Perda de água no Cerrado
resulta em seca no Pantanal; desmatamento tem papel central
Dados do MapBiomas indicam que o Brasil perdeu 2% de superfície de água
em comparação ao ano anterior
21.mar.2025 às 00h01
São Paulo (SP)
Nos últimos 40 anos, 91% das bacias hidrográficas do Cerrado perderam água, com destaque para as áreas
de atividade agropecuária. A seca no bioma, que tem o desmatamento como uma das
principais causas, impacta o Pantanal.
As informações foram extraídas de dados da iniciativa MapBiomas Água,
divulgados nesta sexta-feira (21). O levantamento indica que o Brasil perdeu 2%
de superfície de água em comparação ao ano anterior.
As cinco bacias hidrográficas que mais perderam superfície de água estão
na região do planalto do Alto do Rio Paraguai, na conexão entre o
Cerrado e o Pantanal. É o que explica Dhemerson Conciani, pesquisador do
Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e da rede MapBiomas.
“Essa região abriga as nascentes dos principais rios que regulam os
pulsos de inundação no Pantanal e a diminuição na superfície natural de água é
crítica para o funcionamento dos dois biomas”, diz.
O problema é acentuado também no Matopiba, área que abrange Tocantins e parte do
Maranhão, Piauí e Bahia. A região enfrenta o avanço do agronegócio, com
destaque para a pecuária e as plantações de soja. Entre as bacias hidrográficas
que mais perderam água, as duas com redução mais acentuada estão nessa região:
a bacia do Grande São Francisco, com redução de 60% de água em 2024 em
comparação com a média histórica dos últimos 40 anos; e a bacia do Carinhanha, que
perdeu cerca de 58% no mesmo período.
“Uma informação importante é que em 31% das bacias que perderam
superfície de água natural o desmatamento também aumentou entre 2023 e 2024”,
ressalta o pesquisador.
A pesquisa do MapBiomas divide as áreas de água em naturais, como rios e
lagos; e antrópicos, aqueles feitos por ação humana, como reservatórios e
barragens de hidrelétricas.
Embora os rios do Cerrado estejam secando, o bioma registrou aumento na
superfície de água, de acordo com dados da iniciativa MapBiomas Água. Isso
porque os reservatórios artificiais de água, como aqueles criados a partir de
barragens para hidrelétricas, mantêm o volume.
A tendência de redução na superfície de água no Brasil é observada desde
2009. Daquele ano até 2024, apenas em 2022 os pesquisadores registraram aumento
da superfície de água. Oito dos dez anos mais secos de toda a série de
análises, que tem início em 1985, ocorreram na última década.
Conhecido como berço das águas, o Cerrado concentra as nascentes de
oito das 12 principais regiões hidrográficas do país. A redução de água na
região pode afetar ao menos 68 milhões de pessoas ao longo da área das bacias,
de acordo com análise do
Ipam.
“E é uma região que tem experimentado bastante mudanças no uso e
cobertura da terra, principalmente conversão de vegetação nativa para a
agropecuária. Então, isso tem afetado as nascentes e, consequentemente, afeta
os pulsos de inundação no Pantanal”, avalia Conciani.
Desmatamento intensifica a seca e impacta Pantanal
A derrubada da vegetação nativa, especialmente em áreas próximas a rios,
córregos e nascentes, prejudica a proteção dos ecossistemas aquáticos e os
ciclos naturais de enchentes e secas.
Além disso, conforme explica Fernanda Ribeiro, pesquisadora do Ipam e coordenadora
do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) Cerrado, o desmatamento diminui a
quantidade de água nos lençóis freáticos, responsáveis por abastecer rios e
lagos.
“Com a retirada da vegetação nativa, essa água da precipitação, em vez
de conseguir se se infiltrar no solo, vai bater no solo e escoar direto para os
rios”, explica. Ao correr para os rios, as águas das chuvas carregam
sedimentos. “Isso vai entupir nos canais dos rios que causam erosão e diminui a
vazão. Então o rio, depois de um tempo, vai ficar mais raso e mais largo”, diz.
Embora o Cerrado concentre a perda de água nos fluxos naturais, a bacia
hidrográfica que mais secou foi a do rio Paraguai, principal responsável pelos
regimes de cheias no Pantanal.
No topo da lista dos municípios que mais reduziram sua superfície de
água estão Corumbá (MS), que perdeu quase 260 mil hectares de superfície de
água, o equivalente a 95% da perda registrada em todo o estado. Em segundo
lugar está Cáceres (MT), com menos 167 mil hectares, o que representa 57% do
total perdido nesse estado.
Corumbá foi também o município que mais perdeu superfície de água em 2024
em relação a média da série histórica, com redução de 54%.
Edição: Thalita Pires
Nenhum comentário:
Postar um comentário