Por Erika Guimarães, Luiz Paulo Pinto e Mônica Fonseca*
- quarta-feira, 06 setembro 2017 18:50

O
Reserva do Bugio, entre Curitiba, Araucária e Fazenda Rio Grande, é a
maior
UC intermunicipal do país localizada em área urbana.
Foto: Jaelson
Lucas/Prefeitura de Curitiba.
As Unidades de Conservação (UCs) municipais da Mata Atlântica
representam 41% do número e cerca de 22,6% da área total dos espaços
protegidos oficialmente nos diferentes níveis político-administrativos
do bioma, como mostra
recente estudo
publicado pela Fundação SOS Mata Atlântica. Mesmo pouco conhecida e
valorizada, a contribuição das UCs municipais demonstra grande potencial
de dar capilaridade às ações de conservação necessárias para o
enfrentamento dos desafios de gestão em um bioma rico em biodiversidade,
biologicamente heterogêneo, socioeconomicamente complexo e altamente
antropizado, com é o caso da Mata Atlântica.
São múltiplos os fatores que tem motivado as prefeituras na
iniciativa de reservar espaços protegidos em seus territórios. O estudo
identificou seis fatores predominantes: a proteção de remanescentes da
vegetação nativa e da paisagem natural em geral; uso público, com a
promoção de lazer, recreação, turismo e ecoturismo; educação ambiental,
proporcionando contato com a natureza e interpretação ambiental;
atividades de pesquisa sobre a biodiversidade e/ou aspectos
socioeconômicos; proteção de espécies raras, endêmicas e ameaçadas da
fauna e flora nativa; e proteção de recursos hídricos como bacias,
mananciais, rios e outros cursos d’água, principalmente para o
abastecimento das cidades.
A criação de UCs municipais vem ocorrendo desde a década de 1960, mas
a partir dos anos 1990 foi possível perceber um grande salto nesse
processo, a partir da constituição do Imposto sobre Circulação de
Mercadorias e Serviços com critérios ambientais, o ICMS Ecológico, nos
estados do Paraná e Minas Gerais. A conservação da biodiversidade
através das UCs passou a ser um critério de repasse dos recursos
financeiros desse tributo aos municípios. Com isto, nos primeiros quatro
anos de implementação do ICMS Ecológico do Paraná, por exemplo, mais
que duplicou o número e aumentou 18 vezes a área de UCs municipais em
relação aos anos anteriores.
As UCs municipais também representam uma ferramenta relevante para
influenciar o uso e ocupação dos territórios nos municípios ao
constituírem um elemento importante para a dinâmica socioeconômica da
paisagem local. Cerca de 40% dos municípios da Mata Atlântica avaliados
possuem 17% ou mais do seu território coberto por UCs municipais.
Esses
números não consideram a possível sobreposição entre as diversas UCs,
mas mostram uma tendência importante e a necessidade de avaliar a
cobertura e inserção dos espaços protegidos no âmbito local. Os espaços
protegidos contribuem para o ordenamento territorial, oferecem
oportunidades para a instalação de empreendimentos sustentáveis,
promovem o acesso a recursos naturais e o contato com a natureza,
proporcionando bem-estar social e o acesso a serviços ambientais para
diferentes propósitos.
“O estudo registrou a formação de corredores
ecológicos, criação conjunta de UCs municipais, participação em mosaicos
de UCs, e formação de consórcios intermunicipais para a união de
esforços e busca de soluções conjuntas capazes de fortalecer a rede de
proteção local”.
A inserção efetiva das UCs municipais nas estratégias de conservação
da biodiversidade e nos processos de desenvolvimento territorial
sustentável tem demandado dos municípios uma atuação em diferentes
escalas, que vão desde as articulações institucionais até os mecanismos
de mobilização e participação social. Para isso, parcerias são
essenciais, seja com os diferentes setores do governo municipal, com
outros setores da sociedade, ou pela integração com municípios vizinhos e
órgãos estaduais e federais, criando mecanismos e opções para a boa
gestão e governança das UCs.
O estudo registrou a formação de corredores
ecológicos, criação conjunta de UCs municipais, participação em
mosaicos de UCs, e formação de consórcios intermunicipais para a união
de esforços e busca de soluções conjuntas capazes de fortalecer a rede
de proteção local. A participação do setor privado nos esforços de
conservação por meio da criação das Reservas Particulares do Patrimônio
Natural, as RPPNs, agora também já reconhecidas na esfera municipal, é
também uma das formas de articulação que temos visto fortalecida.
Um exemplo interessante é a criação de uma área protegida na Região
Metropolitana de Curitiba (PR). As prefeituras de Curitiba, Araucária e
Fazenda Rio Grande se uniram para criar, em 2015, a Reserva do Bugio ou
Refúgio do Bugio, maior UC intermunicipal do país localizada em área
urbana. São 1.765,02 hectares (ha) protegidos ao longo dos rios Barigui e
Iguaçu na confluência entre os três municípios e divididos em três
Refúgios de Vida Silvestre Municipais: REVIS do Bugio (827,80 ha), em
Curitiba; REVIS Rio Iguaçu-Foz do Barigui (334,22 ha), em Araucária; e
REVIS Foz do Rio Maurício-Rio Iguaçu (603 ha), em Fazenda Rio Grande. A
expectativa das prefeituras é a de que a unidade contribua para a
melhoraria da qualidade das águas e na diminuição do impacto das
enchentes, além da proteção da biodiversidade local.
Alguns municípios, como João Pessoa (PB), Recife (PE), Salvador (BA),
Linhares (ES), Extrema (MG), Sorocaba (SP), Curitiba (PR) e Cristal
(RS), possuem Sistemas Municipais de Unidades de Conservação (SMUC),
que, em geral, seguem diretrizes do sistema nacional, com adequações que
atendem especificidades locais.
Esses sistemas podem ser utilizados
como modelo para os municípios que estão organizando e estruturando seus
SMUCs, que é o caso de Belo Horizonte e Rio de Janeiro. O SMUC é um
importante instrumento para integração do Fundo Municipal de Meio
Ambiente, do Conselho Municipal de Meio Ambiente e dos demais mecanismos
da estrutura ambiental dos municípios.
Muitos desses sistemas trazem
ainda em seu arcabouço uma legislação especifica para reconhecimento das
RRPPNs e, assim, passam a atuar ativamente na criação, gestão e manejo
dessas reservas. Hoje, no Brasil, já identificamos pelo menos 17
municípios que tem legislação específica para reconhecimento dessa
categoria.
“Os PMMAs, ao serem elaborados, apontam nos
municípios as florestas naturais, áreas prioritárias para a conservação e
que, portanto, devem ser manejadas e protegidas ou recuperadas”.
As UCs municipais são também componentes essenciais nos Planos
Municipais da Mata Atlântica (PMMA), previstos na Lei da Mata Atlântica
(Lei nº 11.428, de 2006). Os PMMAs, ao serem elaborados, apontam nos
municípios as florestas naturais, áreas prioritárias para a conservação e
que, portanto, devem ser manejadas e protegidas ou recuperadas.
Esse
mecanismo, se vinculado ao Plano Diretor do município, pode colaborar
com as estratégias de zoneamento e ordenamento do solo, tendo as UCs
municipais como uma das principais medidas para a proteção do patrimônio
ambiental nas cidades e como âncoras da infraestrutura verde do
município, que englobam todas áreas naturais e áreas verdes urbanas de
um determinado território.
Em uma amostragem de 720 UCs municipais registradas no estudo, que
apresentam informações sobre sua localização, foi possível verificar que
a maioria das UCs municipais está situada na malha urbana (278; 38,6%)
ou em áreas periurbanas (129; 17,9%), na circunvizinhança das cidades ou
de núcleos urbanos. Isso significa que 56,5% das UCs municipais da Mata
Atlântica estão sob a influência dos centros urbanos e mais próximas
das pessoas. Isso reforça ainda mais a importância dessas áreas para a
qualidade de vida nas cidades.
O crescente processo de urbanização na Mata Atlântica tem afetado a
biodiversidade e a oferta de serviços ambientais vitais para as
populações que vivem nas cidades. Desse modo, todo e qualquer esforço na
proteção das florestas urbanas remanescentes e de toda infraestrutura
verde nos municípios deve ser valorizado, além de ser complementar aos
esforços de conservação dos governos estaduais e federal.
A
infraestrutura verde é sem dúvida um elemento essencial para enfrentar
os enormes desafios da vida urbana, como os desastres naturais (ex.:
enchentes, deslizamentos de morros etc.), ondas de calor, proliferação
de doenças contagiosas, abastecimento de água, espaços para o lazer e
recreação, além de contribuírem para o enfrentamento às mudanças do
clima.
Soma-se a isso o fato de que cerca de 80% dos remanescentes
florestais da Mata Atlântica estão em propriedades privadas. Nesse
contexto, o papel de empresas e cidadãos proprietários de terras e
imóveis é extremamente relevante e deve ser incentivado e valorizado,
trazendo destaque ainda maior para as unidades de conservação privadas.
Todos esses elementos devem ser trabalhados no planejamento e o
desenho apropriado para a integração entre a malha urbana e os ambientes
naturais e seus serviços ambientais serão essenciais para garantir o
bem-estar da população e a sustentabilidade dos municípios. Nesse
contexto, a contribuição dos municípios na proteção desses remanescentes
no ordenamento territorial local ganha mais importância, o que coloca
em evidência ainda maior a necessidade de entendimento desse complexo
sistema socioambiental envolvendo centros urbanos, UCs e áreas verdes em
geral.
*Este conteúdo é baseado no estudo “Unidades de Conservação
Municipais da Mata Atlântica”, publicado pela Fundação em julho deste
ano – conheça o relatório completo.