sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Xingu em perigo! Estrada clandestina corta corredor ecológico, importante barreira de proteção da Amazônia

 https://conexaoplaneta.com.br/blog/xingu-em-perigo-estrada-clandestina-corta-corredor-ecologico-importante-barreira-de-protecao-da-amazonia/#fechar



Xingu em perigo! Estrada clandestina corta corredor ecológico, importante barreira de proteção da Amazônia

Por Clara Roman*

O Xingu está por um fio e corre o risco de ser devastado pela invasão ilegal de grileiros, garimpeiros e madeireiros. O monitoramento por satélite da Rede Xingu+ detectou uma estrada clandestina de 42,8 km que atravessa duas Unidades de Conservação (UC) no coração do Xingu: a Estação Ecológica (ESEC) Terra do Meio e a Floresta Estadual (FES) do Iriri.

A descoberta é grave pois, segundo especialistas, a abertura da estrada consolida a divisão do Corredor Socioambiental do Xingu, uma vasta extensão de áreas protegidas contíguas e que totalizam 53 milhões de hectares de floresta tropical. Em maio de 2022, além da estrada, 907 hectares foram desmatados na ESEC e na FES do Iriri.

A estrada ilegal tem 42,8 quilômetros de extensão e corta uma área imensa de floresta nativa. A via une duas frentes de invasão: uma saindo de Novo Progresso (PA) e outra saindo de São Félix do Xingu (PA).

As duas cidades são polos de criminalidade, com serrarias para beneficiamento da madeira ilegal e casas de compra de ouro dos garimpos ilegais. A nova estrada monitorada cria um “corredor logístico” do crime, conectando modais fluvial (barco) e rodoviário (caminhonete/caminhão).

Na imagem que abre este texto e na imagem acima, é possível ver que a estrada ilegal começa no Rio Iriri e percorre trecho de mais de 40 km, atravessando a Estação Ecológica (ESEC) Terra do Meio até a Floresta Estadual (FES) do Iriri. Ela pode causar o fim do Corredor Socioambiental do Xingu / Foto: Rede Xingu+/ISA

A conexão facilita o escoamento de produtos ilegais retirados da floresta. Por isso, estradas são vetores perigosos de desmatamento. A tendência é que, no entorno de um ramal como este, a destruição da floresta exploda. Não à toa, no último mês, 575 hectares foram derrubados na imediação dessa estrada.

A estrada clandestina segue a rota de desmatamento da Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, vizinha à Estação Ecológica. É como se a destruição generalizada da APA que, desde 2013, é a UC com maior desmatamento acumulado do país, transbordasse para a ESEC, consolidando um corredor da destruição e partindo o Xingu ao meio.

Só em maio de 2022, a APA registrou mais de 9,7 mil hectares.

Já dentro da ESEC, a estrada parte do Rio Iriri e vai até perto do território da Floresta Estadual (FES) do Iriri. Dessa forma, este canal é um vetor de pressão que sozinho incide sobre três UCs da região.

Mapa da Rede Xingu + mostra abertura de estrada ilegal no Xingu entre São Félix do Xingu e Novo Progresso, no Pará 

Se confirmada, a rachadura na floresta é a consolidação de um cenário muito próximo da divisão do corredor, resultando na perda da conectividade florestal e todos os benefícios associados.

O processo acelera o ponto de não-retorno da Amazônia, podendo provocar uma perda de 25% da cobertura nativa do bioma.

Também, aumenta o “efeito de borda”. A mata das bordas da floresta é mais frágil, ressecada e vulnerável a eventos como queimadas.

Trata-se de um caso que simboliza as consequências da atuação do governo Bolsonaro, que incentiva o avanço das atividades ilegais na Amazônia.

Hoje, o Corredor Xingu presta serviços inestimáveis ao planeta, com a proteção de rios e nascentes e a regulação do clima em nível regional e global.

Suas florestas estocam 16 bilhões de toneladas de carbono, e lançam diariamente cerca de um milhão de toneladas de água na atmosfera em forma de vapor, que formam os chamados rios voadores e levam chuvas para o resto do país.

(veja o mapa animado que detalha o avanço de estrada clandestina no Xingu) 

A estrada e o fim do Corredor do Xingu

A conectividade de um corredor, isto é, áreas de preservação contíguas e que formam grandes maciços florestais, têm funções importantes em um ecossistema. A perda de conectividade tem impacto direto em espécies aquáticas e terrestres, por exemplo, impedindo as migrações sazonais.

A ausência de conectividade também resulta no aumento dos problemas de fronteira e da instabilidade do habitat natural, podendo acarretar desastres ecológicos como, por exemplo, a desertificação e erosão de soloalterações climáticas ou a extinção de espécies.

“A conectividade desempenha um papel importante na proteção hídrica e dos solos e reduz as áreas de transição entre ambientes de floresta e não floresta. Por exemplo, sabemos que na Amazônia existem cerca de três mil espécies de coronavírus (em morcegos), e o aumento de áreas de transição entre floresta e não floresta, causada pelo desmatamento e redução da conectividade, podem aumentar o risco de novas pandemias”, explica Antonio Oviedo, pesquisador do Instituto Socioambiental (ISA).

Além disso, com a “logística” construída, casos de invasão nas Terras Indígenas e outras Unidades de Conservação da região tendem a crescer ainda mais.

As estradas interligadas dentro da floresta permitem o escoamento dos produtos da ilegalidade, impulsionando o roubo de madeira e o garimpo. Também, valoriza as terras dentro de um mercado informal e ilegal de venda de terras roubadas, abrindo caminho para a grilagem e a derrubada da floresta.

O alerta está dado: em pouco tempo, a estrada pode causar o fim do Corredor Xingu se nada for feito.

Discurso do governador não tem respaldo

Rede Xingu+ protocolou denúncia ao Ministério Público Federal (MPF) no último mês.

“É necessária uma ação rápida de comando e controle para interromper o funcionamento da estrada e impedir o avanço do desmatamento nessa região. Não estamos mais falando de uma destruição pontual, mas de uma divisão irreversível de um dos principais corredores ecológicos do mundo, cujas consequências podem se estender por anos”, afirma Biviany Rojas, pesquisadora do ISA.

No caso da FES do Iriri, o crescimento da estrada é um alerta para a inação estadual. O governador do Pará, Helder Barbalho (MDB-PA), tem se apresentado como um político conectado às causas do meio ambiente. Ele participou de conferências na área e captou dinheiro de cooperação internacional para o cumprimento de metas climáticas.

No entanto, o discurso não tem respaldo na atuação em campo, como mostra o crescimento da destruição da FES do Iriri. A inação do governo federal em reprimir os ilícitos nas UCs Federais tem se repetido no contexto do governo do Estado do Pará.

Para além de uma operação pontual de fiscalização, a situação exige ações permanentes e de longo prazo, que não só retirem os invasores como impeçam que eles voltem a entrar nessas áreas. Caso contrário, em pouco tempo, a devastação nessa região pode estar consolidada.

Contexto e histórico de denúncias

A destruição da ESEC já vinha acontecendo em um ritmo crescente. Em 2021, o monitoramento da Rede Xingu+ detectou 2.309 hectares de floresta derrubada, o que representa um aumento de 122% em relação a 2020. Além disso, é conhecida a existência de atividade garimpeira ilegal, com a reativação de garimpos antigos e de pistas de pouso ilegais no meio da floresta.

Desde 2018, a Rede Xingu+ vem denunciando aos órgãos estaduais — Ministério Público Estadual (MPE), Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (SEMAS/PA) e Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-Bio) — a ocorrência de novos e grandes polígonos de desmatamento na APA Triunfo do Xingu, inclusive indicando possíveis envolvidos, sem ter obtido qualquer resposta institucional satisfatória.

Apesar de ter sido criada em 2006, a APA Triunfo do Xingu ainda não dispõe de Plano de Manejo, Uso e Zoneamento, o que exemplifica a falta de gestão da UC. Por isso, a Rede Xingu+ solicitou às autoridades estaduais a implementação dos instrumentos de gestão, além do estabelecimento de uma zona de amortecimento no entorno da unidade, de forma a resguardar as áreas protegidas do entorno.

O total descontrole fundiário e ambiental da APA Triunfo do Xingu vem resultando em invasões e crimes ambientais nas áreas protegidas localizadas em seu entorno: FES do Iriri, ESEC Terra do Meio, Parque Nacional Serra do Pardo Terra Indígena Baú.

O desmatamento na ESEC Terra do Meio está majoritariamente concentrado ao longo das estradas e vicinais ilegais, todas advindas da APA Triunfo do Xingu.

Mesmo os polígonos de desmatamento mais isolados estão relacionados às estradas ilegais, uma vez que garantem o acesso a áreas remotas e de floresta densa. Além das invasões e do desmatamento, o caos fundiário e ambiental da APA Triunfo do Xingu também impacta a qualidade dos cursos d’água da ESEC.
__________________________

*Este texto foi originalmente publicado no site do ISA – Instituto Socioambiental em 24/8/2022 e adaptado/editado por Mônica Nunes para publicação aqui, no Conexão Planeta.

Imagens: Rede Xingu+

Após viagem ao Pantanal pra conhecer de perto projeto de conservação, Richarlison adota onça-pintada

 https://conexaoplaneta.com.br/blog/apos-viagem-ao-pantanal-pra-conhecer-de-perto-projeto-de-conservacao-richarlison-adota-onca-pintada/


Após viagem ao Pantanal pra conhecer de perto projeto de conservação, Richarlison adota onça-pintada

Após viagem ao Pantanal pra conhecer de perto projeto de conservação, Richarlison adota onça-pintada

Apesar de ser considerado um dos maiores jogadores brasileiros de futebol da atualidade e ter sido comprado pelo time inglês Tottenham pelo valor de 60 milhões de libras (cerca de R$ 380 milhões), Richarlison não esquece de seu começo de vida humilde em Nova Venécia, no Espírito Santo, onde nasceu. Sempre que pode volta à cidade e no seu tempo livre aproveita para descansar fazendo atividades simples, como passear de barco no rio com os primos mais novos.

Aos 25 anos, Richarlison tem se destacado não apenas pelo seu enorme talento em campo, mas por usar sua voz para chamar a atenção dos brasileiros sobre assuntos importantes. Com 5,8 milhões de seguidores no Instagram, 4 milhões no Facebook e mais de 500 mil tanto no Twitter como no Tiktok, ele tem plena consciência de que, como uma figura pública, também possui um papel social.

No passado, o jogador já usou suas redes sociais para falar sobre racismo, política, eleições, desigualdade social e durante toda a pandemia da covid defendeu a ciência, a vacinação e o uso de máscaras.

Quando incêndios devastadores queimaram 30% do Pantanal em 2020, Richarlison também se pronunciou. Cobrou medidas mais eficientes de combate ao fogo. O atleta tinha visitado a região um ano antes.

Agora em 2022, novamente Richarlison esteve por lá. Durante uma rápida viagem, foi conhecer de perto o trabalho do Onçafari, que ao aliar ecoturismo e pesquisa científica, trabalha pela preservação da onça-pintada, o maior felino das Américas (não por acaso, a Nike é patrocinadora da Seleção Brasileira de Futebol e a nova camisa da equipe é inspirada na onça).

“Além de aprender sobre a inspiração da nossa nova camisa da seleção, a experiência foi tão massa que resolvi adotar simbolicamente uma onça que vai se chamar Acerola. O Acerola continuará vivendo lá com outras onças e animais, de forma livre, mas também monitorado pela ONG como parte de um estudo para entender melhor o comportamento da espécie e ajudar a preservá-la. Espero voltar em breve ao Pantanal e dar um salve pro Acerola”, escreveu o atacante em suas redes sociais.

Richarlison decidiu batizar a onça que avistou de Acerola por causa do personagem interpretado pelo ator Douglas Silva, no seriado “Cidade dos Homens”, que tem como tema a vida de dois adolescentes numa comunidade carente do Rio de Janeiro. Em casa, o jogador tem dois cães, que se chamam Acerola e Laranjinha.

Após viagem ao Pantanal pra conhecer de perto projeto de conservação, Richarlison adota onça-pintada

O jogador ficou encantado porque conseguiu ver não apenas uma,
mas duas onças-pintadas na natureza

O Conexão Planeta fez uma breve entrevista com Richarlison sobre sua viagem ao Pantanal, que você confere a seguir:

Essa foi tua primeira visita ao Pantanal? Quais tuas impressões de lá? E por que você decidiu visitar?
Na verdade, eu já tinha visitado antes, em 2019. Tinha ido passar uns dias por lá, fiquei numa aldeia e até joguei bola com os índios. Daquela vez fui com meus amigos e achei um lugar fantástico. Agora tive a oportunidade de voltar e, apesar de ter sido rápido, foi uma experiência muito legal.

O que mais te impressionou no Pantanal?
Difícil escolher só uma coisa, mas acho que como funciona a natureza, os animais, enfim. É muito impressionante como as coisas precisam estar em sintonia pra que todas as espécies estejam bem e para que elas sobrevivam. Por isso a necessidade de preservarmos.

No passado, você já tinha usado tuas redes sociais para chamar a atenção sobre o bioma, na época dos incêndios. Você acha importante atletas e celebridades usarem sua voz para falar sobre problemas ambientais e sociais?
Acho que nós temos audiência, temos uma representatividade e é importante usar isso para falar de coisas que façam realmente a diferença para as pessoas. Eu tenho usado as minhas redes sociais e minhas aparições na mídia pra alertar as pessoas de alguns problemas e acho que é importante, sim. Mas a pessoa precisa se sentir confortável com isso e não se incomodar com os ‘haters’, porque isso tem aos montes.

Você conseguiu afinal avistar um onça-pintada?
Consegui, sim! Ficamos rodando quase duas horas até que conseguimos encontrar com uma. Um pouco depois ainda encontramos uma outra, que estava deitada numa árvore toda esticada, se escondendo do sol. Foi muito legal, é um animal muito imponente e ainda mais bonito quando a gente vê de perto.

Estudo associa glifosato, agrotóxico mais usado no mundo, a convulsões em animais

 https://conexaoplaneta.com.br/blog/estudo-associa-glifosato-agrotoxico-mais-usado-no-mundo-a-convulsoes-em-animais/#fechar











Estudo associa glifosato, agrotóxico mais usado no mundo, a convulsões em animais

Estudo associa glifosato, agrotóxico mais usado no mundo, a convulsões em animais

glifosato é o principal ingrediente ativo de diversos pesticidas e herbicidas, entre eles, o Roundup, fabricado pela multinacional Monsanto/Bayer, que nos últimos anos respondeu nos tribunais americanos a uma série de processos de pacientes com câncer, que afirmam terem desenvolvido a doença devido ao uso do agrotóxico.

Registrado em 130 países, o glifosato tem sua utilização aprovada para mais de 100 cultivos diferentes. Todavia, em um relatório publicado em 2015, a Organização Mundial de Saúde (OMS) afirmou que ele pode provocar câncer em animais tratados em laboratório e é um potencial causador de alterações na estrutura do DNA e cromossomos das células humanas.

Atualmente, vestígios desse agrotóxico podem ser encontrados em praticamente todos os alimentos e bebidas que ingerimos. Desde cereais consumidos por crianças no café da manhã até cervejas e vinhos.

Mas apesar disso, em 2019, ano em que a Alemanha aprovou a proibição do seu uso, no Brasil a Anvisa decidiu deixar de considerá-lo “extremamente tóxico”.

E há poucos dias, um novo estudo conduzido por pesquisadores de duas universidades dos Estados Unidos, a Florida Atlantic University e a Nova Southeastern University, associou a presença do herbicida Roundup com convulsão em animais.

Os resultados publicados num artigo científico na Scientific Reports revelaram que o glifosato e o Roundup aumentaram o comportamento de convulsão em lombrigas que vivem no solo, evidência de que eles afetam os receptores GABA-A, pontos de comunicação essenciais para a locomoção e regulação do sono e do humor em humanos.

“A concentração listada para obter melhores resultados no rótulo do Roundup Super Concentrate é de 0,98% de glifosato, cerca de 5 colheres do produto em 1 litro de água. Mas nosso estudo mostra que apenas 0,002% de glifosato, uma diferença de cerca de 300 vezes menos herbicida do que a concentração mais baixa recomendada para uso do consumidor teve efeitos preocupantes no sistema nervoso”, afirma Akshay Naraine, pesquisador da Florida Atlantic University e principal autora do artigo.

Para os cientistas, essa nova evidência sobre os efeitos maléficos da exposição contínua e do acúmulo do glifosato no corpo de animais reforça ainda mais a certeza de que o agrotóxico pode ser o causador de doenças neurodegenerativas, como o Parkinson.

“É preocupante o quão pouco entendemos sobre o impacto do glifosato no sistema nervoso. Mais evidências estão aumentando de quão prevalente é a exposição a ele, então com este trabalho esperamos que outros pesquisadores expandam essas descobertas e solidifiquem onde nossas preocupações deveriam estar”, diz Naraine.

“Dado o quão difundido é o uso desses produtos, devemos descobrir o máximo que pudermos sobre os potenciais impactos negativos que podem existir. Houve estudos feitos no passado que mostraram os perigos potenciais e nosso estudo vai um passo adiante com alguns resultados bastante dramáticos”, completa Ken Dawson-Scully, vice-presidente sênior e reitor associado da Divisão de Pesquisa e Desenvolvimento Econômico da Nova Southeastern University.

Leia também:
A água da torneira tem produtos químicos – como agrotóxicos e resíduos da indústria – e radioativos em 763 cidades pelo Brasil
‘PL do Veneno’ é aprovado: 301 deputados decidem colocar mais agrotóxicos no seu prato. Assine a petição!
Floresta envenenada: fazendeiros jogam agrotóxicos sobre Amazônia para acelerar desmatamento e abrir espaço para a soja e o gado
Estudo inédito 
identifica agrotóxicos em produtos ultraprocessados como cereais matinais, bolachas água e sal, bisnaguinhas…

Foto: domínio público/pixabay

Um dos cientistas mais influentes do mundo, brasileiro Tulio de Oliveira assina carta de pesquisadores que pedem mudança urgente no nome da varíola “dos macacos”

https://conexaoplaneta.com.br/blog/um-dos-cientistas-mais-influentes-do-mundo-brasileiro-tulio-de-oliveira-assina-carta-de-pesquisadores-que-pedem-mudanca-urgente-no-nome-da-variola-dos-macacos/#fechar


Um dos cientistas mais influentes do mundo, brasileiro Tulio de Oliveira assina carta de pesquisadores que pedem mudança urgente no nome da varíola “dos macacos”

Um dos cientistas mais influentes do mundo, brasileiro Tulio de Oliveira assina carta de pesquisadores que pedem mudança urgente no nome da varíola "dos macacos"

No começo de agosto diversos macacos e saguis foram encontrados com sinais de intoxicação e de agressão em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Vários morreram e os demais foram levados para o zoológico municipal para tratamento, conforme a jornalista Mônica Nunes contou nesta outra reportagem. A suspeita é que os animais foram atacados pela ignorância de pessoas que acreditavam que eles pudessem ser transmissores da chamada varíola “dos macacos”.

São milhares de casos no mundo inteiro da doença, que ressurgiu nos últimos meses. Esse tipo de varíola recebeu esse nome porque o vírus causador foi identificado (MPXV), nos anos 50, em macacos de laboratório. No entanto, sua transmissão acontece apenas entre humanos, quando uma pessoa entra em contato com lesões na pele, secreções ou objetos usados por alguém infectado.

Nas últimas semanas vários especialistas da área de saúde dos mais diferentes países pediram que a Organização Mundial de Saúde (OMS) renomeie a doença. A entidade internacional afirmou que está analisando a solicitação, mas até o momento nada foi anunciado.

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Primatologia divulgou uma nota de alerta em maio, em que esclarece mais sobre a transmissão da Monkeypox, nome em inglês. “É importante ressaltar que os macacos (primatas não-humanos) não são os “vilões”, e sim vítimas como nós (humanos), e não devem sofrer nenhuma retaliação, tais como agressões, mortes, afugentamento, ou quaisquer tipos de maus-tratos por parte da população”, diz um trecho do texto.

Numa carta aberta à OMS, dezenas de cientistas das mais renomadas instituições e centros de pesquisa globais pedem a mudança urgente da nomenclatura da doença não apenas para proteger os macacos, mas para evitar ainda mais discriminação e estigma contra a África. Entre os que assinam o documento está o brasileiro Tulio Oliveira, um dos maiores especialistas do mundo em surtos virais.

Oliveira esteve envolvido não apenas em uma, mas duas das descobertas mais importantes sobre o SARS-CoV-2, vírus causador da covid-19. Ele também faz parte da equipe que identificou a variante beta. Em 2021, ele apareceu na lista da Nature daqueles que fizeram a diferença na ciência em 2021 e também, entre as 100 pessoas mais influentes do mundo eleitas pela revista TIME.

Na carta enviada à OMS, os pesquisadores também explicam, novamente, que a infecção é causada normalmente por “eventos de transbordamento” para humanos de animais como roedores, esquilos e primatas.

Após mencionar a questão da transmissão, os cientistas demonstram a grande preocupação como a mídia e a população em geral tem tratado a varíola dos “macacos”.

“A percepção predominante na mídia internacional e na literatura científica é que o MPXV é endêmico em pessoas em alguns países africanos. No entanto, está bem estabelecido que quase todos os surtos de MPXV na África antes do surto de 2022 foram resultado de transmissão de animais para humanos e raramente houve relatos de transmissões sustentadas de humano para humano”, diz a carta. “No contexto do atual surto global, a referência contínua e a nomenclatura deste vírus como sendo africano não é apenas imprecisa, mas também discriminatória e estigmatizante. A manifestação mais óbvia disso é o uso de fotos de pacientes africanos para retratar as lesões da varíola na grande mídia do norte global. Recentemente, a Associação de Imprensa Estrangeira da África emitiu um comunicado pedindo à mídia global que parasse de usar imagens de africanos para destacar o surto na Europa”.

Os especialistas destacam ainda que embora a origem do novo surto global de MPXV ainda seja desconhecida, há evidências crescentes de que o cenário mais provável é que houve uma transmissão humana entre continentes, ou seja, entre pessoas infectadas que viajaram internacionalmente.

“No entanto, há uma narrativa crescente na mídia e entre muitos cientistas que estão tentando vincular o atual surto global à África ou à África Ocidental ou à Nigéria. Além disso, o uso de rótulos geográficos para cepas de MPXV, especificamente, referências ao surto de 2022 como pertencentes ao clado, cepa ou genótipo “África Ocidental” ou “África Ocidental”. Acreditamos, portanto, que uma nomenclatura neutra, não discriminatória e não estigmatizante será mais apropriada para a comunidade global de saúde”, ressaltam os cientistas.

Fotos de abertura: Rogan Ward for Nature (Tulio de Oliveira) e NIAID/Creative Commons/Flickr (vírus)