Chuva em outros planetas é muito parecida com a da Terra
Redação do Site Inovação Tecnológica - 07/04/2021
Este infográfico compara o tamanho das gotas de chuva em diferentes corpos celestes do nosso Sistema Solar - observe que Titã e Marte hoje são frios demais para gotas de chuva de água líquida. [Imagem: AGU]
Chuvas de ácido e de ferro
As gotas de chuva na Terra são feitas de água, mas as chuvas em nossos vizinhos do Sistema Solar têm precipitações feitas de materiais bem incomuns.
Em Vênus, por exemplo, chove ácido sulfúrico. Em Júpiter, chove granizo de hélio e amônia pastosa. Em Marte, neva dióxido de carbono, ou gelo seco. Em Titã, lua de Saturno, chove metano, ou gás natural liquefeito. E, em Netuno, os astrofísicos suspeitam que chova carbono puro, talvez até na forma de diamantes. E pode até haver "tempestades isoladas" de ferro ou quartzo em alguns planetas, se as condições forem adequadas.
Com tanta variedade, é de surpreender a conclusão a que chegaram Kaitlyn Loftus e Robin Wordsworth, da Universidade de Harvard, nos EUA, depois de simular condições atmosféricas como temperatura, pressão do ar, umidade relativa, distância da nuvem ao solo e a força da atração gravitacional do planeta.
Acontece que as gotas de chuva nesses planetas e luas são quase do tamanho das gotas de chuva na Terra, apesar de terem composições químicas diferentes e caírem em atmosferas muito diferentes.
Estes resultados ajudarão a melhorar as simulações das condições em outros planetas, já que a precipitação é um componente-chave no clima dos planetas e nos seus ciclos de nutrientes.
Modelar a chuva em um mundo distante também pode ajudar a interpretar as observações de atmosferas exoplanetárias feitas pelos futuros telescópios espaciais mais poderosos.
Tamanho das gotas de chuva
A física de como as gotículas líquidas se comportam enquanto caem das nuvens nas várias condições planetárias revelou que apenas gotículas dentro de uma faixa de tamanho limitada - entre cerca de um décimo de milímetro a vários milímetros de raio - conseguem atingir a superfície desses corpos rochosos como chuva.
Gotas de chuva com um raio menor do que cerca de um décimo de milímetro evaporam antes de chegarem à superfície, e gotas de chuva maiores do que alguns poucos milímetros de raio se quebram em gotas menores à medida que caem.
Esta é uma faixa de tamanho bastante estreita, visto que o volume das gotas de chuva aumenta cerca de um milhão de vezes durante sua formação dentro de uma nuvem.
Os resultados também mostram que o tamanho máximo das gotículas de líquido que caem como chuva é semelhante nas várias condições planetárias.
As gotas líquidas daqueles vários elementos devem variar entre cerca de metade a seis vezes o tamanho das gotas de chuva de água na Terra, dependendo da força da atração gravitacional do planeta - quanto mais forte a atração gravitacional, menor a gota de chuva.
"Há uma gama bastante pequena de tamanhos estáveis que essas gotas de chuva de diferentes composições podem ter; todas elas são fundamentalmente limitadas a ter aproximadamente o mesmo tamanho máximo," disse Loftus.
Bibliografia:
Artigo: The Physics of Falling Raindrops in Diverse Planetary Atmospheres Autores: Kaitlyn Loftus, Robin D. Wordsworth Revista: Journal of Geophysical Research - Planets DOI: 10.1029/2020JE006653
Quando são grandes, essas partículas de poeira interplanetária queimam-se ao entrar em nossa atmosfera, dando origem às estrelas cadentes.
Mas a maioria delas atinge o solo na forma de minúsculos grãos, conhecidos como micrometeoritos, partículas de alguns décimos a centésimos de milímetro.
Uma equipe de pesquisadores franceses pesquisou essa poeira por quase 20 anos e calculou agora que cerca de 5.200 toneladas por ano desses micrometeoritos chegam ao solo terrestre.
Isto torna a poeira interestelar a principal fonte de matéria extraterrestre em nosso planeta, muito à frente de objetos maiores, como os meteoritos, que caem em uma quantidade inferior a 10 toneladas por ano.
A poeira espacial foi coletada durante mais de 20 anos em um local da Antártida onde há pouquíssima poeira terrestre. [Imagem: Jean Duprat/ Cécile Engrand/ CNRS]
Poeira do espaço que cai na Terra
Para coletar, analisar e medir a quantidade de micrometeoritos que caem na Terra, foram feitas seis expedições à Antártida, perto da estação franco-italiana Concórdia (Cúpula C), que fica a 1.100 quilômetros da costa da Terra de Adelie, no coração do continente.
O Dome C é um local de coleta ideal devido à baixa taxa de acúmulo de neve e à quase ausência de poeira terrestre.
Essas expedições coletaram partículas extraterrestres, variando de 30 a 200 micrômetros de tamanho, em quantidade suficiente para medir seu fluxo anual, que corresponde à massa acumulada na Terra por metro quadrado por ano.
Quando os resultados da coleta na Antártida foram extrapolados para a área de todo o planeta, o fluxo anual total de micrometeoritos chegou a 5.200 toneladas por ano.
A estimativa é que a maioria dos micrometeoritos venha de cometas (80%) e o resto de asteroides, embora se calcule que haja também poeira de antigos planetas e estrelas, conforme o próprio Sistema Solar se move na galáxia.
Esta é uma informação importante para entender melhor o papel desempenhado por essas partículas de poeira interplanetária no fornecimento de elementos, moléculas de carbono e até água para a Terra.
Artigo: The micrometeorite flux at Dome C (Antarctica), monitoring the accretion of extraterrestrial dust on Earth Autores: J. Rojas, J. Duprat, C. Engrand, E. Dartois, L. Delauche, M. Godard, M. Gounelle, J.D. Carrillo-Sánchez, P. Pokorny, J.M.C. Plane Revista: Earth and Planetary Science Letters Vol.: 560, 116794 DOI: 10.1016/j.epsl.2021.116794
O segundo episódio da série OCAA Webinários, promovido pelo Observatório de Comércio e Ambiente na Amazônia, foi ao ar na quinta-feira, dia 1º de abril. Mediado pela diretora do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes) e membro do OCAA, Sandra Rios, o evento convidou especialistas para debaterem os melhores caminhos a seguir para alcançar um acordo mais sustentável entre Mercosul e União Europeia (UE).
O ponto de partida para a conversa foi o artigo Proposals on the EU-Mercosur Association Agreement and the Environment, cuja elaboração foi coordenada pelo professor – e convidado dessa segunda rodada – da Faculdade de Direito da Universidade de Warwick (Reino Unido), James Harrison, junto a outros autores.
O texto afirma que o capítulo “Comércio e Desenvolvimento Sustentável” (TSD na sigla em inglês) do Acordo de Associação UE-Mercosul (EUMAA, em inglês) não aborda adequadamente as questões de mudança climática e degradação ambiental, tanto na UE quanto nos países do Mercosul. A publicação oferece, entre outros pontos, cinco propostas para tratar de questões ambientais graves e globalmente urgentes.
Penalidade é a solução?
Ao apresentar o estudo publicado pela Universidade de Warwick, Harrison afirmou que a inexistência de qualquer tipo de sanção – dentre outras limitações, como a ausência da determinação de um papel para os órgãos da sociedade civil – pode significar que o capítulo TSD sugerido pelo tratado não seja um mecanismo que traga aplicações plausíveis.
“Essa parte do acordo contém uma série de disposições sobre questões ambientais mais amplas, mas muitas delas são compromissos vagos de cooperação, sem especificação ou detalhes sobre a contribuição formal, bem como seus objetivos, prioridades e intensidade”, explicou o professor.
Em seguida, a professora da Escola de Economia de São Paulo na Fundação Getúlio Vargas (FGV), Vera Thorstensen, apontou que seria problemático utilizar os instrumentos de comércio propostos por Harrison, já que estes não são compatíveis com as regras da Organização Mundial de Comércio (OMC). Segundo ela, diferente do que propõe o estudo, é impossível propor tarifas variáveis pelo cumprimento ou não de regras ambientais, além de ir à contramão das normas estabelecidas pela OMC.
“Usem o EUMAA para pressionar o Brasil a cumprir suas obrigações (…), o acordo é de comércio, não é um acordo multilateral de investimento”, rebateu Vera. “O objetivo é excelente, mas estão usando os instrumentos errados para alcançá-los e que pode, inclusive, provocar o efeito contrário”, completou.
Posteriormente, professor sênior de Agronegócio Global do Insper e coordenador do “Insper Agro Global”, Marcos Jank sugeriu que a Europa avaliasse a melhor forma de lidar com o Brasil, ao invés de aplicar sanções e banimento de produtos nacionais como solução para mitigar os problemas climáticos.
“Há 10 anos, 25% da exportação brasileira ia para a Europa. Hoje, o número caiu para 16%”, apontou. “Quem está comprando os produtos brasileiros são os asiáticos, em volumes cada vez maiores, e eles estão longe de chegar nesse nível de exclusão e banimento. Eles querem monitoramento, mas não retirar o Brasil do cenário, pois terão problemas de segurança alimentar”, exemplificou Jank.
Passado e futuro
Em resposta aos comentários de Thorstensen e Jank, o professor Harrison destacou a necessidade de se observar não apenas os 25 anos que o acordo levou para ser negociado. Para ele, é importante levar em consideração as mudanças que as regras estabelecidas no passado podem sofrer e significar nos próximos 50, 100 anos. “Elas [as regras] serão os alicerces de dois blocos econômicos com 600 milhões de pessoas que vão reger essa relação comercial durante décadas e décadas”, explicou.
Ao final, os convidados tiveram a chance de responder às perguntas e às observações da audiência. Ana Toni, diretora executiva do iCS (Instituto Clima e Sociedade) e membro do OCAA, questionou Harrison se seria aceitável que o acordo fosse assinado antes mesmo de o Brasil cumprir sua própria lei, uma vez que a média do desmatamento da Amazônia em 2020, segundo ela, teria sido em torno de 11 mil km².
O professor explicou que, frequentemente, os acordos comerciais exigem que os países façam cumprir suas próprias leis e ressaltou que os esforços de conservação do Brasil parecem ter regredido em 2020. “Normalmente, os países reforçam os compromissos internacionais uns dos outros, mas nesta situação nós temos um problema. Portanto, acho que voltar-se para os compromissos nacionais que o Brasil assumiu em suas leis é uma das soluções”.
Para acompanhar mais sobre essa discussão, clique aqui e assista ao segundo episódio completo do OCAA Webinários.
Clique aqui e tenha acesso ao primeiro episódio do OCAA Webinários: “O acordo UE-Mercosul & O desmatamento na Amazônia”, com mediação do coordenador de comunicação do Observatório do Clima, Claudio Ângelo. Participaram como convidados o pesquisador sênior do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), Paulo Barreto, e a especialista sênior em análise ambiental da London School of Economics, Stefania Lovo.
A descoberta da carga se deu depois que uma balsa com documentação irregular foi encontrada em novembro, navegando no rio Mamuru, na área do município amazonense de Parintins. A partir daí, a Polícia Federal (PF) começou a investigar o movimento de madeireiros com a ajuda de imagens de satélite.
Na semana passada, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, esteve no Pará para fazer uma “verificação” da madeira apreendida. Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, ele criticou a operação da PF e afirmou que houve falhas na ação e que as empresas proprietárias das toras teriam razão para contestar a investigação. Salles teria comprovado a origem de duas toras… Sim, duas!
“É o mesmo que um ministro do Trabalho se manifestar contrariamente a uma operação contra o trabalho escravo. A apuração do caso está sob meu comando”, rebateu Saraiva, em entrevista à Folha.
Segundo o chefe da PF, os proprietários da madeira apreendida ainda não entregaram a documentação solicitada pelos investigadores e ele realmente acredita que as toras são “produto de ação criminosa”.
Entre os crimes apontados pela Polícia Federal estão irregularidades no plano de manejo e no Cadastro Ambiental Rural (CAR) da área. Além disso, as empresas envolvidas na investigação já possuem mais de 20 autuações do Ibama.
“É uma organização criminosa. Não merecem nem a denominação de empresas. Têm a vida dedicada ao crime, ao furto de bens públicos, à fraude e à corrupção de servidores públicos”, garante Saraiva.
Imagem aérea das toras apreendidas no final de 2020
Ipê: a principal vítima da extração ilegal de madeira
A apreensão histórica feita no Pará em 2020 aconteceu semanas após os brasileiros ficarem sabendo que, em agosto do ano passado, o governo retirou o ipê da lista internacional de espécies ameaçadas de extinção. A espécie é uma das mais visadas por madeireiros na Amazônia porque sua madeira é uma das mais cobiçadas no mercado internacional.
A retirada do ipê da referida lista foi pedida pelo Ministério de Relações Exteriores, que atendia a uma solicitação do presidente do Ibama, Eduardo Bim, com total apoio do Ministério do Meio Ambiente.
Não é surpresa então que com o afrouxamento da “burocracia” para a exportação da madeira brasileira, o comércio ilegal tenha visto uma nova oportunidade para colocar a floresta no chão e destruir ainda mais a Amazônia.
Após vários dias bloqueando o Canal de Suez, no Egito, o navio de bandeira panamenha, Ever Given, precisou de uma complicada operação de resgate para ser desencalhado, e assim, poder liberar o tráfego de embarcações nessa rota, que concentra 12% do comércio marítimo mundial. Todavia, ainda está longe do fim o sofrimento de cerca de 200 mil animais confinados em outros navios que tiveram sua viagem atrasada e aguardavam passagem.
De acordo com informações da ONG Animals International, os cargueiros partiram da Espanha e da Romênia e têm como principal destino o Oriente Médio. A exportação de animais vivos para a região é comum porque o abate deles precisa ser feito conforme os preceitos da religião islâmica, conhecido como “halal”. Acredita-se que grande parte da “carga” seja deovelhas e gado.
Mas apesar do desbloqueio do Canal de Suez, as embarcações com os animais ainda estão distantes de seus destinos finais e provavelmente haverá falta de comida e água no caminho.
“Um navio que deixou a Romênia em 16 de março estava programado para chegar à Jordânia no dia 23, mas agora chegará ao porto em 1º de abril, no mínimo. Isso é um atraso de nove dias”, afirmou Gabrile Păun, diretor da Animals International para a Europa ao site EU Observer.
De acordo com a legislação europeia, navios que transportam animais vivos precisam carregar 25% mais comida do que o planejado para viagens em caso de atrasos, mas entidades de proteção animal revelam que isso raramente acontece.
A Romênia é um dos maiores exportadores de ovelhas vivas da Europa. Em 2019, cerca de 14 mil desses animais que foram enviadas desse país para a Arábia Saudita morreram quando um navio naufragou parcialmente. As equipes de resgate só conseguiram salvar pouco mais de 200 delas.
A crise da qualidade da água do Grande Rio se aprofunda e vai além do insucesso da Cedae para remover a geosmina. O tratamento usado pela empresa para supostamente combater a poluição do Rio Guandu não apenas não funcionou, como ainda lançou um novo poluente — o lantânio, um metal tóxico pesado — na água consumida por nove milhões de pessoas do Grande Rio, alertam cientistas.
Segundo dados da própria Cedae, 190 toneladas de Phoslock, uma espécie de argila modificada que contém o lantânio, foram lançadas na lagoa do Guandu desde janeiro do ano passado, quando ocorreu a primeira crise da geosmina. Ao todo, foram seis aplicações. A mais recente no último dia 23, quando 28 toneladas do produto foram pulverizadas por uma embarcação no corpo d’água.
Praga de gafanhotos assolou a África Oriental – combatê-la com agrotóxicos traz novos problemas
O uso intenso de agrotóxicos de amplo espectro
parece ter retardado a invasão de gafanhotos-do-deserto. Ainda não se
sabe ao certo quais são as repercussões dessa abordagem.
Vista
de cima ao amanhecer, nuvem de gafanhotos-do-deserto começa a se
deslocar pelas terras agrícolas em direção às florestas do Monte Quênia. FOTO DE DAVID CHANCELLOR
Nuvens de gafanhotos
são aterrorizantes e terríveis. Começam como uma mancha escura no
horizonte, depois uma enorme sombra escura. Um leve bater de asas
transforma-se em um barulho crescente conforme milhões de insetos
vorazes, amarelos-vivos e do tamanho de um dedo assolam a região. Desde o
fim de 2019, vastas nuvens de gafanhotos cobriram o Chifre da África,
devorando plantações e pastagens – e desencadeando uma operação de
proporções surpreendentes para rastreá-los e exterminá-los.
Até o momento, uma campanha de pulverização terrestre e aérea em oito
países da África Oriental, coordenada pela Organização das Nações
Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), evitou o
pior: a perspectiva muito provável de que os gafanhotos
destruiriam o suprimento de alimentos de milhões de pessoas. No ano
passado, a operação protegeu pastagens e estoques de alimentos
suficientes, segundo os cálculos da FAO, para alimentar 28 milhões de
pessoas no Grande Chifre da África e no Iêmen por um ano inteiro.
Águia-das-estepes,
uma grande ave de rapina cuja dieta é composta por roedores, outros
pequenos mamíferos, enxames de insetos e carniça, sobrevoa o centro de
um enxame de gafanhotos-do-deserto no santuário de animais Lewa Wildlife
Conservancy, ao norte do Quênia. FOTO DE DAVID CHANCELLORVista
do centro de um enxame de gafanhotos no Lewa Wildlife Conservancy. O
tamanho dos enxames pode variar entre pouco mais um quilômetro quadrado e
quase 1,2 mil quilômetros quadrados e podem conter entre 40 e 80
milhões de gafanhotos. FOTO DE DAVID CHANCELLOREnxame
de gafanhotos reunido sobre acácia na reserva Borana Wildlife
Conservancy, ao norte do Quênia, onde os insetos se empoleiram durante a
noite. FOTO DE DAVID CHANCELLOR
Mas os avanços trazem consequências ambientais ainda desconhecidas, e
os agentes vêm buscando encontrar o difícil equilíbrio entre erradicar
as pragas invasoras sem destruir a folhagem e prejudicar outros insetos,
animais silvestres e humanos. O norte do Quênia é conhecido
mundialmente por sua diversidade de abelhas, e produtores rurais e
conservacionistas temem que as abelhas estejam morrendo.
Até o momento, 2,3 milhões de litros de agrotóxicos foram
pulverizados sobre 1,9 milhão de hectares a um custo de US$ 195 milhões,
ou mais de R$ 1 bi, segundo a FAO. A pulverização deve prosseguir neste
ano.
As avaliações de eventuais danos ambientais são, na melhor das hipóteses, incompletas, embora os efeitos dos agrotóxicos
tenham sido bastante documentados por décadas em outros ambientes.
Agrotóxicos de amplo espectro são muito eficazes para matar gafanhotos,
mas também para matar abelhas e outros insetos. Eles contaminam os
sistemas hídricos e podem prejudicar a saúde humana.
“É evidente que há danos colaterais”, afirma Dino Martins,
entomologista e diretor executivo do Centro de Pesquisas Mpala, no
Quênia. “Todos esses produtos químicos são projetados para matar insetos
em grandes quantidades.”
Pego de surpresa
O Quênia não sofria uma grande invasão de gafanhotos há 70 anos.
Quando os primeiros enxames chegaram em 2019, o país estava extremamente
despreparado para o que havia sido considerado, razoavelmente, uma
ameaça remota.
“O país não dispunha de equipamentos, experiência, agrotóxicos,
aeronaves, nem conhecimento”, conta Keith Cressman, analista sênior de
gafanhotos da FAO.
Os enxames começaram a se formar em 2018 depois que ciclones
provocaram chuvas intensas nos desertos inóspitos da Arábia, permitindo
que os gafanhotos se reproduzissem nas areias úmidas. Os ventos intensos
em 2019 sopraram os enxames crescentes a zonas de conflito inacessíveis
do Iêmen e, em seguida, atravessaram o Mar Vermelho e chegaram à
Somália, Etiópia e Quênia.
Gazelas-de-grant
e órix, grandes antílopes, nas pastagens que lhes servem de alimento,
cercados por um enxame de gafanhotos-do-deserto. FOTO DE DAVID CHANCELLOR
Nos primeiros estágios da iniciativa para controlar os gafanhotos, o
Quênia recorreu a tudo que estava ao alcance para resolver o problema.
“Foi uma reação de pânico”, conta James Everts, ecotoxicologista
holandês especializado nos efeitos ambientais do uso de agrotóxicos.
A pulverização prosseguiu até mesmo com a propagação da pandemia de
covid-19 que isolou grande parte do mundo. Com máscaras faciais contra o
novo coronavírus, centenas de voluntários locais, bem como membros
do Serviço Nacional da Juventude do Quênia, equipados com pulverizadores
em mochilas nos ombros e com treinamento mínimo, borrifaram
agrotóxicos, quaisquer que estivessem em estoque, sobre os gafanhotos.
Pulverizaram milhares de litros de deltametrina, bem como centenas de
litros de fipronil, clorpirifós e outros inseticidas, muitos dos quais o
uso é proibido na Europa e em algumas regiões dos Estados Unidos.
Em um caso documentado na região norte de Turkana, uma equipe de
controle de campo pulverizou 34 vezes a dose recomendada de agrotóxico
em um terreno, matando abelhas e besouros enquanto os agrotóxicos caiam
sobre a equipe e plantações.
“No início, foi uma medida emergencial”, observa Thecla Mutia, líder
de uma equipe da FAO que monitora os efeitos ambientais das iniciativas
de controle de gafanhotos no Quênia. “O objetivo era aplicar os
agrotóxicos o quanto antes para garantir a segurança alimentar.”
Agrotóxicos proibidos na Europa e nos Estados Unidos
Feitos para matar, os agrotóxicos são tóxicos por definição, mas
também armas contundentes. Três dentre quatro produtos químicos
recomendados pela FAO e autorizados por governos regionais –
clorpirifós, fenitrotion e malation – são organofosforados de amplo
espectro, agrotóxicos amplamente empregados, às vezes chamados de
“agentes neurotóxicos de grau leve” devido a sua semelhança com o gás
sarin. A deltametrina, o último desses produtos recomendados, é um
piretroide sintético, especialmente tóxico a abelhas e peixes, embora
muito menos para mamíferos.
O Grupo de Avaliação de Agrotóxicos da FAO que analisa agrotóxicos
para uso no controle de gafanhotos, lista todos os quatro produtos
químicos como de alto risco para abelhas, risco baixo ou médio para aves
e risco médio ou alto para inimigos naturais de gafanhotos e insetos do
solo, como formigas e cupins.
A União Europeia proibiu o clorpirifós no início do ano passado e,
nos Estados Unidos, foram impostas proibições em Nova York, Califórnia e
Havaí. O fenitrotion também está proibido na Europa, mas é permitido
nos Estados Unidos e na Austrália, onde é utilizado como principal arma
do governo no combate aos gafanhotos.
“Não estamos ocultando que são agrotóxicos convencionais”, informa
Cyril Ferrand, líder da equipe de resiliência da FAO em Nairóbi, que
ressalta: fazer nada não era uma opção diante dos enxames em rápida
expansão. “Queremos reduzir a população de gafanhotos-do-deserto de
forma responsável.”
Alternativas não tóxicas
Alternativas biológicas não tóxicas que eliminam gafanhotos, mas não
causam danos colaterais, estão disponíveis há décadas. Ainda assim,
agrotóxicos continuam sendo a arma preferida, representando 90% da
pulverização na atual campanha da África Oriental.
O desenvolvimento do controle biológico começou no fim da década de
1980, após o fim de uma invasão de gafanhotos que durou anos e se
estendeu do Norte da África até a Índia.
Sob um grupo de acácias, manada de elefantes busca abrigo de um enxame de gafanhotos na reserva Borana Wildlife Conservancy. FOTO DE DAVID CHANCELLORGafanhotos se alimentam em arbustos na mata da Borana Wildlife Conservancy. FOTO DE DAVID CHANCELLORAs
autoridades têm pulverizado inseticidas potentes para combater a
invasão de gafanhotos. A medida tem funcionado, mas os efeitos
colaterais à saúde e à natureza ainda são desconhecidos. FOTO DE DAVID CHANCELLOR
“Quando os milhões de litros de agrotóxicos pulverizados foram
contabilizados, até a comunidade de doadores ficou horrorizada”, lembra
Christiaan Kooyman, cientista holandês que desenvolveu um biopesticida
usando o fungo Metarhizium acridum, que combate gafanhotos. “Perguntaram aos cientistas: ‘não existe mais nenhuma alternativa?’”
O Metarhizium, comercializado desde 1998, é recomendado pela FAO como o “método de controle mais adequado” para gafanhotos,
mas raramente é utilizado. Sua ação é lenta e possui uma baixa taxa de
“efeito de choque instantâneo” – o que significa que mata ao longo de
dias em vez de horas. Além de ser caro e de aplicação complexa, é mais
eficaz contra as formas imaturas, em vez de enxames de adultos – a maior
ameaça.
Sua melhor característica – matar exclusivamente gafanhotos – também o
torna um produto menos lucrativo. As empresas têm poucos incentivos
para produzir Metarhizium e passar pelo processo dispendioso e
burocrático de registrá-lo em um país antes de uma emergência como a que
acometeu a África Ocidental.
“Os gafanhotos não estão presentes com tanta frequência, e os
fabricantes não têm interesse em produzir algo que não seja amplamente
utilizado”, explica Graham Matthews, cientista britânico e presidente
fundador do Grupo de Avaliação de Agrotóxicos. Quando os enxames chegam,
“não tem como aguardar a produção, é necessário algo pronto para uso”,
acrescenta.
Assim, os governos buscam agrotóxicos de amplo espectro produzidos em massa por grandes empresas de produtos químicos agrícolas.
A extensão dos danos não é conhecida
O que torna a pulverização generalizada de agrotóxicos especialmente
preocupante a produtores rurais, pecuaristas, cientistas e
conservacionistas no Quênia é que se sabe muito pouco sobre os danos
causados pelos agrotóxicos, se existirem. Uma avaliação ambiental da
operação regional de gafanhotos conduzida pelo governo dos Estados
Unidos alertou sobre o “potencial para efeitos nocivos expressivos à
saúde humana e à natureza” e uma análise do Banco Mundial concluiu que o
risco ambiental era “substancial”.
Os
cientistas acreditam que o agrotóxico de amplo espectro tenha afetado
polinizadores como abelhas, embora não se conheça exatamente a gravidade
de seus impactos. FOTO DE DAVID CHANCELLOR
Ainda assim, mais de um ano após o início da campanha de controle, a
avaliação da FAO sobre o impacto ambiental da pulverização ainda não foi
divulgada ao público.
“O uso excessivo de agrotóxicos é evidentemente prejudicial à
biodiversidade, mas seu nível de impacto não foi quantificado”,
afirma Sunday Ekesi, entomologista e diretor de pesquisas e parcerias do
Centro Internacional de Fisiologia e Ecologia de Insetos (Icipe, na
sigla em inglês) em Nairóbi, parte de uma força-tarefa do governo criada
para combater a invasão de gafanhotos-do-deserto.
“Nossa principal preocupação é o impacto sobre os polinizadores”,
ressalta Anne Maina, da Associação de Biodiversidade e Biossegurança do
Quênia. Os produtores rurais com quem ela trabalha atribuem a redução na
colheita de mel e da manga ao desaparecimento das abelhas. Martins
compartilha essas preocupações, mas reitera que a falta de dados de
monitoramento torna impossível saber o que de fato está ocorrendo.
“O norte do Quênia e o Grande Chifre da África são alguns dos
principais centros de diversidade de abelhas do mundo, com milhares de
espécies, sobre a maioria das quais não sabemos absolutamente nada”,
conta ele. “É preciso desenvolver ferramentas para controlar os
gafanhotos e proteger a frágil biodiversidade das terras áridas da
região.”
As diretrizes da FAO sobre precauções ambientais e de segurança de
2003 reconhecem que a pulverização aérea pode produzir menos impactos à
saúde humana do que a pulverização terrestre, mas muitas vezes cria
“mais preocupações ambientais” devido ao risco de contaminar áreas
ecologicamente sensíveis. A pulverização aérea aumenta a chance de
“difusão descontrolada”, em que produtos químicos – bem como os próprios
gafanhotos – são levados pelo vento.
Mutia, líder da equipe de monitoramento ambiental da Fao, reitera que
as equipes de pulverização terrestre agora estão mais bem treinadas e
as comunidades locais estão mais informadas sobre a pulverização e os
riscos para elas mesmas e para o gado. A operação geral de combate aos
gafanhotos no Quênia melhorou desde as primeiras semanas da invasão.
“Com os procedimentos corretos, o impacto ambiental é muito reduzido”, destaca Cressman.
Relatório importante ainda sob sigilo
Ainda assim, o relatório de monitoramento ambiental e de saúde
emitido por Mutia, concluído em setembro passado, ainda não foi
divulgado. E o motivo não está claro. A FAO afirma que o relatório
aguarda a liberação do Ministério da Agricultura do Quênia, mas uma
porta-voz do ministério afirma que a FAO ainda não o entregou.
Em entrevista, Mutia revela que não encontrou “nenhum motivo para preocupação”, em sua análise sobre a pulverização.
No entanto uma cópia do relatório obtida pela National Geographic apresenta
um retrato mais detalhado e problemático, com evidências de
superdosagem na região de Turkana e falta generalizada de comunicação
com moradores de áreas pulverizadas.
Em quatro dos 13 locais inspecionados, não havia nenhum sinal sequer
de morte de gafanhotos, sugerindo que a pulverização foi ineficaz ou que
as equipes de monitoramento não estiveram nos locais corretos. Segundo o
relatório, foram recebidas sucessivas informações de localização
incorretas e faltavam helicópteros e outros veículos para chegar
rapidamente a locais mais remotos.
“Nossa principal preocupação tem sido o controle dos gafanhotos e não
há um sistema paralelo de monitoramento dos efeitos indesejáveis”,
explica Raphael Wahome, cientista especializado em animais da
Universidade de Nairóbi. Ele afirma que as informações da FAO devem ser
disponibilizadas a pesquisadores e outros especialistas: “ninguém sabe
ao certo o que está ocorrendo onde quer que os agrotóxicos tenham sido
aplicados.”