segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Valor Econômico – Energia nuclear, desnecessária e economicamente inviável / Artigo / Clauber Leite


Krisztian Bocsi / Bloomberg

A energia nuclear está de volta aos holofotes. O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, afirmou que o ministério estuda a "viabilidade econômica" de retomar as obras da usina de Angra 3 para inaugurá-la em 2026. A perspectiva é não só dar andamento a essa construção, como instalar até oito novas plantas no país nos próximos anos. Entretanto, o diálogo relativo ao tema deve levar em conta preocupações muito concretas da sociedade em relação ao projeto cujas obras estão paradas: os custos são excessivos e ele pode representar uma transferência de renda indevida dos consumidores de energia aos acionistas da Eletrobras, controladora da Eletronuclear, empresa responsável pela energia nuclear no país.

Em termos técnicos, deve-se atentar ainda às considerações do próprio planejamento setorial, que não indica o investimento na fonte nuclear para a operação do sistema nas próximas décadas. Além disso, por maior que seja a vontade política e a capacidade de gestão do governo, ainda não se pode dar por concluída a recuperação da economia brasileira e, consequentemente, é grande o risco de falta de recursos para projetos desse porte.

Angra 3 começou a ser construída em 1984, mas as obras foram suspensas pouco depois, em 1986, justamente devido à falta de dinheiro e ao custo elevado. A decisão também foi embasada em dúvidas quanto à conveniência e os riscos da energia nuclear na matriz elétrica brasileira. O projeto ficou engavetado até ser retomado no segundo governo Lula. Na época, o custo estimado para o seu término era de R$ 8,3 bilhões, e a conclusão estava prevista para 2014. Mas atrasos comprometeram esse prazo, ao mesmo tempo em que as investigações da Polícia Federal revelaram desvios de recursos na obra, resultando na prisão de executivos da Eletronuclear e em nova paralisação da construção. Agora, a perspectiva é que a conclusão da usina demande mais R$ 15,5 bilhões, totalizando R$ 23,5 bilhões.

A esse preço, Angra 3 facilmente vai figurar entre os projetos mais caros do setor elétrico brasileiro. Para se ter uma ideia, em termos de potência instalada, deve corresponder a cerca de 1% da somatória de projetos de geração contratados no período de 2005 a 2018. Mas em termos de custo, a proporção é de 10%. Os preços da energia negociada nos leilões confirmam e reforçam a disparidade: diversas fontes que também não emitem gás carbônico foram contratadas como energia de reserva - ou seja, destinadas a aumentar a segurança no fornecimento no Sistema Interligado Nacional (SIN), como seria o caso de Angra 3 -, por cerca de metade (ou menos) do valor previsto para a fonte nuclear. Os preços médios da energia de biomassa (R$ 205,80 por megawatt-hora MWh), eólica (R$ 180,24) e de pequenas centrais hidrelétricas (R$ 245,66) foram muito menores do que o previsto para a energia da nova usina (R$ 480), segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética.

A energia de Angra 3 teria custo superior ao de termelétricas a gás natural e ao de fontes renováveis

Ainda no que diz respeito aos custos, estudo do Instituto Escolhas e da consultoria PSR mostra que a energia de Angra 3 é a mais cara entre todas as opções disponíveis. A pesquisa considera critérios objetivos (valor da obra, custo fixo de operação, subsídios e prêmio ambiental), e mostra que a energia a ser produzida pela usina teria custo superior ao de termelétricas a gás natural e de fontes renováveis. Mais, indica que, se o governo desistisse de concluí-la, desmontasse o que já foi feito e substituísse a potência da planta por parques solares no Sudeste, haveria uma economia de R$ 12,5 bilhões em um período de 35 anos.

É importante o fato apontado pela Eletronuclear de que a usina contribuiria para o sistema elétrico nacional por estar localizada no principal centro de carga do país, com menores custos de transmissão. Contudo, a comparação feita pelo Instituto Escolhas também leva em conta usinas solares com essa vantagem, bem como os subsídios que recebem. Nesse cenário, o preço da energia solar para o consumidor seria elevado - de R$ 328 por MWh - mas, ainda assim, inferior ao de Angra 3.

No plano técnico, por sua vez, há dúvidas quanto à efetiva necessidade da fonte nuclear. Certamente, é muito positiva a perspectiva de que a energia de usinas do tipo proporcione maior segurança energética e elétrica ao sistema brasileiro. Deve-se, no entanto, avaliar a real importância desses atributos. As duas últimas edições do Plano Decenal de Expansão de Energia (2026 e 2027) indicam que o país vai precisar, no médio e longo prazo, da contratação de potência e de tecnologias que acrescentem flexibilidade ao sistema, com usinas que possam ser acionadas rapidamente para momentos específicos. Isso se deve à participação crescente das novas energias renováveis intermitentes na matriz brasileira, como eólica e solar. Usinas nucleares são extremamente inflexíveis, ou seja, totalmente inadequadas para cumprir essa função.

Por fim, a precificação da energia de Angra 3 recomendada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em outubro último (R$ 480 por MWh), como alternativa para viabilizar a construção da usina, pode gerar um favorecimento ilegal dos acionistas da Eletrobras. Isso porque o preço das ações adquiridas até então considerava os contratos assinados pela empresa se comprometendo à entrega da energia ao valor inferior previsto anteriormente (R$ 250 por MWh). A efetiva viabilização do processo ao valor indicado pelo CNPE pode resultar, portanto, numa transferência ilegal de renda do consumidor final para os acionistas da companhia.

O Brasil não pode se entregar ao preconceito e à desinformação nos debates sobre energia nuclear. Mas é justamente quando se joga luz ao tema, com a análise de estudos e de cenário, que antevemos problemas se esse modelo for adotado: será mais caro e ineficiente.

Clauber Leite é pesquisador em Energia e Consumo Sustentável do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

GDF faz parceria para preservar córregos que abastecem os lagos

GDF faz parceria para preservar córregos que abastecem os lagos

O Sistema Agroflorestal (SAF) permite que produtores rurais desenvolvam suas atividades sem desmatar a vegetação nativa


A região da Serrinha do Paranoá é totalmente preservada. A área ainda é rural, a água dos córregos é limpa e não há sinais de assoreamento nem erosão. Fotos: Lúcio Bernardo Junior / Agência Brasília


Produtores rurais que vivem nas regiões da Serrinha do Paranoá, no Lago Norte, na ARIE1 da Granja do Ipê, na área do Riacho Fundo, e no Alto Descoberto, em Brazlândia, serão apresentados a uma nova forma de produção que garante a proteção dos córregos que abastecem os dois grandes lagos do Distrito Federal: o lago Paranoá e o reservatório do Descoberto. A ideia é implementar um conjunto de boas práticas e treinar os agricultores para usar o Sistema Agroflorestal (SAF) um método de produção que permite plantar sem a necessidade de desmatar a vegetação nativa.

A iniciativa faz parte de um projeto do Global Environmental Facility (GEF) para Cidades Sustentáveis, um fundo gerido pela Organização das Nações Unidas (ONU) e coordenado localmente pela Secretaria de Meio Ambiente do DF (Sema). O GEF Cidades Sustentáveis, como é chamado, é a prioridade do governador Ibaneis Rocha para a área ambiental nos próximos quatro anos.

A agrofloresta é um sistema de plantio de alimentos sustentável e capaz de promover a recuperação de uma floresta. São formas de usar e manejar a terra que combinam, de forma simultânea ou sequencial, o plantio de árvores com cultivos agrícolas e até a criação de animais. Como piloto, a Sema pretende treinar, com uso de máquinas, 40 produtores rurais das duas regiões e, assim, garantir a qualidade e a quantidade dos córregos que deságuam no lago Paranoá e no Descoberto.

“Esses córregos mantêm nossos lagos de abastecimento público cheios”, explica a subsecretária de Assuntos Estratégicos da Sema, Alessandra Péres.
“A agrofloresta é muito mais amigável do ponto de vista da proteção do solo, de proteção da vegetação e particularmente na manutenção da infiltração de água e dos afluentes desses dois grandes mananciais de abastecimento do DF Alessandra Péres, subsecretária de Assuntos Estratégicos da Sema

Captação
De acordo com a Companhia de Saneamento Ambiental (Caesb), cerca de 60% da população do DF é atendida pelo sistema do Descoberto e 7%, pelo sistema de captação do lago Paranoá. Mas já existem estudos em curso da companhia para aumentar a captação de água do Paranoá.

O trabalho vai começar pela região da Serrinha do Paranoá, que reúne dez núcleos rurais em uma área que vai da ponte do Bragueto até o Paranoá. Neste sábado (16), a Sema promoverá, na Administração do Lago Norte, uma oficina de sensibilização para os agricultores que vivem no local. O evento deverá reunir cerca de 100 produtores. Caso sejam selecionados para participar do programa, eles terão direito ao diagnóstico da propriedade, com capacitação e implantação das áreas de agroflorestais.

O objetivo do GEF Cidades Sustentáveis na Serrinha do Paranoá é garantir a preservação dos córregos Urubu, Gerivá, Palha, Taquari, Tamanduá e Capoeira do Bálsamo, que deságuam no Paranoá. A região fazia parte do cinturão verde do DF – concebido por Lúcio Costa para abastecer a capital com produção local –, mas sofre com a pressão urbana. Há anos a Administração do Lago Norte, outros órgãos do GDF e lideranças comunitárias tentam evitar o parcelamento do solo e o adensamento populacional.

Esse esforço vem se mostrando bem-sucedido. A região é totalmente preservada. A área ainda é rural, a água dos córregos é limpa e não há sinais de assoreamento nem erosão. “Se a gente não tivesse preservado essa área, estaria tudo ocupado”, explica Nilton Lavoyer, 78 anos, dono de uma chácara de quatro hectares no Núcleo Rural do Urubu. Em sua propriedade, a Área de Proteção Permanente (APP) em volta do córrego é cercada e tem vegetação nativa. Ele cria abelhas e produz limão, goiaba, jabuticabas e manga, tudo para consumo próprio. “Tenho essa terra desde 1985, mas mantenho isso aqui para preservar e ter sossego”, conta.

Nilton Lavoyer, dono de uma chácara no Núcleo Rural do Urubu: “Se a gente não tivesse preservado essa área, estaria tudo ocupado”

O engenheiro agrônomo Vitor Ramos Simões, 34 anos, é candidato a receber as ações do projeto na propriedade da família, de 27 hectares, e já separou uma área dentro da chácara onde pretende testar a agroindústria. “Essa região é a mais importante para a recarga do lago Paranoá. Tenho orgulho em falar que minha chácara é totalmente preservada. Já vi lobo-guará, veado- campeiro e tatu por aqui”, afirma.

Cidades sustentáveis
Brasília e Recife foram escolhidas para piloto do projeto GEF Cidades, que pretende desenvolver soluções tecnológicas, de produção e compartilhamento de conhecimento para transformar as duas capitais nas duas primeiras cidades sustentáveis do Brasil. O programa prevê estudos estratégicos para subsidiar melhor as ações da gestão pública e iniciativas piloto – a experimentação de novas ideias que podem ser ampliadas no futuro.

No DF, esse projeto também prevê estudos sobre a recuperação da área do Lixão da Estrutural, a elaboração de pesquisas que analisem os impactos das mudanças climáticas no DF e na Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride), a elaboração de planos de adaptação e mitigação dos impactos, além da implantação do Fórum de Mudanças Climáticas do DF. Usinas solares em prédios públicos também serão testadas, havendo a previsão de recuperar 60 hectares de APPs de nascentes (50 metros em torno da nascente).

Pesquisador João Suassuna da FUNDAJ analisa as hipóteses de contaminação da bacia do Rio São Francisco com rejeitos de minério

Notícias


17/02/2019 22:13

Pesquisador João Suassuna da FUNDAJ analisa as hipóteses de contaminação da bacia do Rio São Francisco com rejeitos de minério

Ouça o áudio acessando o link:

https://www.brasildefato.com.br/2019/02/12/de-brumadinho-ao-velho-chico-conversa-do-revista-bdf-pernambuco-e-em-tom-de-alerta/


Há riscos de contaminação da bacia do Rio São Francisco com rejeitos de minério decorrentes do crime em Brumadinho (MG)? A conversa com o pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) João Suassuna apresenta alertas sobre os perigos de uma possível contaminação do Velho Chico. O entrevistado analisa as propostas de contenção do rejeitos e as projeções sobre o que a hipótese de contaminação representaria para o Nordeste brasileiro.

Antes das conclusões, a entrevista adentra pelos contextos de Convivência com o Semiárido, Transposição do Rio São Francisco e a situação de represas pelo país.

Ouvimos também: Timóteo Silva, coordenador nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Carmen Miranda, atingida pela Barragem de Serro Azul, em Palmares (PE) e  Maria Alice Borges Silva, ribeirinha e presidenta da Associação de Pescadores de Lagoa do Curralinho, em Juazeiro (BA).

Vitrola de Fato: "Festa" (Gonzaguinha); "Riacho do Navio"(Gerealdo Azevedo e Alceu Valença); "Voo Cego" (Lula Queiroga); "Deixa a vida me levar"(Zeca Pagodinho).
A reportagem original é do Brasil de Fato que tem o título:

"De Brumadinho ao Velho Chico?" Conversa do Revista BdF Pernambuco é em tom de alerta

Edição: Daniel Lamir

Sistema trata esgoto sem usar energia, químicos e reutilizando água

Foi tentando encontrar uma solução para a limpeza do local onde criava porcos que Cristiano Shedid teve a ideia de criar a Ecofossa, um sistema de tratamento de esgoto totalmente ecológico e que está alinhado ao sexto dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. O produto, que é fabricado em Brasília, faz toda a separação e transformação de matéria orgânica, além de ter como vantagens o fato de não utilizar energia elétrica ou substâncias químicas. Desde 2015, o Sebrae é parceiro da ONU no fomento aos negócios de impacto social e ambiental.

A Ecofossa é uma empresa brasiliense que surgiu por meio de um projeto na incubadora de empresas do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (CDT) da Universidade de Brasília (UnB). Hoje ela tem sede no Distrito Federal e possui filiais em Goiás e na Bahia. “Nós trabalhávamos com suinocultura, quando vimos a necessidade de se fazer a limpeza”, conta Cristiano. “Procuramos a UnB e abrimos a indústria”, comenta. O empresário conta que, a partir disso, e durante 10 anos, a Ecofossa participou das Feiras do Empreendedor promovida pelo Sebrae em diversos estados brasileiros mostrando seu produto.

De acordo com a missão da empresa, o maior objetivo do desenvolvimento do projeto foi para diminuir o impacto da ação humana no meio ambiente, principalmente em relação à água. “O equipamento hoje é usado na indústria, no comércio, em hospitais, residências, hotéis, entre outros locais”, observa Shedid. “Nosso leque é bem variado”, acrescenta o empresário. A fossa ecológica produzida pela empresa é um sistema ecológico de tratamento do esgoto que aumenta a ação das bactérias sem usar energia elétrica ou produtos químicos, além de reduzir gastos com caminhões sugadores de fossas. Depois do tratamento, a água é devolvida ao meio ambiente e poderá ser reutilizada na irrigação de plantios, sem causar poluição.

Ecofiltro

Além da fossa ecológica, a empresa investiu ainda no Ecofiltro, um pós-tratamento que juntamente com a Ecofossa devolve para o meio ambiente uma água inócua. Com isso, o líquido com nutrientes pode ter sua infiltração diretamente no solo ou ser reutilizado até na irrigação de plantações, complementando a adubação do terreno. Tudo isso sem poluir os lençóis freáticos, perfazendo o ciclo natural. A empresa também trabalha com outros itens que não agridem a natureza, como: limpa fossa ecológico, caixa de gordura, separador de água e óleo, entre outros. Conforme a demanda do cliente, os produtos podem atender a todas as especificações da Agência Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e do Programa de Pesquisa em Saneamento Básico (Prosab) e Fundação Nacional de Saúde (Funasa).

Cristiano conta que a Ecofossa foi incubada pela UnB em 1990 e em 2015 a empresa foi convidada a se instalar no Centro de Desenvolvimento Tecnológico da própria universidade. Depois do DF, Bahia e Goiás, a empresa pretende expandir seus negócios para outras regiões do país, principalmente para áreas onde exista carência de saneamento básico. A conquista do mercado externo também está nos planos futuros da empresa.

AS INCERTEZAS NA GESTÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS COM OS NOVOS ARRANJOS INSTITUCIONAIS *

Artigos

14/02/2019 07:37

AS INCERTEZAS NA GESTÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS COM OS NOVOS ARRANJOS INSTITUCIONAIS *

*Por Daniela Maimoni de Figueiredo.


Em novembro de 2018, logo após o segundo turno da eleição para presidente, Bolsonaro e sua equipe anunciaram a fusão do Ministério de Meio Ambiente com o de Agricultura, provocando intensa reação contrária de vários setores que sabem da importância da área ambiental e dos claros conflitos de interesse entre essas pastas.


            Após a posse do novo governo, essa ideia foi descartada, mas outros arranjos institucionais foram criados, resultando nos Decretos nº 9.666 e 9.672 de 02 de janeiro de 2019, os quais, entre outras medidas, transferiram todo o Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos (SINGREH) e a Agência Nacional de Águas (ANA) da pasta de Meio Ambiente para o Ministério de Desenvolvimento Regional. As reações a essa mudança foram tímidas, mas algumas dúvidas e incertezas pairam sobre os que estão direta ou indiretamente envolvidos com o setor de recursos hídricos, as quais merecem reflexão.

            Em pouco mais de 20 anos da aprovação da Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei n° 9.433 de 1997), na qual se baseia toda a gestão dos recursos hídricos no país, muitos foram os avanços legais, institucionais, democráticos e de ações de controle, manejo, planejamento e conservação das águas. Porém, ainda existem várias lacunas e melhorias necessárias, especialmente no que se refere à efetiva gestão integrada e sistêmica no âmbito das bacias hidrográficas, à melhoria na conexão com as outras políticas ambientais e vários setores correlatos (saneamento, energia), à participação social, uma vez que existem assimetrias no poder decisório de alguns foros colegiados que compõem o SINGREH, e o acesso igualitário à água, tendo em vista que as desigualdades e os conflitos gerados são uma realidade.

A grande heterogeneidade na disponibilidade de água e a realidade hídrica-social-ambiental das diferentes regiões do país, o funcionamento tradicional e centralizador da burocracia estatal, as crises de escassez quantitativa e os problemas de poluição e contaminação em vários rios do país são também um grande desafio na gestão das águas e indicadores das lacunas da gestão.

Com as considerações acima, percebe-se que são inevitáveis as incertezas quanto ao futuro desse setor estratégico com a mudança proposta pelo novo governo. Os recursos hídricos, historicamente e intrinsecamente, estão relacionados ao Meio Ambiente, porém, mesmo não tendo sido propostas alterações nas atribuições da ANA e na Lei das Águas, que inclui o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH), algumas das incertezas merecem ser destacadas:
  1. O Brasil é um país eminentemente formado por rios, cujas águas são fundamentais para as atividades econômicas e, principalmente, para a manutenção da vida humana de outros seres vivos que dela dependem. Nos ecossistemas aquáticos vivem inúmeras espécies da flora e da fauna brasileira, mantidos pelos processos ambientais. O equilíbrio desses ecossistemas é o que mantém a disponibilidade de água em quantidade e em qualidade adequadas para a vida humana, incluindo as atividades econômicas. Com isso, a abordagem dos rios como ecossistemas é fundamental na gestão dos recursos hídricos, mas nem sempre adotado no arranjo institucional até então vigente. Considerando a importância dessa abordagem, ela será mantida com a mudança do setor de recursos hídricos para o Ministério de Desenvolvimento Regional?
  1. Em praticamente todos os Estados brasileiros, com algumas exceções, a Gestão dos Recursos Hídricos é efetuada dentro das Secretarias Estaduais de Meio Ambiente, que por sua vez coordenam os Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos, que fazem parte do SINGREH. Essas Secretarias Estaduais deverão trabalhar tanto com o Ministério de Meio Ambiente, no que concerne às atuais competências deste órgão (Decreto nº 9.672 de 02 de janeiro de 2019), quanto com o Ministério de Desenvolvimento Regional, no que se refere aos Recursos Hídricos? Vale lembrar que, mesmo com a estrutura antiga (válida até 31 de dezembro de 2018), já existiam obstáculos na integração entre o setor de recursos hídricos com as outras políticas ambientais. 
  1. Considerando que a gestão dos rios federais (aqueles que banham mais de um Estado brasileiro), é de responsabilidade da ANA, e dos rios estaduais (aqueles que as nascentes e a foz dentro de um único Estado e são, geralmente, afluentes dos rios federais), é de responsabilidade das Secretarias Estaduais de Meio Ambiente, como fica a integração dessa gestão entre dois Ministérios diferentes, especialmente no que se refere à outorga de uso da água e aos planos de bacias hidrográficas? 
  1. Considerando que o licenciamento ambiental só pode ser aprovado após a outorga de uso da água (na maioria dos Estados) e que ambos são complementares e instrumentos de gestão, controle e planejamento ambiental, como serão efetuados esses procedimentos em dois ministérios diferentes, no caso de rios federais? No caso de rios estaduais, os empreendedores deverão continuar solicitando a licença e a outorga nas Secretarias Estaduais de Meio Ambiente? 
  1. Considerando que já existem inúmeros conflitos de uso da água e crises históricas, impensáveis há poucos anos atrás, que resultaram em enormes prejuízos econômicos, ambientais e sociais e até em tragédias, e que esses conflitos e crises estão relacionados, entre outros fatores, às falhas na gestão integrada entre os recursos hídricos e demais políticas ambientais, como poderão ser evitados ou resolvidos tendo em vista a separação destes dois setores em dois Ministérios diferentes? 
  1. Conforme a o Decreto nº 9.666 de 02 de janeiro de 2019, compete ao Ministério de Desenvolvimento Regional, além da política de recursos hídricos, a implementação das políticas de saneamento e irrigação, que são dois setores usuários da água que precisam de outorga. No caso dos rios federais, essa outorga é expedida pela ANA, ou seja, o setor controlador, fiscalizador e responsável técnico pela concessão da outorga de água para captação, diluição de esgoto ou irrigação fará parte do mesmo Ministério de dois importantes setores solicitantes de outorgas. A incerteza refere-se ao potencial em ocorrer conflitos de interesse na mesma pasta, tendo juntos setor usuário da água e setor regulador desses usos. Caso ocorra algum impasse, quais critérios serão adotadas para a tomada de decisão adequada, que vise o bem comum? 
  1. Os conselhos estaduais de recursos hídricos são presididos, geralmente, pelo órgãos gestor de cada Estado que, em geral, como dito anteriormente, é um setor dentro dos órgãos ambientais de meio ambiente. Ficaria mantida essa presidência? Haveriam dificuldades de integração e funcionamento com o conselho nacional tendo outro Ministério como presidente?
Poderíamos listar várias outros aspectos que podem colocar em risco o funcionamento o SINGREH e a gestão efetiva da água, que tem a ver não somente com o novo arranjo institucional, mas também com outras políticas que vem sendo adotadas pelo atual governo federal, inclusive a tendência de enfraquecer os movimentos sociais representados pelas Organizações Não-Governamentais, que são fundamentais como representantes da sociedade nos foros colegiados do SINGREH (conselhos de recursos hídricos e comitês de bacias hidrográficas).

Os aspectos e incertezas mencionados acima demonstram a dimensão e a complexidade desta área estratégica do ponto de vista ambiental, social e econômico, que se forem concretizados sem dúvida ampliarão crises, conflitos e tragédias relacionados à água, que já ocorrem nos dias atuais e que penalizam a população brasileira.

Neste sentido, é importante que o SINGREH, com todas as instituições e organizações que o compõe, esteja preparado para enfrentar a nova ordem, zelando pela aplicação da Política de Recursos Hídricos, principalmente quanto aos seus princípios de participação social nas decisões e de adoção da bacia hidrográfica como unidade de gestão e de maneira integrada e sistêmica, visando sempre a segurança hídrica e os usos múltiplos das águas de maneira justa por toda a sociedade brasileira, incluindo as gerações futuras.


Daniela Maimoni de Figueiredo
Pesquisadora Associada e Professora Colaboradora
Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos - UNIVERSIDADE FEDERAL DO MATO GROSSO (UFMT)
Membro do Observatório da Governança das Águas do Brasil

Vale deu remédio vencido para animais resgatados em Brumadinho, diz Ibama

Vale deu remédio vencido para animais resgatados em Brumadinho, diz Ibama

Coordenadora do Ibama, Fernanda Pirillo, denuncia negligência da mineradora com bichos retirados da lama e com indígenas que moram na região


postado em 14/02/2019 13:45 / atualizado em 14/02/2019 17:38
O boi denominado 'Resistência' sobreviveu ao rompimento da barragem da Vale e recebe cuidados em fazenda próxima a Brumadinho(foto: Gladyston Rodrigues/Estado de Minas)
O boi denominado 'Resistência' sobreviveu ao rompimento da barragem da Vale e recebe cuidados em fazenda próxima a Brumadinho (foto: Gladyston Rodrigues/Estado de Minas)
A Vale negligenciou o atendimento de índios do entorno de Brumadinho (MG) e dos animais resgatados da lama. A denúncia foi feita nesta quinta-feira (14/2) pela coordenadora de Emergências Ambientais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Fernanda Pirillo, durante audiência na comissão externa da Câmara de Deputados para apurar o rompimento da barragem do Córrego do Feijão.

"Temos feito vistorias diversas nas áreas que a Vale está implementando para o recebimento de animais e temos verificado a validade de medicamentos. Por incrível que pareça, nos primeiros dias, a Vale tinha providenciado medicamentos vencidos", afirmou.

Indígenas desassistidos

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Fernanda também disse que o Ibama está controlando de perto o que vem sendo feito com os indígenas de uma aldeia da etnia pataxó, nas proximidades de Brumadinho. "Eles estavam desassistidos. O Ibama chegou ao local, exigiu providências da empresa e solicitou a retirada dos peixes mortos que estavam na aldeia, com nove mulheres grávidas e um bebê recém-nascido. Os índios estavam tirando os peixes mortos com as mãos”, ressaltou.

Ver galeria . 16 Fotos Mauro Pimentel/AFP
(foto: Mauro Pimentel/AFP )

Segundo a coordenadora, o Ibama está fazendo vistorias diárias. "Temos mais de 60 relatórios e estamos com uma média de 20 servidores por dia em campo", destacou. O órgão ambiental está redirecionando o resgate de fauna, em um trabalho integrado com o Ministério Público e órgãos ambientais estaduais. “Não só dos animais que foram impactados pela lama, como também dos que ficaram presos nas casas e nas instalações que foram abandonadas. E também daqueles que não haviam sido impactados, mas passaram a ser porque costumam buscar água nessas áreas e ficaram atolados”, acrescentou.

Ânimos exaltados

Presente na sessão, o presidente da Vale, Fabio Schvartsman, afirmou mais cedo que a empresa tomou medidas para intensificar a segurança de suas barragens. Para isso, contratou o órgão norte-americano de licenciamento US Army Corps of Engineers.

Após as apresentações dos integrantes da mesa da comissão, os deputados passaram a fazer perguntas para os membros da mesa, a maioria delas dirigidas a Schvartsman. Os ânimos ficaram bastante exaltados. Alguns parlamentares chamaram a empresa de "assassina" e outros lamentaram ter de encarar a "cara deslavada" do presidente da Vale, ao dizer que a companhia é uma joia brasileira
 

Defesa 

Em nota, a Vale diz ter recebido medicamentos veterinários em doações vindas de vários lugares do país e que teria descartado os protudos que estavam com a validade vencida. Segundo a empresa, nenhum animal foi tratado com medicamentos vencidos.

Leia a resposta na íntegra: 

"A Vale informa que na primeira semana após o rompimento da Barragem I, em Brumadinho, os postos de atendimento receberam doações de medicamentos veterinários vindas de vários locais do país. Esses medicamentos passaram por triagem nos locais de atendimento. Os produtos que se encontravam com validade vencida foram descartados. A Vale ressalta que nenhum animal foi tratado com medicação vencida."

Objetivo do governo é combater novas invasões e promover a legalidade

6/2/19 11:08
Atualizado em 16/2/19 às 11:24

Nova secretaria DF Legal vai investir no crescimento ordenado

Objetivo do governo é combater novas invasões e promover a legalidade

Prestes a deixar de ser Agefis e se tornar DF Legal, a Agência de Fiscalização já trabalha em sua nova missão institucional: promover o crescimento ordenado da cidade, dentro da legalidade. A Secretaria terá novas atribuições e um novo perfil de atuação, incluindo a mediação e conciliação de conflitos, além de pautar sua atuação em conjunto com os demais órgãos do governo. A Câmara Legislativa do DF deve votar, em breve, o Projeto de Lei de criação do DF Legal, que deixará de ser autarquia e ganhará o status de Secretaria.

Georgeano Trigueiro, auditor de carreira e diretor-presidente da Agência de Fiscalização – DF Legal, explica que o trabalho será focado na prevenção para evitar a proliferação de grandes invasões.

“Hoje, metade do Distrito Federal é fruto de ocupações irregulares e são áreas em processo de regularização. Temos de focar no ordenamento da cidade. A forma mais inteligente de fazer isso é combatendo as ocupações ainda no início. Para isso, dispomos de equipes que monitoram o DF diuturnamente”.

Trigueiro explica que o Distrito Federal “como um todo” precisa passar por um grande processo de regularização e isso só é possível com a inteiração entre todos os órgãos de governo. O grande objetivo é criar vários canais que promovam habitação para a população, em variadas faixas econômicas.

“Quando se vê uma invasão, muitas pessoas só pensam em ter seu lar, um pedaço de chão seu. Mas isso traz uma grande carga para o governo, pois é necessário fornecer saúde, educação, transporte segurança, água, luz e muitos outros insumos básicos”, destaca Trigueiro. O diretor-presidente explica que o planejamento do crescimento ordenado é justamente para criar novas áreas com toda a infraestrutura possível. “Nosso desafio é trabalhar regularidade dentro do viés do crescimento”.


A demolição de casas antigas só ocorrerá em última instância, após todas as tratativas e tentativas de regularização, se a área permitir. O DF Legal faz parte do Comitê de Governança do Território do DF, em conjunto com mais 12 órgãos do Governo, e o foco inicial são invasões com edificações precárias e em áreas de risco. “Vamos evitar que novos parcelamentos irregulares surjam e os atuais cresçam”, enfatiza Trigueiro.

COMPETÊNCIAS

Compete à Agência de Fiscalização executar as políticas de proteção da ordem urbanística do Distrito Federal, tais como:

. O controle da expansão urbana e das obras irregulares em todo o Distrito Federal, bem como as ações para coibir grilagens de terras públicas;

. Acompanhar as obras regulares que têm o alvará de construção;

. Retirada de comércios irregulares em áreas públicas de todo o DF;

. Fiscalização do horário de funcionamento dos estabelecimentos em estabelecimentos espalhados por todo o DF;

. Fiscalização de entulho em local impróprio e de grandes obras;

. Retirada da poluição visual na área tombada de Brasília e de faixas em área pública de todo o DF;

. As ações para coibir atividades proibidas em perímetro escolar, além de outras medidas são atividades exercidas rotineiramente.

Greve mundial de estudantes entoa: “Não há planeta B”

Greve mundial de estudantes entoa: “Não há planeta B”

Os eventos clamam por ação frente às mudanças climáticas.


Durante o Painel Internacional de Mudança Climática (IPCC) de 2014, o presidente da conferência, Rajendra Pachauri, afirmou que “não existe plano B porque não há planeta B”. A frase em referência às mudanças climáticas é nesta sexta-feira (15) entoada por milhares de jovens que participam do #YouthStrike4Climate.

Não se sabe ao certo quantos países aderiram ao movimento, mas na conta oficial dos organizadores estima-se que estudantes de ao menos 60 cidades pelo mundo estão nas ruas hoje. Os eventos clamam por ação frente às mudanças climáticas.

Por que eu deveria limpar meu quarto quando o mundo está uma bagunça?, diz uma das faixas.


Apesar de ser auto organizado em diversos países, como Reino Unido, Estados Unidos, Austrália, Holanda e Uganda, os eventos são inspirados na ativista climática sueca de 16 anos, Greta Thunberg. Confira abaixo algumas fotos dos protestos que estão acontecendo e acompanhe também pela hashtag #YouthStrike4Climate.

Tragédia em Brumadinho: Ao menos 305 km do Rio Paraopeba estão contaminados, diz SOS Mata Atlântica

Tragédia em Brumadinho: Ao menos 305 km do Rio Paraopeba estão contaminados, diz SOS Mata Atlântica


Ao menos 305 km do Rio Paraopeba estão contaminados
Foto: Lucas Hallel/Ascom Funai

A Fundação SOS Mata Atlântica, organização não governamental (ONG) que atua em defesa do meio ambiente desde 1986, divulgou ontem (14) dados de análises realizadas no Rio Paraopeba. De acordo com a entidade, uma análise de 22 pontos permitiu concluir que a água está contaminada, com qualidade péssima ou ruim, ao longo de pelos menos 305 quilômetros.


ABr
Os resultados foram obtidos após uma expedição que durou 10 dias e terminou no último sábado (9). Na semana seguinte ao rompimento da barragem da mineradora Vale em Brumadinho (MG), eles começaram a percorrer rodovias federais e estaduais e estradas rurais, sempre perseguindo o leito do rio. A cada 40 quilômetros, uma amostra foi coletada.


No último ponto analisado, no reservatório de Retiro Baixo, a situação da água foi considerada ruim com índices de turbidez de 329,6 NTU. “Isso equivale a três vezes mais do que o permitido pela legislação. Desde a região de Córrego do Feijão, onde os rejeitos encontraram o Rio Paraopeba, até o reservatório de Retiro Baixo, em Felixlândia (MG), a equipe não encontrou água em condições de uso”, informa a Fundação SOS Mata Atlântica.


Relatório
A entidade planeja apresentar no dia 27 de fevereiro um relatório completo com todos os indicadores obtidos. “A ideia é entregá-lo a autoridades, contribuindo para que as melhores decisões sejam tomadas, e também para a sociedade, principalmente para quem ainda precisa viver daquele e naquele rio, para que tenham informações concretas sobre a situação local”.


O Serviço Geológico do Brasil (CPRM), estatal vinculada ao Ministério de Minas e Energia, também tem avaliado a turbidez no Rio Paraopeba e divulgado boletins diariamente desde o rompimento da barragem. O último deles mostra que ontem (13) os índices aferidos foram 371 NTU na altura do município de Mário Campo (MG), 244 NTU em São João de Bicas (MG) e 165 NTU em Juatuba (MG). Segundo a Federação Estadual do Meio Ambiente de Minas Gerais (Feam), o limite legal para curso d’água de classe 2, como é o Rio Paraopeba, é de 100 NTU.
No dia 31 de janeiro, resultados preliminares de análises realizadas por técnicos da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) levaram a pasta a recomendar que não se utilize a água bruta do Rio Paraopeba para qualquer finalidade e que se mantenha distância de 100 metros de suas margens.


Vale
Em nota divulgada ontem (14) em sua página virtual, a Vale informa que também está monitorando a qualidade da água em 48 pontos e diz que tomará todas as medidas cabíveis para garantir o abastecimento humano e para as atividades agropecuárias. De acordo com a mineradora, produtores rurais de nove municípios estão recebendo água para consumo humano, dessedentação animal e irrigação.


Até a última terça-feira (12), teriam sido disponibilizados cerca de 5,1 milhões de litros de água. “O atendimento é voltado para as cidades de Brumadinho, Florestal, Mario Campos, São Joaquim de Bicas, Betim, Igarapé, São José da Varginha, Pará de Minas e Esmeraldas”, diz o comunicado da Vale.


Mata Atlântica
Outro levantamento realizado pela Mata Atlântica diz respeito a abrangência da devastação florestal. A entidade aponta que houve perda 112 hectares de mata nativa, das quais 55 hectares eram áreas bem preservadas. Informa ainda que, antes do rompimento da barragem, Brumadinho tinha 15,4 mil hectares remanescentes de Mata Atlântica. Essa área representa 24% do que havia originalmente no município, de acordo com o Atlas da Mata Atlântica, publicado pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.


Um mapeamento preliminar divulgado há duas semanas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) apresenta números similares. De acordo com o órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, foram desvatados 133,27 hectares de vegetação nativa de Mata Atlântica e 70,65 hectares de áreas de proteção permanente ao longo de cursos d’água. O cálculo foi feito a partir de imagens de satélite.

Por Léo Rodrigues, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/02/2019


"Tragédia em Brumadinho: Ao menos 305 km do Rio Paraopeba estão contaminados, diz SOS Mata Atlântica," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/02/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/02/15/tragedia-em-brumadinho-ao-menos-305-km-do-rio-paraopeba-estao-contaminados-diz-sos-mata-atlantica/.

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Mais do mesmo ou Brumadinho nunca mais? artigo de José Ricardo Armentano





Tragédia em Brumadinho
Foto: Divulgação/Corpo de Bombeiros de Minas Gerais

[EcoDebate] Se perguntassem ao celebre Garcia Marquez — cuja grandiosa obra literária lhe rendeu em 1992, com méritos, o expressivo prêmio Nobel de Literatura —, ele diria, muito provavelmente, que os recentes fatos ocorridos em Brumadinho, MG, são uma verdadeira crônica de uma morte, digo, de uma tragédia anunciada!

Pois é! Além de previsível, nada — ou quase nada — mudou desde o trágico e semelhante evento de Mariana nos idos de 2015. E não é para menos, afinal, se levarmos em conta que a protagonista da tragédia de Brumadinho, a companhia Vale S.A., desde o mencionado desastre ambiental de Mariana, reduziu em 44% os respectivos gastos com segurança, é sintomático e até mesmo razoável concluir que os fatos ocorridos, para todos os envolvidos, isto é, para os dirigentes da Vale, para os respectivos encarregados pela manutenção, prevenção e segurança das respectivas operações dessa companhia, bem como para as autoridades e para os responsáveis pelo licenciamento e fiscalização desse tipo de empreendimento, eram previsíveis… exceto para as pobres vítimas que perderam revoltantemente as suas vidas nessa tragédia.

Mas, afinal, a Vale é mesmo responsável por esse triste evento? Tem ela o dever de reparar os danos ambientais e a indenizar as respectivas vítimas? E a resposta para todas essas indagações é muito simples: claro que sim!

Por mais que o renomado advogado contratado pela Vale, Sérgio Bermudes, diga que a companhia não se vê como responsável pelos tristes acontecimentos ocorridos em Brumadinho, e que tudo não passou de um capricho da natureza, a responsabilidade dela é inequívoca, já que decorre do risco inerente à própria a atividade empresarial por ela explorada. Ainda que tudo tivesse sido causado pelas forças da natureza — hipótese esta, aliás, já descartada pelas autoridades públicas —, mesmo que a Vale tenha todas as licenças expedidas pelos órgãos públicos pertinentes à respectiva atividade, e mesmo que ela tenha tomado todas as cautelas possíveis e imaginárias para prevenir esse tipo de evento, ainda assim haverá o dever de reparar, já que isso decorre do risco inerente à própria atividade por ela explorada.


Pouco importa se não houve dolo, isto é, se não houve a intenção de violar a lei propositadamente. De igual modo, tanto faz se não houve culpa, ou seja, negligência, imprudência ou imperícia, já que o dever de indenizar, em casos dessa natureza, sempre prevalecerá. Basta a conexão entre atividade da Vale e a ocorrência do dano para nascer o dever de reparação (responsabilidade objetiva).


É importante ressaltar que rompimento da barragem de Brumadinho, em virtude da respectiva gravidade, não enseja apenas consequências na esfera ambiental (sanções por danos causados ao meio ambiente e respectiva reparação) e no âmbito da reparação civil (indenização por danos causados), mas enseja, também, reflexos nos âmbitos administrativo (licenciamento, operação e fiscalização de atividades de risco), trabalhista (indenização por danos morais coletivos) e penal (responsabilização pela morte de pessoas).

A esse respeito, impõe-se ressaltar, também, que até o presente momento já foram concedidas Pelo Poder Judiciário liminares em procedimentos de tutela antecipada formulados pelo Ministério Público pelo Estado de Minas Gerais, destinadas a tornar indisponível e a bloquear montante equivalente a onze bilhões de reais (R$ 11.000.000.000), para assegurar o ressarcimento dos danos por ela causados, para garantir a reparação individual das vítimas e para a restauração do meio ambiente.


Foi também determinada a adoção imediata de medidas necessárias para garantir a estabilidade do complexo minerário de Brumadinho, bem como foi determinada a responsabilização pelo acolhimento e integral assistência às vítimas, dentre outras obrigações. Além disso, na esfera trabalhista, foi determinado pelo Poder Judiciário o bloqueio de mais de um bilhão e seiscentos milhões de Reais (R$ 1.600.000.000) da Vale, para assegurar a indenização de familiares e a reparação de danos morais coletivos decorrentes desse episódio.


No âmbito administrativo já foram impostas sanções pelo IBAMA, no valor de duzentos e cinquenta milhões de reais (R$ 250.000.000), e pelo Estado de MG, no montante aproximado de noventa e nove milhões de reais (R$ 99.000.000).

Já no âmbito penal a questão tem contornos mais delicados, vez que a responsabilização dos culpados está necessariamente condicionada à existência de culpa ou dolo. Mais especificamente, para que haja uma condenação é necessária a prova cabal da existência de culpa, qualquer que seja a respectiva modalidade (negligência, imprudência ou imperícia), ou da existência de dolo (caracterizado pela intenção de violar a lei), ainda que ele seja eventual. No dolo eventual, apesar do infrator ter consciência dos riscos envolvidos e da potencialidade lesiva dos respectivos atos pretendidos, ele, ainda assim, resolve agir, na ilusória e efêmera esperança de que nada ocorrerá.


Nessa toada, o Poder Judiciário, a pedido do Ministério Público, determinou a prisão dos especialistas que atestaram a estabilidade das barragens da Vale e a conformidade das respectivas estruturas com as normas de segurança pertinentes; bem como as prisões do gerente de meio ambiente, saúde e segurança do complexo minerário, e do gerente executivo operacional, ambos empregados da Vale, responsáveis pelo licenciamento, funcionamento e monitoramento da barragem rompida; em virtude de vislumbrar a existência de fortes indícios de autoria ou participação dessas pessoas nos crimes ambientais, de falsidade ideológica e nos homicídios relacionados ao caso. Segundo o magistrado que proferiu tal decisão, a prisão dessas pessoas é imprescindível para a investigação policial do caso.

A respeito desse assunto, remanesce ainda uma dúvida cruel: estamos diante de uma nova Mariana, onde, passados mais de três anos desse terrível acontecimento, famílias ainda permanecem desemparadas e sem a devida reparação pelos danos e prejuízos que sofreram; o meio ambiente continua miseravelmente degradado, sem que nada de efetivo tenha sido feito para a respectiva restauração, tampouco para a identificação e para a punição exemplar dos respectivos responsáveis?
Ao que tudo indica não, já que são fortes os indícios de que as coisas serão diferentes, ao menos dessa vez.

A exposição, por meio das redes sociais, dos políticos que obstaculizaram o endurecimento da legislação pertinente à atividade minerária, e a repercussão negativa do caso perante a opinião pública, com reflexos extremamente prejudiciais à imagem da companhia em relação ao mercado e ao valor das respectivas ações na bolsa de valores, foram fundamentais para as medidas voluntariamente adotadas pela Vale com o intuito de minimizar a gravidade dos fatos ocorridos, tais como: o auxílio e a doação de valores às vítimas; disponibilização de assistência psicológica; colaboração com as autoridades públicas; divulgação de planos emergenciais e disponibilização de canais de comunicação.


Aliás, a própria conduta da Vale, ao “repudiar” a manifestação do mencionado advogado por ela contratado, de que a companhia não se via responsável pelo “acidente”, nem por dolo, tampouco por culpa, reforça a esperança de que o descaso havido no episódio de Mariana não se repetirá novamente.

Contudo, como bem diz a sabedoria popular, não há almoço de graça. E isso porque a conduta dessa companhia, ao que tudo indica, está muito mais focada na preservação da respectiva reputação perante o mercado e a opinião pública, do que propriamente no campo das boas práticas. Há a nítida a intenção de minimizar ao máximo não apenas o peso da respectiva participação nesse doloroso evento, mas, também, o valor das indenizações que necessariamente terá de se sujeitar.

É importante ressaltar que as posturas firmes do Poder Judiciário, ao suspender, recentemente em caráter preventivo, a operação das barragens da Mina Brucutu, também situada em Minas Gerais, cuja tecnologia é antiga e suscetível de rompimento; ao rechaçar as tentativas da Vale em liberar as quantias bloqueadas a título de garantia pela reparação dos danos a terceiros e ao meio ambiente; bem como ao determinar exemplarmente, com o devido e necessário rigor, a prisão de técnicos, prestadores de serviços e gestores direta ou indiretamente ligados ao licenciamento, ao funcionamento, à operação e à segurança do complexo minerário envolvido; são fortes e esperançosos indícios de que não haverá, em relação ao triste episódio de Brumadinho, tolerância, tampouco a sensação de impunidade que permeia o senso comum da população em casos dessa natureza.

Enfim, o mínimo que se pode esperar disso tudo pode ser resumido em uma única frase: Brumadinho nunca mais! E isso somente será possível mediante o comprometimento e os incansáveis esforços por parte dos poderes públicos para que as vítimas e seus familiares sejam devidamente amparados e indenizados, para que o meio ambiente seja integralmente recuperado, para que a legislação e os procedimentos de licenciamento e fiscalização de atividades de risco sejam endurecidos e rigorosamente cumpridos, e, principalmente, para que todos os responsáveis, direta ou indiretamente, por esse triste acontecimento, sejam rigorosa e exemplarmente punidos!

Por José Ricardo Armentano, advogado da Morad Advocacia.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/02/2019

"Mais do mesmo ou Brumadinho nunca mais? artigo de José Ricardo Armentano," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/02/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/02/15/mais-do-mesmo-ou-brumadinho-nunca-mais-artigo-de-jose-ricardo-armentano/.

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O fracasso do Licenciamento Ambiental no Brasil, artigo de Millos Augusto Stringuini

O fracasso do Licenciamento Ambiental no Brasil, artigo de Millos Augusto Stringuini


artigo de opinião

[EcoDebate] Quando se observam os desastres ambientais de Mariana e Brumadinho e os riscos (quase perigo) de muitas outras barragens; os elevadíssimos níveis de contaminação ambiental das águas pluviais do Brasil; a enorme quantidade de rios poluídos; o caos existente na maioria da coleta e disposição final de resíduos sólidos e outras centenas de passivos ambientais, vemos que os processos de licenciamento ambiental no país, como instrumento de gerenciamento territorial e de qualidade ambiental, fracassaram.


Agravando o quadro, os Governos, Federal, Estaduais e Municipais são os maiores poluidores do país. Fundamentalmente o são pela inação e incapacidade de gestão e geração de processos de saneamento básico integrado. Além disso, os maiores poluidores nacionais não são integralmente atingidos pelos processos de licenciamento, pois esse instrumento administrativo não possui poder eficaz de coerção sobre os entes públicos.


As barragens que se romperam estavam com licenças ambientais válidas. Os exemplos de empreendimentos estatais e públicos licenciados ambientalmente são inúmeros, mas isso não significa que eles estejam protegendo o meio ambiente de forma eficaz.


Os processos de Licenciamento Ambiental são peças intrincadas de baixo valor gerencial ambiental (resultados obtidos), mas de alta complexidade burocrática, induzidos pela praga nacional do Legalismo – Fiscalismo e do Comando Controle. Baseados em Estudos de Impacto Ambiental que, em sua imensa maioria (mais de 90%) são fraudes científicas por serem incompletos e desprovidos de análises dinâmicas, se fossem auditados hoje, demonstrar-se-iam um verdadeiro fracasso como instrumento de gestão e proteção ambiental.


O Licenciamento Ambiental é atualmente um instrumento sem credibilidade pública e política. Gera muitos empregos públicos e privados, pois existe uma enorme massa de pessoas comprometidas com o processo de licenciamento por si só, todavia, o comprometimento com a solução dos problemas ambientais é muito baixo. Por exemplo, faz mais de 40 anos que os pluviais do Brasil estão contaminados. Raras são as tentativas de resolver esse problema e a poluição não só persiste com se agrava.


De forma intermitente, a mídia informa que Governadores e dirigentes nacionais reclamam da morosidade do processo de licenciamento ambiental no Brasil. Procuram sempre encontrar meios de simplificar o licenciamento para estimular o desenvolvimento de novos empreendimentos. Ficam tentando reinventar a roda. Cada vez que isso acontece o sistema de licenciamento perde credibilidade.


Tentando fazer o processo de gestão ambiental mais eficaz, durante nossa vida profissional demonstramos reiteradamente que aquilo que é considerado uma equação administrativa de difícil solução, ou seja, diminuir o tempo do processo de licenciamento sem perda de qualidade pode ser realizado. A simplificação com aumento da eficácia do processo de administração ambiental é factível.


Sem necessitar produzir nenhuma lei nova é possível celebrar Contratos de Gestão Ambiental (CGA) entre o Poder Público e as empresas Privadas e mesmo com outros entes públicos (por exemplo; Prefeituras Municipais) para a realização de processos de Gestão Ambiental.
Esses Contratos Administrativos, possuem como Cláusula Objeto o Gerenciamento Ambiental em seus termos de referência, os quais deverão ser realizados pelos empreendedores contratantes com o Poder Público.


Também possui Cláusula Penal para os casos de descumprimento do contrato (multas e obrigatoriedade de recuperar o dano e, principalmente, em casos de reincidência do contratante faltoso (tanto público como privado), a impossibilidade de contratar novamente com o Poder Público por tempo determinado no CGA.


As cláusulas de obrigatoriedade de Contratação de Seguros Ambientais e Auditorias Ambientais, ex ante e ex post contrato, bem como a recuperação de passivos ambientais passados, presentes e futuros também estarão presentes.


Não são contratos de adesão, mas possuem uma formulação geral a qual será adaptada caso a caso.
Sem possuir caráter opressor – ameaçador, os Contratos de Gestão Ambiental (CGA) são instrumentos dotados de alta eficácia ambiental, baixa burocracia e menores custos para a administração pública. Nos países Europeus onde são utilizados os resultados são visíveis a olho nu.


Infelizmente ainda não são adotados no Brasil, tendo em vista que muitos dos burocratas e políticos envolvidos não desejam simplificar a tarefa de licenciamento ambiental. Querem manter crescente o poder discricionário de seus cargos públicos a qualquer custo.


Triste realidade. Se o Brasil não implantar administrativamente, de forma rápida, os Contratos de Gestão Ambiental (CGA), o já fracassado sistema de Licenciamento Ambiental irá entrar em colapso em poucos anos.


Existe no presente momento uma linha de confiança da população (janela de oportunidade) nas mudanças das relações do Estado com o Povo. O momento nacional é propício para acabar com os pensamentos equivocados de que o gerenciamento territorial é antieconômico.
Com mais de 40 anos de experiência profissional trabalhando tecnicamente com questões ambientais, deixo nesse artigo um alerta.


Sem gerenciamento ambiental tecnicamente correto, muito em breve o país terá problemas ambientais muito maiores que aqueles que atualmente estamos vivenciando.

Precisamos urgentemente de menos burocracia e maior eficácia.

Millos Augusto Stringuini, Dr. Sc.
Especialista em Ecologia e Doutor em Ciências do Meio Ambiente.

 
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/02/2019

"O fracasso do Licenciamento Ambiental no Brasil, artigo de Millos Augusto Stringuini," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/02/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/02/15/o-fracasso-do-licenciamento-ambiental-no-brasil-artigo-de-millos-augusto-stringuini/.

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