sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Impacto do Uso da Terra nas Metas Climáticas do Acordo de Paris



floresta queimada

Pesquisadores mostram que medidas anteriores para reduzir o aquecimento global por meio de mudanças no uso da terra são insuficientes

O desmatamento, bem como a agricultura intensiva e a pecuária (o uso da terra humana) está contribuindo igualmente para as mudanças climáticas, como usinas de energia fóssil e motores de combustão interna.

Karlsruhe Institute of Technology (KIT)*
Menos de dois graus Celsius acima dos tempos pré-industriais – esta é a temperatura à qual o aquecimento global deve ser limitado, de acordo com o Acordo Climático de Paris. No entanto, um recente relatório especial do IPCC mostra que a temperatura global já aumentou em um grau Celsius.

Em um estudo, uma equipe de pesquisa do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT) e da Universidade de Edimburgo mostrou que os esforços anteriores para reduzir os gases de efeito estufa através do uso da terra humana são insuficientes. Suas descobertas são apresentadas na revista Nature Climate Change (DOI: https://doi.org/10.1038/s41558-019-0400-5).

“Um quarto dos gases de efeito estufa antropogênicos vêm do uso da terra e do esgotamento maciço associado de sumidouros naturais de carbono”, diz o Dr. Calum Brown, do Instituto de Pesquisa Meteorológica e Ambiental – Pesquisa Ambiental Atmosférica (IMK-IFU). Menos florestas devido ao desmatamento, bem como agricultura intensiva e agropecuária estão contribuindo igualmente para as mudanças climáticas, como usinas de energia fóssil e motores de combustão interna. “O cumprimento dos objetivos climáticos do Acordo de Paris dependerá fortemente de nossa capacidade de estabelecer mudanças fundamentais e sustentáveis no sistema de uso da terra.” Juntamente com a Universidade de Edimburgo, o KIT examinou como os países que assinaram o plano do Acordo de Paris e implementar ações apropriadas, e que impacto elas poderiam ter sobre as mudanças climáticas.

“Nosso estudo mostra que, se queremos atingir as metas climáticas, precisamos encontrar soluções rápidas, mas realistas, para mudar de forma sustentável o uso da terra humana”, diz Brown. Até agora, cerca de 197 países prepararam Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). As ações mais comuns visam reduzir significativamente o desmatamento, arborizar grandes áreas e reduzir os gases de efeito estufa da agricultura. Por exemplo, a Índia e a China querem reflorestar uma área de até 40 milhões de hectares nos próximos anos. “As florestas armazenam grandes quantidades de dióxido de carbono do ar e podem, assim, reduzir os gases de efeito estufa da agricultura”, diz Brown.

Interesses políticos e econômicos levam a atrasos
“Esses planos podem remover até 25% dos gases causadores do efeito estufa causados por ações humanas a cada ano”, diz Brown. “No entanto, muitas vezes são necessárias décadas para que as mudanças se manifestem – tempo demais para desacelerar a mudança climática conforme necessário.” Além disso, não há uma estrutura obrigatória para NDCs: eles não precisam ser comprovadamente realizáveis ??e, na maioria dos casos, nenhum plano definido de implementação. “Esta é talvez a maior ameaça para atingir a meta de 1,5 grau”, diz Brown. “O cronograma do acordo climático transcende a natureza de curto prazo das decisões políticas.” Muitas vezes, os PADs não podem entrar em vigor porque, quando os formuladores de políticas mudam, eles freqüentemente abandonam ou retiram medidas concretas contra o aquecimento global. Um exemplo recente disso é a retirada planejada dos EUA do Acordo de Paris.

Os interesses econômicos também podem mudar as metas políticas nacionais. Fatores como o cultivo de dendezeiros estão levando a um aumento renovado das florestas tropicais. O desmatamento aumentou 29% no Brasil e até 44% na Colômbia. “Os números contrastam com o fato de que muitos países queriam reduzir seu desmatamento devido ao Acordo Climático”, disse Brown. “Isso sugere que muitos planos para mitigar o impacto do sistema de uso da terra eram irrealistas desde o início.” Até agora, houve pouco ou nenhum progresso, e em alguns casos a situação piorou nos últimos três anos: “ As emissões globais de dióxido de carbono aumentaram novamente em 2017 e 2018, depois de terem diminuído anteriormente. ”

Metas realistas da experiência
Metas irrealistas, desenvolvimentos políticos e erros na implementação influenciam o sucesso dos NDCs anteriores. Aqui, estudos empíricos e estudos de caso, em particular, poderiam ajudar: “Eles demoram em encontrar e implementar decisões políticas em consideração e podem ajudar a encontrar medidas realistas”, diz Brown. Um ponto importante aqui é a disposição das pessoas locais para introduzir inovação em tecnologias, agricultura ou política. “Os planos para reduzir o impacto do uso de terras antropogênicas nas mudanças climáticas devem sempre fornecer benefícios claros, óbvios e imediatos para os agricultores, pequenos proprietários e silvicultores, já que eles podem mudar ativamente o uso da terra de maneira sustentável.”

Referência:

Calum Brown, Peter Alexander, Almut Arneth, Ian Holman and Mark Rounsevell: “Achievement of Paris climate goals unlikely due to time lags in the land system” in: Nature Climate Change
https://doi.org/10.1038/s41558-019-0400-5

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/02/2019

"Impacto do Uso da Terra nas Metas Climáticas do Acordo de Paris," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/02/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/02/21/impacto-do-uso-da-terra-nas-metas-climaticas-do-acordo-de-paris/.

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Mudanças climáticas, aumento do nível dos mares e tigres ameaçados


Mudanças climáticas, aumento do nível dos mares e tigres ameaçados




Tigre-de-bengala
Tigre-de-bengala. Foto: Wikipedia

Caros colegas,

O magnífico tigre-de-bengala está criticamente ameaçado e sua última fortaleza costeira pode ser seriamente ameaçada pelas mudanças climáticas e pelo aumento do nível do mar, segundo um novo estudo.

Durante o próximo meio século, nossas análises sugerem que as mudanças climáticas e a elevação do nível do mar irão interagir com os perigos em curso, como a perda de habitat, novas estradas e desenvolvimentos industriais, e aumentando as pressões de caçadores e invasores.


Nossa área de estudo, os mangues arbóreos Sundarbans em Bangladesh, também são os maiores habitats de mangue sobrevivente do mundo – abrigando uma grande diversidade de espécies. É um ecossistema globalmente icônico.

É evidente que existem razões poderosas para proteger este ecossistema único das pressões de invasão e desenvolvimento, dados os seus valores e importância excepcionais para a vida selvagem ameaçada de extinção.

Quanto mais os Sundarbans são conservados – através de novas áreas protegidas e reduzindo a caça e invasão ilegal -, mais resilientes serão aos extremos climáticos e o aumento do nível do mar projetado para ocorrer nos próximos anos.

Tudo de bom a todos(as)

Bill

William F. Laurance, PhD, FAA, FAAAS, FRSQ

Distinguished Research Professor

Australian Laureate & Prince Bernhard Chair in International Nature Conservation (Emeritus)
Director of the Centre for Tropical Environmental and Sustainability Science (TESS)
Director of ALERT (ALERT-conservation.org)
Referência:

Combined effects of climate change and sea-level rise project dramatic habitat loss of the globally endangered Bengal tiger in the Bangladesh Sundarbans
Sharif A. Mukul,Mohammed Alamgir,Md. Shawkat I. Sohel,Petina L. Pert,John Herbohn,Stephen M. Turton,Md. Saiful I. Khan,Shifath Ahmed Munim,A.H.M. Ali Reza,William F. Laurance

Science of The Total Environment

Volume 663, 1 May 2019, Pages 830-840

https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2019.01.383

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/02/2019

"Mudanças climáticas, aumento do nível dos mares e tigres ameaçados," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/02/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/02/21/mudancas-climaticas-aumento-do-nivel-dos-mares-e-tigres-ameacados/.

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

O automonitoramento das barragens de rejeitos minerais é o prenúncio da tragédia




O automonitoramento das barragens de rejeitos minerais é o prenúncio da tragédia



O automonitoramento das barragens é o prenúncio da tragédia. Entrevista especial com Bruno Milanez

 

“O que os episódios envolvendo as mineradoras no país deixam claro é a necessidade de se repensar o paradigma da extração mineral”


IHU
Barragem I, em BrumadinhoMinas Gerais, fez despencar sobre centenas de vidas não somente os rejeitos minerais que compõem a lama tóxica que invadiu a cidade, mas também o fracasso do sistema de automonitoramento como regulador da atividade mineira. Em menos de cinco anos, três barragens romperam: Herculano Mineração (2014), Fundão (2015) e Barragem I (2019).


“Nos três casos, os auditores (ditos independentes, mas escolhidos e remunerados pelas empresas mineradoras) atestaram a estabilidade das barragens poucos meses antes delas colapsarem. Isso mostra que o sistema de automonitoramento é ineficaz e coloca em dúvida todos os atestados de estabilidades emitidos no estado”, destaca o professor e pesquisador Bruno Milanez, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.


Não obstante o impacto irreversível das vidas humanas e animais ceifadas instantaneamente, o drama ambiental da lama tóxica das barragens de rejeitos que rompem permanece por longos períodos. “Dentre os [impactos ambientais] mais comumente mencionados estão a contaminação dos recursos hídricos, escassez hídrica devido ao rebaixamento do lençol freático, poluição do ar, poluição sonora e vibração associada às explosões”, explica o entrevistado.


Se há algo em que a direita neoliberal e a esquerda neodesenvolvimentista dão alegremente as mãos é em relação à pauta da extração mineral, como historicamente podemos perceber no Brasil. “A proposta desenvolvimentista nos anos 1940 já bebia do passado colonial brasileiro e encarava o extrativismo mineral principalmente do ponto de vista da geração da renda mineral. (…) A proposta de reforma do código mineral no Brasil, iniciada em 2009, mantinha a mesma tradição”, pontua Milanez.


Diante toda a tragédia, do ponto de vista concreto houve um arrefecimento, pelo menos momentâneo, na agenda do atual governo em relação à mineração. “Devido ao seu posicionamento claramente contrário aos direitos territoriais de populações tradicionais, esperava-se que, com sua posse [de Jair Bolsonaro], o setor se mobilizasse para finalmente conseguir passar no Congresso Nacional uma lei que regulamentasse a mineração em Terras Indígenas. Com o desastre em Brumadinho, é de se esperar que esses planos sejam paralisados, ao menos momentaneamente”, projeta o pesquisador.


O que os episódios envolvendo as mineradoras no país deixam claro é a necessidade de se repensar o paradigma da extração mineral, de modo que as chamadas “externalidades”, ou seja, os efeitos colaterais previstos, inerentes à atividade mineira, sejam internalizados pelas empresas.



“Discutir o modelo passa, entre outras coisas, em romper com o fetiche de que um mineral precisa ser extraído apenas ‘porque ele está lá’. (…) Ela [a mineração] necessita de ações coordenadas de políticas que forcem as empresas mineradoras a internalizar os custos que, hoje, externalizam para a sociedade (na forma de contaminação, risco etc.)”, assevera.
Bruno MilanezBruno Milanez (Foto: Poemas)

 
Bruno Milanez é graduado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, mestre em Engenharia Urbana pela Universidade Federal de São Carlos e doutor em Política Ambiental pela Lincoln University. Leciona na Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O tema das barragens tem ocupado a agenda pública nacional. Mas o que, de fato, se sabe sobre a situação das barragens de Minas Gerais?


Bruno Milanez – Depois do rompimento das barragens da Herculano 
Mineração (2014), Fundão (2015) e Barragem I (2019), acredito que ninguém tem a capacidade de dizer que conhece a real situação das barragens em Minas Gerais. Nos três casos, os auditores (ditos independentes, mas escolhidos e remunerados pelas empresas mineradoras) atestaram a estabilidade das barragens poucos meses antes delas colapsarem. Isso mostra que o sistema de automonitoramento é ineficaz e coloca em dúvida todos os atestados de estabilidades emitidos no estado.

De acordo com notícias vinculadas pela mídia, ao menos no caso da Barragem I, um dos auditores da empresa Tüv Süd afirmou ter se sentido pressionado para atestar a estabilidade. De forma semelhante, e-mails entre técnicos da Tüv Süd mencionam que os técnicos da empresa estariam sofrendo chantagem (blackmail) da Vale.


Nas duas últimas semanas esse sistema foi posto à prova e não resistiu aos primeiros testes. Na madrugada do dia 08 de fevereiro, moradores que viviam a jusante de barragens da Vale (Barão de Cocais) e ArcelorMittal (Itatiaiuçu) tiveram que ser evacuados de suas casas. No caso da Vale, foi necessária uma determinação de técnicos da Agência Nacional de Mineração – ANM para que fosse iniciada a evacuação. Poucos dias depois, em 16 de fevereiro, moradores do distrito de Macacos, em Nova Lima, também foram evacuados, depois que a empresa auditora se recusou a atestar estabilidade.


Esses eventos mostram as fragilidades inerentes do sistema de automonitoramento.


IHU On-Line – Há outras regiões no Brasil ameaçadas de impactos ambientais e sociais devido à mineração?


Bruno Milanez – Apesar de não se reconhecer como tal, o Brasil é um país minerador. Somos o segundo maior exportador de minérios do mundo. É possível encontrar atividades de grande mineração em quase todos os estados do Brasil. De acordo com dados da ANM, os cinco principais estados minerados no ano de 2018 foram Minas GeraisParáGoiás, São Paulo e Bahia. É importante frisar que esse ranking é por receita gerada e não pelo volume de minério retirado ou pelos impactos gerados.


Uma condição para a exportação é a mineração em grande escala, também chamada de megamineração. Onde há megamineração, necessariamente há impactos ambientais e sociais relevantes. Não é possível uma empresa transformar uma montanha em um buraco sem causar impactos ambientais, por mais que ela utilize tecnologias para mitigação.
Sobre os riscos, eles são os mais diversos. Dentre os mais comumente mencionados estão a contaminação dos recursos hídricos, escassez hídrica devido ao rebaixamento do lençol freático, poluição do ar, poluição sonora e vibração associada às explosões. Para além desses, há ainda conflitos fundiários, principalmente na definição das áreas de servidão.

É importante notar também que há impactos associados à infraestrutura de apoio (por exemplo ferrovias, minerodutos e portos) que atendem às empresas mineradoras. Por fim, há ainda questões associadas à mobilização e desmobilização de trabalhadores na abertura ou expansão das minas que podem levar contingentes de milhares de trabalhadores para viver temporariamente em pequenas cidades, criando sobredemanda por moradia ou por serviços públicos (como saúde e saneamento). Ainda, é comum a geração de problemas associados à violência, exploração sexual e abuso de álcool e drogas.


IHU On-Line – Até que ponto o mercado financeiro influencia a exploração mineral e o extrativismo primário e até que ponto é o Estado seu incentivador?



Bruno Milanez – O Brasil entrou atrasado na dinâmica da financeirização do setor mineral. Como, historicamente, grande parte da mineração brasileira era desenvolvida pela Vale e ela sempre contou com forte apoio de bancos públicos, não se criou a tradição de obtenção de recursos junto ao mercado financeiro, como pode ser encontrado no Canadá ou na Austrália.


Isso, porém parece começar a mudar no passado recente. A partir da modificação na orientação econômica do Estado brasileiro e a redução da participação estatal no financiamento de atividades econômicas, percebe-se um aumento da busca de recursos no mercado financeiro internacional por parte de mineradoras. Por exemplo, em 2018, existiam mais de 60 projetos minerais que eram, ao menos parcialmente, financiados com recursos obtidos na bolsa de Toronto, Canadá. Essa é uma tendência que, até o rompimento da Barragem I parecia que iria se consolidar, mas que agora precisamos reavaliar.
O Estado brasileiro participa ativamente desse processo, buscando estimular a entrada de investidores internacionais, muitos baseados em recursos do mercado financeiro. Uma das estratégias é o envio de representantes governamentais para eventos como o Brazilian Mining Day na convenção da Prospectors & Developers Association of Canada, um dos principais eventos no mundo para captação de investidores do setor de extração mineral.


IHU On-Line – A impunidade aos crimes ambientais e humanos levados a cabo pelas mineradoras é um fator que torna o chamado “risco do negócio” mais atrativo ou mais repulsivo para os investidores?


Bruno Milanez – Ainda não tenho uma leitura clara sobre isso e não consigo perceber como investidores leem esse sinal. Por um lado, pode-se gerar a impressão que o Brasil é o lugar para se fazer projetos que sigam parâmetros pouco rigorosos de segurança, o que reduziria os custos de instalação e operação e poderia tornar os investimentos mais rentáveis. Por outro lado, pode ser interpretado que a falta de um controle efetivo por parte do Estado, misturado com a negligência de parte do corpo técnico que atua no país, tem grande potencial de resultar em catástrofes como essas, que vêm se repetindo nos últimos anos. Mesmo que os investidores tenham a percepção de que não precisam temer multas ou a justiça brasileira, o risco de ter as operações interrompidas e de perderem o capital investido nas instalações pode ser suficiente para eles deixarem de se interessar em investir no Brasil. Entre um cenário e outro, existe a possibilidade de o Brasil criar uma imagem que passe a atrair apenas os investidores mais ambiciosos e gananciosos, e que estejam dispostos a correr tais riscos.


IHU On-Line – Historicamente qual tem sido o papel do Estado em relação ao extrativismo primário? O que se pode esperar do atual governo?


Bruno Milanez – A proposta desenvolvimentista nos anos 1940 já bebia do passado colonial brasileiro e encarava o extrativismo mineral principalmente do ponto de vista da geração da renda mineral. A criação da Companhia Vale do Rio Doce e a exportação de minério de ferro foi moeda de troca para garantir recursos para, entre outras coisas, a construção da Companhia Siderúrgica Nacional. O papel histórico da Vale sempre foi abastecer o mercado global de minério, contribuindo para a manutenção da inserção subalterna do país no comércio internacional.
A proposta de reforma do código mineral no Brasil, iniciada em 2009, mantinha a mesma tradição. Esse debate foi principalmente motivado pelo alto preço dos minérios naquela época, quando o governo buscava formas de estimular a extração mineral, buscando aumentar sua participação na captura da renda gerada. A mesma prioridade foi mantida nas alterações implementadas no período Temer, com as mudanças no Código realizadas em 2017 e 2018. Se por um lado elas buscavam criar medidas para facilitar a expansão do setor, por outro, aumentavam a arrecadação na forma de royalties (embora não tenham modificado as isenções fiscais concedidas à exportação de minérios).


Após a mudança de governo, em 2019, não era clara a postura do executivo em relação à mineração. Apesar da relação pessoal do presidente com a atividade de garimpo, ele não havia elaborado nenhuma proposta concreta para o setor, além de alguns comentários genéricos sobre a extração de nióbio.


Devido ao seu posicionamento claramente contrário aos direitos territoriais de populações tradicionais, esperava-se que, com sua posse, o setor se mobilizasse para finalmente conseguir passar no Congresso Nacional uma lei que regulamentasse a mineração em Terras Indígenas. Com o desastre em Brumadinho, é de se esperar que esses planos sejam paralisados, ao menos momentaneamente. Por outro lado, a nomeação do almirante Bento Costa Lima Leite para Ministro de Minas e Energia sugere que haverá estímulo à extração de urânio no país, apesar de todos os problemas ambientais e de saúde pública associados a essa atividade no município de Caetité, na Bahia.


IHU On-Line – Passados pouco mais de três anos do desastre em Mariana, em termos de impactos sociais e opinião púbica, o que o crime da Vale em Brumadinho tem de diferente em relação ao episódio de Mariana?


Bruno Milanez – O rompimento de Fundão, em Mariana, foi o maior desastre da história da mineração em termos do volume de rejeito liberado e da extensão impactada. Entretanto, nem os tomadores de decisão, nem a opinião pública absorveram de forma efetiva a grandiosidade desse desastre. Tanto que, após os primeiros seis meses, a tragédia somente era lembrada em seus aniversários, quando se constatava que o Rio Doce continuava contaminado, as famílias desabrigadas ainda não haviam sido reassentadas e as pessoas impactadas não tinham sido indenizadas. Talvez o único aprendizado com o rompimento de Fundão tenha sido que barragens de rejeito precisavam de sirenes e de planos de emergências, embora esses não necessariamente precisassem funcionar.
Brumadinho mostra para a sociedade brasileira uma face ainda mais cruel da mineração. Se as mortes de todas as pessoas desaparecias forem confirmadas, esse poderá ser o segundo maior desastre da história da mineração em termos de óbitos. Colocando o Brasil, novamente, em destaque mundial em termos de tragédias do setor.


Mas não é só isso que chama a atenção para o rompimento da Barragem I. A proximidade temporal e geográfica entre os dois desastres escancara como parte considerável de nossa sociedade foi casuísta com o caso do Rio Doce e não aprendeu que existe um risco estrutural de desastres associados à atividade de extração mineral.


De certa forma, esses dois ingredientes combinados tornaram a comoção pública e a cobrança ainda maior em 2019. Se por um lado empresas e governos pouco aprenderam com o caso da Samarco, a sociedade civil organizada e os movimentos sociais, que estiveram profundamente envolvidos nas atividades de acompanhamento dos impactos ao longo do Rio Doce, mostraram uma grande capacidade de aprendizado e organização.


Assim, rapidamente, aspectos institucionais como financiamento de campanha, porta giratória, lobby das empresas foram explicitados em diferentes meios de comunicação, chamando a atenção para a captura regulatória e para a necessidade um maior controle social sobre empresas e governos como única forma de diminuir o risco de novos desastres futuros. Todavia, a garantia de que tais mudanças ocorrerão não está dada, e elas somente se concretizarão caso a sociedade se mantenha atenta e ativa na cobrança de tais modificações.


IHU On-Line – É possível pensar em políticas sustentáveis de transição econômica para as regiões onde predominam a exploração mineral? Quais?


Bruno Milanez – Organizações como o Comitê Nacional em Defesa dos Territórios frente à Mineração, o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) vêm há anos defendendo a necessidade de se discutir o modelo mineral brasileiro. Discutir o modelo não quer dizer ser contra toda forma de mineração, nem questionar a necessidade da atividade. Discutir o modelo significa exatamente questionar a forma de se minerar e como definir prioridades, múltiplos usos dos territórios e a extração mineral. Discutir o modelo passa, entre outras coisas, em romper com o fetiche de que um mineral precisa ser extraído apenas “porque ele está lá”.
Devido ao meu entendimento do conceito de sustentabilidade, eu considero a ideia de uma “mineração sustentável” como um oxímoro, uma contradição em termos. Mas acredito que seja possível e necessário pensar em uma transição. Eduardo Gudynas fala na necessidade de os países latino-americanos romperem com o modelo de extrativismo depredador, caminhar em direção a um extrativismo sensato e, posteriormente, quem sabe, alcançar a extração indispensável.


Essa mudança, porém, não ocorrerá de forma natural, nem movida por uma mão invisível. Ela necessita de ações coordenadas de políticas que forcem as empresas mineradoras a internalizar os custos que, hoje, externalizam para a sociedade (na forma de contaminação, risco etc.), possibilitem a criação de áreas livres de mineração, deem às populações poder de veto sobre projetos extrativistas em seus territórios, ou de estabelecimento das escalas e ritmos de exploração, garantam condições adequadas de saúde e segurança dos trabalhadores, revertam os subsídios tributários, entre outros.


A criação de um caminho de transição é possível, mas isso não quer dizer que ela seja fácil. Esse caminho só poderá ser construído quando a sociedade se organizar de tal forma que consiga modificar a correlação de forças na capacidade de influenciar as decisões governamentais. Essa organização não ocorreu com o rompimento de Fundão, quem sabe poderá surgir a partir do desastre que ocorreu em Brumadinho.

(EcoDebate, 21/02/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.


[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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O gigante projeto de mineração chegou à exaustão e está colocando em colapso as condições de vida de toda a população, artigo de Gilvander Moreira

O gigante projeto de mineração chegou à exaustão e está colocando em colapso as condições de vida de toda a população, artigo de Gilvander Moreira

Mineração causa colapso das condições de vida. Basta!

Brumadinho - calculando perdas x calculando prejuízo

O gigante projeto de mineração em Minas Gerais, no Pará e em outros estados do Brasil, chegou à exaustão e está colocando em colapso as condições de vida de toda a população, da mãe terra, da irmã água e os biomas. Se as classes trabalhadora e camponesa, e todas as pessoas de boa vontade do campo e da cidade não acordarem, se não se organizarem e partirem para lutas coletivas e massivas que joguem ‘areia na engrenagem de morte da grande mineração’, ocorrerão cada vez mais tragédias e maiores do que as que aconteceram e continuam a partir de Bento Rodrigues, em Mariana, e de Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. 


Temos que honrar as centenas de pessoas assassinadas pela Vale e pelo Estado e também os Rios Doce e Paraopeba e respeitá-los. A mãe terra, a irmã água, a flora e a fauna e a classe trabalhadora empurrada para aceitar trabalhar como terceirizados, em situação análoga à de escravidão, estão gritando: BASTA DE MINERAÇÃO! CHEGA! EXIGIMOS RISCO ZERO! Exceto os cúmplices ou mentores da máquina de guerra que se tornou a mineração em grande escala, todos estão indignados até o último fio de cabelo. Basta de sacrificar no altar do deus mercado/capital tantas vidas humanas e de toda a biodiversidade. Mineração em grande escala com os processos de superexploração se tornou algo satânico, diabólico e idolátrico, pois semeia devastação que se multiplica em uma progressão geométrica. 


Não existem apenas riscos, já se matou demais. Ao ouvir quem está morrendo aos poucos, um pouco a cada dia, debaixo de lama tóxica de barragens de mineradoras, não nos resta dúvida: as grandes mineradoras, lideradas pela Vale, em conluio com o Estado, tocadas pela classe dominante, estão fazendo guerra contra o povo, contra a mãe terra, contra as nascentes, os rios, os lençóis freáticos, os biomas, os animais, a flora e a fauna. Júlio Grilo, superintendente do IBAMA2/MG, desde janeiro de 2018, alertou em várias reuniões da Câmara de Atividades Minerária do COPAM3: “Todas as barragens de mineração têm risco e podem se romper. Só não sabemos o dia e a hora.” Nos últimos 20 anos, dezenas de barragens de mineração já se romperam em Minas Gerais e em outros estados. Dia 17 de fevereiro de 2018, por exemplo, houve um vazamento de rejeitos do complexo da mineradora Hydro Alunorte, em Barcarena, PA. O Rio Murucupi e diversos igarapés foram contaminados, e muitas comunidades ribeirinhas e quilombolas tiveram o seu modo de vida profundamente violentado. 


Com licença renovada pelo Governo de Minas Gerais em março de 2018 para mais dez anos de extração de ouro, as megabarragens de Santo Antônio e Eustáquio, com 7 quilômetros de diâmetro, da Mina Morro do Ouro – maior mina de ouro do mundo a céu aberto, da mineradora canadense Kinross, em Paracatu, se romperem, parte da cidade de Paracatu e inúmeras comunidades abaixo serão dizimadas, o Rio Paracatu e o Rio São Francisco receberão a punhalada de misericórdia. Priscila Sueli Rezende, em pesquisa de dissertação de mestrado na UFMG, em 2009, constatou que “as concentrações mais altas de arsênio foram observadas no Córrego Rico – abaixo das barragens da Kinross -, em Paracatu, correspondendo a uma concentração 190 vezes maior que a estipulada pela legislação ambiental”. Por isso, principalmente, há uma elevadíssima incidência de câncer na população de Paracatu e região. Se a grande barragem da mineradora Anglo Gold Ashanti, em Sabará, se romper, passará por cima do bairro Pompéu e de vários outros bairros, matará o Rio Sabará, o Rio das Velhas e o Rio São Francisco.


Otávio Freitas, de Nova Lima, coautor de Ação Popular contra a Mina Capão Xavier4, da VALE, alerta: “Risco maior pode estar na barragem de rejeito da antigamente chamada barragem de Tamanduá, hoje chamada de Capão da Serra, barragem em atividade e que recebe os rejeitos das minas de Tamanduá e Capitão do Mato, em Nova Lima. E/ou o risco pode ser também a barragem de Gorduras, da mina da Mutuca. Se essas barragens se romperem, a lama tóxica invadirá a bacia do córrego Macacos, que cai no Rio das Velhas e depois no Rio São Francisco”. Além de reintegrações de posse em propriedades que não cumprem função social, gerando o despejo de milhares de famílias de suas casas em ocupações do campo e urbanas, as grandes mineradoras, em uma gula sem fim, estão também despejando milhares de famílias de suas moradias. 


Ou seja, despeja-se pela falta de reforma agrária e de reforma urbana e, agora também, pela superexploração das mineradoras. 


Belo Horizonte e região metropolitana não estão apenas em um quadrilátero ferrífero, mas em um quadrilátero aquífero. Aliás, a capital de Minas Gerais foi deslocada de Ouro Preto para Belo Horizonte principalmente em função dos seus mananciais, um importante aquífero situado nos arredores da Serra do Curral que conseguiria abastecer até 3 milhões de pessoas, mas a mineração e outras indústrias, como as de bebidas, ali instaladas, estão exaurindo tudo e colocando em colapso as condições objetivas de vida. 

Diante desse cenário, soluções moderadas apenas tentam domesticar a voracidade do ‘escorpião que só sabe ferir e matar’. Não basta trocar velhas tecnologias por novas tecnologias. Não basta proibir barragens a montante (acima) e continuar fazendo barragens a jusante (abaixo), dois métodos de barragens que oferecem sérios riscos de rompimento. Não basta criar territórios livres da mineração. Não basta “mudar o modelo de mineração”. Não basta fazer Termo de Ajuste de Conduta (TAC) e acordos que garantem apenas poucos direitos – “o mínimo legal”, mas que, na prática, abrem mão de direitos fundamentais. 


Não basta CPI da mineração e Projetos de Leis para abrandar a fúria das mineradoras. Privilegiar ações na institucionalidade também é um erro grave, pois, como efeito colateral, desmobiliza o povo para as grandes lutas necessárias. Todas as soluções moderadas deixam intacta a coluna mestra das grandes mineradoras que, como o dragão do Apocalipse, vão devastando tudo e deixando só “terra arrasada”. 


Necessário lembrar da densa obra intitulada COLAPSO – como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso, do biogeógrafo e filósofo Jared Diamond, editada no Brasil em 2013, que já alertava sobre catástrofes, contaminação química e danos ambientais irreversíveis relacionados à mineração em todo o mundo. 

Na obra Colapso, Jared Diamond alerta: “Outros problemas ambientais causados pela mineração de metais compreendem poluição da água pelos próprios metais, produtos químicos de processamento, vazamentos de ácidos e sedimentos. Elementos metálicos e semelhantes ao metal no próprio minério – especialmente o cobre, cádmio, chumbo, mercúrio, zinco, arsênio, antimônio e selênio – são tóxicos e tendem a causar problemas ao acabarem em córregos e lençóis freáticos como resultado das operações de mineração. […] Muitos produtos químicos usados na mineração como cianeto, mercúrio, ácido sulfúrico, bem como o nitrato produzido pela dinamite, também são tóxicos. Mais recentemente foi descoberto que, ao serem expostos à água e ao ar através da mineração, os minerais contendo sulfeto vazam ácidos que causam séria poluição na água por si mesmo e pelos metais lixiviados por eles. Os sedimentos transportados para fora das minas pela água podem ser danosos à vida aquática cobrindo, por exemplo, as superfícies de desova dos peixes. Além desses tipos de poluição, o mero consumo de água de muitas minas é alto o bastante para ser significativo (DIAMOND, 2013, p. 541).” 


O crime não é só da Vale, é também do Estado cúmplice. É crime também dos governos anteriores e atuais, do poder legislativo que, em Minas Gerais, cuspiu no rosto de todas as vítimas do crime tragédia da VALE/BHP/SAMARCO/ESTADO ao aprovar, em regime de urgência, um projeto indecente, flexibilizando ainda mais o licenciamento ambiental. Os Ministérios Públicos, estadual e federal, também estão deixando muito a desejar, pois optaram por fechar acordos questionáveis e promotores combativos foram retirados das funções de investigação. O poder judiciário também está sendo cúmplice quando decide atendendo a pedidos escusos das mineradoras, desrespeitando os princípios constitucionais, tais como os da dignidade da pessoa humana e da precaução, e violando o artigo 225 da Constituição que exige garantir um meio ambiental saudável. O judiciário se coloca ao lado dos opressores quando é lentíssimo para decidir quando os injustiçados batem à porta do tribunal, mas é veloz em decidir quando é para garantir privilégios e interesses do capital. 


Enfim, a humanidade só terá futuro se todas as pessoas de boa vontade, do campo e da cidade, se comprometerem na luta pela construção de uma sociedade do Bem Viver, com estilo de vida simples e austero, e cerrar fileira nas lutas sociais e ambientais pela superação do capitalismo que, como uma máquina de moer e corroer vidas, segue causando cada vez mais devastação socioambiental por meio do agronegócio com uso indiscriminado de agrotóxicos, pelas monoculturas que sacrificam os biomas e pelos megaprojetos de mineração. 


Referência
DIAMOND, Jared. COLAPSO – como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Rio de Janeiro: Record, 2013. (Original: 2005)
Belo Horizonte, MG, 19 de fevereiro de 2019.


Obs.: Os vídeos, abaixo, ilustram o texto, acima.


1 – Peregrinação ao lado do rio Paraopeba, morto, até o Velho Chico, em Minas Gerais. 30/1 a 02/2/2019
2 – Prefeito de Brumadinho, MG, defende minério-dependência e quer só abrandar. 1º/2/2019
3 – Crime da VALE e do Estado/Brumadinho/MG: Silêncio, não. Luta, sim, pela vida! -1º/2/2019
4 – Estado de MG a serviço das mineradoras/Prof. Dr. Klemens/UFMG. Vídeo 1 – 26/1/2019.
1 Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.comwww.gilvander.org.brwww.freigilvander.blogspot.com.brwww.twitter.com/gilvanderluis – Facebook: Gilvander Moreira III
2 Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis.
3 Conselho Estadual de Política Ambiental.
4 Gustavo Gazzinelli e Ricardo Santiago são os outros autores de uma Ação Popular contra a abertura da Mina Capão Xavier, em Nova Lima, em 2004.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/02/2019


"O gigante projeto de mineração chegou à exaustão e está colocando em colapso as condições de vida de toda a população, artigo de Gilvander Moreira," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/02/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/02/21/o-gigante-projeto-de-mineracao-chegou-a-exaustao-e-esta-colocando-em-colapso-as-condicoes-de-vida-de-toda-a-populacao-artigo-de-gilvander-moreira/.

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Inevitável mundo novo, artigo de Claudia Sá

Inevitável mundo novo, artigo de Claudia Sá


crianças cuidando do planeta

[EcoDebate] Não sei quando tudo isso começou, se foi com a Revolução Industrial ou com a “invenção” do ser humano, neste ou naquele momento da História, o certo é que vem de longe o racha entre o bicho homem e tudo o que o envolve. Note, que nem bicho aceitamos ser. Quando falamos dos animais, estamos nos referindo aos outros, claro, os inferiores. Quanto à Terra, sim, ela foi nos entregue prontinha… para ser “melhorada”.

Essa visão, no entanto, há muito não se sustenta. E nem é preciso citar aqui as grandes catástrofes que vêm abalando o mundo, às quais muitos ainda teimam em reagir estudando mais maneiras de domar o planeta. Tampouco vale as agruras individuais ou que afetam grupos menores ou menos visíveis no cotidiano.

Basta um olhar mais apurado pela janela – de casa, do escritório ou do carro para saber que há algo fora do lugar. Há os que não querem ver, sim, os que se acham os domadores das forças naturais, mas, por outro lado, existe muita gente engajada na construção de um mundo realmente sustentável.
E não! Não se apegue ao uso marqueteiro da palavra. Nas minhas andanças por esse Brasil afora, tive a oportunidade de ver e conviver com pessoas – de doutor a agricultor, a burocrata, experimentando do mundo novo que emerge.

Novo? Sim. Uma, porque entender a nós mesmos como seres nativos do planeta e parte dele não coube às gerações da nossa época, pelo menos massivamente; outra, porque não se trata de volta ao passado, mas de um passo adiante.

Ninguém que eu conheça quer voltar às cavernas. É exatamente o contrário: os adeptos desse novo olhar, ou pelo menos boa parte deles, têm tudo a favor de tecnologia, do conforto, do bem-bom da vida contemporânea.

O que se quer é mostrar que é possível – e nada doloroso – ter e fazer tudo que se tem e faz hoje, sem destruir tudo em volta e se destruir, consequentemente. Algumas perguntinhas simples podem ilustrar tudo isso:

– As ruas precisam ser cobertas? Sim, é inimaginável patinar na lama em uma cidade como São Paulo, por exemplo. Mas elas têm que ser impermeáveis?

– As cidades são feitas para os carros ou para as pessoas? Pessoas de carro ou pessoas? Por que o protagonismo é do carros e, em muitos casos, pedestres são tratados como intrusos?

– O copo onde se toma o suco tem que ser descartável? Se sim, o que impede que os insumos sejam biodegradáveis?

– Quantas embalagens são necessárias para um único produto?

E assim finalizo, porque as respostas que tenho são minhas, as perguntas não, são universais. Cabe a cada um fazer a si mesmo essas e todas as que lhes vier à telha e, assim, descobrir em que mundo se encaixa.

Claudia Sá é jornalista.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/02/2019

"Inevitável mundo novo, artigo de Claudia Sá," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/02/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/02/21/inevitavel-mundo-novo-artigo-de-claudia-sa/.

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Ecossistemas poderão ser restaurados por meio da engenharia da biodiversidade

Por Elton Alisson, da Agência FAPESP , publicado originalmente na revista Eco21 –

Muitos cientistas consideram que as atividades humanas começaram a ter, a partir do fim do século 18, um impacto tão significativo no clima e nos ecossistemas da Terra a ponto de der dado origem a uma época geológica que denominaram Antropoceno.


As eliminações de espécies nesse período mais recente da história do planeta Terra podem rivalizar com as grandes extinções em massa registradas ao longo de outras eras geológicas. A fim de restaurar essa perda de biodiversidade e o funcionamento do ecossistema terrestre seria preciso aplicar, urgentemente, o conhecimento ecológico existente.

Um estudo de autoria de pesquisadores brasileiros e britânicos indicou que há condições teóricas, metodológicas e tecnológicas sem precedentes para enfrentar esse desafio.

Resultado de uma pesquisa apoiada pela FAPESP e de um pós-doutorado realizado com Bolsa da FAPESP, o trabalho teve resultados publicados na revista Trends in Ecology & Evolution.


“Estamos a apenas alguns passos de possibilitar a realização da ‘engenharia da biodiversidade’, ou seja, manipular a biodiversidade para projetar a composição de comunidades ecológicas e garantir a permanência das funções de um ecossistema”, disse Rafael Luís Galdini Raimundo, professor do Departamento de Engenharia e Meio Ambiente da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e primeiro autor do estudo, à Agência FAPESP.

“Temos agora todas as condições teóricas e metodológicas para entender e prever melhor as consequências da inclusão ou da retirada de uma espécie de uma comunidade para fim de manejo na diversidade funcional de um ecossistema”, avaliou.

De acordo com os autores do estudo, a manipulação de comunidades ecológicas para restauração tem uma longa história científica e é feita há mais de um século, principalmente em países da Europa e nos Estados Unidos.

Tradicionalmente, contudo, as iniciativas de restauração têm sido focadas na inclusão ou na remoção de espécies com o intuito de resgatar padrões de riqueza de plantas e animais, sem se concentrar nas interações ecológicas entre populações, espécies e predadores e presas, por exemplo.

Essas interações ecológicas são determinantes para os padrões de biodiversidade e de funcionamento de um ecossistema por moldar a força e os modos de seleção natural. Eventuais mudanças nos padrões dessas interações provocadas pela extinção de espécies ou pela entrada de espécies invasoras, por exemplo, afetam a evolução de características funcionais ecologicamente relevantes, como o tamanho do bico de aves que se alimentam de frutos (frugívoras) e o tamanho dos frutos que dispersam.

Na Mata Atlântica, a perda de grandes espécies de aves como tucanos (Ramphastidae) e jacutingas (Pipile jacutinga) tem levado à diminuição da dispersão de árvores com sementes grandes. Já a diminuição de espécies dispersoras do palmito-juçara (Euterpe edulis) tem feito com que suas sementes passem a ser distribuídas por poucas áreas do bioma. Consequentemente, tem diminuído o tamanho das sementes da planta, dizem os autores do estudo.

“As interações entre espécies representam a ligação entre processos ecológicos e evolutivos e também podem ser vistas como a conexão entre a estrutura da biodiversidade e o funcionamento do ecossistema”, disse Galdini Raimundo.


Condições propícias
O desenvolvimento de modelos matemáticos de redes adaptativas permitiu a ecólogos compreender melhor como mudanças nos padrões de interações ecológicas – que definem a estrutura de uma rede de interações – são seguidas por mudanças na dinâmica e nas propriedades das populações de cada espécie, como sua abundância e características.

Essas mudanças ecológicas e evolutivas nas propriedades das espécies podem desencadear novas reconfigurações no nível da rede de interações, fechando um ciclo.

“A aplicação da abordagem de rede à ecologia permite gerar previsões para o que acontece com processos evolutivos e ecológicos nessas redes de interações complexas e criar hipóteses testáveis de diferentes estratégias de manejo”, disse Galdini Raimundo. “Com isso, é possível construir comunidades estáveis, com todas as funções ecossistêmicas operando normalmente.”

Apesar do potencial dos modelos de redes adaptativas na gestão de ecossistemas, até recentemente os dados necessários para alimentá-los impediam sua aplicação como uma ferramenta preditiva na ecologia da restauração.

As técnicas de sequenciamento do genoma desenvolvidas nos últimos anos permitiram obter dados de interação de espécies em uma escala sem precedentes, dando origem ao big data da biodiversidade.


Segundo os pesquisadores, essas técnicas de sequenciamento possibilitaram não apenas obter dados da estrutura ecológica de redes, mas também sobre as relações filogenéticas entre espécies dentro de uma comunidade – o que é fundamental para prever como uma rede ecológica irá reconectar sua estrutura e como novas dinâmicas irão remodelar características e a abundância de espécies.

“Fundir técnicas de sequenciamento de genoma de última geração com redes ecológicas fornece novas ferramentas para estudar a resiliência de comunidades interagentes às mudanças ambientais, ao mesmo tempo que incorpora importantes atributos, como a diversidade funcional”, disse Darren Evans, professor da Newcastle University, na Inglaterra, e coautor do estudo.

Alguns dos gargalos para o uso desses modelos ecológicos evolutivos e preditivos são ampliar as colaborações em pesquisa, de modo a permitir monitorar locais para fazer as previsões de rede adaptativas, e aumentar a interação entre pesquisadores que realizam os trabalhos em campo e implementam as práticas de restauração e os teóricos.

“A aplicação desses modelos depende do estabelecimento de uma via de mão dupla entre o pesquisador que faz os modelos e gera as predições e quem está em campo, testando as práticas de restauração nessa escala de comunidade, para aprimorar os modelos, gerar predições mais acuradas e, com o tempo, em longo prazo, conseguirmos refinar essa engenharia da biodiversidade”, disse Galdini Raimundo.

(#Envolverde)

Cinco barragens vizinhas a Córrego do Feijão não têm sirene nem plano de evacuação

Por Brasil de Fato – 
 
Empresa Mineração Ibirité Ltda. (MIB) possui cinco empreendimentos com rejeitos a 800 metros da comunidade

Moradores de Brumadinho (MG) manifestaram preocupação com as condições da mineradora da empresa Mineração Ibirité Ltda. (MIB). A mineradora está instalada em Córrego do Feijão, área atingida pelo crime socioambiental de 25 de janeiro, quando uma barragem da Vale se rompeu e causou a morte de 166 pessoas. A MIB possui cinco barragens de rejeitos sem sirenes de emergência a 800 metros da comunidade de Córrego de Feijão e, segundo os moradores, não apresentou à comunidade um plano de evacuação em caso de rompimento.

As atividades da MIB estão paralisadas a pedido do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), já que a área de atividade de mineração da MIB fica próxima ao local do rompimento da barragem da Vale. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG) determinou que a MIB adote medidas para impedir “todo e qualquer carreamento de sedimentos para os Córregos do Feijão e Samambaia”.

Além de temer pela falta de plano diante de um possível rompimento de alguma das barragens da MIB, os moradores sofrem os impactos do funcionamento cotidiano da mineradora. Segundo Rejane e Ricardo Morais, casal que mora ao lado da mineradora, os transtornos causados pela MIB começaram em 2008. “Estamos há mais de dez anos sofrendo com os barulhos dos explosivos e falta de energia, a poeira do minério e rachaduras na estrutura. Nossa casa está sustentada por duas pilastras de madeira”, denunciam.

Em 2017, o TJ-MG determinou que a mineradora deixasse de fazer desmontes explosivos. O método utilizado pela mineradora provoca vibrações que poderiam causar danos às estruturas das barragens.
A reportagem entrou em contato com o MIB para conhecer o posicionamento da empresa sobre as denúncias, mas não obteve resposta.


Modelo de alto risco
Há dois métodos básicos na construção de barragens: os alteamentos à jusante e à montante. Em entrevista recente ao Brasil de Fato, Bruno Milanez, professor do Departamento de Engenharia de Produção Mecânica da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), explicou o que causa instabilidade no segundo modelo – usado pela Vale e pela MIB.


“A barragem à montante é construída em direção aos rejeitos. À medida que a barragem vai se tornando mais alta, fazendo os subsequentes alteamentos, os ‘degraus’ que vemos, ela tem uma inclinação, subindo sobre o rejeito. Chega um momento em que se faz a barragem sobre o próprio rejeito, um material, pelo seu teor de água, que não é muito estável”, disse.

Milanez também apontou que, nas barragens à jusante, os níveis são construídos na direção oposta aos rejeitos e utilizam como base o solo compactado. Esse elemento em que se fundam as barragens, tecnicamente chamado de “material de empréstimo”, torna a barragem à jusante mais cara.


É essa diferença de custos que explica a opção das mineradoras privadas pelo método de alteamento à montante, apesar do alto risco aos moradores.

*Com informações do MAB

Edição: Mauro Ramos

(#Envolverde)

Usinas que destruíram rios rendem R$ 43 milhões a políticos e empresários de Mato Grosso

Por Lázaro Thor Borges, em Cuiabá, De Olho nos Ruralistas – 
 
Entre os beneficiados está um ex-deputado tucano e o ex-ministro Blairo Maggi, mais conhecido como produtor de soja; em delação, ex-governador Silval Barbosa disse que créditos para empresas foram pagos de forma irregular

As empresas que deram início ao boom das Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH’s) em Mato Grosso, em 2005, já colhem lucros de seus empreendimentos. Apenas a Maggi Energia S.A., que pertence ao ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi (PR), lucrou R$ 18 milhões em 2017, R$ 3 milhões a mais do que no ano anterior.

A empresa do ex-governador de Mato Grosso se associou à MCA Energia, do ex-deputado Carlos Avalone (PSDB), e à Linear Participações e Incorporações, do empresário José Geraldo Nonino, para construir uma rede de usinas hidrelétricas distantes 10 quilômetros uma das outras em um trecho do Rio Juruena.

A empresa Juruena Participações e Investimentos, também em nome de José Nonino, opera as PCH’s Cidezal, Parecis, Rondon, Telegráfica e Sapezal, todas no Rio Juruena. Em 2017, o lucro da empresa foi de R$ 25 milhões, R$ 16 milhões a mais do que no ano anterior, segundo dados do balanço financeiro da empresa. As empresas do complexo Juruena lucraram R$ 43 milhões, juntas, em 2017.


Árvores secam nas margens de lago construído na PCH Bocaiúva, em Brasnorte (MT). (Foto: ALMT)
A construção do complexo foi contestada pelo Ministério Público Federal (MPF) e pelo Ministério Público Estadual (MPE) por conta de uma série de irregularidades no licenciamento, mas ainda assim as obras foram concluídas. As ações civis públicas sequem em tramitação.

“Estes projetos literalmente barraram o rio”, conta Andreia Fanzeres, coordenadora do programa de direitos indígenas da Operação Amazônia Nativa (Opan). “É inavegável, não sobe nem desce nada, o impacto ambiental foi grande e o impacto social jamais foi considerado”.

As alterações afetaram principalmente os pescadores dos municípios ao redor do rio e os indígenas da etnia Enawenê-nawê, que vivem do peixe e não comem carne vermelha. As barragens impediram que as espécies subissem o rio na piracema para se reproduzir, reduzindo o volume dos animais nas águas.


PCH’S FORAM CONSTRUÍDAS SEM PAGAR TRIBUTOS

 

 

O grupo de Maggi e Avalone, precursor na construção de usinas do tipo, conseguiu viabilizar boa parte destas construções graças a créditos tributários na ordem de R$ 75 milhões. É o que diz trechos da delação premiada do ex-governador Silval Barbosa (MDB), sucessor de Maggi. Em acordo firmado com o MPF, Silval conta que o pagamento dos créditos foi feito de forma irregular.

Segundo o ex-governador, Avalone e Nonino o procuraram em 2010 para cobrar o saldo. O valor foi pago meses depois, com uma condição: 50% do dinheiro retornaria ao governo para que Barbosa quitasse outros débitos ilegais adquiridos na gestão Maggi. O caso continua sendo apurado e nenhum dos citados foi preso até hoje.


Madeira retirada do lago da PCH Bocaiúva, inundado de forma irregular. (Foto: ALMT)
Os construtores do Complexo também foram beneficiados com falhas no licenciamento ambiental feito pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema). Em 2011, quando as PCH’s entraram em operação, foi aberta uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar 43 usinas.



Entre as solicitações da CPI está um pedido para tornar públicos os dados sobre a renúncia tributária feita pelo governo de Mato Grosso. Em agosto de 2012, o relator da CPI das PCH’s, deputado Dilmar Dal Bosco (DEM), pediu a relação completa das usinas beneficiadas, mas nunca obteve resposta.


RIO EM TERRA INDÍGENA TEVE LEITO DESVIADO



Na denúncia referente ao Complexo Juruena, os técnicos contratados pela Assembleia Legislativa do estado comprovaram que a Sema considerou apenas o impacto de cada empreendimento individualmente, sem avaliar o efeito global das obras e da operação das hidrelétricas.


A CPI das PCH’s encaminhou todos os resultados da apuração para o MPF e para o Ministério Público Estadual. Os resultados também incluem uma lei, de autoria do deputado Dilmar Dal Bosco, que determina que toda PCH deve ter projeto aprovado pelo legislativo estadual.


Desde janeiro, o observatório dedica uma editoria específica a temas que envolvem o Cerrado.
Na maioria das denúncias apuradas a Sema permitiu irregularidades antes, durante e depois da operação das pequenas hidrelétricas. Um dos casos mais emblemáticos foi a construção da PCH Bocaiúva, no Rio Cravari, em Brasnorte (a 572 quilômetros de Cuiabá).


A empresa responsável desviou o leito do rio, depositou adubos químicos na água e provocou a morte de milhares de peixes.



No caso da PCH Bocaiúva, o dano ambiental foi patrocinado pelo Estado, pois o empreendimento recebeu financiamento de R$ 96,5 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).


Estas e outras facilidades atraem políticos, empresários e até contraventores. É o caso do ex-bicheiro João Arcanjo Ribeiro, que também resolveu investir em pequenas centrais hidrelétricas. Ele entrou na briga para construir uma usina na Fazenda Colibri no Pantanal, em Santo Antônio do Leverger (a 38 quilômetros de Cuiabá).


O local já havia sido registrado pelo empresário Pedro Rodrigues na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Rodrigues denunciou ameaças e uma tentativa de homicídio. Na Sema, o projeto de João Arcanjo tramitou de uma forma incomum: a licença prévia foi deferida sete dias depois do pedido ser protocolado, mas o processo acabou suspenso pela Aneel.


“O impacto é muito grande e não tem retorno social nenhum, não existe legislação alguma para os municípios que sofrem impacto”, conta a procuradora Fernanda Amorim, que participou da CPI. “Há exemplos de lugares em que os pescadores ficam desempregados, só existem empregos na construção, depois o funcionamento é todo automatizado e muitos trabalhadores ficam nas cidades, que não têm capacidade de oferecer serviços públicos”.


PEQUENAS HIDRELÉTRICAS, GRANDES NEGÓCIOS

 



O Rio Cravari, que passa na Terra Indígena Manoki, teve o leito desviado com adubos químicos. 
(Foto: ALMT)
As facilidades no licenciamento e no funcionamento explicam por que existem atualmente 63 PCH’s em Mato Grosso: 96 projetadas e 6 em construção. Somente na Bacia do Juruena são 77 PCH’s, entre projetadas, em construção e em operação.

Um estudo publicado em 2013 sobre o impacto das PCH’s na bacia do Rio Paraguai mostra que cada quilômetro inundado pelas pequenas barragens pode render mais de R$ 3,2 milhões por ano. O que equivaleria a mais de 80 mil sacas de soja ou quase 11 mil sacas de café arábica.

Pensando nessa lucratividade é que Eraí Maggi, o primo sojicultor de Blairo Maggi, também entrou no negócio. A Bom Futuro Energia S.A, braço energético da holding homônima, foi criada em 2007, e hoje opera três pequenas hidrelétricas em operação. Eraí pretende construir a PCH Perdidos e a PCH Sumidouro, ambas no Rio Claro, entre os municípios de Diamantino e São José do Rio Claro.


O temor de que a história se repita, dessa vez com outro membro da família Maggi, fez a Rede Juruena Vivo protocolar uma carta à Aneel, em setembro, solicitando consulta aos povos tradicionais no entorno das PCH’s sempre que for autorizar empreendimentos como o de Eraí.  A ideia é que o empreendedor possa encontrar um local menos delicado para investir.

“Quando identificamos os problemas no licenciamento o argumento é de que o empreendedor já gastou um monte de dinheiro e quando chega aqui na ponta os movimentos sociais e os indígenas vêm atrapalhar”, relata Andreia Fanzeres. “A sociedade civil e os povos potencialmente afetados devem participar do processo desde o início”. (#Envolverde)