Cientistas internacionais divulgaram nesta segunda-feira
(20) um novo relatório destacando que ambientes naturais planetários
estão na mira da crise climática. Temperaturas em alta e eventos extremos
afetam a biodiversidade, a produção de alimentos e sobretudo populações menos
protegidas. Há soluções.
A síntese da sexta bateria de avaliações climáticas do
Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) das Nações Unidas
destaca que ecossistemas naturais em terra, rios e mares estão ameaçados pela
crise que ações humanas impuseram ao clima global.
Conforme Moacyr Araújo, coordenador da Rede Clima e vice-reitor
da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), não será possível manter uma boa
saúde do clima planetário sem atentar para a conservação e recuperação de
ambientes costeiro marinhos.
“O grande pulmão do planeta é o fitoplâncton,
que captura imensas quantidades de Dióxido de Carbono (CO2) e devolve Oxigênio
(O2) para todos respirarem. Não há equilíbrio climático sem os oceanos”,
destaca o cientista. Acordos tentam limitar em 1,5ºC o aumento médio da
temperatura mundial, até 2030.
Nos territórios mundiais, a elevação mediana dos termômetros
já é de 1,1ºC em relação à era pré-industrial. Nos mares e oceanos, a média é
de 0,9ºC. Quanto mais quentes, menos capacidade esses ambientes têm de absorver
calor, mais tempestades, inundações e perdas de biodiversidade virão.
“A ampliação de temperatura acidifica os oceanos e causa
impactos como o branqueamento dos corais. Prejuízos como esses afetam toda a
cadeia alimentar em águas salgadas”, completa Araújo. Cerca de 600 milhões de
pessoas no mundo tiram seu sustento da pesca, traz a ONG Oceana.
“Espera-se que a insegurança alimentar relacionada ao clima
e a insegurança hídrica aumentem à medida que o aquecimento aumenta. Quando os
riscos são combinados com outros eventos adversos, como pandemias ou conflitos,
eles se tornam ainda mais difíceis de administrar”, descreve o IPCC.
Por isso, a situação em terra também é alarmante. Formações
naturais cuja destruição libera gigantescos estoques de Carbono seguem na mira
do desmate que, junto ao agronegócio e à geração de energia, somam mais de 90%
da contribuição nacional à crise do clima.
“Cada aumento no aquecimento se traduz em perigos que se
agravam rapidamente. Ondas de calor mais intensas, chuvas mais fortes e outros
eventos climáticos extremos exacerbam os riscos para a saúde humana e os
ecossistemas”, destaca um comunicado do IPCC.
O Observatório do Clima resumiu os principais pontos do
relatório divulgado hoje pelo IPCC. Confira
aqui.
Na contramão, neste mês a Amazônia e o Cerrado bateram
novos recordes em alertas para desmatamento, mostra o
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A vegetação natural eliminada
joga menos umidade na atmosfera, reduzindo as chuvas importantes para o
agronegócio.
Alertas de desmatamento na Amazônia
chegou a 8.590 km² em 2022. Foto: Carl de Souza/AFP
Para Araújo, da Rede Clima, o país deve recuperar o tempo
perdido nos últimos anos [governo Jair Bolsonaro] e concentrar esforços para
cortar emissões desses três setores. “Já reduzimos o desmate no passado”,
lembra. Ações interministeriais encolheram as perdas na Amazônia de 2004 a 2012.
A nova estratégia federal para combater o problema em todos
os biomas reúne 19 ministérios, conta o Ministério do Meio Ambiente.
“Também é necessário ampliar incentivos à agricultura de
baixo carbono nos financiamentos de safras e investir em fontes alternativas de
energia. Mas, não dá pra destruir Caatinga para colocar painéis solares ou
ameaçar rotas de aves migratórias [com geradores eólicos]”, destaca o
especialista.
Só nas regiões Nordeste e Norte, projetos eólicos no mar
somam 133 Gigawatts – quase 10 vezes a capacidade da hidrelétrica de Itaipu, no
Paraná. Relatório da ONG Global Energy Monitor aponta a América Latina como
liderança global em energias com menos impactos socioambientais.
Mas o espaço de tais fontes ainda é sombreado por
investimentos em fontes fósseis ou degradantes de energia, como as usinas hidrelétricas.
Amazônia e Cerrado têm juntos grande potencial inexplorado por esse modelo de
geração e podem ser alvos de projetos nos próximos anos.
Conforme Ilan Zugman, diretor da América Latina da ONG
350.org, países como Brasil e Colômbia têm potencial para liderar um modelo de
geração de energia renovável centrado nas necessidades das pessoas.
“Os governos parecem estar mais atentos às demandas das
comunidades por uma transição energética justa, mas precisam mostrar ações
concretas, como proibir o fracking [técnica para extrair gás
de xisto de grandes profundidades] e os subsídios ao petróleo e ao gás”, diz em
nota da 350.org.
Ações como essas serão fundamentais para populações mais
vulneráveis aos efeitos da crise climática. Tempestades, inundações e secas
atingem especialmente comunidades pobres ou vivendo em áreas de risco, como
margens de rios, morros e litoral.
“O que foi feito até agora [pelos países] não fez as
emissões decaírem como deveriam”, ressalta Mercedes Bustamante, presidente da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e uma dos 93
revisores do relatório hoje divulgado pelo IPCC.
Este verão foi marcado pela morte de, pelo menos, 241
pessoas devido às fortes chuvas e deslizamentos de terras no
litoral norte do estado de São Paulo. Populações de baixa renda forçadas a
viver em áreas de risco costumam ser as primeiras vítimas em episódios como
esses.
Mares e oceanos aquecidos transferem mais calor à atmosfera,
ampliando a força e quantidade desses eventos climáticos extremos.
Conforme Bustamante, soluções para as crises associadas do
clima e socioambiental passam pela adoção de um desenvolvimento socioeconômico
global “resiliente ao clima”, que reconheça a crise global e adote meios para
reduzir e enfrentar seus impactos.
“Há opções viáveis de adaptação e mitigação à crise do
clima, como reforçar políticas públicas setoriais e assegurar direitos, por
exemplo das populações indígenas [cujos territórios mantêm biodiversidade e
estoques de carbono]”, destaca a professora da Universidade de Brasília (UnB).
A lista de recomendações inclui a geração de energias limpas
e descentralizadas, reduzir o uso de combustíveis fósseis em todos os setores e
investir em transportes públicos e não poluentes, proteger populações
vulneráveis e ampliar o financiamento para economias realmente limpas.
Todavia, uma pedra no sapato são as fontes para financiar
tais ações. “Os níveis de financiamento são baixos e ofuscados pelos
investimentos em fósseis. É urgente uma ação internacional [para reverter
isso]”, pontua Paulo Artaxo, coordenador do Programa Fapesp sobre Mudanças Climáticas Globais.
“Os benefícios à saúde humana decorrentes apenas da melhoria
da qualidade do ar seriam aproximadamente iguais ou até maiores do que os
custos de reduzir ou evitar emissões. Mas um desenvolvimento resistente ao
clima torna-se cada vez mais difícil a cada aumento no aquecimento global”,
destaca o IPCC.
Este ano, os países devem revisar seu cumprimento das metas
do Acordo de Paris, fechado em 2015 para conter a poluição que amplia o
efeito estufa e aquece o planeta. Desde 1988, o IPCC informa governos,
academia, população, ongs e setor privado, para que possam agir e conter a alta
da temperatura média global.
Começa no próximo sábado, dia 25/03, o 4º Congresso
Brasileiro de Vida Silvestre. O evento trará discussões sobre a vida
silvestre de forma compacta, propositiva e democrática, num evento
técnico-científico que reúne comunidade acadêmica, técnicos, integrantes de
organizações da sociedade civil, representantes de organizações governamentais
e demais pessoas que atuam ou têm interesse na temática da vida silvestre.
Organizado pelo Instituto
Jurumi e A vida no Cerrado, o evento online está com inscrições
abertas até o dia 23/03, quinta-feira. As inscrições custam R$
50,00 para estudantes, e R$ 80,00 para profissionais. Nesta edição, apoiadores
de ((o))eco terão um desconto de 30% no valor da inscrição.
Leitores também ganham um benefício: basta digitar o código OECONOCBVS na
área de confirmação de pagamento da inscrição para garantir um desconto
de 23%!
Acordo sobre a proteção do alto mar - Direitos de autor AP Photo
PARTILHE ESTA NOTÍCIA
As Nações unidas chegaram a um acordo histórico sobre o primeiro tratado internacional para a proteção do alto mar.
"O navio chegou à costa", anunciou a presidente da conferência Rena Lee, na sede da ONU em Nova Iorque, pouco antes das 21h30 (0230 GMT domingo), para um aplauso forte e prolongado dos delegados.
O texto ainda não foi divulgado, mas o momento já foi saudado pelos ativistas que falam de um marco na história da proteção da biodiversidade, depois de mais de 15 anos de discussões.
O tratado é considerado essencial para a conservação de 30% da terra e do oceano até 2030, conforme o acordo assinado em Montreal, em dezembro.
"Este é um dia histórico para a conservação e um sinal de que, num mundo dividido, proteger a natureza e as pessoas pode triunfar sobre a geopolítica", disse Laura Meller, da Greenpeace.
Após duas semanas de intensas conversações, incluindo uma maratona noturna de sexta-feira para sábado, os delegados finalizaram um texto que agora não pode ser significativamente alterado. "Não haverá reabertura ou discussões de substância", disse Lee aos negociadores. O acordo será formalmente adotado, depois de ser examinado por advogados e traduzido para as seis línguas oficiais das Nações Unidas, anunciou Lee.
Papel crucial
O alto mar começa na fronteira das zonas económicas exclusivas, que se estendem até 200 milhas náuticas (370 quilómetros) das linhas costeiras. Assim, não ficam sob a jurisdição dos países.
Embora o alto mar abranja mais de 60% dos oceanos do mundo e quase metade da superfície do planeta, atrai muito menos atenção do que as águas costeiras e algumas espécies icónicas.
Os ecossistemas oceânicos criam metade do oxigénio que os seres humanos respiram e limitam o aquecimento global ao absorver grande parte do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas. Mas estão ameaçados pelas alterações climáticas, pela poluição e pela sobre pesca.
Apenas cerca de um por cento do alto mar está atualmente protegido.
Lucros
Os países em vias de desenvolvimento tinham lutado para não serem excluídos dos ganhos esperados da comercialização de potenciais substâncias descobertas nas águas internacionais.
Eventuais lucros são prováveis do uso farmacêutico, químico ou cosmético de substâncias marinhas recém-descobertas que não pertencem a ninguém.
Tal como em outros fóruns internacionais, nomeadamente negociações sobre o clima, o debate acabou por ser uma questão de assegurar a equidade entre o Sul global mais pobre e o Norte mais rico, observaram os observadores.
Num movimento visto como uma tentativa de criar confiança entre países ricos e pobres, a União Europeia prometeu 40 milhões de euros (42 milhões de dólares) em Nova Iorque para facilitar a ratificação do tratado e a sua rápida implementação.
A UE também anunciou 860 milhões de dólares para a investigação, monitorização e conservação dos oceanos em 2023 na conferência "Our Ocean" no Panamá, que terminou na sexta-feira.
Material transforma água residual em água potável e ainda gera eletricidade
Redação do Site Inovação Tecnológica - 24/02/2023
O material pega água suja e gera água e eletricidade limpas. [Imagem: KIST]
Água e eletricidade limpas
Pesquisadores coreanos desenvolveram um filtro que gera eletricidade ao mesmo tempo em que faz seu serviço de reter as impurezas de águas servidas.
A purificação dos recursos hídricos, seja de rios, represas ou água da chuva, ou mesmo a reciclagem da água já usada, como águas residuais e esgoto, é um processo intensivo em energia. Assim, qualquer ganho energético já seria de grande valia na redução de custos.
Mas Ji-Soo Jang, do Instituto de Ciência e Tecnologia da Coreia do Sul, queria mais, e para isso ele desenvolveu uma membrana multifuncional que gera eletricidade simultaneamente enquanto purifica águas residuais, gerando água potável.
O sistema é composto por uma membrana porosa, que filtra a água na parte inferior, e um polímero condutor, que gera eletricidade na parte superior.
Quando a água flui perpendicularmente à membrana, ela gera corrente contínua pelo movimento dos íons ao longo da direção horizontal. Nos testes de laboratório, apenas 10 µl (microlitros) de água foram suficientes para que a membrana permanecesse gerando eletricidade por mais de 3 horas - nesse teste, a membrana gerou uma potência máxima 16,44 µW e 15,16 mJ de energia.
Enquanto isso, ela reteve mais de 95% dos contaminantes de tamanhos menores que 10 nanômetros, o que é impressionante mesmo em relação às membranas de filtragem comuns, já que, operando nessas dimensões, o material consegue reter coisas como microplásticos e até partículas de metais pesados.
O sistema de geração de eletricidade é baseado em nanotubos de carbono, enquanto a purificação da água é feita por um filtro de polímero. [Imagem: KIST]
Fabricação industrial
Como a membrana pode ser fabricada por meio de um processo simples de impressão, sem restrições de tamanho, ela tem um alto potencial de comercialização devido ao baixo custo de fabricação e tempo de processamento. Na verdade, a equipe já está testando esse processo de fabricação em um ambiente industrial real, de olho em colocar seu filtro-gerador no mercado.
"Como uma nova tecnologia que pode resolver o problema de escassez de água e produzir energia ecologicamente correta simultaneamente, ela também tem grande potencial de aplicação nos sistemas de gestão da qualidade da água e em sistemas de geração de energia de emergência," escreveu a equipe.
Bibliografia:
Artigo: Bidirectional water-stream behavior on multifunctional membrane for simultaneous energy generation and water purification Autores: Ji-Soo Jang, Yunsung Lim, Hamin Shin, Jihan Kim, Tae Gwang Yun Revista: Advanced Materials DOI: 10.1002/adma.202209076
Pantanal pode perder 10 mil hectares de vegetação nativa
Fazenda quer desmatar área de vegetação nativa que equivale
a 63 vezes o tamanho do Ibirapuera (SP) para plantar pasto exótico. Objetivo é
alimentar o gado da propriedade na planície do bioma
Sessenta e três vezes o tamanho do Parque Ibirapuera (SP).
Este é o tamanho da área de vegetação nativa que o Pantanal pode perder se o
Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) aprovar um projeto
que quer suprimir mais de 10 mil hectares de vegetação nativa da Fazenda Santa
Maria para o cultivo de pastagens exóticas. Situada na planície do bioma, a propriedade
rural terá toda essa área natural convertida para alimentar o gado que pasta na
propriedade, em Corumbá (MS).
Na região, a vegetação nativa da Fazenda Santa Maria
desempenha um papel importante na conservação da avifauna. Lá, ocorrem mais de
100 espécies de aves, sendo duas delas ameaçadas segundo a lista vermelha da
IUCN, como a arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus). De mamíferos, são
23 espécies presentes na área da propriedade rural, sendo que quatro delas
também estão ameaçadas de extinção, como o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga
trydetoclita).
Entre área diretamente afetada e diretamente/indiretamente
influenciada pelo desmate, foram registradas 39 espécies de árvores na fazenda,
sendo que a maior parte delas tem potencial uso ecológico, ou seja, pode ser
utilizada como alimento ou abrigo pela fauna silvestre da região.
Todas essas informações de fauna e flora estão no Relatório
de Impacto Ambiental (Rima) do projeto de supressão, que será
apresentado na próxima quarta-feira (15), em audiência
pública convocada pelo Imasul. Mas os números de fauna apresentados no documento,
especificamente, podem ser bem maiores porque o levantamento feito neste grupo
durou apenas entre quatro e seis dias.
O tempo é considerado completamente
insuficiente para refletir uma estimativa concreta, que, segundo especialistas
consultados por ((o))eco, levaria meses.
Conforme consulta ao Rima, 12.368,76 hectares de vegetação
podem ser suprimidos ao todo na propriedade ao longo de quatro anos, caso o
projeto receba autorização ambiental do Imasul. Desse total, 1,8 mil hectares
correspondem à vegetação característica do Cerrado e 10,5 mil hectares à
vegetação nativa. Essa área nativa que seria suprimida equivale a cerca de 63
vezes o tamanho do Parque do Ibirapuera (SP), que tem 158 hectares.
Como justificativa para a supressão e a implantação de pasto
exótico na fazenda, o empreendedor cita o aumento de produtividade; plena
ocupação que o solo supostamente teria; geração de recursos financeiros ao
proprietário; mais impostos; criação de oportunidades de trabalho de forma
direta e indireta; e a “facilidade para o desmate, mecanização e formação do
pasto”.
Flora, fauna e levantamentos insuficientes
De acordo com o Rima, foram identificadas 39 espécies de
árvores como ocorrentes na área da Fazenda Santa Maria, sendo estas situadas na
parcela diretamente afetada e na parcela influenciada direta/indiretamente pelo
desmate. A maior parte dessas espécies (23) podem ser usadas como alimentação
ou abrigo pela fauna silvestre da região. Entretanto, as demais espécies
apresentam pelo menos um uso potencial, seja pela propriedade medicinal;
alimentícia para humanos; ornamental; ou valor da madeira.
O documento também apresenta 130 espécies de aves como
ocorrentes na área da propriedade rural. O número demonstra a importância da
vegetação nativa da propriedade para a conservação da avifauna da região, mas
pode ser maior porque este levantamento, em específico, durou apenas seis
dias.
Segundo especialistas consultados por ((o))eco, essa duração
torna o levantamento insuficiente. O resultado ainda contrasta com o número de
mais de 600 espécies de aves que são conhecidas na região do Pantanal. Como a
maior parte das aves da fazenda foram encontradas nas áreas que devem ser
desmatadas, o Rima diz que a principal medida a ser tomada seria a manutenção
de pequenas ilhas de mata ou cerrado em meio às pastagens, para “facilitar a
movimentação das aves pela paisagem”.
Das espécies identificadas, o Rima aponta três aves como
ameaçadas segundo a lista vermelha da IUCN: a ema (Rhea americana); o
mutum-de-penacho (Crax fasciolata); e a arara-azul (Anodorhynchus
hyacinthinus). No ano passado, porém, a ema foi listada apenas como “quase
ameaçada” por essa mesma lista. Ainda assim, o número de aves ameaçadas na
fazenda também pode ser maior, justamente porque não houve tempo suficiente
para o registro de outras espécies.
Para a arara-azul, o relatório indica a preservação de manchas
de manduvi – árvore que serve como ninho e alimento para a espécie – e a
participação no programa do Instituto Arara
Azul que produz e instala ninhos artificiais para a ave no bioma.
Arara-azul (Anodorhynchus
hyacinthinus), espécie ameaçada de extinção com ocorrência na fazenda Santa
Maria. Foto: Reprodução/Mauricio Neves Godoi/Rima
Já entre mamíferos, foram duas espécies de voadores
identificadas na área que será desmatada da Fazenda Santa Maria: o
morcego-fruteiro (Sturnira lilium) e o morcego-vampiro (Desmodus
rotundus). As espécies não estão ameaçadas de extinção, mas assim como
grande parte dos voadores podem desempenhar papéis importantes como a
polinização, dispersão de sementes e a diluição de patógenos e doenças.
O número também não demonstra a riqueza esperada para o Pantanal,
que tem em torno de 60 espécies de morcegos conhecidas. O resultado pode ter
sido influenciado pela chuva e frio intenso que a propriedade rural registrou
durante as coletas, conforme admite o próprio Rima. “Reforçamos que os
resultados obtidos nas campanhas demonstram a necessidade de um esforço
amostral maior quanto à comunidade de morcegos”.
Mas além disso, assim como ocorreu com a avifauna, também
pesa sobre o resultado insuficiente a baixíssima duração do levantamento:
apenas quatro dias. Para essa comunidade de morcegos encontrada na região, o
documento sugere a manutenção de manchas de vegetação que sirvam de fonte de
abrigo e recurso. O objetivo é mitigar o impacto da supressão para os voadores.
Entre os não voadores, o levantamento durou apenas seis dias
e apresentou 21 espécies de mamíferos na propriedade, sendo a maioria (19)
delas de grande ou médio porte. Desse total, quatro estão ameaçadas de extinção
no País: o queixada (Tayassu pecari); o lobo-guará (Chrysocyon
brachyurus); o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e a anta
(Tapirus terrestris). Novamente, o número é tido como “pífio” perto da
realidade esperada para a região, que com um levantamento criterioso deveria
ter apresentado pelo menos 70 espécies, apontam especialistas consultados por
((o))eco.
“O estudo não apresenta números sobre o tamanho das
populações destas espécies na propriedade e nem uma projeção do que restará
após a supressão da vegetação, a curto, médio e longo prazo. […] listas de
espécies, como a apresentada no Rima, não permite aferir estes números”, relata
a ((o))eco especialista que preferiu não se identificar pelo temor de
retaliações.
Esses mamíferos ameaçados enfrentam os perigos já conhecidos
da fragmentação e perda de hábitat, e que devem ser potencializadas com a
supressão da vegetação que se pretende fazer na propriedade rural, conforme
também admite o próprio Rima do projeto. “A área desmatada se constituirá em
uma barreira efetiva entre ambientes, dificultando o fluxo de espécies
terrestres arborícolas”, aponta o documento ao citar também riscos como o
aumento do atropelamento de animais e da caça, que pode ser provocado pela
exposição da fauna com o desmate da vegetação.
Para tentar mitigar esse impacto, o Rima recomenda que para
esses mamíferos também sejam mantidos corredores florestais que possam
interligar as “sobras” de floresta; a instalação de placas; realização de
palestras instrutivas; instrução dos operários; e proibição da caça na fazenda.
“Antes da atividade de supressão começar, deve ser realizado o afugentamento da
fauna. O desmate deve seguir uma única direção de derrubada, preferencialmente
no sentido da Reserva Legal, com o intuito de possibilitar a fuga da fauna para
esta área”, ainda acrescenta o documento.
O Programa de Monitoramento e Acompanhamento dos Impactos da
supressão na fazenda também institui dois programas para fauna e flora. O
primeiro, que trata do manejo, resgate e aproveitamento da flora nativa, tem o
objetivo de garantir que o desmate não comprometa “formações florestais
adjacentes”; de promover o menor impacto para biota nativa; e de coletar
sementes para uso em programas de recuperação de áreas degradadas.
O segundo programa, que trata da conservação de espécies
protegidas ou com algum grau de ameaça, diz que vai verificar se houve aumento
ou diminuição das populações de espécies protegidas ou com algum grau de ameaça
e identificar possíveis refúgios de fauna, “que terão prioridade de
conservação”. Segundo especialistas consultados por ((o))eco, porém, o Rima não
apresenta os métodos desse monitoramento, que deveria ser aplicado antes e
depois da supressão para avaliar o impacto.
((o))eco entrou em contato com o representante legal do
projeto de supressão da Fazenda Santa Maria nesta terça (7) e quarta-feira (8)
para questionar os apontamentos feitos sobre o Rima. A reportagem ainda não
obteve resposta. O espaço segue aberto.
A importância da área nativa
A criação do gado solto é uma atividade secular no Pantanal,
que quando manejada com boas práticas acontece em equilíbrio com o meio
ambiente. A razão por trás disso são os grandes campos abertos do bioma, que
favorecem a prática. Nessa equação, o fator que preocupa é a conversão dessas
áreas naturais por pastagens exóticas, ou seja, pastagens naturais de outras
regiões, que não o Pantanal, mas que são plantadas no bioma.
Isso porque as pastagens nativas do Pantanal são de
fundamental importância para a conservação dos processos ecológicos e para a
manutenção da biodiversidade, conforme aponta o próprio Comitê Nacional de Zonas Úmidas
(CNUZ). A alteração dessa área nativa composta de várias espécies, que
inclusive se alternam durante o ano, por um pasto exótico de uma espécie só,
pode ter impactos sobre esses serviços ecológicos, além de empobrecer o solo.
“É como se, quando plantam uma só espécie, simplificam a
paisagem. Com o pasto nativo, temos um ambiente com várias espécies de plantas,
organismos que originalmente estão associados a ela e que podem se alternar ao
longo das estações. Trocar tudo por uma espécie só tem um impacto que a gente
nem faz ideia”, explica a ((o))eco a coordenadora do Laboratório de Ecologia da
Intervenção da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Lei/UFMS), a
pesquisadora Letícia Couto Garcia.
Se um dia o produtor tiver a necessidade de recuperar esse
pasto convertido e transformá-lo de volta em uma área de vegetação nativa, a
tarefa ainda se torna quase impossível. O motivo por trás disso é a dificuldade
para remover o pasto exótico, que geralmente é composto por uma espécie exótica
e agressiva, ou seja, que se espalha e dificilmente é removida depois que entra
no sistema .
“Por ser excelente competidora, a braquiária (tipo de
pastagem exótica) inibe a regeneração natural de arbóreas nativas (árvores) e
exclui espécies herbáceas nativas (plantas rasteiro)”, diz Garcia. Por ser
invasora, ela também coloniza ambientes onde não foram plantadas, o que ameaça
aos remanescentes naturais do entorno, até mesmo áreas de preservação, que
também podem terminar “invadidos”.
“É bem complicado reconverter uma área de pasto plantado com
espécies africanas, isso eu posso te afirmar, pois para a restauração
ecológica, o controle das espécies invasoras é um dos principais desafios”,
conta Garcia.
Por conta dessa importância, o CNZU emitiu uma recomendação
sobre o assunto em 2021. Entre outras coisas, o documento determinou aos órgãos estaduais de meio
ambiente de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul que suspendessem os processos de
licenciamento envolvendo a supressão de vegetação nativa para o plantio de
pastagens exóticas nas áreas alagadas e inundadas do Pantanal. “Até que sejam
definidos critérios técnicos ambientais, econômicos e sociais”, diz trecho da
recomendação.
((o))eco entrou em contato com o Imasul para questionar
se o licenciamento da supressão de 10,5 mil hectares de vegetação na Fazenda
Santa Maria para o plantio de pasto exótico estaria desrespeitando essa
recomendação. Não houve resposta do órgão estadual até a publicação desta
reportagem. O espaço segue aberto.
O avanço das pastagens exóticas
A ((o))eco, o coordenador de mapeamento do Pantanal no
MapBiomas conta que no bioma o processo de conversão se dá sobre áreas de
floresta, savana e campos naturais, que são transformadas em pasto. Mas nem
sempre isso foi assim. “É preciso lembrar que é sobre os campos naturais que a
pecuária tradicional se desenvolve há anos na planície pantaneira”, diz Eduardo
Rosa.
Em 1985, ano no qual a rede colaborativa tem o ponto de
partida do seu monitoramento, o processo de conversão atingia principalmente as
bordas do bioma, que eram áreas menos impactadas pela inundação. “Com a
diminuição da frequência de alagamentos e diminuição da extensão de áreas
alagadas, esse processo de conversão está se interiorizando no bioma”, explica
Rosa.
Apenas em 2021, por exemplo, foram 29,9 mil hectares de
vegetação nativa convertidos em pasto no Pantanal, segundo números do MapBiomas Alerta. Já entre 1985 e 2021, cerca de 1,9 milhão
de hectares de vegetação nativa já foram convertidos em pastagem no bioma,
também segundo a rede colaborativa.
O coordenador explica que o avanço do pasto exótico se torna
uma questão ainda mais preocupante quando se analisa a qualidade dessas áreas
abertas. “Em sua grande maioria, esse processo de conversão de áreas naturais
em pasto, degrada o ambiente da planície gerando grandes áreas de solo exposto
e com baixa capacidade de suporte para a pecuária”, comenta.
Falta de política pública
A coordenadora do Lei/UFMS conta que nos últimos anos o
Pantanal tem assistido um movimento que tenta convencer os produtores rurais a
substituir suas áreas nativas por pastos exóticos. “Quando você anda no
Pantanal você vê vários produtores querendo fazer essa conversão, é uma
tendência”, comenta a pesquisadora.
Para reverter esse cenário, diz ela, seria necessária uma
política pública que incentivasse o produtor a continuar criando gado sobre o
pasto nativo, assim como dita a tradição secular da pecuária extensiva no
bioma. “Para que aqueles que usam o pasto nativo tenham um valor agregado à
carne”.
No bioma pantaneiro, em específico, as pastagens nativas de
melhor qualidade estão geralmente localizadas nas áreas úmidas, explica Sandra
Santos, pesquisadora da Embrapa Pantanal. “Uma forma de incentivar a sua
conservação on farm (na fazenda) seria o manejo sustentável
dessas áreas”, diz ela.
Para a Garcia, isso poderia ser usado até mesmo como uma
forma de certificar a carne como sustentável, por esta ter sido produzida em um
pasto nativo, que não prejudicou a biodiversidade local. “O mercado externo tem
grande interesse em buscar alimentos que sejam sustentáveis”.
Sem esse tipo de política pública, a coordenadora do
Lei/UFMS acredita que a tendência deve continuar sendo o aumento contínuo da
conversão dessas áreas naturais em pastos exóticos, seja por conta da busca por
ganho financeiro, seja pela busca do aumento da quantidade de gado por hectare
ou pelo fato de que, legalmente, existe a possibilidade da conversão.
“O produtor tem o direito legal de converter e ele não vai
converter porquê? Teria que ter um incentivo por essa adicionalidade de
conservação da vegetação nativa, relacionado à áreas que conservam a
integridade do pasto nativo, que é algo único no Pantanal e que deveria ser
muito valorizado”, explica Garcia.
A pesquisadora da Embrapa Pantanal também defende o
incentivo a produtores que manejam de forma sustentável os ecossistemas
inseridos em suas propriedades. “O Pantanal tem um limite de produção e os
produtores deveriam ser compensados pela conservação das paisagens que contém
uma rica biodiversidade”, comenta Santos.
Como exemplo de incentivo, a coordenadora do Lei/UFMS cita o
pagamento por serviços ambientais nessas áreas que são produtivas, ou seja,
áreas que não são de preservação permanente ou reserva legal, mas que, por
decisão do produtor, também são manejadas de forma sustentável.
Santos reconhece que nem todas as fazendas possuem pasto
nativo de qualidade e, por isso, é importante mapear os tipos de pastagens
existentes em cada propriedade. Mas, ao mesmo tempo, ela explica que muitas
espécies de pasto nativo apresentam melhor qualidade do que as exóticas. “A
mistura de espécies nativas contribui para uma dieta funcional e sustentável
que deve ser melhor valorada”, comenta a pesquisadora da Embrapa Pantanal, que
é também uma das autoras de guia que
apresenta a descrição da qualidade das principais pastagens nativas do
bioma.
O ideal, segundo ela, seria otimizar os recursos forrageiros
nativos de melhor qualidade a partir da associação com a introdução de
pastagens exóticas. Mas isso apenas “dentro de critérios técnicos e
sustentáveis, que seria o manejo adaptativo das pastagens”, diz Santos. O
manejo adaptativo ao qual ela se refere nada mais é do que o produtor levar em
conta os períodos em que cada tipo de pastagem está disponível ao animal.
E isso vai depender se é um ano seco, chuvoso ou “normal”,
sendo essa justamente a característica que configura o manejo secular do pasto
que é praticado pelos produtores tradicionais. “Eles levam o gado para uma área
e depois voltam para outra que tem uma gramínea nativa que está brotando mais,
por exemplo”, comenta a coordenadora do Lei/UFMS. “É muito importante
culturalmente para o Pantanal também”, conclui Garcia. Criação sustentável e orgânica de
gado em fazenda Nhecolândia, no Pantanal sul-mato-grossense. Foto: Márcia
Foletto