segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Espécies endêmicas na fauna marinha de Alagoas serão objetos de estudos nos Estados Unidos

 https://www.defesaemfoco.com.br/especies-endemicas-na-fauna-marinha-de-alagoas-serao-objetos-de-estudos-nos-estados-unidos/

Espécies endêmicas na fauna marinha de Alagoas serão objetos de estudos nos Estados Unidos

A identificação de novas espécies é resultado das ações do Grupo de Comunidades Bentônicas, coordenado pela professora Mônica Dorigo

Por

Redação Defesa em Foco

 -

19 de dezembro de 2022 08:12

Recifes no litoral norte de Maceió

Alagoas é conhecida no Brasil pelas belezas naturais, mas poucos sabem que depois do Sul da Bahia, é o estado que concentra a maior quantidade de recifes por área em seus 230 quilômetros de litoral. Para a ciência, sob o aspecto da biodiversidade, Alagoas é um oásis em ecossistemas recifais.

Professores Mônica Dorigo e Hilda Helena em um dos mergulhos realizado em julho deste ano, após o 12 Simpósio Internacional de Recifes de Corais realizado em Cairns, Austrália. O local deste recife da foto é a ilha Heron que sedia uma estação de pesquisa




Pesquisas em desenvolvimento pelo Grupo de Comunidades Bentônicas da Universidade Federal de Alagoas, sob a coordenação da professora Monica Dorigo, identificaram organismos da fauna de invertebrados consideradasatualmente endêmicas das áreas recifais brasileiras, tendo sido publicadas algumas novas espécies com a localidade-tipo no litoral de Alagoas. Entre elas, a esponja Mycale alagoana e os briozoários Vasigynella ovicellata, Beania correiae, Bugula alba, Bugula bowiei e Bugula gnoma. Briozoários são pequenos animais invertebrados que formam colônias em pedras e sedimentos no mar. Essas pesquisas são realizadas em cooperação com os pesquisadores do Museu Nacional da UFRJ e o CEBIMAR da Universidade de São Paulo.




Nos siga no InstagramTelegram ou no Whatsapp e fique atualizado com as últimas notícias de nossas forças armadas e indústria da defesa.

A identificação dos organismos da fauna de invertebrados considerados endêmicos do Brasil é um dos resultados da pesquisa A Importância da Taxonomia em Estudos de Biodiversidade e vai ser comparado com o material do Caribe e Sul da Flórida através das análises morfológicas e moleculares, duranteum ano do pós-doutorado de  Monica Dorigo Correia, a partir de janeiro de 2013, nos Estados Unidos. “Este ano de estudos comprovará se as espécies identificadas são endêmicas ou não”, enfatiza a coordenadora da pesquisa.

Ela destaca que mesmo depois de duas décadas de estudos apenas 50% fauna dos invertebrados nos ecossistemas recifais estão identificados pelos pesquisadores, o que comprova o quanto é vasta a biodiversidade marinha em Alagoas. “Entre os principais grupos de invertebrados nos recifes estão as esponjas, corais, moluscos, poliquetas, crustáceos, briozoários, equinodermas e ascidias”, frisa Monica Dorigo que integra o corpo docente do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS).

Degradação ambiental

Mônica acrescenta que o estudo científico realizado pelo Grupo de Comunidades Bentônicas tendo como foco a fauna marinha alagoana faz a identificação e classificação dos organismos da fauna de invertebrados bentônicos e se desenvolve em todo o litoral do Estado, mas com maior concentração nos ecossistemas recifais. Isto porque, aproximadamente, 90 por cento da fauna dos manguezais dos nossos ambientes costeiros já estão identificados pelos pesquisadores.

“A fauna dos invertebrados existentes nos ecossistemas recifais têm representantes de todos os grupos marinhos porque a vida começou no mar, a diversidade é enorme e fazem parte da base da cadeia alimentar marinha. Por isso e é fundamental haver o equilíbrio natural e a preservação das espécies, mas lamentavelmente há uma degradação nesses ambientes”, destaca Monica.

Como exemplo de degradação ambiental ela cita as piscinas naturais, como os ambientes costeiros da Pajuçara, Maragogi e Praia do Francês, pontos turísticos bastante visitados. “As piscinas naturais sofrem com os lançamentos de âncoras de lanchas particulares e de turismo sem nenhum controle, como também a produção do lixo. Essa situação se configura como crime ambiental, conforme a Lei 9.605 de 12 de fevereiro de 1998, (conhecida como Lei da Vida) que trata de Crimes Ambientais”, enfatiza a pesquisadora.

Mônica reforça que os crimes ambientais nos ambientes costeiros de Alagoas são também provocados pela pesca predatória, navegação e ancoragem incorreta, turismo inadequado, dejetos da atividade de carcinicultura (cultura de crustáceos), destruição de manguezais e restingas, lançamentos de esgotos e principalmente falta de consciência ambiental.

Bastante atuante e considerada uma das referências local, nacional e internacional em pesquisas da fauna marinha, Mônica Dorigo é a representante titular da Ufal no Conselho Consultivo da maior Área de Proteção Ambiental (APA) costeira marinha do Brasil, a Costa dos Corais.   Essa APA vai do Rio Meirim, localizado no Povoado de Pescaria, litoral norte de Alagoas, à Tamandaré, no vizinho Estado de Pernambuco. “A APA abrange nove municípios alagoanos e foi criada para preservação dos ecossistemas recifais e redução dos impactos já existentes, além da promoção de ações voltadas principalmente ao setor público e as pessoas que têm como meio de subsistência a pesca”.

Espaço de aprendizado

O Grupo Comunidades Bentônicas é registrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq e criado em 1990. Desde então, vem realizando suas atividades no Setor de Comunidades Bentônicas, nos Laboratórios Integrados de Ciências do Mar e Naturais (LABMAR), órgão ligado ao Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS), da Universidade Federal de Alagoas.

Os estudos científicos envolvem alunos do curso de Biologia (bacharelado e licenciatura) e do mestrado em Diversidade Biológica e Ensino em Ciências. As pesquisas realizadas em Alagoas têm alcançado outros centros de referência nessa área, tanto nacional como internacional com a pós-graduação de pesquisadores. Os estudos vêm também proporcionando o intercâmbio entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros.

As ações do grupo têm resultados em vários trabalhos científicos. Um deles é o livro “Ecossistemas Costeiros de Alagoas”, lançado em 2009 de autoria de Mônica Dorigo e da pesquisadora Hilda Helena Sovierzoski. “O livro fornece uma visão detalhada com inúmeras informações sobre os ecossistemas costeiros existentes ao longo do Estado de Alagoas e proporciona ao leitor uma opção para conhecer como também preservar as maravilhas que a natureza nos reservou”, afirmou a pesquisadora.

Mais informações no site

 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Nascimento de oito filhotes de lobos após um século é esperança para retorno da espécie levada à extinção na Califórnia

 

Nascimento de oito filhotes de lobos após um século é esperança para retorno da espécie levada à extinção na Califórnia

Nascimento de oito filhotes de lobos após um século é esperança para retorno da espécie levada à extinção na Califórnia

Assim como em outros estados americanos, os lobos-cinzas (Canis lupus) foram dizimados na Califórnia e a espécie foi levada à extinção há um século. Visto como ameaça em áreas rurais, em muitos lugares, sua caça foi, inclusive, incentivada por órgãos governamentais. Na década de 70, entretanto, leis federais e estaduais foram implementadas para garantir a proteção dos poucos indivíduos que restaram e nos últimos anos houve uma grande campanha de conscientização para mostrar que é possível uma co-existência harmônica entre esses animais e os seres humanos e ressaltar a importância deles para seus ecossistemas.

E a notícia do nascimento de oito filhotes numa alcateia na Califórnia traz nova esperança para a volta desses canídeos à vida selvagem. A celebração se deve também porque é atípico nascer esse número grande de filhotes e isso é um indicativo da boa saúde de todos e do ambiente onde vivem. Lobas podem dar à luz a entre duas e dez crias, mas em geral, o mais comum é cinco ou seis.

Os filhotes foram registrados por armadilhas fotográficas durante a primavera na região de Siskiyou, ao norte do estado, mas só agora o Departamento de Pesca e Vida Selvagem divulgou as imagens.

Os novos filhotinhos fazem parte da alcateia batizada de Whaleback, documentada pela primeira vez em 2020, e que no ano passado já tinha se reproduzido. Há outros grupos na Califórnia, mas este é o que apresenta o maior número de indivíduos.

Nunca houve um processo de reintrodução do lobo-cinza na Califórnia. Os animais observados atualmente por lá são originários do Parque Nacional de Yellowstone, que depois seguiram para o Oregon e então, acabaram rumando para as florestas californianas, onde encontraram um ambiente seguro para viver, com fartura de alimentos (veados e outras presas).

Segundo o International Wolf Center, existem duas espécies de lobos amplamente reconhecidas no mundo, o vermelho e o cinza. No entanto, cientistas suspeitam sobre a existência de outras possíveis subespécies do lobo cinzento. Há também um canídeo pouco conhecido, que vive nas terras altas da Etiópia, chamado Canis simensis, que se acredita ser um parente muito próximo do lobo.

Os lobos são os maiores membros da família canídeos, a mesma a que percentem os cães de estimação. Há muitas décadas, os lobos eram os mamíferos terrestres selvagens mais amplamente distribuídos no Hemisfério Norte.

Infelizmente, em muitos estados americanos a caça ao lobo ainda é permitida, mas para o chamado “controle da população”, todavia, por várias vezes já, mais animais do que o permitido foram mortos.

No vídeo abaixo, flagrante dos filhotes de outra alcateia, a Lassen, em 2020, e divulgado pelo Departamento de Pesca e Vida Selvagem da Califórnia:

*Com informações da reportagem do jornal The Guardian

Mesmo com ferimento grave na coluna, a baleia Moon completa jornada de 5 mil km… Talvez sua última!

 https://www.blogger.com/blog/post/edit/167651065127135696/4917234823546512045






Mesmo com ferimento grave na coluna, a baleia Moon completa jornada de 5 mil km… Talvez sua última!

Mesmo com ferimento grave na coluna, a baleia Moon completa jornada de 5 mil km... Talvez sua última!

Nos últimos anos foram várias as vezes que Moon foi avistada em suas jornadas migratórias. Todo mês de setembro a baleia jubarte era observada por pesquisadores da estação de Fin Island, na Colúmbia Britânica, no Canadá. Lá ela se alimentava de krills, antes de rumar nos próximos meses para as águas mais quentes do Havaí.

Em 2020, Moon que sempre estava sozinha, apareceu com um filhote, o que foi motivo de muita celebração para os pesquisadores canadenses.

Todavia, há três meses, enquanto se fazia o monitoramento da espécie com drone, nas proximidades de Fin Island, as imagens revelaram um animal com uma curva anormal na coluna, em forma de “S”. Era Moon.

“Enquanto nosso drone pairava sobre ela, imediatamente reconhecemos que ela havia sido atingida por uma embarcação devido à curvatura na espinha da nadadeira dorsal até sua cauda”, relatou a equipe da organização BC Whales em suas redes sociais.

E para surpresa e incredulidade de todos, no último dia 1o de dezembro, Moon foi fotografada novamente, todavia, a 5 mil km de distância, próximo de Maui. Mesmo apesar de sua condição, ela nadou todo esse percurso no Oceano Pacífico.

“Tenacidade e tragédia. Moon viajou da Colúmbia Britânica para o Havaí com uma grave lesão na coluna devido ao choque de um navio, mas ela não conseguirá retornar”, dizem os cientistas.

Moon provavelmente nasceu no Havaí. E por isso, todos os anos voltava pra lá. Porque deve ter aprendido isso com sua mãe.

As imagens da baleia documentadas pela Pacific Whale Foundation (PWF) revelam que o estado dela é muito grave.

“As imagens angustiantes de seu corpo retorcido mexeram com todos nós. Ela provavelmente estava com dores consideráveis, mas migrou milhares de quilômetros sem ser capaz de se impulsionar com a cauda. Sua jornada a deixou completamente emaciada e coberta de piolhos de baleia como prova de sua condição severamente depreciada. Esta é a dura realidade sobre colisões com embarcações e mostra o sofrimento prolongado que as baleias podem suportar depois. Também reforça seu instinto: até onde as baleias vão para seguir padrões de comportamento”, lamentou a BC Whales.

Mesmo com ferimento grave na coluna, a baleia Moon completa jornada de 5 mil km... Talvez sua última!

Imagens de Moon em setembro e agora, no começo de dezembro

Infelizmente não há nada o que possa ser feito para amenizar a dor de Moon. Não é possível tentar abreviar a vida uma criatura do tamanho dela através da eutanásia. Se fossem dados medicamentos para matá-la, eles poderiam ser ingeridos por outros animais que eventualmente se alimentassem da carcaça dela.

“Nunca entenderemos verdadeiramente a força necessária para Moon assumir o que é, lamentavelmente, sua última jornada, mas cabe a nós respeitar tal tenacidade dentro de outra espécie e reconhecer que as colisões com navios levam a um fim devastador”, diz a organização.

Mesmo com ferimento grave na coluna, a baleia Moon completa jornada de 5 mil km... Talvez sua última!

Fotos mostram Moon há dois anos, antes da possível colisão com o navio
(Fotos: North Coast Cetacean Society e Pacific Whale Foundation)

*Com informações adicionais do site Phys.org

Leia também:
Biólogos acompanham apreensivos baleia, que mesmo presa numa rede de pesca, teve um filhote
Registrado pela primeira vez nascimento de filhote de jubarte em águas cariocas
Baleia jubarte sai da lista de espécies ameaçadas de extinção na Austrália

Foto de abertura: @North Coast Cetacean Society/BC Whaleshttps://www.blogger.com/blog/post/edit/167651065127135696/4917234823546512045

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Pesquisadores defendem proteção integral de áreas úmidas do Cerrado, atualmente exploradas por grandes produtores rurais

 https://conexaoplaneta.com.br/blog/pesquisadores-defendem-protecao-integral-de-areas-umidas-do-cerrado-atualmente-exploradas-por-grandes-produtores-rurais/





Pesquisadores defendem proteção integral 

de áreas úmidas do Cerrado, atualmente exploradas por grandes produtores rurais

Pesquisadores defendem proteção integral de áreas úmidas do Cerrado, atualmente exploradas por grandes produtores rurais

*Por José Tadeu Arantes

Cerrado é o mais ameaçado dos grandes biomas do território brasileiro. E uma parte especialmente vulnerável dele são suas áreas úmidas, que garantem a existência de rios perenes e abastecem nada menos do que oito bacias hidrográficas. O Xingu, o Tocantins, o Araguaia, o São Francisco, o Parnaíba, o Jequitinhonha, o Paraná e o Paraguai, entre outros rios importantes, nascem no Cerrado. A destruição de áreas úmidas não ameaça apenas a biodiversidade e a extraordinária beleza das paisagens cerratenses. Põe em risco ainda a segurança hídrica e energética do país.

Além disso, as áreas úmidas são também um extraordinário repositório de carbono (CO2), estocando mais de 200 toneladas por hectare. E alterações em seu equilíbrio cíclico tendem a liberar metano (CH4) para a atmosfera, um dos principais gases de efeito estufa (GEE).

O problema é que a própria definição de áreas úmidas é confusa. E essa confusão tem sido explorada por grandes produtores rurais que, não contentes em converter descontroladamente áreas secas do Cerrado em terras agriculturáveis, cogitam também drenar as áreas úmidas, para estender as lavouras de soja até o fundo das veredas. Se não fosse por outros motivos, até mesmo do ponto de vista estrito do interesse econômico isso equivaleria a erguer uma pedra para deixá-la cair sobre os próprios pés, pois a possibilidade de irrigação depende da sobrevivência dos mananciais.

Para dirimir a confusão e fornecer aos tomadores de decisão sólidos critérios científicos, um grupo de pesquisadores acaba de produzir um artigo contemplando os múltiplos ecossistemas englobados pelo conceito de áreas úmidas. Trata-se de Cerrado wetlands: multiple ecosystems deserving legal protection as a unique and irreplaceable treasure, publicado no periódico Perspectives in Ecology and Conservation.

“A falta de definições precisas tem embaralhado a regulamentação, deixando importantes segmentos do Cerrado desprotegidos. Nosso objetivo foi esclarecer o que são áreas úmidas; que ecossistemas podem ser abarcados por esse nome; que dinâmicas eles apresentam; e o que devemos fazer para protegê-los”, diz à Agência FAPESP a pesquisadora Giselda Durigan, primeira autora do artigo.

Durigan é pesquisadora do Instituto de Pesquisas Ambientais do Estado de São Paulo (IPA) e professora nos programas de pós-graduação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Estuda o Cerrado há mais de 35 anos.

“Um exemplo do grave risco que a falta de definições precisas e as ambiguidades na interpretação da lei podem acarretar foi a Resolução número 45, de 31 de agosto de 2022, aprovada pelo Conselho do Meio Ambiente de Mato Grosso (Consema). Desrespeitando decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), essa norma regulamentou o ‘licenciamento ambiental de atividades e empreendimentos localizados em áreas úmidas’ no âmbito estadual. Por trás dos eufemismos do texto, a resolução, de fato, libera a destruição”, denuncia Durigan.

A pesquisadora define: “Áreas úmidas são porções de terras continentais que estão sujeitas, periódica ou permanentemente, a encharcamento do solo ou inundação. Dada a sua fragilidade e extrema importância para o armazenamento e a filtragem da água, são globalmente protegidas, desde a convenção intergovernamental realizada em Ramsar, no Irã, em 1971. O Brasil é signatário da convenção de Ramsar desde 1996, mas até hoje não atendeu ao compromisso de mapear todas as suas áreas úmidas”.

No país, há exemplos de áreas úmidas em faixas costeiras, onde os pulsos de inundação resultam da oscilação das marés, de modo que a água se apresenta salgada ou salobra. E também longe da costa, compondo dois grandes tipos, hidrologicamente distintos: terras que são periodicamente alagadas pelo transbordamento dos leitos dos rios (várzeas e pantanais) e terras que ficam encharcadas ou até alagadas pela elevação periódica do lençol freático.

“As áreas úmidas do Cerrado geralmente se enquadram no último tipo. As chuvas abundantes, que caem nos meses de verão, infiltram-se lenta e profundamente no solo, recarregando o lençol freático e acumulando-se nas áreas úmidas, de onde brotam os pequenos riachos que nunca secam e alimentam os grandes rios do Brasil, mesmo nos períodos de estiagem. Diferentemente, aliás, das outras grandes savanas do mundo, cujos grandes rios secam de todo durante boa parte do ano”, informa Durigan.

Proteção integral às areas úmidas do Cerrado

Segundo a pesquisadora, a confusão que embaralha a regulamentação deve-se ao fato de que, dentro das áreas úmidas do Cerrado, existem diversos tipos de vegetação, que resultam em múltiplas denominações regionais. São campos úmidos, campos de murundus, turfeiras, veredas, palmeirais, buritizais, matas de galeria, matas de brejo e por aí vai. Às vezes, em uma única área úmida, existem dois ou mais tipos de vegetação, desde campos limpos até florestas densas, o que tem dificultado seu entendimento, delimitação e proteção.

“A lei, às vezes, refere-se a apenas um dos tipos, como é o caso das veredas na Lei de Proteção da Vegetação Nativa (12.651), de 2012, deixando os demais tipos desprotegidos. Outras vezes, a lei protege apenas uma parte da área úmida, deixando trechos inteiros sem cobertura legal”, ressalta Durigan.

Ela conta que o artigo em pauta resultou de um esforço multidisciplinar, envolvendo especialistas em vegetação, hidrologia, ecofisiologia, conservação, restauração e legislação ambiental, que utilizaram seus conhecimentos e experiências práticas para unificar e disseminar sua compreensão sobre o assunto. O grupo teve apoio da FAPESP por meio de três projetos (19/07773-120/09257-8 e 20/01378-0).

“Para nós, todas as áreas úmidas devem ser igualmente e integralmente protegidas por lei, garantindo-se que não sejam convertidas para cultivo e que seus pulsos naturais de encharcamento ou inundação não sejam afetados pelo uso da terra ao redor. Práticas de exploração sustentável, como a apicultura e o extrativismo, por exemplo, podem ser admitidas, mas precisam ser validadas e regulamentadas”, enfatiza Durigan.

E sua ênfase se justifica, pois as ameaças às áreas úmidas são muitas no Cerrado, destacando-se barramento dos córregos, drenagem das terras brejosas, expansão de áreas urbanizadas, obras de infraestrutura, extração descontrolada de água de poços para irrigação e plantação de árvores, principalmente de eucalipto, em bacias hidrográficas inteiras, onde a vegetação original não era floresta.

“Todas essas atividades são altamente impactantes. Reduzem o nível do lençol freático ou podem até mesmo exauri-lo localmente, pondo em risco a segurança hídrica e os serviços ecossistêmicos do Cerrado. É algo que precisa ser urgentemente impedido por meio de legislação competente e da aplicação efetiva da lei”, afirma a pesquisadora.

Durigan comenta que a Lei de Proteção à Vegetação Nativa trata de maneira bastante confusa as áreas úmidas, deixando uma parte delas como Áreas de Preservação Permanente (APP) e outra parte como Áreas de Uso Restrito (AUR). Mas que alguns tipos de áreas úmidas do Cerrado não se encaixam nas definições dos tipos mencionados, o que tem gerado imprecisão na aplicação da lei, com conflitos jurídicos, sociais e políticos.

“Buscando pacificar a situação, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que, dada a sua inquestionável importância ambiental, todas as áreas úmidas devem ser entendidas como protegidas, sejam como APPs, sejam como AURs, independentemente da nomenclatura. Foi essa decisão que a resolução do Consema do Estado de Mato Grosso desrespeitou”, sublinha a pesquisadora.

A boa notícia é que existe, no momento, um grande grupo de técnicos e cientistas, representativos de diferentes regiões do Brasil, empenhados em realizar o Inventário Nacional de Áreas Úmidas, sob a liderança dos especialistas Wolfgang Junk, do INCT Áreas Úmidas (Inau), para dar suporte ao Ministério do Meio Ambiente. O trabalho conta com a participação de Cátia Nunes da Cunha, professora da UFMT.

“A Plataforma MapBiomas incluiu recentemente a legenda ‘Áreas Úmidas’ em seus mapas, o que se constitui em grande avanço. Porém, demarcar as áreas úmidas em campo, na escala de uma propriedade rural, não é uma tarefa fácil e isso atrapalha a aplicação das leis. Nosso artigo propõe critérios objetivos, baseados no solo hidromórfico, na flora endêmica e na elevação máxima do lençol freático para facilitar a delimitação de áreas úmidas em escala local”, conclui Durigan.

O artigo Cerrado wetlands: multiple ecosystems deserving legal protection as a unique and irreplaceable treasure pode ser acessado neste link.

*Texto publicado originalmente em 06/12/22 no site da Agência Fapesp da Notícias

Leia também:
Expansão da agropecuária no Cerrado pode favorecer espécies consideradas pragas para a lavoura, como a saúva
MapBiomas pode lançar novo sistema de alerta do desmatamento no Cerrado se governo abandonar monitoramento do bioma
Tatu-bola e lobo-guará estão entre espécies mais afetadas pela perda de habitat no Cerrado devido à expansão agropecuária
Um dos ‘hotspots’ de biodiversidade do mundo, Cerrado pode entrar em colapso em menos de 30 anos devido ao agronegócio

Foto de abertura: Rafael Oliveira/chuveirinho (Paepalanthus urbanianus) em campo úmido, Chapada dos Veadeiros, Goiás

Inglaterra deve proibir produtos descartáveis plásticos como copos, pratos e talheres

https://conexaoplaneta.com.br/blog/inglaterra-deve-proibir-produtos-descartaveis-plasticos-como-copos-pratos-e-talheres/#fechar 


Inglaterra deve proibir produtos descartáveis plásticos como copos, pratos e talheres

Inglaterra deve proibir produtos descartáveis plásticos como copos, pratos e talheres

Um inglês utiliza, em média, por ano, quase 20 pratos de plástico e 40 talheres desse mesmo material. Obviamente, que após o uso, tudo vai para o lixo. Parece pouco, mas quando pensamos que a população da Inglaterra passa de 56 milhões de pessoas, o número de produtos descartados se torna gigantesco. E como grande parte desses resíduos acaba não tendo a destinação correta, ou seja, a reciclagem, muitos vão parar no meio ambiente. Com isso, aproximadamente 1 milhão de aves e 100 mil criaturas marinhas morrem, anualmente, vítimas desses dejetos plásticos.

Em novembro do ano passado, o governo inglês abriu uma consulta pública para saber se a população concordava em banir o uso e a comercialização de produtos plásticos de uso único no país.

“O Governo está empenhado em deixar o nosso ambiente num estado melhor do que o encontramos e em protegê-lo para as gerações futuras. O Plano Ambiental de 25 anos, publicado em janeiro de 2018, descreve as etapas que tomaremos para alcançar isso, incluindo a eliminação de resíduos plásticos evitáveis até 2042”, diz o texto da consulta, encerrada em fevereiro de 2022.

E segundo antecipou uma reportagem do jornal Financial Times, em breve a ministra do Meio Ambiente da Inglaterra, Thérèse Coffey, deve anunciar o seu resultado, que será a proibição dos produtos descartáveis plásticos e a substituição dos mesmos por alternativas biodegradáveis.

Desde 2020, cotonetes, canudos e misturadores de bebidas feitos com plástico já eram proibidos no país, assim como a distribuição de sacolas feitas com essa material em supermercados e outros estabelecimentos comerciais (leia mais aqui).

Todavia, há uma pressão para que a Inglaterra, apesar de não fazer mais parte da Comunidade Europeia, se alinhe com as demais nações do bloco, que baniram completamente os descartáveis plásticos em 2021.

De acordo com um estudo do projeto Beyond Plastics, do Bennington College, dos Estados Unidos, em 2030, a indústria de plásticos americana liberará mais emissões de gases de efeito estufa do que a de carvão.

Ao analisar os estágios de produção, uso e descarte de plásticos naquele país, o levantamento revela que os fabricantes de plástico emitem pelo menos 232 milhões de toneladas de gases de efeito estufa por ano, o equivalente a 116 usinas termoelétricas a carvão de porte médio. Só no ano passado, as emissões do setor plástico aumentaram em 10 milhões de toneladas em relação a 2019.

Leia também:
Bairro com melhor índice de coleta seletiva em São Paulo chega apenas a 10%
Filhote de tartaruga resgatado em praia na Austrália defecou plástico durante seis dias
Pela primeira vez cientistas encontram micropartículas plásticas no sangue de seres humanos
Paris começa 2022 com lei que obriga bares, restaurantes e espaços públicos a oferecer água potável e gratuita
Em decisão inédita, dois estados americanos aprovam leis que obrigam empresas a se responsabilizarem pelo descarte correto de suas embalagens

Foto de abertura: Volodymyr Hryshchenko on Unsplash