quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Difícil de entender

 



O governo do Mato Grosso se disse preocupado com diminuição de peixes nos rios e enviou um projeto de lei para proibir a pesca por cinco anos, mas liberou hidrelétricas, inclusive no Pantanal
(Na foto, o Rio do Sangue, em Brasnorte/Andreia Fanzeres)


Por Andreia Fanzeres
Tem cheiro de peixe morto pairando no ar em Mato Grosso. Em junho, o governador, o empresário Mauro Mendes (DEM), enviou uma mensagem à Assembleia Legislativa se dizendo preocupadíssimo com a redução de estoques pesqueiros. Para atacar este problema, propôs um projeto de lei que quer proibir a pesca no estado inteiro por cinco anos, desagradando milhares pescadores profissionais e comerciantes, que se manifestaram em peso durante uma audiência pública este mês, em Cuiabá.


A notícia se espalhou depois que o Conselho Estadual de Recursos Hídricos (Cehidro), rejeitou, por maioria, a orientação da Agência Nacional de Águas (ANA), que determina a suspensão de autorizações para novas hidrelétricas na Bacia do Alto Paraguai (BAP) até a finalização de estudos sobre a situação da região. Isso, para especialistas e pescadores, representou um flagrante contrassenso.


“É uma decisão precipitada, fruto da falta de conhecimento sobre como fazer a gestão da pesca. É ignorância, não tem lógica. O que o governo deveria fazer é não autorizar novas usinas no Pantanal até que o estudo da ANA estivesse concluído”, diz a professora da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), Carolina Joana da Silva. De acordo com ela e com todos os pesquisadores ouvidos, não há base científica para dizer que os estoques estejam diminuindo, tampouco para assegurar que a moratória da pesca vai trazer os resultados esperados. “E por que cinco anos e não quatro, ou três? Simplesmente, não tem fundamento”, afirma a pesquisadora. Esse projeto não faz uma avaliação ecossistêmica. O que está realmente acontecendo com nossos rios? É como se estivessem tentando analisar o estado de uma pessoa começando pela unha”, compara.


A mensagem do governador Mauro Mendes, enviada à Assembleia Legislativa (AL) no dia 19 de junho, fala em “redução significativa nos estoques pesqueiros em rios do estado de Mato Grosso e de estados vizinhos”, e, ainda de “impactos ambientais incalculáveis, colocando em risco várias espécies nativas e sua manutenção para as gerações atuais e futuras”. E considera que esta é uma “importante política pública para o controle e a sustentabilidade da pesca, bem como a renovação dos estoques pesqueiros”. Mas ainda não se sabe de onde veio tanta convicção.


Para Lucia Aparecida de Fátima Mateus, professora associada da UFMT e pesquisadora da Rede Pesca do Centro de Pesquisas do Pantanal (CPP), o que existe hoje são estudos por espécie, como sobre os pacus em Mato Grosso do Sul. “Mato Grosso é um estado muito mais complexo que contém três bacias hidrográficas. Temos dados para a BAP, mas não para Amazônia e Araguaia”, alerta. Ela lembra que, tampouco na ocasião da proibição da pesca da piraíba e do dourado, que está vigente, os legisladores recorreram à Ciência. “Para mexer na lei, são considerados sempre dois fatores: impressão das pessoas e pressão de determinados setores econômicos”, atesta a pesquisadora.
Pescadores em protesto contra o projeto do governo do Mato Grosso
(Foto: Andreia Fanzeres)
O projeto de lei do governador proíbe o transporte, o armazenamento e a distribuição de pescado em Mato Grosso por cinco anos e afirma que nesse período serão realizados estudos sobre cota. Ainda segundo o PL 668/2019, a vedação não alcança os ribeirinhos que pescam para a subsistência.


A suspensão da pesca, conhecida como “cota zero”, já virou política pública em outros estados, como Tocantins, Goiás e em Mato Grosso do Sul — embora, neste último, ela só deverá entrar em vigor a partir do próximo mês de janeiro e só será válida para a pesca amadora. Entretanto, são desconhecidas avaliações sobre a eficácia da medida. “Em Goiás, quem está fora do rio é o pobre, que dependia daquele recurso. Quem tem dinheiro, continua se divertindo”, diz Luciana Ferraz, coordenadora do Fórum Nacional da Sociedade Civil nos Comitês de Bacia Hidrográfica em Mato Grosso (Fonasc).


Segundo Lucia Mateus, da UFMT, outro problema é o estabelecimento de uma medida de manejo sem instrumentos ou previsão para seu monitoramento. “Não sabemos se depois da cota zero em Goiás aumentou o peixe. Esta lei não fala em monitoramento, como nenhuma outra o faz, e isso tem que ser assumido pelo estado”, recomenda.

Sim às usinas

Hidrelétrica São Manoel, no rio Teles Pires, em Mato Grosso (Foto: PAC)
Uma das ações de monitoramento que já deviam estar em curso é a sistematização das Declarações de Pesca Individual (DPI), documento que, junto da Guia de Transporte e Armazenamento do Estado (GTAP), todo o pescador profissional precisa preencher. Através das DPI, o governo teria elementos para compreender melhor o estado da pesca em Mato Grosso. Mas, de acordo com Julita Burko Duleba, presidente da colônia Z16, correspondente à sub-bacia do Teles Pires e região de Juara, o estado nunca se importou em realizar um levantamento sobre o pescado. “Antes, a Sema entregava três vias da DPI: uma para ficar com o pescador, outra com a colônia e a terceira para a secretaria. Só que há uns dois anos mandam só duas vias. A Sema não tem mais acesso a esses dados. Eu até enviava as vias para Cuiabá, mas diziam que os papeis estavam ruins, apagados. Soube que nossa DPI já parou até no lixo”, relata Julita.


Para a representante dos pescadores, quem diminui a quantidade de peixe nos rios são as hidrelétricas. “Não tem fundamento a ideia de que é o pescador que depreda os rios. Nossa colônia foi atingida pelas usinas de Sinop, Colíder e Teles Pires. Quando as turbinas são ligadas, matam muito peixe. Além do mais, tiram a vegetação”, relata. “Após a emissão da licença de operação da UHE Sinop [concedida este ano pela Sema sob contundentes denúncias de irregularidades], a secretaria de meio ambiente multou a Companhia Energética Sinop em R$ 50 milhões por 13 toneladas de peixes mortos. Mas este número pode estar subestimado. “Sabemos que esse número chega a quase 60 toneladas. Os pescadores nos disseram que a empresa pagou gente para tirar o peixe morto da água antes de a Sema chegar”, acrescenta Julita.


Outra contradição tem a ver com a carta branca dada pelo governo de Mato Grosso às hidrelétricas no Pantanal, apesar da Resolução 64/2018 da ANA, que determina a suspensão dos processos de requerimentos de Declarações de Reserva de Disponibilidade Hídrica e de Outorgas de Direito de Uso de Recursos Hídricos para novos aproveitamentos hidrelétricos em rios de domínio da União na Região Hidrográfica do Paraguai, até 31 de maio de 2020. 


“Teoricamente, os estados podem ou não seguir a orientação da ANA no caso dos rios estaduais, mas neste caso implica numa questão ética. Essa decisão do Conselho Estadual de Recursos Hídricos (Cehidro) é fruto de pressão política”, argumenta a bióloga Debora Calheiros, da Embrapa Pantanal/UFMT. E com um agravante. “Poderíamos questionar esta decisão do estado em nível federal, mas agora que o Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) está paralisado, não temos a quem recorrer. Eles apostaram nessa desestruturação dos conselhos federais e dos órgãos governamentais, justamente para não terem que respeitar nada”, avalia. Existem 144 hidrelétricas em estudos no Pantanal. De acordo com o Plano de Recursos Hídricos da Região Hidrográfica do rio Paraguai (PRH Paraguai), já operam 29 PCHs e 11 UHEs somando uma 1.111 MW de capacidade instalada para produção energética na região.

O projeto do governo

Plateia de pescadores faz protesto contra o “Cota Zero” na Assembleia Legislativa do Mato Grosso (Foto: Andreia Fanzeres)
Além de instituir a cota zero, o Projeto de Lei 668/2019, do executivo mato-grossense, mexe na composição do Conselho Estadual da Pesca (Cepesca), ampliando desigualdades. Ele exclui do conselho entidades como o Ibama, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Ministério Público Estadual. Além disso, reduz de três para dois os representantes de pescadores (na lei em vigor, é um nome por bacia hidrográfica), diminui a participação da sociedade civil na mesma proporção e, ainda, diz que a escolha das organizações socioambientais se dará por decreto do governador. “Atribuir ao governador a definição dos representantes da sociedade civil no Conselho é inconstitucional”, contesta Luciana Ferraz, do Fonasc.


Segundo a conselheira, desde 2014 o Cepesca vem se dedicando à elaboração de uma minuta para a política de pesca no estado. “Foi um processo de construção coletiva. A lei não é perfeita, mas é muito melhor do que a proposta do executivo”, considera Luciana.


De acordo com a bióloga Gabriela Priante, secretaria-executiva do Cepesca, a minuta do conselho foi encaminhada para o governador em abril de 2018, mas ela sofreu alterações com a mudança no comando do estado. “Com a nova gestão, o governador devolveu para a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) tomar conhecimento e, na segunda reunião ordinária do Cepesca este ano, o Alex Marega [secretário adjunto] apresentou essa situação, buscando um alinhamento”, descreve Priante. “Depois de muita discussão, o conselho aprovou cota zero apenas para pesca amadora por cinco anos e, a partir daquele momento, a proposta passou a ser trabalhada entre a Sema e o governador”, explicou. A proposta de moratória para a pesca profissional foi uma surpresa para os conselheiros.


Com relação à redução dos estoques pesqueiros no estado, Priante pondera que, embora não haja trabalhos científicos fundamentando a decisão do governo, é preciso considerar relatos e a percepção dos próprios pescadores. “Em Várzea Grande, por exemplo, antigamente havia muita fartura na Festa de São Pedro. Os pescadores ofereciam peixes gratuitamente. Hoje, ainda é servido o peixe, mas ele é vendido e é de piscicultura porque eles não conseguem mais tirar do rio a mesma quantidade. Isso é uma constatação de diminuição do estoque”, observa.


“A questão é se, diante desse cenário, precisamos proibir o esforço de pesca, uma vez que essa diminuição é associada a outros fatores ambientais”, indaga a secretária-executiva do Cepesca.

Marginalização do pescador

Blairo Maggi foi ministro da Agricultura (Foto: Gilberto Soares/MMA)
Não é a primeira vez que tentam instituir a moratória da pesca em Mato Grosso. Em 2012, o então senador Blairo Maggi propôs um projeto de lei pelo Senado que suspenderia por cinco anos a pesca amadora e profissional (nos mesmos termos da atual proposta de Mauro Mendes). Naquele ano, o governador Silval Barbosa (ex-vice de Maggi) alterou a Lei 9096/2009, que institui a política de pesca no estado, proibindo a pesca amadora por três anos. Em 2018, a deputada Janaína Riva apresentou projeto de lei proibindo a pesca amadora por cinco anos. A insistência é crescente.


“Esta medida vai resolver o ‘problema’ de muitos empresários e tirar o pescador da beira do rio”, considera Herman Oliveira, secretário-executivo do Fórum Mato-Grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad), que reúne cerca de 30 organizações da sociedade civil. De acordo com o engenheiro de pesca e indigenista da Operação Amazônia Nativa (OPAN), Ricardo Carvalho, a cada ano os pescadores vêm enfrentando mais dificuldade para acessar os rios. “Os pescadores têm sido marginalizados e, em muitos casos, sequer são considerados como população afetada dentro dos licenciamentos de usinas hidrelétricas”, avalia.  Trata-se de uma dupla exclusão, segundo a professora Carolina Joana da Silva, da Unemat. “Estamos falando de territórios socioculturais. Desse ponto, a região da baixada cuiabana é mais sensível. As pessoas dependem do rio e vão sofrer com dois tipos de exclusão: a social e a ecossistêmica”.


Luciana Ferraz, do Fonasc, detalha ainda mais esse cenário. “Se a lei da cota zero passar, certamente o turismo de pesca aumenta. O pescador artesanal vai virar mão de obra barata na indústria da piscicultura”, completa Ferraz. Segundo ela, a habilidade de filetar o peixe é altamente especializada e a indústria se vale do excesso de mão de obra para pagar pouco. “Tem gente que recebe 30 reais para cortar 150 kg de filé”, diz.


“Esse projeto está cheirando a peixe morto”, resumiu o deputado estadual Valdir Barranco, do PT. Para ele, a Sema tem feito pouco pela saúde dos rios ao não melhorar a fiscalização e não impedir mais hidrelétricas. “Quem está patrocinando esse projeto? Serão os grandes barões das hidrelétricas ou os que estão instalando grandes indústrias e frigoríficos de peixes?” Jair Gerônimo de Souza, empresário do ramo de transporte e distribuição de material de pesca, mencionou na audiência pública realizada na AL a ligação estreita entre o agronegócio e a indústria da piscicultura, que concorre com a atividade da pesca profissional. “Eu li na reportagem que Eraí Maggi se prepara para ser o maior criador de peixe do mundo. Não queremos apoiar meia dúzia de tubarões. Esse projeto é um absurdo”, considera.


Antes do início da audiência pública convocada pelo deputado estadual Elizeu Nascimento (DC), Alex Marega, da Sema, chegou a dar entrevistas a sites e TVs locais reconhecendo que a cota zero é uma medida para favorecer o turismo de pesca em Mato Grosso. “O turismo de pesca é a grande fonte de receita da pesca em Mato Grosso (…) A ideia é que a gente possa novamente ter uma quantidade de peixe nos rios que possa trazer essas pessoas de volta para o estado e que a gente possa gerar essa receita incorporando aos pescadores profissionais”, falou ao repórter Carlos Gustavo Dorileo, do site Olhar Direto. Mas, durante o evento, não se manifestou em plenário diante dos cerca de 500 pescadores que estavam presentes.

O problema é outro

Peixes mortos no rio Teles Pires abaixo da barragem de Sinop em 2019
(Foto: N. Flausino Júnior).
De acordo com um laudo técnico elaborado a pedido da Associação de Lojistas de Caça e Pesca do Estado de Mato Grosso (Alcape) pelo dr. Francisco de Arruda Machado, ictiólogo aposentado da UFMT e considerado um dos mais respeitados especialistas em peixes do estado, o maior problema para a sobrevivência das espécies de peixes consiste na destruição de seus ambientes. “Hoje, há muito mais aspectos que preocupam do que a pesca”, diz Machado.


Em primeiro lugar, o pesquisador aponta a retirada da mata ciliar como responsável por impactos danosos e irreversíveis a córregos, riachos, mananciais, veredas e nascentes, fundamentais ao pleno funcionamento dos ambientes. O carreamento de lixo, dejetos, efluentes, agroquímicos e saponáceos são fatores que aparecem na sequência como altamente prejudiciais aos peixes, seguido pela destruição dos próprios corpos d’água, pressionados pela expansão das áreas urbanas e drenadas nos plantios de monoculturas no estado.


Além de mencionar as numerosas extinções de espécies de água doce, o documento reforça que as hidrelétricas são determinantes no impacto sobre peixes. “Peixes migradores, com a construção de usinas, têm seus modos de vida praticamente inviabilizados, posto que suas migrações ocorrem por motivos reprodutivos. Mesmo quando há Mecanismos de Transposição de Peixes (MTP), como por exemplo escadas de peixes, elevadores, eclusas…somente 30% dos migradores conseguem ascender à montante, vencer o trecho do reservatório e, considerando que possam reproduzir, suas larvas que precisam da energia da água para seus deslocamentos encontram o reservatório e terminam por morrerem e não ultrapassam as barragens. Admitindo que atinjam a barragem, geralmente são eliminadas ao passarem pelas turbinas”, diz um trecho do laudo.


Contrariamente à ideia de que pescar e soltar o peixe faz bem para a natureza, Machado é categórico ao afirmar que até retirar o peixe do rio é menos nocivo do que o pesque-e-solte. “Peixes de um modo geral sofrem severos danos físicos ao serem pescados (Volpato, 2000; Petrere Jr. 2014). Tem um dos olhos perfurados em um elevado número de indivíduos quando fisgados, fazendo com que vivam em desvantagem quando comparados com indivíduos normais”, cita o laudo.

Audiência pública

Pescador no Pantanal Matogrossense (Foto: Ecoa)
Nilma Silva, da Alcape, chamou de desastroso o projeto de lei do governador e disse que o comércio vinculado à atividade da pesca profissional é altamente relevante para a economia do estado e dos municípios. “Essa mensagem do governo é uma lambança, não vamos aceitar. O governo quer miserabilizar a massa e favorecer o lobby”, discursou na audiência pública. Segundo ela, o setor da pesca amadora e profissional gera 100 mil empregos diretos e indiretos. “Eu me considero filha de Barão de Melgaço, e não vou poder levar o peixe. Mas se eu estiver num barco hotel, onde uma diária custa de 800 a 1500 reais, eu vou poder”, denunciou.


Outro representante dos lojistas, Gilvan Oliveira de Almeida, atribuiu à necessidade de maior investimento na fiscalização a solução da maioria dos problemas ligados à pesca no estado. “Em todos os setores há aqueles que depredam. Nossa luta é por mais fiscalização. O meio não é fechar para o amador e o profissional, senão os lojistas vão quebrar”, afirmou. Perguntada sobre o montante de autuações na coibição de crimes ligados à pesca, a Sema informou que em 2018 foram aplicados R$ 372 mil em multas e, em 2019, R$ 354 mil até o mês de junho.


O deputado Elizeu Nascimento (DC) ofereceu um substitutivo integral ao PL 668/2019 no dia seguinte à audiência pública convocada por ele para discutir o tema e que não contou com nenhuma voz que apoiasse a medida do executivo. Em sua proposta, ele devolve a composição do Cepesca a praticamente o que se encontra vigente, detalhando também que os membros não governamentais do conselho deverão ser escolhidos por suas associações ou entidades de classe para então serem nomeadas por meio de decreto. “Vamos redistribuir os valores arrecadados com crimes cometidos contra a natureza da pesca a investimentos na fiscalização através da polícia ambiental e na secretaria de meio ambiente”, avisou. Parte desse recurso, ainda segundo Nascimento, seria usado para “repovoamento dos rios”, além de ser empregado em um programa de despoluição e recuperação das matas ciliares.  Mas repovoar os rios não é algo trivial assim. O ictiólogo Machado pondera que este é um tema muito específico, que deveria ser regulamentado pelo Cepesca. “Tem gente que solta os alevinos em época, local e tamanho errados. Não é um assunto simples”, comenta.


Neste momento delicado para as políticas ambientais no Brasil, o que se desenha em Mato Grosso é mais um sinal de inconsequência e retrocesso. “Eu me senti muito mal quando vi o projeto do governador. Ele diz que não quer tirar nosso direito de pescar para não indenizar os pescadores. Mas como a pessoa vai pescar e depois não pode transportar? É a mesma coisa de ficar sem perna para andar”, associa Julita, da colônia Z-16, que acredita que a eventual proibição da pesca levará os pescadores profissionais para a ilegalidade. A solução passa longe da proibição da pesca para aqueles que mais precisam dela, como opina Ferraz, do Fonasc. “Eu acredito na vigilância comunitária em parceria com a fiscalização ambiental”, diz a conselheira do Cepesca. Os pescadores exibiram em cartazes e camisetas a resposta para melhorias na qualidade dos rios e deram uma prova de que fazem uma leitura bem mais ampla do que está por trás de tal projeto. “Sim, deputada [em referência à deputada Janaína Riva, que vem pressionando para a implementação da cota zero no estado], queremos cota zero para usinas, dragas, esgoto, agrotóxicos, poluição…”, dizia um dos cartazes.



Nota
No dia 23/07, a empresa Sinop Energia enviou uma nota à redação da Amazônia Real afirmando que as declarações referentes à mortandade de peixes no rio Teles Pires não correspondem à verdade, alegando que “o evento de perecimento dos peixes ocorreu à jusante do barramento da UHE Sinop”. Além disso, afirmou que o reservatório da UHE Colíder favoreceu a prática da pesca com “aumento quantitativo de peixes”. Por fim, declara que a remoção de peixes mortos foi acompanhada pelas autoridades ambientais. A autora do texto, jornalista Andreia Fanzeres reitera que as afirmações contidas no artigo, concedidas por Julita Burko Duleba, presidente da Colônia de Pescadores Z16, são legítimas. Confira, na íntegra, a nota da empresa:


“A Usina Hidrelétrica Sinop (UHE Sinop) está em sua fase final de implantação e vem sendo acompanhada, através do Processo de Licenciamento Ambiental, pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente – SEMA desde 2014 em todas as obrigações socioambientais.
Portanto, a realização de diversos programas compreendidos no Projeto Básico Ambiental – PBA, vem sendo avaliada de forma continuada por equipe multidisciplinar da SEMA que, através de Pareceres Técnicos, Autorizações e Licenças, habilita a evolução da implantação e o funcionamento do Empreendimento.


As declarações não correspondem a verdade, visto que o evento do perecimento de peixes ocorreu à jusante do barramento da UHE Sinop, em fase inicial da formação do reservatório, ou seja, na condição de remanso da UHE Colíder. Ainda vale referenciar que, a exemplo da formação do reservatório da UHE Colíder, que está em sequência e no mesmo rio, e outros reservatórios, de fato há uma melhoria da prática da pesca, com o aumento do quantitativo de peixes, bastando evidenciar o fato que, em fins de semana, ou até mesmo diariamente, a frequência de pescadores é cada vez maior.


Quanto à remoção dos peixes que pereceram, o procedimento foi realizado com acompanhamento pari passu da SEMA, da equipe da Delegacia Especializada do Meio Ambiente – DEMA e da equipe do Batalhão da Polícia Ambiental Militar, sendo todos os registros devidamente protocolados junto à SEMA e ao Ministério Público Estadual – MPE, à época. Portanto, mais uma vez, a Sinop Energia, concessionária da UHE Sinop, reitera o equívoco nas declarações, comprovando desconhecimento dos fatos e das condições favoráveis que um reservatório proporciona à pesca de qualquer natureza, seja esportiva, de lazer, profissional ou para subsistência”.

Andreia Fanzeres é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tem 14 anos de experiência na área de comunicação socioambiental. Já trabalhou em veículos como Revista Ciência Hoje, Globonews, ((o)) Eco e foi freelancer do Valor Econômico. É Alumni do Wolfson College, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), onde participou do Press Fellowship Programme (2009) com o artigo “Comunicação ambiental no arco do desmatamento”. Foi vencedora do Earth Journalism Awards (2009) em três categorias internacionais, do Prêmio de Reportagem sobre a Mata Atlântica (2011), do Prêmio Pedro Rocha Jucá (2013) e do Prêmio Embrapa de Reportagem (2014). É membro da organização indigenista Operação Amazônia Nativa (OPAN) e desde 2016 coordena o Programa de Direitos Indígenas, Política Indigenista e Informação à Sociedade.

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terça-feira, 3 de setembro de 2019

Pirenópolis ganha mais 5 reservas de Patrimônio Natural

 

Pirenópolis ganha mais 5 reservas de Patrimônio Natural




Município ecoturístico de Goiás, Pirenópolis acaba de ganhar mais cinco reservas particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). Foram criadas a Segredos do Cerrado (área de 7,40 ha hectares), a Magia do Cerrado (área total de 18,74 hectares), a Caraívas Ecovilla (área de 7,91 hectares), a Caraívas Comunidade Vale da Dhyana (área de 10,18 hectares) e a Caraívas Chácara Vale da Dhyana (área de 4,51 hectares).


Na criação de tais reservas, os proprietários, sem perder a titularidade, dividem com o governo as responsabilidades de gestão da terra. Elas passam a ser consideradas Unidades de Conservação, ajudam a ampliar as áreas preservadas do país e o proprietário ganha alguns benefícios, entre eles a isenção do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) referente à área criada como RPPN.
Com autorização prévia, os donos da terra também podem criar atividades recreativas, turísticas, de educação e pesquisa no local.

Em algumas reservas particulares, também é testado um modelo de Pagamento por Serviços Ambientais, ou seja, os proprietários recebem apoio financeiro para manter e ampliar suas ações de conservação nas reservas.

Cidade exemplo

Já foram oficializadas sete RPPNs em Pirenópolis desde julho, incluindo as citadas acima. Mas, é Curitiba que chama atenção pelo número de Reservas Particulares do Patrimônio Natural no Brasil. A cidade soma 22 reservas, o que representa o maior número entre as capitais brasileiras.

Pirenópolis 

Ruas tombadas pelo IPHAN e casarões históricos dão charme a Pirenópolis, mas são os rios e as mais de 80 cachoeiras que atraem visitantes de todo o país. Para a cidade, que está no Cerrado, seguir como um destino relevante, não há alternativa: é preciso cuidar de sua beleza natural.

O desmatamento da Amazônia tem um impacto significativo no clima do Brasil


O desmatamento da Amazônia tem um impacto significativo no clima do Brasil


desmatamento na Amazônia

A perda de cobertura florestal na Amazônia tem um impacto significativo no clima local no Brasil, de acordo com um novo estudo.

University of Leeds*
O Programa Ambiental da ONU alertou que os incêndios na Amazônia ameaçam “… esse precioso recurso natural …” e que a floresta ajuda a mitigar os efeitos das mudanças climáticas.
Informações sobre os efeitos do desmatamento na Amazônia – e a maneira como ele pode intensificar as mudanças climáticas, particularmente em nível local – foram publicadas em acesso aberto na revista Frontiers .

Usando dados de satélite, Jess Baker e o professor Dominick Spracklen, da Universidade de Leeds, avaliaram as consequências climáticas do desmatamento na Amazônia entre 2001 e 2013.
Eles descobriram que o desmatamento faz com que o clima local esquente – e que o aquecimento se intensificou à medida que a gravidade do desmatamento aumentava.

As florestas intactas da região, com menos de 5% de perda de dossel, tiveram a maior estabilidade climática nos últimos dez anos, mostrando apenas pequenos aumentos de temperatura.
As áreas com cobertura de árvores reduzidas para menos de 70% aqueceram 0,44 ° C a mais do que as florestas intactas vizinhas durante o período do estudo.

As diferenças entre florestas intactas e perturbadas foram mais pronunciadas durante a parte mais seca do ano, quando foram observados aumentos de temperatura de até 1,5 ° C em áreas afetadas por desmatamento severo. Esse aumento é adicional ao aumento da temperatura global impulsionado pelas mudanças climáticas.

A coautora do estudo Jess Baker, da Escola de Terra e Meio Ambiente de Leeds, disse: “Os incêndios na Amazônia nos lembraram todo o papel importante que as florestas desempenham em nossos sistemas globais. Mas não se pode ignorar que as florestas intactas da Amazônia também são de importância crucial. para o clima local do Brasil.

“Uma floresta amazônica intacta e saudável ajuda a regular o clima local e pode até agir como um amortecedor dos efeitos do aquecimento das mudanças climáticas, em comparação com as florestas perturbadas”.

O co-autor do estudo Dominick Spracklen, professor de interações biosfera-atmosfera em Leeds, disse: “O desmatamento diminui a quantidade de água emitida para a atmosfera da floresta através de um processo chamado evapotranspiração.

“A evapotranspiração pode ser vista como a ‘transpiração’ da floresta; quando a umidade emitida pelas florestas evapora, esfria o clima local. O desmatamento reduz a evapotranspiração, retirando essa função de resfriamento e causando o aumento da temperatura local.

“À medida que as temperaturas aumentam, isso aumenta o estresse causado pela seca e torna as florestas mais suscetíveis à queima”.
Referência:
Baker JCA and Spracklen DV (2019) Climate Benefits of Intact Amazon Forests and the Biophysical Consequences of Disturbance. Front. For. Glob. Change 2:47. doi: 10.3389/ffgc.2019.00047
https://doi.org/10.3389/ffgc.2019.00047

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/09/2019

O desmatamento da Amazônia tem um impacto significativo no clima do Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 2/09/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/09/02/o-desmatamento-da-amazonia-tem-um-impacto-significativo-no-clima-do-brasil/.

Clima sem saúde


Clima sem saúde, artigo de Paulo K. de Sá


crise ambiental

[EcoDebate] Em tempos de avanço no desmatamento da Amazônia, uma das áreas mais importantes do planeta para a regulação do clima, biodiversidade e sobrevivência de inúmeras espécies, inclusive a nossa, assistimos a uma voraz investida sobre um dos maiores patrimônios da humanidade. Como se não bastasse, a Mata Atlântica e, principalmente, o Cerrado são devastados em meio à nuvem de fumaça na Amazônia.

Sabemos que o modelo econômico dita as decisões políticas, e seria ingenuidade não entendermos que a virada conservadora na política nacional e internacional levaria a esse quadro. Em nome do consumo e do crescimento ininterrupto, as corporações não irão se deter no avanço sobre os ecossistemas, transformando tudo em commodities.


No entanto, a divulgação dos cientistas de que dispomos somente de 12 anos para reverter radicalmente o quadro atual, para viabilizar a sobrevivência da maioria da humanidade e das espécies até o final do século, colocou em xeque tudo o que fazemos e escolhemos.


Não precisa ser gênio para entender que a mudança na dinâmica dos principais ecossistemas terrestres e marinhos provoca e provocará, cada vez mais intensamente, ondas de calor e frio, gerando a deterioração nas condições de vida. Toda essa mudança provoca efeitos previsíveis e imprevisíveis.

Conhecemos pouco sobre os impactos que as mudanças causadas pela alteração nos ecossistemas poderão gerar, especialmente nos microrganismos, assim como na saúde de todos.
Para além da degradação ambiental e do desconforto que a alteração climática provoca, em uma escala mais frequente os danos se tornam economicamente desastrosos por um lado e oportunidade para gananciosos do outro.


A alteração dos ecossistemas não se dá pura e simplesmente pelo desmatamento, mas também pelo abusivo uso de defensivos agrícolas, alterando a flora e a fauna e com importantes consequências em nossa saúde. Desde o início do ano foram autorizados no Brasil o uso de inúmeros agrotóxicos condenados em vários países. Tudo em nome da escala econômica e ampliação da fronteira agrícola para enfrentar a fome do mundo, promessa essa que sempre esteve como máxima convincente, mas que nunca foi cumprida pela dita revolução verde.


Em meio à destruição existem vários oportunistas que ganham dinheiro. Para alguns, a destruição é ótima oportunidade para lucrar com a reconstrução, redução de danos e medidas posteriores de minimização dos efeitos deletérios ocasionados pelos eventos climáticos.


Resta a pergunta: que tipo de humanos nos tornamos ao longo da história se o risco de desaparecimento como espécie for menos importante do que o controle mundial da economia e das oportunidades de ganho de capital? Parece que chegarmos ao final do século saudáveis ou não é menos relevante. O que interessa é como podemos ganhar dinheiro com o adoecimento e sofrimento em massa, em meio a ecossistemas deteriorados.


Paulo K. de Sá é médico e coordenador da Faculdade de Medicina de Petrópolis (FMP/Fase), no RJ. E-mail: paulosa@fmpfase.edu.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/09/2019

Clima sem saúde, artigo de Paulo K. de Sá, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 2/09/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/09/02/clima-sem-saude-artigo-de-paulo-k-de-sa/.

A terra sem lei no Pará

Repórter conta como a promessa de progresso com Belo Monte piorou Altamira.
 

A repórter Débora Álvares conta como Altamira (PA) se transformou em uma das cidades com mais focos de incêndio e recordista de desmatamento na Amazônia.

O fogo é só um sintoma de problemas muito profundos e antigos como disputas fundiárias, ausência do Estado e altos índices de violência.

Tudo se agravou com as obras de Belo Monte, usina liberada pelo Ministério do Meio Ambiente em 2010, no final do segundo mandato de Lula.

“Belo Monte trouxe mais gente, tornou a área mais atrativa, mais conhecida, e de mais fácil acesso. A pressão sobre as terras indígenas aumentou muito”, relata a procuradora da República em Altamira, Thais Santi.

Índios de tribos como os Xikrin já agiram por conta própria para defender o próprio território. São pelo menos 14 aldeias com grandes focos de tensão com grileiros.

O número de crimes ambientais disparou neste ano em Altamira — 157 inquéritos foram abertos até o dia 27 de agosto. No ano passado inteiro, foram 67 investigações.

“Houve uma sinalização [do governo] de que haveria mudanças na política ambiental. Isso contribuiu para que as pessoas acreditassem que seria de qualquer jeito e agora ‘pode tudo’. Mas têm que seguir o regramento legal”, analisa o delegado da Polícia Federal em Altamira, Mário Sérgio Nery. 

Aliás, na última sexta, garimpeiros atiraram em fiscais do Ibama, policiais rodoviários e até homens da Força Nacional de Segurança perto de área indígena em Altamira.

Ninguém ficou ferido, mas ninguém foi preso.

Qual regramento legal que vale numa terra sem lei?

Boa semana.

Diego Iraheta

Editor Chefe HuffPost Brasil

Carta aberta ao ICMBio e à Sociedade Brasileira.


Ofício SEI nº 10/2019-PFE

Brasília, 29 de agosto de 2019



Ao Senhor,
HOMERO DE GIORGE CERQUEIRA
Presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade - ICMBio
EQSW 103/104, Complexo Administrativo, Bloco C, 1º Andar - Setor Sudoeste
CEP: 70.670-350


Assunto: Carta aberta ao ICMBio e à Sociedade Brasileira. 

1. No dia 28 de agosto de 2019, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
ICMBio- completou 12 anos de dedicação a sua missão de proteger o patrimônio natural e promover o desenvolvimento socioambiental, por meio da gestão de 334 Unidades de Conservação Federais, que correspondem a quase 10% do território continental e 24% do marinho, essenciais à qualidade da vida humana, incluindo a manutenção da biodiversidade, dos serviços ecossistêmicos, dos benefícios
econômicos e do bem-estar social.

2. Tão nobre missão é desempenhada por apenas 1529 servidores permanentes da Carreira de
Especialista em Meio Ambiente, além de colaboradores e servidores cedidos, que se dedicam a inúmeras atividades que envolvem a gestão de unidades de conservação e de espécies ameaçadas, tais como:

demandas administrativas, 
atendimento ao público, 
educação ambiental,
implementação de instrumentos
participativos,
mediação de conflitos,

Nós, servidores de Estado e do principal órgão de gestão de áreas protegidas no Brasil (ICMBio),
diante da crise ambiental que assola o país e da responsabilidade legal de garantir a proteção do
patrimônio natural brasileiro, vimos manifestar nossa preocupação quanto aos rumos da política ambientalnacional corroborando a Carta Aberta dos servidores do IBAMA à sociedade brasileira com a qual concordamos integralmente, e acrescentamos aspectos que entendemos
sensíveis e carentes de atenção por parte do governo federal


a) Fortalecer os órgãos de controle, pesquisa, monitoramento e fiscalização federais
(IBAMA, ICMBio), com suporte orçamentário, restabelecimento do contingente de
pessoal, principalmente prevendo a realização de concursos públicos.


b) Suprimir quaisquer ingerências nas ações de fiscalização no que tange à aplicação de
medidas cautelares de competência discricionária dos fiscais.


c) Respeitar os procedimentos de planejamento da fiscalização de ilícitos ambientais e
combate a incêndios florestais, instituídos pelos órgãos ambientais, com base na
legislação pertinente, em informações verídicas e nos procedimentos técnicos.


d) Ampliar a utilização de recursos tecnológicos que possibilitem a rápida atuação
institucional em ações de monitoramento e fiscalização para que avancem cada vez mais
em sistemas de monitoramento, incluindo as iniciativas nacionais consolidadas e
reconhecidas internacionalmente (PRODES, DETER, PREPS).


e) Melhorar as condições de trabalho das unidades descentralizadas do IBAMA e do
ICMBio, viabilizando a segurança e o reforço das equipes de campo em ações planejadas
de fiscalização e monitoramento.) Nomear, preferencialmente, servidores do quadro funcional das instituições (IBAMA eICMBio) nos cargos de chefia, coordenação e direção, sobretudo respeitando critériostécnicos já previstos em norma vigente, incluído a instalada pela Presidência da
República - Decreto nº 9.727, de 15 de Março de 2019.


f) Nomear, preferencialmente, servidores do quadro funcional das instituições (IBAMA e
ICMBio) nos cargos de chefia, coordenação e direção, sobretudo respeitando critérios
técnicos já previstos em norma vigente, incluído a instalada pela Presidência da
República - Decreto nº 9.727, de 15 de Março de 2019


g) Atuar de forma integrada com organizações da sociedade civil e populações
tradicionais, indígenas e quilombolas, como parceiros e protagonistas no
desenvolvimento sustentável do país.


h) Retomar a unicidade da gestão ambiental federal, reintegrando o Serviço Florestal
Brasileiro (SFB), o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a Agência Nacional de Águas
(ANA) ao Ministério do Meio Ambiente, instrumentos indispensáveis para a gestão
territorial, o monitoramento e o controle de atividades humanas, além do
desenvolvimento sustentável das florestas e a promoção de políticas públicas



i) Pôr fim à política de assédio e intimidação de servidores, envolvendo, entre outras
estratégias, as remoções de cunho punitivo, o cerceamento à livre manifestação, além de
críticas e insultos às instituições e servidores por parte do alto escalão do governo
federal. Tais atitudes acabam por acarretar a desmotivação dos servidores,
descredibilidade dos órgãos junto à sociedade, bem como a promoção de ações reativas
por parte de grupos organizados com interesses na apropriação indevida do patrimônio
natural, decorrentes do empoderamento de infratores ambientais na certeza da
impunidade.


4. Além das medidas acima elencadas, solicitamos ao governo que paute suas ações com base nos dados científicos, nas boas práticas reconhecidas internacionalmente e nos princípios constitucionais daadministração pública, evitando o desmonte dos órgãos ambientais - fundamentais para a proteção do meioambiente - e a destruição dos recursos socioambientais brasileiros.


5. Há doze anos trabalhamos, silenciosamente, para proteger o patrimônio natural brasileiro em prol
de toda a humanide e continuaremos a fazê-lo até a última molécula de oxigênio se esvair de nossas florestas.
Respeitoramente
Servidores do ICMBIO

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Ministro defende a revisão de todas as demarcações de terras indígenas no país


Ministro defende a revisão de todas as demarcações de terras indígenas no país



O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, defendeu a revisão de todas as demarcações de terras indígenas no país. Ele citou indícios de irregularidades em parte desses processos. O ministro deu a declaração na noite desta quinta-feira (29), ao lado do presidente Jair Bolsonaro, durante live semanal transmitida no Facebook.

“Essas demarcações, elas merecem ser todas revistas, uma vez que há provas, de dentro da própria Funai [Fundação Nacional do Índio], denúncias de demarcações fraudulentas para terras indígenas. São demarcações que foram forjadas, muito aumentadas na sua extensão, por gente interessada em lucrar com isso. Isso precisa ser muito bem estudado”, disse.

O ministro citou como exemplo a demarcação de Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, para argumentar a necessidade de revisão desses processos. “O próprio laudo de Raposa Serra do Sol foi colocado em dúvida e foi praticamente comprovado que foi um laudo fraudulento. Então, todas essas demarcações têm que ser objeto de revisão, para verificar o que realmente corresponde à verdade”.

O presidente Jair Bolsonaro disse que não deve autorizar novas demarcações e que a maioria dos governadores da Amazônia Legal, que se reuniram com ele esta semana, também concorda.
“Hoje em dia, 14% do território nacional já está demarcado como terra indígena. Se eu demarcar todas essas áreas que estão aí, passa para 20%. Simplesmente a agricultura e a pecuária vão ficar inviabilizadas no Brasil. E os governadores não querem mais.”


O presidente Jair Bolsonaro e o ministro Augusto Heleno participam de live semanal - Reprodução do Facebook
O presidente Jair Bolsonaro e o ministro Augusto Heleno participam 
de live semanal – Reprodução do Facebook

Incêndios na Amazônia
Sobre o trabalho de combate aos incêndios na Amazônia, Augusto Heleno ressaltou a ação das Forças Armadas, nos últimos dias, que já conseguiu debelar a maior parte dos focos de queimada. “A ação das Forças Armadas foi imediata, pronta resposta, altamente competente, trabalhando em cima dos focos de incêndio e debelando a maioria deles”.

Ele ainda ressaltou que os incêndios na região são comuns em épocas de seca. “O que acontece na Amazônia, numa determinada época do ano, há focos de incêndio, mas não é a Amazônia em chamas. Isso é uma exagero que não é aceitável na cabeça de pessoas inteligentes. Isso é uma bobagem. São pontos da floresta onde surgem os núcleos de incêndio”, disse o ministro.

Tríplice fronteira
Jair Bolsonaro confirmou que se reunirá com os presidentes da Colômbia, Peru e Equador no dia 6 de setembro, na cidade colombiana de Letícia, que fica na Tríplice Fronteira com o Brasil e o Peru.
“No próximo dia 6, eu vou estar na cidade de Letícia, na Colômbia, juntamente com os presidentes do Equador, da Colômbia e do Peru também para gente conversar, discutir sobre esse assunto. Quem sabe um plano para que nós venhamos a usufruir dos bens da região amazônica, preservando o meio ambiente, se preocupando com a nossa soberania, que está ameaçada não é de hoje”, disse.

Reunião com Trump
Mais cedo, pelo Twitter, Bolsonaro confirmou que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, se reunirá nesta sexta-feira (30) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca, em Washington.

“Nunca Brasil e EUA estiveram tão alinhados. A coordenação com o Presidente americano foi essencial para a defesa da soberania brasileira na Amazônia, por ocasião do encontro do G-7, o que demonstra nossa relaçã

Por Pedro Rafael Vilela, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/08/2019
Ministro defende a revisão de todas as demarcações de terras indígenas no país, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/08/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/08/30/ministro-defende-a-revisao-de-todas-as-demarcacoes-de-terras-indigenas-no-pais/.

MPF abre investigação para apurar regularidade do licenciamento ambiental de terminal portuário em Santarém (PA)


MPF abre investigação para apurar regularidade do licenciamento ambiental de terminal portuário em Santarém (PA)


Terminal portuário de uso privado da empresa Atem’s Distribuidora de Petróleo – Obras estão em andamento, mas não houve audiência pública e consulta prévia, livre e informada, aponta denúncia encaminhada ao MPF

Foto mostra terreno de terra batida às margens de lago. O terreno tem plataformas que entram alguns metros no lago.
Obras do porto da Atem’s: licenciamento será investigado (foto: arquivo MPF)
O Ministério Público Federal (MPF) instaurou investigação nesta terça-feira (4) para apurar a regularidade do licenciamento ambiental do terminal portuário de uso privado da empresa Atem’s Distribuidora de Petróleo em instalação no Lago do Maicá, em Santarém, no oeste do Pará.
Também serão investigadas denúncia de inexistência da consulta prévia, livre e informada aos grupos potencialmente afetados, conforme determina a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), e possível ato de improbidade administrativa da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) pela não realização da consulta.


Informações recebidas pela unidade do MPF em Santarém apontam que não foram observadas atividades de pesquisa na região do Lago do Maicá para confecção de estudo e relatório de impacto ambiental. Segundo a denúncia, também não houve audiência pública com a população e consulta prévia aos indígenas, quilombolas e pescadores artesanais que podem vir a ser impactados.


Obra vizinha a várias comunidades – Segundo mapa obtido pelo MPF, a obra está próxima a diversos territórios tradicionalmente ocupados por quilombolas, indígenas e pescadores artesanais. As comunidades quilombolas Pérola do Maicá, Arapemã e Saracura, por exemplo, estão distantes apenas de 1,7 km a 8,2 km da construção, distância inferior à estipulada pela portaria interministerial nº 60/2015 para fins de presunção de impactos de empreendimentos portuários.


Além dessas três comunidades e das comunidades quilombolas de Maria Valentina e Bom Jardim – distantes entre 12,2 km e 14,4 km das obras –, estão em fase de estudos e delimitação os territórios da comunidade quilombola de Murumurutuba e do povo indígena Munduruku do Planalto Santareno, com grupo de trabalho instituído para essa finalidade por meio da Portaria nº 1.387 de 24 de outubro de 2018, da Fundação Nacional do Índio (Funai).


“Importante registrar que o referido empreendimento está sendo instalado a cerca de 2,1 km a montante da ‘Boca do Maicá’ e de dezenas de outros importantes locais de pesca dos pescadores artesanais daquela região. Por se tratar de um empreendimento destinado à exportação de petróleo, qualquer acidente que ocorra na instalação portuária poderá impactar os locais de pesca e as comunidades localizadas a jusante”, registra o despacho de instauração da investigação, assinado pela procuradora da República Luisa Astarita Sangoi.
area_vizinha_porto_atems_lago_maica_santarem-pa.jpg
Mapa recebido pelo MPF (clique aqui para ver em tamanho maior)
Ministério Público Federal no Pará

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/06/2019

MPF abre investigação para apurar regularidade do licenciamento ambiental de terminal portuário em Santarém (PA)

, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/06/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/06/10/mpf-abre-investigacao-para-apurar-regularidade-do-licenciamento-ambiental-de-terminal-portuario-em-santarem-pa/.

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Brasil perdeu 89 milhões de hectares de vegetação natural nos últimos 34 anos

Dados de mudanças na cobertura e uso de solo no País constam de série histórica analisada pelo projeto MapBiomas; Apenas a Amazônia perdeu 47 milhões de hectares no período



Entre os anos de 1985 e 2018, o Brasil perdeu 89 milhões de hectares de vegetação natural, uma área equivalente a quase o Estado de Mato Grosso, o terceiro maior do País em extensão.  Esses dados compõem a Coleção 4.0 do projeto MapBiomas e foram apresentados nesta quinta-feira (29/08), em Brasília, durante o 4º Seminário Anual do MapBiomas – Perdas e Ganhos das Mudanças de Cobertura e Uso do Solo no Brasil. A série histórica levantada pela Coleção 4.0 cobre um período de 34 anos com dados anuais de cobertura e uso do solo, desmatamento e regeneração nos biomas brasileiros.

Dos 89 milhões de hectares perdidos nesse período, 82 milhões de hectares referem-se a florestas naturais e outros 7 milhões de hectares são de vegetação natural não florestal. No caso específico da Amazônia, a perda foi de 47 milhões de hectares em 34 anos, mais da metade do total registrado no Brasil. A agropecuária avançou de 174 milhões de hectares para 260 milhões, um aumento de 86 milhões de hectares.


Tabela: Mudanças na Área de Cobertura e Uso do Solo entre 1985 e 2018
Classe Área em Milhões de Hectares Perda / Ganho
1985 2018
Florestal Natural 587 505 – 82
Vegetação Nativa 71 64 – 7
Agropecuária 174 260 86
Áreas Não Vegetadas 5 5 0
Água 14 17 3
Total 851 851 – – –

Em 1985, as florestas naturais e a vegetação nativa representavam 77% de toda a cobertura e uso do solo no País, com mais 20% de ocupação pela agropecuária, 1% de áreas não vegetadas e 2% de água. Os dados de 2018 indicam que existem 66% de florestas naturais e vegetação nativa no território, 31% de áreas destinadas à agropecuária, 1% de áreas não vegetadas e 2% de água.

Segundo o coordenador-geral do MapBiomas, Tasso Azevedo, os dados apresentados pela plataforma de monitoramento ajudam a compreender a evolução da ocupação do território e os impactos sobre os biomas no Brasil, sendo um importante subsidio para orientar os gestores públicos no desenvolvimento e a aplicação de políticas públicas para conservação e uso sustentável dos recursos naturais.

Ele ressalta que o impacto do desmatamento, que se encontra em alta, é preocupante por conta de fatores que se complementam e afetam diretamente o clima no Brasil e do planeta.
“O desmatamento somado as queimadas gera maior emissão de gases de efeito estufa na atmosfera e, ao mesmo tempo, diminui a capacidade de ocorrer o fenômeno conhecido como sequestro de carbono, que é fundamental para reduzir a concentração destes gases na atmosfera sem o qual não será possível limitar o aquecimento global abaixo de 2oC”, diz o pesquisador. “Hoje, mais da metade das emissões brasileiras de gás carbônico provém de desmatamento”, completa.


Os dados apresentados pelo Coleção 4.0 MapBiomas traz mapas anuais de cobertura e uso do solo do Brasil com resolução de 30 metros (cada pixel representa uma área de 30 metros x 30 metros); estatísticas de cobertura e uso do solo e recortes territoriais de biomas, estados, municípios, terras indígenas, unidades de conservação, infraestrutura de transporte e energia e bacias hidrográficas; módulos de mapas e estatísticas de desmatamento/supressão e recuperação de florestas e vegetação nativa em todos os biomas do País; além de infográficos e mapa mural do Brasil e de cada bioma.

A ferramenta é pública e gratuita e pode ser acessada no https://mapbiomas.org/.


Sobre o Seminário Anual do MapBiomas

O Seminário Anual do MapBiomas – Perdas e Ganhos das Mudanças de Cobertura e Uso do Solo no Brasil ainda contará com mesas sobre as novas tecnologias no monitoramento de cobertura e uso do solo e aplicações dos dados do MapBiomas. Na ocasião, também será lançado o edital da 2ª edição do Prêmio MapBiomas.