Publicado em agosto 12, 2016 por
Redação
Olimpíadas 2016: “O assunto ambiental não é item prioritário”. Entrevista especial com Mario Moscatelli
“A cidade do Rio de Janeiro se nivelou por baixo.
Simplesmente o assunto ambiental não é item prioritário nem para a
maioria da classe política e tampouco para a maior parte da sociedade,
que parece ter incorporado a degradação ao cenário da cidade”, lamenta o
biólogo.
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Manguezais da baía de Guanabara tranformados
em depósitos de lixo. Imagem cedida pelo entrevistado |
Apesar de a
abertura oficial das
Olimpíadas Rio 2016
ter sido marcada por um discurso ecológico, chamando a atenção para os
problemas ambientais e para a necessidade de se ter um mundo mais verde,
na prática, a
situação ambiental da cidade do
Rio de Janeiro é “caótica”, e a “maioria das bacias hidrográficas são valões de lixo e esgotos”, resume
Mario Moscatelli à
IHU On-Line.
Segundo ele, o espetáculo de abertura foi “uma
hipocrisia artística
do tipo ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’, vinda
principalmente do Rio de Janeiro, onde as autoridades brasileiras se
esmeraram em não cumprir praticamente nada no quesito ambiental”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail,
Moscatelli informa que “75% das margens” da
baía de Guanabara, onde acontecem as competições de vela, “estão degradadas por lançamento de
esgoto in natura
e todos os tipos de resíduos, tudo fluindo dos rios em direção à baía,
coisa de 18 mil litros de esgoto sem tratamento por segundo e 200
toneladas/dia de resíduos. Um verdadeiro caos”.
Na avaliação dele, a
baía faz parte da “
indústria da degradação”.
Ele explica: “A
baía de Guanabara faz parte daquilo que eu chamo da
indústria da degradação, onde de tempos em tempos o governo estadual do
Rio de Janeiro
inventa projetos de recuperação da baía e obtém empréstimos bilionários
do exterior. Os recursos chegando são usados de qualquer maneira, ao
gosto dos políticos do momento, alcançando pífios resultados ambientais
sem qualquer tipo de investigação ou sanção das esferas de fiscalização.
Aí, anos depois, novos programas são criados e mais dinheiro é captado.
Segundo a minha hipótese, a baía degradada é uma necessidade para que a
indústria da degradação continue funcionando enquanto houver quem
empreste dinheiro para o governo do estado. Simplesmente inventaram mais
uma forma de ganhar dinheiro fácil: com a degradação da baía”.
Mario Moscatelli é biólogo, graduado pela
Universidade Santa Úrsula (USU), especialista em Gestão e Recuperação de
Ecossistemas Costeiros e mestre em Ecologia pela Universidade Federal
do Rio de Janeiro – UFRJ.
Confira a entrevista.
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Rio Pavuna – um dos exemplos dos rio que chegam
no sistema lagunar de Jacarepaguá.
Imagem cedida pelo entrevistado. |
IHU On-Line – Como você caracteriza a atual situação
ambiental do Rio de Janeiro neste momento em que estão acontecendo os
Jogos Olímpicos? Em quais partes da cidade encontra-se uma situação
ambiental mais crítica?
Mario Moscatelli – A situação é caótica, onde a maioria das
bacias hidrográficas são valões de lixo e esgoto. As baías (
Guanabara e
Sepetiba) e o sistema lagunar da baixada de
Jacarepaguá são latrinas e depósito de resíduos de todos os tipos.
Independente de serem áreas socioeconômicas mais pobres ou ricas, a cidade do
Rio de Janeiro
se nivelou por baixo. Simplesmente o assunto ambiental não é item
prioritário nem para a maioria da classe política e tampouco para a
maior parte da sociedade, que parece ter incorporado a
degradação
ao cenário da cidade. O resultado final é a degradação e o
descomprometimento do ativo mais importante de uma cidade considerada
turística, isto é, seu ambiente.
IHU On-Line – Por que afirma que hoje se vive um “terrorismo ambiental” no estado do Rio de Janeiro?
Mario Moscatelli – Porque o poder público se dá ao
direito de degradar a cidade onde quiser, quando quiser e na intensidade
que quiser, sem ser incomodado por qualquer tipo de ação das demais
esferas de fiscalização.
Apesar das centenas de leis ambientais nas três esferas do Executivo,
simplesmente “não pega nada” para os delinquentes governamentais, seja
por ação, seja por omissão. A impunidade na
degradação dos recursos naturais
é garantida quase que por uma prevaricação sistêmica assistida e
consentida pela sociedade que paga, não leva, adoece e ainda faz graça
sobre o assunto. Em resumo: O mal ambiente compensa!
IHU On-Line – Segundo informações da imprensa, o governo do
Rio havia se comprometido a alcançar 80% de saneamento do esgoto que
deságua na baía de Guanabara até 2016. Por que essa meta não foi
cumprida? O que foi feito até o momento?
Mario Moscatelli – Porque nunca houve a intenção de alcançar coisa alguma. A
baía de Guanabara
faz parte daquilo que eu chamo da indústria da degradação, onde de
tempos em tempos o governo estadual do Rio de Janeiro inventa projetos
de recuperação da baía e obtém empréstimos bilionários do exterior. Os
recursos chegando são usados de qualquer maneira, ao gosto dos políticos
do momento, alcançando pífios resultados ambientais sem qualquer tipo
de investigação ou sanção das esferas de fiscalização. Aí, anos depois,
novos programas são criados e mais dinheiro é captado.
Segundo a minha hipótese, a
baía degradada é uma necessidade para que a
indústria da degradação
continue funcionando enquanto houver quem empreste dinheiro para o
governo do estado. Simplesmente inventaram mais uma forma de ganhar
dinheiro fácil: com a degradação da baía.
IHU On-Line – Qual é a atual situação das águas da baía de Guanabara?
Mario Moscatelli – 75% das margens da baía estão degradadas por
lançamento de esgoto in natura e todos os tipos de resíduos, tudo fluindo dos rios em direção à
baía,
coisa de 18 mil litros de esgoto sem tratamento por segundo e 200
toneladas/dia de resíduos. Um verdadeiro caos, onde progressivamente as
espécies animais mais sensíveis são simplesmente eliminadas, afetando a
biodiversidade da baía.
“A impunidade na degradação dos recursos naturais é garantida quase
que por uma prevaricação sistêmica assistida e consentida pela sociedade
que paga, não leva, adoece e ainda faz graça sobre o assunto”
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IHU On-Line – Quais são as causas da contaminação da baía de Guanabara?
Mario Moscatelli – São pelo menos três: primeiro,
crescimento desordenado da malha urbana – as políticas de habitação
permanentes e eficientes continuam uma miragem e o que continua valendo é
o crescimento desordenado que gera bem mais votos; segundo, falta
fiscalização permanente e eficiente no parque industrial – falta pessoal
e equipamentos para dar conta do controle; e terceiro, falta
universalização dos serviços de coleta e tratamento de esgoto – esse,
inclusive, virou um grande negócio, onde se cobra por um serviço não
prestado.
IHU On-Line – E qual é a situação da lagoa de Jacarepaguá, em cujas margens foi construído o Parque Olímpico?
Mario Moscatelli – Caótica. Trabalho na região desde 1992 e só vejo as coisas piorarem. Todos os oito rios que chegam às lagunas estão mortos por
esgoto,
produto do crescimento desordenado e da falta de universalização do
serviço de coleta e tratamento de esgoto. Das quatro lagunas, apenas a
de
Marapendi está menos pior, as demais funcionam como latrinas, inclusive a de
Jacarepaguá, onde está o
Parque Olímpico.
Simplesmente pelos mais variados motivos, desde perda dos recursos
até a simples falta de vontade de fazer o combinado na matriz de
responsabilidade olímpica, não aconteceu praticamente nada em relação à
recuperação do sistema lagunar local, que continua em agonia e liberando
quantidades monstruosas de metano e gás sulfídrico dia e noite, o ano
inteiro.
Lagoa da Tijuca em estado terminal. Imagem cedida pelo entrevistado.
IHU On-Line – Como os governos do Rio têm se pronunciado
diante das críticas feitas à situação ambiental do estado e,
especialmente, da cidade do Rio?
Mario Moscatelli – A maioria das autoridades, principalmente o senhor prefeito do Rio de Janeiro,
Eduardo Paes,
vivem numa outra realidade, diferente da realidade na qual eu trabalho.
Caso as autoridades brasileiras fossem sérias, deveriam ter trabalhado
sério no dia seguinte da escolha do
Rio de Janeiro como sede das
Olimpíadas, fato que não ocorreu mesmo com todo meu trabalho de denúncias e alertas nas mídias nacional e internacional.
Simplesmente no caso da
baía e dos
rios
que chegam podres na mesma, quem teve tempo e dinheiro, não teve
vontade de fazer. No caso das lagoas, tinha-se projeto, dinheiro e
tempo, mas problemas de natureza técnica e legal impediram a realização
das obras. Destaca-se que os rios que chegam ao sistema lagunar deveriam
ter sido recuperados pela prefeitura do Rio de Janeiro que, pelos mais
variados motivos, simplesmente “chutou” a responsabilidade para algum
lugar.
IHU On-Line – A situação ambiental do Rio, especialmente nos
locais ou nas proximidades em que estão acontecendo as competições, está
chamando atenção dos atletas e da população em geral? O que tem se
comentado sobre a situação ambiental?
Mario Moscatelli – Parece que sim. Há inclusive perigo de as pessoas contraírem
doença de veiculação hídrica
não apenas devido a minhas denúncias fotográficas, mas também conforme
indicam os estudos desenvolvidos por microbiologistas no Brasil e fora
dele.
“A mensagem para o mundo foi de pura e criminosa hipocrisia, fato
que para o ambiente está pouco importando, pois continua sendo utilizado
como latrina e lata de lixo”
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IHU On-Line – Que avaliação fez da abertura das Olímpiadas e do discurso brasileiro sobre a preservação ambiental?
Mario Moscatelli – Uma hipocrisia artística do tipo “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, vinda principalmente do
Rio de Janeiro,
onde as autoridades brasileiras se esmeraram em não cumprir
praticamente nada no quesito ambiental. A mensagem para o mundo foi de
pura e criminosa hipocrisia, fato que para o ambiente está pouco
importando, pois continua sendo utilizado como latrina e lata de lixo.
Destaco que desde sábado passado o mau cheiro tomou conta do
Parque Olímpico, fruto do despejo de esgoto dos rios que circundam o parque. Exemplo típico
high tech do modelo pão e circo do século XXI.
IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Mario Moscatelli – O Brasil como país do século XXI continua lidando com os
recursos naturais
como uma colônia do século XVII, onde o objetivo é explorar à exaustão
um ou vários recursos visando obter o máximo de retorno econômico no
menor espaço de tempo, no que eu caracterizo como a cultura do
pau-brasil, isto é, usar até acabar. A
classe política é produto dessa cultura e é reflexo da pouca importância que a sociedade dá também para o assunto.
Portanto, se nem com as
Olimpíadas conseguimos que
as autoridades brasileiras trabalhassem direito a questão ambiental,
infelizmente minhas previsões para o futuro próximo são bastante
negativas.
(
EcoDebate, 12/08/2016) publicado pela
IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.
[
IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU,
da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]
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