Pescadores usam botes para estender redes no interior de Mamirauá. Foto: Alex Chaffee/Flickr.
Pescadores usam botes para estender redes no interior de Mamirauá. Foto: Alex Chaffee/Flickr.
Manaus, AM --


 Agentes ambientais das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, interior do Amazonas, ainda aguardam medidas concretas para proteger estas duas Unidades de Conservação estaduais. Há duas semanas, uma comissão de agentes esteve em Manaus para denunciar crimes ambientais e pedir fiscalização na área. Como resultado, até agora, conseguiram uma audiência pública, para discutir as denúncias, no dia 4 de maio, no Ministério Público Federal.



Eles querem providências contra a pesca ilegal que ocorre nas Unidades de Conservação. Embora as embarcações não entrem nas reservas, segundo conta o presidente da Associação dos Agentes Ambientais, Lázaro Alcimar, pescadores usam botes para estender redes em lagos no interior das RDS. Apesar de alertarem pescadores sobre a proibição, os agentes ambientais afirmam não ter autoridade para impedir a atividade e se sentem amedrontado, porque muitos pescadores trabalham armados.


“Eles chegam no lago e conseguem colocar a malhadeira à noite e aproveitam o momento em que os agentes ambientais e os comunitários não estão na área”, conta Lázaro Alcimar. Os pescadores usam redes de até 100 metros, que muitas vezes se estendem de uma margem a outra do lago, de acordo com Alcimar.


A pesca ilegal prejudica, por exemplo, o manejo do pirarucu. Além de reduzir o estoque dos peixes em áreas dentro da reserva, a concorrência do produto ilegal afeta o mercado para o peixe manejado. “Tem prejudicado porque lá nas áreas têm manejo. Nessas áreas, dessas duas unidades, se faz manejo do pirarucu e de outras espécies”, conta o presidente da associação.


Os agentes ambientais denunciam também que uso de jacarés e botos para a pesca da piracatinga voltou a ocorrer na região, inclusive dentro das reservas. “Você vai lá no rio por onde a gente mora e de vez em quando bate aquele pedaço de jacaré morto, podre”, conta o agente ambiental Noé Parente da Paz, que vive na comunidade Barroso, margem esquerda do Rio Solimões. “Toda noite vão focar, vão nos lagos atrás de jacaré. A gente fica preocupado com isso, porque cada vez está aumentando mais. E nós não temos esse poder de ir lá e fazer a apreensão”, completa.


Mamirauá foi a primeira Reserva de Desenvolvimento Sustentável do estado do Amazonas. Foi criada em 1990, como Estação Ecológica, a partir de uma solicitação feita pelo primatólogo José Márcio Ayres ao governo federal. Ela ocupa 1,124 milhão de hectares, no Médio Solimões. Amanã surgiu um pouco depois, em 1998, e é ainda maior, possui 5,746 milhões de hectares (maior do que o estado da Paraíba) entre Mamirauá e o Parque Nacional do Jaú, na Bacia do Rio Negro.


“Nós, como agentes ambientais, fazemos nossa parte lá. Nós educamos, nós mobilizamos, nós trabalhamos na parte de mobilização social também”, afirma o agente ambiental Muniz Torda, que mora na comunidade de Vila Soares, Mamirauá, a vinte quilômetros da cidade de Uarini.  “Quando decreta uma reserva, o estado tem o dever de ajudar a cuidar e apoiar, principalmente na fiscalização”, defende.


De acordo com a comitiva, atualmente 124 agentes ambientais atuam nas RDS Mamirauá e Amanã, onde vivem mais de 20 mil pessoas. Em Manaus, em menos de uma semana, eles tiveram reuniões com Ibama, Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa e Ministério Público Federal. Apenas o Ministério Público Estadual deixou de responder aos pedidos de audiência.


E, por falta de tempo, não puderam apresentar a situação diretamente à Secretaria Estadual de Segurança.



Luís Sérgio dos Reis, agente ambiental da comunidade de Boa Esperança, no Lago Amanã, faz um apelo pelo futuro das reservas. “Se nós não garantirmos o futuro de quem está chegando e de quem vai chegar, vai se tornar uma dificuldade para sobreviver”, diz. “Porque nós estamos tirando o mais fácil e está ficando o mais difícil. Nós temos que garantir o futuro das pessoas e tem que ser hoje, porque amanhã pode ser muito tarde”.