segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Agrotóxico usado em lavouras de soja e milho causou morte de abelhas em Santa Catarina

Agrotóxico usado em lavouras de soja e milho causou morte de abelhas em Santa Catarina

 Dagmara Spautz
06/05/2019 - 23h26 - Atualizada em: 07/05/2019 - 00h40
Foto: Divulgação Epagri
Foto: Divulgação Epagri
Um relatório preparado pela Cidasc comprovou que foi o uso de agrotóxicos em lavouras de soja e milho a causa da morte de 20 milhões de abelhas no Planalto Norte, no início do ano. Os técnicos visitaram propriedades, conversaram com agricultores e requisitaram receituários de aplicação de defensivos. 

Confirmaram o uso do fungicida trifloxistrobina e dos inseticidas triflumuron e fipronil, três substâncias encontradas nas abelhas mortas em testes de laboratório. 

O laudo não responsabiliza nenhuma das propriedades em especial. Considera que a contaminação das abelhas ocorreu de forma acidental, "sem um culpado de fato". Uma das hipóteses é que a aplicação tenha ocorrido no período de floração, quando ela não é recomendada.
Embora já se soubesse que a causa da perda das colmeias eram as três substâncias – em especial o fipronil, considerado altamente tóxico para as abelhas – era necessária a pesquisa de campo para confirmar se o foco foi mesmo a agricultura. Isso porque o produto é usado em diversas situações, inclusive para o controle de pulgas em animais domésticos.

SC pode restringir uso

Com a comprovação, a Cidasc e a Epagri pretendem levar adiante medidas de controle do fipronil – o que pode fazer de Santa Catarina o primeiro Estado no Brasil a restringir o uso do produto, já proibido em alguns lugares no mundo. A ideia é permitir o uso somente em sementes, quando é considerado mais seguro para as abelhas.
A proposta de regulamentação deve ser entregue ao Governo do Estado até o fim deste mês. Se concordar, a Secretaria de Agricultura e Pesca pode implantar as medidas por meio de portaria.

Fruticultura em risco

As 300 colmeias afetadas pela mortandade no Estado correspondem a uma fatia pequena da apicultura de Santa Catarina, que tem 315 mil colmeias em produção. Mas acendem o sinal de alerta: as abelhas não apenas produzem mel, mas são responsáveis pela polinização de diversas culturas, especialmente de frutas como a maçã, a ameixa e o pêssego. A preocupação com as colmeias, portanto, tem um forte respaldo econômico.

Avaliação

A Cidasc continua os levantamentos no Norte do Estado com relação às abelhas. A próxima visita técnica será no dia 22 deste mês, na companhia de especialistas. Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) têm prestado apoio ao Estado na busca de solução para a convivência das abelhas com a atividade agrícola.

Floresta Amazônica: desmatamento afeta a rica biodiversidade e causa impactos no planeta




Floresta Amazônica: desmatamento afeta a rica biodiversidade e causa impactos no planeta



Floresta Amazônica: Depredação gera desequilíbrio ambiental e afeta a rica biodiversidade

A maior biodiversidade do mundo espalhada em cerca de sete milhões de quilômetros quadrados – essa é a Floresta Amazônica, que está presente no Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. No país, a área é chamada de Amazônia Legal, com 5.217.423 km², e abrange os Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e pequena parte dos Estados do Maranhão, Tocantins e Mato Grosso. “A Amazônia é de longe o bioma mais diverso do planeta, com 10% de toda a flora. Para se ter uma ideia, enquanto a Amazônia possui 5.000 espécies de árvores, a América do Norte inteira possui apenas 650”, compara Magno Botelho Castelo Branco, doutor em Ecologia e Recursos Naturais e presidente da organização Iniciativa Verde.

“Com toda essa diversidade de climas, solos, relevos e ambientes distintos, conectados geograficamente ou não, a Amazônia é considerada a maior floresta tropical e maior banco genético do planeta, com mais de 1,5 milhões de espécies vegetais catalogadas, além de três mil espécies de peixes e 950 espécies de aves, e uma rica diversidade de répteis, anfíbios, mamíferos e insetos, muitos deles ainda nem catalogados pelos cientistas”, complementa Adriana Maria Imperador, doutora em Ciências da Engenharia Ambiental e professora da Universidade Federal de Alfenas (Unifal).

Há ainda muitos “tesouros” guardados na Floresta Amazônica. “É importante ressaltar que, devido a sua extensão, parte de sua biota (conjunto de seres vivos de um ecossistema) ainda não foi identificada, o que aumenta ainda mais sua importância para a biodiversidade mundial”, diz Branco. De acordo com Adriana, muitas destas espécies podem trazer benefícios imensuráveis ao homem, como a cura de doenças, servir como fonte de alimento, para a produção de remédios e cosméticos, além trazer benefícios ecológicos e ambientais.

A Amazônia, segundo a pesquisadora, também apresenta grande diversidade étnica com comunidades tradicionais indígenas, ribeirinhas e de seringueiros, que vivem dos produtos extraídos da floresta e são possuidoras de conhecimento empírico hoje muito valorizado e resgatado por estudiosos do mundo todo.

Desmatamento
Mas por que uma área tão rica em recursos naturais não recebe a proteção adequada e tem o desmatamento como sua maior ameaça? Conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em 2011, a taxa de desmatamento da Amazônia Legal foi de 6.238 km². Já o acumulado de 1988 a 2011 chegou a 392.021 km². “O desmatamento realizado para a agropecuária ainda é a maior ameaça à floresta primária da Amazônia. Isto se deve principalmente ao tamanho das áreas desmatadas para a formação de pastagens e produção de grãos. Intervenções de minerações e de hidrelétricas são mais drásticas, porém a escala é sempre bem menor do que da agropecuária”, explica Niro Higuchi, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Para o pesquisador, a exploração seletiva de madeira também representa uma importante ameaça à integridade da Amazônia. “Há uma lógica perversa que indica que os Estados da Amazônia que mais produzem madeira são também os que mais a desmatam”, ressalta.

Branco, por outro lado, acredita que atribuir à criação de gado o papel de grande vilã do desmatamento é injusto. “Outros vetores são também importantes. A pecuária se expande para as áreas de floresta por ser literalmente empurrada para essas áreas, visto que é uma das atividades que menos remunera a terra.

Quando ocorreu a expansão da cultura da cana-de-açúcar no Sudeste para a produção de etanol, por exemplo, tivemos um deslocamento da pecuária e de outras culturas para as áreas de terra com menor custo de oportunidade, o que inclui a Amazônia”, esclarece. O desmatamento é uma consequência de várias forças que resultam na ocupação sem planejamento da floresta. “A construção de estradas de rodagem é uma delas, pois as rodovias fomentam o desmatamento ao longo de seus eixos, o que ocorreria em intensidade muito menor se construíssemos ferrovias”, defende.

Já Adriana destaca as origens históricas do desmatamento: “a Amazônia ficou esquecida durante mais de quatro séculos e as populações que habitavam este ambiente permaneceram praticamente isoladas. Durante o governo de Getúlio Vargas (1930-1945), a ocupação foi estimulada por um programa de avanço das fronteiras”, aponta. Somente na década de 1970, expõe ela, a ocupação se deu de forma mais efetiva com a política de “integrar para não entregar”. “Desde então, muitos brasileiros migraram para o norte do país com a intenção de ganhos imediatos à custa da derrubada da floresta. Esta ocupação desordenada repercutiu no desmatamento com vistas à urbanização, à criação de gado e às práticas agrícolas”, destaca.
Impactos

O desmatamento reduz a biodiversidade, causa erosão dos solos, degrada áreas de bacias hidrográficas, libera gás carbônico para a atmosfera, reduz a umidade do ar, causa desequilíbrio social, econômico e ambiental. “A redução da umidade na Amazônia pode reduzir as chuvas na região centro-sul brasileira e até mesmo de outros países. Em 2005, quando a região amazônica sofreu com uma das maiores secas já registradas, o impacto atingiu áreas distantes e acarretou a perda de diversas culturas agrícolas no sul do Brasil e norte Argentina, com um prejuízo incalculável e perdas irreversíveis”, exemplifica Adriana.

Além das questões climáticas, o desmatamento causa também muitos prejuízos para a biodiversidade. “Com a perda de habitat, as espécies desaparecem, e com elas se perdem os serviços ambientais que nos prestam: metade da farmacopeia conhecida tem origem em extratos naturais e em substâncias presentes em diversos seres vivos. Compostos medicinais de origem natural são descobertos regularmente e, como parte da biodiversidade amazônica ainda é desconhecida, estamos perdendo esse patrimônio mesmo antes de conhecê-lo”, lamenta Branco.

Para Higuchi, as emissões causadas pelo desmatamento são irracionais. “Eu diria que o desmatamento na Amazônia contribui com 2/3 das emissões brasileiras. É difícil aceitar estas emissões como racionais porque a Amazônia contribui com menos de 8% na formação do produto interno (ou doméstico) bruto do Brasil”. Branco explica que a Floresta Amazônica se comporta como um enorme reservatório de carbono atmosférico: “Durante o seu crescimento, as árvores removem enormes quantidades de CO2 da atmosfera – metade da biomassa das árvores é constituída de carbono. Com o desmatamento, todo esse carbono é reemitido para a atmosfera, o que contribui ainda mais para o aumento do efeito estufa”, realça.

Como combater
Para coibir o desmatamento, de acordo com o pesquisador do Inpa, é necessário simplesmente cumprir as legislações vigentes. Ele acredita que as ações tomadas até agora não têm sido suficientes por falta de gente para impor as leis. Branco concorda: “As ações tomadas pelo poder público são vitais, mas não bastam. A grande iniciativa do governo consiste nas metas adotadas pela Política Nacional de Mudança do Clima, que prevê a redução do desmatamento para cerca de 20% dos níveis observados no período 1996-2005”, sinaliza. Para ele, é importante que a sociedade exija garantia de origem nos produtos que consome, por exemplo questionando as redes de supermercados se a carne que vendem é oriunda de área de desmatamento ilegal.

Adriana cita medidas adotadas no Acre em que a prática do manejo florestal é uma alternativa ao padrão de exploração dos recursos naturais na região. “Minha pesquisa de doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Embrapa, abordou aspectos da Certificação Florestal Comunitária para Produtos Florestais não Madeireiros e apontou que é possível desenvolver e ao mesmo tempo cumprir critérios que indiquem uma postura sustentável que seja ecologicamente correta e viável, e socialmente justa”. Ela destaca também a criação de unidades de conservação de uso sustentável, determinada pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC, 2000), que estimula o uso sustentável da floresta.

Créditos de carbono
Segundo Branco, ações de preservação na Floresta Amazônica podem gerar créditos de carbono. “Já existem alguns projetos demonstrativos em andamento. Em uma escala maior, há diversas propostas de como as empresas e mesmo unidades federativas podem cumprir metas de redução de emissões de carbono em parte financiando projetos que contribuam para a redução do desmatamento na região. Todas essas iniciativas estão em fase preliminar e, em um futuro próximo, teremos boas notícias sobre o assunto”, acredita.

Adriana pontua que a existência da floresta não confere ao Brasil hoje o direito de utilizar este grande mérito como crédito de carbono. “Porém, seria uma estratégia interessante do governo investir na inclusão de suas áreas florestais nessa proposta, pois serviria como incentivo à manutenção da Floresta Amazônica e demais áreas florestais contidas em seu território.”

Entretanto, Higuchi lembra que, quando o crédito de carbono surgiu como mecanismo de desenvolvimento limpo (MDL), em 1997, no Protocolo de Quioto, houve grande expectativa para a proteção das florestas tropicais por meio, principalmente, da recuperação das áreas desmatadas. “No entanto, de 1997 até os dias atuais não há nenhum MDL-florestal aprovado na Amazônia. O crédito de carbono funcionou como ‘ouro de tolo’ naquela região”, lamenta.

Em relação à nova alternativa para proteger as florestas conhecidas como Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (Redd, em inglês), Higuchi defende que são necessários projetos consistentes. “O fracasso do MDL-florestal pode ser atribuído à falta de bons projetos. O mesmo pode ocorrer com o Redd se não houver bons projetos, porque esse mercado é muito exigente. Isso significa a utilização de métodos confiáveis, replicáveis e auditáveis”, finaliza.
Floresta Amazônica não é o pulmão do mundo

O mito de que a Floresta Amazônica é o pulmão do mundo surgiu associado ao mecanismo de fotossíntese e respiração das árvores, que têm capacidade de absorver o dióxido de carbono (CO2) e liberar o oxigênio (O2). Já o pulmão, ao contrário, absorve o oxigênio durante a inspiração e libera o dióxido de carbono durante a expiração. “Para enterrar de vez este mito, temos que pensar em escala também: na atmosfera há 21% de oxigênio e 0,04% de dióxido de carbono. Por mais que a Floresta Amazônica tivesse uma troca gasosa favorável com a atmosfera, a quantidade seria insignificante”, detalha Niro Higuchi, do Inpa.

“A grande maioria do oxigênio presente na atmosfera é produzida por algas nos oceanos, de modo que a contribuição das florestas em geral para a produção líquida desse elemento é pequena. Mas a Amazônia tem um papel importantíssimo para o clima global, que é a estocagem de enormes quantidades de carbono atmosférico”, acrescenta Magno Branco, da Iniciativa Verde.
Matéria de Patricia Piacentini, no pré-Univesp – Número 19 – Florestas, publicada pelo EcoDebate, 20/08/2012

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Terras indígenas da Austrália, Brasil e Canadá abrigam e protegem alta biodiversidade


Terras indígenas da Austrália, Brasil e Canadá abrigam e protegem alta biodiversidade




Terra Indígena Waimiri-Atroari
Terra Indígena Waimiri-Atroari. Foto: EBC/CIMI

Estudo destaca a importância de colaborar com comunidades indígenas para proteger a biodiversidade

Por Lou Corpuz-Bosshart * **
Mais de um milhão de espécies de plantas e animais em todo o mundo estão em extinção, segundo um recente relatório das Nações Unidas. Agora, um novo estudo conduzido pela UBC sugere que as terras administradas por indígenas podem ter um papel crítico em ajudar as espécies a sobreviver.
Os pesquisadores analisaram dados de terras e espécies da Austrália, Brasil e Canadá – três dos maiores países do mundo – e descobriram que o número total de aves, mamíferos, anfíbios e répteis era o mais alto em terras administradas ou co-geridas por comunidades indígenas.

Áreas protegidas, como parques e reservas de vida selvagem, tiveram o segundo maior nível de biodiversidade, seguido por áreas selecionadas aleatoriamente que não estavam protegidas.

O estudo, que focou em 15.621 áreas geográficas no Canadá, Brasil e Austrália, também descobriu que o tamanho de uma área e sua localização geográfica não afetam a diversidade de espécies.
“Isso sugere que são as práticas de manejo de terras de muitas comunidades indígenas que mantêm as espécies em alta”, disse o principal autor Richard Schuster, bolsista de pós-doutorado Liber Ero da Carleton University, que realizou a pesquisa na UBC. “No futuro, colaborar com os administradores das terras indígenas provavelmente será essencial para garantir que as espécies sobrevivam e prosperem”.

O estudo é o primeiro a comparar a biodiversidade e o manejo da terra em uma escala geográfica tão ampla, dizem os pesquisadores.

“Analisamos três países com climas e espécies muito diferentes, para ver se o padrão se aplica a essas diferentes regiões – e foi o que aconteceu”, disse o co-autor Ryan Germain, um pós-doutorado na Universidade de Cornell. “De sapos e pássaros canoros até grandes mamíferos como ursos pardos, jaguares e cangurus, a biodiversidade era mais rica em terras administradas por indígenas.”
Os programas tradicionais de conservação dependiam da designação de certas áreas como parques e reservas, e esses resultados destacam a importância de expandir a conservação além de suas fronteiras típicas, diz o autor sênior do estudo, Peter Arcese, professor de florestas da UBC .

“As áreas protegidas são um dos pilares da conservação da biodiversidade globalmente, mas os níveis atuais de proteção serão insuficientes para deter a crise de extinção planetária”, disse Arcese, presidente da Renovação de Florestas da BC em Biologia da Conservação na UBC. “Precisamos administrar uma fração maior da área do mundo de forma a proteger as espécies e levar a resultados positivos para as pessoas e as espécies nas quais eles dependem há milênios.”

Os pesquisadores notaram que, no passado, quando as áreas protegidas eram estabelecidas, os povos indígenas eram às vezes excluídos do uso de terras nas quais dependiam anteriormente para alimentos e materiais. Isso foi prejudicial para muitas comunidades indígenas e não atingiu necessariamente as metas originais de conservação.

“As terras administradas por indígenas representam um importante repositório de biodiversidade em três dos maiores países da Terra, e os povos indígenas atualmente administram ou têm estabilidade em cerca de um quarto da área terrestre do planeta”, disse o co-autor Nick Reo, professor adjunto. de estudos ambientais e estudos nativos americanos no Dartmouth College e um cidadão do Sault Ste. Marie, tribo de Ontário de índios Chippewa.

“À luz disso, colaborando com indígenas, comunidades e organizações podem ajudar a conservar a biodiversidade, assim como apoiar os direitos indígenas à terra, o uso sustentável dos recursos e o bem-estar.”
O estudo foi publicado na semana passada na Environmental Science & Policy .
Referência:
Vertebrate biodiversity on indigenous-managed lands in Australia, Brazil, and Canada equals that in protected areas
Richard Schusterab, Ryan R.Germaina, Joseph R.Bennett, Nicholas J.Reo, Peter Arcese
Environmental Science & Policy
Volume 101, November 2019, Pages 1-6
https://doi.org/10.1016/j.envsci.2019.07.002

* Com informações da University of British Columbia (UBC)
** Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/08/2019
Terras indígenas da Austrália, Brasil e Canadá abrigam e protegem alta biodiversidade, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 2/08/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/08/02/terras-indigenas-da-australia-brasil-e-canada-abrigam-e-protegem-alta-biodiversidade/.

Solidariedade ao diretor do INPE demitido nesta sexta



Solidariedade ao diretor do INPE demitido nesta sexta



02 Agosto 2019   |   0 Comments
 
Lamentamos a exoneração do presidente do INPE, Ricardo Galvão, e nos solidarizamos a ele na defesa do INPE como instituição científica e na defesa da elaboração e da divulgação pública e apolítica dos dados de desmatamento. Vemos com preocupação a dispensa de um quadro técnico de alta e reconhecida excelência, esperando que não seja um prenúncio de que as informações --estratégicas sobre o desmatamento no nosso país-- serão censuradas ou alteradas.

Neste momento, o Palácio do Planalto e o Ministério do Meio Ambiente deveriam se preocupar em efetivamente combater o desmatamento descontrolado, uma chaga que aflige a sociedade brasileira e vem causando imensos prejuízos a todos, inclusive para a agricultura de regiões do centro-sul do país, que depende diretamente das chuvas produzidas pela floresta para poder existir.

Falas de Bolsonaro são como Viagra para desmatadores”, diz Sirkis

Falas de Bolsonaro são como Viagra para desmatadores”, diz Sirkis

Ex-coordenador do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima diz que presidente estimula crime ambiental e que tem dúvida sobre continuidade do fórum



Alfredo Sirkis (Foto: Brizza Cavalcante/Câmara dos Deputados)
Alfredo Sirkis (Foto: Brizza Cavalcante/Câmara dos Deputados)
O jornalista e ex-deputado federal Alfredo Sirkis foi exonerado em maio do cargo de secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima pelo ex-colega de Câmara, Jair Bolsonaro (PSL-RJ). A demissão do posto, que não é remunerado, ocorreu a pedido do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (Novo-SP), cuja atuação Sirkis criticava (e ainda critica).

Desmobilizado durante o governo de Dilma Rousseff, o fórum passou seis meses acéfalo e foi remontado na gestão Temer, com Sirkis assumindo a secretaria-executiva em 2017. Nesse período, produziu uma proposta de plano de implementação da NDC, a meta do Brasil no Acordo de Paris, e começava a discutir um plano de longo prazo para a descarbonização da economia brasileira na metade do século. Com um governo que desmontou a agenda de clima, o futuro desses trabalhos é incerto.

Segundo Sirkis, a preocupação mais imediata para o país no clima é com a volta do desmatamento, que, segundo ele, pode ser mais “uma grande onda do que um repique”. Pior, essa onda é soprada pelo próprio Presidente da República, que, além de desmobilizar a fiscalização, dá sinais de estímulo ao crime ambiental ao dizer, por exemplo, que o Ibama não deve destruir equipamentos apreendidos de desmatadores. “Isso é como um Viagra para os grileiros de florestas públicas, devolutas ou em unidades de conservação, que agora vão ser desmatadas com mais voracidade, porque o ‘Mito’ liberou geral”, afirma.


Leia a entrevista.
*
O que tem a dizer sobre a mudança no fórum, com sua saída em maio?
Normal. Seria a quadratura do círculo coordenar um fórum presidido por um presidente da República mais seu entorno com convicções negacionistas. Fomos colegas por seis anos – dois, no Rio, como vereadores e quatro como deputados federais. Era uma relação adversária mas, em geral, pessoalmente cordial. Então eu o conheço muito bem. Sabe muito pouco, toma conhecimento dos temas de orelhada e mentalmente coloca mudanças climáticas e meio ambiente, pavlovianamente, na caixinha do “comunismo”.
Estar no poder obviamente piora mais ainda, vem aquela sensação de onipotência.


Bolsonaro vê a questão de mudança do clima como algo “da esquerda”…
Uma bobagem. A esquerda que nos anos 1980, 1990 era majoritariamente hostil – ecologia é preocupação pequeno-burguesa, desvia da luta de classes. Acabou adotando o tema depois do assassinato do Chico Mendes. Há ali ambientalistas sérios, mas uma boa parte enxergava nesses temas apenas “bandeiras de luta”, que tentam associar a um anticapitalismo nefilibata. A economia de mercado seria intrinsecamente antiecológica. Mas economia de mercado é o existe hoje no mundo inteiro. Pode ser mais, menos ou nada sustentável, mas é a realidade global. Quem visitou o “socialismo real”, antes da queda do Muro de Berlim, viu o desastre ecológico que era aquilo. Na verdade, Bolsonaro e sua turma ignoram que os pioneiros da ecologia no Brasil foram o Marechal Rondon, que dispensa apresentações, o major Archer, que fez o maior reflorestamento no planeta, antes dos atuais que estão sendo feitos pelos chineses, o almirante Ibsen Gusmão, Marcelo de Ipanema e José Lutzemberger – nenhum deles um “esquerdopata”, como eles dizem.


Mas a geração de vocês tinha essa tendência.
[Fernando] Gabeira, [Carlos] Minc e eu, que somos uma segunda ou terceira geração de ambientalistas, de fato viemos da esquerda, dos anos 1970, mas já com uma visão crítica dela. Por isso fundamos o PV, que acabou nas mãos da pequena política tradicional, embora ainda restem alguns abnegados como o Eduardo Jorge, o Rogério Medeiros e o André Fraga. Mudança climática não é nem de esquerda nem de direita, é sobre o futuro de nosso filhos, netos e bisnetos, para que não vivam num inferno sobre a Terra. A questão climática, muito mais que “ambiental” no sentido estreito da palavra, é uma agenda de desenvolvimento sustentável, onde a economia tem um peso central.

O negocionismo climático é de direita?
Já encontrei negacionistas de esquerda que achavam que era tudo uma farsa do imperialismo americano contra nosso desenvolvimento. Agora o Trump atribui à China. Negacionismo é burrice ou lobby, ponto. São como aqueles médicos, contratados pela indústria do tabaco, nos anos 1950 que iam à TV dizer que não havia “prova científica” que cigarro dava câncer. Aí era lobby, odioso, assassino.

Na ala da burrice são que nem os terraplanistas. No Brasil, nem o lobby do carvão nem o do petróleo são negacionistas. Aceitam a discussão de descarbonização mas em termos que não cabem numa trajetória nem de 2 graus. Negacionistas são os “olavetes” e a turma, criminosa, do desmatamento ilegal.


O desmatamento subiu mais de 200% em julho e fechará o ano bem acima da taxa do ano passado. O que fazer?
Temo que, mais que um repique, isso seja uma grande onda, mesmo. Temos um discurso presidencial de “liberou geral”, o desmantelamento da fiscalização. O Ibama, antes, já estava quase em colapso com metade do efetivo necessário e um concurso que tardava e não saía. 

Agora… é um enorme estímulo quando você proíbe a destruição in loco do equipamento das facções criminosas que desmatam e poluem rios com mercúrio e matam indígenas. Não pode destruir mais o trator com correntão, quebrar a motosserra ou o equipamento do garimpo ilegal. É legalmente autorizado, mas vai o Presidente na internet dizendo que não pode mais – o MP deveria verificar se ali não há um crime de responsabilidade dele. Isso é como um Viagra para os grileiros de florestas públicas, devolutas ou em unidades de conservação, que agora vão ser desmatadas com mais voracidade, porque o “Mito” liberou geral. Isso também estimula a indústria de falsificação cartorial para “esquentar” o produto desse desmatamento e se apropriar de terras da República. Vejo o assunto no colo do ministro Sérgio Moro.


E desmatamento legal?

Aí precisamos encontrar mecanismos de estimulo econômico, como o pagamento por serviços ambientais e a precificação positiva. Esse estímulo tem de servir tanto para a população pobre da floresta ser desestimulada, para ajudar a evitar que se envolvam com atividades ilegais, quanto para o empresário do Cerrado, por exemplo, que pode legalmente desmatar, mas passa a ter um estímulo para não fazê-lo. Há projetos no Congresso, é uma questão complexa, mas precisa ser enfrentada.


Como vê o futuro do fórum?
O Oswaldo Lucon é uma pessoa com conhecimentos técnicos, uma boa visão ambiental e climática. Está numa missão dificílima. Não pode ficar subordinado a este ou aquele ministério, precisa se relacionar com os oito ou nove ministérios que participavam do GEx, o grupo executivo para mudanças climáticas. Volto a repetir: clima não é uma questão “ambiental” mas de desenvolvimento.
Precisa manter a interlocução com as o setor empresarial, as ONGs e a academia sem se dobrar a pressões idiossincráticas ou ideológicas. E, sobretudo, precisa dar continuidade ao que vinha sendo feito. Passamos dois anos preparando, com aporte de 214 organizações desses quatro setores e   537 pessoas da Proposta Inicial para a Implementação da NDC Brasileira. É, de fato, um documento fruto de um trabalhoso consenso e serve de base para discussão com o governo, qualquer governo, inclusive esse. Tem também a discussão de longo prazo para o qual existe o estudo Brasil Carbono Neutro em 2060 e A Estratégia de Longo Prazo para 2050.


O que acontece com a agenda do fórum, que incluía a revisão da NDC?
Não sei. Me ofereci para ajudar numa transição harmônica, desde que o fórum não seja deturpado ou rebaixado. Este ano estaria programada a discussão de metas setoriais e a de uma proposta mais avançada de NDC, para 2020, pois sabemos que o somatório das atuais nos coloca numa trajetória de 3 graus. O primeiro documento nos oferece dicas de como poderíamos ir mais longe. Acho que uma nova NDC brasileira deveria ser condicional a um Fundo Garantidor internacional que financie maciçamente projetos de descarbonização ao menor juro existente no mercado internacional com o melhor prazo de carência. Os governos do países ricos devem oferecer garantias a esse fundo, junto com os entes multilaterais. E temos de avançar no conceito da precificação do menos-carbono. Nós colocamos isso no Acordo de Paris: as ações de mitigação possuem um valor econômico intrínseco: o menos-carbono vale dinheiro.


E a questão subnacional a que você vem se dedicando?
Independentemente do fórum, mas desejando seu apoio, entre outros, estou trabalhando com os governos de Estado, prefeituras e iniciativa privada num ente subnacional. Isso já era crucial antes desse governo. Envolve a ABEMA, a ANAMA, o ICLEI, as associações diversas de prefeitos, organizações empresariais como o CEBDS, a Ethos. Envolve um diálogo com a FIESP, a FIRJAN e outros.
Mesmo que fosse outro tipo de governo, seria crucial melhorar muito a performance nos Estados. Há males que vem para o bem, vou ter mais tempo para isso.


Que outras iniciativas?
Estou terminando de escrever meu novo livro. Chama-se Descarbonário. Embora no jogo de palavras assim pareça não se refere ao tema de Os Carbonários, meu best seller de já lá se vão 40 anos, premio Jabuti, em 1981. É sobre minha ação na descarbonização, como fui entendendo a questão da mudança do clima, que, inicialmente, considerava apenas uma dentre muitas questões “ambientais” virou tão importante para mim. Foi a partir de 2005, ouvindo uma líder esquimó, que passei a vê-la como a grande questão civilizacional contemporânea. Conto também de algumas questões e folclores da política brasileira, no último período em que participei dela, quando deputado federal. Analiso os antecedentes da atual situação.

Comentários

Declaração do secretário executivo do Observatório do Clima sobre a exoneração de Ricardo Galvão

02 - agosto - 2019

Declaração do secretário executivo do Observatório do Clima sobre a exoneração de Ricardo Galvão

A exoneração de Ricardo Galvão é lamentável, mas era esperada. Ele selou seu destino ao não se calar diante das acusações atrozes de Jair Bolsonaro ao Inpe.

Foto: Google
Foto: Google
A exoneração de Ricardo Galvão é lamentável, mas era esperada. Ele selou seu destino ao não se calar diante das acusações atrozes de Jair Bolsonaro ao Inpe.

Ao reagir, Galvão também preservou a transparência dos dados de desmatamento, ao chamar a atenção da sociedade brasileira e da comunidade internacional para os ataques sórdidos, autoritários e mentirosos de Bolsonaro e Ricardo Salles à ciência do Inpe.

A imagem do Brasil já está irremediavelmente comprometida por essa cruzada contra os fatos. Nos próximos meses, Bolsonaro e seu ministro do Ambiente descobrirão, do pior jeito, que não adianta matar o mensageiro, nem aparelhar o Inpe: a única maneira de evitar más notícias sobre o desmatamento é combatê-lo.”

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Governo comete fraude intelectual para desqualificar Inpe

1 - agosto - 2019

Governo comete fraude intelectual para desqualificar Inpe

Nota do Observatório do Clima sobre entrevista coletiva de Jair Bolsonaro e ministros nesta quinta-feira


Bolsonaro, Salles e Heleno comentam dados de desmatamento em Brasília (Foto: Reprodução de TV)
Bolsonaro, Salles e Heleno comentam dados de desmatamento em Brasília (Foto: Reprodução de TV)
Diante dos índices pornográficos de desmatamento na Amazônia no ano de 2019, Jair Bolsonaro e seus ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente), Augusto Heleno (Segurança Institucional) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores) convocaram uma entrevista coletiva na qual apresentaram uma mentira, uma fraude e uma falsa solução para o problema.

A mentira ficou por conta do presidente. Bolsonaro voltou a sugerir que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e seu diretor, Ricardo Galvão, divulgaram os dados de desmatamento do sistema Deter-B à imprensa por má fé, numa tentativa deliberada de minar a reputação do Brasil e do governo. Isso é falso: o Inpe não “divulgou” os dados; eles estão disponíveis diariamente na internet na plataforma TerraBrasilis, que desde o fim de 2018 mantém os sistemas Deter e Prodes numa interface amigável. O que ocorreu foi que o desmatamento virou notícia porque ele disparou desde maio.

A fraude veio pelas mãos do ministro do Meio Ambiente. Ricardo Salles tentou desqualificar o Deter apresentando uma análise de seus dados feita com observações selecionadas a dedo – o Inpe afirmou que não teve acesso prévio ao estudo. As discrepâncias apontadas por Salles são normais dentro do Deter. O que importa é que os desmatamentos apontados pelo sistema do Inpe de fato aconteceram e seu ritmo de fato aumentou. Uma análise honesta demandaria uma série de dados ano a ano e mês a mês com imagens da empresa Planet, usadas por Salles em seu estudo, o que não existe.

A falsa solução proposta por Salles e Bolsonaro é contratar, com dinheiro público, um novo sistema que use imagens Planet para dar “informações mais detalhadas”. Se o objetivo é produzir uma contestação do Inpe, não vai dar certo – o Deter é apenas um de quatro sistemas que monitoram a Amazônia em tempo real, e todos eles apontam a mesma tendência de alta explosiva em 2019.


O Deter é um sistema de excelência produzido por um órgão público de excelência, e foi um dos responsáveis pela redução de 70% na taxa de desmatamento observada entre 2004 e 2012. Tentativas de desqualificá-lo e de reduzir a transparência no monitoramento florestal do Brasil só trarão mais prejuízo à imagem do país. Se o propósito é municiar o Ibama, o governo prevarica: afinal, não é por falta de satélites que o desmatamento está subindo. O desmatamento sobe porque Salles e Bolsonaro “meteram a foice no Ibama”, reduziram o número de operações de fiscalização e de multas e preferem confraternizar com madeireiros e estimular garimpeiros a agir com base nos alertas do Deter.

Se Salles gastasse combatendo o crime ambiental metade da energia que gasta combatendo a ciência e os fatos, a crise do desmatamento não teria tomado a proporção que tomou. Vai trabalhar, ministro.

Bolsonaro questiona assassinato, mas MPF abre investigação para apurar morte do cacique Emyra Wajãpi

Bolsonaro questiona assassinato, mas MPF abre investigação para apurar morte do cacique Emyra Wajãpi

  • atualizado: 
Emyra Wajãpi
A morte do líder indígena virou notícia nos jornais do mundo inteiro e a ONU publicou nota em repúdio ao cenário de violência no território da etnia Wajãpi, no Amapá. No entanto, o presidente Jair Bolsonaro questionou o assassinato.

A declaração vai na contra-mão do que vem alertando órgãos internacionais a respeito da violência contra ativistas ambientais e povos tradicionais que vivem em terras protegidas. De acordo com o relatório anual da Global Witnesse, publicado nesta terça-feira (30), o Brasil é o quarto país mais perigoso do mundo para os defensores do meio ambiente: foram pelo menos 20 vítimas só em 2018.

Os indígenas vêem uma relação direta entre o apoio declarado do governo federal aos mineradores, e o acirramento dos conflitos em terras protegidas. Depois da morte do cacique Emyra Wajãpi, de 68 anos, as famílias estão amedontradas:
"Todas as famílias wajãpi estão com medo de sair para caçar, pescar e buscar outras coisas e necessidades", diz Jawaruwa à DW Brasil, direto da aldeia Aramira, uma das 49 localizadas dentro da TI. "Os invasores estão escondidos aqui dentro", declarou Jawaruwa Wajãpi à DW Brasil.
Segundo nota divulgada pelo Conselho das Aldeias Wajãpi (Apina), após uma reunião com a Fundação Nacional do Índio (Funai), os policiais alegaram não ter condições de dar continuidade às buscas pelas dificuldades de deslocamento e alimentação.
"O delegado falou que vai estudar a região ao redor da aldeia através de imagens de satélite, para verificar se tem sinais de garimpos. Se as imagens mostrarem sinais, vão fazer sobrevoos para verificar", diz a nota.

Jawaruwa, um dos responsáveis para que a notícia da morte do cacique tivesse repercussão mundial, informou que os indígenas continuarão procurando os invasores mesmo sem a ajuda da polícia.
O Ministério Público Federal anunciou, nesta terça-feira, que abriu investigação, por meio dos procuradores da República no amapá, para apurar a morte de Emyra Wajãpi. A informação foi divulgada por meio de uma nota pública da Câmara de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais, braço do Ministério Público responsável pelas questões relativas aos indígenas.

Pedidos de Socorro e de Justiça aos povos indígenas

Entenda a gravidade do caso e vamos clamar por JUSTIÇA!

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Ricardo Salles não consegue explicar alta do desmatamento

Nota do Observatório do Clima sobre entrevista coletiva do ministro do Meio Ambiente


A montanha pariu um rato. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (Novo-SP), convocou mais uma entrevista coletiva para apresentar os “dados reais” sobre o desmatamento na Amazônia prometidos por Jair Bolsonaro, mas terminou fazendo apenas ginástica retórica e botando a culpa na mídia pela interpretação dos dados.


Salles fracassou quatro vezes em sua performance: não conseguiu descredenciar o Inpe, instituição que Jair Bolsonaro havia chamado de mentirosa; não apresentou nenhum dado alternativo aos do sistema Deter, que divulga alertas de desmatamento; não explicou o aumento da devastação na Amazônia – o número de alertas em julho é o maior desde que o Deter foi criado, em 2004, e é quase quatro vezes maior do que o de julho do ano passado; e não disse o que vai fazer para conter a explosão da devastação, que é sua responsabilidade.


Pior ainda, reafirmou a intenção de usar dinheiro público para contratar mais um sistema de sensoriamento remoto, quando o que falta na Amazônia neste momento é fiscalização e investimento em atividades sustentáveis. Bolsonaro culpou o termômetro pela febre; seu ministro, agora, culpa a leitura do termômetro. A doença, porém, segue sem tratamento – e o paciente sofre. (Observatório do Clima)

Aumento do desmatamento na Amazônia é incontestável, diz Carlos Nobre, pesquisador do IEA-USP

Aumento do desmatamento na Amazônia é incontestável, diz Carlos Nobre, pesquisador do IEA-USP


desmatamento

Elton Alisson, de Campo Grande (MS)  |  Agência FAPESP – Alvo de recente questionamento, o aumento no desmatamento na Amazônia nos últimos meses, em comparação com 2018, é incontestável. O aumento foi apontado pelo sistema de monitoramento por satélites Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e deverá ser confirmado antes de dezembro com o lançamento dos dados obtidos durante um ano completo por outro sistema de monitoramento da instituição, o Prodes.

Nos próximos dias deverão ser divulgados os dados do Deter para o período de agosto de 2018 a julho de 2019. Entre outubro e novembro, sairão os dados do Prodes para o mesmo período, que são utilizados para verificação do Deter. O Prodes usa dados do satélite Landsat – sistema que existe desde 1989 – e apresenta os dados consolidados sobre o desmatamento total apenas uma vez por ano.
A afirmação foi feita por Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), durante palestra na 71ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada de 21 a 27 de julho na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande.

“Os números da série anual do Prodes, que compreende o período de agosto de 2018 a julho de 2019, devem confirmar o que os dados dos últimos meses mostraram: que o desmatamento da Amazônia nos últimos 12 meses foi muito maior do que no período anterior”, disse Nobre, que é pesquisador aposentado do Inpe.

“Temos que partir do princípio de que está realmente ocorrendo um aumento do desmatamento na Amazônia”, disse. Segundo ele, o questionamento dos dados sobre o desmatamento da Floresta Amazônica nos últimos três meses indicados pelo Deter é infundado. Isso porque a margem de incerteza do sistema varia de 10% a 12%.

O sistema apontou que o desmatamento na Amazônia em quilômetros quadrados (km²) aumentou nos meses de maio, junho e nos primeiros 20 dias de julho, respectivamente, 34%, 91% e 125% em relação aos mesmos meses em 2018.

“Esses percentuais de aumento estão muito além da margem de incerteza. A probabilidade de que o desmatamento da Amazônia está aumentando está acima de 99%”, disse Nobre.

Os dados do Deter são disponibilizados desde o lançamento do sistema, em 2004, pelo Inpe. Já os do Prodes – que foi o primeiro sistema de monitoramento de desmatamento na Amazônia criado pelo órgão em 1989 – ficaram embargados no início e só passaram a ser disponibilizados em 2002.
“Esses dados públicos permitiram um enorme entendimento das causas do desmatamento e municiaram as políticas de combate que tiveram grande sucesso durante vários anos”, disse Nobre.

O eventual embargo dos números de desmatamento obtidos pelo Deter e o Prodes ou a descontinuação desses dois sistemas causariam enormes prejuízos para o país e fariam o Inpe perder o protagonismo mundial no desenvolvimento de sistemas de monitoramento florestal, afirmou.
“Não divulgar os dados do desmatamento do Inpe não faria o problema desaparecer, porque hoje há muitos grupos em todo o mundo que fazem esse tipo de mapeamento. Mas o Inpe, que desenvolveu o melhor sistema de monitoramento de florestas tropicais do mundo ao longo dos últimos 30 anos, perderia sua liderança”, disse Nobre.

De acordo com o pesquisador, o Brasil, por intermédio do Inpe, foi o primeiro país do mundo a fazer esse tipo de monitoramento florestal por satélite. Os sistemas desenvolvidos pelo instituto ajudaram a capacitar pesquisadores de 60 países e muitos países tropicais usam os algoritmos criados na instituição.
Enquanto os sistemas de monitoramento desenvolvidos por outras instituições no mundo, baseados em big data e algoritmos automáticos de inteligência artificial, apresentam hoje uma margem de erro acima de 20%, a do Prodes é de 5 a 6%, comparou Nobre. “Isso representa um enorme aperfeiçoamento desse sistema de monitoramento, que é resultado de 30 anos de avanço científico”, disse.


Confiança nos dados
Em coletiva de imprensa no dia 26 de julho, na reunião da SBPC, o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, disse que “não tem dúvidas de que os dados produzidos pelo Deter estão corretos e são confiáveis, mas foram usados com o objetivo incorreto”.

“Os dados do Deter não são para medição do desmatamento, mas para alerta de desmatamento, para auxiliar o Ibama nas ações de fiscalização. Seria errado utilizá-los para indicar desmatamento”, disse Pontes à Agência FAPESP. “Os dados do Prodes é que têm a finalidade de medir desmatamento, mas demoram um certo tempo para ser compilados.”

O ministro destacou que o Inpe é uma instituição conceituada, cujo trabalho é reconhecido internacionalmente, e que continuará a desempenhar suas funções como sempre fez. “O fato de perguntarmos sobre a variação de um dado é normal é já aconteceu anteriormente”, disse.
O portal TerraBrasilis é uma plataforma web desenvolvida pelo Inpe para acesso, consulta, análise e disseminação de dados geográficos gerados pelos projetos de monitoramento da vegetação nativa do instituto, como o Prodes e o Deter: http://terrabrasilis.dpi.inpe.br/.

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/08/2019
Aumento do desmatamento na Amazônia é incontestável, diz Carlos Nobre, pesquisador do IEA-USP, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/07/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/07/31/aumento-do-desmatamento-na-amazonia-e-incontestavel-diz-carlos-nobre-pesquisador-do-iea-usp/.

Brasil foi um dos países mais letais para defensores do meio ambiente em 2018, aponta relatório elaborado pela Global Witness

Brasil foi um dos países mais letais para defensores do meio ambiente em 2018, aponta relatório elaborado pela Global Witness


“Inimigos de Estado? Como os governos e as empresas silenciam as pessoas defensoras da terra e do meio ambiente”

De acordo com dados divulgados pela Global Witness, governos e empresas de diversas partes do mundo têm usado os tribunais e os sistemas jurídicos como instrumentos de opressão contra as pessoas que denunciam abusos de seus poderes
Reprodução da Capa do relatório da Global Witness
Capa do relatório da Global Witness

A defesa da terra e do meio ambiente em diversos países do mundo tem sido marcada cada vez mais pela violência e a letalidade. Essa é a situação apresentada no relatório “Inimigos de Estado? Como os governos e as empresas silenciam as pessoas defensoras da terra e do meio ambiente”, elaborado pela Global Witness – organização não-governamental que investiga casos de corrupção e abusos contra os direitos humanos.

Segundo dados da publicação, no mundo todo foram contabilizados – em 2018 – 164 assassinatos de militantes pela terra e o meio ambiente, o que representa mais de três pessoas mortas a cada semana durante o período analisado, além de inúmeras que passaram a ser criminalizadas por defender seus territórios. Do total de assassinatos reportados, 20 ocorreram no Brasil. Filipinas (30), Colômbia (24) e Índia (23) aparecem nas três primeiras posições do levantamento. Os setores da mineração e da agroindústria foram os que mais causaram vítimas, respondendo por 43 e 21 mortes, respectivamente.
Pela primeira vez desde 2012, quando a Global Witness começou a registrar os assassinatos, o Brasil deixou de ser o primeiro colocado no ranking global, aparecendo em quarto lugar no atual relatório.


Porém, o país deve se manter alerta. Consta no estudo que integrantes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos que se reuniram com líderes indígenas no Pará, em novembro de 2018, reportaram que sua delegação sofreu intimidação e ameaça de representantes da indústria da soja. Naquele ano, pelo menos oito defensores que participaram de disputas por terras foram mortos no referido estado.
Os números incluídos no relatório, alerta a Global Witness, não alcançam a totalidade dos crimes, uma vez que muitos assassinatos não são documentados. No entanto, as histórias evidenciadas no levantamento indicam como a crescente demanda por terra, em resposta à demanda dos consumidores, está gerando violência letal em todo o mundo.

A organização internacional faz também um alerta sobre a criminalização de ativistas e suas comunidades. De acordo com evidências de vários continentes, governos e empresas têm usado os tribunais e os sistemas jurídicos como instrumentos de opressão contra as pessoas que enfrentam os abusos de seus poderes. Em alguns países, denuncia o relatório, o governo classifica os defensores como terroristas ou inimigos do Estado. Há, ainda, casos de flexibilização de leis nacionais para criminalizar o protesto social.

Entre os principais desafios inerentes ao enfrentamento do problema, constam a impunidade generalizada, que dificulta a identificação dos perpetradores das diversas violências; a criminalização e as ações agressivas que estão sendo usadas para reprimir o ativismo ambiental em todo o mundo; e o fato de os governos e as empresas não conseguirem resolver a causa estrutural dos ataques que, na maior parte, significa a imposição de projetos prejudiciais às comunidades sem o seu consentimento livre, prévio e informado.

“Os resultados deste relatório sugerem que o sistema está falhando de maneira explícita e trágica em relação a quem se pronuncia em defesa de sua terra e nosso planeta”, destaca o levantamento que elenca, ao final, um conjunto de recomendações para a prevenção de ataques, incluindo o enfrentamento às causas estruturais da violência e a proteção dos defensores, bem como a responsabilização dos envolvidos em casos de violência.

A íntegra do relatório pode ser acessada nas versões em inglês e espanhol.

Fonte: Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC)
Ministério Público Federal

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/08/2019

Brasil foi um dos países mais letais para defensores do meio ambiente em 2018, aponta relatório elaborado pela Global Witness, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 1/08/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/08/01/brasil-foi-um-dos-paises-mais-letais-para-defensores-do-meio-ambiente-em-2018-aponta-relatorio-elaborado-pela-global-witness/.

Alertas do Inpe indicam alta de 40% em desmate na Amazônia; governo contesta Giovana Girardi, com colaboração de Camila Turtelli, Mariana Haubert, Julia Lindner e Tulio Kruse São Paulo 01/08/2019 11h00 Depois de passar quase duas semanas dizendo que os dados de desmatamento da Amazônia são mentirosos, o governo Jair Bolsonaro reconheceu nesta quarta-feira, 31, que a taxa está em alta, mas afirmou que os números que vieram à tona foram uma interpretação equivocada, destaca o jornal O Estado de S. Paulo. O presidente anunciou no sábado que haveria uma "surpresa" nos números e nesta quarta disse que apresentaria o "dado real". Mas o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salle... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2019/08/01/alertas-do-inpe-indicam-alta-de-40-em-desmate-na-amazonia-governo-contesta.htm?cmpid=copiaecola
Alertas do Inpe indicam alta de 40% em desmate na Amazônia; governo contesta Giovana Girardi, com colaboração de Camila Turtelli, Mariana Haubert, Julia Lindner e Tulio Kruse São Paulo 01/08/2019 11h00 Depois de passar quase duas semanas dizendo que os dados de desmatamento da Amazônia são mentirosos, o governo Jair Bolsonaro reconheceu nesta quarta-feira, 31, que a taxa está em alta, mas afirmou que os números que vieram à tona foram uma interpretação equivocada, destaca o jornal O Estado de S. Paulo. O presidente anunciou no sábado que haveria uma "surpresa" nos números e nesta quarta disse que apresentaria o "dado real". Mas o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salle... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2019/08/01/alertas-do-inpe-indicam-alta-de-40-em-desmate-na-amazonia-governo-contesta.htm?cmpid=copiaecola

Invasões, violência e atividades ilegais em terras indígenas são intoleráveis

Invasões, violência e atividades ilegais em terras indígenas são intoleráveis



30 Julho 2019   |  
Incursão criminosa de garimpeiros na Terra Indígena Wajãpi, no Amapá, expõe escalada de violações de direitos em toda a Amazônia

O WWF-Brasil manifesta solidariedade ao povo Wajãpi e grande preocupação diante da recente invasão de garimpeiros a seu território, ocorrida na última semana. Esse episódio traz à memória da sociedade brasileira as sucessivas incursões ilegais ocorridas nos anos 1970 e 1980, durante a ditadura militar, em decorrência da abertura da estrada Perimetral Norte, que cortou o território Wajãpi.

Naquele período houve não só um grande número de episódios de violência, mas também de mortes causadas por doenças e envenenamentos por substâncias utilizadas na garimpagem.  Desde que a terra indígena foi homologada pela Presidência da República, em 1996, não havia notícias de garimpeiros invadindo o teritório Wajãpi, muito em função de ações de fiscalização, que progressivamente vêm sendo desmontadas.

Muito embora a Polícia Federal, que chegou ao local alguns dias depois do evento, afirme não ter encontrado até o momento nenhum invasor na área, o Conselho das Aldeias Wajãpi (Apina) reafirma que houve, sim, uma invasão por pessoas armadas. A entidade se mostrou preocupada com a possibilidade de que esse seja o começo de uma nova onda de atividade garimpeira em seu território, assim como vem ocorrendo, de forma descontrolada, em outras terras indígenas na Amazônia.

É impossível dissociar do atual contexto político brasileiro as atuais invasões e a violência não apenas contra o povo Wajãpi, mas também dirigidas a outras comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e extrativistas. O país tem assistido a repetidos posicionamentos, por parte de autoridades governamentais, contrários à fiscalização e à aplicação da lei em casos como esse, ao mesmo tempo em que prometem legalizar o garimpo e a mineração em áreas como terras indígenas, onde a atividade é proibida.

Não por acaso, a presença de garimpeiros em unidades de conservação e terras indígenas vem aumentando exponencialmente desde o final de 2018. Apenas na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, já são mais de 10 mil garimpeiros causando destruição, com efeitos sentidos a mais de 500 quilômetros, com a contaminação de rios que chegam a Boa Vista. Há, também, o aumento descontrolado do garimpo nas terras Kayapó e Munduruku, dentre outras.

Outro fator que tem contribuído para vulnerabilizar os mais de 300 povos indígenas no país é a continuada fragilização da Fundação Nacional do Índio (Funai). Nos últimos cinco anos, o órgão passou por nada menos que nove trocas na Presidência, inviabilizando a continuidade das políticas indigenistas. Somados a isso, os seguidos cortes no orçamento e o déficit de pessoal reduzem significativamente a capacidade de atuação da Funai, cuja gestão foi entregue no atual governo a representantes de grupos de interesse contrários aos direitos indígenas.

As demarcações e homologações de terras indígenas, frequentemente a única medida efetiva contra a grilagem e as atividades predatórias e ilegais, não podem seguir paralisadas. Por fim, é indispensável que o Estado brasileiro volte a cumprir seu papel, assegurando a integridade física, cultural e territorial das populações tradicionais de nosso país.
Crianças wajãpi, moradoras do entorno do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque
© WWF-Brasil/ Cassandra Oliveira Enlarge

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Mais veneno na mesa torna o caro ainda mais caro

por  e Camilla Lima – 

Enquanto chegamos perto da marca das três centenas de novos agrotóxicos liberados apenas neste ano, a nova classificação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) causa controvérsia e, na realidade agrícola em que vivemos no Brasil, desinformação. Pelas novas normas, venenos antes considerados “altamente tóxicos” podem passar para toxicidade moderada, enquanto os “pouco tóxicos” podem até ser liberados dessa classificação. Isso porque, pelo novo marco regulatório, o critério adotado será o risco de morte. Portanto, os dados de mortalidade é que irão embasar os riscos de um determinado produto. Hoje, são divididos em diversas categorias (diferentes tipos de exposição ao produto) e resultados “restritivo” quando realizados testes de irritação nos olhos e pele. Esse quesito será retirado.


Só em 2017 foram registrados 4.003 casos de intoxicação por exposição a agrotóxicos em todo o País, quase 11 por dia | Foto: Cid Barbosa
Para o gerente de avaliação de segurança tecnológica da Anvisa, Caio Almeida, considerar essa escala de irritação (pele e olhos) faz com que a maioria dos agrotóxicos no Brasil seja classificada como “altamente tóxico”. A Agência de Vigilância defende que o novo marco regulatório se dá a caminho de um padrão internacional, o Sistema Globalmente Harmonizado de Classificação e Rotulagem de Produtos Químicos, adotado na União Europeia e na Ásia.

Na avaliação da Anvisa, a novidade informará a toxicidade “correta”. No entanto, isso não representará maior segurança à saúde. Na avaliação de especialistas de renomados órgãos de pesquisa no País, amenizar o grau de toxicidade expõe o trabalhador que manuseia o veneno a um maior risco. Dados do Ministério da Saúdee da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelam o crescimento do número de mortes e intoxicação envolvendo defensivos agrícolas no Brasil.
Só em 2017 foram registrados 4.003 casos de intoxicação por exposição a agrotóxicos em todo o País, quase 11 por dia. Em uma década, a estatística praticamente dobrou. No mesmo ano, 164 pessoas morreram após entrar em contato com o veneno e 157 ficaram incapacitadas para o trabalho, sem contar com intoxicações que evoluíram para doenças crônicas, como câncer e impotência sexual.

De acordo com pesquisas do Núcleo Trabalho Meio Ambiente e Saúde para a Sustentabilidade (Tramas), da Universidade Federal do Ceará (UFC), os produtores brasileiros utilizam os agrotóxicos pensando em sua maior eficácia, portanto, mais tóxicos, aumentando o impacto no ser humano e no meio ambiente.

Ronaldo Nascimento, professor de química da UFC, explica que amenizar o grau de toxidade não diminui a possibilidade de intoxicação humana e nem ambiental: “Os pesticidas, sendo em sua maioria compostos orgânicos sintéticos, pertencem a diferentes classes químicas consideradas potencialmente tóxicas aos seres humanos e demais seres vivos. Quando aplicados de maneira inadequada nas culturas, sem a condução das Boas Práticas Agrícolas, resíduos destes compostos tóxicos podem persistir no meio ambiente, como também nos frutos e hortaliças, gerando uma rota de exposição humana via alimentação”.

De acordo com o químico, do total de produtos liberados (290) pelo governo em 2019, 41% são considerados extremamente ou altamente tóxicos e 32% são proibidos na União Europeia. O professor enumera alguns dos mais tóxicos da lista:
  • 2-4 D – herbicida classificado como extremamente tóxico e provável carcinogênico
  • Acefato – banido na Europa, é associado a danos na fertilidade masculina
  • Atrazina – associada a danos cardíacos em humanos, e pode prejudicar a vida sexual de sapos machos
  • Dibrometo de diquate – considerado extremamente tóxico pela Anvisa, sendo letal se inalado
  • Fipronil – foi banido na Europa desde 2013, tem alta toxicidade e letalidade para as abelhas, provocando danos à sua aprendizagem e memorização.
  • Glifosato – agrotóxico mais usado no mundo, é classificado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) como potencialmente cancerígeno para humanos
  • Sulfoxaflor – princípio ativo que controla insetos, por outro lado ataca as abelhas polinizadoras

Suposta economia

O argumento de que a liberação de agrotóxicos possa baratear o preço dos alimentos, corroborado por setores do agronegócio e indigesto a grupos científicos das áreas de saúde e meio ambiente, lembra o barateamento nas passagens aéreas prometido quando se alterou a legislação para cobrar o despacho de malas nos aviões, pelo qual até hoje o brasileiro aguarda, com o agravante de que a suposta economia pode afetar o equilíbrio do meio ambiente e a saúde de trabalhadores e consumidores.

O uso de pesticidas no Brasil se encontra nas regiões em que se tem a predominância de produção em larga escala de produtos como o milho, a cana-de-açúcar e a soja, sendo que esta última consome sozinha 55% do total de agrotóxicos utilizados no Brasil.

Os novos registros liberados de agrotóxicos dizem respeito, em sua maioria, a produtos genéricos, mas utilizados no mercado brasileiro, ainda assim proibidos em outras partes do mundo, como é o caso do Fipronil, um inseticida que age nas células nervosas dos insetos. Desde 2004 é proibido na França, acusado de dizimar enxames de abelhas. Um outro agrotóxico recém-autorizado no Brasil é o Sulfentrazona. Banido em 2009 em toda a União Europeia, aqui teve o registro deferido em dezembro de 2018 para três empresas brasileiras. Em 2019, o seu genérico teve mais três permissões no País.
No ano de 2015 foram registrados 139 agrotóxicos. Em 2018 foram 450, um aumento de 323%. No mesmo período, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)mostrou apenas pequenas oscilações nos preços dos vegetais, com uma queda mais expressiva, de aproximadamente 5%, por conta de uma grande safra ocorrida em 2017. Enquanto isso, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima em 193 mil mortes por ano no mundo causadas por exposição aos agrotóxicos, um custo-saúde que não entra nos índices da economia agrícola mundial.
(#Envolverde)

 Agência Envolverde