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domingo, 23 de março de 2025

Produtor de natureza: MS é 1º do mundo a usar onça-pintada como ativo ambiental

 Meio Ambiente


Produtor de natureza: MS é 1º do mundo a usar onça-pintada como ativo ambiental

Proprietários iniciam comercialização de crédito de carbono e crédito de biodiversidade no Pantanal


Por Gabriela Couto | 21/03/2025 17:51

     

Onça-pintada descansando em galho seco, às margens do Rio Paraguai (Foto: Diego Viana)

Mato Grosso do Sul é o primeiro lugar do mundo a usar a onça-pintada como um ativo ambiental. O projeto piloto pioneiro no Pantanal "Jaguar – créditos de biodiversidade" foi apresentado nesta sexta-feira (21) ao governador Eduardo Riedel (PSDB), no Receptivo do Prosa. O encontro marcou a celebração do Dia Internacional das Florestas , celebrado hoje.




A iniciativa inédita é executada pelo IHP (Instituto Homem Pantaneiro), na Serra do Amolar, em Corumbá. Conforme a secretária-executiva do instituto, Yanna Fernanda Coelho Leite, esse método de pagamento por serviços ambientais diferenciados foi pensado na COP-15 (15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas) e agora já está disponível para ser comercializado.



Em uma área de 40.613 hectares, o projeto abrange três RPPNs (Reservas Particulares do Patrimônio Natural), no coração do Pantanal. Com a metodologia de créditos desenvolvida pela ERA (Ecosystem Regeneration Associates) e a certificação da empresa norte-americana Regen Network, foi possível emitir 71.750 créditos de biodiversidade entre os anos de 2021 e 2023.



“Esse crédito de biodiversidade possui algumas diferenças em relação ao crédito de carbono. Ele usa toda a propriedade, com pesos diferenciados para cada área, e só pode ser adquirido uma única vez”, explicou Yanna. Até o momento, cerca de 700 créditos foram vendidos.


Na metodologia, é possível confirmar que as RPPNs Acurizal, Rumo ao Oeste e Engenheiro Eliezer Batista cumpriram papel fundamental para a conservação de mais de 150 indivíduos que circulam pelo território. Além do monitoramento de seis onças-pintadas, o IHP acumula registros anuais de armadilhas fotográficas que confirmam a presença do maior felino das Américas na área rastreada.




As onças-pintadas funcionam como um indicador ambiental da qualidade do bioma, por serem topo de cadeia. O IHP conseguiu confirmar, com a metodologia, que o trabalho de conservação dos proprietários das RPPNs se equipara ao trabalho de produtores de natureza.


Para garantir o futuro da casa das onças-pintadas no Pantanal e do próprio planeta, qualquer cidadão ou empresa preocupada com a agenda ESG (Ambiental, Social e Governança, em português) pode contribuir comprando um crédito de biodiversidade.


O valor é fixo, mas varia conforme o ano do crédito emitido, podendo ser US$ 21 para a unidade de 2021, US$ 23 para 2022 e US$ 27 para 2023. Ou seja, na cotação de hoje (R$ 5,73), uma unidade é comercializada por R$ 120,33 a R$ 154,71.


“Essa é uma forma de valorizar o trabalho de conservação. Além disso, todos os créditos de biodiversidade estão atrelados ao impacto social. A área de execução do projeto abriga 57 famílias de quatro comunidades ribeirinhas que também são beneficiadas com o projeto”, acrescentou a secretária-executiva.

“Esta iniciativa coloca Mato Grosso do Sul na vanguarda, por valorizar e reconhecer que, além da vocação agropecuária, também é um estado de produção da natureza. O projeto valoriza a onça-pintada, que gerará crédito, trazendo o mercado para valorizar aqueles que protegem a espécie”, afirmou o diretor-presidente do IHP, Ângelo Rabelo.

Fazenda Cristal – Outra iniciativa apresentada ao governador foi o projeto "Conservação Fazenda Cristal", que promove a conservação de formações primárias e secundárias manejadas de áreas nativas preservadas, para garantir a restauração completa da vegetação, com o propósito de aumentar o potencial de armazenamento de carbono em sua área e, assim, reduzir os efeitos do aquecimento global, juntamente com o desenvolvimento social.

A propriedade existe desde 1972 e está localizada em Corumbá, na região pantaneira do Paiaguás. Desde 2020, após os eventos de incêndios que passaram a atingir a região de forma mais intensa, houve a preocupação com a proteção dos recursos naturais da propriedade.


Em fevereiro deste ano, o proprietário conseguiu a certificação de 1.800 créditos de carbono por ano pela Social Carbon Standard (Reino Unido), após uma rigorosa auditoria da KBS Certification Services Ltd. (Índia). O projeto Fazenda Cristal consiste em uma atividade de florestamento – conversão de área de pasto para uma formação nativa de bambu, planta com forte potencial de remoção de CO₂ da atmosfera.

Para Milton Insuela Jr., sócio-diretor da Vert Ecotech (Fazenda Cristal), o crédito de carbono que foi emitido com sua reserva legal e área de proteção permanente será fundamental para manter a preservação do bioma. “É muito bom poder transformar um passivo ambiental em ativo econômico. Já estamos sendo procurados por companhias aéreas e grandes empresas que têm compromisso com a sustentabilidade.”

A área de 3,9 mil hectares poderá receber de US$ 20 a US$ 40 por tonelada de CO₂ compensada. “Também temos um posto avançado do Corpo de Bombeiros na fazenda, tecnologia de satélites para alertar possíveis incêndios e fazemos a conversão de 10% dos valores para cunho social, em benefício das ONGs da região da fazenda. O projeto é de 30 anos, podendo ser renovado por 100 anos”, celebrou o produtor de natureza.

Gratidão – O governador destacou a relevância do assunto e a iniciativa das instituições. “A mensagem central aqui é gratidão por todas as instituições estarem caminhando em direção onde conseguem monetizar algo intangível, que é a natureza”, ressaltou Riedel.

Ele afirmou que sempre teve a angústia do antagonismo entre produtores rurais e ambientalistas. “Jamais um pode estar contra o outro. Todos precisam andar juntos.” O governador acrescentou que, com o que foi apresentado, o produtor irá pensar 10 vezes no porquê estará mantendo a preservação do território.

“É uma grande contribuição, de produção da natureza, que abrange carbono, biodiversidade e água. E posiciona Mato Grosso do Sul na agenda global de produção de alimentos e transição energética. É a materialização do conceito e da linha de trabalho”, concluiu.


O secretário Jaime Verruck, da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia (Semadesc), destacou a ação do IHP, que é uma das primeiras do mundo a estabelecer um sistema de créditos ligados à biodiversidade.


“Esse é praticamente um dos primeiros créditos no mundo de biodiversidade. No caso, especificamente sobre a onça, que é chamado projeto Jaguar, onde é avaliado o habitat natural desse animal, fazendo a certificação de que existe um ambiente adequado para esse animal viver. Então, esse é o crédito que você consegue certificar que aquele ambiente é adequado para aquela espécie.”


Além disso, o secretário ressaltou a importância de discutir e fortalecer os créditos de biodiversidade como ferramenta essencial para a preservação das espécies. "Para preservar e discutir a questão de crédito de biodiversidade, é fundamental e uma questão importante para que a gente mantenha toda a preservação. Está muito ligado à filosofia que foi estabelecida na estratégia do Estado e que está representada na Lei do Pantanal", afirmou.


Pacto Pantanal – Vale acrescentar que o governo do Estado irá assinar o Pacto Pantanal no próximo dia 27. O documento será assinado por Riedel, juntamente com produtores e ambientalistas. A solenidade está programada para acontecer a partir das 8h30, no Bioparque Pantanal.


O documento segue sob sigilo. O que foi antecipado até o momento é que o Pacto Pantanal prevê a melhoria da qualidade de vida das comunidades locais e a garantia da preservação do bioma.


De acordo com o governo, trata-se de um grande programa integrado de desenvolvimento sustentável, voltado para fomentar boas práticas de preservação do ecossistema pantaneiro. A iniciativa reforça o compromisso com a sustentabilidade e o equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e a conservação ambiental.


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sexta-feira, 21 de março de 2025

A vida pode não ter começado com o código genético do DNA

 

A vida pode não ter começado com o código genético do DNA

Redação do Diário da SaúdeA vida pode não ter começado com o código genético do DNA
Você sabia que os raios solares afetam o RNA, e não o DNA?
[Imagem: AI-generated/Joanna Masel]

Reescrevendo a história do código genético

Você leu há poucos dias sobre a descoberta de que a evolução não é cega e nem aleatória, que há uma "previsão" na evolução? Pois agora cientistas descobriram aspectos totalmente novos sobre a origem do código genético, e estão afirmando que a história dos registros em nosso DNA pode precisar ser reescrita.

Apesar de uma diversidade excepcional, quase todas as formas de vida na Terra - das bactérias às baleias azuis - compartilham o mesmo sistema de código genético, com "instruções" impressas em pares de base nas moléculas de DNA.

Mas como e quando esse código genético surgiu pela primeira vez nos seres vivos tem sido objeto de muita controvérsia científica.

Adotando uma nova abordagem para esse problema antigo, Sawsan Wehbi e colegas da Universidade do Arizona (EUA) descobriram agora fortes evidências de que a versão clássica - a mais aceita pelos cientistas - de como o código genético universal evoluiu precisa ser revisada.

"O código genético é uma coisa incrível, na qual uma sequência de DNA ou RNA contendo sequências de quatro nucleotídeos é traduzida em sequências de proteínas usando 20 aminoácidos diferentes," contextualiza a professora Joanna Masel. "É um processo assustadoramente complicado, e nosso código é surpreendentemente bom. É quase ótimo para um monte de coisas, e deve ter evoluído em estágios."

E é aí que surge o problema: Os novos dados indicam que a ordem em que os aminoácidos - os blocos de construção do código genético - foram recrutados está em desacordo com o que é amplamente considerado o consenso da evolução do código genético.

A vida pode não ter começado com o código genético do DNA
Misteriosos nós de DNA estão espalhados em pontos essenciais do genoma humano.
[Imagem: Cristian David Peña Martinez et al. - 10.1038/s44318-024-00210-5]

Experimentos falhos

O estudo revelou que a vida primitiva preferia moléculas de aminoácidos menores, em vez de maiores e mais complexas, que foram adicionadas mais tarde. Além disso, aminoácidos que se ligam a metais se juntaram muito antes do que se pensava anteriormente. Finalmente, a equipe descobriu que o código genético de hoje provavelmente veio depois de outros códigos que já foram extintos.

Os pesquisadores argumentam que a compreensão atual de como o código genético evoluiu é falha porque se baseia em experimentos de laboratório, e não em evidências evolutivas, e esses experimentos podem ser enganosos ou mal projetados.

Por exemplo, um dos pilares das visões convencionais da evolução do código genético veio do famoso experimento Urey-Miller, feito em 1952, que tentou simular as condições na Terra primitiva que provavelmente testemunharam a origem da vida.

Embora tenha sido valioso ao demonstrar que a matéria não viva pode dar origem aos blocos de construção da vida, incluindo aminoácidos, por meio de reações químicas simples, as implicações do experimento foram questionadas. Por exemplo, ele não produziu nenhum aminoácido contendo enxofre, apesar de esse elemento ser abundante na Terra primitiva. Como resultado, passou-se a acreditar que os aminoácidos sulfúricos teriam se juntado ao código genético muito mais tarde. No entanto, esse resultado não é surpreendente simplesmente porque o enxofre não entrou na lista de ingredientes usados naquele experimento.

Ancestral comum universal

A equipe usou ainda um novo método para analisar sequências amino na árvore da vida, voltando até o último ancestral comum universal, ou LUCA (Last Universal Common Ancestor)), uma população hipotética de organismos que teria vivido há cerca de 4 bilhões de anos e representa o ancestral compartilhado de toda a vida na Terra hoje.

Ao contrário de estudos anteriores, que usaram sequências de proteínas de comprimento total, a equipe se concentrou em domínios de proteínas, trechos mais curtos de aminoácidos. "Se você pensar na proteína como um carro, um domínio é como uma roda. É uma peça que pode ser usada em muitos carros diferentes, e as rodas existem há muito mais tempo do que os carros," comparou Wehbi.

A equipe identificou mais de 400 famílias de sequências que datam do LUCA. Mais de 100 delas se originaram ainda mais cedo e já tinham se diversificado antes de LUCA. Essas acabaram contendo mais aminoácidos com estruturas de anel aromático, como triptofano e tirosina, apesar desses aminoácidos serem adições tardias ao nosso código.

"Isso dá dicas sobre outros códigos genéticos que vieram antes do nosso, e que desde então desapareceram no abismo do tempo geológico," propõe Masel. "A vida primitiva parece ter gostado de anéis."

Checagem com artigo científico:

Artigo: Order of amino acid recruitment into the genetic code resolved by last universal common ancestor’s protein domains
Autores: Sawsan Wehbi, Andrew Wheeler, Benoit Morel, Nandini Manepalli, Bui Quang Minh, Dante S. Lauretta, Joanna Masel
Publicação: Proceedings of the National Academy of Sciences
Vol.: 121 (52) e2410311121
DOI: 10.1073/pnas.2410311121

A partir do barro, artista indígena cria peças que denunciam ‘craquelamento’ da terra pelo agronegócio

 https://www.brasildefato.com.br/podcast/bem-viver/2025/03/19/a-partir-do-barro-artista-indigena-cria-pecas-que-denunciam-craquelamento-da-terra-pelo-agronegocio/

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De Goiânia, Sallisa Rosa está em exposição no Sesc Pompeia, em São Paulo, com entrada gratuita

 Lucas Salum



 Em cartaz no Sesc Pompeia, região central de São Paulo (SP), a exposição Eixo Terra, de Sallisa Rosa, é resultado da percepção da artista sobre como os recursos naturais estão se esgotando e alterando o eixo de rotação do planeta.

“Às vezes, quando a gente pensa em aquecimento global, a gente está pensando no gelo derretendo. Mas essa água que está dentro do planeta, no lençol freático, é justamente a água que é usada no processo de irrigação de produção de alimento, que é a água usada pelo agronegócio”, explica em entrevista ao Conversa Bem Viver desta quarta-feira (19). “O processo de irrigação tira gigatoneladas de água de um lugar e joga em outro. E isso poderia estar afetando o eixo de rotação da Terra.”

“A exposição foi feita como uma provocação muito grande pra gente pensar nesse craquelamento, na desertificação, nas voçorocas que estão acontecendo no Brasil em várias partes. Isso tudo tem relação com essas águas subterrâneas.”

Construídas a partir de barro e água, as obras em exposição foram feitas enquanto a montagem era construída, de modo que os visitantes pudessem acompanhar o processo. Os trabalhos são constituídos por tijolo de adobe, pau a pique, taipa de pilão e hiperadobe.

Natural de Goiânia (GO), Sallisa Rosa atualmente é residente artística na Rijksakademie, em Amsterdã. Já realizou exposições individuais, como na Pinacoteca de São Paulo (2024) e no Museu de Arte Moderna (MAM) Rio de Janeiro (2021), além de participar de importantes mostras coletivas, incluindo Social Fabric: Art and Activism in Contemporary Brazil em Austin, Texas, nos Estados Unidos, e Histórias Brasileiras e Histórias Feministas no Museu de Arte de São Paulo (MASP).

Em 2021, foi premiada com o Príncipe Claus Seeds Awards, e seu trabalho foi destacado na Trienal do Serviço Social do Comércio (Sesc) em Sorocaba (SP). A artista também integrou a coletiva Dja Guata Porã: Rio de Janeiro Indígena no Museu de Arte do Rio (MAR), em 2017.

Confira a entrevista na íntegra

Como foi constituído a ideia da exposição?

O trabalho está relacionado com uma matéria que eu li em um artigo científico, na verdade, na revista Science, há uns dois anos. Eu não sou cientista, mas me senti provocada pelo artigo que falava do movimento das águas internas do planeta, que isso é muito relacionado com o lençol freático.

Eu fiquei muito intrigada com isso, porque, às vezes, quando a gente pensa em em aquecimento global, a gente pensando no gelo derretendo, e essa água que está dentro do planeta, que é uma coisa muito invisível, é justamente a água que é usada no processo de irrigação de produção de alimento, que é a água usada pelo agronegócio.

Esse artigo falava da possibilidade de mudança de peso do planeta porque o processo de irrigação tira gigatoneladas de água de um lugar e joga em outro. E isso poderia estar afetando o eixo de rotação da Terra.

Então chama Eixo Terra para pensar nessa provocação de como que a humanidade está desequilibrando esse eixo do planeta.

A exposição foi feita como uma provocação muito grande pra gente pensar nesse craquelamento, na desertificação, nas voçorocas que estão acontecendo no Brasil em várias partes. Isso tudo tem relação com essas águas subterrâneas.

Você percebe que as pessoas têm captado a mensagem dos seus trabalhos?

Uma vez eu fiz, quando eu fiz essa residência em Belo Horizonte, o objetivo era fazer uma horta de mandioca.

Foi muito doido porque eu lembro que eu postei no Facebook e eu não conhecia ninguém na cidade e apareceram 100 pessoas querendo plantar a mandioca.

Então eu acho que as pessoas têm uma necessidade muito grande, especialmente na cidade, de entrar em contato com a Terra e de aprender essas coisas que a gente esqueceu.

Eu acho que faz muito mais sentido fazer isso em São Paulo, especialmente, porque é uma cidade muito concreta, e as pessoas estão muito interessadas nisso.

Você fala também que sua obra tem um resgate de memórias. Ao que você se refere?

A minha avó se chama América justamente. Eu sempre fiz muita relação da minha avó América com o continente América.

A minha avó é grande, ela é farta… Quando a minha avó foi diagnosticada com o Alzheimer eu tive muita dificuldade de lidar.

A partir daí eu comecei a pensar em memória de outro jeito, fazendo uma relação da memória da minha avó América com a memória coletiva do continente América.

Eu acho que tem uma questão da memória coletiva no Brasil, que não é específica da minha família, mas de muitas famílias, que é essa coisa de não ter acesso à sua memória e de perder a memória de alguma maneira.

Então eu comecei a trabalhar pensando como que eu poderia guardar essa memória, essa pouca memória que restava pra mim, pra minha família.

A forma que eu encontrei de cuidar dessa memória foi colocar essa memória na terra.

Então, o meu processo de trabalhar com a cerâmica é muito artesanal, usando sempre só as mãos e mentalizando isso, as lembranças e as recordações de colocar ela nessa terra.

Ao mesmo tempo, eu acho muito forte o fato de uma pessoa lá do Centro-Oeste, uma pessoa racializada, ter esse nome porque nasceu no dia 12 de outubro, que é o dia que foi invadida essa terra.

É uma forma de pensar a minha avó como um território, a América como um território

Eu sou de uma geração que as avós tiveram que trabalhar muito e lutar muito para a gente conseguir um pouquinho. Então eu falo que agora eu estou fazendo esse trabalho de lembrar o que essa geração teve que esquecer. Porque muita gente, muita coisa, a gente não sabe porque são histórias de violência.

Então eu estou fazendo esse trabalho de neta, que é esse trabalho de lembrar, e eu acredito que a Terra ajuda a gente a lembrar.

Quando o arqueólogo encontra, sei lá, um pote, uma cerâmica, tem toda uma história atrás desse pote, dessa cerâmica, e eu acho que entrar em contato com a Terra, que é essa memória muito antiga, ajuda a gente a lembrar também.