Em meados de junho, como contei nesta outra reportagem, uma tartaruga-verde(Chelonia mydas) foiencontrada perto da Beira Mar de São José, na divisa de Florianópolis, em Santa Catarina. O animal, que estava bastante debilitado, foi levado pela organização R3 Animal para a sede do Projeto Tamar na região.
A tartaruga era um indivíduo juvenil e apresentava um lesão linear na base da nadadeira anterior direita, compatível com ferimento causado por rede de emalhe. Além disso, por diversos dias seguidos, o animal defecou uma grande quantidade de plástico: fios de nylon, barbantes e um pedaço de uma tampa de garrafa PET. Suspeitava-se ainda que, por ter ficado presa na rede de pesca, poderia ter se afogado e engolido água, o que poderia causar uma pneumonia.
“Por causa dos resíduos plásticos, o animal ficou em observação até que todos eles fossem eliminados nas fezes, pois existe o risco de obstrução intestinal por corpo estranho e a necessidade de intervenção clínica ou cirúrgica”, explica Joyce Bitencourt, veterinária do Tamar.
Mas felizmente a tartaruga reagiu bem ao tratamento e esta semana chegou a hora de devolvê-la ao mar. Há dois dias o animal foi levado para uma praia e solto na beira da água.
“A soltura é um dos momentos mais marcantes para quem trabalha com resgate e reabilitação de animais marinhos. Saber que aquela vida salva poderá retornar saudável à natureza é um sentimento de missão cumprida”, celebrou a equipe da R3 Animal.
Moradores locais acompanham o momento do retorno da tartaruga ao mar
Como já tinha escrito no meu texto anterior, casos como esses ocorridos em Santa Catarina – dois entre os milhões que acontecem todo os dias no planeta -, são mais um alerta de como são urgentes ações para proteger nossos oceanos e reduzir a produção da indústria de plástico.
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*Caso você aviste um mamífero, ave ou tartaruga marinha debilitada ou morta na praia, no Paraná, Santa Catarina ou São Paulo, ligue para o Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), no telefone 0800 642 3341. No Rio de Janeiro o número é 0800 9995151. Sua ajuda é fundamental para salvar vidas!
A frase acima inspirou o encontro organizado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), no último sábado, 30 de julho, no qual foi exibido o documentário Pisar Suavemente na Terra. Temos falamos dele, aqui no site, desde setembro do ano passado.
Esta foi uma exibição muito especial dedicada aos povos indígenas durante a 11º Fórum Social Pan-Amazônico (Fospa). Além disso, os últimos detalhes do filme ainda estão sendo finalizados, mas o convite era irresistível, como revelou o diretor, Marcos Colón, que não cabia em si de felicidade no final do dia. “Foi apoteótico. As pessoas aplaudiram de pé por mais de 20 minutos!”.
O evento contou com as presenças da cacica Katia Akrãntikatêgê e de José Manuyama (dois dos personagens principais do filme) e do pensador e líder indígena Ailton Krenak (foto acima), que também participa da obra, abrindo caminhos.
Para registrar este momento tão emocionante, reproduzimos a seguir o texto publicado pelo site da revista Amazônia Latitude, produtora do documentário. Em setembro, Pisar Suavemente na Terra inicia sua trajetória de exibições em festivais internacionais de cinema; a estreia para o público deve acontecer antes do final do ano, a confirmar. Mônica Nunes, editora do Conexão Planeta
Sob aplausos calorosos, Krenak, Bruno, Katia, Marcos e Pepe após ‘pisarem’ suavemente nos corações da plateia
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Por Andreza Costa Dias* para Amazônia Latitude**
Em 30 de julho, no Auditório Benedito Nunes da Universidade Federal do Pará (UFPA), a amplitude da diversidade de povos da Pan-Amazônia estava representada na casa cheia e assentos lotados por pessoas de todos os lugares do país.
O título do encontro se originou de uma fala do ativista e autor Ailton Krenak, que inspirou o título do documentário:
“O futuro é ancestral e a humanidade precisa aprender com ele a pisar suavemente na terra”
Foto: Anderson Barbosa
A exibição especial ‘arrecadou’ sorrisos, comentários, aplausos e, acima de tudo, identificação. O evento contou com a presença ilustre dos protagonistas das histórias contadas, além do diretor do filme, Marcos Colón e, do roteirista Bruno Malheiros, geógrafo da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).
O processo de produção durou três anos, devido à interrupção provocada pela pandemia do coronavírus. Mas, mesmo com tantos imprevistos, o filme manteve sua essência, transmitindo, com uma linguagem universal, o sentimento da resistência.
Resistência Indígena: histórias entrelaçadas pela luta
No contexto de séculos de atividades predatórias como o desmatamento, o garimpo e projetos de desenvolvimento econômico que visam a ocupação de terras indígenas, encontra-se a cacica Katia Akrãntikatêgê, de Marabá, no Pará, que luta num território tomado pela exploração de minérios e outros empreendimentos.
Logo após o encontro,Krenak, a cacica Katia e Pepe, em foto de Marcos Colón
Katia e seu povo vieram das montanhas de Tucuruí, expulsos por fazendeiros. Segundo ela, por conta disso, traz resistência consigo – assim como seu pai, Payaré.
“Contamos histórias de países e cidades diferentes. Mas elas são muito parecidas e, portanto, têm o mesmo impacto. Espero que esse filme venha rodar o mundo inteiro e impactar as pessoas, para que consigam entender a nossa história, a história com “H” maiúsculo, história de realidade do que vivemos”, diz ela.
José Manuyama, indígena Kukama da Amazônia peruana, lida diariamente com a contaminação dos rios. Pepe, como é carinhosamente chamado, fala emocionado sobre sua história de luta.
“Não podemos nos sentir tristes porque somos parte de algo grande que une a todos. Por isso, somos uma pedra no sapato”.
A terra não precisa de mais desenvolvimento! Desenvolvimento este que progride com a destruição, produz guerras e mata gente. O documentário nasce, diante deste contexto, como um alerta:
“Pisar suavemente na Terra é uma poética que veio de um lugar onde rios e paisagens estão assoladas por fome e miséria, projetadas pelo capitalismo”, alerta Krenak.
“Aquilo ali não é onde não deu certo, é onde deu certo. Dá errado quando é preciso nos encontrar no meio do caminho”. E ainda declara: “Somos boas pedras no caminho das grandes corporações”.
Foto: Marcos Colón
A narrativa é um despertar de vozes anoitecidas pela barbárie do capitalismo.
“O sistema monetário na Amazônia sempre foi uma guerra. Com a pandemia, se intensificou”, diz Malheiros. Em 2021, no ápice da pandemia, a mineradora Vale reportou um lucro recorde de R$ 121,2 bilhões.
Essas vozes sugerem que a floresta tem relação direta com a diversidade étnica e ideológica, semeada por inúmeros povos. Se existe alguma tecnologia viável, não são os aparatos tecnológicos. São justamente esses povos que construíram a tecnologia, e ainda conseguem manter a Amazônia de pé.
“O que fazemos com o cinema ou com uma câmera, é só despertar essa técnica ancestral que talvez indique algum caminho”, destaca Bruno. A segurança está no futuro ancestral – e é tudo que temos agora.
A “sociedade ideal” está distante. Sem dúvidas, não é antropocêntrica. Deve nascer da relação da relação homem-natureza – portanto, seria biocêntrica.
A cultura predatória das corporações, que comem a Terra, traz riscos para o todo: o planeta não precisa de mais desenvolvimento e progresso! O amplifica a voz dos povos originários, que ensinam a enxergar – e voltar – ao futuro ancestral com aquilo que deu certo.
“O que leva esse povo a resistir, após 500 anos, é a alegria”, conclui o produtor e diretor Marcos Colón. Hoje, se faz necessário saudar a ancestralidade e pisar suavemente na Terra.
_______ * Andreza Costa Dias é estudante de Comunicação Social – Jornalismo pela UFPA, repórter no Projeto de Extensão Academia Amazônia da UFPA e responsável pela divulgação cientifica de produtos da universidade. Também estagia como social media do Geamaz – Grupo de Estudos em Educação Ambiental na Amazônia, da UFPA.
Poucos seres do mundo animal são tão estudados quanto os pássaros, dada à facilidade com que o os cientistas têm em observá-los. Com mais de 100 mil espécies descritas pela ciência, as aves são consideradas o mais diverso grupo de vertebrados do planeta. E sua história evolucionária começou a 150 milhões de ano, quando eles se separaram dos dinossauros para iniciar sua própria linhagem.
Todavia, em maio deste ano, o relatório State of the World’s Birds alertou que 48% de todas as espécies de aves do planeta apresentam declínio de suas populações, ou seja, mais de 5 mil espécies estão em risco de extinção. O monitoramento indica ainda que 39% delas parecem estáveis e apenas 6% mostram indicativos positivos, com aumento de seus números (leia mais aqui).
Agora, um grupo de pesquisadores britânicos da Universidade de Sheffield e do Museu de História Natural faz um novo e preocupante alerta: a perda de espécies também levará a declínios na diversidademorfológica. Ou seja, as aves que não desaparecerem serão cada vez mais parecidas à medida que as espécies mais incomuns são levadas à extinção.
“Acreditamos que a maioria dos biomas e ecorregiões do planeta devem perder diversidade morfológica a uma taxa maior do que o previsto apenas pela perda de espécies, com as áreas mais ameaçadas estando localizadas no leste da Ásia e nas montanhas e sopés do Himalaia”, afirmam os autores do estudo.
Para realizar a pesquisa, o grupo analisou características como formato do bico, comprimento da asa e tamanho do corpo de quase 8.500 mil espécimes de aves, mantidas em coleções de museu ao redor do mundo, e seus respectivos status de conservação.
Eles descobriram então que aquelas em maior risco possuem características únicas, entre elas, as de menor e maior porte. São mencionados, por exemplo, os albatrozes e os abutres.
“A perda de traços únicos e história evolutiva também podem comprometer benefícios para a humanidade que são atualmente desconhecidos”, ressalta a bióloga Emma Hughes, principal autora do estudo.
Um dos exemplos citado, por exemplo, é como o tamanho pequeno e a forma do bico dos beija-flores permitem que esses animais bebam o néctar das plantas, enquanto os grandes corpos dos abutres permitem que eles voem enquanto caçam carcaças.
E apesar de seus portes tão distintos, ambas as aves têm um papel essencial no meio ambiente. Os beija-flores são importantes polinizadores, e os abutres contribuem para a proliferação de doenças, ao se alimentar das carcaças de outros animais, e ainda, para a ciclagem de nutrientes nos ecossistemas que habita.
“Essa homogeneização pode se tornar ainda mais pronunciada no futuro, à medida que espécies invasoras influenciam esse processo. Elas são mais propensas a serem generalistas e têm traços mais próximos da média, o que pode significar que estamos subestimando a extensão da homogeneização morfológica”, diz Emma.