sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Turismo brasileiro

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/caiu-na-rede-turismo-do-caos/

Plano para conter óleo deveria ter sido acionado 41 dias antes, mostra documento oficial

Plano para conter óleo deveria ter sido acionado 41 dias antes, mostra documento oficial

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Publicado em 25 outubro, 2019 6:40 am
Do Globo:
O Ministério do Meio Ambiente tinha em mãos um manual para implementar o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Águas sob Jurisdição Nacional, o PNC, mas cometeu uma série de violações nos processos listados no documento ao reagir ao derramamento no Nordeste. Se observados, os critérios levariam ao acionamento do plano em 2 de setembro, mas esta medida só ocorreu 41 dias depois, em 11 de outubro.
O Manual do PNC, que foi confeccionado por exigência de um decreto presidencial de 2013, teve sua primeira versão completa em 2018, atrasada, e não chegou a ser publicado oficialmente. Limitada a um círculo restrito da cúpula de MMA, Ibama, Marinha e ANP (Agência Nacional do Petróleo), a obra não foi compartilhada com estados e municípios que atuam na contenção do óleo e não foi distribuída à imprensa.
Analisando o manual, que foi obtido pelo GLOBO, é possível ver ao menos oito violações de procedimento ao comparar a ação do governo com o texto da obra, que tem força legal.
Além de mapear a rede de articulação do governo necessária ao monitoramento da costa para incidentes com óleo, o manual lista os critérios para implementação do PNC, um instrumento para emergência de caráter nacional. Dos 35 critérios listados, há ao menos 18 que se cumpriam ou eram fruto de dúvida no início de outubro, quando o plano ainda não havia sido acionado.
(…)

Nova York terá 9.000 jardins de chuva em suas calçadas

Cuidados ao realizar um mutirão de limpeza em praias atingidas pelo óleo

Cuidados ao realizar um mutirão de limpeza em praias atingidas pelo óleo
21/10/2019


Uso de equipamento de proteção individual, correto armazenamento do material e evitar banho em praias afetadas estão entre os principais cuidados

Mais uma vez o Brasil passa por um grave crime ambiental. Desde o final de agosto, manchas de óleo atingem praias brasileiras, já chegando a mais de 200 pontos em 77 municípios dos nove estados nordestinos, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Destes, oito são abrangidos pelo bioma da Mata Atlântica.
Entre estes locais estão praias paradisíacas, como Praia do Forte (BA) e Pipa (RN), além de Maragogi (AL) e Praia dos Carneiros (PE), localizadas na maior Unidade de Conservação (UC) federal marinha costeira do Brasil, a Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais. Já são, pelo menos, 15 UCs atingidas pela mancha. Além disso, até domingo (20) eram contabilizados 39 animais afetados e 2.814 filhotes de tartarugas marinhas capturadas preventivamente, além de comprometer toda vida costeira e marinha.
A APA Costa dos Corais é uma das Unidades de Conservação beneficiadas pela Fundação SOS Mata Atlântica com apoio da Fundação Toyota do Brasil. “Estamos acompanhando a situação local com nossos parceiros locais e especialistas, apoiando algumas ações de limpeza dos animais oleados. Essa região é marcada pela presença de recifes de corais e manguezais, garantindo uma alta biodiversidade representada por diversos grupos marinhos como algas, corais, peixes, crustáceos, moluscos, mamíferos aquáticos e outros, e ainda inclui a ocorrência de espécies ameaçadas de extinção como o peixe-boi marinho, tartarugas e baleias. Tudo isso está em risco, inclusive a população e as atividades locais“, afirma Camila Keiko Takahashi, bióloga e coordenadora do projeto Toyota APA Costa dos Corais.
Diante deste cenário e da lentidão do governo federal em saber a quantidade, origem, local exato do vazamento e futuras medidas efetivas para conter o avanço da mancha, mutirões de limpeza estão sendo organizados para retirar o petróleo cru que atinge a costa brasileira.“A iniciativa e envolvimento de voluntários em todo o Brasil nas áreas costeiras é muito bem-vinda, mas é importante ter alguns cuidados para não se colocar em risco“, afirma Diego Igawa Martinez, biólogo e coordenador de projetos marinhos da Fundação SOS Mata Atlântica.
Para Ícaro Moreira, professor e pesquisador do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o óleo traz substâncias perigosas e que podem trazer riscos à saúde humana, fazendo com que deva ser evitado o contato com a pele. Ele pode gerar alergias ou até, dependendo da absorção da pele, entrar na corrente sanguínea e trazer danos. Em casos mais severos pode inclusive levar ao câncer.
“Estou vendo em campo muita gente engajada em ajudar a limpar as praias, mas é importante que as pessoas que querem ajudar verifiquem se de fato têm os equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados. Estou vendo algumas pessoas fazendo essas ações descalças e tirando fotos com a mão e pés sujos de petróleo. Isso não pode acontecer. É importante usar traje de limpeza e não de banho“, afirma ele.
 Veja materiais importantes que devem ser usados e recomendações:
-        Uso de máscaras (principalmente no horário do início da tarde, quando é mais quente, pois no contato com sol o óleo libera vapores altamente tóxicos)
-        Luvas de PVC (não usar luvas cirúrgicas)
-        Botas (plástico ou outro material impermeável). Não usar tênis, bota de trilha nem ir descalço
-        Usar calças (não usar traje de banho). Se sujar a roupa, ela deve ser descartada
-        Carro de mão para armazenar o material retirado
-        Pás adequadas (de plástico ou inox)
-        Armazenar o material em tambores, bombonas ou  tonéis e deixar o material fechado, pois trata-se de material inflamável (não usar saco de lixo de plástico, pois o óleo pode rasgar os sacos). A destinação deve ser definida pelo Ibama e cabe ao município cumprir
-        Ao ver um animal afetado pelo óleo, não o devolva para o mar nem tente fazer procedimento, a não ser uma manobra de emergência para retirar o óleo de vias respiratórias. É importante manter o animal na sombra e hidratado. Procure especialistas, órgãos ambientais ou organizações que podem realizar os procedimentos adequados
-        É complicado retirar o óleo de rochas. Evite subir nestes locais que podem ocasionar quedas. Uma forma de limpar é com jato de água quente, pois é necessário muita força para conseguir extrair o material. Quando o material escoar, use material absorvente, como tecidos ou até biofibras, como fibra de coco que se aderem ao óleo
-        Em situações que o óleo esteja mais fluido, é possível usar materiais absorventes, como tecidos e também fibra de coco.
Segundo o especialista em petróleo e meio ambiente, a resposta das autoridades ainda está voltada para se descobrir a causa e os culpados pelo vazamento, o que é algo importante, mas o combate ao derramamento ainda demonstra falta de preparo. O Ibama pediu apoio à Petrobras para atuar na limpeza de praias. A empresa está capacitando e contratando agentes comunitários, pessoas das comunidades locais para serviços de limpeza, mas o número efetivo de mão-de-obra dependerá da quantidade de pessoas treinadas disponíveis nas áreas afetadas.
“O Ibama tem feito a ação importante de monitorar e dar suporte aos municípios, mas de fato tem ocorrido as ações em proatividade dos municípios, principalmente de voluntários. Não parece existir uma resposta organizada no nível federal. É importante ter um acompanhamento e combate ao avanço da mancha. Algumas pessoas têm questionado o uso de barreiras de contenção pelo tipo de petróleo, mas elas ajudam a minimizar os impactos“, destaca ele.
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Foto: Clemente Coelho Jr/Instituto Bioma Brasil

Vulnerável, mar brasileiro é a nova fronteira para tragédias ambientais", alerta cientista

Vulnerável, mar brasileiro é a nova fronteira para tragédias ambientais", alerta cientista



27 Setembro 2019   |   1 Comment
Por Jaime Gesisky

O aparecimento de manchas de óleo –identificado como petróleo cru– ao longo de uma faixa de mais de 1.500 quilômetros do litoral do Nordeste acendeu um triplo alerta: a costa brasileira é vulnerável, a fiscalização marítima é precária e incidentes como este podem colocar em risco o turismo que move a economia dos estados litorâneos. Sem contar os danos à biodiversidade, à pesca e à sobrevivência das comunidades que tiram seu sustento diretamente do mar. O óleo de origem incerta foi detectado em pelo menos 45 praias e 99 pontos nos Estados de Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe.

Ignorando toda essa fragilidade, o governo federal insiste e leiloar grandes áreas para a exploração de petróleo e gás no mar territorial brasileiro. Alguns blocos que serão levados a leilão no próximo dia 10 de outubro na Agência Nacional de Petróleo ficam em áreas de extrema sensibilidade ambiental e não deveriam, sequer, constar do leilão. É o caso dos quatro blocos situados na Bacia Sedimentar de Camamu-Almada, no litoral da Bahia, bem próximos a um dos maiores complexos de corais de todo o oceano Atlântico: os bancos de Royal-Charlotte e Abrolhos.

O que chama a atenção dos estudiosos no episódio da mancha de óleo é que passaram mais de 20 dias até que o fato fosse devidamente identificado pelas autoridades. Mesmo assim, ainda não se sabe a origem da substância, o quanto vazou e o tamanho do impacto que ela pode causar, além dos efeitos já vistos como poluição das praias e morte de aves e tartarugas marinhas. Segundo a bióloga e pesquisadora Leandra Gonçalves, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, falta governança no mar brasileiro.

De acordo com Leandra, que é co-fundadora da Liga das Mulheres pelos Oceanos, o país não tem estrutura de monitoramento ou fiscalização robusta o suficiente para garantir que atividades que envolvam petróleo e gás não causem impactos na biodiversidade marinha. O mar, alerta a pesquisadora, está se tornando uma nova fronteira potencial para novas tragédias ambientais. O país, afirma, não está preparado para explorar petróleo e gás próximo a áreas marinhas sensíveis ou em regiões em que eventuais vazamentos de óleo possam atingir zonas vitais para os ecossistemas marinhos, como recifes de corais, manguezais, áreas de pesca de comunidades costeiras. “Abrolhos se inclui exatamente neste caso”.

Em casos de acidente com derramamento de óleo, Leandra Gonçalves lembra que os impactos podem se estender do litoral norte da Bahia até a costa do Espírito Santo, o que inclui todo o banco dos Abrolhos, o maior do Atlântico Sul. Turismo, pesca e biodiversidade estariam comprometidos de modo irremediável, adverte.

Risco para empresas
No leilão da 16ª Rodada da Agência Nacional do Petróleo, em que os blocos próximos a Abrolhos serão oferecidos, 17 empresas já estão inscritas. Para a bióloga da USP, resta saber quantas delas estarão dispostas a enfrentar os riscos de reputação embutidos no negócio.

Ela lembra que estudos de impacto ambiental produzidos pela inglesa British Petroleum, uma das gigantes da indústria do petróleo mundial, reconhecem a possibilidade de acidentes de derramamento de petróleo na região de Abrolhos atingirem rapidamente áreas em que encontram-se várias espécies ameaçadas, como baleias-jubarte, tartarugas-marinhas, aves e corais que só existem ali. “Elas podem perder muito dinheiro. Mas pior será ruir sua credibilidade junto a acionistas e financiadores”.

Nota de solidariedade ao Greenpeace: Governo prioriza criar polêmicas vazias

Nota de solidariedade ao Greenpeace: Governo prioriza criar polêmicas vazias



24 Outubro 2019   |   0 Comments
Por WWF-Brasil

Diante do maior desastre ambiental na costa brasileira com a contaminação das pessoas, praias, corais e mangues no Nordeste, ao invés do governo federal agir, mais uma vez ele criminaliza as organizações não governamentais da sociedade civil.

O ataque irresponsável do Ministro Ricardo Salles ao Greenpeace acusando a organização de estar por trás do derramamento do óleo é mais um capítulo dessa gestão que, ao invés de cumprir seu papel de governo, prioriza criar polêmicas vazias.

O WWF-Brasil se solidariza com o Greenpeace e todas as pessoas, ONGs e pesquisadores que estão trabalhando arduamente como voluntárias para atuar nesse desastre. Estamos, juntos, coletivamente, trabalhando nas soluções.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Transição do carvão para o gás natural e renováveis no setor elétrico dos EUA está reduzindo drasticamente o uso de água


Transição do carvão para o gás natural e renováveis no setor elétrico dos EUA está reduzindo drasticamente o uso de água


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Termelérica a carvão. (AP Photo/Chris Carlson)

Duke University*
“Embora a maior atenção tenha sido focada nos benefícios climáticos e na qualidade do ar da troca do carvão, este novo estudo mostra que a transição para o gás natural – e mais ainda para fontes de energia renovável – resultou na economia de bilhões de galões de água, ”Disse Avner Vengosh, professor de geoquímica e qualidade da água na Escola de Meio Ambiente Nicholas da Duke.
Essas economias no consumo e na retirada de água ocorreram apesar da intensificação do uso da água associada à produção de fracking e gás de xisto, mostra o novo estudo.

“Para cada megawatt de eletricidade produzida usando gás natural em vez de carvão, a quantidade de água retirada dos rios e águas subterrâneas locais é reduzida em 10.500 galões*, o equivalente a um suprimento de água de 100 dias para uma família americana típica”, disse Andrew Kondash, um pesquisador de pós-doutorado em Duke, que liderou o estudo como parte de sua dissertação de doutorado sob Vengosh.

O consumo de água – a quantidade de água usada por uma usina e nunca voltou ao meio ambiente – cai 260 galões por megawatt, disse ele.

Nessas taxas de redução, se o aumento do gás de xisto como fonte de energia e o declínio do carvão continuar durante a próxima década, até 2030, cerca de 483 bilhões de metros cúbicos de água serão economizados a cada ano, prevê o estudo da Duke.

Se todas as usinas a carvão forem convertidas em gás natural, a economia anual de água atingirá 12.250 bilhões de galões* – 260% do uso anual anual de água industrial dos EUA.
Embora a magnitude do uso da água para mineração e fraturamento de carvão seja semelhante, os sistemas de refrigeração nas usinas de gás natural usam muito menos água em geral do que os das usinas de carvão. Isso pode resultar rapidamente em economias substanciais, já que 40% de todo o uso de água nos Estados Unidos atualmente serve para resfriamento de usinas termelétricas, observou Vengosh.

“A quantidade de água usada para o resfriamento de usinas termelétricas eclipsa todos os outros usos no setor de eletricidade, incluindo mineração de carvão, lavagem de carvão, transporte de minério e gás, perfuração e fraturamento”, disse ele.

Economias ainda maiores poderiam ser obtidas com a mudança para energia solar ou eólica. O novo estudo mostra que a intensidade da água dessas fontes de energia renovável, medida pelo uso da água por quilowatt de eletricidade, é de apenas 1% a 2% da intensidade da água do carvão ou do gás natural.

“Mudar para energia solar ou eólica eliminaria grande parte da captação e consumo de água para geração de eletricidade nos EUA”, disse Vengosh.

O gás natural ultrapassou o carvão como principal combustível fóssil para geração de eletricidade nos Estados Unidos em 2015, principalmente devido ao aumento da exploração não convencional de gás de xisto. Em 2018, 35,1% da eletricidade dos EUA veio de gás natural, enquanto 27,4% vieram de carvão, 6,5% vieram de energia eólica e 2,3% vieram de energia solar, de acordo com a Administração de Informações de Energia dos EUA (EIA).

Dalia Patiño-Echeverri, Professora Associada de Gendell de Sistemas de Energia da Duke’s Nicholas School, foi coautora do estudo com Kondash e Vengosh.

Eles publicaram seu artigo revisado por pares em 14 de outubro na revista de acesso aberto Environmental Research Letters .

* Para um resultado aproximado de galões para litros multiplique o valor de volume por 3,785
** Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
Referência:
Quantification of the Water-Use Reduction Associated with the Transition from Coal to Natural Gas in the U.S. Electricity Sector,” Andrew J. Kondash, Dalia Patiño-Echeverri and Avner Vengosh; Oct. 14, 2019, Environmental Research Letters. DOI: https://doi.org/10.1088/1748-9326/ab4d71

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/10/2019
Transição do carvão para o gás natural e renováveis no setor elétrico dos EUA está reduzindo drasticamente o uso de água, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/10/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/10/22/transicao-do-carvao-para-o-gas-natural-e-renovaveis-no-setor-eletrico-dos-eua-esta-reduzindo-drasticamente-o-uso-de-agua/.

Estudo da ONU Meio Ambiente mostra alta concentração de antibióticos nas águas de rios do mundo


Estudo da ONU Meio Ambiente mostra alta concentração de antibióticos nas águas de rios do mundo


O uso indevido de antibióticos em humanos e animais está acelerando o processo de resistência a esses medicamentos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Antibióticos também parecem estar se espalhando no meio ambiente. Um estudo global recente descobriu que as concentrações de antibióticos em alguns rios do mundo excedem os níveis “seguros” em até 300 vezes.

Os antibióticos são apenas um entre uma variedade de produtos farmacêuticos, produtos de higiene pessoal e outros contaminantes ambientais cada vez mais presentes nas águas residuais e nos lixões do mundo. O relato é da ONU Meio Ambiente.
ONU
Vista do rio Tâmisa, em Londres. Foto: pixabay/ChristofS (CC)
Vista do rio Tâmisa, em Londres. Foto: pixabay/ChristofS (CC)

Descobertas recentes indicam que 20% das gaivotas-prata na Austrália carregam bactérias patogênicas resistentes a antibióticos, o que está aumentando o receio de que bactérias causadoras de doenças possam se espalhar das aves para os seres humanos e animais domésticos. As gaivotas coletam bactérias, como a E. coli, de águas residuais, esgotos e lixões.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a resistência a antibióticos é hoje uma das maiores ameaças à saúde, à segurança alimentar e ao desenvolvimento global. Numerosas infecções, como pneumonia, tuberculose, gonorreia e salmonelose, estão se tornando mais difíceis de tratar, à medida que os antibióticos usados ​​tornam-se menos eficazes. A resistência a antibióticos leva a internações hospitalares mais longas, custos médicos mais altos e aumento da taxa de mortalidade.

A resistência aos antibióticos ocorre quando as bactérias mudam em resposta ao uso de tais medicamentos. Essas bactérias podem infectar humanos e animais, e as infecções que causam são mais difíceis de tratar do que aquelas causadas por bactérias não resistentes.

Embora a resistência a antibióticos ocorra naturalmente, o uso indevido de antibióticos em humanos e animais está acelerando o processo, segundo a OMS.

Antibióticos também parecem estar se espalhando no meio ambiente. Um estudo global recente descobriu que as concentrações de antibióticos em alguns rios do mundo excedem os níveis “seguros” em até 300 vezes.

“Os pesquisadores procuraram 14 antibióticos comumente usados ​​em rios de 72 países, em seis continentes, e encontraram antibióticos em 65% dos locais monitorados”, diz um relatório recente da Universidade de York.

“O metronidazol, usado para tratar infecções bacterianas, incluindo infecções de pele e da boca, excedeu os níveis seguros pela maior margem, com concentrações 300 vezes maiores que o nível ‘seguro’ em uma área em Bangladesh.”

“No rio Tâmisa e um de seus afluentes em Londres, os pesquisadores detectaram uma concentração total máxima de antibióticos de 233 nanogramas por litro (ng/l), enquanto em Bangladesh a concentração foi 170 vezes maior”, diz o estudo global.

Os antibióticos são apenas um dentre uma variedade de produtos farmacêuticos, produtos de higiene pessoal e outros contaminantes ambientais, cada vez mais presentes nas águas residuais e nos lixões, que podem ter efeitos adversos à saúde. Essas substâncias são conhecidas como “poluentes emergentes”.

Poluentes emergentes

“As águas residuais municipais, industriais e, mais recentemente, domésticas são as principais fontes de poluentes emergentes no ambiente aquático”, afirma Birguy Lamizana, especialista em águas residuais do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

Produtos químicos e compostos que apenas recentemente foram identificados como ameaças potenciais ao meio ambiente e ainda não são amplamente regulamentados pela legislação nacional ou internacional são conhecidos como “poluentes emergentes”. Eles são classificados como “emergentes”, não porque os próprios contaminantes sejam novos, mas por causa do crescente nível de preocupação gerada.

“A lista de compostos que são qualificados como poluentes emergentes é longa e cresce cada vez mais”, diz um estudo do PNUMA sobre produtos farmacêuticos e produtos de higiene pessoal no ambiente marinho: uma questão emergente.

“A categoria inclui uma variedade de compostos: antibióticos, analgésicos, anti-inflamatórios, medicamentos psiquiátricos, esteroides e hormônios, contraceptivos, fragrâncias, filtro solar, repelentes de insetos, microesferas, microplásticos, anti-sépticos, pesticidas, herbicidas, surfactantes e metabólitos de surfactantes, retardantes de chama, aditivos e produtos químicos industriais, plastificantes e aditivos para combustíveis, entre outros.”

A deposição atmosférica é uma fonte significativa de poluentes emergentes em águas abertas. No entanto, a maioria desses poluentes não está incluída em acordos internacionais com programas de monitoramento de rotina; portanto, seu impacto no meio ambiente não é bem conhecido.

Desreguladores endócrinos

Um grupo de contaminantes emergentes são os desreguladores endócrinos. Os desreguladores endócrinos são substâncias químicas que inibem ou aumentam artificialmente a função dos mensageiros químicos naturais do corpo.

Peixes e anfíbios próximos a fontes de água poluída mostraram anormalidades reprodutivas e deformidades físicas, e acredita-se que isso seja resultado de contaminantes causadores de desregulação endócrina.

“Mais pesquisas são necessárias para determinar os possíveis efeitos à saúde de desreguladores endócrinos de baixo nível no esgoto e no abastecimento da água doméstica”, diz Lamizana. “No entanto, é razoável supor que em áreas secas ou durante a estação seca os corpos d’água são mais propensos a conterem proporções mais altas desses contaminantes”.

O estudo do PNUMA diz que o princípio da precaução deve orientar as respostas aos poluentes emergentes. “Ao promover pesquisas, programas de monitoramento, reduções de resíduos e química verde, deve se tornar possível prevenir e mitigar os impactos negativos dos produtos farmacêuticos sem comprometer sua disponibilidade, eficácia ou acessibilidade econômica, particularmente em países onde o acesso a importantes serviços de saúde ainda é limitado”.

“Os ecossistemas naturais de água doce são desvalorizados e sobre-explorados. Precisamos mudar as nossas estruturas de incentivo do estímulo à poluição, à degradação do ecossistema e à exploração excessiva dos recursos naturais para comportamentos pró-conservação. As ferramentas adequadas para isso já estão à nossa disposição, mas precisamos garantir que os tomadores de decisões as levem em devida consideração e ajam”, afirma Jacqueline Alvarez.

Uma resolução adotada pela Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente em março de 2019 incitou os governos e todas as outras partes interessadas, incluindo agências, fundos e programas da ONU, “a apoiar plataformas relevantes de interface de políticas científicas, incluindo contribuições da comunidade acadêmica; melhorar a cooperação nas áreas de meio ambiente e saúde; e chegar a maneiras de fortalecer a interface ciência-política, incluindo sua relevância para a implementação de acordos ambientais multilaterais em nível nacional”.

Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/10/2019


Estudo da ONU Meio Ambiente mostra alta concentração de antibióticos nas águas de rios do mundo, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/10/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/10/22/estudo-da-onu-meio-ambiente-mostra-alta-concentracao-de-antibioticos-nas-aguas-de-rios-do-mundo/.

Agricultura orgânica: como fazer um controle biológico de pragas e doenças adequado?


Agricultura orgânica: como fazer um controle biológico de pragas e doenças adequado?


agricultura orgânica
Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

De acordo com a ABCBio, o controle biológico de pragas e doenças requer a adoção de técnicas específicas e tecnologias avançadas que priorizem o uso dos recursos naturais e socioeconômicos disponíveis

Por Jimena Carro e Michele Barcena
A agricultura orgânica no Brasil, regulamentada pela Lei 10.831/2003 e Decreto Nº 6.323/2007, considera como produtos orgânicos todos aqueles obtidos por meio de um sistema orgânico de produção agropecuária ou oriundo de processo extrativista sustentável e não prejudicial ao meio ambiente. Ou seja, para ser de fato orgânica, a agricultura deve ser realizada sem nenhuma utilização de insumos sintéticos, radiação ionizantes e organismos geneticamente modificados.


Com esse objetivo, os produtores orgânicos utilizam estratégias como a rotação de culturas, cultivo mecânico, adubação verde, utilização de estercos animais, compostagem e controle biológico. Os produtos de controle biológico são capazes de reduzir a população de pragas e doenças específicas, mantendo-a em parâmetros ecologicamente aceitáveis de acordo com os princípios do sistema orgânico de produção agropecuária.


De acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio), o controle biológico requer a adoção de técnicas específicas e tecnologias avançadas que priorizem o uso dos recursos naturais e socioeconômicos disponíveis, respeitando a integridade cultural das comunidades rurais. Para isso, é de extrema importância que agricultores se adequem às normas de orgânicos, mas também avaliem estratégias apropriadas às peculiaridades de cada região, entre elas, solo, clima, água e biodiversidade.


Os produtos biológicos de controle, para serem utilizados dentro da agricultura orgânica, precisam ser registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), na ANVISA e no IBAMA, seguindo as especificações de referência para a agricultura orgânica ou certificados por empresas credenciadas. “Esse processo é essencial para garantir a segurança e a qualidade dos produtos orgânicos que chegam à mesa do consumidor final”, observa Amália Borsari, diretora-executiva da ABCBio.


Em função da sua natureza, os produtos biológicos de controle podem ser categorizados como macro-organismos (insetos, ácaros e nematoides), microrganismos (bactérias, fungos, vírus), bioquímicos (extratos de plantas, algas, enzimas e hormônios) e semioquímicos (metabólitos e feromônios). Em geral, são disponibilizados na forma granulada, suspensão concentrada, pó molhável WP, em cartela contendo ovos parasitados, em capsulas contendo microvespas. No caso de macro biológicos são comercializados ovos, pupas, larvas ou insetos vivos.

A certificação de produtos orgânicos

Na mesma linha, a certificação de produtos orgânicos é realizada por certificadoras credenciadas no MAPA e acreditadas pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro). Assim as certificadoras avaliam criteriosamente todo o sistema de produção orgânica de cada agricultor – inclusive o controle biológico aplicado – e registram por escrito se determinado produto obedece às normas e práticas da agricultura orgânica.


Com isso, a certificação dos produtos orgânicos em mercados é indicada pela presença do selo federal SisOrg em seus rótulos, os quais servem para garantir ao consumidor final que os princípios da agricultura orgânica foram cumpridos naqueles alimentos. Mas, caso se trate de produtos vendidos a granel, a informação da certificação deve estar indicada por meio de cartazes, etiquetas ou outro recurso similar.

“A certificação orgânica é um fator importante e decisivo para conquistar maior credibilidade dos consumidores, além de conferir maior transparência aos insumos utilizados na produção de orgânicos”, complementa Amália Borsari.

O crescimento do mercado de orgânicos no Brasil e no mundo

A preocupação da sociedade com a forma de produção dos alimentos tem crescido e, com isso, impulsionado práticas sustentáveis como a agricultura orgânica. Nos últimos oito anos, o número de produtores orgânicos registrados no Brasil triplicou. Segundo levantamento do MAPA, em 2012, eram 5,9 mil produtores registrados e, em março de 2019, esse número chegou a 17,7 mil.


E dados da Federação Internacional de Movimentos da Agricultura Orgânica (IFOAM) disponibilizados em fevereiro de 2019 apontam que existem cerca de 3 milhões de produtores orgânicos distribuídos em 181 países. O levantamento também indica que a agricultura orgânica ocupou, em 2017, uma área de 69.8 milhões de hectares no mundo.


Em relação a área destinada a agricultura orgânica, o Brasil ficou em terceiro lugar na América Latina com 1.1 milhões de hectares, atrás da Argentina (3.3 milhões de hectares) e do Uruguai (1.8 milhões de hectares). E, assim, ocupa o décimo segundo lugar no mundo.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/10/2019


Agricultura orgânica: como fazer um controle biológico de pragas e doenças adequado?, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/10/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/10/23/agricultura-organica-como-fazer-um-controle-biologico-de-pragas-e-doencas-adequado/.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Ciclistas revelam potencial do ecoturismo no Cerrado em aventura de 10 dias

Ciclistas revelam potencial do ecoturismo no Cerrado em aventura de 10 dias

18.10.2019Notícias
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O Cerrado brasileiro, a savana mais biodiversa do mundo, é o cenário de uma viagem que mistura aventura, ecoturismo e desenvolvimento sustentável. Protagonizada por três ciclistas, dois brasileiros e um norte-americano, o TranCerrado: pedalando pela preservação é um projeto que revela o potencial econômico do bioma, principalmente por meio do ecoturismo e da agropecuária sustentável.

A aventura, que teve início no último dia 15 de outubro, é conduzida por Paulo Moutinho, cientista sênior e cofundador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM); Paul Lefebvre, pesquisador associado do Woods Hole Research Center, nos EUA; e Márcio Bittencourt, técnico em Telecomunicações e especialista em navegação marítima.

O Cerrado é hoje o bioma mais ameaçado do Brasil. Presente em 11 estados – Bahia, Goiás, Minas Gerais, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Piauí, Rondônia, São Paulo, Tocantins, além do Distrito Federal –, ocupa 24% de todo o território nacional, ou cerca de 80 milhões de hectares. No bioma vivem cerca de 25 milhões de pessoas, muitas delas indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares.

Conhecido como o “berço das águas” ou a “caixa d’água do Brasil”, o Cerrado abriga oito das 12 regiões hidrográficas brasileiras, abastece seis das oito grandes bacias hidrográficas do Brasil e guarda três dos principais aquíferos do país. Existem cerca de 10 mil espécies de plantas no Cerrado, das quais 44% são exclusivas do bioma.

Apesar de sua importância, o Cerrado tem apenas 8,7% da sua área protegida em unidades de conservação. Além disso, perdeu 29 milhões de hectares de vegetação nativa nos últimos 34 anos. Atualmente, 56% da sua área está coberta por vegetação nativa e 40% são voltados para atividades agropecuárias.

É neste contexto que a aventura TransCerrado está. “Nós queremos dar mais visibilidade ao bioma, mostrar a importância da preservação da savana mais biodiversa do mundo e difundir o ecoturismo como potencial atividade econômica complementar à agricultura praticada na região”, explica Paulo Moutinho, do IPAM. “É possível incorporar boas práticas no campo, como recuperação de pastos e restauração florestal, incluindo a regularização fundiária, para melhorar a produção. Esse pensamento, aliado à valorização da paisagem, são fundamentais para se criar uma nova forma de desenvolvimento para o Cerrado.”

TransCerrado: pedalando pela preservação pode ser acompanhado pela internet em tempo real pela página oficial do projeto: https://ipam.org.br/transcerrado/ ou ainda pelo Instagram (@bike_transcerrado) e Twitter (@transcerrado). Diariamente são postados fotos e vídeos com os principais momentos da aventura. Na página, é possível acompanhar a rota já percorrida pelos ciclistas.

O projeto foi produzido pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), com o apoio da GIZ (Agência Alemã de Cooperação Internacional).

Organizações alertam para fragilização das áreas protegidas brasileiras

Organizações alertam para fragilização das áreas protegidas brasileiras

21.10.2019Notícias
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Durante o III Congresso de Áreas Protegidas da América Latina e Caribe, que aconteceu na semana passada, a Coalizão Pró-UCs – coletivo que reúne dez organizações comprometidas com a valorização e defesa das unidades de conservação (UCs) da natureza –, com o apoio de 15 organizações brasileiras presentes no evento, denunciou a fragilização das áreas protegidas no Brasil.

A partir de análise sobre os primeiros dez meses de gestão federal e com base em dados produzidos por instituições oficias, o manifesto alerta que o governo brasileiro tem demonstrado uma falta de compreensão da relevância e potencial das UCs, terras indígenas e demais áreas protegidas do país. Nesse período não apresentou propostas e avanços significativos nessa agenda, apesar das inúmeras oportunidades e potencialidades existentes. Veja o documento na íntegra.

“Um patrimônio de todos os brasileiros, construído em décadas – com benefícios tão tangíveis como a oferta de energia e água e com papel relevante nas condições de vida na Terra – nunca esteve tão ameaçado como agora“, destaca um ponto do manifesto.

Segundo as organizações, o desmonte ambiental também ameaça o desenvolvimento econômico e social, e o bem-estar dos brasileiros e das futuras gerações em todo o planeta.

Dados que comprovam estas afirmações constam no estudo “Quanto vale o verde?”, que destaca a importância dessas áreas para atividades econômicas relevantes para o desenvolvimento do Brasil. Como exemplo, mais de quatro a cada 10 megawatts de energia gerada em usinas hidrelétricas, que respondem por 65% da eletricidade produzida no país dependem das áreas protegidas, além de, aproximadamente, um a cada quatro litros de água consumidos no Brasil.

A visitação nas UCs continua tendo grande destaque como elemento de dinamização econômica. Cerca de 17 milhões de visitantes foram registrados em 2016, com impacto sobre a economia estimado de até R$ 6 bilhões anuais. De acordo com estudo cada US$ 1 investido nas UCs pode gerar US$ 40 de retorno para a sociedade. Além dos benefícios ambientais, esses dados indicam a enorme contribuição econômica dessas áreas, reforçando a importância de que o Brasil garanta a efetividade das suas áreas protegidas e o cumprimento das políticas públicas associadas.

Entre as decisões e declarações do governo consideradas como ameaças estão a criação de um “grupo de trabalho” para a revisão geral dos limites e categorias das 334 áreas de proteção federais, em todo o país, feita sem justificativa técnica. Desde então, 67 alterações em UCs foram propostas;  o Fundo Amazônia, que não teve nenhum projeto aprovado em 2019, sendo que em 2018, R$ 191 milhões foram revertidos a 11 iniciativas. E, por fim, os valores alocados para as ações ambientais no Plano Plurianual 2020-2023, de apenas R$ 2,2 bilhões. O orçamento da pasta ambiental figura historicamente entre os mais baixos da Esplanada e, em 2019, foi de apenas R$ 2,8 bilhões.

Além da Coalizão Pró-UC assinam o Manifesto: Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), Fundação SOS Mata Atlântica, Fundação Vitoria Amazônica, Instituto Curicaca, Instituto de Manejo e Certificação Florestal (Imaflora), Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), Instituto Mapinguari, Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Movimento Conservatio – Cultura de Áreas Protegidas, Rede Pró-UC, Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, The Nature Conservancy (TNC-Brasil)  e WWF-Brasil.


Sobre a Coalizão Pró-UC
A Coalizão Pró Unidades de Conservação da Natureza (Pró-UC) é uma rede de instituições da sociedade civil, que tem como objetivo promover, junto à sociedade, o que consideramos as melhores e mais eficientes formas de proteger e conservar o patrimônio natural brasileiro, para essa e as futuras gerações. Para tanto, promove a articulação entre os setores, o debate junto à sociedade e desenvolve estratégias para o fortalecimento das Unidades de Conservação (UCs) em todo o território nacional.


Integram a Coalizão, Conservação Internacional (CI-Brasil), Fundação Grupo Boticário para a Conservação da Natureza, Fundação SOS Mata Atlântica, Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (IMAFLORA), Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE), Instituto Semeia, Rede Nacional Pró Unidades de Conservação, The Nature Conservancy (TNC), União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN-Brasil) e WWF-Brasil.

Serviços ambientais da fauna na Amazônia

[EcoDebate] Claudio Ângelo afirma que a Fauna da Amazônia presta serviço ambiental de US$ 5 trilhões ao Brasil
Assim um serviço cujo valor é estimado em pelo menos US$ 5 trilhões, quase três vezes o PIB do Brasil, vai sendo literalmente abatido a tiros no norte do país. Trata-se do valor do carbono mantido na Amazônia por grandes animais, como o macaco-aranha e a anta, mortos por caçadores.
A estimativa foi publicada por um grupo de cientistas do Brasil, Estados Unidos e Reino Unido, liderados por um amazônida, o paraense Carlos Peres, professor da Universidade de East Anglia, na Inglaterra.
Estes animais de grande porte, afirma o grupo, guardam a chave para a fixação de parte expressiva do carbono da Floresta Amazônica, que, por sua vez, estoca sozinha metade do carbono das florestas tropicais do planeta. São os responsáveis por dispersar as sementes das árvores de madeira de lei, que têm o maior teor de carbono.
A caça de antas, macacos-aranha e macacos-barrigudos, cuja carne é apreciada nas zonas rurais da Amazônia, pode levar a perdas de 2,5% a 5,8% da biomassa da floresta, em média, chegando a quase 38% em alguns locais onde esses bichos foram extintos pelos caçadores.
Extrapolando esse valor para toda a área da Amazônia, e considerando um valor da tonelada de carbono de modestos US$ 5 no mercado internacional de emissões, Peres e colegas estimaram que estes animais prestam um serviço estimado entre US$ 5 trilhões a US$ 13 trilhões inteiramente de graça, apenas comendo frutos dessas árvores e defecando suas sementes.
Ao fazer isso, ajudam novas árvores de madeira densa a se espalhar pela floresta, retirando carbono do ar por fotossíntese e estocando-o em caule e galhos à medida que crescem.
A conta foi publicada nesta segunda-feira (25/11) no periódico da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Antes que o Ministério da Fazenda resolva bolar um esquema para se apropriar desse valor para tampar o buraco fiscal brasileiro, os autores se apressam em dizer que trata-se de uma estimativa apenas para referência, já que nem todo o carbono da Amazônia é “monetizável”, ou passível de ser transacionado em mercados como crédito. Mesmo assim, afirma Peres, há um valor bem concreto em manter os animais vivos.
“O serviço de dispersão prestado por estes vertebrados florestais vale dinheiro”, disse ao Observatório do Clima.
“Poderia até se pensar num programa de pagamentos por serviços ambientais para subsidiar comunidades locais a manejar melhor seus estoques de caça num regime de manejo comunitário”, afirmou.
O que é urgente, porque ao irem para a grelha, para zoológicos particulares ou mesmo ao serem mortos por esporte, os grandes vertebrados da Amazônia causam perdas de valor e ainda ajudam a aquecer ainda mais o planeta.
Como os caçadores são, em geral, populações pobres ou índios em busca da proteína de cada dia, mas usando armas cada vez mais modernas e vivendo em aldeias cada vez mais sedentárias, o que agrava seu impacto sobre as zonas de caça, vale a pena pagar para que eles racionalizem essa caça.
Este procedimento é estimulado pelo “REDD” (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal).
No estudo, Peres e colegas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e da Universidade do Estado do Oregon, nos Estados Unidos, usaram computadores e dados de campo de 166 áreas de floresta com e sem pressão de caça para modelar o impacto que a caça na Amazônia brasileira poderia ter.
Depois, modelaram o impacto que a caça praticada por 1 milhão de residências rurais na Amazônia poderia ter, usando como base de dados 2.300 áreas de floresta previamente inventariadas onde a população de árvores era conhecida.
A conclusão dos pesquisadores foi que os grandes primatas comedores de frutas têm suas populações afetadas pela caça em 32% das áreas remanescentes de floresta na Amazônia, e podem sumir completamente de 7,5% da região.
Peres e seus colegas usaram no estudo uma abordagem relativamente nova. A discussão do mutualismo, a interdependência entre plantas e animais na agenda climática. O reconhecimento do papel da fauna na manutenção do carbono florestal foi totalmente ignorado na construção do chamado “REDD+”, o mecanismo de redução de emissões por desmatamento proposto no âmbito da Convenção do Clima e reconhecido no Acordo de Paris. O “REDD+”, por assim dizer, enxerga as árvores, mas não a floresta.
Estudos sobre a importância da fauna para a fixação de carbono e sobre o impacto da caça nas emissões vêm sendo feitos na África e na Ásia, mas até agora nenhum havia sido realizado para a Amazônia, que é justamente o lugar onde o “REDD+” está mais adiantado devido ao monitoramento regular que o Brasil faz do desmatamento.
Na Mata Atlântica, a primeira avaliação da chamada “defaunação” sobre o carbono foi publicado num estudo liderado por Mauro Galetti e Carolina Bello, da UNESP de Rio Claro, que tem Carlos Peres como co-autor. A conclusão é que extinções locais de grandes vertebrados causam perdas de até 3 toneladas de carbono por hectare, ao deixar a floresta mais “rala”.
“O nosso modelo é bem mais conservador, tendendo a uma sub-estimativa de perda de biomassa florestal e carbono”, disse Peres. “Ele leva em consideração somente um grupo morfológico muito mais restrito de plantas que dependem quase exclusivamente de dispersão de sementes por algumas espécies de frugívoros de grande porte que são altamente sensíveis a pressão de caça.”

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Aposentado do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.
Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

Referência:

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/10/2019
Serviços ambientais da fauna na Amazônia, artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/10/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/10/22/servicos-ambientais-da-fauna-na-amazonia-artigo-de-roberto-naime/.