Por Rafael Loyola
- segunda-feira, 02 janeiro 2017 19:09
É possível e ético minimizar a captura ou morte de animais com própositos científicos.
Foto: Pixabay
A curiosidade e o desejo pelo saber são os motores primordiais da
ciência. Cada nova descoberta é mais um facho de luz no obscuro universo
que nos cerca. Com cientistas que trabalham com a biodiversidade e sua
conservação não é diferente. Mas o que acontece quando esse desejo
começa a interferir na própria natureza?
Há algum tempo, pesquisas feitas em laboratório e que envolvam
experimentação ou sofrimento animal devem ser previamente aprovadas por
comitês de ética. Essa prática garante, a princípio, que os cientistas
não ultrapassem limites aceitáveis pela sociedade em busca de respostas
para suas perguntas. Quando não houve limites para a busca do
conhecimento, observamos na história avanços científicos acompanhados de
consequências desastrosas, como os estudos com humanos feitos pelos
nazistas.
Entretanto, ainda hoje, a regulamentação das pesquisas por comitês de
ética tem foco em trabalhos feitos em laboratório e não no campo, no
meio da natureza. Para trabalhos de campo que envolvem coleta de
material biológico, experimentação e observações, os comitês tendem a
ser mais brandos. Na verdade, eles seguem princípios que envolvam a
ausência ou minimização do sofrimento animal (plantas costumam ser
ignoradas), mas geralmente não limitam coletas de indivíduos em campo.
"Para nossa surpresa, um mês depois recebemos
outro trabalho, com as mesmas características: milhares de animais
mortos em uma área protegida e nenhum avanço real do nosso conhecimento.
"
Recentemente, um grupo de editores da tradicional revista científica
Biological Conservation (eu entre eles) escreveram um
artigo que vem dividindo opiniões.
Nele, explicamos que recebemos um trabalho para ser avaliado pela
revista, visando sua eventual publicação. Nesse trabalho, os autores
mataram milhares de peixes dentro de uma área protegida para mostrar que
dentro dessa área havia mais indivíduos do que fora dela. Como
conclusão, eles diziam que a área protegida era eficiente em preservar
aquelas espécies, que se reproduziam melhor em locais onde a pesca era
proibida (pelo menos até o momento, inclusão minha).
Após conversa entre
editores, decidimos negar o trabalho por razões éticas. Ou seja, não
aceitaríamos um trabalho enviado para uma revista de conservação da
natureza que matava milhares de peixes para provar o que todos nós,
convenhamos, já sabíamos. Os autores ficaram furiosos e reclamaram com a
revista, argumentando que o trabalho havia sido autorizado pelo comitê
de ética da sua instituição. Mas não houve choro nem vela e o trabalho
foi negado, sem sequer ter sido revisado pelos pares.
Para nossa surpresa, um mês depois recebemos outro trabalho, com as
mesmas características: milhares de animais mortos em uma área protegida
e nenhum avanço real do nosso conhecimento. O estudo foi negado com as
mesmas considerações. Mais uma vez os autores ficaram indignados... e
isso me leva a uma pergunta difícil: que dimensão de ética os
pesquisadores têm? Ela pode ser relativa?
Limite
Em nossa opinião, os que escrevemos o artigo em prol de uma ética
conservadora em trabalhos de campo, é inconcebível um profissional da
conservação realizar um estudo que preveja a morte de milhares de
indivíduos, sobretudo dentro de uma área protegida. Mas para nem todos é
assim e por isso o artigo levantou uma discussão.
Alguns profissionais,
principalmente zoólogos, botânicos e taxonomistas (os cientistas
responsáveis por descrever, catalogar e sistematizar nosso conhecimento
sobre a biodiversidade) argumentaram que é preciso haver coletas para
que nossas coleções sejam depósitos fiéis do existe no mundo lá fora dos
museus e herbários.
E, de fato, há métodos desenvolvidos para que as
coletas sejam feitas de modo apropriado. Entretanto, a pergunta
persiste: até que ponto essa coleta é aceitável? Qual o limite para
acumular indivíduos?
Recentemente estive em um comitê que avaliava projetos de conservação
a serem financiados por uma organização sem fins lucrativos. Dois
desses projetos chamaram a atenção do comitê. Em um deles, os
proponentes fariam marcações em pererecas arborícolas por meio da
amputação de alguns de seus dedos (falanges). Esse é um método conhecido
por cientistas que trabalham nessa área, mas eticamente questionável.
Hoje em dia, há alternativas para esse tipo de marcação, e mais, não
será prejudicial cortar os dedos de pereceras que os usam para subir nas
árvores?
Afinal, elas são arborícolas. No outro projeto, os
pesquisadores acreditavam ter encontrado uma nova espécie na natureza,
mas para confirmar precisariam ter acesso aos indivíduos. Segundo o
projeto, eles o fariam sem sofrimento para os animais, mas caso isso não
fosse possível, teriam que abater pelo menos um animal. O mais estranho
é que, dentre os materiais necessários para a pesquisa e solicitados
como item financiável do projeto, os proponentes incluíram uma carabina!
Eu fico pensando... quem tem a ideia de pedir uma carabina em um
projeto submetido à uma organização que financia a conservação da
natureza? Nenhum dos projetos foram financiados pela organização, é
claro.
Em nosso artigo argumentamos que profissionais trabalhando com
conservação da natureza devem estabelecer padrões éticos muito altos e
servir de exemplo para outros profissionais. Antes de realizar um
estudo, os autores devem avaliar se aquela pesquisa é necessária e se os
fins justificam os meios. Minimamente, precisam se perguntar: algum
animal ou planta será prejudicado pela pesquisa?
Se sim, há métodos
menos invasivos ou prejudiciais para fazer a pesquisa e coletar os dados
necessários? Por quanto tempo e sob qual área os impactos da pesquisa
vão persistir? No trabalho há uma tabela com mais detalhes para os
leitores mais curiosos.
A revista em questão continuará a negar trabalhos cuja ética, ainda
que aceitável pelas instituições por meio das quais o trabalho é
desenvolvido, seja questionável ou inaceitável para os editores.
Alguns
acham que o papel dos editores não é esse, outros, acham que os editores
têm que zelar pela qualidade e respeito pela natureza nos trabalhos
publicados nas revistas nas quais trabalham.
A discussão é saudável e eu fico com o grupo conservador: conservar a
natureza é um dever de todos nós e licenças para matar – como a do 007 –
só podem ser concedidas em ocasiões muito especiais. E você, em que
grupo está?
Saiba Mais
Mark J. Costello et Al.
Field work ethics in biological research (Ética do trabalho de campo na pesquisa biológica), publicado em Biological Conservation