O Estado de S. Paulo
Há poucas semanas, o senador Aécio Neves, candidato dado como certo
para disputar a presidência pelo PSDB, oficializou a escolha do
economista Armínio Fraga para o posto de coordenador econômico de sua
campanha. Nesta série de entrevistas que ouve economistas integrados ao
debate político e, não raro, ligados aos partidos, Fraga é o mais
engajado. Muitos já o consideram ministro da Fazenda, caso o PSDB ganhe a
eleição. Ex-presidente do Banco Central, Fraga diz que ainda não se
aprofundou no estudo das propostas, mas o esboço tem pilares claros:
fortalecer a política fiscal, ajustar a inflação para o centro da meta,
desengavetar a reforma tributária, entre outras medidas que podem exigir
ajustes nem sempre populares. Mas ele acredita que o importante é
antecipar o que deve ser feito, sem "populismo" eleitoral. "O custo de
tomar medidas impopulares é muito menor do que o de não tomar", diz na
entrevista que segue.
Como o sr. vê a economia hoje?
Estou vendo um quadro que se quantifica com poucos números. Um
crescimento baixo, já entrando pela quarto ano, e a sinalização de que o
ano que vem também pode ser difícil por causa dos problemas que estão
se acumulando. Ao mesmo tempo, há uma inflação alta, em torno de 6%, já
há bastante tempo, mas reprimida.
A inflação real anda mais alta. Talvez
entre 7% e 8%. Esse não é um quadro bom. Há também o fato de que o
déficit em conta corrente do Brasil caminha para 4% do PIB no momento em
que os Estados Unidos segue para a normalização da taxa de juros e,
eventualmente, a China deve desacelerar. Isso também é uma questão,
especialmente porque a taxa de investimento do País não está aumentando.
Agora está acontecendo um movimento no mercado - que eu diria ser
técnico, com recursos mais de curto prazo, indo para um lado ou para
outro, mas isso não deve trazer um grande conforto.
O quadro geral ainda
não é tranquilo lá fora. Olhando aqui para dentro no Brasil, hoje o
governo concede 60% do crédito, que incorpora ainda repasses do BNDES.
Há não muitos anos eram 40%. É um modelo testado por nós, testado por
vários outros países que tende a não entregar o resultado que se quer -
tanto do ponto de vista de produtividade, da qualidade das decisões de
crédito e financiamento que são tomadas, quanto do ponto de vista do
risco.
O exemplo radical são os Estados Unidos com as grandes do mercado
de hipotecas, Fannie Mae e Freddie Mac (empresas privadas, mas com
propósito público, que eram implicitamente garantidas pelo governo), que
tiveram uma participação fundamental na bolha - uma senhora bolha.
Mesmo nos países mais maduros, essas lições permanecem válidas. Há
outros temas, de caráter mais setorial. Energia está no topo da lista.
Estamos correndo um risco muito grande nessa área.
Os dados,
infelizmente, vêm piorando. É grave a questão. O setor de petróleo é
outro bem conhecido. À Petrobrás foi designado o papel de grande
locomotiva do setor, mas, ao mesmo tempo, o governo vem asfixiando o
fluxo de caixa da empresa. Para não falarmos de outras intervenções,
como o mix de política industrial, política setorial também. Enfim, que
não vem dando resultado.
Talvez fosse até previsível. Em paralelo,
estamos vivendo a crise no setor de etanol - o que é uma tristeza. O
setor tem tudo para ser um líder global. Esse é um setor menos
antipático ao meio ambiente do que o do petróleo, que o dos combustíveis
fósseis. Estamos na situação singular de subsidiar o setor de
combustíveis fósseis - algo que vai na contra mão da recomendação
técnica.
A determinação é taxar e não subsidiar, porque esse setor
produz um efeito negativo para a sociedade. Esse é o típico caso em que
se recomenda fazer o oposto do que estamos fazendo. A infraestrutura
também é uma área que apresenta muitos desafios. Nesse caso, a visão é
que temos uma moeda com dois lados. Por um lado, a infraestrutura virou
um gargalo seriíssimo em praticamente todas as suas dimensões - e,
portanto, é uma barreira ao crescimento.
Mas ela deveria ser uma
fantástica oportunidade. Eu acho que se os futuros governos acertarem a
mão nas questões regulatórias e em outras que influenciam esse setor, eu
penso que ele pode virar ao nosso favor. Mas, nesse momento, é um
problema. O resumo é o seguinte, pensando de uma maneira mais
esquemática: a minha leitura é que hoje nós temos uma macroeconomia que
está perdendo as âncoras.
A área fiscal perde credibilidade, o chamado
tripé certamente está bem fragilizado. A microeconomia, que deveria
funcionar mais livre, apostando na concorrência, sofre por estar muito
amarrada - e amarrada na parte que cabe ao governo. Portanto, temos
dificuldades em buscar mais produtividade. Subindo ainda mais um nível
nesse esquema, penso que isso tudo espelha uma grande crise no Estado -
um Estado que vem continuamente crescendo, mas não tem sucesso em
entregar aquilo que se espera dele.
A qualidade da educação avança
lentamente. A população se queixa muito dos serviços de saúde. Hoje um
tema absolutamente vivo e importante é o da segurança. No geral, seria
preciso atacar essas questões. Claro que ninguém ainda inventou uma
fórmula para fazer transplante de Estado - essa é uma questão de
prática. São os governos que vão, aos poucos, melhorando ou piorando as
instituições de um país - e o governo precisa cuidar disso melhor.
Não
há exemplo de país que tenha se desenvolvido sem um Estado bom. Pode ser
pequeno ou médio. Eu sou cético em relação a ideia de que um País como
nosso pode e se desenvolver com um Estado grande demais. Um país precisa
crescer, precisa distribuir também, com certeza, mas eu não vejo o
mundo social como um jogo de soma zero. É preciso balancear as coisas.
Mas eu vejo o nosso modelo falhando, tanto pelo lado da distribuição,
que ainda é muito ruim, como pelo lado do crescimento.
Diga-se de
passagem, não acho que os dois sejam incompatíveis. Ao contrário. Mas é
preciso estruturar o funcionamento do Estado para que ele atinja esses
objetivos - e nesse momento, eles não estão sendo atingidos.
O que, na sua avaliação, pode acontecer por causa dos problemas que descreveu?
Eu vejo várias dimensões, como já mencionei. Algumas delas mais
dramáticas, outras menos. Eu colocaria no topo da lista hoje a questão
da energia. Na medida que a água atingir um certo nível - e já estamos
quase lá - provavelmente será preciso organizar um pouco as regras do
setor. A política de subsidiar ou reduzir de maneira artificial o custo
da energia aponta na direção de mais escassez lá na frente. Não ajuda.
Há que se tomar muito cuidado.
Se nós tivermos o azar de as chuvas
continuarem fracas, será preciso tomar providências o quanto antes. Isso
é delicado porque o tema é facilmente misturado com a política - mas é
inevitável que seja assim. Faltou planejamento. Esse setor deveria
trabalhar com flexibilidade para aguentar não um ano de seca, mas três.
Essa era a regra dos especialistas. A energia é o caso em que poderia
haver um problema maior - os outros casos não são tão dramáticos, mas
são igualmente sérios. O governo vem esticando a corda em várias áreas
da chamada macroeconomia. Chega um ponto em que o cobertor fica curto.
Eu penso que chegamos a esse ponto.
O caso da Petrobrás é um exemplo.
Descapitalizaram a empresa. O governo precisa arrumar recursos de outra
maneira. Isso gera subsídios. No setor elétrico, por exemplo, os custos
elevados de sustentar esse modelo, as estimativas variam, mas os
consumidores já estão sentindo o custo das termoelétricas. É grave. O
custo é grande. Então: de um lado a inflação preocupa, do outro lado, o
impacto fiscal preocupa. Assim, há uma sensação geral de perda de
confiança que vem paralisando bastante o investimento. Esse é um caminho
mais lento em direção ao futuro - e lento numa direção ruim. Estamos em
um ano de eleição.
Tipicamente, em anos de eleição, os governos são
mais flexíveis na condução das políticas. Aconteceu em 2010. Só que,
neste ano, o governo já entra com dificuldades. O saldo do primário já
vem sendo atingido com receitas não recorrentes e alguns artifícios de
natureza contábil, mas é preciso dar uma resposta mais clara, até para
que, mais adiante, seja possível retomar a trajetória de queda da taxa
de juros, que voltou a níveis muito elevados.
Essa, ao meu ver, é uma
boa forma de se pensar o que precisamos num regime macroeconômico. Eu
venho dizendo, já há algum tempo, que o Brasil tinha que ter como
objetivo juros de BNDES para todo mundo. O Pérsio Arida (um dos
economistas que idealizou o Plano Real), numa palestra recente, sugeriu
que o conjunto das políticas macroeconômicas se voltasse para atingir
esses objetivos também. Ou seja: ter juros mais normais no Brasil.
Esse é
um quadro que sugere o esgotamento de um modelo. Já vivemos isso na
nossa história. Modelos se esgotam. Isso é percebido por analistas, mas,
normalmente, se encontra muita dificuldade na hora de mudar. Os
modelos, por piores que sejam, têm sempre ganhadores - e os ganhadores
se agarram aos modelos e procuram evitar as mudanças. É uma questão de
economia política.
Isso aconteceu conosco na década de 70, quando o
Brasil procurou esticar o modelo que já não era capaz de entregar
resultados. Deu no que deu. Naquela época foram crises de balanço de
pagamento, inflação e tudo mais. Não quero dizer que a situação é igual.
Mas é fato que o Brasil hoje está vulnerável e precisa mudar. Essa
segunda dimensão de crise é mais difusa porque são vários fatores agindo
ao mesmo tempo. E ainda temos a possibilidade de 2015 ser ainda um ano
com baixo crescimento. Há tensões políticas e sociais. São quadros
complexos, mas que tem no fundo essa linha - é preciso mudar.
Levando em conta essas questões de curto prazo, o que o governo precisa fazer na largada em 2015 para resolver os problemas?
Cabe uma resposta bem ampla - talvez mais ampla do que possamos
detalhar aqui. Eu começaria com o lado macroeconômico. Começaria com um
reforço muito transparente das bases do tripé. Deveríamos ter metas
claras e transparentes para a contabilidade do saldo primário. As metas
deveriam ser plurianuais. Haveria também um comprometimento com a
normalização dessa situação de inflação reprimida e, ao mesmo tempo, a
busca de convergência para a meta. Se as duas ações são coerentes, elas
se reforçam.
Nos últimos anos, o Brasil viveu momentos difíceis em que a
política fiscal era expansionista, a política de crédito público - que é
muito relevante aqui no Brasil - era também expansionista e o Banco
Central tentava, do seu lado, enxugar a demanda e segurar a inflação. Eu
penso que esse reforço traria um grau de coerência. Racionalizar a
atuação dos bancos públicos faria parte dessa equação.
Do lado macro,
isso ajudaria a reduzir o prêmio de risco que o Brasil paga. Quando o
Brasil paga mais, todas as empresas que estão aqui pagam mais, todas as
pessoas que vivem aqui pagam mais também. É algo muito direto. No lado
que nós podemos chamar de micro, eu penso que há necessidade de abrir
mais frentes. Na infraestrutura, ao meu ver, seria necessário um
trabalho detalhado em cada área, repensando o que vem sendo feito,
procurando estimular o debate e o entendimento sobre porque as coisas
não estão acontecendo. Penso que há dimensões que são de arquitetura -
do desenho mesmo.
Mas tem também o lado da execução. É preciso repensar o
modelo com o setor privado em diferentes áreas. Em vários casos, pode
caber privatização. A agenda da infraestrutura é muito ampla - inclui
portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, energia, telecomunicações,
saneamento. Inclui praticamente tudo da nossa infraestrutura. Mas
existem vários outros temas.
O Brasil precisa, urgentemente, pensar numa
reforma tributária que simplifique o sistema. Isso envolveria,
essencialmente num primeiro momento, todo o aparato de tributação
indireta. ICMS. IPI. Organizar e simplificar seria muito bom. Cabe
mencionar que, ao meu ver, o crescimento da carga tributária precisa ser
limitado. Para isso, volto um pouquinho ao lado macro - o Brasil
precisa também adotar um limite para relação gasto público e PIB.
Por lei?
Por lei ou por decisão de governo, num primeiro momento. Mas é
preciso trabalhar para isso. Hoje, para um País de renda média, nos
temos uma carga tributária muito elevada. Isso é contraproducente. Isso
está dentro daquela ideia de que a economia precisa continuar
trabalhando para melhorar a distribuição de renda desse País - que é
terrível ainda - mas, ao mesmo tempo, precisa também criar condições
para que a taxa de investimento também aumente, para que o País seja
mais produtivo. São muitos os assuntos nesse mundo que chamo de micro. É
muito trabalhoso. Mas não creio que seja um bicho de sete cabeças. Dá
para fazer se tivermos uma agenda e também pessoas capazes ocupando
posições chaves. É um desafio enorme de RH também.
Qual seria o teto de crescimento do gasto público?
Os gastos teriam que crescer igual ou abaixo do PIB. E na trajetória que está os gastos crescem mais que o PIB...
Há muito tempo - e isso é natural. A sociedade tem demandas. Por
mais que tenha crescido e melhorado muito nos últimos 20 anos, o Brasil
ainda é um País carente. Mas é fato que se você fizer uma pesquisa vai
identificar que a sociedade quer tudo. Mas isso é uma grande ilusão. É
preciso pensar a coisa de uma forma dinâmica. Instantaneamente, você
pode até tentar alocar mais. Mas olhando a trajetória para frente, esse
não é o melhor modelo.
É um trabalho difícil, mas politicamente
importante. Precisa ser feito com transparência. É típico em momentos de
eleição a gente ouvir propostas em que a conta não fecha. Dizem: eu
quero 10% para cá, outros 10% lá, mais 10% aqui. Você vai fazer a conta e
não fecha. E vem: vou ter de aumentar a carga tributária em tantos
pontos do PIB. Sinceramente, para um País como o nosso, é difícil
imaginar como isso possa acontecer. É um tema difícil. Eu não sou
político. Vejo apenas a necessidade de um debate honesto. Não populista.
Qual seria o tamanho do esforço fiscal?
Acho que será preciso fazer um levantamento da situação. Não dá
para arriscar um número agora. Mas acho que o Brasil precisa de uma meta
positiva para o saldo primário, talvez maior um pouco do que ela é
hoje, nem que seja um tempo. E essa meta deve ser plurianual. Essa parte
é menos difícil. O tema do crescimento do gasto é complexo. Não podemos
nos iludir. Mas esse tem que ser um objetivo a perseguir com rigor e,
se for necessário, com a proposição de reformas também. Não tenho um
programa pronto aqui para discutir.
Em que campos as reformas?
Eu penso que em todas as dimensões do gasto. Antes de tudo, é
preciso mapear para, depois, tomar as decisões. Hoje eu presto uma
assessoria ao senador. Estudo e acompanho o que acontece no Brasil, mas
continuo dedicando uma parte do meu tempo à minha empresa. Mais adiante,
se ocorrer uma mudança, e eu participar, com a eleição do senador
Aécio, seria o caso de eu e muitos outros refinarmos essas questões. Mas
elas estão na categoria de questões polêmicas que se prestam ao
populismo que, ao meu ver, não agregam nada à qualidade da discussão e
ao próprio eleitor. Eu estou sendo um pouco cuidadoso porque acho que é
impossível negar a importância disso. Mas ir além é perigoso.
O próprio Aécio falou que está disposto a tomar medidas impopulares...
Sim, falou. Mas o que ele não falou - e eu não tenho procuração
para falar por ele - é que o custo de tomar as medidas por ventura
impopulares é muito menor do que o de não tomar. As pessoas têm de cair
na real.
Na prática, como é possível reduzir o gasto público com tanta demanda reprimida?
É questão de dar ao orçamento a importância que ele merece num
ambiente democrático. É preciso incluir tudo no orçamento - todos os
subsídios - e discutir o que dá para fazer e o que não dá para fazer. A
sociedade quer ou não aumentar a carga tributária? Que custos e
benefícios isso traria? A questão é decidir. Não é possível transformar o
Brasil instantaneamente numa Suíça ou num Estados Unidos. Dá para
chegar lá, mas demora um pouco e de trabalho.
A como fica a distribuição de renda? Uma das críticas é que isso implicaria cortes em programas sociais...
Não creio. Se você olhar os números vai ver que o bolsa família
não consome tanto dinheiro assim para o tamanho do resultado que gera.
Acho que precisamos discutir o que fazer além do bolsa família. O
próprio senador Aécio Neves tem feito propostas nessas direção -
inclusive pensa em transformar em lei. Seria ótimo para deixar claro à
população que esse é um tema importante. Mas precisamos ir além. As
pessoas querem ter qualidade vida, mesmo quando têm uma vida difícil.
Mais do que isso - querem trabalhar, querem que seus filhos se
qualifiquem para ter uma vida digna. Temos que usar o bolsa família como
uma base.
Todos os candidatos sabem disso. Às vezes fazem ameaças:
dizem que vão acabar com o bolsa família. Isso é um absurdo. É uma
mentira. É preciso analisar melhor para onde o dinheiro público está
indo. O Gustavo Franco fala com frequência que há no Brasil o bolsa
empresário. Ele coloca isso de uma maneira muito gráfica, muito boa.
Isso precisa ser discutido. Sempre. Agora, antes da eleição, e depois
também. É uma carência no debate: para onde vai o dinheiro? Qual o
impacto distributivo de tudo isso? É um ótimo tema para encarar de
frente.
E de onde o sr. acredita que viria o crescimento econômico?
Esse é outro ponto bom. É uma bela pergunta: de onde vem o
crescimento? É como aquela pergunta das criancinhas: de onde vem os
bebês? Certamente, o crescimento não vem com as cegonhas. O crescimento
vem de mais investimento em capital, em educação e de mais produtividade
em geral. Ou seja: vem de uma economia que funcione melhor. E quem é o
grande participante da economia? O Estado. Então é preciso que o Estado
também faça a sua parte. Mas isso não querer dizer que seja preciso
aumentar o gasto público.
Aumentar o gasto pode gerar demanda no curto
prazo. Mas demanda não basta. É preciso resposta da oferta: mais
produção, mas emprego, mais investimento. O crescimento depende do
casamento entre demanda e oferta. Hoje fica claro que o governo fez uma
aposta hiper keynesiana na demanda. De novo, eu insisto: claro que deve
haver demanda. Nenhum empresário vai investir se não acreditar que vão
comprar os produtos deles. Mas precisa haver oferta - e é isso que está
falando no Brasil. Não falta demanda. A demanda continua lá.
Estabilizando o Brasil, quando o crescimento poderia ser mais robusto?
Rápido. Um ano. Dizer em quanto é chutar um pouco, mas um País
que tem uma renda per capita inferior em 20% a renda per capita dos mais
ricos deveria poder crescer durante vários anos a 4%, 5% ao ano, mesmo
com a demografia piorando. Temos que nos lembrar que a taxa de
crescimento da força de trabalho caminho para zero ao longo de
relativamente pouco tempo. No passado, só daí vinham uns 3 pontos
porcentuais de crescimento.
Essa nova realidade sugere que um
crescimento sustentável de 4 a 5% seria excepcional. E acho também que a
China vai cair para algo assim. Havia um certo sonho aqui de que o
Brasil poderia crescer 10% ao ano - mas é bem mais difícil. Nem sei se é
viável numa sociedade como a nossa, que tem uma preocupação muito
grande e correta com o social. A China tem uma preocupação com o
emprego, mas só um regime autoritário poderia fazer o que eles fizeram:
reproduzir um modelo de desenvolvimento sem rede de proteção social -
algo altamente indesejável do meu ponto de vista. Mas aqui no Brasil há
uma certa inveja do que eles fizeram. Eu não teria inveja, não. Acho que
estamos bem. É só arrumar a casa.
O sr. mencionou privatizações. Há setores em mente?
Nenhum especificamente. Mas penso que todos os da infraestrutura
se oferecem bem para esse caminho - o que o governo chama de
concessões. É a mesma coisa. Eu não tenho medo de usar a palavra que
acho correta. Mas praticamente todos da infraestrutura cabem em regimes
de concessão, em parcerias público privadas, sem perda de controle do
regramento que cabe ao Estado em vários desse setores. Não creio que
isso seja incompatível com esse desenho. Como esse desenho é do
presidente Fernando Henrique, ficou hibernando um tempo, e agora voltou.
É ótimo que tenha voltado.
No evento de aniversário do Real, o ex-presidente
Fernando Henrique disse que o Plano Real é o início de um processo que
foi interrompido. O espírito é retomar àquele processo?
É preciso ter na cabeça a sequência do que aconteceu. O Plano
Real tirou o País do caos. Não havia chance para nós na bagunça da
hiperinflação. Depois veio a reforma do Estado. O Estado no Brasil fazia
coisas demais. Estava envolvido em siderurgia, fertilizantes, tinha
presença maciça no setor financeiro, com bancos estaduais. Nada daquilo
vinha dando certo. Houve essa guinada e, na época, a decisão de Fernando
Henrique foi focar em saúde e educação especificamente. Nas outras, ter
uma presença indireta - sempre que possível, acreditando na
concorrência. Eu penso que não há nada mais saudável do que a
concorrência. Os empresários não querem moleza. Querem um ambiente
previsível, limpo, para concorrer, inovar, investir e assim por diante.
Hoje eles são meio reféns da situação e isso não é o ideal.
Depois da
guinada, as coisas foram evoluindo. Houve a chegada do PT ao poder - num
primeiro momento, uma excelente surpresa. Agora, de uma certa maneira,
estamos retrocedendo. O presidente Fernando Henrique, naquela
comemoração, fez menção a um ponto claro, como aliás é do feitio dele,
sobre a atuação do governo. Usando minhas palavras, mas colocando mais o
ou menos o que ele disse: a fase de uma presença e de atuação do
governo em vários desses pontos, saúde e educação, por exemplo, já
alcançou quantitativamente um tamanho bom. Mas agora chegou a fase da
qualidade. O Estado precisa melhorar a qualidade dos serviços que
entrega para a população. Além desses dois, o tema da segurança é um dos
mais importantes e o tema da regulação, idem. Tem muita coisa a ser
feita do ponto de vista qualitativo. Foi o que ele colocou lá e eu penso
que é uma boa maneira de definir o que é preciso fazer.
O que fazer com a política do salário mínimo, que começa a ser revista no início de 2015?
É outro tema que precisa ser discutido. O salário mínimo cresceu
muito ao longo dos anos. É uma questão de fazer conta. Mesmo as grandes
lideranças sindicais reconhecem que, não apenas o salário mínimo, mas o
salário em geral, precisa guardar alguma proporção com a produtividade,
sob pena de, em algum momento, engessar o mercado de trabalho. A
política do salário mínimo tem tido impactos relevantes. É um tema muito
complexo e polêmico. Não tenho uma receita pronta. Estou prestando uma
assessoria ao senador Aécio Neves, mas não estou entrando neste nível de
detalhe. Outras perguntas que chegam com frequência é sobre como fazer a
reforma tributária, o que fazer com as desonerações, o que fazer com os
preços congelados - vão liberar de uma vez, vão fazer gradualmente? São
questões da maior importância.
Quem assumir o governo vai ter de pensar
em tudo isso. Mas o tema é polêmico. Eu gosto muito de analisar as
coisas antes de emitir uma opinião. É opinião antiga, de gente que faz
conta, que o vínculo do salário mínimo com a previdência tem um custo.
Como ocorre em todos os outros temas, é preciso pensar em custos e
benefícios. Nesse ponto, entramos no terreno da política, onde não me
sinto à vontade para entrar, especialmente neste momento. É fácil ser
mal interpretado.
O sr. mencionou que o importante é ter um ambiente favorável aos negócios. Estão pensando também na reforma trabalhista?
É outro tema. Não tenho dedicado muito tempo a essa área. Todo
economista que fala de reforma no Brasil cita as reformas tributária,
trabalhista, previdenciária. São temas antigos. Eu não teria uma
proposta. O Brasil, bem ou mal, está com o desemprego baixo. Talvez não
seja um tema tão urgente quanto o da reforma tributária.
E além da reforma tributária, há outra reforma prioritária?
Sim. Toda a política externa do Brasil precisa ser repensada.
Essa estranha predileção por parcerias e aproximações com regimes
autoritários, como Cuba e outros exóticos, não tem trazido nenhum
benefício ao Brasil. Não quero dizer que o Brasil não precisa ter um
diálogo com todo mundo, com a Venezuela, por exemplo. Mas o Brasil
precisa se engatar nas grandes locomotivas mundiais. Esse é um ponto
muito importante. Já não é de hoje que vejo com muita preocupação a
posição do Brasil no ranking do Banco Mundial chamado Doing Business. É
um ranking de ambiente de negócios e o Brasil está lá embaixo na
classificação. Não me lembro exatamente a posição, mas sei que ele está
lá atrás. Eu penso que o Brasil poderia tratar de todas essas dimensões.
Em termos de política externa, o que deveria ser feito?
Como a maioria dos economistas, tenho muita simpatia por acordos
multilaterais. Mas esse front não tem avançado. Quem sabe agora, com o
embaixador Roberto Azevêdo (diplomata brasileiro, diretor-geral da
Organização Mundial do Comércio, a OMC), as coisas comecem a andar. Ele
começou muito bem. Mas é uma tarefa muito difícil. O Brasil precisa
estar preparado para entrar nela e ter, claro, do outro lado, uma
costura igualmente aberta.
A própria postura dos Estados Unidos tem sido
difícil em temas como o setor agrícola e o antidumping. Esse é um
caminho. Mas, na prática, em paralelo à OMC, a maioria dos países tem
feito acordos bilaterais e regionais. O Brasil precisa avançar nesse
direção. Primeiro, imagino, com a Europa, que já está pipeline
(expressão em inglês que significa roteiro) há algum tempo.
Eventualmente, poderíamos pensar algo com Estados Unidos e China. Talvez
seja necessário repensar o Mercosul também. Especialistas acreditam que
o Brasil, a essa altura, poderia transformar a união aduaneira num
tratado de livre comércio. Tenho simpatia pela ideia.
O sr. é a favor da autonomia do Banco Central?
Sou. E sou porque, na prática, é o que os governos tendem a
fazer na maior parte do mundo. Eu gosto de usar a nomenclatura
"autonomia operacional". Ou seja: a definição das metas ficaria com o
governo e, claro, deveriam ser metas de longo prazo para não ficarem
expostas aos ventos do círculo político. Mas o governo preservaria esse
direito. Isso significa ter mandatos para os dirigentes do Banco
Central. Claro que se houvesse problemas na atuação, se não estiverem
cumprindo os seus objetivos, o governo, no limite, poderia pedir ao
Senado a remoção de quem for, inclusive do presidente. Esse é um sistema
bem testado e requer um Banco Central transparente. Mas, hoje, ninguém
questiona isso.
Eu passei pelo Banco Central e posso garantir: uma das
grandes vantagens do modelo de metas da inflação é justamente a
interação com os analistas, os economistas, os consultores que
trabalham, no fundo, de graça para o Banco Central. O Banco Central
apresenta suas ideias, explica o porque de suas ações e recebe as
críticas, que são extremamente úteis. Funciona bem. Claro que precisa
ser um sistema flexível, no sentido de o Banco Central poder e dever
trabalhar para suavizar o ciclo econômico - é uma função clássica - e
ser o guardião da estabilidade financeira. Esse seria o desenho. Eu
creio que isso deva ser transformado em lei.
Na sua passagem pelo Banco Central, em 1999, o sistema
de metas de inflação serviu como uma âncora. Nesse momento de transição,
que o sr. descreve como difícil, o sistema de metas pode ser um âncora
ou será preciso outra política?
O sistema de metas de inflação é muito bom, mas sozinho não
chega lá - é preciso uma âncora fiscal. Foi o que aconteceu naquela
época. Lembro muito bem do esforço fiscal, naquele momento muito maior
e, em paralelo ao esforço de aumentar o saldo primário, houve também
todo um trabalho que desembocou na Lei de Responsabilidade Fiscal. Nós
que estávamos no governo na época já procurávamos cumprir. O projeto já
havia sido apresentado e aquilo era uma bússola para o nosso trabalho.
Sem o fiscal, o sistema de metas teria fracassado. Eu penso que a
situação hoje é idêntica nesse sentido. O momento naquela época era mais
turbulento, porque havia medo que a inflação voltasse a níveis
elevados. Primeiro, as expectativas no início de 1999 eram muito
dispersas, depois, muito elevadas, entre 20% e 50%.
Nós tínhamos saídos
de um ambiente hiperinflacionário, a duras penas. Antes do Plano Real,
vários planos foram testados e deram errado. Havia um receito naquele
momento: será que vai ser mais um caso como os outros? Felizmente, não
foi. Mas foi preciso um esforço fiscal que, aliás, foi anunciado pelo
presidente antes da eleição - isso é muito importante. Ele teve a
coragem e o bom senso de pactuar isso com a sociedade e, depois, pôde
fazer as coisas com toda a tranquilidade. De novo, eu repito o que disse
para a situação de hoje: o custo para o ajuste é muito menor que o
custo do não ajuste. Naquela época, as projeções para o crescimento do
PIB eram menos 4% em janeiro de 1999. Depois, acabou sendo ligeiramente
positivo - uma diferença de 4%. Eu sou a favor que as providências sejam
tomadas.
Nessa reorganização, como ficam os repasses dos bancos públicos, como BNDES?
Esse é um daqueles temas. Eu penso que o trabalho dos bancos
públicos carece de mais análise e transparência. Não existem estudos
sobre o que o BNDES vem fazendo há décadas. Eu até conheço o trabalho do
BNDES e creio que um estudo seria bastante interessante. Mas o BNDES
vem se agigantando, fazendo empréstimos a taxas muito baixas, sem, ao
meu ver, uma análise do impacto social desses programas, até para que se
possa decidir se vale a pena continuar ou não. Carece de transparência.
Minha impressão é que vai ser preciso fazer essa análise - e o papel do
BNDES, a médio prazo, será menor. Não há muita dúvida. É preciso dizer
que a maioria das atividades não precisa de subsídio. Eu já disse isso.
Os empresários precisam ter um ambiente bom para trabalhar, mas não há
necessidade de subsidiar. Até acho que os subsídios põem pressão na taxa
de juros para o não favorecidos.
Qual seria o papel da indústria?
O papel da indústria é muito importante. É inegável que a nossa
indústria vive um momento difícil. O ataque nessa questão precisa ser
feito em várias frentes. Toda essa questão do Custo Brasil, da
infraestrutura, da questão tributária faz parte da resposta, bem como a
integração do País às cadeias globais. Eu penso que as lideranças
empresariais - hoje muito bem representadas por pessoas como Pedro
Passos (sócio da Natura e Presidente do Instituto de Estudos para o
Desenvolvimento Industrial), que vêm revolucionando a maneira de pensar o
setor - têm uma visão mais holística da coisa.
Mas é inegável, também,
que a evolução natural do desenvolvimento leva o setor de serviços a
ficar maior do que o da indústria. Não há problema nisso. Às vezes, as
pessoas pensam que só é bom o que elas podem pegar, mas não é assim. Só
para citar um exemplo: há os serviços de saúde. Tem coisa mais
importante do que a saúde? Vai ser natural: com o tempo, o setor de
serviços vai ganhar mais espaço. O turismo, o entretenimento, a saúde, a
educação. Mas está claro que a indústria precisa de uma atenção. Tem
cura. O Brasil é grande. Não tenho medo nessa área, mas vejo muitas
dificuldades.
O sr. viveu duas transições na prática - a de 1998 para
1999 e depois o final do governo de Fernando Henrique para o de Lula.
Agora está no meio do debate de uma eventual transição. Há comparações
entre os diferentes momentos?
Eu vivi outra transição. Fui diretor do Banco Central em 1991 e
1992. Fiz parte da segunda equipe econômica do governo Collor
(ex-presidente Fernando Collor de Mello) para criar as condições de
estabilização. Foi uma tremenda encrenca aquela época. Eu acho que faz
parte do processo de amadurecimento. Se eu puder colaborar, estou
disposto. Desde que haja - e no caso do meu relacionamento com o senador
Aécio há - um alinhamento muito grande de visões de sociedade, de
governo. É uma visão genuinamente progressista e eficiente, que tem
capacidade de entregar resultado. Eu fiquei muito contente quando ele me
procurou.
E faz quanto tempo?
Eu o conheço há mais de 20 anos. Não foi uma coisa da noite para
o dia. Mas a conversa começou em janeiro de 2013 e se aprofundou nos
últimos meses. De novo: eu estou mais na estratégia do que na prática.
Não faço parte da campanha. No momento, eu não posso e não é isso que
ele espera de mim. Mas, eventualmente, se ele tiver sucesso - e eu
acredito que terá - eu estou a disposição.
Como sr. está vendo o cenário eleitoral?
Muita água ainda vai correr. Há um clara insatisfação com o que
se tem hoje. Há espaço para a mudança. Eu espero que isso aconteça - não
vou esconder as minhas preferências que são óbvias a essa altura -, mas
penso que seria bom, de qualquer maneira, que aconteça. Eu acredito no
debate que acontece pela imprensa, mais no caderno econômico do que no
de política, aqui no Brasil. O debate econômico é muito bom. Eu leio os
jornais de outros países. O Brasil tem densidade nessa discussão. É
preciso que essa densidade seja de alguma utilidade também para o debate
político. Isso tudo pode ser muito bom, mesmo que seja o ano em que os
governos costumam esticar um pouco acorda para se reelegerem.