Coalizão Brasil lança estudo de rastreabilidade da cadeia de carne bovina no país
23 setembro 2020
Estudo divulgado hoje durante a Climate Week de Nova York aponta para a urgência da ação climática
Por Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura
É possível monitorar a origem da carne na Amazônia e no Cerrado - essa é
a principal conclusão do estudo de rastreabilidade da cadeia de carne
bovina que a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura lança hoje,
durante evento
na Climate Week de Nova York, a qual ocorre paralelamente à Assembleia
Geral da ONU e visa chamar a atenção para a urgência da ação climática.
Mediante a integração de informações entre a GTA (Guia de
Transporte Animal), o CAR (Cadastro Ambiental Rural) e os respectivos
mecanismos legais que permitam sua validação conjunta, e seguindo as
exigências estabelecidas pelos acordos firmados no âmbito do SISBOV
(Sistema Brasileiro de Rastreabilidade da Cadeia de Bovinos e Bubalinos)
e pelos TACs (Termos de Ajuste de Conduta) entre o MPF (Ministério
Público Federal) e os processadores de carne operando na Amazônia Legal,
o Brasil tem como garantir produção de carne bovina livre de
desmatamento ilegal.
“Em todo o mundo cresce uma legítima pressão pelo direito de saber a
origem e as condições de produção daquilo que consumimos. Ninguém quer
comprar produtos feitos em condições humanas degradantes, por exemplo.
Tampouco aceita-se que a produção seja feita às custas do meio
ambiente”, compara André Guimarães, co-facilitador da Coalizão Brasil.
“Assim como o agronegócio brasileiro é altamente competitivo em
produtividade, somos igualmente competitivos na capacidade de produzir
sem desmatamento ilegal e o que este estudo mostra é que temos como
provar isso”, ressalta Marcello Brito, também co-facilitador da Coalizão
Brasil.
O estudo foi elaborado pela consultoria Agrosuisse e contou com a
coordenação da FT (Força-Tarefa) Rastreabilidade da Carne da Coalizão,
formada por representantes das seguintes organizações: ABIEC (Associação
Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes), Abag (Associação
Brasileira do Agronegócio), EQAO, GTPS (Grupo de Trabalho da Pecuária
Sustentável), Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e
Agrícola), Instituto Arapyaú, IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da
Amazônia), JBS, Marfrig, Partnerships for Forests - P4F, Solidaridad
Network, TNC (The Nature Conservancy), UFMG (Universidade Federal de
Minas Gerais), Vicente e Maciel Advogados e WWF-Brasil.
Não é de hoje que o consumidor busca entender de onde vem a carne que
consome. Os esforços para implantação de um sistema de rastreabilidade
na cadeia da carne bovina no Brasil iniciaram-se no ano 2000, resultando
na criação do SISBOV em 2002 e dos TACs com frigoríficos em 2009. Este
ano, grandes players do setor anunciaram medidas adicionais para
garantir que seus produtos estejam livres do desmatamento ilegal. Para
subsidiar propostas à melhoria destes sistemas, a Coalizão Brasil
investiu no estudo “Rastreabilidade da Cadeia da Carne Bovina no Brasil:
Desafios e Oportunidades”, que engloba 42 recomendações para
fortalecimento do controle da qualidade ambiental da carne.
“A indústria de proteína animal já trabalha no sentido de tornar sua
produção a mais sustentável possível e este relatório é um elemento a
mais para nos ajudar nessa agenda”, comenta Márcio Nappo, Diretor de
Sustentabilidade da JBS e líder da FT Rastreabilidade da Carne, da
Coalizão. “Temos confiança que haverá grande adesão dos produtores a
essa transformação de nossa atividade, pois se trata de uma mudança que
nos garantirá mais mercados consumidores e também a preservação
ambiental necessária para o sucesso de nossa atividade”, completa.
Embora confirme a complexidade da cadeia brasileira da carne bovina, bem
como a necessidade de aperfeiçoamentos dos controles de rastreabilidade
e monitoramento de forma a atender as demandas dos mercados interno e
externo, além dos avanços na área tecnológica, o relatório constata o
desenvolvimento de inovações capazes de garantir a disponibilidade das
informações e dados necessários para permitir a melhoria dos sistemas de
controle e rastreabilidade da produção. O estudo também considerou o
contexto da cadeia da carne bovina no mundo e no Brasil, comparando a
situação dos sistemas de rastreabilidade e monitoramento nacionais com
os demais países que produzem carne para exportação, bem como os
resultados do SISBOV e dos TACs. Os TACs foram um primeiro passo
importante, mas não suficiente para tornar efetivos os controles da
indústria sobre suas cadeias de fornecimento. O Brasil precisa de
sistemas mais robustos de rastreamento para separar as “maçãs podres”
dos produtores sérios.
O estudo recomenda estabelecer etapas para o trabalho. Na primeira, o
incentivo para que fornecedores de animais tenham condições de atender
às exigências de controle de qualidade ambiental da carne, o que poderia
resultar em uma lista de fornecedores “premium”. Numa segunda etapa, o
controle da qualidade ambiental da carne poderia ser incorporado na
legislação e normas do setor. Nesse contexto, caberia aos atores da
cadeia estabelecer sistemas de governança das iniciativas que apoiassem
as novas normas, incluindo a adoção, por parte da indústria, de uma base
de dados única como diretriz para o controle de fornecedores “premium”,
bem como a obrigação contratual de que estes fornecedores usem a mesma
base de dados para controlar suas compras de animais. Estas obrigações
devem ter como contrapartida a premiação da qualidade ambiental da
carne.
“A grande indústria produtora de proteína animal já firmou compromissos
internacionais de sustentabilidade que exigem práticas, sistemas e
ferramentas mais apurados e consistentes, como as recomendações deste
relatório apontam. Agora é preciso ir para ação e implementar esses
compromissos”, analisa Bianca Nakamato, analista de Conservação do
WWF-Brasil e também líder da FT. “Demonstrar que a produção não está
atrelada à degradação ambiental dos biomas brasileiros e não submete
seres humanos a condições degradantes é requisito básico para o setor
atender cada vez mais o que é exigido pelo mercado internacional e pelos
consumidores brasileiros”, completa.
O relatório recomenda ainda consolidar o monitoramento da cadeia com a
integração das informações dos GTAs, CAR e do Licenciamento Ambiental
por meio da criação de bases de dados territoriais baseadas em critérios
do Protocolo de Monitoramento de Fornecedores de Gado e a atuação
integrada das agências de vigilância sanitária estaduais, visando ao
efetivo controle sanitário e ambiental da carne. Difusão de tecnologia,
estabelecimento de metas e prazos, regularização fundiária dos
produtores participantes dos projetos de integração vertical e incentivo
ao acesso a programas de crédito direcionados à adoção de boas práticas
agropecuárias e à Linha de Crédito do Plano Agricultura de Baixo
Carbono (ABC) também são recomendações do relatório. A comunicação ao
consumidor, por sua vez, ficaria por conta do varejo.
“Rastreabilidade da Cadeia da Carne Bovina no Brasil: Desafios e
Oportunidades” é resultado da iniciativa Amazônia Possível, lançada na
Climate Week de Nova York de 2019, quando se elegeu o combate à
ilegalidade a maior urgência para o desenvolvimento sustentável da
região, com foco especial na rastreabilidade da produção de proteína
animal.
Clique nos hiperlinks abaixo para acessar os documentos:
A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura é um
movimento multissetorial que se formou em 2015 com o objetivo de propor
ações e influenciar políticas públicas que levem ao desenvolvimento de
uma economia de baixo carbono, com a criação de empregos de qualidade, o
estímulo à inovação, à competitividade global do Brasil e à geração e
distribuição de riqueza a toda a sociedade. Mais de 200 empresas,
associações empresariais, centros de pesquisa e organizações da
sociedade civil já aderiram à Coalizão Brasil – coalizaobr.com.br
Plataforma online aponta pressões contra Unidades de Conservação
30 setembro 2020
No caso do Cerrado, brechas no Cadastro Ambiental Rural deixam o bioma ainda mais vulnerável, segundo novo estudo do WWF-Brasil
Processos de redução, recategorização e extinção de unidades de conservação – conhecidos pela sigla em inglês PADDD (Protected Areas Downsizing, Downgrading and Degazetting)
são cada vez mais frequentes ao redor do mundo, incluindo o Brasil.
Para detectar e dimensionar o tamanho do impactos desses processos, o
WWF-Brasil, com apoio da Conservação Internacional, criou uma plataforma
online - a PADDDTracker-Brasil. Ela indica que os biomas mais vulneráveis no Brasil são o Cerrado e a Amazônia.
De acordo com os dados da plataforma, 26 registros de PADDD foram
observados no bioma somente nos últimos anos, sendo 13 de fato
efetivados. A maior parte ocorreu em unidades de Conservação (UC)
federais, com predomínio de parques – categorias de proteção integral
devido à importância que têm para a biodiversidade, a água e o clima.
Chama a atenção a recorrência desses em algumas UCs, como os parques
nacionais do Araguaia, Canastra e Veadeiros. Os eventos e propostas mais
frequentes foram: diminuição (16 casos); mudança de categoria (8) e
extinção (2). A soma das áreas afetadas pelas propostas de PADDD
alcança 34,5 mil km2.
Outro fator que agora pesa contra as áreas protegidas do Cerrado é o
Cadastro Ambiental Rural (CAR). Como ele é autodeclaratório, sem a
validação em campo torna-se mais um potencial instrumento de pressão
sobre o bioma, dentro da lógica do “fato consumado” de quem quer ganhar
com irregularidades ou usar de má fé na declaração das propriedades.
Nesta brecha, as unidades de conservação podem ficar ainda mais
vulneráveis: é o que revela um novo estudo do WWF-Brasil publicado hoje e
que mapeia iniciativas que diminuem a proteção do Cerrado.
“Embora criado para ajudar na regularização ambiental e fundiária, o CAR
pode gerar mais confusão se for implementado apenas parcialmente”,
explica Mariana Napolitano, gerente do Programa de Ciências do
WWF-Brasil. “A falta de adesão dos Estados localizados no bioma em
validá-lo abre brechas para que proprietários particulares tentem
registrar como suas as terras já destinadas à conservação e uso
sustentável da biodiversidade”, completa.
O estudo identificou 3.344 propriedades rurais com sobreposição a
unidades de conservação de proteção integral. Áreas de proteção integral
como o Parque Nacional de Brasília e a Estação Ecológica de Uruçui-Una,
por exemplo, possuem 82,76% (124 propriedades) e 81,55% (11
propriedades) de seu território sobrepostos por polígonos do CAR. O
Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, embora com um percentual de
cobertura menor que as duas UC mencionadas acima, tem em seu interior
sobreposição com 649 propriedades, segundo o CAR.
O primeiro caso de PADDD no Cerrado remonta a 1971, no Parque Nacional
do Araguaia, no Tocantins. A diferença agora é a frequência cada vez
maior que esses episódios passaram a ter. As propostas de PADDD são
cada vez mais comuns na pauta do Congresso Nacional e das assembleias
estaduais. A ameaça paira principalmente sobre áreas protegidas federais
localizadas no bioma, o que não quer dizer que UC estaduais estejam
livres de ameaças. A pressão vem desde a criação de assentamentos
rurais, demanda por terra, desmatamento para expansão das atividades
agropecuárias, industrialização e mineração.
Essencial para a segurança hídrica no Brasil, o Cerrado já teve mais da
metade da sua vegetação nativa dizimada nas últimas décadas. Espécies
únicas de animais e plantas foram perdidos para sempre sem que a Ciência
sequer os tivesse identificados. Os remanescentes da savana mais rica
em biodiversidade do planeta tombam de modo veloz em áreas de fronteira
agrícola do Cerrado, como o Matopiba (região que pega um pedaço do
Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).
Faltam critérios
As alterações em limites e categorias de UC podem até ocorrer,
explica Mariana Napolitano. Mas em casos excepcionais, especialmente
para ajustes necessários decorrentes do processo de criação das UCs, em
que possa haver ganhos reais para o meio ambiente, que facilitem o
acesso ao uso sustentável dos recursos naturais e contribuam para o bem
estar das populações locais, pondera a especialista. Segundo ela, em
tais situações, a revisão de tamanho ou categoria das UC deveria
seguir critérios técnicos que orientassem as leis para as mudanças
necessárias.
“É o que estamos tentando estabelecer agora, já que temos um panorama
mais completo. Há um padrão nos casos de PADDD que nos permite
avançarmos para um protocolo que possa orientar as discussões. O que tem
ocorrido, porém, é que as propostas de PADDD no Brasil são
desprovidas de argumentos técnicos e científicos, movidas por
interesses setoriais e, quase sempre, inconstitucionais. A maioria das
propostas apresentadas submete as áreas protegidas a interesses
privados, quando a Constituição estabelece que meio ambiente é um
direito de todos”, explica.
Unidades de Conservação são essenciais para manter a biodiversidade, o
regime hídrico, a segurança climática e os modos de vida de populações
tradicionais, como indígenas, quilombolas e extrativistas. Para resistir
à ofensiva de fragilizar as UC e o Snuc, é necessário conhecer as
motivações nas propostas de PADDD, mapear as tendências de mudanças
no uso do solo incentivadas por políticas públicas – ou pela falta
delas – e manter ações articuladas de monitoramento e advocacy junto
aos governos e parlamentos, orienta o estudo do WWF-Brasil.
Argentina, Brasil e Paraguai se unem para reflorestar a Mata Atlântica do Alto Paraná
02 outubro 2020
Iniciativa busca gerar vínculos com organizações e instituições que estejam reflorestando, e assim potencializá-las mutualmente
Por WWF-Brasil
Mais de 100 participantes de mais de 33 organizações do setor
governamental e não governamental, institutos de pesquisa, empresas,
profissionais independentes e comunidades locais dos três países
participaram do segundo encontro da Rede Trinacional de Restauração da
Mata Atlântica do Alto Paraná, que foi lançada em 2019.
A Rede, impulsionada pela Fundación Vida Silvestre Argentina e os
escritórios WWF do Brasil e Paraguai, inspiradas no sucesso do Pacto
(Pacto pela Restauração da Mata Atlântica) e da Rede de Gestão do
Corredor do Rio Paraná, busca concentrar esforços de diversos setores
para impulsar ações organizadas, promover a função dos atores regionais e
aumentar as oportunidades e a escala dos projetos de restauração e
conservação, mobilizados pelo estado crítico de degradação dessa
ecorregião.
Atualmente, somente 7,9% da cobertura original da Mata Atlântica do Alto
Paraná é conservada. Esta ecorregião abrange os países da Argentina,
Brasil e Paraguai. Apesar do declínio drástico, a ecorregião ainda
abriga uma diversidade muito elevada de espécies de flora e fauna, e
oferece benefícios fundamentais para o desenvolvimento e a qualidade de
vida da população, conhecidos como serviços ambientais. “Esta situação
dramática, mas promissora, despertou o interesse de diferentes grupos e
organizações, formais e não formais, em trabalhar na recuperação da
paisagem florestal e na necessidade de gerar sinergias para um maior
impacto na paisagem”, disse Oscar Rodas, diretor de Mudanças Climáticas
do WWF Paraguai.
“Os esforços de restauração da Mata Atlântica ou da Floresta Paranaense
ocorrem de forma dispersa e com pouco diálogo entre as partes
interessadas. Por meio da Rede de Restauração Trinacional, pretendemos
nos unir e buscar aumentar os incentivos e o acesso a oportunidades de
financiamento", acrescentou Claudia Amicone, especialista em Restauração
e Comunidade da Fundación Vida Silvestre.
Daniel Venturi, analista de Conservação e Restauração do WWF Brasil,
destacou que “ser capaz de gerar um espaço de diálogo, tornar visíveis
experiências e iniciativas, fortalecer compromissos e acordos nacionais e
internacionais e ter maior acesso a oportunidades de financiamento para
a realização da obra do reflorestamento transfronteiriço são os
benefícios que poderemos alcançar com o trabalho em rede ”.
Vários líderes da região participaram do encontro, realizado no dia 16
de setembro de forma virtual. Pela manhã, Trevor Walter, coordenador de
Paisagens do WWF Chile e da Aliança Sul-americana para Florestas e
Restauração, apresentou a abordagem de restauração de paisagens
florestais no contexto internacional, e a seguir Lucy Aquino, diretora
do WWF Paraguai, Edgar de Oliveira, diretor de Conservação e Restauração
de Ecossistemas do WWF-Brasil, e Manuel Jaramillo, diretor Geral da
Fundación Vida Silvestre Argentina, apresentaram um resumo dos mais de
16 anos de trabalho no âmbito do Programa Trinacional para a Conservação
da Mata Atlântica.
Os interessados em ingressar na Rede Trinacional para a Restauração da
Mata Atlântica do Alto Paraná podem solicitar mais informações para o
e-mail: redetrinacional@gmail.com
Resultados do encontro
Contamos com a participação de 127 pessoas da Argentina, Brasil,
Paraguai e até mesmo Chile, Equador, Espanha, Estados Unidos e Alemanha.
Mais da metade eram novos atores que ainda não haviam participado de
nenhum encontro da Rede. Tivemos atores de diversas categorias
institucionais como empresas, governamental, ONGs, Instituições de
pesquisa e comunidades locais.
Esses atores demonstraram motivações de participação da Rede
relacionadas principalmente a obtenção de conhecimentos e experiencias
de restauração e apoio a criação de políticas públicas a nível nacional e
trinacional.
O intercâmbio de conhecimentos foi justamente um dos pontos abordados
pelo encontro, onde atores que já demonstraram a intenção de aderir a
rede e que já trabalham a nível internacional apresentaram algumas de
suas perspectivas e resultados.
Uma revisão inicial do ScienceBrief sobre a ligação entre as mudanças climáticas e o risco de incêndios florestais foi realizada em janeiro de 2020 ,
revisando 57 artigos científicos. 116 artigos científicos já estão
disponíveis. Esta atualização se concentra em artigos relevantes para os
incêndios florestais em andamento no oeste dos Estados Unidos, novas
descobertas relevantes para os incêndios florestais que assolaram o
sudeste da Austrália durante 2019-2020 e novas descobertas desde janeiro
de 2020.
É parte de uma coleção sobre Questões Críticas na Ciência das Mudanças Climáticas , preparada para a conferência climática COP26 a ser realizada em Glasgow (2021).
O hemisfério norte acaba de ter seu verão e agosto mais quentes já registrados ,
de acordo com a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos
EUA. As variações de temperatura mais notáveis em relação à média
durante agosto de 2020 incluíram o oeste contíguo dos Estados Unidos. Os
estados da Califórnia, Oregon e Washington foram os mais atingidos por
incêndios florestais, com dezenas de mortos, arrasando bairros inteiros e
forçando a evacuação de milhares de pessoas. No final de setembro, o
Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos disse que outra onda
de calor estendida está voltando ao sudoeste da Califórnia e alertou
sobre dias mais críticos de incêndio em partes da Califórnia por causa
de altas temperaturas, condições secas e ventos fortes.
De acordo com o ScienceBrief Review Update, novas publicações
científicas revisadas desde janeiro de 2020 reforçam a evidência de que
as mudanças climáticas aumentam a frequência e / ou severidade do tempo
de incêndio – períodos com alto risco de incêndio devido a uma
combinação de altas temperaturas, baixa umidade, baixa precipitação e
freqüentemente ventos fortes – em muitas regiões do mundo.
O oeste dos Estados Unidos está entre as regiões onde as tendências
no clima de incêndio foram mais pronunciadas nos últimos 40 anos. A
atividade do fogo é influenciada por uma série de outros fatores,
incluindo práticas de manejo da terra. No entanto, a gestão da terra por
si só não pode explicar os aumentos recentes na extensão e intensidade
dos incêndios florestais no oeste dos EUA ou sudeste da Austrália,
porque o aumento do tempo de incêndio amplifica o risco de incêndio onde
os combustíveis permanecem disponíveis.
A nova análise mostra que:
Bem mais de 100 estudos publicados desde 2013 mostram um forte
consenso de que as mudanças climáticas promovem as condições climáticas
das quais os incêndios florestais dependem, aumentando sua
probabilidade.
A variabilidade natural é sobreposta às condições de fundo cada vez
mais quentes e secas resultantes das mudanças climáticas, levando a
incêndios mais extremos e temporadas de incêndios mais extremas.
A gestão da terra pode melhorar ou agravar as mudanças causadas pelo
clima no risco de incêndios florestais, seja por meio de reduções de
combustível ou acúmulo de combustível como subproduto não intencional da
supressão do fogo. Os esforços de supressão de incêndios são
dificultados pelas mudanças climáticas.
Há um papel inequívoco e abrangente da mudança climática no aumento
da intensidade e da duração em que ocorre o tempo de incêndio; o manejo
da terra provavelmente também contribuiu, mas não é o único responsável
pelos recentes aumentos na extensão e gravidade dos incêndios florestais
no oeste dos EUA e no sudeste da Austrália.
Autores: Adam JP Smith e Matthew W. Jones, Centro Tyndall para
Pesquisa em Mudanças Climáticas, Escola de Ciências Ambientais,
Universidade de East Anglia (UEA), Reino Unido; John T. Abatzoglou,
Gerenciamento de Sistemas Complexos, Universidade da Califórnia, Merced,
Merced, CA, EUA; Josep G. Canadell, CSIRO Oceans and Atmosphere, GPO
Box 1700, Canberra, ACT 2601, Austrália; Richard A. Betts ,, Met Office
Hadley Center, Exeter, e College of Life and Environmental Sciences,
University of Exeter.
[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado,
reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à
EcoDebate com link e, se for o caso, à fonte primária da informação ]
Pantanal em chamas: Fogo já destruiu 3,461 milhões de hectares
Número de focos de calor em todo o bioma Pantanal é o maior desde 1998
O fogo que há meses destrói parte do Pantanal, na região
Centro-Oeste, já incinerou a 3,461 milhões de hectares. Segundo balanço
que o governo do Mato Grosso do Sul divulgou na tarde de hoje (1), só no
estado o bioma já perdeu 1,408 milhão de hectares. Além disso, no Mato
Grosso, as chamas consumiram outros 2,053 milhões de hectares.
Cada hectare corresponde, aproximadamente, às medidas de um campo de
futebol oficial. Convertida, a área incinerada equivale a 34,6 mil
quilômetros quadrados. Um território maior que Alagoas, com seus 27,8
mil km².
Os dados foram apresentados pelo chefe do Centro de Proteção
Ambiental do Corpo de Bombeiros do Mato Grosso do Sul, tenente-coronel
Waldemir Moreira Júnior. Segundo ele, o tamanho da área do Pantanal
queimada até o último dia 27 confirma que este tem sido um ano atípico
não só para o bioma, como para toda região. Em 2019, no mesmo período,
as chamas consumiram 1,559 milhão de hectares em todo o Pantanal, nos
dois estados. Ou seja, menos da metade do último período.
“Desde março, extrapolamos a máxima histórica mensal de focos de
calor no Pantanal”, comentou Moreira, comparando os 18.259 focos de
calor registrados no bioma entre 1 de janeiro e ontem, 30 de setembro,
com os 12.536 focos registrados no mesmo período de 2005, pior resultado
até então. “Este ano já superamos o recorde histórico. E tudo indica
que em outubro não será diferente”, acrescentou Moreira.
Durante a apresentação dos números, o secretário de Meio Ambiente,
Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar do Mato
Grosso do Sul, Jaime Verruck, reforçou o prenúncio feito pelo
tenente-coronel. “[Nos próximos dias] Teremos um incremento enorme do
número de focos de incêndios no Mato Grosso do Sul”, afirmou o
secretário, que disse considerar “assustador” o atual número de focos de
incêndio registrados no estado.
Segundo o Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso
do Sul (Cemtec-MS), a forte onda de calor e a baixa umidade deve
persistir por pelo menos mais dez dias, em todo o estado. Os
meteorologistas prevêem que, ao menos pelas próximas duas semanas, os
dias ficarão ainda mais quentes, podendo inclusive superar marcas
históricas. Ontem (30), em regiões como Coxim e Água Clara, os
termômetros chegaram a marcar 44,1 °C, com sensação térmica de 52° C, a
mais alta registrado no estado desde 1973. Para agravar a situação, em
algumas partes do Mato Grosso do Sul, a umidade relativa do ar chegou a
8%.
Relatório de combate aos incêndios florestais em MS – Divulgação/Facebook/MSGOV
Focos de Calor
O calor e a baixa umidade dificultam o trabalho dos bombeiros,
brigadistas e voluntários que tentam apagar as chamas. Ontem, ao
participar de uma audiência pública na Assembleia Legislativa, o
secretário Jaime Verruck comentou que, na semana passada, haviam sido
extintos 42 focos de calor só ao longo da linha de trem entre Campo
Grande e Água Clara (um percurso de cerca de 190 quilômetros). Na última
sexta-feira (25), havia apenas 19 focos de calor em todo o Pantanal
sul-mato-grossense. No domingo (27), no entanto, estes já passavam de
mil.
“Até fomos conferir para ver se não tínhamos errado, mas isso é pra
gente ver como o fogo se alastra rápido, como é difícil o combate”,
comentou Verruck durante a audiência pública desta quarta-feira. “Isso
demonstra de forma clara a gravidade da perda de biodiversidade para o
bioma. E temos alertado que a situação não está controlada, até para
depois do feriado ainda é considerada crítica”, acrescentou o secretário
estadual.
De acordo com os números apresentados pelo tenente-coronel Moreira,
entre 1 de janeiro e ontem (30), foram registrados 9.637 focos de calor
em todo o Mato Grosso do Sul. Este total coloca o estado na quinta
posição entre as unidades da federação com maior número de focos. Em
primeiro, segundo Moreira, está o Mato Grosso, com 39.918 focos. Em
seguida vem o Pará (25.397); Amazonas (14.915) e Maranhão (9.714).
“Normalmente, o nosso estado fica em 12º, 16º, mas este ano,
realmente, os incêndios, principalmente na região do Pantanal, de
Corumbá e de Porto Murtinho nos colocaram nesta quinta posição”, disse
Moreira, acrescentando que Corumbá (MS) ocupa o topo da relação das
cidades brasileiras com maior número de focos de calor no período. Os
6.570 pontos identificados no último período representam um aumento de
11,5% sobre o resultado do mesmo período do ano passado.
“Hoje, tivemos focos de incêndios em todo o estado, não só no
Pantanal. Exatamente em função das condições climáticas. Houve,
inclusive, o incremento de incêndios na área urbana em Campo Grande”,
frisou o secretário estadual Jaime Verruck.
Números menores
Consultado pela Agência Brasil, o governo de Mato
Grosso informou números diferentes dos apresentados pelo estado vizinho.
A área atingida pelo fogo no Pantanal não ultrapassa o 1,861 milhão de
hectares (e não os 2,053 milhões citados no balanço sul-mato-grossense).
O total de focos de calor registrados em todo o estado desde o início
do ano somou, até ontem, 20.312 (bem abaixo dos 39.918). Enquanto no
Pantanal foram registrados 5.859 focos.
Por Alex Rodrigues, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/10/2020
[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado,
reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à
EcoDebate com link e, se for o caso, à fonte primária da informação ]
Mais de 23% do Pantanal já queimou. De 1º: de janeiro a 27 de setembro, foram destruídos mais de 3 milhões e 461 mil hectares. Não bastasse o avanço do fogo e o surgimento de novos focos no Pantanal Sul, o fogo que parecia ter sido vencido, voltou.
“Os focos de incêndio que vinham da região da Transpantaneira e de Porto Jofre desceram e entraram no Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, na divisa entre o Mato Grosso e o Mato Grosso do Sul”, conta Gustavo Figueiroa, biólogo e divulgador cientifico da Instituto SOS Pantanal. “Os incêndios também ressurgiram de maneira muito intensa na Serra do Amolar e as chamas tomaram proporções gigantescas novamente”.
Agentes do Ibama/PrevFogo, dos bombeiros do Mato Grosso do Sul e do Paraná, e brigadistas do Instituto do Homem Pantaneiro foram rapidamente deslocados para lá.
Gustavo Figueiroa, biólogo e divulgador cientifico do SOS Pantanal
Como faz uma ou duas vezes por semana, Gustavo, que é especialista em manejo e conservação de fauna, gravou hoje um novo boletim com atualizações sobre os incêndios no Pantanal. Esta é das missões do SOS Pantanal: divulgar informações de qualidade a respeito do bioma, ainda mais agora, nesta situação dramática.
Serra do Amaolar
Ao sul da região do Parque Estadual Encontro das Águas – que reúne a maior concentração de onças-pintadas por km2 do mundo e teve 80% de sua área queimada – ele conta que outra grande área está em chamas no Pantanal do Paiaguás e que, “ainda mais ao sul do Paiaguás, vários focos estão consumindo os arredores e dentro do Parque Estadual do Rio Negro”.
Pantanal do Paiguás
Neste boletim os mapas me chamaram muito a atenção – não sei se pela
quantidade e por me sentir melhor situada na região -, por isso, os
reproduzo aqui.
E o relato de Gustavo prossegue, indicando mais fogo no bioma, como ao sul da Serra do Amolar, entre Corumbá e Miranda, onde grandes focos de incêndio surgiram em áreas próximas à BR 262, estrada que corta o Pantanal, ligando Campo Grande a Corumbá.
“As chamas estavam tão fortes e a fumaça tão intensa que cobriu toda a estrada, provocando um acidente com vítima fatal”.
Os focos de incêndio também estão muito concentrados na região de
Nabileque, abaixo de Corumbá, no Pantanal Sul, como mostra o mapa
abaixo.
Nabileque
Cuidados paliativos, até que chova
Gustavo destaca que equipes do Ibama/PrevFogo, dos bombeiros
do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná, brigadistas voluntários e
brigadistas de fazendas estão mobilizadas “e lutando fortemente contra
esses incêndios”. E sentencia: “Enquanto estivermos neste período de seca extrema, infelizmente não tem trégua”.
O cenário é desesperador e o biólogo acrescenta: “O fogo é uma força muito brutal, uma força da natureza. E ele só pode ser controlado por outra força da natureza, que é a chuva. A previsão indica que, do meio para o final de outubro, virá uma chuva considerável, que poderá controlar a situação. Mas é apenas uma previsão”.
Enquanto isso, o que os brigadistas podem fazer é atuar com “cuidados paliativos,
que é o que está sendo feito: controlar o fogo, impedindo, ao máximo,
que ele não se alastre”. De que forma? Limpando aceiros – que são faixas
feitas ao longo de cercas onde a vegetação foi completamente eliminada
da superfície do solo, para prevenir a passagem do fogo para a área de
vegetação -, apagando fogos mais leves, checando se há fogos
subterrâneos, que nem sempre são fáceis de detectar.
No caso do Pantanal norte, onde parecia que a situação ia começar se estabilizar, as chamas voltaram certamente por causa do fogo subterrâneo, que ressurgiu.
“O solo do Pantanal tem muitas raízes, as plantas têm características de Cerrado, então o solo tem muita matéria orgânica
que fica por baixo da primeira camada. Quando o fogo começa a queimar,
pode afundar e queimar por quilômetros debaixo do solo até que encontra
oxigênio e uma outra insurgência e inicia um novo foco”, explica
Gustavo. “Os brigadistas costumam cavar pra se certificar se o incêndio
acabou mesmo”.
Mas, no Pantanal sul, não havia focos na região onde, agora, surgiram
incêndios. “Não tinha como chegar foco lá. Foi gente que colocou! O
fogo começou perto de uma trilha de pescadores, então, provavelmente foi
alguém que colocou esse fogo”.
O biólogo explica que mais de 98% dos focos de incêndio são provocados pela ação humana:
“alguns intencionais, outros não. Mas esses que começaram no Pantanal
Sul certamente foram intencionais”. E completa: “Enquanto houver seca e
gente tacando fogo, vai ser muito complicado controlar o fogo. Enquanto a
chuva não vier, a gente vai apagando o fogo que aparece pra que a
proporção não aumente; é muito complicado controlar”.
Brigadas permanentes e educação
Reprodução do vídeo SOS Pantanal, com imagens do PrevFogo/Ibama
O Pantanal vive a pior seca dos últimos 47 anos, intensificada pelo desmatamento na Amazônia, responsável pela umidade e pelas chuvas que banham o centro-oeste e o sudeste do país. Mais: no ano passado, o bioma perdeu cerca de 19% de sua área florestada original devido aos incêndios. E foi neste cenário que o governo reduziu o orçamento para combate a incêndios florestais em 58%.
Por conta desse corte, o contingente de agentes do ICMBio e do Ibama, este ano, está bem menor. De qualquer forma, mais do que falar em combate, precisamos começar a falar de prevenção.
Afinal, por que esperar que o fogo chegue de forma dramática à região
para tentar apagá-lo. Ainda mais num cenário tão inóspito de seca?
“O que está sendo feito – e muito bem feito – é paliativo. No ano que
vem vai queimar de novo e, se a gente não se prevenir, os próximos
incêndios podem ganhar a mesma proporção destes”, comenta Gustavo.
“Então, precisamos montar brigadas fixas, permanentes, pelo Pantanal.
Equipa-las, integra-las com as equipes dos bombeiros para que a resposta
seja rápida, para que incêndios dessa magnitude sejam evitados”.
Ele conta que o SOS Pantanal é parceiro do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), que participa da Brigada Alto Pantanal(sobre a qual publiquei aqui no site), então também está envolvida nesta iniciativa. “Uma parte dos recursos que arrecadamos foi direcionado para apoia-la”.
Mas independente disso, o plano da organização é espalhar brigadas pelo Pantanal.
Na região da Serra do Amolar, em parceria com o IHP, e, em outras
partes do bioma, com parceiros locais. “Esta é uma das metas da SOS
Pantanal. Vimos o tamanho do problema muito de perto, agora, então
decidimos aumentar a meta e tentar espalhar brigadas pelo bioma
inteiro”.
Como ajudar
“O contraste é brutal. Pouco verde em meio às cinzas sem fim”, escreveu Gustavo Figueiroa em seu perfil no Instagram nos primeiros dias no Pantanal
É comum ouvir amigos ou conhecidos comentarem nas redes que adorariam
ir ao Pantanal para ajudar e que acham muito pouco, numa situação como
esta, apenas doar dinheiro. No entanto, esta é a forma mais efetiva de
colaborar.
Gustavo confirma: “É complicado vir gente pra cá que não conhece o
Pantanal porque a logística é muito complicada”. E conta: “Outro dia,
encontramos um pessoal que veio por conta própria querendo descer para a
Serra do Amolar de carro, mas só se chega de barco ou avião lá. Eles
não sabiam, ficaram perdidos, gastaram dinheiro à toa, não tinham
contato com nenhuma instituição…”.
Claro que voluntários são sempre necessários, mas fazer a coordenação
desse tipo de trabalho não é só envia-los pra todo canto. É preciso
gestão e treinamento, o que, neste momento, também é complicado. E,
quando precisam de mais gente, se valem de suas redes.
Mas há duas maneiras bastante eficientes para ajudar na manutenção do trabalho maravilhoso que está sendo realizado no Pantanal
por brigadistas, equipes de resgate e de veterinários, biólogos e
outros voluntários que se encarregam de alimentar os animais famintos: compartilhar informações de qualidade e doar dinheiro.
No primeiro caso, é importante acompanhar bons veículos de
comunicação e os perfis das organizações e profissionais que estão
trabalhando no Pantanal, e mostrando e comentando o que por lá se passa.
Compartilhar e divulgar.
“Isso é tão importante para o SOS Pantanal, que seu trabalho
vai além de dar apoio operacional e logísticos a organizações e
profissionais que atuam no bioma. Ela investe em comunicação”, conta
Gustavo. “Entendemos o cenário para passar informações sérias e
atualizadas porque tinha muita informacao distorcida saindo de lá, sem
questionamento”.
Gustavo e Diego Arruda mantêm contato direto e diário com
boa parte de quem está trabalhando lá – formam uma rede potente -,
filtram as informações, pesquisam o que dizem os satélites, e divulgam
todos os dias nas redes sociais, com fontes seguras e confiáveis. Além
disso, fazem um boletim periódico, como o de hoje, narrado pelo Gustavo, para dar uma ideia geral de como estão os incêndios, de fato, no bioma”.
Então, acompanhar a SOS Pantanal e seus parceiros é um dos passos para ajudar a divulgar informação de qualidade.
No que se refere à doação de dinheiro, há organizações bastante
sérias, que desenvolvem trabalhos imprescindíveis para a conservação no
Pantanal e precisam de ajuda constante. Publiquei em 14/9, uma matéria –
Como ajudar o Pantanal
– na qual fiz uma seleção que pode ajudar nessa tarefa. A maioria pede
doações em dinheiro, mas algumas indicam equipamentos, materiais e
alimentos que também podem ser doados.
Como oferece apoio operacional e logístico a diversas entidades que
trabalham na linha de frente do combate a incêndios e do resgate e
recuperação de animais, a SOS Pantanal se limita a receber dinheiro.
De
1 de janeiro a 27 de setembro, já foram consumidos 3.461.000 hectares
do bioma. Isso representa mais de 23% do bioma no Brasil, o equivalente a
23 cidades de São Paulo.
O fogo entrou na área do Parque
Nacional do Pantanal Mato-grossense e em seus arredores de maneira
intensa. Desde o dia 25, novos focos começaram na região da Serra do
Amolar, ganhando grandes proporções na RPPN Eliezer Batista.
A situação
por lá é crítica e equipes do @ihp_pantanal_
, brigadistas voluntários e do PrevFogo, em conjunto com equipes do
Corpo de Bombeiros do Mato Grosso do Sul e Paraná seguiram para a região
para atuar no combate.
No Pantanal sul, áreas entre Miranda e
Corumbá também estão queimando, próximas a BR 262, que liga Campo Grande
à Corumbá. Devido ao excesso de fumaça na pista, uma carreta colidiu
com uma caminhão, deixando uma vítima. Mais ao sul de Corumbá, na região
de Nabileque, muitos focos concentrados também consomem a região. As
imagens de satélite também indicam focos em regiões do Pantanal de
Paiaguás (ao sul do Parque Estadual Encontro das Águas), assim como no
Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro.
Continuamos
acompanhando e atualizando as notícias sobre os incêndios no Pantanal.
Compartilhe essa mensagem para que mais pessoas tenham conhecimento da
situação real.
Os dados são obtidos através do monitoramento feito pelo @ufrj_lasa
(Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais do Departamento de
Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro) e podem
apresentar uma margem de erro de até 20%, devido ao grau de confiança
das detecções mais recentes (últimos 2 meses). Você pode acessar o site
do LASA com atualizações dos incêndios no link em nossa bio.
Jornalista
com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo,
saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos
na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino
Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o
premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela
United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede
de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da
conferência TEDxSãoPaulo.
Uma breve análise sobre o papel fundamental das florestas tropicais primárias e secundárias
Artigo de Bruno Versiani dos Anjos
[EcoDebate]
Conforme devidamente sabido, as chamadas florestas tropicais
secundárias, de maneira geral, absorvem mais carbono atmosférico. Fato
conceitualmente claro, pois, como estão crescendo incorporam carbono. As
florestas tropicais primárias, nesse quesito, já se estabilizaram.
Emitem a mesma quantidade de carbono que absorvem. As florestas
tropicais secundárias, como ainda estão crescendo, absorvem mais
carbono.
Em relação à biodiversidade, há dúvidas. Já li e pesquisei vertentes
que indicavam ora uma ora outra. Pessoalmente, acredito que as florestas
tropicais primárias possuem maior biodiversidade. Devido à imensa
estratificação e micro nichos, muito possivelmente as florestas
primárias possuem maior biodiversidade autóctone. Ou seja, as florestas
tropicais secundárias possuem grande número de espécies invasoras.
Em relação ao equilíbrio hidro climático, as florestas tropicais
primárias são essenciais. Devido ao porte dos indivíduos arbóreos,
certamente atingem lençóis freáticos mais profundos, possuem copas de
árvores maiores, são mais úmidas, filtram de maneira mais intensa a luz
solar. Também possuem maior capacidade de reter enxurradas, fazendo com
que os derramamentos de água tropicais sejam nebulizados, permitindo
grande umidade dentro da floresta.
Em relação ao quesito simbólico, as florestas tropicais primárias são
“sagradas”. Atravessam milênios, são extremamente belas, possuem a
simbologia de entidades ancestrais, e devem, sem sombra de dúvida, serem
admiradas e preservadas (não apenas conservadas).
Na minha opinião, as florestas tropicais primárias (que cobrem cerca
de 5% das terras emersas) deveriam ser objeto de preservação permanente
e intocável, não devendo ser sequer fragmentadas, ou seja, existindo em
imensos blocos. Abençoadas e Sagradas. Daí a inestimável importância
das Unidades de Conservação de Proteção Integral.
[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado,
reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à
EcoDebate com link e, se for o caso, à fonte primária da informação ]
Quase 40% das plantas no planeta estão ameaçadas de extinção, mostra pesquisa
A cada cinco espécies de plantas no planeta, duas estão ameaçadas de
extinção, estima relatório divulgado na terça-feira (29) pelo Jardim
Botânico Real do Reino Unido.
O estudo conta com a participação de pesquisadores de 42 países, incluindo do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
O relatório alerta para a necessidade de acelerar a identificação das
espécies ameaçadas para protegê-las a tempo. Segundo o documento, 39,4%
das plantas estão sob risco, patamar que é quase o dobro do estimado em
2016, quando estava em 21%. O estudo explica que o salto se deve à
adoção de avaliações mais sofisticadas e abordagens mais precisas.
Entre as mais de 36 mil espécies de plantas catalogadas no Brasil,
3.934 estão ameaçadas, segundo a pesquisadora Rafaela Forzza, do Jardim
Botânico do Rio. A bióloga pondera que o número real, na verdade, é bem
maior, porque faltam informações para avaliar a situação de parte das
espécies catalogadas.
“As pessoas sabem que as baleias estão ameaçadas, que os golfinhos e
os micos-leões-dourados estão ameaçados. Mas a sociedade é muito menos
empática ao número de plantas ameaçadas. E as plantas nos cercam a todo
momento. Nossa vida depende muito delas”, alerta a bióloga, que ressalta
que ainda há muito a ser descoberto em países tropicais como o Brasil.
“Estamos destruindo uma biodiversidade que nem conhecemos ainda”.
O relatório também trouxe dados sobre os fungos ameaçados de
extinção, destacando o grande desconhecimento que ainda existe sobre
esses seres vivos. As 148 mil espécies de fungos catalogados não
representam nem 10% do número estimado de mais de 2 bilhões de espécies
no planeta.
As principais ameaças às plantas, segundo a Lista Vermelha da União
Internacional para a Conservação da Natureza são a agricultura e
aquicultura (32,8%), a utilização como recurso natural (21,1%) e
modificações no habitat (10,8%). Já no caso dos fungos, o
desenvolvimento de áreas comerciais e residenciais (18,7%) vem em
primeiro lugar, seguido do uso como recurso natural (13,9%) e da
agricultura e pecuária (12,9%).
Novas espécies
Desde 2008, o Brasil descobre cerca de 10% das novas espécies de
plantas catalogadas em todo o mundo. Em 2019, o país foi, mais uma vez, o
que mais identificou espécies, com 216 novos registros, enquanto a
China descobriu 195, e a Colômbia, 121. O Brasil descobriu ainda 87
novas espécies de fungos no ano passado, segundo o relatório.
A pesquisadora do Jardim Botânico do Rio, que integrou o trabalho
divulgado hoje, destaca que o país não descobre apenas pequenas espécies
de plantas, mas conta com 33 árvores na lista de novas espécies
registradas em 2019. As descobertas também incluem vegetais frutíferos,
como 24 variedades silvestres de mirtáceas, a mesma família da goiaba,
da jabuticaba e da pitanga.
Apesar da grande destruição de sua área original, da qual restaram
apenas cerca de 10%, a Mata Atlântica foi o bioma em que mais espécies
foram encontradas. “Se só no ano passado a gente foi capaz de descrever
71 novas espécies de Mata Atlântica, só no que restou de Mata Atlântica,
imagine o que a gente perdeu de espécies que foram dizimadas antes de
catalogar. Isso não tem como reverter”, lamenta a pesquisadora, que
relata ainda 46 espécies no Cerrado, 32 na Amazônia, 10 na Caatinga,
cinco nos Pampas e duas no Pantanal. As outras 50 espécies descobertas
ocorrem em mais de um bioma.
Na discussão sobre a preservação da biodiversidade, Rafaela explica
que o Brasil ocupa posição central, por concentrar o maior número de
espécies do mundo. As 36 mil plantas catalogadas no Brasil são mais de
10% das 350 mil espécies conhecidas em todo o planeta.
“Quase 50% das espécies de plantas do Brasil só ocorrem no país. Se a
gente não proteger, não tem como outros países protegerem. Então, é
nossa obrigação com o nosso povo e com a humanidade”, reforça. “A gente é
muito importante para a conservação da biodiversidade mundial, que é um
bem da humanidade sob responsabilidade de cada uma das nações, e a
Constituição Brasileira diz que a biodiversidade pertence a todos os
brasileiros. Quando você destrói biodiversidade para meia dúzia de
pessoas lucrar em cima disso, você está tirando de mais de 200 milhões
de pessoas, porque a biodiversidade é de todos e das futuras gerações,
inclusive”, disse.
Plantas medicinais
Entre os dados em destaque na pesquisa, está a estimativa de que 723
espécies de plantas medicinais estão ameaçadas. O número corresponde a
13% das 5,4 mil plantas medicinais que foram avaliadas quanto ao risco
de extinção. A pesquisa pondera que o número de plantas medicinais
catalogadas, no entanto, chega a 25 mil.
Segundo o relatório, cerca de 4 bilhões de pessoas dependem de
medicamentos fitoterápicos como sua principal fonte de saúde. Na China,
país mais populoso do planeta, esses medicamentos representam 40% dos
serviços de saúde.
A demanda por medicamentos fitoterápicos cresce aliada a fatores como
o aumento da prevalência de doenças crônicas, e a perda de
biodiversidade causa impacto ainda em outros países, como a África do
Sul. A pesquisa exemplifica que o número de espécies medicinais
comercializadas no país caiu de 700, em 1998, para 350, em 2013. Entre
as preocupações estão a colheita excessiva e o uso insustentável de
plantas medicinais silvestres.
A pesquisa relata ainda que há um potencial inexplorado para a
produção de biocombustíveis e para diversificar o consumo de alimentos.
Segundo o relatório, enquanto existem mais de 7 mil espécies de plantas
comestíveis com potencial para produção de alimentos, apenas 15 espécies
vegetais fornecem 90% da energia alimentar ingerida pela humanidade.
Por Vinicius Lisboa, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/09/2020
[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado,
reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à
EcoDebate com link e, se for o caso, à fonte primária da informação ]
Movimento Fridays For Future
promove série de protestos pelo mundo. No Brasil, jovens protestam
contra o governo e pedem a saída de Ricardo Salles
Por Rodrigo Caetano
Publicado em: 25/09/2020 às 06h00
Alterado em: 25/09/2020 às 16h56 access_timeTempo de leitura: 2 min
Greta Thunberg: "Essa crise é global. Pois, o
que acontece na Amazônia não fica na Amazônia e a gente precisa agir
agora” (Johanna Geron/Getty Images)
O Fridays For Future, movimento iniciado pela menina ativista sueca Greta Thunberg,
fará uma série de manifestações pelo clima, hoje. Estão programadas
ações no mundo inteiro. As “marchas” do dia 25 de setembro, como a
organização está chamando o evento, serão as primeiras fora do ambiente
digital, desde o início da pandemia.
No Brasil, a chamada para o protesto
inclui os pedidos de “fora Bolsonaro”, contra o presidente Jair
Bolsonaro, e “fora Salles”, pedindo a saída do ministro do Meio
Ambiente, Ricardo Salles.
A demanda dos jovens é praticamente a
mesma da época em que Greta iniciou sua greve pelo clima: cobrar os
políticos sobre medidas concretas para conter o aquecimento global e as
mudanças climáticas. “A pandemia mostrou que os políticos têm o poder de
agir rapidamente com a melhor ciência disponível”, afirma Eric Damien,
jovem ativista do Quênia, em nota enviada à imprensa sobre os
protestos.
Em agosto, Greta voltou à escola após
um ano sabático. Nos últimos dois anos, a menina de 17 anos emergiu
como a voz de uma geração que está preocupada com o planeta. A sua
“folga”, na realidade, foi cheia de trabalho. Nos últimos 12 meses,
Greta discursou no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na COP25, em
Madri, e continuou cobrando impiedosamente os políticos do momento. Em
encontro com a chanceler alemã, Angela Merkel, ela pediu que Merkel
saísse de sua “zona de conforto” e acelerasse a ação para combater a
emergência climática.
Uma semana depois de voltar à escola,
a menina ativista voltou a liderar um protesto pela proteção ao meio
ambiente, com foco na Amazônia. Em uma ação online, ela alertou sobre a
importância de proteger a maior floresta tropical do mundo. “Essa crise é
global. Pois, o que acontece na Amazônia não fica na Amazônia e a gente
precisa agir agora”, afirmou Greta. “Dependemos das pessoas colocando
as vidas em risco para salvar a Amazônia, para protegê-la. E dependemos
dos povos indígenas.”
ONU debate o futuro das espécies em assembleia sobre diversidade
Na Cúpula das Nações Unidas
sobre Biodiversidade, líderes mundiais buscam uma solução para a
extinção em massa: metade das espécies pode desaparecer
Por Rodrigo Caetano
Publicado em: 30/09/2020 às 06h10
Alterado em: 30/09/2020 às 06h11 access_timeTempo de leitura: 3 min
Queimada na Amazônia: ameaças ao futuro das
espécies por causa do aquecimento global deve estar na pauta de debates
em assembleia da ONU nesta quarta (CARL DE SOUZA/AFP)
Começa nesta quarta-feira, 30, a Cúpula das Nações Unidas (ONU)
sobre Biodiversidade, encontro de líderes ambientais que acontece
durante a abertura da 75ª sessão da Assembleia Geral da ONU. O objetivo
do debate é encontrar uma solução para garantir a manutenção da
biodiversidade do planeta, que está sob ameaça por causa das mudanças
climáticas.
A pandemia do coronavírus, segundo a ONU, está ressaltando a
importância de uma relação saudável entre as pessoas e a natureza. Esse é
um dos assuntos que será tratado na cúpula, cujo objetivo principal é
estabelecer as bases para a criação do documento que deverá ser assinado
na Conferência da Biodiversidade, a chamada COP da Biodiversidade
(sigla em inglês para Convention Of Parties, termo em inglês que, numa tradução livre, significa uma Convenção multilateral entre países), que será realizada em 2021.
De acordo com dados da entidade, 75% das terras do planeta foram
alteradas significativamente pela ação humana, e 66% da área dos oceanos
sofre com múltiplos impactos decorrentes da pesca, da poluição e da
acidificação das águas. O resultado desse cenário é uma taxa de extinção
de espécies mil vezes maior do que o habitual.
Um estudo realizado pelas organizações conservacionistas The Nature Conservancy (TNC),
Instituto Paulson e Centro Cornell para Sustentabilidade aponta, ainda,
que há uma lacuna no financiamento da conservação ambiental, o que
piora o cenário. Segundo o trabalho, esse valor é estimado em 711
bilhões de dólares por ano, em média.
A falta de ação pode trazer prejuízos econômicos. Somente o
desaparecimento de animais polinizadores, como abelhas, borboletas e
mariposas, resultado do uso de pesticidas, traria prejuízos anuais de
217 bilhões de dólares para a agricultura.
“Associados a essa perda estão os riscos de fome e agitação social,
potencialmente mais sérios, mas mais difíceis de quantificar”, afirma
Henry Paulson, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, autor do
prefácio do estudo.
“Em suma, embora nunca sejamos capazes de calcular o valor total da
natureza, sabemos o suficiente para saber que sua destruição apresenta
riscos profundos para as sociedades humanas e, como acontece com
qualquer risco sério que enfrentamos, a resposta racional é se
proteger.”
Em meio ao avanço nas queimadas em florestas tropicais como Amazônia e
o Pantanal, é de esperar que o Brasil seja mencionado de forma negativa
por autoridades mundiais no evento. Ontem, no debate presidencial dos Estados Unidos,
o candidato democrata Joe Biden mencionou que, se eleito, destinará 20
bilhões de dólares ao Brasil para conservação da Amazônia. Além disso,
prometeu retaliações caso ao governo Bolsonaro siga permitindo a queimada da floresta.
Salles aprova extinção de regras que protegiam manguezais e restingas
O Conama, presidido por
Ricardo Salles, revogou as regras e abriu espaço para especulação
imobiliária nas faixas de vegetação das praias
Por Estadão Conteúdo
Publicado em: 28/09/2020 às 14h36
Alterado em: 28/09/2020 às 15h20 access_timeTempo de leitura: 5 min
Mangues são refúgios de várias espécies e local de subsistência de muitas famílias. (Ricardo Lima/Getty Images)
Com um conselho de meio ambiente controlado
majoritariamente por ministérios e membros do governo federal, o
ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles,
aprovou nesta segunda-feira, 28, a extinção de duas resoluções que
delimitavam as áreas de proteção permanente (APPs) de manguezais e de
restingas do litoral brasileiro. A revogação dessas regras abre espaço
para especulação imobiliária nas faixas de vegetação das praias e
ocupação de áreas de mangues para produção de camarão.
O Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), presidido por Salles,
revogou ainda uma resolução que exigia o licenciamento ambiental para
projetos de irrigação, além de aprovar uma nova regra, para permitir que
materiais de embalagens e restos de agrotóxicos possam ser queimados em
fornos industriais para ser transformados em cimento, substituindo as
regras que determinavam o devido descarte ambiental desse material.
Ambientalistas, parlamentares e a Associação Brasileira dos Membros
do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa) pediram que todos os
itens fossem retirados da pauta da reunião do Conama, instituição que
tem caráter consultivo e deliberativo sobre questões ambientais. Houve
ainda tentativa de cancelar a reunião, por meio de ação judicial. Todas
as tentativas fracassaram.
A revogação das resoluções 302 e 303, ambas de 2002,
elimina instrumentos de proteção dos mangues e das restingas, as faixas
com vegetação comumente encontradas sobre áreas de dunas, em praias do
Nordeste.
O argumento do governo é que essas resoluções foram abarcadas por
leis que vieram depois, como o Código Florestal. Especialistas em meio
ambiente apontam, porém, que até hoje essas resoluções são aplicadas,
porque são os únicos instrumentos legais que protegem, efetivamente,
essas áreas.
No mês passado, por exemplo, em São Paulo, a Companhia Ambiental do
Estado de São Paulo (Cetesb) perdeu uma ação na Justiça e foi obrigada,
por meio de sentença, a respeitar as delimitações previstas na resolução
de 2002, “para evitar a ocorrência de dano irreparável à coletividade e
ao meio ambiente”.
Já revogação da Resolução nº 284, de 2001, acaba com os critérios de
regras federais para licenciamento ambiental de empreendimentos de
irrigação. No entendimento dos ambientalistas a revogação tem o objetivo
de acabar com exigências legais a pedido de parte do agronegócio.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que é
membro do Conama, argumentou, no entanto, que a resolução conflita com
outras que já estão em vigor. O Ministério da Agricultura declarou que
irrigação não é “atividade”, mas sim um acessório da agricultura. “Não
vemos impacto positivo nessa resolução no meio ambiente”, declarou o
ministério, que é um dos membros do conselho.
Concentração
O resultado expõe, claramente, a forma como o governo passou a
controlar um órgão que, por missão e histórico, sempre teve composição
técnica e independente. Desde julho do ano passado, o Conama, que define
normas e regras ambientais, foi completamente desidratado em relação à
sua estrutura anterior, por determinação de Ricardo Salles.
O ministro concentrou nas mãos do governo federal e de
representantes do setor produtivo a maioria dos votos. Estados e
entidades civis perderam representação. O Conama teve seus membros
reduzidos de 96 para 23 representantes.
Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção
Ambiental (Proam) afirma que, pela estrutura atual, o governo federal
passou a ter 43% de poder de voto dentro da composição do conselho, além
de outros 8% de poder de voto do setor empresarial. Os demais votos
estão diluídos entre membros dos estados, municípios e sociedade civil.
Se antes estes somavam 60% de poder de voto, passaram a ter 49% na nova
composição.
A estrutura anterior do órgão tinha o objetivo de dar maior
representatividade a vários segmentos da sociedade. Uma parte dos
integrantes da sociedade era escolhida por indicação e outra por
eleição. Desde o ano passado, porém, essa escolha passou a ser feita por
sorteio.
Instituições que representam a sociedade civil, incluindo associações
ambientais, de trabalhadores rurais e povos indígenas, viram suas
posições caírem de 23 para apenas quatro posições. Duas dessas cadeiras,
inclusive, estão vagas, porque dois membros — Associação Rare do Brasil
e Comissão Ilha Ativa — deixaram o conselho e não foram substituídas.
As votações, portanto, ocorreram sem contabilizar o voto de outros dois
membros.
Os estados também perderam representação. Se antes havia uma cadeira
para cada um dos 26 estados e o Distrito Federal, agora são cinco
cadeiras representadas por um estado de cada região geográfica do país.
Os municípios, que tinham oito representantes, agora têm dois. O
Ministério Público Federal é membro do conselho e regularmente, crítico
de flexibilizações ambientais, mas é o único sem direito a voto nas
deliberações.
“Com a conformação do Conama que foi instalada pelo governo
Bolsonaro, o governo obteve pleno controle para passar boiadas, reduzir o
rigor da legislação ambiental por meio de resoluções do conselho. O
Conama, órgão com quatro décadas de importantes contribuições para a
política ambiental, na prática está morto”, disse a ex-presidente do
Ibama Suely Araújo, especialista sênior em políticas públicas do
Observatório do Clima.
“Independentemente do governo de plantão, o conselho sempre foi uma
arena de debates técnicos, com ampla divulgação dos temas em debate. Foi
uma tristeza enorme acompanhar hoje a 135ª reunião. O resultado final
pode ser resumido em uma palavra: retrocesso.”
Judicialização
A procuradora regional da República, Fátima Aparecida de Souza
Borghi, representante do Ministério Público Federal, deixou claro aos
membros do Conama que as revogações serão questionadas pelo MPF na
Justiça.