Por Rafael Loyola
- domingo, 10 setembro 2017 23:41
O cerradão protegido no Parque Nacional das Emas: Foto: Katia Kopp/Wikiparques.
Esse ano, o governo federal divulgou dados do monitoramento por
satélite realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(Inpe). O Cerrado perdeu 1,9 milhão de hectares nos últimos dois anos
(de 2013 a 2015). Pouco menos de 50% do bioma ainda existe e esse 1,9
milhão representa quase 2% de sua vegetação nativa remanescente. Fez as
contas? Estamos perdendo o Cerrado a uma taxa de 1% ao ano, o que é
cinco vezes mais rápido que o observado para o mesmo período na
Amazônia.
Poderia escrever a coluna inteira sobre as razões, os problemas e as
consequências dessa perda para a natureza e para as pessoas que vivem e
dependem do Cerrado. E poderia discorrer sobre as implicações de tudo
isso para os diferentes setores da nossa sociedade (economia,
agricultura, cidades, indústria, etc.). Mas hoje é dia de comemoração,
certo?
De fato, os cientistas da conservação e os ambientalistas de forma
geral tendem a chamar atenção para os problemas. Talvez porque a própria
ciência da conservação tenha sido criada como uma “ciência de crise”,
talvez porque há um senso de urgência diante de tantas alterações que
vêm acontecendo em escala planetária (p. ex., mudanças climáticas), ou
talvez só porque temos uma curiosidade pela desventura alheia – basta
ler os jornais todos os dias.
Mas, o foco nos problemas e suas consequências catastróficas tem um
lado ruim: pode gerar um sentimento de impotência e desânimo. O que
podemos fazer, se agora mudamos até a composição da atmosfera da Terra? O
que fazer se a diminuição dos estoques pesqueiros é inevitável? O que
fazer se as decisões políticas que atendem aos interesses de poucos,
sempre são tomadas à revelia dos desejos da sociedade?
Diante de questões como essas, tenho defendido a necessidade de um
discurso positivo sobre a conservação. Um discurso conciliatório e menos
agressivo. Um discurso mais inclusivo e menos separatista. Você tem
todo direito de discordar de mim, mas chocar as pessoas, na minha
opinião, não vai resolver o problema. Quem faz algo por medo, não o faz
com amor.
Eu acho, portanto, que a inspiração é o segredo. A inspiração é um
recurso renovável e poderoso, mas que tende a ser esquecido diante de
tantos desastres. Na minha opinião, o medo (de um possível colapso, por
exemplo) causa resignação, intolerância, descrédito e alimenta
extremismos. Mas a inspiração causa mudança, traz novas maneiras de
pensar, aguça a curiosidade e nos faz sentir humanos, tendo consciência
de que pensamos e sabemos que pensamos, como descreve nosso próprio nome
científico
Homo sapiens sapiens.
Então, no Dia do Cerrado, quero compartilhar com você uma visão de
futuro inspiradora. Casos de sucesso na conservação. Ideias que tem o
poder de nos fazer pensar que ainda há saída para o problema do Cerrado,
que ainda podemos salvar o que resta deste bioma e torná-lo habitável,
produtivo, resistente e resiliente às ameaças que enfrenta e enfrentará.
Enfim, uma mensagem otimista, que nos lembre a importância de comemorar
o dia de hoje.
“Nos últimos 50 anos, o Cerrado perdeu
praticamente 50% de sua cobertura original, é verdade. Mas há 50 anos,
era impensável ter tantas políticas públicas com foco no Cerrado como
hoje em dia”.
Em primeiro lugar, é importante ter uma perspectiva histórica. Por
mais que a perda da vegetação nativa do Cerrado só aumente, nossa
consciência sobre a necessidade de conservar esse bioma também só
aumenta. E isso é bom! Nos últimos 50 anos, o Cerrado perdeu
praticamente 50% de sua cobertura original, é verdade. Mas há 50 anos,
era impensável ter tantas políticas públicas com foco no Cerrado como
hoje em dia.
Hoje temos monitoramento por satélite (em breve teremos
detecção de desmatamento em tempo real para o bioma), temos programas de
agricultura de baixo carbono, incentivos à restauração, declaração
voluntária (praticamente concluída no Cerrado) sobre onde estão as áreas
protegidas em propriedades privadas. Tudo isso é um avanço enorme.
Muito mais lento que o necessário e muito mais lento do que gostaríamos,
mas não deixa de ser um avanço.
Quer mais notícia boa? O Cerrado vem sendo restaurado! Já há estudos
importantes sobre a restauração no bioma, algo antes apenas discutido
para ecossistemas florestais. A semeadura direta - processo no qual
sementes misturadas com terra são espalhadas em áreas extensas - tem
alcançado resultados surpreendentes. Na Chapada dos Veadeiros, em Goiás,
o próprio Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
(ICMBio) vem realizando experimentos de restauração em uma parcela de 96
hectares.
Há experimentos em áreas menores e eles são bastante
promissores também. Com apenas um ano de monitoramento pós-semeadura,
diversas espécies tiveram taxas de sobrevivência maior que 60%, o que é
muito bom em plantios dessa natureza. Gramíneas nativas também ajudaram
no processo e esses resultados deixam claro que é possível restaurar
ecossistemas savânicos. Outra boa notícia é que a semeadura direta pode
ser oito vezes mais barata que o plantio de mudas de árvores, que ainda é
a técnica mais utilizada no Cerrado. Ou seja, é possível pensar em uma
economia de escala, por meio de técnicas mais simples e já conhecidas,
como essa semeadura. Se tiver interesse, dê uma espiada no
estudo publicado pelo grupo.
Outros estudos demonstram que outra técnica conhecida como “
topsoil”
também é eficiente para a restauração no Cerrado. A técnica consiste em
remover a camada superficial do solo de uma área a ser convertida para
outra área, degradada, a ser restaurada. O simples fato de depositar
essa camada sobre a área degradada tem trazido resultados animadores na
recuperação do solo e da biodiversidade da área a ser restaurada. E isso
sem falar na restauração passiva, onde algumas áreas são protegidas sem
uso (cercadas com arame), mas com algum nível de manejo (p. ex.,
controle de queimadas ou de espécies exóticas invasoras) - embora essa
restauração no Cerrado funcione apenas a longo prazo.
“A conservação do Cerrado tem beneficiado as
pessoas. Diretamente. Inúmeras comunidades tradicionais, comunidades
quilombolas e povos indígenas vivem dos recursos do Cerrado, integrando
seus bens e serviços não só aos seus modos de vida e cultura, mas também
à sua economia”.
Há mais motivos para ter esperança! Em seu “Plano Recupera Cerrado”, a
Aliança Cerrado – um fórum composto por 56 instituições governamentais e
não-governamentais com atuação local, nacional e internacional –
apresenta uma visão de futuro possível e atingível para a restauração do
cerrado do Distrito Federal. Um dos resultados que me chamou a atenção
foi o de que seria preciso 395 milhões de reais para restaurar o Cerrado
do DF, até 2030.
Parece muito dinheiro, mas isso corresponde a apenas
3% do valor disponibilizado para financiamento da agropecuária no DF nos
últimos anos. Isso mesmo, só 3%! E isso considerando um custo de
restauração de R$28 mil/ha, o que pode ser reduzido em muito, dependendo
da técnica utilizada. Portanto, se cada produtor que necessite
restaurar uma área solicitar crédito para fazê-lo, o impacto desse
pedido no desenvolvimento agropecuário no DF será mínimo. Além disso,
essas linhas de crédito já existem, não é preciso reinventar a roda.
A conservação do Cerrado tem beneficiado as pessoas. Diretamente.
Inúmeras comunidades tradicionais, comunidades quilombolas e povos
indígenas vivem dos recursos do Cerrado, integrando seus bens e serviços
não só aos seus modos de vida e cultura, mas também à sua economia.
Atualmente, há cada vez mais interesse em aprender e ouvir essas
comunidades. Elas vêm sendo incluídas em estratégias e planos de
conservação, desde o nível federal ao local. E isso também é muito bom! É
imprescindível, portanto, ampliar nosso entendimento sobre como melhor
conservar a natureza por meio da inclusão dessas comunidades.
As unidades de conservação (UCs) no Cerrado são poucas e protegem
cerca de 8% do bioma. Mas elas tiveram um efeito positivo na contenção
do desmatamento ao longo do que restou do bioma. Estudos recentes
mostram que, sem as UCs, praticamente toda área atualmente protegida
teria sido convertida em áreas de cultivo, principalmente monocultura.
Acertamos ao proteger determinadas regiões e, sem dúvida, o impacto da
criação e implementação das UCs do Cerrado teve um efeito positivo na
conservação de biodiversidade.
Tudo isso não é motivo para apatia; não quer dizer que está tudo bem.
Sem dúvida, precisamos nos mobilizar como sociedade em prol da
conservação do Cerrado e de um aumento exponencial da conscientização
sobre sua importância entre todos os brasileiros. Como cientista e
ambientalista, trabalhando em uma instituição localizada no meio do
Cerrado, não vou deixar de alertar nossos governantes e nossos jovens
sobre os problemas e desafios à frente. Mas hoje, só por hoje, gostaria
de lhe dizer que há motivos para comemorar, que há iniciativas de
sucesso, que há esperança para a conservação e recuperação do Cerrado. E
isso é bom!