segunda-feira, 16 de março de 2020

“Faça-nos um favor, presidente. Comece a tratar a ciência com respeito”, diz cientista a Trump, sobre ações contra coronavírus e crise climática

“Faça-nos um favor, presidente. Comece a tratar a ciência com respeito”, diz cientista a Trump, sobre ações contra coronavírus e crise climática

"Faça-nos um favor, presidente. Comece a tratar a ciência com respeito", diz cientista a Trump, sobre ações contra coronavirus e crise climática, destaca texto
Em meio a atual crise global, provocada pela pandemia do novo coronavírus, COVID-19, que já matou mais de 6 mil pessoas e deixou em quarentena países inteiros, o presidente dos Estados Unidos vem sendo duramente criticado pela resposta ineficaz de seu governo para combater a disseminação da doença. E na última sexta-feira (13/03), um editorial da renomada revista Science, deu uma mensagem dura a Donald Trump.

Intitulado “Faça-nos um favor”, o texto lembra que, nos últimos quatro anos, o presidente americano negou todas as evidência científicas sobre as mudanças climáticas e cortou o orçamento para pesquisas no país, inclusive, na área de saúde.

Mas diante do coronavirus, que prolifera nos Estados Unidos – já são mais de 3.500 casos no país -, Trump disse a executivos da indústria farmacêutica, em uma reunião recentemente, que eles precisam se apressar para desenvolver logo uma vacina contra o coronavirus.

Perante a fala do presidente, Holden Thorp publicou o seguinte texto na Science, que traduzimos para o português abaixo:

“Façam-me um favor, acelerem, acelerem”. Foi o que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse… aos executivos farmacêuticos sobre o progresso em direção a uma vacina para a síndrome respiratória aguda grave – coronavírus 2 (SARS-CoV-2), o vírus que causa o coronavírus. doença 2019 (COVID-19). 

Anthony Fauci, líder de longa data do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, tem dito repetidamente ao presidente que o desenvolvimento da vacina levará pelo menos um ano e meio – a mesma mensagem transmitida pelos executivos farmacêuticos. Aparentemente, Trump pensou que simplesmente repetir seu pedido mudaria o resultado.

A China, com razão, foi criticada pelas tentativas esmagadoras de barrar que cientistas relatassem informações durante o surto. Agora, o governo dos Estados Unidos está fazendo algo semelhante. Dizer a Fauci e outros cientistas do governo que eles devem liberar primeiramente todos os comentários públicos com o vice-presidente Mike Pence é inaceitável. 

Não é hora de alguém que nega evolução, mudança climática e os perigos de fumar elaborar a mensagem pública. Graças a Deus Fauci, Francis Collins [diretor do Instituto Nacional de Saúde dos EUA (NIH)] e seus colegas de agências federais estão dispostos a seguir em frente e estão gradualmente divulgando a mensagem.

Enquanto os cientistas tentam compartilhar fatos sobre a epidemia, o governo os bloqueia ou os reafirma com contradições. As taxas de transmissão e de mortalidade não são medidas que podem ser alteradas com vontade e uma apresentação extrovertida. O governo disse repetidamente – como fez na semana passada – que o vírus espalhado nos Estados Unidos está contido, quando fica claro a partir de evidências genômicas que o espalhamento comunitário está ocorrendo no estado de Washington e além. 

Esse tipo de distorção e negação é perigoso e quase certamente contribuiu para a resposta lenta do governo federal. Depois de três anos debatendo se as palavras desta administração são importantes, as palavras agora são claramente uma questão de vida ou morte.

E, embora as etapas necessárias para produzir uma vacina possam ser mais eficientes, muitas delas dependem de processos biológicos e químicos essenciais…

Não espero que os políticos conheçam as equações de Maxwell para eletromagnetismo ou a reação química de Diels-Alder (embora eu possa sonhar). Mas você não pode insultar a ciência quando não gosta e, de repente, insistir em algo que a ciência não pode dar sob demanda. Nos últimos quatro anos, o orçamento do presidente Trump fez cortes profundos na ciência, incluindo no financiamento dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças e do NIH. 

Com o desprezo desse governo pelas ciências da Agência de Proteção Ambiental e da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, e a nomeação estagnada de um diretor do Escritório de Política Científica e Tecnológica – tudo para apoiar objetivos políticos -, o país teve quase quatro anos de danos. E ignorando a ciência.

Agora, o presidente de repente precisa de ciência. Mas os séculos passados ​​elucidando princípios fundamentais que governam o mundo natural – evolução, gravidade, mecânica quântica – envolveram a criação de bases para saber o que podemos e o que não podemos fazer. As maneiras pelas quais os cientistas acumulam e analisam evidências, aplicam o raciocínio indutivo e sujeitam as descobertas ao escrutínio por pares foram comprovadas ao longo dos anos para dar origem a um conhecimento robusto. 

Esses processos estão sendo aplicados à crise do COVID-19 por meio de colaboração internacional em uma velocidade vertiginosa e sem precedentes; a Science publicou dois novos artigos no início deste mês sobre o SARS-CoV-2, e mais estão a caminho. 

Mas os mesmos conceitos usados ​​para descrever a natureza são usados ​​para criar novas ferramentas. Portanto, pedir uma vacina e distorcer a ciência ao mesmo tempo são surpreendentemente dissonantes.

Uma vacina precisa ter uma base científica fundamental. Tem que ser fabricável. Tem que ser segura. Isso pode levar um ano e meio – ou muito mais. Os executivos farmacêuticos têm todo estímulo para chegar lá rapidamente – afinal, eles estarão vendendo a vacina – mas, felizmente, eles também sabem que você não pode violar as leis da natureza para chegar lá.

Talvez devessemos ser felizes. Há três anos, o presidente declarou seu ceticismo em relação às vacinas e tentou lançar uma força-tarefa antivacina. Agora ele de repente adora vacinas.
Mas faça-nos um favor, Sr. Presidente. Se você quer algo, comece a tratar a ciência e seus princípios com respeito”.

Comentando o artigo da Science, o físico Paulo Artaxo, professor da USP e um dos cientistas mais respeitados do Brasil, escreveu em sua página no Facebook:

“Ciência não se faz do dia para a noite. É fruto de décadas de investimento continuado…
E aqui (no Brasil)? Corta-se recursos da FIOCRUZ, Adolfo Lutz, universidades e institutos de pesquisa, que em alguns dias sequenciaram o genoma do COVID-19, caminho importante para desenvolver uma vacina. Destrói-se uma infraestrutura de pesquisa conscientemente, até descobrir que é essencial em qualquer sociedade moderna.
Esse editorial é uma resposta de qualquer pesquisador brasileiro ao nosso governo e a todos os brasileiros que aprovam (sem conhecer as possíveis consequências) o estado mínimo.
Vale muito a leitura o texto da Science…”

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Imagem: ilustração pixabay/domínio público

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

“A natureza não negocia e a física não faz acordos”, diz Greta Thunberg ao Parlamento Europeu

“A natureza não negocia e a física não faz acordos”, diz Greta Thunberg ao Parlamento Europeu

Greta Thunberg
Quem achou que depois de voltar para casa, na Suécia, a ativista pelo clima Greta Thunberg, de 17 anos, iria descansar, se enganou! Na semana passada, a jovem participou de protestos, junto com estudantes, em Bristol, na Inglaterra, e na quarta-feira (04/03), esteve em Bruxelas, na Bélgica, discursando diante dos integrantes do Parlamento Europeu.

Ontem, a Comissão Europeia divulgou um documento com suas metas para enfrentar a crise climática, a chamada “European Union Climate Law“. No texto, os países do bloco se comprometem a alcançar certos objetivos, como por exemplo, zerar as emissões na atmosfera de gases de efeito estufa, causadores do aquecimento global, até 2050.

Em uma carta ao parlamento, Greta e outros 34 jovens ativistas criticaram as metas anunciadas, conforme escreveram abaixo:

“Qualquer lei ou política climática que não se baseie na melhor ciência disponível atualmente e não inclua o aspecto global da equidade ou justiça climática – princípios no cerne do Acordo de Paris – fará mais mal do que bem.

Essa lei envia um forte sinal de que ações reais e suficientes estão sendo tomadas quando, na verdade, não são.

Também sugere que vocês, nossos líderes eleitos, compreendam completamente a situação em que estamos e que possamos “consertar a crise climática” no sistema de hoje sem fazer nenhum sacrifício.

O fato é que nem a consciência nem a política necessárias estão à vista. Estamos em uma crise que nunca foi tratada como uma crise…

Até vocês levarem isso a sério, permaneceremos nas ruas, continuaremos falando na ciência. Enquanto vocês não levassem isso a sério, pediremos que voltem para casa, estudem os fatos e retornem quando tiverem feito sua lição de casa…”

Mas foi mesmo, ao vivo, no plenário do parlamento, que Greta deu seu recado.

A estudante começou o discurso falando que pelo último um ano e meio, elas e outros ativistas sacrificam a educação deles por causa da inação de seus governos. Lembrou que, em setembro de 2019, mais de 7 milhões de pessoas foram para as ruas do mundo inteiro, exigindo que os líderes globais se unissem em favor da ciência para que garantir um futuro seguro para as próximas gerações.

E ressaltou que em novembro do ano passado, o Parlamento Europeu declarou uma “emergência climática” e afirmou que o bloco iria liderar ações contra essa ameaça existencial ao planeta.
“Quando seus filhos soaram o alarme e disseram que havia cheiro de fogo, vocês conferiram e concordaram que a casa estava realmente pegando fogo. Não era um alarme falso. Mas depois, vocês entraram novamente em casa, terminaram o jantar, assistiram a um filme e foram para a cama sem sequer ligar para os bombeiros”,

Greta criticou os políticos europeus, dizendo que quando sua casa está “queimando”, uma metáfora em relação ao planeta, você não espera mais alguns anos para tomar uma atitude.

E foi além. “Quando vocês apresentam uma lei climática que estabelece zerar as emissões apenas em 2050, vocês indiretamente estão enviando uma mensagem de rendição, desistência. Vocês estão desistindo do Acordo de Paris, de suas promessas e desistindo de fazer tudo o que podem para garantir um futuro seguro para os seus próprios filhos”.

Mais uma vez, a ativista enfatizou que a atual crise climática não é tratada como uma crise e que leis são criadas para se fazer de conta que são seguidas. Que o corte nas emissões precisa ser feito já!
“Esta é a verdade desconfortável da qual vocês não podem escapar, não importa o quanto queiram e o quanto tentem. E quanto mais vocês continuam fugindo dessa verdade, maior será sua traição em relação às gerações futuras”, acusou.

Segundo Greta, a União Europeia tem o dever moral de liderar o combate à emergência climática.
“Não ficaremos satisfeitos com nada menos que um caminho baseado na ciência que nos dê a melhor chance possível de salvaguardar as futuras condições de vida da humanidade e da vida na Terra como a conhecemos. Qualquer outra coisa é rendição… Porque a natureza não irá barganhar e vocês não pode fazer “acordos” com a física”, finalizou.

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Foto: divulgação Parlamento Europeu
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Bolsonaro premia crime ambiental na Amazônia ao desautorizar ação do Ibama contra extração ilegal de madeira

Bolsonaro premia crime ambiental na Amazônia ao desautorizar ação do Ibama contra extração ilegal de madeira

No último final de semana (13 e 14/4), começou a circular nas redes sociais um vídeo do presidente Jair Bolsonaro criticando e desautorizando a ação realizada pelo Ibama, órgão do Ministério do Meio Ambiente, contra a extração ilegal de madeira dentro da Floresta Nacional (Flona) do Jamari, em Rondônia.

Vale lembrar que a Flona do Jamari é uma Unidade de Conservação e, portanto, a extração de madeira na área é uma atividade criminosa. “Desautorizar uma ação do Ibama que tem como objetivo combater a ilegalidade é fortalecer o crime ambiental organizado que destrói a floresta e ceifa vidas”, afirma Rômulo Batista, da campanha Amazônia do Greenpeace.

Conforme publicado pelo jornal Folha de São Paulo, desde a semana passada servidores do Ibama queimaram tratores e caminhões utilizados na atividade criminosa dentro da Flona do Jamari. A destruição de equipamentos apreendidos em fiscalização ambiental é permitida por lei e, de acordo com informações do Ibama, só é praticada em cerca de 2% dos casos, especialmente naqueles em que o material está em uma área protegida de difícil acesso ou que a sua retirada implica em risco para os agentes ou para o meio ambiente.

No vídeo, Bolsonaro, ao lado do senador Marcos Rogério (DEM-RO), afirma: “Ele [ministro Ricardo Salles] já mandou abrir um processo administrativo para apurar o responsável disso aí. Não é pra queimar nada, maquinário, trator, seja o que for, não é esse procedimento, não é essa a nossa orientação”. Após a declaração do presidente, Salles anunciou que vai criar uma instrução normativa com novas regras para a destruição de máquinas e veículos pesados em operações de fiscalização ambiental.

“É dever do Estado proteger a Amazônia e todos os seus povos. Unidades de conservação e Terras Indígenas são da União, ou seja, de todos os brasileiros. Em vez de se preocupar em preservar o patrimônio de quem comete crime ambiental, o novo governo deveria estar trabalhando para fortalecer medidas de combate ao desmatamento, à grilagem e à violência no campo – ou seja, ações como a que o Ibama estava realizando em Rondônia”, avalia Rômulo.

A mais nova ofensiva do governo Bolsonaro ao trabalho desenvolvido pelo Ibama para combater o crime veio a público logo após ele anunciar, na semana passada, novos decretos que, entre outras medidas, afrouxam multas ambientais e reduzem a participação da sociedade civil em políticas públicas importantes para o país e no controle do governo. É o caso, por exemplo, da criação de um Núcleo de Conciliação Ambiental, que terá o poder de postergar indefinidamente ou, até mesmo, anular as multas aplicadas pelo Ibama.

Em pouco mais de 100 dias no poder, o presidente empenha-se em uma agenda anti-ambiental que acarretará ainda mais desmatamento, mais violência no campo e poderá afetar também a economia do país.
*Este texto foi publicado originalmente no site do Greenpeace Brasil, em 15/4/2019
Foto: Marizilda Cruppe, Greenpeace

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Madeireiros agradecem publicamente Ibama por reduzir documentação necessária para exportação de seus produtos

Madeireiros agradecem publicamente Ibama por reduzir documentação necessária para exportação de seus produtos

Madeireiros agradecem publicamente Ibama por reduzir documentação necessária para exportação de seus produtos
Em um decisão  publicada no último dia 25 de fevereiro, Eduardo Fortunato Bim, presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis, Ibama, atendeu aos pedidos da indústria madeireira e diminuiu a “burocracia” necessária para a exportação de madeira nativa no Brasil, como ipê, itaúba e maçaranduba.

Com a nova medida, basta agora que os produtos florestais sejam acompanhados do Documento de Origem Florestal (DOF), por meio do Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais (Sinaflor). Até então, era preciso também a apresentação de uma autorização específica para a exportação, que incluía, por exemplo, inspeções por amostragem e outros controles para a comercialização externa que o DOF não exige.

Na prática, o Documento de Origem Florestal serve apenas para liberar o transporte da madeira até o porto, onde é transportada para o exterior. A segunda autorização, que não se faz mais necessária, é que realmente compreendia as exigências mais importantes para assegurar que a madeira que está saindo do Brasil foi produzida de maneira legal.

Para agradecer o “favor”, o Centro das Indústrias do Pará (CIP) divulgou uma “Nota de Agradecimento e Esperança”, em que reconhece publicamente, a boa vontade de Eduardo Bim com o setor.
Segundo o texto, com o despacho, o presidente do Ibama “colocou em ordem as exportações de madeira legal e autorizada do Brasil”. Mas a carta não se resume ao agradecimento, seu conteúdo é recheado de críticas à atuação pregressa do órgão.
“Somos conscientes do mal causado por este instituto ao setor produtivo do estado do Pará e da Amazônia, quando confundiu os legais com os ilegais, quando incendiou equipamentos…”
Madeireiros agradecem publicamente Ibama por reduzir documentação necessária para exportação de seus produtos

Ibama, na contra-mão da preservação

Já são várias as medidas polêmicas anunciadas pela nova administração do Ibama. Em dezembro, o presidente do órgão liberou o desmatamento em uma área de Mata Atlântica, contrariando parecer técnico de seus funcionários, para beneficiar uma hidrelétrica. Na verdade, Eduardo Bim teria ignorado não um, mas dois pareceres de técnicos que alertavam que a região possuia elevado potencial ambiental e cultural e necessitava “proteção compatível à sua complexidade”.

Poucos meses antes, em agosto de 2019, funcionários do instituto divulgaram uma carta manifesto em que alertavam sobre o “colapso da gestão ambiental” no país. Servidores relataram corte no orçamento e redução de 45% no número de fiscais. O último concurso público teria sido realizado há dez anos.

Mas, atualmente, nem isso mais os profissionais do Ibama podem fazer porque a “lei da mordaça” está em vigor. Ela já havia sido anunciada há um ano, quando o ministério do Meio Ambiente proibiu a comunicação direta entre imprensa e Ibama e ICMBio. Todavia, mais recentemente, um portaria assinada por Bim reforçou a censura. Ela determina que “os servidores em cargos de chefia deverão reportar à assessoria de imprensa qualquer tentativa de contato por parte de repórteres ou veículos de comunicação, além de serem obrigados a comunicar qualquer fato que possua potencial para prejudicar a imagem do Ibama”.

Violência, intimidação e desmate ilegal

Mais de 300 pessoas foram mortas durante conflitos envolvendo uso da terra e exploração mineral e madeireira na Amazônia na última década. Não é por menos, que em 2018, o Brasil teve o maior número de mortes já registrado de ambientalistas, ativistas e indígenas e em 2019, estava entre os cinco países que lideravam o mesmo ranking de violência, elaborado anualmente pela organização Global Witness.

Um relatório divulgado em setembro do ano passado, por outra entidade internacional, a Human Rights Watch, apontou que o crescimento do desmatamento na Floresta Amazônica está sendo impulsionado por essa violência e impunidade.

O levantamento mostrou casos sistemáticos de defensores da floresta (pequenos agricultores e indígenas) e representantes de órgãos do governo de proteção ambiental, como fiscais e policiais, que há anos vem sendo intimidados por máfias de criminosos, interessados na comercialização ilegal de madeira e no desmatamento, para dar lugar à expansão agropecuária.
*Com informações do jornal Estadão 

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Foto: Ibama/Fotos Públicas

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Yacouba Sawadogo, o agricultor que deteve um deserto

Yacouba Sawadogo recebeu o Right Livelihood Award, conhecido como o “Nobel alternativo”, depois de deter o avanço de um deserto com o plantio de árvores. O prêmio é concedido por uma entidade independente e apartidária que apoia projetos e iniciativas que solucionam problemas mundiais. Graças à determinação do agricultor, terras áridas se transformaram em solo fértil.
Imagem: Reprodução YouTube
Yacouba nasceu em Bruquina, um país africano com pouco mais de 16 milhões de habitantes que fica entre o deserto do Saara e o Golfo da Guiné. Com seu trabalho, árvores ocuparam 40 hectares de regiões antes consideradas áridas e improdutivas que estavam abandonadas entre Burquina e o Rio Níger.
Nos anos 80 uma grande seca fez com que a população abandonasse as áreas rurais e fosse tentar a vida nas cidades. Yacouba continuou no campo e resgatou técnicas seculares de seu povo para literalmente plantar no deserto.
Imagem: Reprodução YouTube

Conhecimento secular

Conhecida como zai a primeira técnica usada por Yacouba consiste em cavar buracos com distância regular entre eles e depois preencher estes buracos com fertilizantes naturais. As cavidades retêm a água dos breves períodos de chuva e os fertilizantes, além de recuperarem o solo, atraem formigas, que cavam túneis e contribuem para a melhor distribuição da valiosa água.
Outro recurso usado por ele foi a construção de pequenas barreiras de pedra, nas áreas plantadas. Com a altura de um punho, esta barreira impede o escoamento rápido de água e retém o orvalho noturno, umedecendo a terra.
Imagem: Reprodução YouTube
São duas técnicas simples, que não dependem de muitos recursos. Mas, precisam de alguém que tenha a força de vontade de trabalhar sistematicamente. Foi o que fez Yacouba. Hoje a região abriga cerca de 60 espécies de árvores, plantações de sorgo, milho e produção de frutas e mel.
As árvores ao lado das plantações garantem sombra para o gado, uma temperatura mais amena para as culturas agrícolas e abrem a possibilidade do trabalho de apicultores na região.

Superação e cooperação

“Me sinto muito honrado em receber este prêmio. Ele vai me ajudar a seguir meu trabalho”, comemorou Sawadogo. “Espero que este reconhecimento inspire outros agricultores a plantar e a defender a biodiversidade”.

Yacouba lembra que, no início, a comunidade agrícola foi resistente ao plantio de bosques e algumas árvores chegaram a ser queimadas. Mas ele não desistiu e conforme o resultado ia aparecendo, as pessoas se juntaram ao agricultor que passou a organizar cursos para ensinar aos agricultores locais como recuperar suas terras.
Imagem: Reprodução YouTube
“Yacouba Sawadogo prometeu que iria deter o deserto e cumpriu sua promessa. Se as comunidades locais e os especialistas internacionais estiverem dispostos, é possível aprender o que ele tem para ensinar  e regenerar grandes áreas degradadas. Com isso podemos reduzir a imigração forçada e chegar mais perto da paz”, conclui Ole von Uexkull, diretor executivo da The Right Livelihood Foundation, instituição sueca responsável por premiar iniciativas como as de Yacouba.

Veja o vídeo produzido pela The Right Livelihood Foundation sobre o agricultor (legendas em inglês):
Natasha Olsen
 
Apaixonada pelo mar e pelo mato (apesar da relação difícil com insetos). Jornalista, com especialização em Comunicação Corporativa, descobriu na Sustentabilidade seu propósito. Estuda Gestão Ambiental e procura descobrir diariamente como nossas escolhas podem construir um mundo melhor para todos.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Valor Econômico – A mudança do clima e o aeroporto londrino

Governo Bolsonaro considera que problema ambiental do Brasil é comunicação
Daniela Chiaretti é repórter especial.

Na quinta-feira o Tribunal de Apelação do Reino Unido, uma das cortes mais altas do país, decidiu vetar a expansão do aeroporto de Heathrow, dos mais movimentados do mundo. O caso vai e volta há anos no debate britânico sobre infraestrutura. Trata-se de um investimento de US$ 18 bilhões para a construção da terceira pista do aeroporto -que já opera mais de 1.300 voos por dia-, o que vai ampliar a capacidade em 50%. Organizações socioambientalistas conseguiram paralisar a iniciativa várias vezes alegando aumento da poluição do ar e sonora para a população local. Desta vez, entretanto, o argumento foi inédito: foi a emergência climática que barrou os planos de ampliar o famoso hub londrino.

A conta econômica da iniciativa soa gloriosa: o investimento significaria 260 mil voos adicionais ao ano para o aeroporto e US$ 99 bilhões de impulso à economia britânica ao longo de 60 anos, nos cálculos do Ministério dos Transportes. Tudo lindo nas planilhas Excel e tudo péssimo considerando-se que o Parlamento decretou emergência climática no Reino Unido em maio, que o país se comprometeu com a meta do Acordo de Paris de manter o aquecimento da temperatura bem abaixo de 2°C neste século e que as emissões aéreas de gases-estufa estão em forte alta.

Governo acha que problema ambiental do país é comunicação

A decisão abre um precedente que pode inspirar outros casos no mundo. O que torna a decisão da corte britânica tão especial é que no minucioso planejamento da expansão do aeroporto não se levou em conta o compromisso climático do país. Em 2020 é inaceitável que uma coisa não esteja ligada à outra, alegam ativistas de ONGs que bloquearam o plano como Friends of the Earth e Greenpeace e os de uma organização especializada em litígios climáticos, a Plan B. “A expansão de Heathrow não é consistente com o compromisso do governo assumido no Acordo de Paris. O governo revelou nem sequer ter considerado mudança do clima no planejamento”, disse ao Valor Tim Crosland, diretor da Plan B.

“Ganhamos!” tuitou o prefeito de Londres, Sadiq Khan. “Grande notícia!”, celebrou o ministro do Meio Ambiente, Zac Goldsmith, fazendo o que se espera de um ministro desta pasta se planos do governo podem causar danos ambientais. Os executivos de Heathrow prometeram apelar, mas a administração de Boris Johnson disse que não. “Difícil prever o que irá acontecer”, diz Crosland. O primeiro-ministro britânico tem comportamento errático, foi contrário à expansão do aeroporto no passado e tem à frente a condução da mais crucial conferência do clima da ONU dos últimos tempos, a CoP 26, em Glasgow, em novembro. É ingênuo imaginá-lo como um grande líder climático, mas nada está claro. Por outro lado, a ampliação de Heathrow combina com a visão conservadora de se promover a “Global Britain”, o slogan que rebate a ideia de isolamento que o país pode ter com o Brexit.

É preciso aguardar os próximos rounds do capítulo climático inaugurado pela resistência à expansão do aeroporto inglês, mas é inegável que o entendimento do que a mudança do clima provoca na vida contemporânea extravasou das bolhas ambientalistas.

Leia-se este parágrafo: “Nos Estados Unidos, será que as cidades serão capazes de suprir as necessidades de infraestrutura à medida que o risco climático muda o mercado de títulos municipais? O que acontecerá com as hipotecas de 30 anos - pilar fundamental das finanças - se credores não puderem estimar o impacto do risco climático para um horizonte tão longo. O que acontecerá com áreas afetadas por enchentes ou incêndios se não houver um mercado de seguros viável para esses eventos? O que acontece com a inflação e, por sua vez, com as taxas de juros, se o valor dos alimentos aumenta devido à seca ou às inundações? Como podemos modelar o crescimento econômico se os mercados emergentes veem sua produtividade cair como resultado das temperaturas extremamente altas e outros impactos climáticos?”. É um trecho da carta a lideranças empresariais divulgada por Larry Fink, CEO da BlackRock, a maior gestora global de ativos. Ele dá uma aula sobre os impactos da mudança do clima na economia. Diz que se está “à beira de uma mudança estrutural nas finanças”. O agente transformador, defende, é a sustentabilidade.

Mais que comunicação

A questão não é mais lateral na tomada de decisão, empreendimentos têm que ter lastro ambiental adequado. No Brasil, contudo, o governo de Jair Bolsonaro acredita que seu grande problema na área ambiental é de comunicação. Não é. Não se trata de como vender a pílula, mas do que ela contém. É questão de conteúdo, de ação, de postura, de inteligência. Até agora o governo Bolsonaro passou recibo negacionista e inoperante na agenda climática. O Ministério do Meio Ambiente tinha quadros históricos que entendem de negociação climática, mas que foram desligados na semana passada. A Secretaria de Relações Internacionais, que não entregou nada em 14 meses de governo, mudou de batismo e de comando. O termo “clima” - vejam que avanço - voltou a figurar no nome da secretaria que terá “perfil mais executivo”, anunciou o ministro Ricardo Salles, seja lá o que isso quer dizer. O Valor tem pedido esclarecimentos ao MMA, mas não tem retorno.

Salles, conhecido em 2019 como o antiministro do Meio Ambiente, parece ter iniciado 2020 como ministro de fachada. Comanda pasta estratégica para o país, mas totalmente drenada de recursos e esquartejada a cada dia. O ministro não reclama do corte de recursos e de atribuições. Bolsonaro, que ameaçou extinguir o MMA ou fundi-lo à Agricultura, parece ter optado por deixar um ministério agonizante e fazer jogo de cena.

Atribuições do MMA foram distribuídas a outras pastas. A Agricultura é quem dá (ou não) muitas das cartas ambientais do país. O golpe final veio em janeiro, logo depois de o ministro Paulo Guedes voltar de Davos alarmado com a conexão entre ambiente e economia que se faz lá fora. Bolsonaro respondeu dedicando a coordenação do comando, controle e desenvolvimento da Amazônia ao vice-presidente Hamilton Mourão. Salles limitou-se a dizer que a ideia havia sido dele - como se isso tivesse alguma importância.

Zero Hora – Brasil atrapalha acordo e fica isolado em reunião da ONU sobre biodiversidade

Os países têm até outubro para chegar a um novo plano global.

Folhapress
Ana Carolina Amaral

A diplomacia brasileira estaria trabalhando para frear o progresso das negociações de um novo acordo global pela conservação da biodiversidade, segundo diplomatas de diversas nacionalidades ouvidos pela reportagem.

Os países têm até outubro – quando acontece a COP-15 da biodiversidade, na China – para chegar a um novo plano global, já que o atual, assinado em 2011, termina este ano. Os objetivos são conservar áreas protegidas, evitar extinção de espécies e promover o uso sustentável dos recursos naturais, com apoio financeiro aos detentores de grandes reservas ambientais.

O primeiro rascunho do documento apareceu na última semana, em negociação que foi até o sábado (29) com diplomatas de 140 países reunidos em Roma. O Brasil – um dos maiores detentores da biodiversidade do mundo – não estaria parecendo estar interessado em um acordo global, segundo negociadores. O país teria se recusado a discutir questões técnicas e optado por trazer discussões que não estavam em negociação, usando linguagem agressiva e propostas absurdas – que chegaram a ser respondidas com risadas.

A reportagem conversou sob condição de anonimato com diplomatas de três países de diferentes regiões e dois representantes de ONGs internacionais que acompanharam as negociações na condição de observadores. Em todos os relatos colhidos, a atuação brasileira foi descrita como uma clara estratégia de distração, com constante desvio de atenção para questões que não estavam na mesa.

A radicalização dessa postura afastou países que costumavam ser representados pelos pronunciamentos brasileiros, como a Argentina, países africanos e grandes detentores de florestas. Os depoimentos também apontam falta de embasamento técnico e linguagem agressiva como motivos para o isolamento do Brasil.

A representação brasileira chegou a gerar risos em uma reunião ao insinuar que a biopirataria seria a principal ameaça das áreas protegidas – apesar dos dados alarmantes sobre degradação e desmatamento.

O ministro Leonardo de Athayde também foi duramente criticado por causar confusão ao levar para a mesa questões da negociação de mudanças climáticas, que não caberiam no acordo de biodiversidade. Athayde é negociador-chefe do Brasil nos dois temas.

Segundo o Itamaraty, a estratégia brasileira tem como objetivo conseguir mais recursos financeiros para a conservação. "Historicamente, o pilar de distribuição de benefícios tem sido negligenciado", diz nota do Itamaraty enviada à reportagem. "O objetivo é fazer que se caminhe para maior efetivação desse pilar, o que poderia assegurar recursos e transferência de tecnologia para países em desenvolvimento."

No entanto, os pares internacionais têm outras interpretações sobre a conduta diplomática do Brasil, vista como um sinal de pouco comprometimento com a conservação da biodiversidade. Na opinião de um dos negociadores de um país desenvolvido, a estratégia do Brasil seria pragmática e econômica. O país visaria, no curto prazo, evitar mais condicionantes ambientais para acordos comerciais.

O acordo comercial negociado entre Mercosul e União Europeia – colocado sob suspense desde a crise das queimadas na Amazônia – já menciona como condicionante o cumprimento do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, pelo qual o Brasil se compromete com o desmatamento ilegal zero.

Embora não acreditem que a atuação brasileira possa impedir a assinatura de um acordo pela biodiversidade no próximo outubro, os diplomatas temem que as intervenções do país atrasem o processo, evitando o alcance de consensos mais significativos – o que resultaria em um acordo fraco.

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Estudo que analisa índices de ameaça e pressão por desmatamento em Áreas Protegidas (AP) mostra ainda que a Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, é a mais ameaçada.

Por Stefânia Costa

Um novo estudo divulgado pelo Imazon mostra quais são as Áreas de Proteção da Amazônia mais ameaçadas e pressionadas por desmatamento. O relatório analisa os dados do sistema de monitoramento do Instituto e cruza as informações com células de desmatamento para medir o nível de ameaça e pressão nessas áreas.

A pesquisa analisa o período que compreende os meses entre novembro do ano passado e janeiro deste ano. Nesse intervalo, o Imazon detectou um total de 769 km² de floresta derrubada na Amazônia Legal. Das 2.802 células que tiveram ocorrência de desmatamento, 56% indicam Ameaça e 44% demonstram Pressão em APs. O número de células com ocorrência de desmatamento de novembro de 2019 a janeiro de 2020 é 143% superior ao registrado de novembro de 2018 a janeiro de 2019.

O estudo revela ainda que, no comparativo com o ano passado, seis APs se mantiveram na lista das mais ameaçadas. A Resex Chico Mendes (AC), que aparecia na terceira posição do ranking das APs mais ameaçadas, agora aparece no topo da lista. Já na relação das áreas mais pressionadas, a Terra Indígena Yanomami (PA) é a primeira colocada. A TI, que nem estava entre as dez APs mais pressionadas no período anterior, disparou no número de células de desmatamento que indicam que já houve a devastação no interior da unidade de proteção.

Ameaça – Ameaça é a medida do risco iminente de ocorrer desmatamento no interior de uma área protegida. O Imazon utiliza uma distância de 10 km para indicar a zona de vizinhança de uma AP, onde a ocorrência de desmatamento indica ameaça. Segundo o levantamento do Imazon, a AP mais ameaçada foi a Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre. Das dez áreas de proteção presentes na lista, seis estão no Pará: TI Trincheira/Bacajá, TI Parakaná, APA do Lago de Tucuruí, Flona do Tapajós, TI Arara e TI Cachoeira Seca do Arari.

Pressão – Pressão ocorre quando o desmatamento se manifesta já no interior da área protegida, o que pode levar à perdas ambientais e até mesmo redução ou redefinição de limites da Área Protegida. No estudo divulgado pelo instituto, as duas primeiras colocadas na lista das APs mais pressionadas sequer apareciam no ranking do ano anterior. As TIs Yanomami, no Pará, e Alto Rio Negro, no Amazonas, encabeçam a lista que traz ainda a Resex Chico Mendes, campeã nas APs ameaçadas e que também aparece na lista das mais pressionadas.

Estudo – Esse é o relatório trimestral do índices de ameaça e pressão de desmatamento em Áreas Protegidas publicado pelo Imazon. A pesquisa é produzida com base em dados de alertas de desmatamento do SAD, sistema de monitoramento desenvolvido pelo instituto. São utilizados apenas os indicadores de desmatamento para determinar ameaça e pressão em uma unidade de conservação, entretanto, outros fatores também oferecem risco para a área, como extração madeireira, atividades de garimpo e hidrelétricas.

Imazon – O Imazon é um instituto nacional de pesquisa, sem fins lucrativos, composto por pesquisadores brasileiros, fundado em Belém há 29 anos. Através do sofisticado Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD), a organização realiza, há mais de uma década, o trabalho de monitoramento e divulgação de dados sobre o desmatamento e degradação da Amazônia Legal, fornecendo mensalmente alertas independentes e transparentes para orientar mudanças de comportamento que resultem em reduções significativas da destruição das florestas em prol de um desenvolvimento sustentável.
Confira o estudo completo aqui.

ameaça e pressão de desmatamento em áreas protegidas

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/03/2020
Pará tem seis das dez áreas de proteção ambiental mais ameaçadas de desmatamento na Amazônia, revela Imazon, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/03/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/03/13/para-tem-seis-das-dez-areas-de-protecao-ambiental-mais-ameacadas-de-desmatamento-na-amazonia-revela-imazon/.

“O consumo humano, a população e a tecnologia alcançaram aquele estágio em que a mãe Terra não aceita mais nossa presença em silêncio” Dalai Lama

Os 40 países com maior decrescimento populacional entre 2020 e 2100, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“O consumo humano, a população e a tecnologia alcançaram aquele estágio em que
a mãe Terra não aceita mais nossa presença em silêncio”
Dalai Lama

[EcoDebate] A população mundial de 7,8 bilhões de habitantes em 2020 deve passar para 10,9 bilhões em 2100, segundo as projeções demográficas divulgadas pela Divisão de População da ONU (revisão 2019). Mas, a despeito do aumento global, um grande grupo de países vai ter a população reduzida nos próximos 80 anos, conforme mostra a tabela abaixo.

Os 40 países com maior decrescimento populacional entre 2020 e 2100

Os países que terão a maior queda relativa são os de baixo da tabela, com destaque para a Albânia que deve ter a população reduzida em quase dois terços, passando de 2,9 milhões de habitantes em 2020 para 1 milhão em 2100, uma redução de 1,8 milhão. Porto Rico – que é um território não incorporado dos Estados Unidos – tem visto a população declinar velozmente em função de uma grave crise econômica que tem enfraquecido o país nos últimos 15 anos e tem sido vítima de furacões intensos. A população porto-riquenha de 2,9 milhões de habitantes em 2020 deve cair para 1,2 milhão em 2100 (reduzindo o tamanho atual para 43%). A Sérvia com população de 8,7 milhões de habitantes em 2020 deve ter uma diminuição de 4,5 milhões de pessoas, atingindo um montante de 4,3 milhões em 2100 (redução de 52%).

A Bósnia e Herzegovina e a República da Moldova devem apresentar redução de exatos 50% da população nos próximos 80 anos. Croácia e Bulgária devem ficar próximas na redução relativa e ter redução de quase 50% no período. A Ucrânia que tinha uma população de 51,5 milhões de habitantes em 1990 já vai ter uma população de 43,7 milhões em 2020 e uma redução para 24,4 milhões em 2100.

No leste asiático o destaque do decrescimento são duas economias ricas. A Coreia do Sul com população de 51,3 milhões de habitantes em 2020 deve ter uma redução para 29,5 milhões em 2100 (ficando 58% do tamanho de 2020). O Japão com população de 126,5 milhões de habitantes em 2020 terá uma queda para 75 milhões em 2100, perdendo mais de 50 milhões de habitantes (41% do total de 2020).

Na América Latina, além de Porto Rico, outros países que vão ter grande declínio populacional são Cuba, Jamaica, Trinidad e Tobago e El Savador. Entre 2020 e 2100, a população de Cuba deve cair de 11,3 milhões para 6,7 milhões, a da Jamaica de 3 milhões para 1,8 milhão, Trinidad e Tobago de 1,4 milhão para 969 mil habitantes e El Salvador de 6,5 milhões para 4,8 milhões. Mas o país latino-americano que vai apresentar o maior declínio absoluto será o Brasil que passará de 212,6 milhões de habitantes em 2020 para 180,7 milhões em 2100, um decréscimo de 31,9 milhões (queda de 15%). A Colômbia terá queda de 11% da população nos 80 anos.

Contudo, a maior queda absoluta ocorrerá na China, que com população de 1,44 bilhão de habitantes em 2020 passará para 1,06 bilhão em 2100, uma redução de 374 milhões de pessoas (queda de 26%). A China perderá o primeiro lugar para a Índia em 2027 e depois vai ter uma grande redução no volume populacional, porém continuará sendo um país altamente povoado.

No total dos 40 países a redução será de 680 milhões de habitantes nos 80 anos, resultado de uma queda de 2,6 bilhões de habitantes em 2020 para 1,9 bilhão em 2100 (queda de 26%). Evidentemente, esta queda que ocorrerá nestes 40 países será facilmente compensada pelo crescimento que ocorrerá em 35 países de grande crescimento que devem passar de 3,27 bilhões de habitantes em 2020 para 6,43 bilhões em 2100, dobrando de tamanho, com acréscimo de 3,2 bilhões de pessoas.

Ou seja, embora os 40 países listados na tabela acima apresentem uma redução do volume da população de 680 milhões entre 2020 a 2100, apenas 35 países terão um aumento de 3,2 bilhões de habitantes (como mostrado em outro artigo). Desta forma, os desafios de uma população crescente estarão presentes ao longo do século XXI ao mesmo tempo que haverá decrescimento demográfico em alguns lugares.

O mundo está dividido demograficamente, sendo que o crescimento populacional deve agravar os problemas ambientais, ao mesmo tempo que o decrescimento pode dar um certo alívio ecológico em alguns países.

José Eustáquio Diniz Alves
 
Colunista do EcoDebate.

Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/03/2020

Os 40 países com maior decrescimento populacional entre 2020 e 2100, artigo de José Eustáquio Diniz Alves, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/03/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/03/13/os-40-paises-com-maior-decrescimento-populacional-entre-2020-e-2100-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.