terça-feira, 21 de março de 2023

Crise climática já prejudica ecossistemas no planeta todo

 


Crise climática já prejudica ecossistemas no planeta todo

Novo relatório científico reforça a necessidade de substituição dos combustíveis fósseis e de uma transição energética com justiça social

ALDEM BOURSCHEIT · 

20 de março de 2023



Fogo devorando o Cerrado, bioma que estoca grandes quantidades de Carbono. Foto: Arthur de Magalhães Goulart/Creative Commons

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Cientistas internacionais divulgaram nesta segunda-feira (20)  um novo relatório destacando que ambientes naturais planetários estão na mira da crise climática. Temperaturas em alta e eventos extremos afetam a biodiversidade, a produção de alimentos e sobretudo populações menos protegidas. Há soluções.

A síntese da sexta bateria de avaliações climáticas do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) das Nações Unidas destaca que ecossistemas naturais em terra, rios e mares estão ameaçados pela crise que ações humanas impuseram ao clima global.


Conforme Moacyr Araújo, coordenador da Rede Clima e vice-reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), não será possível manter uma boa saúde do clima planetário sem atentar para a conservação e recuperação de ambientes costeiro marinhos. 

“O grande pulmão do planeta é o fitoplâncton, que captura imensas quantidades de Dióxido de Carbono (CO2) e devolve Oxigênio (O2) para todos respirarem. Não há equilíbrio climático sem os oceanos”, destaca o cientista. Acordos tentam limitar em 1,5ºC o aumento médio da temperatura mundial, até 2030.

Nos territórios mundiais, a elevação mediana dos termômetros já é de 1,1ºC em relação à era pré-industrial. Nos mares e oceanos, a média é de 0,9ºC. Quanto mais quentes, menos capacidade esses ambientes têm de absorver calor, mais tempestades, inundações e perdas de biodiversidade virão.

“A ampliação de temperatura acidifica os oceanos e causa impactos como o branqueamento dos corais. Prejuízos como esses afetam toda a cadeia alimentar em águas salgadas”, completa Araújo. Cerca de 600 milhões de pessoas no mundo tiram seu sustento da pesca, traz a ONG Oceana.

“Espera-se que a insegurança alimentar relacionada ao clima e a insegurança hídrica aumentem à medida que o aquecimento aumenta. Quando os riscos são combinados com outros eventos adversos, como pandemias ou conflitos, eles se tornam ainda mais difíceis de administrar”, descreve o IPCC.

Por isso, a situação em terra também é alarmante. Formações naturais cuja destruição libera gigantescos estoques de Carbono seguem na mira do desmate que, junto ao agronegócio e à geração de energia, somam mais de 90% da contribuição nacional à crise do clima.

“Cada aumento no aquecimento se traduz em perigos que se agravam rapidamente. Ondas de calor mais intensas, chuvas mais fortes e outros eventos climáticos extremos exacerbam os riscos para a saúde humana e os ecossistemas”, destaca um comunicado do IPCC.

O Observatório do Clima resumiu os principais pontos do relatório divulgado hoje pelo IPCC. Confira aqui.

Na contramão, neste mês a Amazônia e o Cerrado bateram novos recordes em alertas para desmatamento, mostra o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A vegetação natural eliminada joga menos umidade na atmosfera, reduzindo as chuvas importantes para o agronegócio.




Alertas de desmatamento na Amazônia chegou a 8.590 km² em 2022. Foto: Carl de Souza/AFP

Para Araújo, da Rede Clima, o país deve recuperar o tempo perdido nos últimos anos [governo Jair Bolsonaro] e concentrar esforços para cortar emissões desses três setores. “Já reduzimos o desmate no passado”, lembra. Ações interministeriais encolheram as perdas na Amazônia de 2004 a 2012.

A nova estratégia federal para combater o problema em todos os biomas reúne 19 ministérios, conta o Ministério do Meio Ambiente.

“Também é necessário ampliar incentivos à agricultura de baixo carbono nos financiamentos de safras e investir em fontes alternativas de energia. Mas, não dá pra destruir Caatinga para colocar painéis solares ou ameaçar rotas de aves migratórias [com geradores eólicos]”, destaca o especialista. 

Só nas regiões Nordeste e Norte, projetos eólicos no mar somam 133 Gigawatts – quase 10 vezes a capacidade da hidrelétrica de Itaipu, no Paraná. Relatório da ONG Global Energy Monitor aponta a América Latina como liderança global em energias com menos impactos socioambientais.

Mas o espaço de tais fontes ainda é sombreado por investimentos em fontes fósseis ou degradantes de energia, como as usinas hidrelétricas. Amazônia e Cerrado têm juntos grande potencial inexplorado por esse modelo de geração e podem ser alvos de projetos nos próximos anos. 

Conforme Ilan Zugman, diretor da América Latina da ONG 350.org, países como Brasil e Colômbia têm potencial para liderar um modelo de geração de energia renovável centrado nas necessidades das pessoas.

“Os governos parecem estar mais atentos às demandas das comunidades por uma transição energética justa, mas precisam mostrar ações concretas, como proibir o fracking [técnica para extrair gás de xisto de grandes profundidades] e os subsídios ao petróleo e ao gás”, diz em nota da 350.org. 

Ações como essas serão fundamentais para populações mais vulneráveis aos efeitos da crise climática. Tempestades, inundações e secas atingem especialmente comunidades pobres ou vivendo em áreas de risco, como margens de rios, morros e litoral.

“O que foi feito até agora [pelos países] não fez as emissões decaírem como deveriam”, ressalta Mercedes Bustamante, presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e uma dos 93 revisores do relatório hoje divulgado pelo IPCC.

Este verão foi marcado pela morte de, pelo menos, 241 pessoas devido às fortes chuvas e deslizamentos de terras no litoral norte do estado de São Paulo. Populações de baixa renda forçadas a viver em áreas de risco costumam ser as primeiras vítimas em episódios como esses.

Mares e oceanos aquecidos transferem mais calor à atmosfera, ampliando a força e quantidade desses eventos climáticos extremos.

Conforme Bustamante, soluções para as crises associadas do clima e socioambiental passam pela adoção de um desenvolvimento socioeconômico global “resiliente ao clima”, que reconheça a crise global e adote meios para reduzir e enfrentar seus impactos. 

“Há opções viáveis de adaptação e mitigação à crise do clima, como reforçar políticas públicas setoriais e assegurar direitos, por exemplo das populações indígenas [cujos territórios mantêm biodiversidade e estoques de carbono]”, destaca a professora da Universidade de Brasília (UnB).

A lista de recomendações inclui a geração de energias limpas e descentralizadas, reduzir o uso de combustíveis fósseis em todos os setores e investir em transportes públicos e não poluentes, proteger populações vulneráveis e ampliar o financiamento para economias realmente limpas.

Todavia, uma pedra no sapato são as fontes para financiar tais ações. “Os níveis de financiamento são baixos e ofuscados pelos investimentos em fósseis. É urgente uma ação internacional [para reverter isso]”, pontua Paulo Artaxo, coordenador do Programa Fapesp sobre Mudanças Climáticas Globais.

“Os benefícios à saúde humana decorrentes apenas da melhoria da qualidade do ar seriam aproximadamente iguais ou até maiores do que os custos de reduzir ou evitar emissões. Mas um desenvolvimento resistente ao clima torna-se cada vez mais difícil a cada aumento no aquecimento global”, destaca o IPCC.

Este ano, os países devem revisar seu cumprimento das metas do Acordo de Paris, fechado em 2015 para conter a poluição que amplia o efeito estufa e aquece o planeta. Desde 1988, o IPCC informa governos, academia, população, ongs e setor privado, para que possam agir e conter a alta da temperatura média global.

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4º Congresso Brasileiro de Vida Silvestre

 




Começa no próximo sábado, dia 25/03, o 4º Congresso Brasileiro de Vida Silvestre. O evento trará discussões sobre a vida silvestre de forma compacta, propositiva e democrática, num evento técnico-científico que reúne comunidade acadêmica, técnicos, integrantes de organizações da sociedade civil, representantes de organizações governamentais e demais pessoas que atuam ou têm interesse na temática da vida silvestre. 

Organizado pelo Instituto Jurumi e A vida no Cerrado, o evento online está com inscrições abertas até o dia 23/03, quinta-feira. As inscrições custam R$ 50,00 para estudantes, e R$ 80,00 para profissionais. Nesta edição, apoiadores de ((o))eco terão um desconto de 30% no valor da inscrição. Leitores também ganham um benefício: basta digitar o código OECONOCBVS na área de confirmação de pagamento da inscrição para garantir um desconto de 23%!

Leia a nossa matéria para saber mais sobre o evento: https://oeco.org.br/salada-verde/congresso-brasileiro-de-vida-silvestre-esta-com-inscricoes-abertas/

 

domingo, 19 de março de 2023

 EUA

"O navio chegou à costa": Dia histórico para a conservação dos oceanos 

Access to the commentsCOMENTÁRIOS
De  Euronews  com AFP
Acordo sobre a proteção do alto mar
Acordo sobre a proteção do alto mar   -  Direitos de autor  AP Photo

As Nações unidas chegaram a um acordo histórico sobre o primeiro tratado internacional para a proteção do alto mar.

"O navio chegou à costa", anunciou a presidente da conferência Rena Lee, na sede da ONU em Nova Iorque, pouco antes das 21h30 (0230 GMT domingo), para um aplauso forte e prolongado dos delegados.

O texto ainda não foi divulgado, mas o momento já foi saudado pelos ativistas que falam de um marco na história da proteção da biodiversidade, depois de mais de 15 anos de discussões.

tratado é considerado essencial para a conservação de 30% da terra e do oceano até 2030, conforme o acordo assinado em Montreal, em dezembro.

"Este é um dia histórico para a conservação e um sinal de que, num mundo dividido, proteger a natureza e as pessoas pode triunfar sobre a geopolítica", disse Laura Meller, da Greenpeace.

Após duas semanas de intensas conversações, incluindo uma maratona noturna de sexta-feira para sábado, os delegados finalizaram um texto que agora não pode ser significativamente alterado. "Não haverá reabertura ou discussões de substância", disse Lee aos negociadores. O acordo será formalmente adotado, depois de ser examinado por advogados e traduzido para as seis línguas oficiais das Nações Unidas, anunciou Lee.

Papel crucial

alto mar começa na fronteira das zonas económicas exclusivas, que se estendem até 200 milhas náuticas (370 quilómetros) das linhas costeiras. Assim, não ficam sob a jurisdição dos países.

Embora o alto mar abranja mais de 60% dos oceanos do mundo e quase metade da superfície do planeta, atrai muito menos atenção do que as águas costeiras e algumas espécies icónicas.

Os ecossistemas oceânicos criam metade do oxigénio que os seres humanos respiram e limitam o aquecimento global ao absorver grande parte do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas. Mas estão ameaçados pelas alterações climáticas, pela poluição e pela sobre pesca.

Apenas cerca de um por cento do alto mar está atualmente protegido.

Lucros

Os países em vias de desenvolvimento tinham lutado para não serem excluídos dos ganhos esperados da comercialização de potenciais substâncias descobertas nas águas internacionais.

Eventuais lucros são prováveis do uso farmacêutico, químico ou cosmético de substâncias marinhas recém-descobertas que não pertencem a ninguém.

Tal como em outros fóruns internacionais, nomeadamente negociações sobre o clima, o debate acabou por ser uma questão de assegurar a equidade entre o Sul global mais pobre e o Norte mais rico, observaram os observadores.

Num movimento visto como uma tentativa de criar confiança entre países ricos e pobres, a União Europeia prometeu 40 milhões de euros (42 milhões de dólares) em Nova Iorque para facilitar a ratificação do tratado e a sua rápida implementação.

UE também anunciou 860 milhões de dólares para a investigação, monitorização e conservação dos oceanos em 2023 na conferência "Our Ocean" no Panamá, que terminou na sexta-feira.

Material transforma água residual em água potável e ainda gera eletricidade

 

Material transforma água residual em água potável e ainda gera eletricidade

Redação do Site Inovação Tecnológica - 24/02/2023

Material transforma água residual em água potável e gera eletricidade simultaneamente
O material pega água suja e gera água e eletricidade limpas.
[Imagem: KIST]

Água e eletricidade limpas

Pesquisadores coreanos desenvolveram um filtro que gera eletricidade ao mesmo tempo em que faz seu serviço de reter as impurezas de águas servidas.

A purificação dos recursos hídricos, seja de rios, represas ou água da chuva, ou mesmo a reciclagem da água já usada, como águas residuais e esgoto, é um processo intensivo em energia. Assim, qualquer ganho energético já seria de grande valia na redução de custos.

Mas Ji-Soo Jang, do Instituto de Ciência e Tecnologia da Coreia do Sul, queria mais, e para isso ele desenvolveu uma membrana multifuncional que gera eletricidade simultaneamente enquanto purifica águas residuais, gerando água potável.

O sistema é composto por uma membrana porosa, que filtra a água na parte inferior, e um polímero condutor, que gera eletricidade na parte superior.

Quando a água flui perpendicularmente à membrana, ela gera corrente contínua pelo movimento dos íons ao longo da direção horizontal. Nos testes de laboratório, apenas 10 µl (microlitros) de água foram suficientes para que a membrana permanecesse gerando eletricidade por mais de 3 horas - nesse teste, a membrana gerou uma potência máxima 16,44 µW e 15,16 mJ de energia.

Enquanto isso, ela reteve mais de 95% dos contaminantes de tamanhos menores que 10 nanômetros, o que é impressionante mesmo em relação às membranas de filtragem comuns, já que, operando nessas dimensões, o material consegue reter coisas como microplásticos e até partículas de metais pesados.

Material transforma água residual em água potável e gera eletricidade simultaneamente
O sistema de geração de eletricidade é baseado em nanotubos de carbono, enquanto a purificação da água é feita por um filtro de polímero.
[Imagem: KIST]

Fabricação industrial

Como a membrana pode ser fabricada por meio de um processo simples de impressão, sem restrições de tamanho, ela tem um alto potencial de comercialização devido ao baixo custo de fabricação e tempo de processamento. Na verdade, a equipe já está testando esse processo de fabricação em um ambiente industrial real, de olho em colocar seu filtro-gerador no mercado.

"Como uma nova tecnologia que pode resolver o problema de escassez de água e produzir energia ecologicamente correta simultaneamente, ela também tem grande potencial de aplicação nos sistemas de gestão da qualidade da água e em sistemas de geração de energia de emergência," escreveu a equipe.

Bibliografia:

Artigo: Bidirectional water-stream behavior on multifunctional membrane for simultaneous energy generation and water purification
Autores: Ji-Soo Jang, Yunsung Lim, Hamin Shin, Jihan Kim, Tae Gwang Yun
Revista: Advanced Materials
DOI: 10.1002/adma.202209076

sexta-feira, 17 de março de 2023

Pantanal pode perder 10 mil hectares de vegetação nativa

 Pantanal pode perder 10 mil hectares de vegetação nativa

Fazenda quer desmatar área de vegetação nativa que equivale a 63 vezes o tamanho do Ibirapuera (SP) para plantar pasto exótico. Objetivo é alimentar o gado da propriedade na planície do bioma

MICHAEL ESQUER · 

8 de março de 2023

 

Fazenda Santa Maria, na planície do Pantanal sul-mato-grossense, pode ter mais de 10 mil hectares de vegetação nativa convertidos em pasto. 

Especial Pantanal em Foco

Sessenta e três vezes o tamanho do Parque Ibirapuera (SP). Este é o tamanho da área de vegetação nativa que o Pantanal pode perder se o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) aprovar um projeto que quer suprimir mais de 10 mil hectares de vegetação nativa da Fazenda Santa Maria para o cultivo de pastagens exóticas. Situada na planície do bioma, a propriedade rural terá toda essa área natural convertida para alimentar o gado que pasta na propriedade, em Corumbá (MS). 

Na região, a vegetação nativa da Fazenda Santa Maria desempenha um papel importante na conservação da avifauna. Lá, ocorrem mais de 100 espécies de aves, sendo duas delas ameaçadas segundo a lista vermelha da IUCN, como a arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus). De mamíferos, são 23 espécies presentes na área da propriedade rural, sendo que quatro delas também estão ameaçadas de extinção, como o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga trydetoclita). 

Entre área diretamente afetada e diretamente/indiretamente influenciada pelo desmate, foram registradas 39 espécies de árvores na fazenda, sendo que a maior parte delas tem potencial uso ecológico, ou seja, pode ser utilizada como alimento ou abrigo pela fauna silvestre da região. 

Todas essas informações de fauna e flora estão no Relatório de Impacto Ambiental (Rima) do projeto de supressão, que será apresentado na próxima quarta-feira (15), em audiência pública convocada pelo Imasul. Mas os números de fauna apresentados no documento, especificamente, podem ser bem maiores porque o levantamento feito neste grupo durou apenas entre quatro e seis dias. 

O tempo é considerado completamente insuficiente para refletir uma estimativa concreta, que, segundo especialistas consultados por ((o))eco, levaria meses. 

Conforme consulta ao Rima, 12.368,76 hectares de vegetação podem ser suprimidos ao todo na propriedade ao longo de quatro anos, caso o projeto receba autorização ambiental do Imasul. Desse total, 1,8 mil hectares correspondem à vegetação característica do Cerrado e 10,5 mil hectares à vegetação nativa. Essa área nativa que seria suprimida equivale a cerca de 63 vezes o tamanho do Parque do Ibirapuera (SP), que tem 158 hectares. 

Como justificativa para a supressão e a implantação de pasto exótico na fazenda, o empreendedor cita o aumento de produtividade; plena ocupação que o solo supostamente teria; geração de recursos financeiros ao proprietário; mais impostos; criação de oportunidades de trabalho de forma direta e indireta; e a “facilidade para o desmate, mecanização e formação do pasto”.

Flora, fauna e levantamentos insuficientes

De acordo com o Rima, foram identificadas 39 espécies de árvores como ocorrentes na área da Fazenda Santa Maria, sendo estas situadas na parcela diretamente afetada e na parcela influenciada direta/indiretamente pelo desmate. A maior parte dessas espécies (23) podem ser usadas como alimentação ou abrigo pela fauna silvestre da região. Entretanto, as demais espécies apresentam pelo menos um uso potencial, seja pela propriedade medicinal; alimentícia para humanos; ornamental; ou valor da madeira.

O documento também apresenta 130 espécies de aves como ocorrentes na área da propriedade rural. O número demonstra a importância da vegetação nativa da propriedade para a conservação da avifauna da região, mas pode ser maior porque este levantamento, em específico, durou apenas seis dias. 

Segundo especialistas consultados por ((o))eco, essa duração torna o levantamento insuficiente. O resultado ainda contrasta com o número de mais de 600 espécies de aves que são conhecidas na região do Pantanal. Como a maior parte das aves da fazenda foram encontradas nas áreas que devem ser desmatadas, o Rima diz que a principal medida a ser tomada seria a manutenção de pequenas ilhas de mata ou cerrado em meio às pastagens, para “facilitar a movimentação das aves pela paisagem”. 

Das espécies identificadas, o Rima aponta três aves como ameaçadas segundo a lista vermelha da IUCN: a ema (Rhea americana); o mutum-de-penacho (Crax fasciolata); e a arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus). No ano passado, porém, a ema foi listada apenas como “quase ameaçada” por essa mesma lista. Ainda assim, o número de aves ameaçadas na fazenda também pode ser maior, justamente porque não houve tempo suficiente para o registro de outras espécies. 

Para a arara-azul, o relatório indica a preservação de manchas de manduvi – árvore que serve como ninho e alimento para a espécie – e a participação no programa do Instituto Arara Azul que produz e instala ninhos artificiais para a ave no bioma.

Arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus), espécie ameaçada de extinção com ocorrência na fazenda Santa Maria. Foto: Reprodução/Mauricio Neves Godoi/Rima

Já entre mamíferos, foram duas espécies de voadores identificadas na área que será desmatada da Fazenda Santa Maria: o morcego-fruteiro (Sturnira lilium) e o morcego-vampiro (Desmodus rotundus). As espécies não estão ameaçadas de extinção, mas assim como grande parte dos voadores podem desempenhar papéis importantes como a polinização, dispersão de sementes e a diluição de patógenos e doenças. 

O número também não demonstra a riqueza esperada para o Pantanal, que tem em torno de 60 espécies de morcegos conhecidas. O resultado pode ter sido influenciado pela chuva e frio intenso que a propriedade rural registrou durante as coletas, conforme admite o próprio Rima. “Reforçamos que os resultados obtidos nas campanhas demonstram a necessidade de um esforço amostral maior quanto à comunidade de morcegos”. 

Mas além disso, assim como ocorreu com a avifauna, também pesa sobre o resultado insuficiente a baixíssima duração do levantamento: apenas quatro dias. Para essa comunidade de morcegos encontrada na região, o documento sugere a manutenção de manchas de vegetação que sirvam de fonte de abrigo e recurso. O objetivo é mitigar o impacto da supressão para os voadores.

Entre os não voadores, o levantamento durou apenas seis dias e apresentou 21 espécies de mamíferos na propriedade, sendo a maioria (19) delas de grande ou médio porte. Desse total, quatro estão ameaçadas de extinção no País: o queixada (Tayassu pecari); o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus); o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e a anta (Tapirus terrestris). Novamente, o número é tido como “pífio” perto da realidade esperada para a região, que com um levantamento criterioso deveria ter apresentado pelo menos 70 espécies, apontam especialistas consultados por ((o))eco.

“O estudo não apresenta números sobre o tamanho das populações destas espécies na propriedade e nem uma projeção do que restará após a supressão da vegetação, a curto, médio e longo prazo. […] listas de espécies, como a apresentada no Rima, não permite aferir estes números”, relata a ((o))eco especialista que preferiu não se identificar pelo temor de retaliações. 

Esses mamíferos ameaçados enfrentam os perigos já conhecidos da fragmentação e perda de hábitat, e que devem ser potencializadas com a supressão da vegetação que se pretende fazer na propriedade rural, conforme também admite o próprio Rima do projeto. “A área desmatada se constituirá em uma barreira efetiva entre ambientes, dificultando o fluxo de espécies terrestres arborícolas”, aponta o documento ao citar também riscos como o aumento do atropelamento de animais e da caça, que pode ser provocado pela exposição da fauna com o desmate da vegetação. 

Para tentar mitigar esse impacto, o Rima recomenda que para esses mamíferos também sejam mantidos corredores florestais que possam interligar as “sobras” de floresta; a instalação de placas; realização de palestras instrutivas; instrução dos operários; e proibição da caça na fazenda. “Antes da atividade de supressão começar, deve ser realizado o afugentamento da fauna. O desmate deve seguir uma única direção de derrubada, preferencialmente no sentido da Reserva Legal, com o intuito de possibilitar a fuga da fauna para esta área”, ainda acrescenta o documento.

O Programa de Monitoramento e Acompanhamento dos Impactos da supressão na fazenda também institui dois programas para fauna e flora. O primeiro, que trata do manejo, resgate e aproveitamento da flora nativa, tem o objetivo de garantir que o desmate não comprometa “formações florestais adjacentes”; de promover o menor impacto para biota nativa; e de coletar sementes para uso em programas de recuperação de áreas degradadas.  

O segundo programa, que trata da conservação de espécies protegidas ou com algum grau de ameaça, diz que vai verificar se houve aumento ou diminuição das populações de espécies protegidas ou com algum grau de ameaça e identificar possíveis refúgios de fauna, “que terão prioridade de conservação”. Segundo especialistas consultados por ((o))eco, porém, o Rima não apresenta os métodos desse monitoramento, que deveria ser aplicado antes e depois da supressão para avaliar o impacto. 

((o))eco entrou em contato com o representante legal do projeto de supressão da Fazenda Santa Maria nesta terça (7) e quarta-feira (8) para questionar os apontamentos feitos sobre o Rima. A reportagem ainda não obteve resposta. O espaço segue aberto.  

A importância da área nativa

A criação do gado solto é uma atividade secular no Pantanal, que quando manejada com boas práticas acontece em equilíbrio com o meio ambiente. A razão por trás disso são os grandes campos abertos do bioma, que favorecem a prática. Nessa equação, o fator que preocupa é a conversão dessas áreas naturais por pastagens exóticas, ou seja, pastagens naturais de outras regiões, que não o Pantanal, mas que são plantadas no bioma. 

Isso porque as pastagens nativas do Pantanal são de fundamental importância para a conservação dos processos ecológicos e para a manutenção da biodiversidade, conforme aponta o próprio Comitê Nacional de Zonas Úmidas (CNUZ). A alteração dessa área nativa composta de várias espécies, que inclusive se alternam durante o ano, por um pasto exótico de uma espécie só, pode ter impactos sobre esses serviços ecológicos, além de empobrecer o solo.

“É como se, quando plantam uma só espécie, simplificam a paisagem. Com o pasto nativo, temos um ambiente com várias espécies de plantas, organismos que originalmente estão associados a ela e que podem se alternar ao longo das estações. Trocar tudo por uma espécie só tem um impacto que a gente nem faz ideia”, explica a ((o))eco a coordenadora do Laboratório de Ecologia da Intervenção da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Lei/UFMS), a pesquisadora Letícia Couto Garcia.

Se um dia o produtor tiver a necessidade de recuperar esse pasto convertido e transformá-lo de volta em uma área de vegetação nativa, a tarefa ainda se torna quase impossível. O motivo por trás disso é a dificuldade para remover o pasto exótico, que geralmente é composto por uma espécie exótica e agressiva, ou seja, que se espalha e dificilmente é removida depois que entra no sistema . 

“Por ser excelente competidora, a braquiária (tipo de pastagem exótica) inibe a regeneração natural de arbóreas nativas (árvores) e exclui espécies herbáceas nativas (plantas rasteiro)”, diz Garcia. Por ser invasora, ela também coloniza ambientes onde não foram plantadas, o que ameaça aos remanescentes naturais do entorno, até mesmo áreas de preservação, que também podem terminar “invadidos”. 

“É bem complicado reconverter uma área de pasto plantado com espécies africanas, isso eu posso te afirmar, pois para a restauração ecológica, o controle das espécies invasoras é um dos principais desafios”, conta Garcia.

Por conta dessa importância, o CNZU emitiu uma recomendação sobre o assunto em 2021. Entre outras coisas, o documento determinou aos órgãos estaduais de meio ambiente de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul que suspendessem os processos de licenciamento envolvendo a supressão de vegetação nativa para o plantio de pastagens exóticas nas áreas alagadas e inundadas do Pantanal. “Até que sejam definidos critérios técnicos ambientais, econômicos e sociais”, diz trecho da recomendação. 

((o))eco entrou em contato com o Imasul para questionar se o licenciamento da supressão de 10,5 mil hectares de vegetação na Fazenda Santa Maria para o plantio de pasto exótico estaria desrespeitando essa recomendação. Não houve resposta do órgão estadual até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto. 

O avanço das pastagens exóticas 

A ((o))eco, o coordenador de mapeamento do Pantanal no MapBiomas conta que no bioma o processo de conversão se dá sobre áreas de floresta, savana e campos naturais, que são transformadas em pasto. Mas nem sempre isso foi assim. “É preciso lembrar que é sobre os campos naturais que a pecuária tradicional se desenvolve há anos na planície pantaneira”, diz Eduardo Rosa. 

Em 1985, ano no qual a rede colaborativa tem o ponto de partida do seu monitoramento, o processo de conversão atingia principalmente as bordas do bioma, que eram áreas menos impactadas pela inundação. “Com a diminuição da frequência de alagamentos e diminuição da extensão de áreas alagadas, esse processo de conversão está se interiorizando no bioma”, explica Rosa.

Apenas em 2021, por exemplo, foram 29,9 mil hectares de vegetação nativa convertidos em pasto no Pantanal, segundo números do MapBiomas Alerta. Já entre 1985 e 2021, cerca de 1,9 milhão de hectares de vegetação nativa já foram convertidos em pastagem no bioma, também segundo a rede colaborativa. 

O coordenador explica que o avanço do pasto exótico se torna uma questão ainda mais preocupante quando se analisa a qualidade dessas áreas abertas. “Em sua grande maioria, esse processo de conversão de áreas naturais em pasto, degrada o ambiente da planície gerando grandes áreas de solo exposto e com baixa capacidade de suporte para a pecuária”, comenta.

Falta de política pública 

A coordenadora do Lei/UFMS conta que nos últimos anos o Pantanal tem assistido um movimento que tenta convencer os produtores rurais a substituir suas áreas nativas por pastos exóticos. “Quando você anda no Pantanal você vê vários produtores querendo fazer essa conversão, é uma tendência”, comenta a pesquisadora. 

Para reverter esse cenário, diz ela, seria necessária uma política pública que incentivasse o produtor a continuar criando gado sobre o pasto nativo, assim como dita a tradição secular da pecuária extensiva no bioma. “Para que aqueles que usam o pasto nativo tenham um valor agregado à carne”.

No bioma pantaneiro, em específico, as pastagens nativas de melhor qualidade estão geralmente localizadas nas áreas úmidas, explica Sandra Santos, pesquisadora da Embrapa Pantanal. “Uma forma de incentivar a sua conservação on farm (na fazenda) seria o manejo sustentável dessas áreas”, diz ela. 

Para a Garcia, isso poderia ser usado até mesmo como uma forma de certificar a carne como sustentável, por esta ter sido produzida em um pasto nativo, que não prejudicou a biodiversidade local. “O mercado externo tem grande interesse em buscar alimentos que sejam sustentáveis”. 

Sem esse tipo de política pública, a coordenadora do Lei/UFMS acredita que a tendência deve continuar sendo o aumento contínuo da conversão dessas áreas naturais em pastos exóticos, seja por conta da busca por ganho financeiro, seja pela busca do aumento da quantidade de gado por hectare ou pelo fato de que, legalmente, existe a possibilidade da conversão. 

“O produtor tem o direito legal de converter e ele não vai converter porquê? Teria que ter um incentivo por essa adicionalidade de conservação da vegetação nativa, relacionado à áreas que conservam a integridade do pasto nativo, que é algo único no Pantanal e que deveria ser muito valorizado”, explica Garcia. 

A pesquisadora da Embrapa Pantanal também defende o incentivo a produtores que manejam de forma sustentável os ecossistemas inseridos em suas propriedades. “O Pantanal tem um limite de produção e os produtores deveriam ser compensados pela conservação das paisagens que contém uma rica biodiversidade”, comenta Santos. 

Como exemplo de incentivo, a coordenadora do Lei/UFMS cita o pagamento por serviços ambientais nessas áreas que são produtivas, ou seja, áreas que não são de preservação permanente ou reserva legal, mas que, por decisão do produtor, também são manejadas de forma sustentável.  

Santos reconhece que nem todas as fazendas possuem pasto nativo de qualidade e, por isso, é importante mapear os tipos de pastagens existentes em cada propriedade. Mas, ao mesmo tempo, ela explica que muitas espécies de pasto nativo apresentam melhor qualidade do que as exóticas. “A mistura de espécies nativas contribui para uma dieta funcional e sustentável que deve ser melhor valorada”, comenta a pesquisadora da Embrapa Pantanal, que é também uma das autoras de guia que apresenta a descrição da qualidade das principais pastagens nativas do bioma. 

O ideal, segundo ela, seria otimizar os recursos forrageiros nativos de melhor qualidade a partir da associação com a introdução de pastagens exóticas. Mas isso apenas “dentro de critérios técnicos e sustentáveis, que seria o manejo adaptativo das pastagens”, diz Santos. O manejo adaptativo ao qual ela se refere nada mais é do que o produtor levar em conta os períodos em que cada tipo de pastagem está disponível ao animal.

E isso vai depender se é um ano seco, chuvoso ou “normal”, sendo essa justamente a característica que configura o manejo secular do pasto que é praticado pelos produtores tradicionais. “Eles levam o gado para uma área e depois voltam para outra que tem uma gramínea nativa que está brotando mais, por exemplo”, comenta a coordenadora do Lei/UFMS. “É muito importante culturalmente para o Pantanal também”, conclui Garcia. Criação sustentável e orgânica de gado em fazenda Nhecolândia, no Pantanal sul-mato-grossense. Foto: Márcia Foletto 

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Dia Mundial da Agua -Celebração no Instituto Histórico e Geográfico do DF.