Vice-presidente tem sido cobrado por uma posição mais firme do governo federal no combate às queimadas e ao desmatamento
Chegada do Vice-Presidente da República Hamilton Mourão, no Palácio do Planalto em Brasília (DF) Foto: Cláudio Marques / Futura Press
O vice-presidente e coordenador do Conselho Nacional da Amazônia Legal, Hamilton Mourão, defendeu um novo modelo de desenvolvimento para a região amazônica que seja baseado em pesquisa e inovação. Mourão tem sido cobrado por uma posição mais firme do governo federal no combate às queimadas e ao desmatamento.
Na última semana, o Ministério do Meio Ambiente anunciou que iria suspender ações de combate ao desmatamento e queimadas florestais a partir desta segunda-feira, 31, por falta de verbas.
No entanto, na última sexta, 28, o governou recuou da decisão. Menos de três horas após o anúncio, o ministro Ricardo Salles informou que os recursos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes (ICMbio), que cuida de unidades de conservação, não seriam mais bloqueados este ano.
Em evento promovido pela TV BandNews, Mourão disse que o Brasil está comprometido com a sustentabilidade e a superação do modelo extrativista predatório na Amazônia. “Somos um País sustentável, temos todas as características disso, não somos predadores”, afirmou.
Segundo Mourão a região enfrenta uma série de problemas, entre eles: os ilícitos ambientais, o baixo desenvolvimento socioeconômico, a regularização fundiária, a infraestrutura deficiente, entre outros. “Falta água no mundo, 20% da água doce do mundo está na Amazônia”, disse. “Nós vamos vender água. Temos de nos preparar para isso. Os empresários têm de começar a olhar isso”.
Relações internacionais
Mourão disse ser necessário também resgatar a vocação econômico-comercial do Mercosul. “Nesse contexto de acirramento das tensões de disputa entre grandes potências qual a visão do Brasil? O pragmatismo e a flexibilidade”, disse.
Após reações, Meio Ambiente recua e manterá operações na Amazônia e Pantanal
Incêndio no Amazonas; desmatamento na Amazônia já é 34% maior este ano, na comparação com o passado
A sexta-feira (28/8) foi de recuos no governo federal e de sustos entre ambientalistas após o Ministério do Meio Ambiente anunciar, à tarde, que operações contra o desmatamento e queimadas na Amazônia e no Pantanal estariam suspensas a partir de segunda (31/8) por conta de um bloqueio de R$ 60 milhões na pasta, por ordem do setor econômico do Planalto.
Os alvos do corte foram o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio; bloqueio de R$ 39,7 milhões) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama; bloqueio de R$ 20,9 milhões), sob determinação, segundo nota do ministério, da Secretaria de Governo e da Casa Civil da Presidência.
Por volta das 20h, o Ministério do Meio Ambiente publicou uma atualização da nota, afirmando que “na tarde de hoje (sexta) houve o desbloqueio financeiro dos recursos do IBAMA e ICMBIO e que, portanto, as operações de combate ao desmatamento ilegal e às queimadas prosseguirão normalmente”.
Antes da atualização, declarações do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e do vice-presidente, Hamilton Mourão, mostraram a dissonância dentro do próprio governo sobre o assunto.
No início da noite, Mourão afirmou a jornalistas que Salles havia “se precipitado” a respeito da suspensão das operações — e que elas continuariam, já que o governo estava buscando recursos para permitir a continuidade das operações na Amazônia e Pantanal. O vice-presidente assumiu mais fortemente, nos últimos meses, o protagonismo em ações ambientais do governo, como a criação do Conselho Nacional da Amazônia.
Depois da fala de Mourão, Salles deu entrevista ao jornal O Globo afirmando que o vice-presidente só garantiu a verba após o ministério se posicionar sobre o bloqueio: “Já estava bloqueado e eles desbloquearam agora. Mas não vou ficar discutindo com o vice-presidente, que respeito muito. Eles desbloquearam depois da nota (do ministério).”
Entre as idas e vindas do Planalto, ambientalistas e políticos ouvidos pela BBC News Brasil mostraram grande preocupação com o anúncio, que teria potencial para gerar uma repercussão mundial. E, além disso, os entrevistados apontaram como o bloqueio demonstrava a desorganização do governo na área ambiental — tanto em questões orçamentárias quanto de agenda.
O anúncio da interrupção pelo MMA veio em um momento crítico para os dois biomas. Segundo dados de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), neste ano houve alta de 34% no desmatamento da Amazônia (comparando o período de agosto de 2018 a julho de 2019, versus agosto de 2019 a julho de 2020).
Ainda de acordo com dados do Inpe, no Pantanal, entre o início de janeiro e o dia 12 de agosto deste ano, houve alta de 242% no número de focos de incêndio em comparação com o mesmo período do ano anterior. De janeiro a julho deste ano, foram registrados 4.218 focos de incêndio em todo o Pantanal. Nos mesmos meses em 2019, foram 1.475 registros.
“Me parece que o anúncio reflete uma situação real de orçamento muito difícil, por muitos anos, e em particular neste devido à covid-19. Esse orçamento não está sendo disponibilizado para as ações de fiscalização e o MMA quer, de certo modo, se isentar da relativa ineficiência de se combater as queimadas e desmatamento. É como se livrar da responsabilidade e colocar a responsabilidade na área orçamentária do governo federal”, disse à BBC News Brasil o climatologista Carlos Nobre, ex-presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.
Especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama, Suely Araújo afirmou que o anúncio parecia “um teatro para militarizar de vez a fiscalização na Amazônia e, ao mesmo tempo, usar orçamento como desculpa falsa para se isentar de responsabilidade pela explosão do desmatamento e das queimadas”.
“Os recursos bloqueados são pequenos demais para fazer diferença no caixa governamental. Se têm dinheiro para a GLO (operações de Garantia da Lei e da Ordem, executadas pelas Forças Armadas), que custa R$ 60 milhões por mês e traz poucos resultados, podem assegurar financeiro para o Ibama e o ICMBio trabalharem”, avalia.
“O Ibama só gastou 25% dos recursos que tinha para fiscalização até agora. A autarquia tem dinheiro para o pagamento dos contratos de locação de helicópteros e caminhonetes pelo projeto Profisc 1-B do Fundo Amazônia – não precisa de autorização da Fazenda, é só executar. Ainda tem R$ 62,9 milhões de financeiro do Fundo Amazônia para usar até abril de 2021. O Ibama também possui recursos disponíveis dos R$ 50 milhões que entraram pela decisão do STF sobre a Lava-Jato, para serem aplicados na fiscalização do desmatamento e no combate ao fogo. Desse total, só usou R$ 13,7 milhões até agora.”
A ONG WWF-Brasil também divulgou nota destacando que há verbas previstas para o Ibama não executadas.
“Um dado que chama a atenção é que o Ibama gastou até dia 30 de julho apenas 19% dos recursos orçamentários deste ano previstos para prevenção e controle de incêndios florestais.”
“(O anúncio) reforça a mensagem que vem sido emitida pelo governo federal de que o crime não será punido, e, portanto, compensa”, completa a nota.
Bombeiro apaga incêndio no Pantanal; bioma já tem recorde de queimadas neste ano
O engenheiro agrônomo Luis Fernando Guedes Pinto, do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), também considerou o anúncio destoante de compromissos recentes do governo na área ambiental.
“É uma enorme contradição. O Ministério do Meio Ambiente cria uma nova estrutura, uma secretaria da Amazônia, uma área das mudanças climáticas, mas não executa o orçamento do Ibama; investe um dinheiro enorme em operações militares; e o que a gente encontra é um aumento do desmatamento.”
Presidente da Frente Parlamentar Ambientalista, Rodrigo Agostinho (PSB-SP) disse que o anúncio poderia configurar até mesmo um crime de responsabilidade de representantes do governo federal.
“É uma total falta de sensibilidade do Ministério da Economia e uma total inabilidade (do Ministério do Meio Ambiente) em soltar uma nota como essa”, avaliou deputado, dizendo que o governo deveria ter se esforçado antes para remanejar verbas dentro do orçamento, garantindo a sustentação financeira às operações.
“É um escândalo de dimensões internacionais, para mim configura crime de responsabilidade.”
“O combate ao desmatamento já vinha sendo feito de forma precária, muito aquém do necessário”, completou o parlamentar.
Diretor do Instituto SOS Pantanal, Felipe Dias afirma que brigadistas e aeronaves dos órgãos federais são fundamentais para o combate aos incêndios no bioma do Centro-Oeste, que normalmente acontecem nesta época do ano — mas que em 2020 estão ainda mais preocupantes.
A nota do ministério anunciou a interrupção de atividades envolvendo 1.346 brigadistas e 4 helicópteros usados no combate ao incêndio pelo Ibama em todo o país; além de 459 brigadistas e 10 aeronaves Air Tractor do ICMBio.
Dias explica que, diferente da Amazônia, a maioria da área do Pantanal é ocupada por propriedades privadas, então o uso de queimadas ilegais com a finalidade de desmatar não é tão comum. Mas, este ano, o bioma está vivendo um “evento crítico climático”
“Os brigadistas costumam atuar entre julho, agosto e setembro, quando há maior risco de fogo. Este ano, no entanto, fevereiro já começou alto (em incêndios). Estamos vivendo uma alteração climática crítica, com uma baixa inundação (de cursos d’água) como só ocorreu há 47 anos, e mudanças na precipitação. Nesse ano, lugares que deveriam ter água estão com o solo trincando”, diz, apontando que pouca chuva, altas temperaturas e vegetação seca estão se combinando para que o fogo, que pode até acontecer naturalmente no Pantanal, saia totalmente de controle neste ano.
“Dentro da contingência, de limitação de recursos humanos, equipamentos e maquinaria, as operações de combate aos incêndios são bastante eficientes. Os brigadistas são muito habilitados para essa função e fazem um trabalho extremamente importante. Temos que bater palmas para eles, é um trabalho muito difícil (de combate ao fogo) e a ação deles é realmente impressionante.”
Uma das maiores mineradoras do
mundo, a Anglo American, junto com duas subsidiárias brasileiras, tem
quase 300 requerimentos de pesquisa registrados na Agência Nacional de
Mineração que incidem sobre terras indígenas na Amazônia. Os
requerimentos atingem 18 terras indígenas, algumas com a presença de
povos isolados.
O mais recente alvo da Anglo American é a TI Sawré
Muybu, no Médio Tapajós, onde vive o povo Munduruku. Cinco pedidos são
de 2017 e 2019. Com o processo parado na Funai desde 2016, os Munduruku
partiram para a autodemarcação do território e a defesa da TI por
invasores.
O presidente Jair Bolsonaro acaba de encaminhar
projeto de lei ao Congresso para autorizar a exploração em terras
indígenas. Os Munduruku rechaçam qualquer projeto em seu território e
acusam Bolsonaro de genocídio.
A Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca),
entre o Pará e o Amapá, uma das áreas mais preservadas da Amazônia,
também é alvo das empresas
Maior produtora de platina do mundo, a mineradora Anglo American,
com sede na Inglaterra e na África do Sul, tem planos para explorar
cobre, ouro, níquel e manganês em requerimentos que incidem sobre terras
indígenas na Amazônia brasileira.
Os dados obtidos pela Mongabay mostram que, além da própria
companhia, a Anglo American também utiliza para isso duas subsidiárias
brasileiras, as mineradoras Itamaracá e Tanagra. A prática torna mais
difícil que os requerimentos registrados na Agência Nacional de
Mineração (ANM) sejam relacionados diretamente com a Anglo.
Somadas, as três empresas têm 296 pedidos de pesquisa e
disponibilidade em terras indígenas (TIs) que vão de Roraima, Amapá e
Rondônia até o Pará, estado que é o principal alvo da multinacional. As
terras visadas incluem algumas com a presença de povos indígenas
isolados, como é o caso da Yanomami, em Roraima, e das Kayapó e
Tucumaque, no Pará.
Quase a totalidade dos requerimentos datam da década de 1990, quando a
regulamentação da exploração mineral em terras indígenas começou a ser
oficialmente planejada e ganhou um projeto de lei do ex-senador,
ministro e ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Romero
Jucá.
O PL 191/2020, encaminhado recentemente pelo presidente Jair Bolsonaro ao Congresso,
cumpre exatamente o que grandes mineradoras esperavam há décadas,
liberando a exploração mineral em TIs e retirando o poder de veto dos
povos indígenas.
Indígenas
Munduruku pregam placa em iniciativa de auto-demarcação da Terra
Indígena Sawré Muybu (PA), uma das visadas pela mineradora Anglo
American. Foto: Bárbara Dias/Cimi
TI Sawré Muybu, no Pará, é alvo de requerimento de 2019
O caso mais recente de requerimentos protocolizados pela própria
Anglo American é o pedido de pesquisa para minério de cobre que incide
sobre a Terra Indígena Sawré Muybu, onde vive o povo Munduruku, no Pará.
São cinco requerimentos registrados em 2017 e 2019, com autorização
de pesquisa. A movimentação mostra que a Anglo American não só continua
prospectando minérios na Amazônia como conta justamente com um marco
regulatório federal como o proposto por Bolsonaro.
A TI Sawré Muybu, localizada às margens do Rio Tapajós e próxima da
cidade de Itaituba, está com a demarcação paralisada desde 2016. Este é o
caso de centenas de terras indígenas no Brasil, que estão com o
processo de reconhecimento parado em função de pressões políticas e do
agronegócio.
No caso da Sawré, o povo Munduruku do Médio e Alto Tapajós partiu para a autodemarcação da TI, além de monitorar e proteger o território de forma autônoma, defendendo a área de invasores como madeireiros e garimpeiros.
Com o mapa do seu território em mãos, munidos de GPS e com o auxílio
de lideranças locais, os Munduruku registram as invasões e ameaças
enquanto lutam pela demarcação. Somente em 2016 os Munduruku
conquistaram a publicação do relatório circunstanciado de identificação e a delimitação da terra indígena Sawré Muybu, primeira etapa do processo demarcatório.
Além do garimpo, da exploração ilegal de madeira e do interesse de
multinacionais como a Anglo American, a TI ainda enfrenta a ameaça de
construção da hidrelétrica São Luís do Tapajós, atualmente paralisada,
que alagaria parte da terra indígena.
Questionada sobre qual seria a justificativa para o pedido de
pesquisa de minério de cobre dentro da TI Sawré Muybu e sobre como
avalia o PL 191/2020 de Jair Bolsonaro, a Anglo American optou por não
responder as perguntas da reportagem.
No total, foram enviadas dez perguntas detalhadas para a Anglo
American, colocando em questão vários pontos problemáticos que os quase
300 pedidos em TIs que a empresa tem em conjunto com as suas
subsidiárias.
Em nota, a Anglo se limitou a afirmar que “fez requerimentos de
pesquisa mineral na Amazônia com base em dados geológicos disponíveis. A
autorização para realizar esses trabalhos de pesquisa mineral será
concedida ou não pelas autoridades competentes. A Anglo American somente
executa trabalhos de pesquisa mineral em áreas devidamente
autorizadas.”
A Associação Indígena Pariri, que representa os Munduruku do Médio
Tapajós, tem sistematicamente se posicionado contra a mineração dentro
de territórios indígenas. “Vamos continuar a manifestação contra a
regulamentação da mineração em terra indígena e pela saída imediata dos
garimpeiros das nossas terras. Não vamos aceitar mais destruição. Nossos
rios estão poluídos com mercúrio, nossos peixes estão morrendo. Vamos
retomar o controle do nosso território, temos o nosso próprio governo e
todos têm que respeitar. Não vamos parar esta luta até solucionar os
nossos problemas”, afirmam.
Presente na reunião convocada pelo cacique Raoni em janeiro, os Munduruku acusaram o presidente Bolsonaro de genocídio.
“Viemos denunciar o Presidente da República do Brasil, Jair Messias
Bolsonaro, por estar cometendo e incentivando o genocídio, etnocídio e
ecocídio. Estamos aqui para dizer que esse presidente está nos matando
cada vez mais, tirando nossos direitos que estão escritos na
Constituição Federal de 1988. Bolsonaro incentiva a nossa morte por meio
da mineração, grileiros (que contratam pistoleiros para nos matar)
hidrelétricas, ferrovia (Ferrogrão) e arrendamento das Terras
Indígenas”, declaram.
Indígenas Munduruku expulsam invasores da TI Sawré Muybu (PA). Foto: Povo Munduruku/divulgação
Desistências podem ser retomadas
Os dados mostram que a Anglo American, em conjunto com as
subsidiárias Tanagra e Itamaracá, desistiu em 2015 de 111 requerimentos
de pesquisa para explorar ouro, níquel e cobre, com destaque absoluto
para o ouro, em diversas terras indígenas. A prevalência de
requerimentos vai para as TIs Trincheira Bacajá, no Pará, Igarapé
Lourdes e Sete de Setembro, em Rondônia.
Segundo a Agência Nacional de Mineração, no entanto, quando uma
empresa desiste de um requerimento mineral, a área é novamente aberta
para disponibilidade e a mesma empresa pode participar da disputa
novamente, caso deseje. “Todos os interessados podem participar do
processo de Disponibilidade, inclusive a empresa que apresentou a
desistência, que vai participar do processo de Disponibilidade de igual
para igual com os outros pretendentes”, afirmou a ANM em resposta à
reportagem.
Questionada, a Anglo American confirmou a desistência dos pedidos
citados, que representam pouco mais de um terço do total, mas não
respondeu se pretende participar novamente da Disponibilidade para as
mesmas áreas no futuro.
“A empresa realizou uma revisão de seu portfólio e desistiu de todos
os requerimentos em áreas de pesquisa em terras indígenas até 2015.
Requerimentos de pesquisa vigentes que porventura margeiem terras
indígenas podem apresentar blocos com interferências nesses territórios.
Nesses casos, cabe à Agência Nacional de Mineração (ANM) demarcar
corretamente os blocos fora das áreas ou reservas indígenas”, afirmou a
Anglo American.
Esse é o caso de três requerimentos da Itamaracá para explorar ouro
em TIs de Rondônia, bloqueados em 2018 em função da Ação Civil Pública
n.º 3392-26.2005.4.01.4100/RO. Os requerimentos incidem sobre as TIs
Sete de Setembro, Zoró e buffer de 10 km da TI Roosevelt, do povo indígena Cinta Larga.
Na ação, o Ministério Público Federal afirma que “a posição dúbia do
DNPM (atual Agência Nacional de Mineração) tem incentivado a especulação
sobre as terras indígenas povo Cinta Larga e contribuído para a
perpetuação da violência contra a comunidade. (…) O conflito é
decorrente das consequências da mineração nessas áreas com a inevitável
degradação do meio ambiente e isto tem um efeito devastador para as
populações indígenas tais como o assoreamento e contaminação de rios e
igarapés por mercúrio, transmissão de doenças, como tuberculose, gripe,
lepra e mudança de hábitos tradicionais da comunidade”.
Mapa com os processos minerários existentes na Renca. Imagem: ISA
Renca também é alvo de Bolsonaro
As mineradoras Tanagra e Itamaracá têm 27 requerimentos de pesquisa
de ouro dentro da Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), entre o
Pará e o Amapá, uma das áreas mais preservadas da Amazônia. Todos os
requerimentos estão sobre a TI Rio Paru D’Este, parte da reserva.
Os pedidos foram bloqueados em 2017 após a abertura da área para a exploração pelo ex-presidente Michel Temer, que foi obrigado a recuar após enorme repercussão internacional contra a medida.
Criada em 1984, no fim da ditadura militar, a Renca é uma área visada
há décadas pela mineração. Além do PL encaminhado ao Congresso, Jair
Bolsonaro, um entusiasta do pensamento e da prática da ditadura no caso
dos povos indígenas e da Amazônia, já afirmou diversas vezes que pretende abrir novamente a Renca para exploração.
A área, uma floresta preservada de 46.450 quilômetros quadrados,
equivalente à metade do tamanho de um país como Portugal, passou a ser
alvo de revisão desde o início da gestão Bolsonaro.
A Renca tem cinco áreas protegidas, sendo duas terras indígenas e
três unidades de conservação de proteção integral. De acordo com estudos
da WWF, cerca de 30% da Renca poderia ser minerada. Ouro, ferro,
fosfato, titânio, manganês, nióbio, fósforo e tântalo são os minerais
alvo da cobiça de grandes empresas, que podem ter em breve a autorização
oficial para explorar com a aprovação do PL 191/2020 e a possível
extinção ou diminuição drástica da área da Renca.
A Anglo American não respondeu se os acionistas da empresa ao redor
do mundo estão cientes dos quase 300 requerimentos minerários que
incidem sobre terras indígenas e dos planos de pesquisa e exploração da
empresa na Amazônia.
Imagem do banner: extração de minério de ferro em jazida da Anglo American em Minas Gerais. Foto: Anglo American/divulgação
Em reunião ontem (15/07), no Palácio do Itamaraty, em Brasília, que reuniu o vice-presidente, Hamilton Mourão, coordenador do Conselho da Amazônia Legal,
e os ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e da Agricultura,
Tereza Cristina, o governo anunciou que as operações de Garantia da Lei e
da Ordem (GLO), realizadas pelas Forças Armadas, para combater o desmatamento na Amazônia serão prorrogadas até dezembro de 2022.
“A operação é uma medida urgente, mas não é um esforço isolado. Temos
o planejamento para manter a GLO, se necessário, até o final do atual
mandado presidencial. As ações estão sendo ampliadas para evitar as
queimadas durante o verão amazônico, que já começou e se estende até
setembro”, afirmou Mourão.
Recentemente, o vice-presidente disse que esse ano o Brasil deve ter
alta no desmatamento, em comparação ao ano passado. Segundo ele, as
operações das Forças Armadas na região amazônica deveriam ter se
iniciado antes, no começo de 2020.
Os esforços do governo para tentar colocar panos quentes sobre o
crescimento nas taxas de desmatamento da floresta acontecem depois que
várias entidades empresarias, investidores e companhias do Brasil e do
exterior demonstraram preocupação, publicamente, com o assunto, e
ameaçaram retirar seus investimentos do país, caso medidas urgentes não
sejam tomadas (leia mais abaixo).
Batizadas de “Operação Verde Brasil”, as ações foram
estabelecidas através de um decreto, e foram iniciadas em agosto do ano
passado, quando incêndios florestais estavam devastando a Amazônia, sem
controle, e o assunto ganhou as manchetes internacionais.
Este ano, a Operação Verde Brasil começou em maio. Todavia, conforme mostramos nesta outra reportagem, o custo aos cofres públicos dos dois meses da operação da GLO em 2019 foi de quase R$ 125 milhões.
Para se ter uma ideia de quão alto é este valor, o orçamento anual do Ibama para o trabalho de fiscalização no Brasil inteiro é de R$ 70 milhões.
“Apesar da presença das Forças Armadas na Amazônia, houve crescimento
de 12% no desmatamento no mês de maio, em relação ao mesmo período do
ano passado, segundo os alertas do Inpe”, afirma Márcio Astrini,
secretário-executivo do Observatório do Clima, rede de organizações da
sociedade civil, que atua para o progresso do diálogo, das políticas
públicas e processos de tomada de decisão sobre mudanças climáticas no
país e globalmente.
“As operações das Forças Armadas servem como um remédio para baixar a
febre, mas não vão acabar com a doença, que fica cada vez mais forte
com os discursos do governo”, completa Astrini.
Outros especialistas concordam que a ação das Forças Armadas na
Amazônia deveria ser uma medida paliativa e que somente a implementação
de políticas públicas realmente eficazes, e discutidas com todos os
setores da sociedade envolvidos na questão, conseguirão reduzir a
devastação da floresta.
O Exército não foi treinado para isso e nem possui as ferramentas de
inteligência para planejar medidas que funcionem a longo prazo.
Desmonte dos órgãos ambientais
Durante a coletiva em Brasília, Hamilton Mourão afirmou que o governo
precisa planejar a recuperação da capacidade operacional dos órgãos de
fiscalização.
“Eles perderam pessoal por aposentadoria, estão com seus efetivos
reduzidos. Nós precisamos aumentar a capacidade deles de modo a que
liberemos as Forças Armadas do emprego constante em atividades as quais
elas não estão, não é a atividade precípua delas”, admitiu.Mourão fala
em “recuperação dos órgãos de fiscalização” mas o que aconteceu desde
que Bolsonaro assumiu a presidência foi justamente o sucateamento de
órgãos como Ibama e ICMBio. Servidores públicos relatam um cotidiano
diário de trabalho em que sofrem com perseguições, censura e
exonerações, conforme mostra esta matéria exclusiva produzida pelo Conexão Planeta.
Em maio desse ano, foram exonerados dois chefes de fiscalização do Ibama,
no Pará, responsáveis por operações contra garimpos ilegais em terras
indígenas. Houve ainda a reestruturação do ICMBio, com a nomeação de
vários policiais militares para cargos de chefias – entre eles o próprio
presidente da instituição, que já havia assumido em 2019.
Desmatamento coloca em risco a economia brasileira
Nas últimas semanas, o governo de Jair Bolsonaro recebeu uma série de
alertas, escritos e verbais, em relação à ineficácia do Brasil para
conter o desmatamento, o que já tem gerado sanções comerciais a empresas que atuam no país.
A produtora norueguesa de salmão Grieg Seafood, uma das maiores do
mundo em seu setor, suspendeu a compra de produtos ligados ao
desmatamento brasileiro (leia mais aqui).
Antes disso, empresários do próprio Brasil cobraram ações do governo e alertaram sobre a péssima imagem do governo Bolsonaro no exterior.
Em carta, CEOs de companhias como Natura, Ambev, Bradesco, Itaú e
Klabin, apontaram potencial prejuízo para a economia brasileira, já tão
impactada pela pandemia da COVID-19, caso medidas urgentes não sejam
implementadas na área socioambiental.
Jornalista,
já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo
da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e
2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras,
entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta
Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas,
energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em
Londres, vive agora em Washington D.C.
Nos últimos dois anos, a seca tem atingido
gravemente boa parte do Brasil. As regiões Centro-Oeste, Sul e uma parte
do Sudeste, incluindo o estado de São Paulo, apresentam chuvas abaixo
da média histórica, aponta Boletim de impactos em Áreas Estratégicas para o Brasil do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, divulgado em junho.
Este é um fenômeno que começou ficar mais evidente em 2012. “A seca
começou no Nordeste e durou quase sete anos de forma muito severa”, diz a
pesquisadora Adriana Cuartas, do Cemaden. “Depois, em 2014, o abastecimento de água na área metropolitana de São Paulo ficou
em condições críticas. Agora, as preocupações estão voltadas para o
Sul, onde há quase dois anos as chuvas estão abaixo da média”.
O cientista Antonio Nobre, autor do relatório O Futuro Climático da Amazônia, é enfático. “A América do Sul está secando devido aos efeitos combinados do desmatamento e das mudanças climáticas”.
A falta de chuvas impacta de imediato a agricultura. A seguir, vem o abastecimento de água e a geração de energia. Diversos reservatórios de usinas hidrelétricas vêm sofrendo com baixos níveis de armazenamento – Itaipu,
a segunda maior hidrelétrica do mundo, entre eles. “A água que vem dos
rios para o reservatório está abaixo do mínimo já registrado desde 1993.
É uma situação bem crítica”, alerta Adriana. “A bacia do Itaipu não é
usada só para a geração de energia, mas também para abastecimento.”
Recentes chuvas no Sul podem trazer alívio
temporário para a agricultura, mas as condições hídricas demoram a
voltar ao normal. “Seria preciso chover vários meses na média, ou acima
dela, para o sistema hídrico começar a se recuperar e voltar aos níveis
esperados”, ressalta Adriana.
O agronegócio vem sofrendo prejuízos decorrentes da seca, mas também é causador das alterações do regime hídrico. O desmatamento na Amazônia,
voltado para pecuária, agricultura e exploração madeireira, impacta na
diminuição de chuvas no Brasil e em outros países da América Latina. Com
o desmatamento crescente na Amazônia, o agronegócio e a geração de energia podem entrar em colapso no Brasil.
A Floresta Amazônica funciona como um sistema de refrigeração.
Uma árvore robusta, com seus 20 metros de copa, bombeia por volta de
1.100 litros de água para a atmosfera em um único dia. Essas massas de
ar com o vapor da transpiração da floresta, os chamados “rios voadores”, transportam umidade da Bacia Amazônica
até o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, e países vizinhos. Com
menos árvores na floresta, há menos umidade no ar. E ela seca.
Grandes
concentrações de umidade se formam na Amazônia e regulam o sistema de
chuvas em boa parte do Brasil. O desmatamento na floresta altera a
circulação dos chamados “rios voadores” Foto: Eduardo Amorim/CC BY-NC-ND.
Colheita prejudicada
Com o déficit de chuvas em toda a região Sul, os prejuízos chegaram à lavoura, afetando a safra de verão 2019/20. O Paraná enfrenta a maior estiagem da história desde que o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) começou a monitorar as condições do tempo, em 1997.
Relatório do Departamento de Economia Rural (Deral)
do Governo do Estado do Paraná mostra perdas na produção de milho e
feijão, além de prejuízos no abastecimento de água. Alguns municípios
entraram em estado de emergência.
Em Santa Catarina, a produção de soja, feijão e milho foram afetadas. No Rio Grande do Sul, a safra de grãos teve
volume 28,7% inferior ao total colhido na mesma época do ano passado. A
seca afeta a qualidade dos grãos e, com o tamanho e peso muito fora do
padrão, a colheita não compensa.
O problema se estende ao milho,
com perda de 32% na produção. Em certas regiões, o grão foi destinado à
alimentação bovina, com rendimentos bem mais baixos. O plantio da nova
safra de arroz também foi prejudicado: exige uso abundante de água e a
falta de chuvas prejudicou a reposição dos mananciais.
Além de provocar significativas perdas para o plantio em larga
escala, as secas no Sul afetam o pequeno produtor, não habituado a
condições extremas de falta de chuvas. “O Nordeste, de alguma forma, já tem uma prática com condições de seca e estratégias de adaptação social, como as cisternas. A seca no Sul faz com que a grande produção agrícola seja afetada e isso causa prejuízos econômicos. Quando a seca afeta a agricultura familiar, há ainda o impacto social”, diz Ana Paula Cunha, pesquisadora do Cemaden.
As áreas que têm sofrido sucessivas e agravadas secas são justamente áreas irrigadas pelos “rios voadores”. Sem a umidade que vem da Amazônia, as regiões brasileiras com maior infraestrutura produtiva teriam provavelmente clima bastante hostil.
“Interessa para a agricultura a coluna do meio, ou seja, o equilíbrio, a regulação climática, em que os extremos de falta ou excesso sejam moderados”, explica Nobre. “E, nessa moderação, nenhuma tecnologia consegue competir com as múltiplas capacidades das florestas de promover e regular um clima amigável, seguro e produtivo“.
Foto (destaque): Marcello Casal Jr./Agência Brasil(seca no reservatório de Sobradinho, no norte da Bahia)
O governo federal planeja escavar e dragar milhões de metros cúbicos
de rochas e areia do leito de um dos mais importantes rios da Bacia Amazônica para ampliar a Hidrovia do Araguaia-Tocantins. O projeto aprofundará o Tocantins para permitir o transporte rápido de soja e minérios para a China e a Europa.
Além de ameaçar a subsistência de populações ribeirinhas, com implosão de áreas de pesca, a obra vai afetar praias fluviais onde tartarugas amazônicas depositam seus ovos. O boto-do-araguaia (Inia araguaiaensis), uma espécie ameaçada, também sofrerá o impacto da hidrovia, assim como espécies endêmicas de peixe.
A meta do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes
(DNIT) é implodir e dragar um trecho total de 212 quilômetros do Rio
Tocantins. A obra representará o derrocamento de 35 quilômetros de rochas de um trecho do Pedral do Lourenço, uma paisagem de importância histórica e biológica nessa região do Pará.
A bacia do Araguaia-Tocantins é a segunda maior do Brasil, com cerca
de 3 mil quilômetros de “potencial navegável”, de acordo com o DNIT. Na
estação seca, segundo o departamento, as rochas do Pedral do Lourenço
são um “impedimento” ao tráfego de barcaças.
A empresa contratada para realizar a obra, a DTA Engenharia,
de São Paulo (e sua parceira O’Martin Serviços e Locações Ltda.), diz
que precisará remover 986.541 metros cúbicos de rocha ao longo de dois
anos e meio – a previsão hoje é de início em 2021. Além disso, a DTA
precisará dragar uma extensão de 177 quilômetros, escavando quase 6
milhões de metros cúbicos de areia e despejando o material nas praias
onde as tartarugas desovam.
O Rio Araguaia nasce perto de Brasília, atravessa o Cerrado e
segue para o norte em direção à Amazônia, onde deságua no Rio Tocantins
pouco antes de Marabá, já no Pará. O rio então corre para o norte,
passando pelo Pedral do Lourenço e pelas eclusas da barragem de Tucuruí
até chegar ao porto industrial de Vila do Conde, perto de Belém, a 155
quilômetros do Oceano Atlântico. Para o DNIT, o porto da capital
paraense tem uma “localização privilegiada”. Além de soja e milho, a
hidrovia industrial transportaria para mercados estrangeiros petróleo,
combustível, caminhões e produtos de mineração.
A
obra impactará 212 quilômetros de extensão do Rio Tocantins, entre
Marabá e o reservatório de Tucuruí, e incluirá o derrocamento do Pedral
do Lourenço, habitat de peixes endêmicos. Mapa: DNIT.
Tartarugas, botos e peixes sob ameaça
Em comunidades como Vila Belém, Praia Alta, Vila Redonda, Santo
Antonino, Cajazeiras e Vila Tauiri, os ribeirinhos estão diante de um
horizonte assustador. O Rio Tocantins é seu meio de transporte, sua
fonte de renda e sua identidade. Mas as obras da hidrovia irão
dinamitar, dragar, escavar o leito para construir portos industriais.
Depois, o tráfego de barcaças limitará a pesca a uma faixa de 100 a 145
metros da largura do rio.
Antes de dinamitar cada trecho, a DTA Engenharia pretende disparar um
tiro de alerta, que, alega a empresa, fará os peixes nadarem para
longe. Para os pescadores, porém, o ruído alto vai paralisar os peixes,
que depois fugirão para águas mais profundas no Pedral do Lourenço – e
não para longe – para ali encontrar o seu fim.
O biólogo Alberto Akama, do Museu Paraense Emilio Goeldi,
diz que os pescadores estão certos: os peixes que habitam as
corredeiras não evoluíram para fugir, como a DTA acredita. “Ao
contrário, os peixes entrarão mais fundo nas cavidades da rocha. É assim
que se protegem. Então [a empresa] dinamitará as rochas, e todos os
peixes morrerão.”
Para reduzir os custos da obra, a DTA planeja ainda despejar 5,6
milhões de metros cúbicos de areia do leito do rio nas praias onde
tartarugas amazônicas depositam dezenas de milhares de ovos – em vez de
transportar a areia para outro lugar.
Essa operação poderá ser o fim de um bem-sucedido programa de manejo
feito pelas comunidades. Desde julho de 2017, pescadores colaboram com
pesquisadores para coletar ovos de tartaruga, criar os filhotes e depois
soltá-los. A barragem de Tucuruí, rio acima, formou um reservatório que
inundou e eliminou os locais de desova, transformando as praias do
Pedral do Lourenço num habitat crucial para a tracajá (Podocnemis unifilis) e a tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa).
Um
boto-do-araguaia salta no Rio Tocantins perto do Pedral do Lourenço. A
hidrovia poderá reduzir ainda mais a restrita população da espécie.
Foto: Ernanes Coimbro.
Outra espécie emblemática da região e vulnerável ao projeto é o
boto-do-araguaia. Em 2014, Mariana Paschoalini Frias, pesquisadora do
Instituto Aquilie, ajudou a Fundação Omacha e o Instituto Mamirauá em
uma pesquisa populacional no trecho de 500 quilômetros da futura
hidrovia entre Marabá e Belém. O estudo, publicado em abril, revelou que restam ali apenas 1.083 botos-do-araguaia.
A população reduzida provavelmente se deve às sete grandes
hidrelétricas da bacia. E a hidrovia poderá diminuir ainda mais o número
de botos. Para Mariana, a intervenção provocará uma alteração enorme
nos sedimentos do rio. “Haverá muito barulho e movimento intenso de
navios. A diversidade e a abundância de peixes será afetada. Como
resultado, os botos perderão seu habitat e a disponibilidade de
alimentos”, explica a bióloga.
Peixes também estão ameaçados. Com as obras de dragagem, alerta
Cristiane Cunha, bióloga da Universidade Federal do Sul e Sudeste do
Pará que conduziu anos de estudos com os pescadores de Tauiry, os peixes
cascudos da família Loricariidae, que se alimentam de algas e detritos no fundo do rio, serão especialmente afetados.
“Os engenheiros alegam que vão dragar apenas uma vez e depois essa
fase terminará”, diz Alberto Akama, “mas não é assim que esses rios
funcionam”. Como os rios assoreiam com o tempo, explica o biólogo, a DTA
“terá que dragar continuamente”, e isso certamente exterminará muitos
dos peixes do rio.
Além disso, a empresa planeja depositar o material dinamitado na
parte mais funda do rio – mais um problema, aponta o biólogo. “Há peixes
que vivem em águas profundas. Se você joga rochas lá, tornando-o mais
raso, isso acaba com o habitat dessas espécies.”
Para Alberto Akama, o projeto da hidrovia “provavelmente exterminará todos esses peixes”.
Estudos de impacto ambiental: erros e omissões
Em setembro de 2019, ao divulgar um relatório de análise das milhares
de páginas dos estudos de impacto ambiental enviados pela DTA
Engenharia, o Ibama foi taxativo: o trabalho da equipe de analistas da
empresa não está baseado em metodologia científica corrente.
A DTA realizou coletas de animais para avaliar os possíveis impactos
da obra. Mas o Ibama concluiu que o estudo da empresa foi superficial e
usou métodos incompletos que não refletem as práticas atuais de coleta
científica nem são adequados aos peixes que habitam o Tocantins.
Houve erro na identificação de mais de uma dúzia de espécies. Vários
peixes em perigo foram rotulados com o nome de não ameaçados. Quatorze
espécies ameaçadas que sabidamente vivem na região não foram mencionadas
nos estudos de coleta da DTA. Em vez disso, a empresa identificou
dezenas de peixes que nem sequer vivem na bacia.
Além de tudo, nem o DNIT nem a DTA estudaram os impactos da hidrovia
depois que ela entrar em operação – entre eles, a construção de portos
de carga e os impactos diários do tráfego de barcaças.
O Pedral do Lourenço, que no total tem 43 quilômetros de labirintos
pedregosos, constitui um ecossistema especializado no qual se reproduzem
peixes, andorinhas e lagartos, entre outros animais. Contudo, o Ibama
observa que não houve uma coleta específica de amostras ou um estudo
sobre o local – uma omissão por parte da companhia contratada para
demolir as rochas.
As tartarugas poderão sofrer os maiores impactos da hidrovia, mas a
DTA estudou apenas a pequena área adjacente à futura sede do projeto,
deixando de pesquisar o habitat dos quelônios ao longo dos 212
quilômetros onde a dinamitação e a dragagem vão ocorrer.
O Ibama ordenou que a DTA refaça as coletas de peixes e conduza um
novo estudo no Pedral do Lourenço. “Foi uma vitória, porque postergamos o
projeto”, conclui Ronaldo Barros Macena, presidente da Associação da
Comunidade Ribeirinha Extrativista da Vila Tauiri. Mesmo assim, os
pescadores do Pedral do Lourenço temem que o governo ainda assim destrua
o viveiro rochoso de peixes com o qual suas histórias de vida estão
entrelaçadas.
Em
fevereiro, os moradores de Vila Tauiri soltaram 5.300 filhotes de
tartaruga no Rio Tocantins. O programa de conservação é uma colaboração
entre os pesquisadores e moradores, que resgatam os ovos das praias do
rio, cuidam deles por 30 dias e depois soltam os filhotes das tartaruga.
É um modelo de programa de conservação que ajudou a recuperar a
população de quelônios no lugar. Foto: Associação da Comunidade
Ribeirinha Extrativista da Vila Tauiri.
Projetos anteriores de infraestrutura na Amazônia explicam o trauma. “Há o risco de [a área] se tornar outra Belo Monte”,
diz Cristiano Silva de Bento, doutorando e pesquisador em Antropologia e
Sociologia na Universidade Federal do Pará, com possível colapso das
populações de peixes e impactos devastadores sobre as comunidades tradicionais.
Os pescadores lembram com aflição de outra hidrelétrica da região. Em
1984, a usina de Tucuruí desabrigou ribeirinhos que não foram nem
sequer indenizados. Peixes, tartarugas e castanheiras desapareceram. Os
moradores alegam que os pagamentos que a operadora do projeto, a
Eletronorte, faz em reparação por Tucuruí vão para as prefeituras e não
chegam às comunidades, que continuam sem coleta de lixo, saneamento
básico, ônibus, estradas pavimentadas, postos de saúde ou poços
adequados.
No caso da nova hidrovia, havia uma demanda dos pescadores para serem consultados sobre o projeto, como é exigido pela Convenção C169 da
Organização Internacional do Trabalho. Mas o Ibama negou, alegando que,
diferentemente de quilombolas e indígenas, não há um protocolo no caso
para os pescadores tradicionais.
O Ministério Público Estadual do Pará interveio e exigiu que Ibama,
DNIT e DTA realizem a consulta formal aos ribeirinhos, observando a
importância deles para a conservação dos ecossistemas onde residem.
Apesar da nova determinação, o líder comunitário Ronaldo Barros Macena
reclama do governo: “Eles nunca nos consultaram. Passaram por nós como
um rolo compressor”.
Pescador navega ao raiar do dia no Rio Tocantins perto do Pedral do Lourenço. Foto: Tiffany Higgins.
DTA é criticada por falta de conhecimento técnico
Em 2016, o DNIT contratou a
DTA Engenharia para desenvolver a hidrovia sem nenhuma avaliação
ambiental preliminar – o que, de acordo com Brent Millikan, da ONG
International Rivers, não é uma exigência para a construção de
hidrovias, apesar do seu potencial de afetar comunidades humanas, a
flora e a fauna. A DTA conseguiu o contrato porque apresentou o
orçamento mais baixo entre as cinco concorrentes, um valor inferior até
mesmo às projeções de custo do DNIT.
A Constran, que ficou em segundo lugar no processo de licitação,
questionou a capacidade da DTA de realizar um projeto tão grande e
complexo. E registrou que a empresa parceira da DTA, a O’Martin, acumulava uma dívida de R$ 4,2 milhões até 2014.
Contatada pela Mongabay, a DTA diz estar contratualmente proibida de
dar entrevistas. Por isso, todas as informações desta reportagem vieram
do DNIT.
Em email de janeiro, o DNIT diz que não vai descontratar a DTA neste
ou em futuros projetos, já que cada processo de licitação é
individualizado. Regis Fontana Pinto, do Ibama, acredita que um veto à
hidrovia é improvável, já que o governo federal considera o projeto
prioritário e “necessário”.
Enquanto isso, os ribeirinhos da região do Pedral do Lourenço
aguardam os novos estudos e o desdobramento do caso – e esperam que,
dessa vez, possam ser atores em sua própria história.
*Atualizado às 21h30
Não bastassem os aumentos nas taxas de destruição da floresta na
Amazônia e os incêndios que vem destruindo há semanas a vegetação do
Pantanal e matando centenas de animais, o Ministério do Meio Ambiente divulgou há pouco, uma nota em seu site, em que informa que, devido a um bloqueio financeiro efetivado pela Secretaria de Orçamento Federal, todas as operações de combate ao desmatamento na região amazônica e às queimadas no Pantanal e demais regiões do Brasil serão suspensas a partir de segunda-feira (31/08).
Ainda segundo a informação do Ministério do Meio Ambiente, “o
bloqueio atual de cerca de R$ 60 milhões para o Ibama e o ICMBio foi
decidido pela Secretaria de Governo e pela Casa Civil da Presidência da
República e vem a se somar à redução de outros R$ 120 milhões já
previstos como corte do orçamento na área de meio ambiente para o
exercício de 2021”.
A nota afirma que nas atividades do Ibama relativas ao combate ao
desmatamento ilegal serão desmobilizados 77 fiscais, 48 viaturas e 2
helicópteros. Já nas operações de combate ao desmatamento ilegal
realizadas pelo ICMBio serão desmobilizados 324 fiscais, além de 459
brigadistas e 10 aeronaves Air Tractor que atuam no combate às
queimadas.
Não há nenhuma menção, entretanto, sobre as operações realizadas na
Amazônia sob o comando do vice-presidente, Hamilton Mourão, com as
tropas das Forças Armadas, as chamadas “Operações Verde Brasil”, que têm
um custo exorbitante aos cofres públicos (leia mais aqui).
“É uma situação difícil de acreditar mesmo vindo deste governo.
Parece muito mais uma desculpa orçamentária do governo para realizar seu
sonho e daqueles que destróem os biomas no Brasil para parar a
fiscalização e deixar a Amazônia e o Pantanal entregues definitivamente
ao crime”, diz Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do
Clima. “É muito grave porque é o flagrante de um descumprimento da
Constituição, uma vez que o governo e o Estado têm o dever de cuidar e
zelar pelo patrimônio ambiental dos brasileiros e abandonar a
fiscalização é abrir mão de cumprir a Constituição, ainda mais em um
momento extremamente crítico para essas regiões”.
A organização WWF-Brasil também emitiu uma nota sobre o corte nas verbas dos órgãos ambientais. “Neste momento em que os índices de desmatamento e queimadas na
Amazônia aumentam, assim como número de focos de fogo batem recorde no
Pantanal, o WWF-Brasil vem a público se manifestar contra o absurdo
cancelamento de todas as operações de combate ao desmatamento ilegal na
Amazônia Legal, bem como todas as operações de combate às queimadas no
Pantanal e demais regiões do país…
Os números trazem a urgência de deter essas ilegalidades e
evidenciam a contradição de o órgão anunciar que as operações serão
todas paralisadas – o que reforça a mensagem que vem sido emitida pelo
governo federal de que o crime não será punido, e, portanto, compensa…
É preciso lembrar que o Ministério do Meio Ambiente tem como
dever fazer cumprir a legislação que protege o meio ambiente? Um dado
que chama a atenção é que o Ibama gastou até dia 30 de julho apenas 19%
dos recursos orçamentários deste ano previstos para prevenção e controle
de incêndios florestais“.
Sucateamento e desmonte de órgãos ambientais
Uma grande e triste ironia é que hoje o ICMBio “comemora” 13 anos de
criação. Mas desde o começo do governo de Jair Bolsonaro e de seu
ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ter assumido a pasta, assim
como o Ibama, o órgão tem sofrido com ataques, corte no orçamento e
desmonte.
Responsável por administrar as 334 Unidades de Conservação do país, o
ICMBio está sendo sucateado: há redução de pessoal e de coordenações
regionais e nomeações de pessoas não capacitadas para cuidar do meio
ambiente e da biodiversidade do Brasil.
Em entrevistas exclusivas com servidores obtidas pelo Conexão
Planeta, eles relatam que a “lei da mordaça” está em vigor e que não há
mais nenhuma forma de diálogo. Analistas lamentam anos de esforços
perdidos. “A destruição ocorre da maneira mais perversa: acabando com a
instituição por dentro”, desabafam (saiba mais nesta outra reportagem).
Na semana passada, o presidente do instituto foi exonerado e até agora, ainda não há indicação de novo nome para o cargo.
———————————————————————————— *No final do dia, em conversa com jornalistas, o vice-presidente
Hamilton Mourão disse que o ministro Ricardo Salles, se precipitou em
anunciar o bloqueio das verbas e afirmou que o dinheiro está disponível.
Às 19h54, o Ministério do Meio Ambiente atualizou sua página e
informou que “na tarde de hoje houve o desbloqueio financeiro dos
recursos do IBAMA e ICMBIO e que, portanto, as operações de combate ao
desmatamento ilegal e às queimadas prosseguirão normalmente”.
Jornalista,
já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo
da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e
2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras,
entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta
Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas,
energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em
Londres, vive agora em Washington D.C.