Empresa anunciou licença ambiental da maior mina de ouro do Brasil antes
de o governo do Pará formalizar medida. Projeto é uma bomba-relógio
ambiental, ao lado de Belo Monte.
Oswaldo Braga de Souza e Isabel Harari, do ISA –
A empresa canadense Belo Sun anunciou, no último dia 2, a concessão da
licença de instalação do projeto Volta Grande de Mineração, vizinho à
hidrelétrica de Belo Monte, em Senador José Porfírio (PA), antes do
governo paraense formalizar a medida. A mineradora publicou um release
em inglês com a notícia antes do fim da reunião da equipe da Secretaria
de Meio Ambiente estadual (Semas) que discutiria a autorização. O
governo do Pará é chefiado por Simão Jatene (PSDB).
A reportagem do ISA teve acesso ao release da empresa. Pouco depois, a
assessoria de imprensa da Semas negou a informação. A licença só foi
confirmada no site da secretaria à noite, horas mais tarde.
“O fato da empresa ter anunciado que tinha conquistado a licença antes
mesmo de sua formalização e publicação pelo órgão ambiental responsável
demonstra como foi tratado o licenciamento do empreendimento, com total
desrespeito pelos procedimentos, sem transparência, e com displicência e
descaso com a vida das pessoas que vivem na Volta Grande do Xingu”,
critica Adriana Ramos, coordenadora da Política e Direito do ISA.
Previsto como a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil, o
empreendimento é uma bomba-relógio ambiental, com potencial de causar
uma tragédia das dimensões do rompimento da barragem em Mariana (MG), no
final de 2015. A área prevista para a mina já é seriamente impactada
pela hidrelétrica: a redução de mais de 80% da vazão da água em 100
quilômetros do Rio Xingu causou mortandade de peixes, piora da qualidade
da água e alterações drásticas no modo de vida de populações indígenas e
ribeirinhas.
Conforme o estudo de impacto ambiental entregue à Semas, o projeto
minerário prevê deixar montanhas gigantes de rejeito com aproximadamente
duas vezes o volume do Pão de Açúcar e a construção de um reservatório
também de rejeitos, ainda mais tóxicos do que os liberados no desastre
de Minas Gerais. A mina tem o estudo de viabilidade ambiental assinado
pelo mesmo engenheiro indiciado por homicídio pelo rompimento da
barragem de Mariana.
A licença atropela parecer da Fundação Nacional do Índio (Funai) que
exige a revisão dos estudos sobre o componente indígena, pois entende
que a versão apresentada pela Belo Sun é insuficiente para avaliar os
impactos do empreendimento sobre os povos que ali vivem.
“Contrariando a manifestação das instituições públicas responsáveis
pelas populações indígenas, novamente esses povos que são vulneráveis
são deixados em uma situação de fragilidade sobre os impactos de uma
obra como essa, a exemplo do que aconteceu com Belo Monte”, aponta André
Villas-Bôas, secretário executivo do ISA.
A Defensoria Pública da União (DPU) e a Defensoria Pública do Pará
ingressaram com duas ações para impedir a licença. O Ministério Público
Federal (MPF) enviou à Secretaria de Meio Ambiente do Pará uma
recomendação contra a medida. Já havia duas outras ações anteriores
movidas pelo MPF contra o empreendimento.
Consulta aos povos indígenas
Ben Hur Daniel da Cunha, defensor público federal, explica que a licença
pode ser suspensa até que sejam feitos os estudos do componente
indígena. “Não foi obedecido o procedimento que exige que sejam feitos
os estudos prévios de impacto ambiental, no caso o impacto sobre a
população indígena. Essa decisão impede que essas comunidades exerçam um
direito básico, que é participar das decisões sobre suas vidas”,
alerta. O pedido da DPU deve ser analisado até a próxima quarta (8/2) e
requer a manifestação do governo paraense e da Belo Sun.
As comunidades indígenas diretamente afetadas não foram consultadas
sobre o projeto, como determina a Convenção 169 da Organização
Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil. Apesar disso, o
comunicado da empresa publicado nesta quinta diz expressar “gratidão
aos governos estadual e municipal, bem como às comunidades locais pelo
seu apoio a esse projeto”.
Em abril de 2016, a Semas chegou a marcar uma cerimônia para anunciar a
licença, mas voltou atrás depois da repercussão negativa. Alguns meses
depois, um relatório da ONU sobre Povos Indígenas no Brasil denunciou a
situação. “Uma licença foi emitida pelo governo do Pará para o projeto
de mineração Belo Sun, que está bem próximo da hidrelétrica de Belo
Monte e que afeta diretamente a comunidade dos Juruna. Isso aconteceu na
ausência de consulta para obter o consentimento livre, prévio e
informado dos povos indígenas envolvidos e sem a condução do necessário e
urgente estudo dos impactos ambientais, sociais e de direitos humanos
acumulados. Os potenciais são assim um assunto de grave preocupação”,
escreveu a relatora Victoria Tauli-Corpuz.
Uma das condições para a concessão da licença ambiental de Belo Monte
foi o monitoramento do trecho de vazão reduzida do Rio Xingu por seis
anos, já que os estudos indicaram que não havia certeza sobre os
impactos socioambientais da obra na área. Um novo megaempreendimento não
poderia, portanto, ser implantado na região antes desse período.
Em maio do ano passado, o secretário de Meio Ambiente do Pará, Luís
Fernandes Rocha, prometeu realizar os estudos sobre os impactos
socioambientais acumulados e sinérgicos dos dois megaempreendimentos
antes de tomar qualquer decisão quanto à licença. Procuradores,
defensores públicos, ambientalistas e organizações indígenas e de
ribeirinhos exigem que, além da avaliação desses impactos, um plano
socioambiental que garanta as condições de vida das populações locais
seja apresentado pela administração estadual.
O projeto “Volta Grande”
A mineradora tem a pretensão de se instalar a 9,5 km de distância da
Terra Indígena (TI) Paquiçamba, a 13,7 km da TI Arara da Volta Grande do
Xingu e também próxima à TI Ituna/Itatá, habitada por indígenas
isolados.
A mina encontra-se próxima da Vila da Ressaca, comunidade de 300
famílias que depende da roça, pesca e do garimpo artesanal para
sobreviver. Se o projeto “Volta Grande” sair do papel, elas terão que
ser reassentadas.
Em 12 anos, a estimativa é que serão extraídas 600 toneladas de ouro. Ao
final da exploração, as duas pilhas gigantes de rejeito de material
estéril quimicamente ativo terão, somadas, área de 346 hectares e 504
milhões de toneladas de rochas, sem previsão para sua remoção.
Placa da mineradora Belo Sun demarca território as margens do Rio Xingu.
Foto: Victor Moryiama.
O maior projeto de mineração de ouro
no país ganhou, na quinta-feira passada (02), o aval da Secretaria de
Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) do Pará para se instalar no Rio
Xingu. Vizinha à Belo Monte, o projeto de Volta Grande de Mineração, da
companhia canadense Belo Sun, também segue os rumos da hidrelétrica em
ter o licenciamento paralisado várias vezes por ignorar órgãos que
respondem pelos atingidos. Assim como a vizinha, Belo Sun é um
empreendimento gigantesco com impactos ambientais e sociais
superlativos. Assim como a vizinha, Belo Sun também ignorou o impacto
sob os povos indígenas.
A licença de instalação
dada pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) do
Pará ignorou um parecer técnico da Fundação Nacional do Índio (Funai),
que considerou o estudo de impacto ambiental apresentado pelo
empreendimento inapto, por não apresentar, sequer, informações sobre
terras indígenas localizadas próximas do local de mineração.
O órgão
entrará na Justiça contra o empreendimento e a Semas, conforme noticiado
hoje pelo Estadão.
No licenciamento ambiental, o órgão licenciador é obrigado a ouvir os
pareceres de outros “órgãos envolvidos”, como Funai (quando o
empreendimento afeta Terras Indígenas), ICMBio (quando afeta Unidades de
Conservação federais) e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (quando afeta sítios arqueológicos). O Ministério Público Federal (MPF) enviou à Secretaria de Meio Ambiente do Pará uma recomendação contra a medida.
Belo Sun terá 12 anos de
funcionamento, a partir da obtenção da licença de operação, e mais 8
anos de monitoramento até ser devidamente desativada. Ganhos econômicos
para uma região paupérrima normalmente é a justificativa número um para a
concessão de licenças e com Belo Sun não foi diferente. Em nota,
a Secretaria de Meio Ambiente do Pará apontou a criação de empregos
durante a implementação do projeto (até 2 mil empregos diretos) e o
funcionamento da mina (cerca de 580 empregos) como um dos principais
motivos para dizer sim para o projeto.
Em maio de 2013, ((o))eco publicou uma reportagem de Elizabeth Oliveira e Victor Moriyama,
que analisou os riscos e incertezas em torno do projeto que está a
aproximadamente 10 km de distância da barragem de Belo Monte.
Licenciamento congelado na Justiça Em 2014, a Justiça Federal havia
congelado o licenciamento ambiental do empreendimento, determinando a
realização da consulta prévia aos indígenas. Dois anos depois, embora a
Semas afirma que tenha sido realizado “1.200 moradores dos municípios de
Senador José Porfírio, Altamira e comunidades das Vilas da Ressaca,
Galo, Ilha da Fazenda e Itata, todos na região Xingu”, a questão dos
impactos aos índios continuou a ser ignorada.
Área de Proteção Ambiental de Fernando de Noronha, Rocas, São Pedro e São Paulo.
Foto: Léo Carioca
De
acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), o Brasil pretende,
ainda 2017, aumentar para 23 o número de unidades de conservação
designadas como Áreas Úmidas de Importância Internacional – Sítio Ramsar. “São
áreas de grande importância. O Brasil é um país grande, com muitas
áreas úmidas, muitas delas já reconhecidas como Reservas da Biosfera ou
Patrimônio Mundial Natural, pela Unesco. Mas o reconhecimento Ramsar é
uma distinção importante porque coloca a qualificação de uma área que
tem realmente os valores específicos para aquela questão”, afirma o
secretário de Biodiversidade, José Pedro de Oliveira Costa.
A
designação de novos Sítios para a Lista de Ramsar possibilita que o
Brasil busque apoio para o desenvolvimento de pesquisas, acesso a fundos
e cooperação internacionais. Em contrapartida, o país assume o
compromisso de manter as características ecológicas das unidades e de
priorizar sua consolidação.
A Lista de Ramsar é o principal
instrumento adotado pela Convenção para implementar seus objetivos,
entre os quais estabelecer marcos para ações nacionais e para a
cooperação entre países com o objetivo de promover a conservação e o uso
racional de áreas úmidas no mundo. Essas ações estão fundamentadas no
reconhecimento, pelos países signatários da Convenção, da importância
ecológica e do valor social, econômico, cultural, científico e
recreativo de tais áreas.
ICMBio
busca acelerar parcerias para aprimorar serviços de visitação nos
parques nacionais,
modelo bem sucedido em várias unidades. Um dos
projetos prevê concessões na Floresta Nacional
de São Francisco de
Paula. Foto: Aquiles Bastiani Naressi
Em 02 de fevereiro, última quinta-feira, o Diário Oficial da União (DOU) trouxe em suas páginas a Instrução Normativa (IN) nº 02 do ICMBio, de 30 de janeiro de 2017.
A norma define o planejamento, a execução e o monitoramento dos
contratos de concessão para prestação de serviços de apoio à visitação
em unidades de conservação (UC).
As concessões são um instrumento
pelo qual o ICMBio repassa a uma empresa ou organização da sociedade
civil a exploração de serviços e atividades de visitação em UCs, como
cobrança de ingressos, transporte de visitantes, restaurantes e lojas de
conveniências. Com isso, além de obter retorno financeiro, o Instituto
promove, em parceria com os concessionários, melhorias na estrutura de
uso público das unidades.
“A Constituição Brasileira diz que o
acesso à natureza é um direito básico e a lei do SNUC (Sistema Nacional
de Unidades de Conservação da Natureza) diz que um dos objetivos dos
parques nacionais é promover a recreação na natureza e o turismo
ecológico. Essas concessões resgatam, portanto, uma dívida histórica do
Brasil para com a sua população”, afirma o coordenador-geral de Uso
Público do ICMBio, Pedro Menezes.
De
acordo com a IN, os novos projetos de concessão ficarão a cargo de um
Comitê Especial de Concessão (CEC), que terá a finalidade de dar
andamento dos processos. A este órgão caberá elaborar (ou providenciar a
elaboração) dos documentos darão subsídios necessários para assegurar a
viabilidade técnica, operacional e ambiental das atividades e serviços
listados no objeto da concessão.
Uma vez aprovado e analisado,
a Diretoria de Planejamento instituirá Comissão Especial de Licitação,
que ficará encarregada de elaborar editais, minutas de contrato e demais
documentos necessários ao lançamento público do processo licitatório.
Encerrado
este processo licitatório e assinado o contrato de concessão, a
Diretoria de Planejamento designará Comissão de Fiscalização, que ficará
encarregada de acompanhar a execução do contrato para assegurar o
cumprimento das condições acertadas. O monitoramento dos contratos de
concessão já em curso deverá ser ajustado às regras da Instrução
Normativa.
Dos US$ 54,6 bilhões vendidos em agrotóxicos no mundo, em 2015, o Brasil consumiu sozinho US$ 9,6 bilhões.
Helen Martins
Uma ala inteira de um hospital isolada por causa de uma superbactéria.
Uma área inteira de lavoura em vazio sanitário até o próximo plantio. O
que existe em comum entre estas duas situações, é a dificuldade de
combater organismos cada vez mais resistentes aos remédios, ou aos
venenos disponíveis no mercado.
A resistência acontece da seguinte maneira: vamos supor que em uma
lavoura de soja, exista uma infestação de percevejos. Mas existem entre
eles, alguns que são diferentes. Eles têm, lá no seu DNA, o gene da
resistência. Esses, vão sobreviver. Depois de várias e várias
pulverizações e com a reprodução desses insetos, aqueles percevejos que
eram diferentes, passam a ser maioria e aí o produto não vai mais
funcionar.
Diante
da crise hídrica no Distrito Federal verificou-se a importância de uma
ação efetiva para o incremento da eficiência na condução de água no
Canal de Irrigação do Rodeador como uma das principais alternativas para
o aumento da segurança hídrica na bacia e na região. Segundo
levantamento recente realizado, a eficiência de condução de água do
Canal Rodeador é hoje da ordem de 30%. É possível perceber a perda de
água em vários pontos do canal. Isso prejudica os produtores à jusante,
além de se fazer necessária a captação de uma maior vazão no início do
canal para compensar as perdas.
Em
decorrência desses fatos, a Agência Reguladora de Águas, Energia e
Saneamento Básico do Distrito Federal - ADASA, juntamente com CAESB,
SEAGRI e EMATER, decidiram fazer um esforço conjunto para tubular o canal,
de forma a contribuir para os produtores usuários do canal, mas,
principalmente, para garantir que a vazão captada não seja maior que a
necessária, de forma que a vazão do ribeirão Rodeador não seja
prejudicada, permitindo que este manancial aumente sua contribuição para
o lago Descoberto e, consequentemente, para o abastecimento da
população do Distrito Federal. Estima-se que com isso será possível
diminuir em 30% e em 50% a captação de água para o canal no período
chuvoso e seco, respectivamente, contribuindo assim para que não falte
água nas propriedades e aumente o volume do lago Descoberto, com uma
contribuição média de 144 L/s a mais para o Lago Descoberto no período
seco.
A área de intervenção consiste em toda extensão do Canal de Irrigação do Rodeador, composto de um canal principal com aproximadamente 13.700 m e 10 ramais secundários, com aproximadamente15.700 m.
O projeto consiste na substituição da forma de transporte de água bruta
por canal aberto para tubulação enterrada em ferro fundido, PEAD ou PVC
(PBA, DEFOFO ou rígido coletor de esgotos tipo Vinilfort), com início
no ribeirão Rodeador (UTM 8.263.391 N e 807.946 E), com potencial de
atendimento a 102 propriedades, (96 propriedades atuais e 6 propriedades
potenciais).
EDITAL DE PREGÃO ELETRONICO Nº 25/2016 - ADASA
PROCESSO Nº: 197.001609/2016
OBJETO:
Contratação de empresa especializada para elaboração de projeto
executivo de adutora de água bruta e sistema de distribuição de água que
integra o Sistema Coletivo de Abastecimento de Água para Irrigação –
Canal de Irrigação do Rodeador –localizado na região do Plano Integrado
de Colonização Alexandre Gusmão – PICAG, Incra 06, na Região
Administrativa de Brazlândia - RA IV, Distrito Federal (DF)
Thomas
Dambom é um artista e designer que vive em Copenhague, na Dinamarca.
Nos últimos sete anos, ele já criou mais de três mil casinhas
especialmente para as aves. Segundo ele, estes animais são um dos poucos
que ainda conseguem sobreviver na cidade, então porque não dar a eles
uma vida digna?
“Comecei esse projeto pensando que era importante
se certificar de que eles podem continuar a viver aqui [na cidade]”,
afirmou Dambom em seu texto para o Bored Panda. “As pessoas sempre me
perguntam se os pássaros usam a casa. Minha resposta é que os pássaros
se mudam para as casas se existem aves na área e elas não vão se mudar
se as casas estiverem penduradas em um poste de luz ao lado de uma
estrada barulhenta. Mas podem ir se a casa estiver em uma árvore dentro
de um parque”, completa.
Dambom
explica que o projeto é sobre a criação de um abrigo para pássaros,
assim como também é uma lembrança do quão é “importante deixar espaço
para aves no mundo urbano”.
Como ex-grafiteiro, as chamadas “birdhouses”
nascem também de uma necessidade de fazer um tipo de arte em que todos
pudessem entender o propósito.
Além das casinhas, o artista
desenvolve diversos projetos para clientes ao redor do mundo. Esculturas
a partir de materiais reciclados encontrados no lixo, instalações para
cenografia e mobiliário são alguns de seus trabalhos. Para conhecê-los, clique aqui.
O
ano é 2016 e a humanidade se vê composta por mais de sete bilhões de
indivíduos, distribuídos sobre a vasta superfície terrestre, dividindo
espaço com um sem número de outras espécies e elementos constitutivos da
biosfera. Eu e você somos uma minúscula parte dessa totalidade.
Não
nos consideramos parte da mesma família, entretanto, da mesma forma que
não nos reconhecemos como cidadãos do planeta, nem mesmo como seus
inquilinos. De fato, costumamos pensar que há uma certa distância entre
nós e aquilo que nos cerca.
Esse distanciamento entre micro e
macrocosmo rendeu e continua rendendo frutos positivos, sendo um deles a
formação das identidades individuais responsáveis pelas mais sublimes e
distintas expressões artísticas de nossa história.
Há,
entretanto, consequências não tão positivas assim. A negligência
sistemática de nosso potencial transformador e a conformidade com “o
jeito que as coisas são” são dois exemplos.
Fome,
guerra, genocídio, escravidão, miséria, poluição dos oceanos, do solo e
da atmosfera. Vemos notícias como essas pipocando diariamente no
jornal, na internet e nos grupos do whatsapp. E o que fazemos em relação a elas? Experimentamos momentaneamente um sentimento de impotência e depois seguimos em frente.
Como bem argumenta Larry David no filme Whatever Works
(Woody Allen, 2009), “você lê sobre um massacre em Darfur ou sobre um
ônibus escolar que é explodido e você diz ‘Oh meu Deus, o horror!’, e
então você vira a página do jornal e termina seu café da manhã. ‘Porque o que você pode fazer?’ É aterrador.”
Alguns
desperdiçam comida enquanto outros vivem de restos garimpados no lixo.
O jeans daquela marca que veste maravilhosamente bem passa por um
processo de lavagem que polui os dois principais rios de um país
subdesenvolvido, que, por sua vez, não pode se dar ao luxo de cassar a
licença da multinacional responsável pela bagunça, pois ela representa
empregos e investimentos.
Enquanto
algumas joias, cujo valor chega à casa do milhão, são furtadas de um
hotel, despertando comoção na população, em um lugar anônimo, milhares
simplesmente passam os dias dividindo miséria, desprovidos de direitos, à
margem de qualquer reconhecimento como pessoa humana.
Nosso tempo
aqui é palco de profundas contradições e complexos paradoxos. Como
resolvê-los?
Como continuar existindo sem consumir o planeta? Como viver
uma vida consciente, que resulte em um estado de bem-estar coletivo e
individual e ajude a promove-lo?
Muitos já estão engajados em
inciativas que buscam solucionar tais questões, contribuindo em maior ou
menor escala para sua resolução. Grupos de apoio, de voluntários, de
estudos e debates. Há, a nível internacional, o “Millenium Project”, cuja proposta é buscar maneiras de pensar/construir um futuro mais justo, sustentável democrático.
Me
parece que, enquanto espécie, estamos nos aproximando de um precipício,
o qual conseguiremos transpor no momento em que enxergarmos nossa
condição de membros integrantes de um ecossistema, e passarmos a
colaborar de forma responsável a partir daí.
Como
nossos ancestrais pré-históricos, que abandonaram a dinâmica da caça e
coleta e passaram a cultivar alimentos, propiciando o surgimento de
assentamentos e, mais tarde, de civilizações organizadas, precisamos
transformar o modo de existir atual, migrando de uma perspectiva
isolacionista para uma coletivista e igualitária.
A
transformação verdadeira emana de um esforço de vontade, de um impulso
que começa na essência de cada indivíduo e depois expande,
perpassando, aos poucos, pensamentos e ações, alterando seu tom,
frequência e alcance. É um processo de conscientização, de renovação, de
movimento.
Assuma e comece a desempenhar seu papel de agente da transformação
Fuja
de tudo que produz um efeito letárgico em seu organismo. Mantenha-se de
olhos abertos, resista à dormência sedutora trazida pela musiquinha
daquele comercial.
Acredite em seu potencial. Perpetue gestos e
palavras que promovam equilíbrio, pratique gentileza e, quando puder,
ame. Dialogue, busque outras fontes de informação, construa
conhecimento, projete alternativas, reflita sobre seu papel na grande
odisseia humana e encontre formas inusitadas de contribuir.
Você importa e suas atitudes fazem diferença
Pense
bem: o fato de eu e você estarmos conectados por uma rede global de
comunicação simultânea já é sinal de que nossa civilização é plenamente
capaz de solucionar entraves. Basta um esforço de vontade e iniciativa
em duas frentes: individual e coletiva.
Nós, homo sapiens que somos, precisamos sair de nossas conchas protetoras enquanto indivíduos, e vencer as paredes do casulo enquanto coletividade, se quisermos expandir nossas asas enquanto espécie e vislumbrar novos horizontes.
Ainda somos crisálida, mas um dia, lá adiante, quem sabe…
Escritora,
editora e fotógrafa. Formada em História pela Universidade Federal de
Santa Catarina e em Antropologia pela Goldsmiths University of London.
“Quando crio, busco sempre associar duas formas de linguagem: a escrita e
a imagética”. Os contos Jacques, Elodie e África foram publicados na
antologia Contos Fantásticos da 4
O número de animais selvagens que vivem na Terra deve cair em dois terços até 2020,
de acordo com um novo relatório. Pode ser o começo de uma extinção em
massa do mundo natural do qual a humanidade depende para sobreviver.
Esta
análise, a mais completa até esta data, indica que a população de
animais diminuiu em 58% entre 1970 e 2012, com perdas em vias de atingir
67% até 2020.
Pesquisadores do WWF – Fundo Mundial para a
Natureza -e da Sociedade Zoológica de Londres compilou o relatório a
partir de dados científicos e descobriu que a destruição do habitat
selvagem por meio da caça e a poluição foram os grandes culpados.
As
criaturas que estamos perdendo vão desde as montanhas e florestas até
aos rios, os mares e incluem espécies ameaçadas bem conhecidas, tais
como elefantes, gorilas e criaturas menos conhecidas, como abutres e
salamandras.
O colapso da vida selvagem é, com a mudança climática acelerada, o sinal mais evidente da Anthropocene, prevista como uma nova era geológica em que os humanos dominam o planeta.
“Nós
já não somos um pequeno mundo em um grande planeta. Estamos agora num
mundo grande em um pequeno planeta aonde chegamos num ponto de
saturação”, disse o professor Johan Rockström, diretor executivo do Centro de Resiliência de Estocolmo, no prefácio do relatório.
Marco Lambertini, diretor-geral do WWF:
“A
riqueza e a diversidade da vida na Terra é fundamental para os sistemas
de vida complexas que estão subjacentes. Vida apoia a própria vida e
nós somos parte da mesma equação. Perder os sistemas de suporte à vida, a
biodiversidade e o mundo natural – tal como os conhecemos – provocará
um colapso”.
Ele disse que a humanidade é
completamente dependente da natureza com ar e água limpos.
Alimentos e
materiais, bem como inspiração e felicidade são partes importantes de um
todo caótico.
Todo esse sistema se imbrica de tal forma que um depende
absolutamente do outro.
O relatório analisou a
abundância na mudança de mais de 14.000 populações monitoradas das 3.700
espécies de vertebrados. Isso produz uma medida semelhante a um índice
que mostra o estado terminal das espécies animais do mundo. Os cientistas utilizam 64.000 espécies para medir o progresso dos esforços de conservação.
A
maior causa da diminuição do número de animais é a destruição de áreas
selvagens para a agricultura e a exploração madeireira: a maioria da
área terrestre do planeta já foi impactada por seres humanos, com apenas
15% protegidas pela natureza. A caça furtiva e a exploração de
alimentos é outro fator importante, devido à pesca insustentável e a
caça: mais de 300 espécies de mamíferos foram comidas, de acordo com
pesquisas recentes.
A poluição é também um problema
significativo. Por exemplo, orcas e golfinhos nos mares europeus estão
sendo seriamente afetadas por poluentes industriais de longa duração.
Abutres no Sudeste Asiático foram dizimados ao longo dos últimos 20
anos. Os abutres morreram depois de comer carcaças de gado que
receberam doses de um medicamento anti-inflamatório. Anfíbios sofreram
uma das maiores quedas de todos os animais, devido a uma doença fúngica
que pode ser espalhada em todo o mundo pelo comércio de rãs e tritões.
Rios e lagos são os habitats mais atingidos, com populações de animas abaixo de 81% desde 1970, devido à extração excessiva de água, poluição e barragens. Todas
essas situações são ampliadas pelo aquecimento global que altera os
espaços onde os animais são capazes de viver, disse o diretor da ciência
do WWF, Mike Barrett.
Alguns pesquisadores são comedidos sobre a abordagem do relatório que resume estudos diferentes em um número alarmante.“O estudo é muito amplo e vertical, mas o todo é menos do que a soma das partes”,disse
o professor Stuart Pimm, da Universidade Duke, nos EUA, acrescentando
que olhar para grupos específicos, como aves, é mais preciso, oferecendo
resposta mais clara.
O relatório adverte que as perdas de vida selvagem terá um impacto sobre as pessoas e pode até provocar conflitos: “A
influência humana é a grande ameaça aos recursos naturais que a
humanidade depende, aumentando a disputa por água, a insegurança
alimentar e a competição por recursos naturais”.
No entanto, algumas espécies começam a se recuperar, sugerindo que uma ação rápida poderia enfrentar a crise. O
número de tigres é monitorado pode aumentar. O acerto deste controle
pode ser comprovado pelo crescente número de pandas gigantes que foram
tirados da lista de espécies ameaçadas de extinção.
Na Europa, a
proteção do habitat do lince eurasiático sob o controle da caça viu
crescer a sua população em cinco vezes desde os anos 1960. A
recente cimeira da vida selvagem global também introduziu uma nova
proteção para os pangolins, mamíferos com maior tráfico do mundo e os rosewoods – pau-rosa – o produto selvagem mais traficado de todos.
Mas, as perdas totais de animais e dos ambientes naturais requer uma
mudança sistêmica na forma como a sociedade consome recursos, disse
Barrett.
As pessoas poderiam optar por comer menos carne, pois
muitas vezes os animais são alimentados com grãos cultivados em terras
desmatadas. Por outro lado, as empresas devem garantir suas cadeias de fornecimento, tais como a madeira, de modo sustentável, disse ele.
“Se
uma empresa consume matérias-primas para seus produtos de uma forma que
não é sustentável, então, inevitavelmente, esta empresa acabará por se
colocar fora do mercado”, disse Barrett. Os políticos também devem
garantir que todas as políticas públicas – não apenas os ambientais –
sejam sustentáveis, acrescentou.
“O relatório é certamente um instantâneo chocante do lugar e da situação em que chegamos”, disse Barrett. “Minha
esperança é que embora não seja necessário jogar nossas mãos para o
alto, em desespero, eu continuo convencido de que podemos encontrar o
nosso curso sustentável por intermédio da Anthropocene. É hora de agir”.
Publicado originalmente em Theguardian – Tradução e adaptação livres: Portal Raízes. Os Direitos Autorais no Brasil são regulamentados pela Lei 9.610 . A violação destes direitos está prevista no artigo 184 do Código Penal. Este artigo pode ser publicado em outros sites, sem prévia autorização, desde que citando o autor e a fonte.
Altair Sales Barbosa
é doutor em Antropologia / Arqueologia pela SMITHSONIAN INSTITUTION de
WASHINGTON D.C.- Estados Unidos. Liderou as pesquisas na região de
Serranópolis/GO, onde foi encontrado o esqueleto cujo teste de
Carbono-14 mostrou ter 11 mil anos – O Homem da Serra do Cafezal. Altair
Sales é o fundador do Memorial do Cerrado e do Instituto do Trópico
Sub-úmido. Ele continua atuando, com genialidade e vasto conhecimento
junto à PUC-Goiás. Concedeu uma entrevista exclusiva, originalmente
publicada na versão impressa da revista Raízes Jornalismo Cultural em
maio de 2015.
Raízes – O Sr. se tornou
uma das maiores referências mundiais em Cerrado, antropologia,
arqueologia e meio ambiente. Já proferiu mais de mil palestras,
principalmente de teor ambiental, e fez algumas declarações um tanto
polêmicas, uma delas inclusive nos causa um desconforto muito grande,
que é a afirmação de que “o Cerrado acabou”. Explique melhor essa
afirmativa.
Altair Sales
– O Cerrado, diferente dos outros matizes ambientais brasileiros, tem
que ser entendido como um sistema biogeográfico. Sistema é um conjunto
de elementos intimamente interligados, e qualquer modificação em um
desses elementos provoca alterações maiores no sistema como um todo.
No
Cerrado temos ambientes totalmente ensolarados, como as campinas e os
campos limpos, e ambientes sombreados, aqui mesmo próximo a Goiânia
temos exemplos de resquícios dessas matas, no Parque Ecológico Altamiro
Moura Pacheco. O Cerrado tem essa variação de ambiente. Entre o ambiente
ensolarado e o umbrófilo (sombreado), há todo um conjunto de outros
ambientes stricto sensu, como o cerradão, a vereda, as matas ciliares,
todos interdependentes. Modificou um deles, todo o sistema sofre
mudança. Isso vem sendo observado numa história evolutiva de milhões de
anos.
Por exemplo, nos chapadões, onde se encontram as campinas e os
campos limpos, é onde ocorre também a recarga do aquífero, que alimenta
áreas de matas situadas em terrenos mais baixos. A cobertura vegetal do
cerradão, na área plana, é que garante a infiltração da água da chuva
nas raízes das plantas. Retirada essa cobertura, a infiltração não
ocorre como deveria, e isso prejudicará em maior ou menor grau todos os
demais ambientes.
O aquífero só é abastecido ali, as demais áreas são de
descarga. Para responder à sua pergunta, é preciso ter uma visão global
da História Evolutiva do Cerrado, uma evolução de mais de 60 milhões de
anos. Houve uma adaptação a um tipo específico de solo, de clima, de
agente polinizador que, se eliminado ou alterado, modifica as
características dos demais elementos envolvidos.
Raízes – Esses elementos polinizadores seriam as abelhas, os besouros, algo assim?
Altair Sales– Exato. Abelhas nativas, como, por exemplo, a Jataí. Determinadas plantas só são polinizadas por insetos específicos.
Raízes– Se a abelha morrer, a planta deixa de se reproduzir…
Altair Sales–
Sim, você vai ver jatobazeiro, pés de araticum e outras plantas sem
frutos. A planta pode até continuar existindo por certo tempo, mas não
vai mais ter fruto, com isso não terá semente que propicie a reprodução
da espécie, o que determinará seu fim. Se você altera o solo, por
exemplo, arando esse solo para plantar arroz, soja, aquele solo, que era
oligotrófico – carente de nutrientes básicos –, recebe calcário para
corrigir a acidez, recebe adubos ara aumentar a produtividade… se forem
mudadas as características primitivas, não vai mais ser um Cerrado.
Raízes –
Se eu trago uma planta lá da Mata Atlântica, por exemplo, introduzo no
Cerrado, por que ela não propicia o mesmo tipo de infiltração e
manutenção do aquífero?
Altair Sales
– Porque ela não exerce o papel ecológico próprio do Cerrado. O sistema
radicular do Cerrado é muito complexo. Além da raiz pivotante, que é a
raiz principal, que é mais profunda, há um sistema lateral de milhares
de canais. Leve um pedaço mínimo de plantas do cerrado ao microscópio e
verá milhares de radículas…
Raízes – São “cabeludas”, né? Um exemplo é o tucum, certo?
Altair Sales
– Isso mesmo. Essa planta tem uns 40cm acima do solo, mas há um sistema
radicular muito complexo, o que garante uma longevidade ao tronco de
até 1.000 anos, em alguns casos até mais do que isso. Cada raiz tem uma
função ecológica importantíssima, a mais básica é fixar a água no solo.
Um solo desnudo, com plantas exóticas introduzidas, não é capaz de reter
a água. Uma insolação mais forte fará com que a água existente na parte
superficial desse solo evapore e não alimente os lençóis mais
profundos.
Raízes – O Sr. diz, em um de seus estudos, que o Cerrado é como a cumeeira de uma casa. Por quê?
Altair Sales–
A cumeeira é a parte mais alta de uma casa, a parte que recebe a água
da chuva que flui pelos quatro – ou mais – cantos do telhado. O Cerrado
recebe e retém a água da chuva… o verbo, infelizmente, ficaria melhor no
passado: ele retinha essas águas e as distribuía para todas as bacias
do continente. Bacia Amazônica, do São Francisco, do Paraná e inúmeras
bacias independentes, como a do Parnaíba, que, apesar de ser pequena em
relação à Amazônica, é tão complexa que carreia sedimentos do Jalapão,
da Chapada das Mangabeiras e forma o segundo maior delta das Américas,
com mais de 74 ilhas, distribuindo as areias desde o Maranhão, formando
os lençóis maranhenses e piauienses e indo até Jericoaquara, no Ceará.
Algumas ilhas desse delta são tão grandes que têm dois municípios dentro
delas. Tudo isso é terra levada pelo rio Parnaíba, que nasce no
aquífero Urucuia, que está na Chapada das Mangabeiras e no Jalapão (no
Tocantins) e vai dividindo o Piauí do Maranhão até chegar ao Atlântico. A
Bacia Amazônica, com todos os seus afluentes, tem suas nascentes, seu
curso médio, situado na região do Cerrado.
Da mesma maneira os rios
Paraná e São Francisco, e praticamente todas essas águas se encontram na
parte mais alta do Planalto Central brasileiro, que é em Formosa.
Formam a Reserva Biológica das Águas Emendadas, com águas do São
Francisco, do Araguaia e assim sucessivamente.
Raízes – Além da Bacia do Paraná, essa cumeeira distribui águas das bacias do São Francisco e do Amazonas, Tocantins, Xingu…
Altair Sales
– Sim, todas essas e mais Tapajós e até o Madeira, que é já no final do
Cerrado. Depois da Serra dos Pacaás Novos, a alimentação é feita pelo
rio Javari, que nasce numa ilha do Cerrado, em cima da Serra dos Pacaás
Novos e depois o próprio Madeira, que nasce numa região do Cerrado,
quando este se estende em direção ao Acre e Rondônia.
Raízes– É possível ter uma casa sem cumeeira, Professor?
Altair Sales
– É impossível, porque a água cai e alaga o solo, forma uma lagoa, se o
solo for impermeável. Se não for, a água vai escorrer e desaparecer.
Raízes – Isso quer dizer que, se o Cerrado não absorve essa água, ela pode provocar grandes inundações e desastres ecológicos?
Altair Sales
– Sim, cheias repentinas, como no Meia Ponte, no Botafogo, no Tietê (em
São Paulo), por exemplo, durando de um a cinco dias. A água que existe
hoje no planeta, pelos parâmetros estudados, sempre existiu. Não é que a
água vai “acabar”, pelo menos a curto prazo, e curto prazo em Geologia
quer dizer milhares e milhares de anos.
A água em seu volume atual
sempre existiu em 60 milhões de anos, o que ocorre é que ela muda de
local. Hoje ela só está aqui graças às condições que formam um aquífero
importante. Amanhã ela pode estar em outro lugar. Ela pode inclusive
salinizar totalmente e formar apenas águas oceânicas.
Raízes – O Oriente Médio, na época bíblica, tinha muitas matas de araucárias e cedros, e hoje é em boa parte um grande deserto.
Altair Sales–
O mundo todo, do Pleistoceno, quando houve uma glaciação, para agora,
teve suas paisagens radicalmente mudadas. O mundo moderno se formou a
partir da última glaciação. O deserto de Atacama era uma floresta
temperada 11 mil anos atrás. Hoje, é o mais seco deserto do mundo. Como
em tantos outros casos de grandes lagos que secaram, a vegetação não
existe mais. O Saara também tinha uma vegetação exuberante, floresta
equatorial, e tudo secou durante o Pleistoceno em função das correntes
marinhas, que afetaram as correntes aéreas, terminando por mudar
completamente o clima lá.
Raízes– Professor, fale um pouco a respeito do livro que o Sr. escreveu, com outros autores, sobre a Juriti Pepena. O que é essa ave?
Altair Sales
– Então. O livro é bastante interessante, foi inspirado numa lenda
indígena do Centro-Oeste brasileiro e de parte do Norte do país. A
Juriti Pepena é uma ave invisível que habita as touceiras de catiguá,
que é um tipo de inhame de folha riscada, de ocorrência nos brejos do
Cerrado. Segundo a lenda, quem ouve os pios lamentosos desse ser passa
por uma série de desgraças e sua vida vira uma infelicidade só, isso
apenas pode ser revertido com a intervenção de um pajé dotado de muita
sabedoria. Se isso não acontecer, a pessoa poderá ficar aleijada para
sempre.
Raízes–
Vamos supor que a nossa sociedade, como um todo, já tenha ouvido esse
pio, e não há um pajé para intervir. A sociedade progressista, nós todos
já estamos nessa situação?
Altair Sales–
(risos) Boa analogia! Se não houver uma intervenção, uma mudança
drástica no modelo econômico que escolhemos e adotamos, eu não tenho a
menor dúvida em afirmar que já estamos caminhando com dificuldades.
Daqui a pouco poderemos ficar paralíticos ou aleijados para sempre.
Agora, é importante entender que o meio ambiente é formado por elementos
interligados: ar, fogo, litosfera, atmosfera, comunidades de plantas e
animais, e tudo isso está ligado ao Homem também. O que aconteceu às
comunidades humanas que ocuparam nossa região? Primeiro, houve até certo
tempo uma reação em que fazendeiros muito bem estabelecidos não tinham
em suas propriedades escolas ou hospitais. Pensando nos filhos e na
conquista de um futuro melhor para eles, enviaram-nos à cidade grande.
No começo, o pai ficou na fazenda, mas, movido em parte pela necessidade
de serviços de saúde e hospitalares na medida em que a idade avançava e
em parte pela saudade dos filhos, também ele se mudou. Nossa
ancestralidade rural passou por uma migração lenta.
As terras foram
sendo arrendadas. A partir de 1970, foram sendo criadas as
multinacionais, o grande capital internacional entrou de vez em nosso
país, por arrendamento ou por grilagem de terras. Com isso, posseiros
foram expulsos da terra por meio da falsificação de documentos em
cartório ou pela compra de políticos corruptos que facilitavam os
trâmites legais, uma vez que só o Estado podia dar a escritura
definitiva de uma antiga posse.
As comunidades rurais, desestruturadas,
buscaram abrigo na cidade, onde se viram massacradas pelos meios de
comunicação de massa, programas altamente banais que faziam e fazem a
cabeça da população brasileira. As pessoas oriundas do meio rural
geralmente vêm parar em zonas urbanas periféricas, que são quase sempre
ambientes muito desestruturados. A mídia instiga o consumismo, mas a
falta de dinheiro impede a sua concretização, o que leva algumas dessas
pessoas a uma vida de crimes.
A estatística carcerária brasileira mostra
que 99,9% dos presos são jovens e/ou negros e/ou pobres. Quem provocou
tudo isso? Pessoas protegidas por uma redoma tão invisível quanto a
Juriti Pepena, um muro chamado impunidade. Enquanto isso, os
prejudicados não veem perspectivas e desvalorizam as próprias vidas.
Raízes – Em suma, nós vivemos um desarranjo social que é, na verdade, um desarranjo ecológico.
Altair Sales – Ambiental. Um desarranjo ambiental que provoca toda essa desestruturação social.
Raízes –
Observando atentamente a sua fala, Professor, a gente percebe que não
se trata apenas de uma teoria, de uma coisa de professor universitário. A
realidade, com suas tragédias e catástrofes, corrobora os alertas dos
ambientalistas
…
Altair Sales
– Exato. O que aconteceu no reservatório do Sistema Cantareira, em São
Paulo, é uma consequência do que está sendo feito no Cerrado. Estamos
colhendo os frutos de um planejamento inadequado. O Cerrado, de uns
tempos para cá, tem sido incluído na política econômica brasileira, como
um avanço da fronteira agrícola, sem que se ouça a comunidade
científica. Vão tocando o barco sem se preocupar com o futuro da
Humanidade.
É agronegócio sem zoneamento adequado. Na verdade é possível
conciliar meio ambiente e agronegócio sadio. Tem que haver um
mapeamento agroecológico para que não haja efeitos nocivos à natureza.
Em São Paulo, o sistema é alimentado pelo rio Piracicaba, que é afluente
do rio Doce, que por sinal tem nascentes no aquífero Bambuí, que é
típico do Cerrado, embora seja uma bacia independente.
O Piracicaba
nasce no arenito Botucatu, no aquífero Guarani, de onde suga a água para
abastecer o Sistema Cantareira. Porque a água que cai nas escarpas da
Serra da Cantareira é incapaz de encher todo aquele grande reservatório,
precisa de um aquífero de grandes proporções como o Guarani era. Num
dos períodos cíclicos em que se observam influências do El Niño, La Niña
e outros eventos periódicos, houve uma grande estiagem, com drástica
diminuição da água da chuva, e as represas não foram alimentadas como
deveriam.
A represa deveria, então, ser sustentada pelos rios que a
alimentam. Só que os aquíferos também já chegaram aos seus níveis de
base, não tem água hoje como há 20 anos. Consequência: a maioria dos
rios desapareceu, os menores, e os maiores tiveram a vazão muito
reduzida. O Governo pensou em colocar uma sonda para chegar ao arenito
Bauru, mais antigo que o Botucatu, e sugar aquela água para alimentar a
represa. Felizmente não se fez isso, seria um desastre ambiental de
grandes proporções.
Agora o pensamento é captar água da nascente do
Paraíba do Sul para suprir a necessidade da represa Cantareira. É uma
transposição que pode ser benéfica a curto prazo, mas em mais ou menos
cinco anos poderá haver problemas para a bacia do Paraíba do Sul (que
alimenta os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo) e
também para o Sistema Cantareira.
O aquífero Guarani não está sendo
reabastecido como deveria, porque foram retiradas as plantas nativas dos
chapadões e no lugar foram implantadas variedades exóticas, como soja e
algodão melhorado geneticamente, que têm raízes sub-superficiais,
diferentes das raízes das plantas do Cerrado. Cai a chuva e a água, em
vez de infiltrar, empoça e não é sugada pela planta, nesse caso uma
insolação mais forte ou mais prolongada provoca níveis de evaporação
indesejados.
Raízes – Curva de nível feita nas lavouras não resolve esse problema?
Altair Sales
– Não, porque a curva de nível acumula a água na primeira vez, na
segunda já forma na base da curva uma argilificação do solo. A argila é
uma rocha impermeável e não deixa a água penetrar. A água pode até ficar
retida, mas fica empoçada, criando ambientes propícios à proliferação
de insetos nocivos, como o Aedes aegypti.
Raízes–
Por falar em transposição, há o caso do Rio São Francisco, no Nordeste.
Lá também há o risco de se agravar em vez de se resolver o problema?
Altair Sales
– No caso específico do Rio São Francisco, se houver a concretização da
transposição, vão praticamente acabar com o rio, que hoje já tem
trechos que podem ser atravessados a pé. Já foi considerado entre os
maiores rios do mundo, hoje nem é como naquela música do Luiz Gonzaga,
“Riacho do Navio corre pro Pajeú, o Rio Pajeú vai despejar no São
Francisco, e o Rio São Francisco vai bater no meio do mar”.
Aquilo ali
já não é mais verdade, ele não bate mais no mar. É o mar que avança em
direção ao Rio São Francisco, que começa a morrer da foz à nascente. Na
transposição, há dois grandes canais, um de 25m de largura por 12m de
profundidade, com 750 km, é o Canal Norte, e outro com as mesmas medidas
e com 600 km, que é o Canal Leste. A ideia é bombear a água do
Sobradinho para encher esses canais e fazer dois grandes rios que vão
correr pelo Nordeste. As bombas d’água vão alterar a mecânica do rio.
Ele correrá mais depressa, com isso chupará mais os afluentes, que já
estão exauridos. Os afluentes menores vão assorear e sumir.
Raízes –
E a gente percebe isso no dia a dia, em Goiânia e região inclusive, a
depredação do Cerrado é um fato. Há poucas reservas de Buriti, que é o
grande esteio, o grande monumento do Cerrado. Em sua opinião, Professor,
o que o pequeno produtor pode fazer para ajudar, se não a parar, pelo
menos a desacelerar esse processo de devastação?
Altair Sales
– Pouca coisa. Claro que ele, se quiser, pode tomar providências, mas
são os latifúndios, praticamente cidades que surgem da noite para o dia,
como Luís Eduardo Magalhães, Chapadão do Céu, São Lucas do Rio Verde –
que tem até um time de futebol melhor que o Vila Nova, embora
pouquíssima gente admita isso –, são esses grandes capitais dinâmicos
que trazem uma nuvem que cega para a verdadeira imagem do futuro.
Cercar
a área do córrego e impedir que o gado a pisoteie, com isso protegendo o
lençol freático, é uma boa opção, mas de modo geral a contribuição do
pequeno produtor é mínima. Os grandes dizimadores do futuro é que teriam
que mudar seu comportamento predatório. Por isso eu disse que o Cerrado
não existe mais. Você não pode medir a degradação do meio ambiente
apenas pela existência ou não de certas plantas.
É preciso que existam
comunidades, tanto animais quanto vegetais. Caso contrário, haverá uma
degeneração, inclusive pelo cruzamento indevido de espécies. Nossos
animais estão praticamente todos no livro vermelho da extinção,
principalmente pela falta de espaço para que sobrevivam. E além da ação
do Homem, ainda há dois inimigos naturais da fauna silvestre que foram
trazidos pelos europeus, que são o gato e o cachorro domésticos. Ambos
são animais exóticos, ou seja, não nativos daqui.
O latido do cachorro,
no meio rural, provoca um tamanho nível de estresse em pequenos animais e
pássaros silvestres que, em alguns casos, impedem a procriação deles.
Quanto ao gato, trata-se de um predador por natureza, pondo fim a
passarinhos, calangos, micos etc. com a proliferação das pet shops, que
tratam melhor esses bichos do que o sistema de saúde humano trata as
crianças pobres, a Humanidade – e aqui especificamente a gente goiana –
está criando seres que acabarão com a fauna nativa. Eu tenho pena dos
filhotes de Lobo-Guará, de tamanduá, de raposa, de meleta, de ouriço,
porque eles já não têm mais para onde fugir.
Raízes– O Lobo-Guará, inclusive, segundo um estudo seu, Professor, ajuda na proliferação de plantas como o araticum…
Altair Sales–
Sim, as sementes do araticum só quebram a dormência no intestino
delgado do Lobo-Guará, da raposa, do Cachorro-do-Mato Vinagre – esses
sim, canídeos naturais de nosso bioma –, que defecam e proporcionam a
germinação dessa planta
Raízes– Sem falar que grande parte do que comemos tem origem indígena, e muitas pessoas sequer suspeitam disso…
Altair
Sales – Verdade. Se pensarmos para além das aparências, veremos que
quase tudo o que entra em nossa dieta é contribuição indígena. O milho,
cultivado desde sete mil anos atrás no México, tem sido modificado pelos
índios do Cerrado.
São inúmeros produtos derivados do milho que fazem
parte da culinária do mundo todo, e não apenas alimentos, mas também
combustíveis e remédios. Da mesma maneira ocorre com a mandioca.
Farinha, tapioca, beiju, suportes para remédios, polvilho etc. O tomate
também, foi domesticado pelo nosso índio.
Ainda há reservas de tomate
primitivo, que originou primeiro o tomatinho de capoeira, que por sua
vez deu origem ao tomate atual. O abacate, o abacaxi, tudo planta nativa
domesticada e aperfeiçoada no Cerrado. Quanto ao chocolate, derivado do
cacau, o índio fazia a sebereba, uma bebida energética também chamada
jacuba, não só do cacau, mas também do buriti. Batia, cozinhava, tirava a
polpa, misturava mel de abelha, adicionava água e bebia. Isso foi
ensinado aos europeus, que adicionaram leite, pois o gado é de origem
mista europeia e indiana.
Vamos pensar na borracha, o mundo se move
sobre ela, nos pneus dos veículos, no solado dos sapatos. Pois é, a
seringueira dá o látex, que faz inúmeros produtos, inclusive a
camisinha. Inúmeras plantas medicinais incorporadas à farmacopeia
internacional têm origem no Cerrado. O quinino, que cura malária…
ficaríamos a tarde toda enumerando as contribuições. Todos os tipos de
pimenta vêm da Malagueta, que é nossa.
Mas, sem dúvida alguma, a maior
contribuição é mesmo a sabedoria, o exemplo da relação saudável com a
Natureza, que ainda não aprendemos, mas ainda podemos aprender se as
escolas cumprirem a função para a qual foram criadas. Só que não há uma
eternidade para isso. Se o Homem não mudar seu procedimento, chegará o
dia em que será tarde demais.
Raízes – Para encerrar, Professor, vamos falar um pouco mais do livro “O Piar da Juriti Pepena?”.
Altair Sales–
Claro! O subtítulo é “Narrativa Ecológica da Ocupação Humana no
Cerrado”. O pano de fundo é o meio ambiente e o modo de narrar é fruto
de uma escola antropológica que nós criamos e depois ajudamos a
aperfeiçoar, quando ainda estávamos nos Estados Unidos. O livro tem o
suporte teórico dessa escola, a “ecologia cultural”, que tem suas bases
no neo-evolucionismo e no neo-marxismo.
Há duas formas de você ver a
realidade: uma é situando-se fora dela, como observador, a outra é de
dentro pra fora. O livro foi escrito numa concepção que se põe dentro do
universo estudado, e somos afetados por tudo o que ocorre com esse
universo. Desde os primórdios, há 12.000 anos, passando pelos
bandeirantes com as primeiras cidades fundadas aqui, os variados ciclos
econômicos, até chegar ao impacto do sistema capitalista e os dias de
hoje.
Tudo isso foi dando um novo desenho ao lugar que ocupamos,
modificando o que colhemos, nós e as gerações futuras. O livro pode ser
encontrado em várias livrarias, mas principalmente na Biblioteca da
UCG-GO. A primeira edição está praticamente esgotada, depois de um
período de três anos e três lançamentos, na própria UCG, no Instituto
Histórico e Geográfico e também na UnB. Isso nos incentiva a continuar
escrevendo.
Raízes – A gente agradece pela entrevista. Muito obrigado, Professor Altair Sales.
Altair Sales–
Eu é que agradeço pela oportunidade de levar a público algumas de
minhas ideias, espero ter contribuído para a formação de uma consciência
ambiental da população goiana.
Manaus, AM -- Ao lado de impressionantes geoglifos, índios que
viveram há centenas ou milhares de anos onde hoje é o estado do Acre
deixaram inúmeras outras marcas, bem mais sutis. Elas precisaram de
olhos e instrumentos de cientistas para serem notadas. Esses registros
estão ajudando arqueólogos e outros pesquisadores a explicar mudanças
ocorridas na floresta amazônica de 6 mil anos atrás até a chegada dos
primeiros europeus.
A análise de vestígios fossilizados de plantas, restos de carvão e levantamentos florísticos em áreas vizinhas aos geoglifos
demonstrou que, além de construir esses misteriosos monumentos (talvez
usados em rituais religiosos), os antigos índios enriqueceram a floresta
com espécies úteis. E provocaram bem menos impactos sobre a natureza do
que acreditam outros estudiosos. A pesquisa foi publicada nesta
segunda-feira na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
Conforme explica a autora principal do artigo, a arqueóloga inglesa
Jennifer Watling, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), antes
do colapso provocado pela chegada dos europeus, os índios abriam
clareiras para viver ou plantar, que depois de abandonadas se
regeneravam. Às vezes, podia incrementar um pouco mais a floresta. “Eles
favoreceram várias plantas econômicas, úteis no passado e mesmo hoje em
dia”, conta a arqueóloga. “A gente viu que eles favoreceram o
crescimento de palmeiras e outras espécies, como a castanha-do-pará, ao
longo de 3 mil anos”, completa.
Vestígios de carvão sugerem que mudanças na floresta começaram a ser
feitas com mais intensidade pelo homem há cerca de 4 mil anos, quando o
uso do fogo se tornou mais comum. Antes disso, num período que retrocede
6 mil anos, as alterações humanas ainda eram muito pequenas. Há sinais
de populações associadas aos geoglifos e essas mudanças na floresta até
pelo menos a época da chegada dos europeus ao continente americano.
Floresta alterada
Estudos em outras regiões da Amazônia também tentam descobrir se a
floresta encontrada pelos descobridores era diferente da planejada pela
natureza. “De fato eles (os índios) cultivavam, manejavam. Mas a grande
discussão é saber se os efeitos disso são vistos até hoje”, afirma a
bióloga Carolina Levis, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
(Inpa), que estuda alterações deixadas por índios na composição da
floresta em uma área próxima a Manaus.
Foto: Edison Caetano.
A concentração de espécies usadas na alimentação, construção de
casas, remédios ou veneno, podem indicar mudanças na natureza provocadas
pelas antigas populações amazônicas, afirma a bióloga. A castanheira é
um exemplo citado por ela. A árvore é encontrada em quase toda a
Amazônia, associada à ocupação humana. Estudos genéticos indicam que a
dispersão da espécie foi rápida, sinal de que pode ter sido espalhada
pelo homem. Além disso, eles precisam de clareiras para crescer.
Mas pesquisadores ainda buscam provas mais robustas de que a
ocorrência de espécies importantes é mais do que um capricho da natureza
e se deve, pelo menos em parte, à ação voluntária do homem. O artigo
publicado esta semana reforça a tese de que antigos índios deixaram uma
rica herança plantada na floresta. No Acre, embora as palmeiras dos
povos pré-colombianos tenham desaparecido com o tempo, outras espécies
de árvores, mais resistentes, ainda podem ser encontradas na mata.
“Existem evidências (de alterações provocadas pelos índios) em um
pedaço de floresta que até agora não foi tocada por práticas modernas,
que fica ao lado de um geoglifo”, destaca Jennifer Watling. “A gente fez
um inventário botânico e vimos que lá tem várias espécies úteis. Essa
evidência é grande para sugerir que as palmeiras talvez declinaram, mas a
floresta que ficou lá até hoje em dia tem traços de manejo prévio”,
completa.
O artigo publicado esta semana traz também uma contribuição a outra
controvérsia que envolve o impacto da agricultura dos antigos índios
sobre a floresta. Há quem diga em vez de serem plantadores eles eram
destruidores. Segundo essa hipótese, o colapso dos povos pré-colombianos
permitiu uma grande e extensa regeneração da floresta. O carbono
sequestrado pelo crescimento das árvores teria sido suficiente para
provocar uma pequena era glacial no planeta nos séculos seguintes.
Os estudos de Jennifer Watling indicam que não. Mesmo que em outras
áreas da Amazônia o desmatamento tenha sido intenso, o sistema adotado
na floresta acreana oferecia menos impacto. “Os índios não mantinham o
espaço aberto por muito tempo, eram espaços temporários que eles abriam
para viver ou para a agricultura, ou para o extrativismo”, conta. “Eles
formaram uma espécie de mosaico, entre áreas manejadas e áreas que eles
não mexiam”, completa.