Inventário florestal e formação de jovens será legado da bacia do Rio Doce
Ana Maria 18/12/2019
O caminho paraum futuro mais sustentável, com o engajamento dos jovens em toda a bacia do Rio Doce, vai muito além das reparações obrigatórias para a Fundação Renova
O impacto do desastre ocorrido em Mariana em novembro de 2015
continua presente na vida das pessoas afetadas direta ou indiretamente
nos 39 municípios ao longo do Rio Doce e seus afluentes. Mas também é
verdade que outra história começa a ser construída. Uma história que não
quer apagar o passado, mas edificar um futuro mais sustentável para a
região.
Por meio de diversos projetos a Renova realiza ações que permanecerão como um legado quando a fundação concluir suas ações de reparação socioambiental.
A ideia é que, quando isso ocorrer, haverá muitas pessoas e
organizações capacitadas a dar continuidade a projetos e planos que
sejam, ao mesmo tempo, economicamente viáveis e estruturantes para o
desenvolvimento da região.
Sementes da Vida
Um projeto que possui grande alcance é a Rede Sementes e Mudas, que
começa seus trabalhos para atender as áreas degradadas na bacia do Rio
Doce nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Neste início de
programa, o objetivo é desenvolver mudas e sementes de espécies nativas
da Mata Atlântica para a recuperação de 5 mil nascentes e 40 mil hectares
de áreas que não foram diretamente atingidas pelo rejeito da barragem
de Fundão. Mas a ideia é ir além, criando uma grande cadeia produtiva
para a restauração ambiental de longo prazo promovendo, dessa maneira,
oportunidades de geração de emprego e renda permanentes.
Rede de Sementes e Mudas lançada no fim de 2019 para recuperação florestal. crédito: Leonardo Morais/Fundação RenovaA Rede de Sementes engloba coletores de sementes e produtores de mudas
e, além de fornecer para a Renova, também poderá trabalhar livremente
com outros interessados. Entre os principais objetivos da iniciativa
está o desenvolvimento de um mercado sustentável de valorização das
espécies nativas, que sirva de exemplo para ser replicado em outras
partes do país.
Entre as parcerias já firmadas está a com o Assentamento Liberdade,
no município de Periquito (MG). Lá vivem 33 famílias assentadas pelo
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e outras
seis, que aguardam a conclusão de seus processos. “Com essa parceria, o
desejo do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), que atua na área,
é o de produzir e ao mesmo tempo proteger a natureza. Produzir água e
comida de forma sustentável”, explica Agnaldo Batista, coordenador do
setor de produção do MST em Minas e, completa: “A bacia do Rio Doce
sofreu 200 anos de degradação ambiental, que só se agravou com o
rompimento da barragem”.
Nos viveiros do Assentamento Liberdade são produzidas 11 espécies
nativas da Mata Atlântica. “Elas são divididas em duas funções
ecossistêmicas: as de recobrimento, para crescer rápido em solos pobres e
formar copas para combater o capim, que é uma espécie exótica e
invasora, e as espécies de diversidade, que vão durar mais tempo,
chegando a 100, 200 ou mais anos e garantindo a perpetuação da
floresta”, conta, com otimismo, Leandro Abrahão, engenheiro florestal e
analista socioambiental da Fundação Renova. Segundo ele, o trabalho
acaba sendo facilitado graças à organização das famílias e a boa
capacidade de produção. “Temos um potencial grande. Atualmente possuímos
em torno de 700 mil mudas nos seis viveiros espalhados pelo estado”,
informa Leandro.
No
Viveiro Periquito são produzidas plantas para afastar as espécies
invasoras e árvores nobres, que viverão por décadas. – crédito:
Guilherme Dutra
O Assentamento Liberdade busca entidades e empresas que possuem
passivo ambiental ou iniciativas de recuperação e que possam se
interessar em firmar convênio. Exemplo importante do trabalho do grupo é
o convênio estabelecido com a Companhia Energética de Minas Gerais, a
Cemig, que servirá para reduzir o passivo ambiental acumulado em várias
obras da estatal mineira que causaram desmatamento. Serão reflorestadas
áreas em diferentes regiões do estado, somando 116 hectares. Parcerias
também estão sendo firmadas para a criação e o desenvolvimento de outros
viveiros.
Patrimônio florestal mapeado
Talvez um dos mais importantes legados a ser deixado pela Fundação
Renova será o Inventário Florestal. É um estudo inédito que está sendo
realizado sobre as condições da vegetação e do solo em 86.715 km² da
bacia do Rio Doce. Para o projeto, serão coletados dados dos indivíduos
vegetais, como: altura, diâmetro à altura do peito, espécies, entre
outros.
QRCode que é instalado nas árvores catalogadas para o Inventário Florestal. crédito: Arquivo Fundação Renova
Este será o mais completo Inventário Florestal já realizado no Brasil
e deve ser concluído até o final do próximo ano (2020). A complexa
tarefa está sendo levada à frente com a fundamental colaboração dos
produtores rurais. As conclusões do estudo servirão como base para as
futuras ações de recuperação ambiental na região.
“O inventário é muito importante para saber quais espécies ocorrem
naturalmente e quais se adaptam melhor em cada tipo de ambiente, como
topos de morro, áreas de encosta ou em áreas suscetíveis a alagamentos
sazonais, por exemplo. Dessa forma, teremos conhecimento dos ambientes
de referência para que possamos comparar o avanço do processo da
restauração florestal, tendo como base ambientes de regeneração natural
em diferentes estágios de sucessão ecológica”, explica Leandro Abrahão,
analista socioambiental da Fundação Renova.
Compartilhando conhecimento e experiências
Por fim, o projeto “O futuro do Rio Doce somos nós”, de Formação de Lideranças Jovens,
faz parte da agenda da Renova para a bacia do Rio Doce. O projeto tem
como principais objetivos o engajamento e o empoderamento das
comunidades, por meio de seus jovens, na construção de soluções para
melhoria da qualidade socioambiental em todos os territórios impactados
pelo rompimento da barragem de Fundão. As ações são organizadas, em
parceria com a Renova, pelo Instituto Elos, que é uma organização com
experiência em ações em regiões de alta vulnerabilidade social para
fortalecer a capacidade das pessoas de transformar a própria realidade.
Em 2018, o Instituto Elos selecionou 90 jovens de 22 municípios ao
longo da bacia do Rio Doce para participar de processos de formação
educacional e de liderança. Hoje, 23 projetos estão sendo implementados.
Entre os projetos selecionados, estão ações para reflorestamento e
revitalização de nascentes, intervenções culturais, desenvolvimento
profissional de jovens em situação de vulnerabilidade social,
empreendedorismo negro e oficinas artísticas.
Eles atuam com ações de articulação, mobilização, formação e
engajamento que contribuem para alavancar o desenvolvimento sustentável
da bacia do Rio Doce. No processo de implantação, os grupos foram
assessorados pelas equipes da Fundação Renova e do Instituto Elos.
Importante destacar que os projetos foram escolhidos pelos próprios
jovens de acordo com suas realidades e necessidades em cada território e
comunidade.
Entre os projetos contemplados estão vários que repensam os cuidados com a recuperação ambiental, como o Reviva Nascentes.
“Grupo de jovens de Tumiritinga (MG) criou o grupo Reviva Nascentes com o apoio do Instituto Elos”. Crédito: Lucas Santos
Voltado para os jovens moradores do Assentamento 1º de Junho, em
Tumiritinga (MG), a ideia vai além do trabalho de recuperação das
nascentes, promovendo mutirões comunitários para criação de Sistemas
Agroflorestais – os SAFs –, que buscam fazer a integração da preservação
da natureza com atividades de produção agrícola. Como explica Jamesson
Alves Pereira, de 27 anos, um dos três coordenadores e idealizadores do
Reviva Nascentes: “O projeto é muito bacana, pois mexe com a cabeça das
pessoas, o modo como elas olham para a natureza, para a água e para as
nascentes. É um processo muito transformador”.
Jamesson, assim como outros jovens que integram os vários projetos
apoiados pela Renova e pelo Instituto Elos, acredita que o alcance e a
dimensão das atividades têm a capacidade de serem maiores: “o ato de
cercar uma nascente não vai ajudar só a comunidade, mas vai ajudar o
mundo inteiro”, afirma o jovem. Ele ainda analisa outros benefícios
obtidos com esse trabalho coletivo: “O projeto vai dando força para
gente. Por meio dele as pessoas vão se unindo, conhecendo mais sobre o
outro, acho isso bom demais”, diz ele, entusiasmado.
Tudo fica realmente mais fácil quando se entende que batalhar pelo
bem comum é a melhor maneira de atingir uma vida plena e sustentável
para si mesmo. (#Envolverde)
Retrospectiva de 2019 e perspectivas para 2020 na área ambiental
Confira os principais acontecimentos do ano e o que podemos esperar para 2020 em relação a questões ambientais
Por Rede de Especialistas em Conservação da Natureza
O ano de 2019 foi marcado por uma série de discussões
voltadas à questão ambiental em todo o planeta, demonstrando a relação
direta que a proteção da biodiversidade tem com o desenvolvimento
econômico e com o bem-estar da população. No Brasil, a pauta ambiental
foi conduzida principalmente por desastres que atingiram tanto o
continente quanto os mares.
“O Brasil é um País muito truculento quanto ao uso de seus recursos
naturais. Temos 500 anos de história de um extrativismo irresponsável e
que segue muito forte. Exploramos como um bem grandioso sermos o País
das florestas, o País campeão em biodiversidade, mas não respeitamos
isso na prática”, ressalta o diretor executivo da Sociedade de Pesquisa
em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e membro da Rede de
Especialistas em Conservação da Natureza, Clóvis Borges.
Confira alguns dos fatos que marcaram 2019 e outros que devem direcionar os debates em 2020:
2019:
Desmatamento da Amazônia
Em comparação com o ano anterior, a área desmatada na Amazônia
registrou um aumento de 29,5%, segundo dados do Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (Inpe). Em 2018, foram registrados cerca de 7,5 mil
km² desmatados. A área aumentou para 9,7 mil km² em 2019.
Foto: Mayke Toscano | Gcom-MT
2019:
Queimadas na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal
Segundo levantamento do Inpe, do dia 1º de janeiro ao dia 31 de
agosto, cerca de 113 mil km² de áreas naturais foram queimadas na
Amazônia, Cerrado e Pantanal. Em comparação com o ano anterior, essa
área representa um aumento de 87%, o que equivale a duas vezes o estado
da Paraíba. Pesquisadores identificaram que entre as principais causas
para a ocorrência das queimadas estão o desmatamento, a preparação do
solo para a agricultura e os incêndios acidentais.
Crédito: Erika Berenguer
2019:
Brumadinho
Mais que um desastre ambiental, o rompimento de uma barragem da Vale,
em Brumadinho (MG), foi uma tragédia humana que ocasionou 270 mortes –
13 vítimas seguem desaparecidas. Ao todo, 9,7 milhões de m³ de rejeitos
vazaram do reservatório, atingindo uma área de 290 hectares ao longo de 9
quilômetros de distância até chegar ao Rio Paraopeba.
2019:
Redução e extinção de áreas protegidas
Durante o
ano, foi anunciada a extinção de algumas áreas de preservação brasileiras e a
redução de mais de 60 unidades de conservação com estradas federais, ferrovias,
portos e aeroportos dentro de seus limites. A justificativa dada foi eliminar
“interferências” com estruturas existentes e dar “segurança jurídica” para os
empreendimentos. Isso não se concretizou, mas o assunto deve continuar em pauta
em 2020, já que a Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados aprovou
recentemente um projeto que torna obrigatória a consulta pública e a realização
de estudos técnicos para reduzir ou extinguir unidades de conservação. O
projeto está em avaliação na Comissão de Constituição e Justiça.
2019:
Recorde de concentração de gases do efeito estufa
A Organização Mundial Meteorológica (OMM) divulgou que os níveis de
dióxido de carbono, metano e óxido nitroso (os três principais gases
captadores de calor) atingiram concentração recorde, acelerando ainda
mais os efeitos das mudanças climáticas. Entre as consequências estão
condições climáticas extremas, escassez hídrica e aumento do nível do
mar.
Crédito: iStock
2019:
Derramamento de óleo no litoral brasileiro
Pelo menos 900 praias foram atingidas pelo derramamento de óleo que
teve início em agosto. Praias do Nordeste, além do Espírito Santo e Rio
de Janeiro foram atingidas pelo desastre ambiental que afetou a
biodiversidade marinha, o turismo, a economia local, a saúde e o
bem-estar da população.
Praias do Nordeste, Espírito Santo e do Rio de Janeiro foram atingidas pelo derramamento de óleo em 2019. Créditos: Adema | Governo de Sergipe
Para
2020: Adaptação às mudanças Climáticas
“Em 2020,
durante a COP 26, vamos fechar as regras do Acordo de Paris e apresentar de
fato as ambições para conter o avanço das mudanças climáticas. Será um ano para
os países darem o exemplo e os cientistas clamarem por metas mais ambiciosas.
As negociações climáticas serão intensas durante todo o ano e devem ganhar
grande espaço no noticiário, nas negociações bilaterais entre países, nas
mobilizações sociais, nos eventos científicos e nos fóruns empresariais”,
destaca o gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de
Proteção à Natureza, André Ferretti.
Para
2020: Mobilização dos jovens
“O fenômeno Greta Thunberg é muito interessante e afeta de uma forma
bastante sensível alguns movimentos de jovens aqui no Brasil. Isso
mostra uma sensibilidade e uma necessidade de protagonismo dos jovens,
que reconhecem nos adultos uma incapacidade de tomada de decisão mais
consistente com os desafios existentes, além de identificarem uma falta
de propósitos mais sérios dos gestores atuais”, afirma Clóvis Borges.
Foto: Anders Hellberg
Para
2020: Aumento das queimadas na Amazônia
“Em 2020,
veremos novamente a questão ligada ao desmatamento e às queimadas. No ano que
vem, próximo ao meio do ano, tudo indica que vamos ter um novo número de
desmatamento na Amazônia, que tende a ser maior do que o de 2019. Como o fogo é
utilizado para limpar o terreno depois de desmatar, há uma tendência também no
aumento das queimadas”, relata André Ferretti, que também é membro da Rede de
Especialistas em Conservação da Natureza.
Para
2020: Chuvas intensas e adaptação urbana
“Temos de
lembrar que todos os anos nós enfrentamos problemas com as chuvas de verão, em
diferentes regiões do País. Registramos altas temperaturas e depois
tempestades. Conforme os anos vão passando, a intensidade dessas chuvas
aumentam e elas começam a atingir novos lugares. Precisamos exigir dos
municípios planos de adaptação para diminuir essa impermeabilização das cidades
com Soluções baseadas na Natureza, como o investimento na proteção e
recuperação de áreas verdes, possibilitando o escoamento da água. Ao mesmo
tempo, temos de reduzir as ilhas de calor nas grandes metrópoles, que atraem
essas grandes tempestades”, reflete Ferretti.
Créditos: iStock
Para
2020: De olho nas eleições municipais
Diante da
necessidade de adaptação das cidades para minimizar os impactos de eventos
climáticos extremos, Ferretti alerta que os eleitores devem ficar atentos aos
planos de governo dos candidatos ao executivo municipal. É importante que os
futuros prefeitos tenham em mente a necessidade de os centros urbanos serem
resilientes a tempestades, períodos de estiagem, vendavais, calor e frio
intensos. “Enquanto a crise climática é uma preocupação global, a adaptação e a
resiliência aos eventos climáticos extremos devem ser uma preocupação local. Os
futuros prefeitos devem estar atentos a isso”, diz Ferretti.
Para
2020: Década dos Oceanos
“Em 2020 estaremos às vésperas da Década do Oceano, definida pela ONU
para o período de 2021 a 2030. As discussões sobre o tema tendem a
aumentar, assim como a identificação de problemas e o desenvolvimento de
soluções. É o momento do País intensificar o investimento na
conservação e restauração da biodiversidade marinha, pensando em
aspectos ambientais, econômicos, sociais e no bem-estar da população”,
conclui Ferretti.
Em novembro, quem teve a oportunidade de visitar o Parque Natural
Municipal do Manguezal do Itacorubi, na região central de Florianópolis,
pôde observar a presença de uma ave diferente do habitual da cidade.
Isso porque um bando com cerca de mil Guarás voltou a habitar os
manguezais da Ilha. O último registro oficial da espécie na região foi
em 1763, publicado no livro Aves de Santa Catarina.
A novidade reforça a importância para a proteção e
preservação da biodiversidade nas Unidades de Conservação do Município,
principalmente em áreas de mangues, pois estas aves costumam se
alimentar de caranguejos presentes nos manguezais. A FLORAM (Fundação
Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis), que gere a Unidade,
ressalta que estas áreas servem de proteção para os bairros da região
costeira, pois amenizam a força da maré em eventos climáticos extremos,
evitando enchentes.
Fabrício Basílio Almeida, pesquisador do Observatório de Áreas
Protegidas e do Laboratório de Gestão Costeira Integrada da UFSC,
colaborou com as informações sobre o animal. Para ele, uma hipótese
plausível é que as aves tenham vindo da região norte do Estado: “Nestes
locais existem grandes bandos e um deles pode ter vindo para cá. Foi uma
surpresa para nós este retorno e estamos muito felizes. É propício que
ocorra a procriação e estamos torcendo por isso”.
Aviary of the Oceanogràfic in Valencia. | Foto: Rafa Esteve
Os Guarás vivem em grandes colônias e costumam se alimentar no
período de maré baixa e em manguezais. Em seguida, realizam revoadas em
grandes grupos no fim da tarde para dormirem em meio a vegetação.
Infelizmente, sua plumagem chamativa e colorida chamava a atenção de
caçadores, que utilizavam suas penas para exportações e adereços
festivos.
Bando de guarás em Floripa. | Foto: Fabrício Basílio Almeida
Preservar
grandes áreas naturais é uma oportunidade única para impulsionar a economia
regional. Além disso, os patrimônios cultural e histórico dessas regiões também
são ativos importantes para fomentar o turismo e despertar o interesse em
proteger áreas naturais. É isso que tem sido provado em duas iniciativas em
andamento em dois biomas brasileiros – Mata Atlântica e Pantanal.
A Grande
Reserva Mata Atlântica e o Alto Pantanal têm como base o conceito criado pelo
biólogo espanhol Ignácio Jiménez-Pérez, apresentada no livro Produção de Natureza: Parques, Rewilding
e Desenvolvimento Local. A proposta defende que a produção da
natureza seja a base para o desenvolvimento econômico e social de áreas que
preservam importantes patrimônios naturais.
Dessa forma, a natureza passa a oferecer produtos e atrativos que
podem ser aproveitados de forma sustentável pelo turismo. Nesse sentido,
a gestão adequada de áreas naturais protegidas com a finalidade de uso
público – como parques nacionais, estaduais e municipais – pode trazer
oportunidades permanentes de renda, principalmente às comunidades
locais, a partir do investimento na proteção da área e em infraestrutura
adequada para receber os visitantes.
Grande Reserva Mata Atlântica é formada por dois milhões de hectares localizados nos Estados do Paraná, São Paulo e Santa Catarina. Créditos: Fundação Grupo BoticárioA força
da biodiversidade
O Brasil
abriga a maior biodiversidade mundial, cerca de 20% das espécies do planeta.
Dessas, a Mata Atlântica – bioma cujo território foi reduzido a 7% da sua
cobertura original, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente – concentra
35% da biodiversidade vegetal nacional, além de cerca de 850 espécies de aves,
370 de anfíbios, 200 de répteis, 270 de mamíferos e 350 de peixes.
A área da
Grande Reserva abriga o maior remanescente de Mata Atlântica, formada por 2
milhões de hectares localizados nos estados do Paraná, São Paulo e Santa
Catarina e conectados por um mosaico de áreas naturais protegidas públicas
estaduais e federais e Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN).
A região
conta com espécies endêmicas, como o mico-leão-da-cara-preta e o papagaio-de-cara-roxa,
e animais ‘topo de cadeia’, como a onça-pintada, que indicam a qualidade
ecológica do local. O objetivo da iniciativa é tornar a região um destino
turístico de natureza como mecanismo para o desenvolvimento regional,
envolvendo uma grande rede de atores do empresariado local, poder público,
academia, gestores de unidades de conservação, ONGs e pessoas sensibilizadas,
“O patrimônio natural que temos é um importante ativo para o
desenvolvimento econômico e social. É preciso fortalecer a imagem da
Mata Atlântica como destino turístico e estimular a visitação para que
todos compreendam a importância da conservação e que a comunidade local
aprimore cada vez mais os serviços oferecidos”, afirma Malu Nunes,
diretora executiva da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza,
que também está à frente da iniciativa.
Localizado no bioma mais bem preservado do país, Alto Pantanal foi criado para pensar em oportunidades de negócios e melhorias para a cadeia do turismo regional. Créditos: Lalo de Almeida | Folhapress
Egípcios plantam floresta no deserto usando efluentes de esgoto
O trabalho teve início na década de 90, com
o intuito de promover a ecologização de 36 pontos diferentes no
deserto. A floresta Serapium é um dos frutos deste trabalho.
Plantar árvore no deserto já soa estranho, usando efluente de esgoto
fica ainda mais confuso. Mas, essa é a estratégia usada por um programa
de pesquisa no Egito. O trabalho teve início na década de 90, com o
intuito de promover a ecologização de 36 pontos diferentes no deserto. A
floresta Serapium é um dos frutos deste trabalho.
O processo de florestamento está localizado em uma bacia de
drenagem para efluentes de esgoto a duas horas de Cairo. O local recebe o
esgoto de mais de 500 mil habitantes, tornando-o ideal para abastecer
todo o plantio que cresce em suas margens. Foto: Reprodução
Os pesquisadores criaram um modelo de floresta que mescla espécies
nativas e exóticas de grande valor, como o eucalipto e o mogno. O solo é
coberto por folhas e possui tubos de irrigação que levam água e
nutrientes às árvores. O abastecimento é feito duas vezes ao dia e cada
árvore recebe, em média cinco litros de água. Foto: Reprodução
Como este é um recurso escasso no deserto nada de água potável é
usado no processo. Todo o sistema é abastecido com os efluentes de
esgoto, que passam por duas fases de tratamento antes de serem liberados
na plantação. Na primeira etapa são retirados os resíduos sólidos e na
segunda são incluídos micróbios e oxigênio, para decompor os materiais
orgânicos.
O que chega às árvores é um líquido com alta concentração de fosfato e
composto de azoto, que funcionam como excelentes fertilizantes
naturais. Por conta disso, o processo deixa o crescimento das árvores
muito mais rápido do que o tradicional, mesmo estando em condições
climáticas tão adversas. Um eucalipto, por exemplo, leva 15 anos para
crescer no Egito e alcançar o mesmo tamanho que na Alemanha levaria, em
média, 60 anos. Foto: Reprodução
Apesar de ser um processo com alto teor de nutrientes para o solo,
ele não é adequado para o cultivo de alimentos. Neste caso, os efluentes
teriam que passar por uma terceira fase de tratamento antes de seu
usado nas hortas. Mas, esta é uma opção para tornar o deserto uma área
produtiva, elevando a economia local, ao mesmo tempo em que colabora
para o controle da desertificação. Já que, segundo a Organização para a
Alimentação e Agricultura da ONU, a FAO, considera que os desertos se
espalham a um ritmo de 23 hectares por minutos.
Para conhecer mais sobre este processo, assista ao vídeo abaixo, produzido pela agência alemã
Deutsche Welle:
Racismo ambiental. A emergência climática pode ser enfrentada por
todos, ricos e pobres. Ou todos enfrentaremos um desastre em escala
bíblica. Entrevista especial com Henrique Cortez
Por Patricia Fachin, IHU
O fracasso da COP25 realizada em Madri no mês de dezembro não é uma novidade, apesar do crescimento de manifestações globais e da Greve Global pelo Clima, realizada em vários países em setembro deste ano. “Com exceção do Acordo de Paris, as COPs são
marcadas pelos fracassos. Ao longo do tempo, a sociedade civil vem
aumentando sua compreensão e engajamento pelas mudanças necessárias
diante da emergência climática, mas os países e seus negociadores caminham na direção contrária”, diz o jornalista Henrique Cortez à IHU On-Line.
Na avaliação dele, a falta de avanço nas Conferências Climáticas indica que “descarbonizar a economia é
um desafio que as lideranças políticas e econômicas dos países não
querem enfrentar, por diversas razões”. Entre elas, porque o
comprometimento com a redução das emissões de gás carbônico “abalaria
o atual modelo e sua estrutura de poder e, em segundo, porque é algo
inédito, que ninguém sabe como realmente seria”, afirma. Segundo ele,
o negacionismo climático que predomina em alguns setores da sociedade e
atores políticos “é um dos aspectos de um evidente movimento anticiência
e anti-humanista”, que implica em “retrocessos civilizatórios”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Cortez também comenta a agenda ambiental do primeiro ano do governo Bolsonaro e a proposta de elaborar uma Constituição da Terra, que tem sido discutida na Itália. “A ideia de um constitucionalismo universal é a mais correta, porque vivemos em uma casa comum e compartilhamos o mesmo futuro. É uma proposta lúcida e avançada, mas ainda longe de uma compreensão global”, conclui.
Henrique Cortez (Foto: Arquivo pessoal)
Henrique Cortez é jornalista especializado em meio ambiente, consultor em comunicação ambiental e editor do sítio EcoDebate, um dos parceiros estratégicos do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Que avaliação faz do ano de 2019 em termos ambientais? Henrique Cortez – 2019 foi um ano dos mais trágicos em termos socioambientais nas últimas décadas.
IHU On-Line – Em 2019 assistimos ao desastre em Brumadinho,
houve recordes de queimadas na Amazônia e vazamento de óleo no litoral
brasileiro. Como o senhor interpreta esses desastres ambientais? Henrique Cortez – As três tragédias a que se refere não estão diretamente associadas, mas têm em comum que nascem da lógica do desenvolvimentismo predatório e
que deixarão sequelas por muito tempo. São três desastres amplamente
conhecidos, então, não é necessário descrevê-los. Prefiro discutir a
lógica do modelo de desenvolvimento que orienta e justifica terríveis danos socioambientais.
O desenvolvimentismo a qualquer custo se esforça pelo maior lucro,
mesmo com o maior dano possível. É um modelo predatório que favorece a
poucos e prejudica a todos. É, na realidade, uma ganância estúpida,
porque vivemos em um planeta finito, com recursos igualmente finitos,
logo o desenvolvimento baseado na expansão infinita da economia não funcionará por muito tempo. Pena que reconhecer o óbvio nem sempre seja simples.
Vivemos em um planeta finito, com recursos
igualmente finitos, logo o desenvolvimento baseado na expansão infinita
da economia não funcionará por muito tempo – Henrique Cortez
IHU On-Line – A agenda ambiental do governo Bolsonaro foi
bastante criticada neste primeiro ano. Que balanço geral faz do modo
como o governo conduziu a pauta ambiental e quais foram os erros e
acertos na condução da política ambiental? Henrique Cortez – Prefiro defini-la como agenda antiambiental do governo Bolsonaro. Este foi um ano marcado por retrocessos na legislação, na conservação e na agenda socioambiental.
Bolsonaro, desde sempre, expressou seu desprezo pelas questões
ambientais, não apenas pela sua notória ignorância no tema, mas porque
possui uma visão de mundo da primeira metade do século XX.
É estranho, mas a atual versão tosca e bruta do desenvolvimentismo usa
argumentos semelhantes aos que os capitães da indústria, mineradores,
banqueiros e políticos populistas usavam na década de 30 do século
passado. E já sabemos o que veio em seguida.
Mas é hora de parar com a desculpa esfarrapada de que o desenvolvimentismo a qualquer custo gera
impostos, emprego e renda. O desenvolvimento predatório privatiza o
lucro e socializa o prejuízo. Ou para quem precisa de desenho — poucos
ganham e muitos perdem.
O desenvolvimento predatório privatiza o lucro e socializa o prejuízo – Henrique Cortez
IHU On-Line – No Brasil e em alguns outros países têm havido
um movimento político de contestação das mudanças climáticas e também de
outras pautas ambientais no sentido de negá-las. Como o senhor
compreende esse fenômeno e quais são os riscos ambientais, sociais e
políticos desse tipo de postura? Henrique Cortez – O negacionismo climático é um dos aspectos de um evidente movimento anticiência e anti-humanista, empenhado em diversos retrocessos civilizatórios, em alguns temas até antes do pré-iluminismo. Negacionismo climático, terraplanismo, movimento antivacina, criacionismo, fundamentalismo religioso, supremacismo, messianismo político etc.,
que se acreditava superados, retornam com vigor e violência, em defesa
de uma visão de mundo binária, maniqueísta, que, acima de tudo, é
inimiga da diversidade biológica, etnocultural, ideológica, religiosa
etc. Retrocessos civilizatórios são assustadores. Não importa se os
retrocessos são justificados por razões políticas, ideológicas ou
religiosas, porque eles nos fazem menos humanos do que poderíamos ser.
IHU On-Line – Muitos ambientalistas avaliam que a COP25 foi
um fracasso. Compartilha desse diagnóstico? Se sim, a que atribui o
resultado, num ano em que se intensificaram as manifestações sobre as
mudanças climáticas? Henrique Cortez – Com exceção do Acordo de Paris, as COPs são marcadas pelos fracassos.
Ao longo do tempo, a sociedade civil vem aumentando sua compreensão e
engajamento pelas mudanças necessárias diante da emergência climática,
mas os países e seus negociadores caminham na direção contrária.
Em geral, os países são a favor de tudo, desde que o tudo se refira aos outros. Descarbonizar a economia significa uma imensa modificação no modelo econômico,
ou seja, algo que nenhum líder político arriscará. Nada é mais
importante para um político do que a sua própria sobrevivência política.
O Papa Francisco e Greta Thunberg são
lideranças muito diferentes, mas compartilham a visão de futuro e a
crítica de que estamos no caminho errado – Henrique Cortez
IHU On-Line – Neste ano, assistimos a algumas manifestações
internacionais em prol do clima, denunciando os efeitos das mudanças
climáticas e cobrando ações políticas dos governos. Figuras como o Papa
Francisco e a ativista Greta têm sido tomados como referência na
mobilização pela questão climática. Ao mesmo tempo, a Organização
Mundial Meteorológica – OMM divulgou a informação de que os níveis de
dióxido de carbono, metano e óxido nitroso atingiram concentração
recorde. Que efeito esse tipo de mobilização e de informação tem gerado?
Qual é o impacto dessas figuras e dessas informações na luta pelo
clima? Henrique Cortez – Como disse, uma parcela da
sociedade já compreendeu que caminhamos para o desastre e está se
mobilizando, na tentativa de evitar o pior. Ainda é uma pequena parcela,
mas luta para ser ouvida e ampliar a compreensão do que nos espera.
O Papa Francisco e Greta Thunberg são lideranças muito diferentes,
mas compartilham a visão de futuro e a crítica de que estamos no caminho
errado. Eles nos lembram de que a atitude ecocida também é suicida. E, exatamente por isto, enfrentam resistências e críticas desqualificadoras.
Espero que as manifestações aumentem e que mais e mais pessoas
compreendam a dimensão da crise que se aproxima, permitindo, inclusive,
que surjam novas lideranças políticas, realmente comprometidas com as
mudanças necessárias, por mais difíceis que sejam. Não é possível
discutir alternativas de futuro com lideranças políticas e econômicas presas ao passado.
Descarbonizar a economia para estes governos é uma blasfêmia – Henrique Cortez
IHU On-Line – Desde o Protocolo de Quioto, há uma dificuldade
de os países chegarem a alternativas para enfrentar a crise climática.
Por quê? Quais são as dificuldades de tratar essa questão? Henrique Cortez – Descarbonizar a economia é um
desafio que as lideranças políticas e econômicas dos países não querem
enfrentar, por diversas razões. Em primeiro, porque abalaria o atual
modelo e sua estrutura de poder e, em segundo, porque é algo inédito,
que ninguém sabe como realmente seria.
Governos de países como EUA, Rússia, Austrália, ArábiaSaudita, e agora o Brasil, são assumidamente negacionistas climáticos porque querem preservar a economia emissora de carbono. Descarbonizar a economia para estes governos é uma blasfêmia.
Apegar-se ao passado impede a compreensão do futuro e isto vale para
governos e pessoas. No momento, poucos estão realmente comprometidos com
um futuro minimamente aceitável. E não vejo que isto vá mudar na
próxima década.
Além da nossa histórica alienação, também
estamos tentando melhorar a nossa vida hoje, sem conseguir como refletir
no futuro – Henrique Cortez
IHU On-Line – Qual a sua avaliação de movimentos como o
Fridays for Future? Por que a Europa e os EUA aderiram às greves pelo
clima com muito mais força que os países do Sul? Henrique Cortez – Movimentos como o Fridays for
Future são exemplos de uma sociedade civil cada vez mais consciente dos
desafios e das necessidades de mudança, não apenas na questão climática, mas também por uma sociedade mais justa e igualitária. Os temas de fundo são variados, mas críticos ao modelo atual.
Não sei por que isto ainda é mais forte na Europa e nos EUA do que nos países do hemisfério Sul,
mas acredito que seja pela grande disparidade nos problemas do
cotidiano. Ainda estamos discutindo educação, saúde, saneamento,
habitação, desigualdade, geração de emprego e renda, enquanto que vários
desses temas já foram superados nos EUA e Europa.
Além da nossa histórica alienação, também estamos tentando melhorar a
nossa vida hoje, sem conseguir como refletir no futuro. A sobrevivência
do indivíduo ainda pesa mais do que a sobrevivência do coletivo.
Com a crescente ascensão global do populismo, acho que os eventuais avanços serão milimétricos – Henrique Cortez.
IHU On-Line – A partir do resultado da COP25, quais são as
expectativas em torno do anúncio das metas climáticas a serem anunciadas
pelos países signatários do Acordo de Paris em 2020, na COP26 em
Glasgow? Henrique Cortez – Sinceramente, expectativa alguma.
Ao contrário, com a crescente ascensão global do populismo, acho que os
eventuais avanços serão milimétricos. IHU On-Line – No atual cenário de crise migratória, crise
econômica e tensões internas em vários países do mundo, qual a
perspectiva de a pauta ambiental ganhar destaque no próximo ano? Henrique Cortez – A sociedade aos poucos vai percebendo que a agenda socioambiental não
é acessória e, por isto, deve estar no centro das discussões nacionais e
internacionais. A distância entre a vontade da sociedade e as decisões
de seus governos deve aumentar. Não sei se este distanciamento cada vez
maior caminhará na direção de um rompimento, mas, cedo ou tarde, a
sociedade se fará ouvir.
Não apenas no próximo ano, mas também na próxima década, não vejo
mudanças significativas. As mudanças virão quando deixarem de ser
consenso científico para tornarem-se consenso na sociedade, pouco
importando se do hemisfério Sul ou Norte.
A Encíclica Laudato Si’, por exemplo, é
primorosa na defesa do cuidado da casa comum. Deveria ser pauta de
discussão, mas é amplamente ignorada – Henrique Cortez
IHU On-Line – Em que medida a concepção de uma outra
economia, como a que tenta inspirar o Papa Francisco, pode contribuir
tanto para repensar a economia quanto a crise climática e social? Henrique Cortez – Acho a reflexão proposta pelo Papa Francisco por
uma ‘economia que dá vida e não mata’ importante e necessária, mas não
acho que esteja sendo acolhida. Mesmo dentro da igreja e na maioria dos
fiéis, as ideias do Papa Francisco ainda são relativizadas, quando não ignoradas.
A Encíclica Laudato Si’, por exemplo, é primorosa na defesa do cuidado da casa comum.
Deveria ser pauta de discussão, mas é amplamente ignorada. Mudar é algo
difícil para qualquer pessoa e, para sociedades e seus governos, é
imensamente mais difícil. Mas acho importante que ele continue indicando
novos caminhos. É o certo a fazer e ele parece comprometido com isto.
“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”.
IHU On-Line – Quais são as perspectivas na pauta ambiental para o próximo ano do governo Bolsonaro? Henrique Cortez – Trágicas, não apenas no próximo
ano, mas em todo o mandato. Transtorno delirante persistente, suposições
conspiracionistas, achismo militante, desenvolvimentismo predatório e o racismo ambiental agora são orientadores de políticas públicas.
Na melhor das hipóteses, a agenda antissocioambiental deve evoluir ao longo do mandato. Na pior, deve se acelerar, na lógica de “Après nous le déluge” (Depois de nós, o dilúvio).
Creio que a agenda ambiental não terá peso nas eleições de 2020 – Henrique Cortez
IHU On-Line – Qual deve ser o peso da agenda ambiental nas eleições de 2020? Henrique Cortez – A agenda ambiental sempre foi ignorada em eleições municipais.
As pessoas, em geral, pensam nos prefeitos como ‘síndicos’ municipais,
essencialmente responsáveis pela zeladoria das cidades. Além disso, com
tantos desafios na saúde, educação, habitação, transportes urbanos,
parece que a questão ambiental é irrelevante. Não é, ao contrário, a
ecologia urbana é central nesses temas, mas isto não é percebido pela
população e menos ainda pelos políticos. Sintetizando, creio que a
agenda ambiental não terá peso nas eleições de 2020.
IHU On-Line – Na Itália, alguns têm proposto uma Constituição
da Terra como um instrumento para “salvar” o Planeta. Como vê essa
possibilidade? Um constitucionalismo universal seria uma via alternativa
para resolvermos os problemas de hoje? Henrique Cortez – A ideia de um constitucionalismo universal é a mais correta, porque vivemos em uma casa comum e compartilhamos o mesmo futuro. É uma proposta lúcida e avançada, mas ainda longe de uma compreensão global.
A crescente postura soberanista e antiglobalista, compartilhada pelo governo Bolsonaro, caminha na direção contrária e ainda é a visão dominante. Uma visão equivocada, porque as crises socioambientais não reconhecem fronteiras ou bandeiras. É uma grave tolice egocêntrica, desconectada da realidade.
A emergência climática pode ser enfrentada
por todos, ricos e pobres. Ou todos enfrentaremos um desastre em escala
bíblica – Henrique Cortez
IHU On-Line – Deseja acrescentar algo? Henrique Cortez – Para muitos, um aquecimento de
2°C até o final do século está dentro dos limites do aceitável e, por
isto, quaisquer ações só se justificam para um aquecimento potencial
maior do que isto.
Mas isto supõe um evidente racismo ambiental, que acredita que os maiores impactos serão nos países mais pobres, concentrados no hemisfério Sul.
De fato, os países pobres sofrerão mais e mais rápido, mas os países
ricos também serão afetados. Os ricos poderão morrer por último, mas
também morrerão.
Então, a emergência climática pode ser enfrentada por todos, ricos e pobres. Ou todos enfrentaremos um desastre em escala bíblica.
(EcoDebate, 23/12/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da
Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
Crescimento da floresta amazônica pós-desmate é bem mais lento do que se previa
Estudo revelou que, depois de 60 anos, partes da floresta que se renovaram após o desmatamento retinham apenas 40% do carbono em relação a florestas intocadas pelo homem
Floresta intacta no Acre: absorção de carbono substancialmente maior do que a floresta que cresce após um corte. Crédito: Gleilson Miranda/Governo do Acre/Wikimedia
O crescimento das árvores da floresta amazônica após o desmatamento tem acontecido muito mais lentamente do que se pensava, revela um novo estudo de pesquisadores brasileiros e britânicos publicado na revista “Ecology”. As descobertas podem ter impactos significativos nas previsões de mudanças climáticas, já que a capacidade das florestas secundárias de absorver carbono da atmosfera pode ter sido superestimada.
O estudo, que monitorou o crescimento da floresta ao longo de duas décadas, mostra que as mudanças climáticas e a perda maior de florestas podem estar prejudicando o crescimento das árvores na Amazônia.
Ao retirarem grandes quantidades de carbono da atmosfera, as florestas que cresceram após o desmatamento (comumente denominadas florestas secundárias) foram consideradas uma ferramenta importante no combate às mudanças climáticas causadas pelo homem. No entanto, o estudo mostra que, mesmo após 60 anos de crescimento renovado, as florestas secundárias estudadas retinham apenas 40% do carbono na comparação com florestas intocadas por seres humanos.
Se as tendências atuais continuarem, levará mais de um século para que as florestas se recuperem completamente. Isso significa que sua capacidade de ajudar a combater as mudanças climáticas pode ter sido superestimada.
Secas mais frequentes
O estudo também mostra que as florestas secundárias retiram menos carbono da atmosfera durante as secas. As mudanças climáticas, a propósito, estão aumentando o número de anos de seca na Amazônia.
O primeiro autor do trabalho, Fernando Elias, da Universidade Federal do Pará, explicou: “A região que estudamos na Amazônia registrou um aumento na temperatura de 0,1 °C por década, e o crescimento das árvores foi menor durante os períodos de seca. Com previsões de mais secas no futuro, devemos ser cautelosos com a capacidade das florestas secundárias de mitigar as mudanças climáticas. Nossos resultados sublinham a necessidade de acordos internacionais que minimizem os impactos das mudanças climáticas.”
Além de ajudarem a combater as mudanças climáticas, as florestas secundárias também podem fornecer um habitat importante para as espécies ameaçadas. No entanto, os pesquisadores descobriram que os níveis de biodiversidade nas florestas secundárias eram apenas 56% daqueles observados nas florestas locais não perturbadas, sem aumento na diversidade de espécies durante os 20 anos de monitoramento.
Muitos países fizeram grandes promessas de reflorestamento nos últimos anos, e o Brasil se comprometeu a restaurar 12 milhões de hectares de floresta sob o Acordo de Paris. Tomados em conjunto, esses resultados sugerem que essas grandes promessas de restauração florestal precisam ser acompanhadas por ações mais firmes contra o desmatamento de florestas primárias e uma consideração cuidadosa sobre onde e como reflorestar.
Apoio e investimento
A pesquisa foi realizada em Bragança, no Pará, a mais antiga região de fronteira de desmatamento da Amazônia que perdeu quase toda a sua cobertura florestal original.
“Nosso estudo mostra que, em áreas fortemente desmatadas, a recuperação florestal precisa de apoio e investimento adicionais para superar a falta de fontes de sementes e de dispersão de sementes”, afirmou a bióloga Joice Ferreira, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). “Isso é diferente de outros áreas que estudamos em que o desmatamento histórico é muito menor e as florestas secundárias se recuperam muito mais rapidamente sem nenhuma intervenção humana.”
Jos Barlow, professor da Universidade de Lancaster (Reino Unido), destacou a necessidade de mais estudos de longo prazo. “As florestas secundárias estão cada vez mais difundidas na Amazônia, e seu potencial de mitigação das mudanças climáticas as torna de importância global”, observou ele. “São necessários mais estudos de longo prazo como o nosso para entender melhor a resiliência das florestas secundárias e direcionar a restauração às áreas que irão funcionar melhor no sentido de combater as mudanças climáticas e preservar a biodiversidade.”
Agricultores participam de cursos sobre manejo ecológico de insetos em espécies florestais
Dividido em 3 aulas, curso faz parte do projeto Fortalecimento da Cadeia Produtiva de Sementes e Mudas na Amazônia
Com o objetivo de compartilhar
conhecimentos sobre o papel ecológico de insetos e o seu manejo em
agroecossistemas, a Embrapa Amazônia Ocidental promoveu nos dias 9, 10 e 16 de
dezembro três cursos abordando o Manejo Ecológicos de Insetos em Espécies
Agroflorestais.
As capacitações, coordenadas pela
pesquisadora Elisa Vieira Wandelli, são voltadas para técnicos, integrantes de
etnias indígenas, agricultores, profissionais e estudantes das áreas agrícolas,
biológicas e florestais interessados em manejo ecológico de insetos.
Os cursos são parte do projeto Fortalecimento
da Cadeia Produtiva de Sementes e Mudas na Amazônia – Mais Sementes / Fundo
Amazônia.
Três aulas
complementares
Segundo Elisa
Wandelli, os insetos são um grupo de invertebrado de extrema importância para
os processos ecológicos de agroecossistemas e só se transformam em praga se os
princípios da sustentabilidade agrícola forem desrespeitados. A importância
ecológica dos insetos e distinção entre insetos amigos da agricultura e os
prejudiciais foram tratados no primeiro curso “Manejo ecológico de insetos em
espécies agroflorestais: papel dos insetos nos agroecossistemas”, realizado dia
9, no Auditório Caiuaé, da Embrapa Amazônia Ocidental.
O curso teve dinâmica de grupo, visita ao
campo e ao laboratório de Entomologia, onde os participantes puderam trocar
informações com os instrutores e conhecer mais a respeito do comportamento, dos
benefícios e malefícios dos insetos em suas plantações.
No curso “Manejo ecológico de insetos em
espécies agroflorestais: quem é quem e manejo?”, realizado no dia 10, foram
discutidas as práticas agroecológicas de insetos desde o manejo da
paisagem até os bioinseticidas, visando apresentar alternativas ao uso de
agrotóxicos e estimular a restauração florestal e a implantação de sistemas
agroflorestais, além de fortalecer a cadeia de valores de sementes e mudas.
“Para manejar
adequadamente os insetos nos agroecossistemas é necessário compreender suas
diferentes funções benéficas ou prejudiciais e reconhecer sua morfologia e
habitat”, explica Elisa Wandelli,.
No curso realizado no dia 16, “Manejo
ecológico de insetos em espécies agroflorestais: Práticas de controle”, foi realizada a
troca de experiências sobre as técnicas de produção de biopreparos para manejo
de insetos.
Contexto
O projeto “Fortalecimento da cadeia produtiva
de sementes e mudas na Amazônia” (+ Sementes)” faz parte do Projeto Integrado
para a Produção e Manejo Sustentável do Bioma Amazônia (PIA), financiado pelo
Fundo Amazônia e operacionalizado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES). O PIA busca promover a produção e a disseminação de
conhecimentos e tecnologias voltadas para a recuperação, conservação e uso
sustentável da Amazônia, por meio de apoio a projetos e ações de pesquisa, desenvolvimento,
transferência de tecnologia, intercâmbio de conhecimentos e comunicação rural.
Brasil é o país com maior potencial de recuperação de floresta tropical, diz estudo
Pesquisa internacional liderada por professor da USP mostra que 11% das
áreas tropicais destruídas no mundo têm boas condições para serem
restauradas
Flavia Martin
03/07/2019 - 14:47
/ Atualizado em 03/07/2019 - 16:56
Mata Atlântica é o bioma que mais
apresenta oportunidade para restauração no Brasil – Foto: Kel Bis via
Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0
RIO — Um dos compromissos assinados pelo Brasil no Acordo de Paris, firmado em 2016, era recuperar até 2030 pelo menos 12 milhões de hectares das nossas florestas tropicais que já haviam sido destruídas, já que esse tipo de vegetação é fundamental, entre outras coisas, para reduzir o nível de carbono do ar. Mas onde? Quais áreas exatamente devem ser priorizadas?
Essa
é apenas uma das muitas respostas que um estudo inédito publicado hoje
na revista especializada "Science Advances" busca trazer.
Liderado pela americana Robin L. Chazdon, da Universidade de Connecticut, e pelo pesquisador Pedro Brancalion, da USP, o projeto foi financiado pela National Science Foundation,
uma das maiores agências de fomento americanas, e tinha como objetivo
elaborar um mapa global com as regiões mais atraentes para restauração
das florestas tropicais degradadas, tanto sob o ponto de vista ambienal
quanto econômico e social.
A
conclusão é que 11% ou 100 milhões de hectares ao redor do mundo (uma
área equivalente à Espanha e à Suíça juntas) possuem boas condições para
o reflorestamento, com altas relações de custo-benefício em termos de
redução de emissões de carbono, preservação da água e da biodiversidade das espécies, além de vantagens econômicas.
O Brasil lidera esse ranking de áreas, seguido de Indonésia, Madagascar, Índia e Colômbia.
—
Nos últimos cinco anos, surgiram várias metas globais com propostas de
recuperação de florestas para enfrentar os principais problemas
ambientais atuais, mas muitas delas estão num nível muito superficial. O
que queremos propor com esse estudo é como operacionalizar essas metas.
É uma etapa importante para atrair países, empresas e governos para
essa agenda de restauração — acredita Brancalion.
Encontro com governo e criação de um app
Durante quatro anos,
Brancalion e outros 11 pesquisadores avaliaram 66 países que possuem
florestas tropicais em seus territórios, cruzando imagens de satélite de
alta resolução e informações de bancos de dados.
O mapa mostra as regiões com oportunidades
de restauração de florestas tropicais no Brasil. A escala de pontuação
vai de 0 a 1. Quanto mais próximo do 1, maior é a oportunidade – Mapa:
cedido pelo pesquisador
A partir daí, definiram quatro prioridades a serem buscadas pelos benefícios da restauração: a conservação da biodiversidade
(quanto maior o número de espécies potenciais, maior a importância); o
potencial de estoque de biomassa de carbono; a adaptação às mudanças
climáticas (quanto maior a velocidade da mudança de clima, maior a
relevância); e a capacidade de garantir a segurança hídrica.
Paralelamente,
avaliaram a viabilidade do reflorestamento, como, por exemplo, os
ganhos dos agricultores em determinada área (quanto mais altos, menores
as chances de restauração) e as chances de persistência da floresta no
longo prazo.
Num momento posterior, atribuíram "notas" às terras tropicais, chegando num índice de "oportunidade".
Os
pontos mais promissores estão entre os 10% com melhor avaliação, ou
seja, são aqueles que trariam mais benefícios com o menor custo e risco.
—
Para efeitos de comparação, na fronteira de desmatamento da Amazônia,
as pressões sociais e econômicas são na direção da perda de floresta. É
muito arriscado e difícil investir dinheiro nessa região. Ao passo que,
no interior de São Paulo, por exemplo, onde já existe uma governança
ambiental mais bem consolidada e pressões no sentido inverso, tenho uma
chance maior de que uma floresta com investimentos em recuperação
persista no tempo — explica o pesquisador.
Além de um encontro no Ministério do Meio Ambiente para apresentar o
estudo, no próximo dia 17, o próximo passo é o lançamento de um
aplicativo, o GoFor, em fase final de desenvolvimento, para sistematizar
o uso da base de dados.
— A ideia é que uma ONG possa mandar para
seus investidores um relatório com nosso mapa, mostrando que atua em
área com as melhores oportunidades. Para poder dizer: "Em vez de
investir na Indonésia, invista aqui". Governos de outros países também
podem acessar os dados, as aplicações são múltiplas — detalha Brancalion
— Está provado que a restauração das florestas é a estratégia mais
barata, uma das mais eficientes e com múltiplos benefícios associados
para reverter a deterioração do meio ambiente. Não há outro caminho. Em
algum momento, a gente vai ter que fazer um melhor uso das áreas que já
foram degradadas.
Lençóis Maranhenses, Jericoacoara e Parque do Iguaçu privatizados pelo governo Bolsonaro
A maior parte das áreas ainda preservadas no Brasil estão em Terras Indígenas (TI) ou em parques nacionais. É a garantia de que, nessas terras pertencentes à União, o interesse público prevaleça sobre o privado.
Entretanto, o atual governo federal inverteu essa lógica dando
ao capital privado a oportunidade de intervir em terras públicas onde
funcionam os parques nacionais mais importantes do Brasil: Lençóis Maranhenses (Maranhão), Jericoacoara (Ceará) e Parque do Iguaçu (Paraná).
O Decreto de Privatização e o Programa Nacional de Desestatização
Esses três parques, que são os mais visitados do país, acabam de ser incluídos em um decreto de privatização de parques nacionais, publicado no Diário Oficial semana passada.
O Decreto nº 10.147, de 2 de dezembro de 2019, é breve e, portanto, não explicita como se dará a concessão.
O programa de privatização de parques nacionais está na lista de privatizações do Programa Nacional de Desestatização (PND), para fins de concessão da prestação de serviços públicos de apoio à visitação,
com previsão do custeio de ações de apoio à conservação, à proteção e à
gestão, algo similar ao que ocorreu com as empresas de telefonia e com
as concessionárias que administram rodovias.
O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) criticou a privatização dos três parques nacionais justificando que a razão não é falta de recursos, já que são os mais visitados do Brasil. Ele alega que o decreto revela um “entreguismo puro” dos bens brasileiros à exploração da iniciativa privada.
Os deputados federais Camilo Capiberibe (PSB-AP) e Bira do Pindaré (PSB-MA) também criticaram a medida:
“A proposta do governo muito nos preocupa, pois pretende dar uma destinação econômica para as unidades de conservação do meio ambiente,
atualmente controlados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade (ICMBio), sem se preocupar com os impactos ambientais e
sociais da região”.
Riquezas naturais em risco
Os três parques nacionais abrigam uma grande biodiversidade. Nos Lençóis Maranhenses há diversos ecossistemas fragilizados, como a restinga e o manguezal. Já o Parque Nacional do Iguaçu,
considerado Patrimônio Natural da Humanidade e uma das Novas Sete
Maravilhas da Natureza, é uma das unidades de conservação com a maior
biodiversidade do país. O parque de Jericoacoara tem uma praia tida como uma das 10 mais bonitas do mundo.
Particularmente no caso do Parque Nacional do Iguaçu, onde estão as Cataratas do Iguaçu, a visitação atualmente já é administrada por uma empresa privada,
cuja atuação é subordinada ao Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade (ICMBio), órgão que tem o controle da gestão do parque,
de acordo com o Correio Braziliense.
A mais-valia econômica de Ricardo Salles
Ainda segundo o jornal, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, confirmou que as concessões visam dar destinação econômica às unidades de conservação, razão pela qual a bandeira sobre a preocupação com o meio ambiente está levantada.
“Você pode fazer o discurso mais bonito do mundo sobre o meio ambiente, mas, se não dermos uma mais-valia econômica para as unidades de conservação, estaremos sempre a reboque do orçamento federal”, disse Salles, em maio deste ano.
O ministro também confirmou que o objetivo do governo é repassar o máximo de controle para as empresas privadas.
Mais uma concessão deve ainda vir no pacote: a do Parque Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul, que será organizada como “oferta em bloco”, junto com as unidades de Serra Geral, São Francisco de Paula e Canela.
É preocupante escutar do ministro do Meio
Ambiente expressões como “mais-valia econômica”, quando a pasta que
representa deveria defender a preservação e a conservação de unidades
ambientais.
Os parques abrangidos pelo decreto precisam
ser geridos não visando ao lucro obtido pela quantidade de visitantes,
mas sim considerando a qualidade da experiência que estes podem ter de
forma que a preservação dos ecossistemas seja garantida.
Camapu: a planta que ajuda na recuperação de Alzheimer e Parkinson
Camapu, fisalis ou juá-de-capote é muito comum aqui no nosso
país, em diversas regiões. Na verdade, são duas as espécies: o Camapu (Physalis pubescens) e o Juá de capote (Physalis angulata), com diferentes características que podem ser facilmente cultivadas aqui.
Mas, o interessante é que a ciência está estudando esta planta pois, ela ajuda na recuperação dos neurônios e, portanto, das doenças neuro-degenerativas como o Alzheimer, o Parkinson e diversas outras.
Pesquisadores do Pará descobriram que uma das substâncias que o camapu (Physalis pubescens)
contém no talo da planta tem a potencialidade de estimular a produção
de novos neurônios no hipocampo – o hipocampo é a área do nosso cérebro
que está ligada à memória – e buscam desenvolver medicamentos
fitoterápicos que possam ser aplicados aos seres humanos pois, por
enquanto a pesquisa se limita a outros animais. Esta pesquisa também
aponta a possibilidade de que estes medicamentos possam ser usados para
os que sofrem de depressão grave, onde há perda neuronal.
“A notícia é muito boa, principalmente pelo fato de esta substância
estimular o crescimento neuronal na área do hipocampo. A gente está
falando da criação de novos neurônios, algo que algum tempo atrás não se
falava”, diz Milton Nascimento dos Santos, do Grupo de Pesquisas
Bioprospecção de Moléculas Ativas da Flora Amazônica da da Universidade
Federal do Pará.
Essas propriedades neurogênicas do camapu foram testadas em
laboratório e em ratos e agora iniciam-se os testes clínicos e de
produção a larga escala, para subsidiar a indústria farmacêutica
nacional.
Mas, pelo visto, essa substância do talo do camapu é muito complexa e
há dificuldades na sua sintetização, mas a planta é de fácil
reprodução, com ciclo bianual. “A substância pode ser uma maravilha, mas
se só é produzida pela planta uma vez por ano, a produção de
fitoterápicos ficaria inviável”, diz Silva.
PROPRIEDADES MEDICINAIS DO CAMAPU
O camapu tem outras propriedades medicinais reconhecidas – é
anti-inflamatório e anti-protozoário (inclusive há dados de que seu uso
pode ajudar a tratar aqueles que sofrem de Mal de Chagas).
A descoberta da substância que faz com que os neurônios se regenerem foi uma casualidade da pesquisa, que apontava seus estudos para estes outros aspectos curativos do camapu.
Há mais estudos sobre as propriedades medicinais da Physalis angulata,
que é conhecida como purificadora do sangue, fortalecedora do sistema
imunológico e redutora das taxas de colesterol, dentre vários outros
usos.
Aqui
há uma tabela, com referências bibliográficas, que aponta o uso
detalhado dessa espécie de fisalis, onde se mencionam qualidades
calmantes, depurativas, desobstruintes, diurética, antioxidante,
antibacteriana, antitumoral e outras.
CAMAPU NO JARDIM
Mas, caso você queira ter um pé de camapu, ou de juá-de-capote, a
recomendação é de que não jogue as sementes na sua horta. Essa planta é
bastante agressiva em seu crescimento e vai ocupar todo o espaço,
passando por cima das outras plantas, com certeza. Então, faça um
canteiro só para a sua fisalis, essa é a dica. Você pode comprar as
frutinhas no mercado e separar as sementes, deixá-las secar e semear em
terra fértil.
Outra fisalis que se encontra nos mercados é uma conhecida como Golden Berry a Physalis peruviana, cujo crescimento é tão agressivo quanto das outras espécies.