Publicado em dezembro 11, 2014 por
Redação
“As maiores notícias da COP vieram antes e, nesse sentido, o
acordo entre Estados Unidos e China foi a grande notícia, mas que
dificilmente será debatida aqui”, avalia o coordenador de Clima e
Energia do Greenpeace Brasil
A principal tensão entre os 190 países que participam da
COP-20é chegar a um acordo acerca do ano em que as nações irão se comprometer com as metas de redução de CO², diz
Ricardo Baitelo, que representa o Greenpeace na Conferência do Clima, em
Lima, à
IHU On-Line, por telefone.
“Um ponto bastante relevante é a divisão de grupos de países que
querem jogar o começo do compromisso para 2030 e grupos de países que já
assumem o começo dessas novas metas para 2025”, pontua. Segundo ele, a
tensão para se chegar a um consenso para o cumprimento de metas
demonstra que será difícil estabelecer um acordo para o próximo ano, em
Paris.
“Com isso dá para dizer que será bem difícil chegar a um consenso,
porque, por um lado, só o Brasil e os Estados Unidos querem 2025 como o
prazo limite, enquanto a Europa quer o prazo para 2030 e a China e a
Índia querem um prazo maior ainda. Então este ponto deve ser negociado”.
Baitelo informa que, entre as notícias que podem ser comemoradas na
COP-20, estão a de que a
Alemanha
já anunciou a data de quando deixará de utilizar usinas nucleares, a de
que a União Europeia reduzirá suas emissões em 40% até 2030 e a de que a
Índia, apesar de insistir no uso de carvão, vai instalar 100 mil MW de energia solar até o fim da década.
De acordo com ele, ao longo das negociações da primeira semana, o
Itamaraty fez uma proposta metodológica de situar as responsabilidades
de cada país a partir da ideia de círculos concêntricos, ou seja, cada
nação poderá assumir metas mais ambiciosas ao longo do tempo. Contudo,
adverte, “o Brasil se liberou da responsabilidade, por enquanto, de
dizer onde se situaria nesse círculo concêntrico. O nosso papel enquanto
Greenpeace é realmente pressionar e dizer que o Brasil
tem todas as condições e também a responsabilidade de estar no grupo do
centro, já que somos um dos seis maiores emissores do mundo e estamos
entre o sétimo e oitavo maior PIB do mundo. Então, devemos assumir essa
responsabilidade”.
Ricardo Baitelo é coordenador de Clima e Energia do Greenpeace Brasil e doutor em Planejamento Integrado de Recursos pela Poli-USP.
Confira a entrevista.
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| Foto: Rede Brasil Atual |
IHU On-Line – Como estão as negociações na COP-20 até o
momento? Pode nos dar um panorama geral da primeira semana de
negociações?
Ricardo Baitelo – Na primeira semana, as negociações
foram lentas, sendo que nos primeiros três dias foram basicamente
plenárias de apresentação, com todas as delegações falando, discutindo o
texto rascunho, que será trabalhado aqui e depois em Paris. Então,
diria que ainda é muito cedo para traçar um diagnóstico. Entre alguns
pontos que podem ser colocados, um deles é a discussão do Brasil com
relação à contabilização de carbono; essa é uma discussão de
tro do
subgrupo de florestas.
Em um panorama mais geral, posso dizer que as maiores notícias da
COP vieram antes e, nesse sentido, o acordo entre
Estados Unidos e
China
foi a grande notícia, mas que dificilmente será debatida aqui. Esses
dois países finalmente se comprometeram com metas para 2030. Da parte do
Brasil, o
Itamaraty fez uma proposta
de metodologia de como outros países devem se situar em termos de
responsabilidade no futuro, já que propuseram essa nova divisão de
círculos concêntricos, onde, ao longo do tempo, cada país vai se
comprometendo com metas mais ambiciosas — obviamente, de acordo com o
número de riqueza e de possibilidades.
A única crítica que fazemos é ao fato de que o
Brasil se liberou da responsabilidade, por enquanto, de dizer onde se situaria nesse círculo concêntrico. O nosso papel enquanto
Greenpeace
é realmente pressionar e dizer que o Brasil tem todas as condições e
também a responsabilidade de estar no grupo do centro, já que somos um
dos seis maiores emissores do mundo e estamos entre o sétimo e oitavo
maior PIB do mundo. Então, devemos assumir essa responsabilidade.
IHU On-Line – Quais são as críticas em relação ao rascunho do acordo de Paris feitas pelas delegações?
Ricardo Baitelo – Ainda é cedo para traçarmos um
comentário sobre esse assunto. Um ponto bastante relevante é a divisão
de grupos de países que querem jogar o começo do compromisso para 2030 e
grupos de países que já assumem o começo dessas novas metas para 2025.
Com isso dá para dizer que será bem difícil chegar a um consenso,
porque, por um lado, só o Brasil e os Estados Unidos querem 2025 como o
prazo limite, enquanto a Europa quer o prazo para 2030 e a China e a
Índia querem um prazo maior ainda. Então, este ponto deve ser negociado.
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“O Brasil diz que os números brasileiros em Copenhague já eram mais
ambiciosos. A delegação brasileira diz que aquela meta que se tinha em
2009 de reduzir de 36% a 39% é mais avançada do que as metas que os
Estados Unidos estão propondo”
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IHU On-Line – O acordo entre China e EUA foi bem visto na COP-20, apesar de os comprometimentos serem também para 2030?
Ricardo Baitelo – Eu ainda não tenho um panorama dos demais países. Posso dizer, informalmente, que, segundo o
Brasil, as metas em
Copenhague eram
mais ambiciosas. A delegação brasileira diz que a meta que se tinha em
2009, de uma redução de 36 a 39%, é mais avançada do que as metas que os
Estados Unidos estão propondo.
É claro que se tem essa
confusão, se cada um coloca uma porcentagem e coloca um ano de
referência diferente, fica uma grande salada de frutas. O
Brasil argumenta que a proposta dos
Estados Unidos, se tomada pela base da brasileira, é menor, porque é só de 19% de redução, e a
China, por sua vez, também não disse em que ano vai atingir o pico das emissões.Os chineses mencionam
2030, mas seria, obviamente, mais importante que isso acontecesse antes, considerando que eles são os maiores emissores do mundo.
Outro fator relevante é que a
Alemanha anunciou uma data de quando deve deixar de usar energia nuclear internamente. Essa é outra notícia bastante importante. A
Alemanha,
como uma das maiores potências, deve não só deixar de utilizar usinas
nucleares, mas, em relação ao carvão, esperamos que ela dê o exemplo
para o resto da Europa também.
IHU On-Line – Além da Alemanha, algum outro país já se
manifestou sobre quais propostas domésticas irá adotar para enfrentar as
mudanças climáticas?
Ricardo Baitelo – A União Europeia quer reduzir em
40% o número de emissões até 2030. Esse é um número, sem dúvida, mais
ousado do que o proposto pela
China e pelos
Estados Unidos, mas, considerando a responsabilidade histórica, o número poderia ser maior, ou se poderia chegar antes a essa redução de 40%.
De qualquer maneira, é alguma coisa. Dentro das grandes potências, o
que é digno de nota é a Índia: parte da proposta deles é muito boa, e
outra parte é muito ruim. Os indianos querem instalar 100 mil MW de
energia solar até o fim da década — isso é basicamente o tamanho da
matriz brasileira inteira. O problema é o outro lado da moeda,
relacionado à emissão de carvão, porque eles não querem tocar as fontes
de carvão. Nesse sentido, a pressão que estamos colocando para que os
países digam quando vão atingir o pico de emissão não está chegando à
Índia. A
Índiadiz que não se deve colocar esse limite imediatamente e que as metas devem ser a partir de 2040 ou 2045, o que é um absurdo.
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“No dia 10 deve ocorrer a Marcha dos Povos, porque, por mais que se
tenha essa discussão importante dos textos do novo acordo, que é uma
discussão muito fechada, difícil de acompanhar, temos essa
característica positiva da COP no Peru, que é de ser uma COP muito mais
atrelada aos movimentos sociais, uma COP dos indígenas”
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IHU On-Line – Quais têm sido as atividades da Cúpula dos povos frente à COP-20?
Ricardo Baitelo – Posso responder pelo
Greenpeace. Tivemos uma grande atividade antes do começo da
COP, em
Machu Picchu, pedindo para que as grandes economias ajam em função da energia solar.
O
Greenpeace Brasil desenvolveu algumas atividades, entre os dias 6 e 9, com os
Munduruku, os quais trouxemos para o evento, e indígenas locais do
Peru.
Devemos fazer essa ponte entre os indígenas daqui, especialmente com a
etnia que conseguiu interromper a construção de uma hidrelétrica no
Peru. Então os colocamos em contato com os indígenas que devem ser impactados pelo projeto de
Belo Monte.
A nossa meta internacional é pedir que os países tenham 100% de energias renováveis no mundo até 2050. No dia
10 de dezembro deve ocorrer a
Marcha dos Povos,
porque, por mais que se tenha essa discussão importante dos textos do
novo acordo, que é uma discussão muito fechada, difícil de acompanhar,
temos essa característica positiva da
COPno
Peru, que é de ser uma
COP muito mais atrelada aos movimentos sociais, uma
COP dos indígenas. Considerando que ultimamente, no governo
Dilma, os direitos indígenas foram totalmente negligenciados, essa é outra pauta que estamos trazendo para discutir aqui.
(
EcoDebate, 11/12/2014) publicado pela
IHU On-line, parceira editorial do EcoDebate na socialização da informação.
[
IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU,
da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo,
RS.]
Este, por sua vez, não cita a sua fonte, pode ter sido “O Sensacionalista”. rsrs