Acervo de pesquisa
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015, às 5h59
O Brasil conheceu, de forma
assustadora, no deslizamento de barragem em Mariana, o potencial de
destruição do acúmulo do rejeito de minério de ferro. Poucos sabem
também que esse rejeito pode ser reciclado. Pesquisadores da Escola de
Engenharia da UFMG detêm a tecnologia para transformar rejeitos e
estéreis de minerações de ferro, bauxita, fosfato e calcário em produtos
como cimento – para construção de blocos, vigas, passeios, estradas –,
areia – que pode alimentar a indústria de vidros e de chips de
computador – e pigmentos, para a produção de tintas, por exemplo.
Diversas pesquisas são realizadas no Laboratório de Geotecnologias e
Geomateriais do Centro de Produção Sustentável da UFMG, em Pedro
Leopoldo (MG), em conjunto com empresas brasileiras, universidades
federais, instituições internacionais e com apoio da Fapemig e do BDMG. A
unidade conta com planta-piloto de calcinação flash (queima
controlada), automatizada, com capacidade de produção de 200 kg/hora. A
calcinação flash (CF) é tecnologia de ponta que possibilita calcinar
microparticulados, o que é impossível nos fornos convencionais. Essa
propriedade da CF possibilita transformar alguns compostos mineralógicos
das matérias-primas como rochas estéreis e rejeitos de tratamento em
ligantes de alta resistência que geram, por exemplo, ecocimento.
“Da mesma forma que os antigos aproveitavam a propriedade pozolânica
[de reagir com outras substâncias para gerar um ligante] das cinzas
vulcânicas e da argila, é possível submeter estéreis de mina e lama de
barragens à calcinação ultrarrápida para obter cimentos e outros
derivados”, afirma o professor Evandro Moraes da Gama, do Departamento
de Engenharia de Minas. Ele coordena o Laboratório de Geotecnologias e
Geomateriais, ao lado do professor Abdias Magalhães Gomes, do
Departamento de Engenharia de Materiais de Construção.
Evandro da Gama salienta que é possível aglomerar o rejeito em forma de
pelotas – como se faz com o próprio minério –, em pilhas, com 100% de
segurança, dispensando a utilização da água e eliminando a estocagem de
rejeitos em barragens. “Essas pilhas seriam verdadeiros estoques de
matéria-prima para os ecoprodutos”, ele diz.
O pesquisador explica que os solos do Hemisfério Sul – lateríticos e
cauliníticos – são mais fáceis de serem encontrados. “Aqui o tratamento
do solo gera produto final mais rico em propriedades pozolânicas. As
rochas alteradas e intemperizadas são pulverulentas, e a granulometria
natural é favorável à calcinação flash. Como as partículas são muito
finas e próximas de sua forma cristalográfica, são transformadas após a
calcinação em metasssubstâncias minerais, que criam superfícies
específicas muito grandes. Dessa forma, podem ‘agarrar’ com mais
facilidade outras partículas minerais. Isso gera o cimento.”
Estéril e rejeito
O estéril de mina é formado por rochas que não contêm o minério de
ferro, mas que precisam ser retiradas junto com o itabirito, por
exemplo, para fazer a chamada cava de mina e possibilitar a atividade da
mineração. “Esse estéril é reunido em depósitos controlados que não
levam água e que representam importante passivo ambiental. Quando a água
passa por esses depósitos, são gerados produtos indesejáveis com
impacto sobre rios e florestas”, comenta Evandro da Gama.
O rejeito, por sua vez, é formado pela concentração do ferro no
tratamento e tem natureza argilosa e arenosa. A utilização de água no
tratamento forma a lama. “A lama e o rejeito arenoso são levados para
barragens, que são obras geotécnicas de terra, feitas com técnicas da
década de 1960. São obras frágeis e de risco”, diz o professor. Ele
ressalta que, até por volta do ano 2000, as barragens tinham até 50 ou
60 metros de altura e hoje chegam a 200 metros, o que demonstra “falta
de bom senso”.
Política nacional
Nos anos 1990, no Brasil e em outros países, segundo Evandro da Gama,
começou a se perceber o aumento exponencial de rejeito e estéril de
mina. As pesquisas na UFMG visando ao aproveitamento do rejeito de
minério de ferro começaram há cerca de dez anos, com apoio de empresas e
órgãos de fomento do governo.
O professor defende que pesquisas e produção sejam estimuladas por
políticas nacionais de desenvolvimento, incluindo isenção de impostos e
ações de valorização dos produtos ecológicos. “Países como a França, a
China e o Canadá produzem derivados em larga escala. A França, por
exemplo, já extinguiu a atividade mineradora”, destaca Evandro da Gama.
“No Brasil, é preciso aproximar a indústria de transformação da
indústria da mineração. Parte significativa do passivo ambiental pode
ser transformado em matéria-prima para a construção da infraestrutura do
país. ”
O rejeito arenoso pode ser reaproveitado, por exemplo, como brita
para base e sub-base de estradas. Segundo Evandro da Gama, o volume da
barragem que rompeu – cerca de 63 milhões de metros cúbicos – poderia
ser transformado em base e sub-base para uma estrada com 3.500
quilômetros ou na construção de 120 vilas com 200 casas de 46 m
2 de área total, ou seja, 120 cidades como Bento Rodrigues, o subdistrito arrasado pelo rompimento das barragens da Samarco.
Evandro da Gama e Abdias Gomes construíram uma casa de 46 m2
com rejeitos e estéreis de mineração de ferro. “A casa, que está em
exposição no Laboratório de Pedro Leopoldo, tem custo 30% menor na
comparação com materiais e metodologia de construção convencionais. E é
extremamente confortável”, afirma Evandro da Gama. “Tem-se falado na
reconstrução de Bento Rodrigues. Por que não lançar mão do próprio
rejeito para erguer as casas e pavimentar as vias?”, questiona o
professor.
(Itamar Rigueira Jr.)