirmou que não espera punições devido à atuação de seu governo na Amazônia. “Incêndios florestais existem em todo o mundo, isso não pode servir de pretexto para possíveis sanções internacionais”, disse.

Organizações Não-Governamentais (ONGs) realizam hoje, em várias cidades brasileiras, atos em defesa da Amazônia. No momento do pronunciamento do presidente, panelaços foram ouvidos em diversas cidades pelo País.

Força Nacional na Amazônia

ASSOCIATED PRESS
Focos de queimada na Amazônia aumentaram mais de 80% entre janeiro deste ano e o início deste mês.
A autorização preventiva para Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para combate aos incêndios florestais nos Estados da Amazônia Legal foi assinada na tarde desta sexta. Para entrar em vigor no estado, é preciso que cada governador apresente um pedido.

De acordo com informações do Palácio do Planalto, os nove estados da Amazônia Legal já concordaram com a GLO. No entanto, apenas Roraima assinou o pedido.

Ao sair de uma reunião com Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o governador do Estado, Antonio Denarium, confirmou que apresentou o pedido.

“Os Estados da região amazônica não têm condições hoje de fazer o combate aos incêndios florestais”, disse Denarium. “O governo federal vai colocar as tropas que estão na região e se for necessário levará mais de outras regiões.”

Essa é a primeira medida anunciada pelo governo depois das crise causada pelas informações de que os focos de queimada na Amazônia aumentaram mais de 80% entre janeiro deste ano e o início deste mês, em relação ao mesmo período do ano passado.

Atos contra política ambiental de Bolsonaro são realizados em capitais pelo Brasil

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NOTÍCIAS
23/08/2019 22:31 -03 | Atualizado 23/08/2019 22:33 -03

Atos contra política ambiental de Bolsonaro são realizados em capitais pelo Brasil

Atos aconteceram em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília; no mesmo momento, Bolsonaro fez pronunciamento na TV aberta.



SERGIO LIMA via Getty Images
Manifestantes em prol da Amazônia se reúnem em Brasília (DF), nesta sexta-feira (23).

Manifestantes lotaram as ruas de diversas capitais do País nesta sexta-feira (23) para protestar contra o desmatamento da Amazônia e chamar atenção para as política ambientais do governoJair Bolsonaro, que gerou crise internacional.

Atos foram registrados em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Curitiba. Desde o início da tarde de hoje, estudantes, ativistas e membros de ONGs fecharam a Avenida Paulista com gritos de “Fora, Salles”, contra Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, e “Bolsonaro sai, a Amazônia fica”.

Manifestação foi organizada por integrantes do grupo #AmazôniaNaRua, que contava com mais de 12 mil pessoas confirmadas em evento do Facebook. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, cerca de 5 mil pessoas iniciaram o ato. 

SERGIO LIMA via Getty Images
"Você respira dinheiro?", questiona máscara de manifestantes em Brasília.

Em Brasília, o ato reuniu cerca de 500 pessoas na Esplanada dos Ministérios. Manifestantes vestiam máscaras hospitalares como protesto (veja imagem acima) e em referência à má qualidade do ar no Brasil devido às queimadas.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), aponta que as queimadas na Amazônia aumentaram 82% de janeiro a agosto de 2019 em relação ao mesmo período de 2018, representando a maior alta em sete anos.

NELSON ALMEIDA via Getty Images
Manifestantes fecham a Avenida Paulista (sentido Consolação), na noite desta sexta-feira (23).

No Rio de Janeiro, centenas de manifestantes se reuniram na Cinelândia e caminharam até o prédio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que é gestor do Fundo Amazônia, bradando em coro “Fora, Salles”, assim como em São Paulo. Segundo o Estadão, mais de 5 mil pessoas participaram do ato, de acordo com organizadores.

Já em Curitiba, segundo a Folha, um grupo de indígenas realizou uma apresentação antes de uma caminhada que reuniu centenas de pessoas pelo Centro Cívico, na região central da cidade, onde ficam prédios do governo. 

Protestos pela Amazônia fora do País


ASSOCIATED PRESS
Manifestante segura cartaz com dizeres "elemine Bolsonaro" na Cidade do México.

Também houve protestos fora do país. Milhares de ativistas protestaram do lado de fora da embaixada do Brasil na França nesta sexta-feira, no momento que se intensificam as divergências entre os líderes dos dois países na área ambiental, e manifestações semelhantes ocorreram em Londres.

Atos também foram registrados em Paris (França), Madri (Espanha), Dublin (Irlanda), Barcelona (Espanha), Lisboa (Portugal), Berlim (Alemanha), Genebra (Suíça), Nápoles (Itália), Amsterdã (Holanda).

Na América Latina, manifestações ocorreram em Arequipa (Peru), Buenos Aires (Argentina) e Cidade do México (México).

Pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro em rede nacional


Adriano Machado / Reuters
Presidente Jair Bolsonaro fez pronunciamento na TV sobre a Amazônia nesta sexta.

No momento em que acontecem protestos pelo País em favor da Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro, na noite desta sexta-feira (22), fez pronunciamento em rede nacional, no qual disse que Brasil é “exemplo de sustentabilidade” e que terá “tolerância zero com a criminalidade” ao se referir às queimadas.

No pronunciamento, o presidente anunciou que autorizou uma operação de Garantia da Lei e da Ordem, ou seja, apoio do Exército no combate ao desmate. “Somos um governo de tolerância zero com a criminalidade, e na área ambiental não será diferente. Por essa razão, oferecemos ajuda a todos os estados da Amazônia Legal. Com relação àqueles que a aceitarem, autorizarei operação de Garantia da Lei e da Ordem, uma verdadeira GLO ambiental.”

Segundo o presidente, “o emprego de pessoal e equipamentos das Forças Armadas, auxiliares e outras agências permitirão não apenas combater as atividades ilegais como também conter o avanço de queimadas na região”.

O presidente, que nesta semana chegou a sugerir que ONGs ligadas à preservação do meio ambiente estariam por trás do crescente número de queimadas, minimizou críticas ao afirmar que queimadas sempre acontecem.

“Estamos numa estação tradicionalmente quente, seca e de ventos fortes, em que todos os anos infelizmente ocorrem queimadas na região amazônica”

A informação, no entanto, não é verdade. Segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), não é possível atribuir as queimadas à seca. Os municípios com maior índice de focos de incêndio também são os com maior índice de desmate.

Após reação das ONGs envolvidas e de líderes de governos estrangeiros, como o presidente francês, Emmanuel Macron, Bolsonaro admitiu que poderia haver envolvimento de fazendeiros nas queimadas e reconheceu que elas eram prejudiciais ao país.

Ao final, o presidente afirmou que não espera punições devido à atuação de seu governo na Amazônia. “Incêndios florestais existem em todo o mundo, isso não pode servir de pretexto para possíveis sanções internacionais”, disse.

Quando madeireiros me cercaram em Altamira, campeã de desmatamento em 2019

Quando madeireiros me cercaram em Altamira, campeã de desmatamento em 2019

Cidade no Pará já teve 297 km² de área desflorestada e é 2ª maior em focos de incêndio neste ano.




Débora Álvares/HuffPost Brasil


Altamira lidera desmatamento da Amazônia Legal em 2019.

Altamira (PA) — O maior município brasileiro é o campeão de desmatamento da Amazônia Legal em 2019. Até julho deste ano, calculam-se 297,3 km² de área desflorestada em Altamira, no Pará, de acordo com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). É a segunda cidade com maior número de focos de incêndio de 1º de janeiro a 14 de agosto deste ano: 1.630, segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia.

Foi esse o cenário onde muita fumaça e um forte cheiro de queimado marcaram meu encontro com um grupo de madeireiros neste domingo (25). Foi em Uruará, distrito rural de Altamira, a 180 km do centro da cidade.

A fumaça estava vindo de três lotes, cada um com cerca de 5.000 m². Saí do carro para tirar as fotos e, enquanto fazia os retratos dos restos de terra queimados, quatro madeireiros surgiram repentinamente. Um deles estava em uma moto.

Pareciam irritados com minha presença. Expliquei que estava procurando focos de incêndio. “Não tem fogo nessa região”, diziam todos ao mesmo tempo. Me apresentei como repórter, e eles se queixaram que “jornalistas só falam coisas ruins e erradas na TV”. “É melhor você sair daqui”, sugeriu um deles, em tom de ameaça. Nenhum quis se identificar, é claro.



Débora Álvares/HuffPost Brasil


Lote onde madeireiros cercaram repórter do HuffPost Brasil.
Mais cedo, o funcionário de um posto de gasolina no trecho urbano de Uruará havia apontado para o local daquele encontro tenso. “Ontem nós podíamos ver daqui a fumaça forte e escura”, disse Eduardo da Silva Loureiro, 28 anos. “Esse tipo de queimada é muito comum nesta região; os madeireiros estão limpando o terreno.”


Perto do distrito de Medicilândia, tive uma experiência parecida. Ao me deparar com fogo às margens da BR-230, a Trans-Amazônica, também encostei o carro para fotografar. Um homem saiu da casa, do alto do terreno, gesticulando que eu não poderia fazer as fotos. Achei mais prudente não tentar entrevistá-lo.



Débora Álvares/HuffPost Brasil



Terreno com focos de incêndio na altura do distrito de Medicilândia, às margens da BR-230.
Débora Álvares/HuffPost Brasil

Esse clima tenso no ar, misturado à fuligem, não parece ser exceção. Diferentes fontes em Altamira me relataram um recente ataque a carros do Ibama, instituto de meio ambiente, quando correu a notícia de que haveria mais inspeções nessa área ao norte de Altamira. Até uma ponte teria sido destruída por madeireiros.

Um dos problemas relatados por um fiscal do Ibama que entrevistei é o próprio acesso na região amazônica. Os trechos longos de estrada de terra na BR-230 dificultam chegar às áreas de mata onde ocorrem incêndios. Gravei um vídeo da minha rota:

https://www.youtube.com/watch?v=r642V9vxVpM#action=share

Foi aqui em Altamira, mais ao sul, que um grupo de aproximadamente 70 pessoas no WhatsApp marcou o “Dia do Fogo” no último 10 de agosto. Além de madeireiros, fazendeiros, grileiros e sindicalistas participavam do grupo, segundo a revista Globo Rural.

Eles atearam fogo de maneira coordenada na vegetação às margens da BR-163, que conecta o Pará a Mato Grosso. O fogo avançou mata adentro. A intenção do grupo, segundo a reportagem, era mostrar ao presidente Jair Bolsonaro apoio às suas políticas ambientais — e acenar para uma tentativa de revogar multas por crime ambiental.


Fogo divide moradores do Pará

A ação que a Polícia Federal vai investigar ocorreu no distrito de Cachoeira da Serra, mais ao sul de Altamira. Devido à extensão do município, moradores do norte do Pará acreditam que os incêndios exibidos na TV sejam “mentira”.
“Não tem esse fogo todo que a televisão está mostrando todos os dias. Aqui chove toda semana”, argumentou Rosana Magalhães, dona de um restaurante no distrito de Alvorada.
“É muito sensacionalismo, muita montagem. Nas imagens que a gente recebe, a Nasa até colocou a capital de Roraima no lugar errado”, disse o piloto do avião que me levou do Belém a Altamira e que preferiu não se identificar. “Tenho voado desde segunda (19) e não vi nenhum ponto de fogo sequer”, afirmou o profissional com 35 anos de aviação.

Reprodução/Google Maps
Uruará e Medicilândia ficam mais ao norte de Altamira, enquanto Cachoeira da Serra fica entre Castelo dos Sonhos e Cachimbo, ao sudoeste da cidade.

Começou a sair uma fumaça mais escura, como se fosse um vulcão em erupção.

Débora Álvares/HuffPost Brasil
Do quiosque no Ver-o-Peso, em Belém, Alda viu fumaça escura na sexta passada.

Em Belém, por outro lado, uma fumaça espessa foi vista na última sexta-feira (23). Do seu quiosque no tradicional Mercado Ver-o-Peso, onde há 20 anos vende peixe frito e açaí, Alda Figueiredo, 40, conta que nunca viu uma cena como aquela.

“Está vendo ali?”, disse, apontando para o que parece uma ilha do lado oposto da Baía do Guajará. “Começou a sair uma fumaça mais escura, como se fosse um vulcão em erupção”, descreveu-me na manhã de sábado (24), olhando para as águas tranquilas. 

Carmelita dos Passos, 70, quase 40 de mercado, também viu o céu escurecer enquanto vendia jatobás, abricós e outras frutas típicas. Ela atribui a fumaça à falta de cuidados com a floresta que lhe serve de ganha-pão há tantos anos. 

“O Bolsonaro só ontem [sexta] vai e anuncia alguma coisa. Uma vergonha essa demora. Ele acha fácil mandar gente lá pro meio da floresta? Quantos morrem lá dentro?!”, opinou. Em pronunciamento em cadeia nacional na sexta-feira à noite, o presidente anunciou o uso das Forças Armadas para combate ao fogo na Amazônia.

De acordo com o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia, a névoa que atingiu Belém na sexta foi provocada por elevada umidade relativa do ar, associada às queimadas no sudoeste do Pará e em estados vizinhos. Os ventos transportaram a fuligem, como ocorreu em São Paulo na última semana.

Em edição extra do Diário Oficial da União neste domingo (25), o presidente determinou a investigação de “ação premeditada e criminosa” em queimadas na Floresta Nacional de Altamira. Os ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e da Justiça, Sérgio Moro, tweetaram sobre a denúncia.

IX Encontro e Feira dos Povos do Cerrado

IX Encontro e Feira dos Povos do Cerrado


Realizado desde 2001, o Encontro e Feira dos Povos do Cerrado é um grande espaço de troca de experiências e articulações em defesa do Bioma e dos seus povos.
A nona edição do Encontro se constitui em um momento intenso de mobilização e integração entre diversos setores e atores interessados na defesa do Cerrado e de seus povos.
Além de ser uma grande festa pela reunião da diversidade dos povos do Cerrado, ele tem se tornado um importante instrumento de articulação e fortalecimento dos povos, além de se constituir como um meio de acessibilidade e discussão de políticas públicas e a comercialização de produtos dos Povos do Cerrado.

Pelo Cerrado Vivo:diversidades, territórios e democracia


Este será o tema da nona edição do Encontro e Feira dos Povos do Cerrado. Previsto para acontecer em Brasília na semana em que se celebra o Dia Nacional do Cerrado, o Encontro e Feira será um espaço de debates, reflexões e trocas de experiências sobre a realidade do Bioma e os desafios enfrentados pelos povos e comunidades tradicionais que habitam o Cerrado.
A expectativa é que cerca de 600 pessoas, entre representantes de povos e comunidades tradicionais, de organizações da sociedade civil e movimentos sociais se juntem na capital federal entre os dias 11 e 14 de setembro. O principal objetivo é dar voz e visibilidade ao Cerrado e aos seus povos, que são os guardiões de toda a sociobiodiversidade presente no Bioma.