segunda-feira, 16 de abril de 2018

Análise de dados indica o enfraquecimento da circulação oceânica do Atlântico



Potsdam Institute for Climate Impact Research — PIK*

Análise de dados indica o enfraquecimento da circulação oceânica do Atlântico

A circulação do Atlântico – um dos mais importantes sistemas de transporte de calor da Terra, bombeando água morna para o norte e água fria para o sul – é mais fraca hoje do que em qualquer outro período em mais de 1000 anos.
A análise dos dados da temperatura da superfície do mar fornece novas evidências de que essa importante circulação oceânica diminuiu cerca de 15% desde meados do século 20, de acordo com um estudo publicado na renomada revista Nature por uma equipe internacional de cientistas. A mudança climática provocada pelo homem é um dos principais suspeitos para essas observações preocupantes.
“Detectamos um padrão específico de resfriamento oceânico ao sul da Groenlândia e um aquecimento incomum na costa dos Estados Unidos – o que é altamente característico para uma desaceleração da circulação do Atlântico, também chamada de Gulf Stream System”, diz Levke Caesar, do Instituto Potsdam. para a Pesquisa de Impacto Climático (PIK). “É praticamente como uma impressão digital de um enfraquecimento dessas correntes oceânicas.”
À medida que as correntes diminuem, elas trazem menos calor para o norte, causando um resfriamento generalizado do Atlântico Norte – a única região oceânica que se resfriou diante do aquecimento global. Ao mesmo tempo, a Corrente do Golfo se desloca para o norte e se aproxima da costa e aquece as águas ao longo da metade norte da costa atlântica dos EUA.
“Aquela região aqueceu mais rápido do que a maioria das outras partes do oceano nas últimas décadas”, diz o coautor Vincent Saba, do Laboratório da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), em Princeton, EUA. “Esse padrão específico de temperatura do oceano foi projetado por simulações de computador de alta resolução, como resposta ao aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera – agora isso foi confirmado por medidas”.
Medições da temperatura da superfície do mar confirmam simulações de computador
Durante décadas, os cientistas investigaram a dinâmica da circulação do Atlântico. Simulações de computador geralmente predizem que ele enfraquecerá em resposta ao aquecimento global causado pelo homem. Mas se isso já está acontecendo, até agora não ficou claro, devido à falta de medições de corrente contínua de longo prazo. “A evidência que agora podemos fornecer é a mais robusta até hoje”, diz Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam, que concebeu o estudo. “Analisamos todos os dados disponíveis sobre a temperatura da superfície do mar, incluindo dados do final do século XIX até o presente.”
“O padrão de tendência específico que encontramos nas medições parece exatamente o que é previsto por simulações de computador, como resultado de uma desaceleração no Sistema da Corrente do Golfo, e não vejo outra explicação plausível para isso”, diz Rahmstorf. Na verdade, não é apenas o padrão no espaço que coincide entre simulação de computador e observações, mas também a mudança com as estações do ano.
O aquecimento global provavelmente provoca as mudanças – os efeitos são de longo alcance
O enfraquecimento é causado por uma série de fatores que podem estar ligados ao aquecimento global causado pelos gases de efeito estufa da queima de carvão, petróleo e gás.
A inversão do Atlântico é impulsionada pelas diferenças na densidade da água oceânica: quando a água quente e, portanto, mais leve, viaja do sul para o norte, fica mais fria e mais densa e pesada – afundando-se em camadas oceânicas mais profundas e fluindo de volta para o sul. “Mas com o aquecimento global, o aumento das chuvas, bem como a degelo do gelo do mar Ártico e da camada de gelo da Groenlândia, estão diluindo as águas do Atlântico Norte, reduzindo a salinidade. Menos água salgada é menos densa e, portanto, menos pesada – o que dificulta que a água afunde da superfície até a profundidade ”, explica Alexander Robinson, da Universidade de Madri, coautor do estudo.
Houve longos debates sobre se a circulação do Atlântico poderia entrar em colapso, sendo um elemento decisivo no sistema da Terra. O presente estudo não considera o destino futuro dessa circulação, mas analisa como ela mudou nos últimos cem anos. No entanto, Robinson adverte: “Se não pararmos rapidamente o aquecimento global, devemos esperar mais uma desaceleração a longo prazo da circulação do Atlântico. Estamos apenas começando a entender as consequências desse processo sem precedentes – mas elas podem ser perturbadoras ”.
Vários estudos mostraram, por exemplo, que uma desaceleração da circulação do Atlântico exacerba a elevação do nível do mar na costa dos Estados Unidos, em cidades como Nova York e Boston. Outros mostram que a mudança associada nas temperaturas da superfície do Atlântico afeta os padrões climáticos da Europa, como o rastro de tempestades vindas do Atlântico. Especificamente, a onda de calor europeia do verão de 2015 esteve ligada ao frio recorde no Atlântico norte naquele ano – este efeito aparentemente paradoxal ocorre porque um Atlântico norte frio promove um padrão de pressão de ar que canaliza o ar quente do sul para a Europa.
Os resultados são amplamente apoiados pelo estudo do passado da Terra na mesma edição da Nature
Os resultados são apoiados e colocados em uma perspectiva de longo prazo por um segundo estudo realizado por uma equipe em torno de David Thornalley, da University College London, publicado na mesma edição da Nature. Esta análise importante examina o clima passado da Terra – usando informações que estão, por exemplo, enterradas no fundo do oceano, na composição de sedimentos -reconstruir as mudanças no Atlântico ao longo dos últimos 1.600 anos.
Os dados paleoclimáticos fornecem confirmação independente para conclusões anteriores de que a recente fraqueza da circulação é sem precedentes, pelo menos por mais de um milênio.
A evolução da inversão do Atlântico no último milênio deduzida de evidências indiretas de temperaturas abaixo da superfície quase coincide exatamente com a encontrada anteriormente por Rahmstorf e colegas em 2015 – o que é bastante notável, dado que o novo estudo é baseado em sedimentos oceânicos, enquanto o estudo anterior rede de evidências encontradas na superfície da terra, como dados do núcleo de gelo e anéis de árvores.
“Várias linhas de evidência estão se unindo agora, apontando para o mesmo enfraquecimento desde os anos 50”, diz Rahmstorf: “O resfriamento subpolar do Atlântico, o aquecimento da costa do Golfo, os dados de Thornalley para as temperaturas do subsolo no Atlântico, e dados anteriores de corais do mar profundo mostrando mudanças na massa de água no Golfo do Maine. ”
O estudo de Thornalley também sugere que uma parte da circulação do Atlântico – o fluxo profundo da água do mar de Labrador – foi afetada há 150 anos pelo aquecimento e pelo derretimento do gelo no final da “Pequena Idade do Gelo”. Isso ilustra a sensibilidade da circulação ao aquecimento e à entrada de água doce – algo que está acontecendo de novo agora com o aquecimento causado pelo homem e a aceleração do derretimento da Groenlândia.
No entanto, a julgar pelos dados das temperaturas passadas do subsolo, este evento há 150 anos não foi associado a uma redução global tão profunda no transporte de calor no oceano Atlântico como o aquecimento dos gases de efeito estufa de combustíveis fósseis que ocorreu principalmente desde 1950 -um aquecimento global que é maior do que em qualquer outro tempo na história da civilização humana.
Referência: Levke Caesar, Stefan Rahmstorf, Alexander Robinson, Georg Feulner, Vincent Saba (2018): Observed fingerprint of a weakening Atlantic Ocean overturning circulation. Nature [DOI: 10.1038/s41586-018-0006-5]
http://dx.doi.org/10.1038/s41586-018-0006-5

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/04/2018

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A contribuição do decrescimento populacional para o meio ambiente no século XXI, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A contribuição do decrescimento populacional para o meio ambiente no século XXI, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”
Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas)

[EcoDebate] A fecundidade da população mundial caiu bastante nos 50 anos compreendidos entre 1965 e 2015. A taxa de fecundidade total (TFT) estava em torno de 5 filhos por mulher entre 1950 e 1965 e caiu para 2,5 filhos por mulher no quinquênio 2010-15. Houve uma diminuição de 2,5 filhos na TFT em meio século. Foi a maior redução já ocorrida na história da humanidade e representa um dos maiores e mais significativos fenômenos sociais de mudança de comportamento de massa já ocorridos na sociedade.
A autolimitação do tamanho da prole ocorreu de forma racional e em meio ao aumento do bem-estar médio global. Isto significa que as famílias optaram por investir na qualidade dos filhos e não na quantidade de novos membros da família. A redução da TFT não ocorreu em função da escassez de recursos, ao contrário, foram os casais com maiores níveis de educação e renda e com maior acesso à informação que lideraram a transição da fecundidade nos diversos países.
Porém, mesmo com toda a expressiva queda da TFT, a população mundial cresceu de 2,5 bilhões de habitantes em 1950 para cerca de 7,5 bilhões de habitantes em 2015. Se a taxa de fecundidade se mantiver em torno de 2,5 filhos por mulher até 2100 a população mundial poderá duplicar entre 2015 e 2100 e chegar a um número próximo de 15 bilhões de habitantes no final do século XXI.

taxa de fecundidade total global 1950-2015 e projeções média e baixa até 2100

A Divisão de População da ONU faz várias projeções para as próximas décadas. Na projeção média a taxa de fecundidade passaria dos atuais 2,5 filhos por mulher para 2 filhos por mulher em 2100. Na projeção baixa, a TFT passaria de 2,5 filhos para 1,5 filhos por mulher em 2100. Ou seja, na hipótese da projeção média, a TFT seria reduzida em meio (0,5) filho até 2100. Na hipótese de projeção baixa, a TFT seria reduzida em um (1) filho no espaço de 85 anos, conforme mostra o gráfico acima.
Esta queda projetada pode parecer pequena para o período 2015-2100 (diante dos 2,5 filhos reduzidos entre 1965-2015), mas teria um efeito impactante sobre o volume total da população e no número de nascimentos.
O gráfico abaixo mostra que o número de nascimentos do mundo em 1950 estava, aproximadamente, em torno de 100 milhões de bebês por ano e subiu para cerca de 140 milhões de bebês no quinquênio 2010-15. Se a TFT seguir a trajetória média, conforme hipótese da Divisão de População da ONU, o número de nascimentos anuais no mundo ficará em torno de 140 milhões nas próximas décadas e atingirá 131,2 milhões no quinquênio 2095-00. Se a TFT seguir a trajetória baixa, o número de nascimentos anuais no mundo cairá progressivamente e atingirá 59 milhões no quinquênio 2095-00.
O número total de nascimentos entre 2015 e 2100, na projeção média, seria de 11,8 bilhões e na projeção baixa de 7,7 bilhões. Isto significa que se, nos 85 anos entre 2015 e 2100, a TFT cair de 2,5 para 2 filhos por mulher vão nascer 11,8 bilhões de crianças e se a TFT cair de 2,5 para 1,5 filho por mulher o número de nascimentos se reduziria para 7,7 bilhões. Uma diferença de 4,1 bilhões de crianças.

número global de nascimentos anuais 1950-2015e projeções média e baixa até 2100

Estes dados mostram o impacto da queda de meio filho sobre o volume da população total, indicando que uma aceleração do ritmo da transição da fecundidade poderia reduzir imediatamente o número de nascimentos. Por exemplo, na hipótese média de projeção o número de nascimentos seria de 141 milhões no quinquênio 2015-20 e de 142,9 milhões no quinquênio 2045-50, enquanto na hipótese baixa de projeção os números seriam de 126,6 milhões e 100 milhões, respectivamente. Assim, se a TFT cair no ritmo estimado da projeção baixa haverá um bilhão de nascimentos a menos até 2050. Portanto, mesmo com a inércia demográfica, a redução seria significativa e poderia contribuir para diminuir a pressão sobre o meio ambiente.
O gráfico abaixo mostra a evolução da população mundial de 1950 a 2015 e os cenários de projeção médio e baixo. Na hipótese média, a população mundial passaria dos atuais 7,5 bilhões de habitantes para 11,2 bilhões de habitantes em 2100. Na hipótese baixa, a população mundial ficaria com 7,3 bilhões de pessoas no final do século XXI. Portanto, se houver uma queda de um filho na TFT até 2100, em relação aos 2,5 filhos do quinquênio 2010-15, o mundo pode ter uma população em 2100 menor do que a de 2015. Seriam menos 4 bilhões de pessoas em relação à projeção média da Divisão de População da ONU. Ao invés de crescimento demográfico, teríamos decrescimento demográfico.

população mundial de 1950 a 2015 e projeções média e baixa até 2100

Os dados acima mostram que a demografia não é destino. Mais de 90% da população global de 2100 vai nascer nos próximos 85 anos (de 2015 ao final do século). A população mundial cresceu nos últimos milênios seguindo a máxima do livro do Genesis: “Sede férteis e multiplicai-vos! Povoai e sujeitai toda a terra; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo animal que rasteja sobre a terra!”. Porém, agora é possível evitar o crescimento exponencial ininterrupto.
O aumento da população alimenta (por meio da oferta de trabalho e a demanda por consumo) o aumento da economia. O superconsumo só se sustenta porque existem pessoas consumindo. A parcela da população mundial com consumo muito elevado está em torno de 20%. Mas existe uma grande classe média (em torno de 40% da população mundial) que quer mimetizar o consumo dos ricos. E os 40% da população muito pobres também querem (e merecem) aumentar o consumo de alimentos, educação, saúde, lazer, etc.
O aumento da população funciona como um fermento para o aumento do consumo. A obsessão pelo crescimento demoeconômico contínuo fez a humanidade ultrapassar a capacidade de carga do Planeta. Dados de 2013 mostram que a Pegada Ecológica global está 68% acima da biocapacidade. E o déficit ecológico continua aumentando. Em breve consumiremos 2 planetas.
Evidentemente, a redução do consumo é a tarefa mais urgente para reduzir a pegada ecológica. Mesmo com a rápida queda da taxa de fecundidade a população mundial vai crescer nos próximos anos. Porém, seguindo a trajetória baixa da projeção da ONU, a população mundial não ultrapassaria 9 bilhões de habitantes até 2050 e diminuiria rapidamente na segunda metade do século XXI, podendo chegar em 2100 com um volume populacional menor do que o atual.
Seria um risco para todas as formas de vida do Planeta aumentar a população mundial em 4 bilhões de habitantes e aumentar a economia e a exploração da natureza. A humanidade, ao longo da história, já prejudicou bastante a saúde dos ecossistemas e vai ter que enfrentar grandes desafios nas próximas décadas, tais como: aquecimento global e ondas letais de calor, aumento do nível do mar e naufrágio das áreas litorâneas, aumento dos furacões, acidificação dos oceanos, erosão dos solos, poluição das águas, crescimento das mortes por poluição do ar, redução da biodiversidade, insegurança alimentar, etc.
Menos gente significará menos sofrimento humano e não humano. Com a novidade da redução demoeconômica ficaria mais viável a recomposição dos ecossistemas e a recuperação da biodiversidade. O colapso ambiental poderá ser evitado se houver um esforço conjunto dos diversos países do mundo para colocar a humanidade em um espaço seguro, onde a redução das atividades antrópicas possa coexistir com a convivência harmoniosa com a natureza. A lição sabemos de cor, só nos resta colocá-la em prática: Sem ECOlogia saudável não há demografia viável ou ECOnomia sustentável.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/04/2018
"A contribuição do decrescimento populacional para o meio ambiente no século XXI, artigo de José Eustáquio Diniz Alves," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/04/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/04/16/a-contribuicao-do-decrescimento-populacional-para-o-meio-ambiente-no-seculo-xxi-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

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Proposta de lei para o desmatamento zero é debatida no Congresso

Proposta de lei para o desmatamento zero é debatida no Congresso

10.04.2018Notícias
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A Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado retomou nesta terça-feira (10), a discussão sobre o projeto de lei do Desmatamento Zero. O texto conta com a assinatura de 1,4 milhão de brasileiros, além do apoio de diversas organizações e movimentos da sociedade civil.
A audiência pública foi uma grande oportunidade de debater o equilíbrio entre conservação, produção e um novo modelo de desenvolvimento. Além de parlamentares, estavam presentes na mesa de debate os pesquisadores Cristiane Mazzetti (Greenpeace), Paulo Moutinho (IPAM), Rita Mesquita (INPA) e Tasso Azevedo (Observatório do Clima).
A coordenadora da campanha pelo Desmatamento Zero, Cristiane Mazzetti, citou a série de retrocessos socioambientais promovidos pelo governo nos últimos tempos. “A floresta segue ameaçada, são diversos projetos de lei e medidas provisórias envolvendo a cana, grilagem e tentativas de redução de unidades de conservação. Não é preciso mais desmatar, temos que agir de maneira rápida e esse PL aprovado é uma ação extremamente necessária.”
A coordenadora de extensão do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Rita Mesquita, reforçou que desmatamento zero não significa perda de desenvolvimento e sim inovação.
“Como pesquisadora e moradora da Amazônia vejo todos os dias o potencial que a floresta tem de que um novo modelo de desenvolvimento se instale. Biodiversidade é uma riqueza que pode trazer para o Brasil novos formatos econômicos. A morte da floresta é o fim da vida. Precisamos reinventar o que significa ‘agro’, agro pode ser água, mas água é floresta. Temos que encontrar esse equilíbrio.”
A floresta tem um impacto direto sobre o clima e em 2016 o desmatamento na Amazônia, sozinho, foi responsável por 26% das emissões domésticas de gases do efeito estufa. Para o pesquisador sênior do IPAM, Paulo Moutinho, um ponto fundamental é investir em cidadania climática. “Temos que dar um salto no que é educação ambiental, afinal estamos perdendo a habitabilidade do planeta e comprometendo o futuro das próximas gerações.”

Jaqueline Figueiroa mora em Manaus e conta por que assinou a petição. “Não quero que a minha infância vire lenda. A floresta clama por socorro devido à ganância humana. Assinei a petição pelos ribeirinhos, caboclos, indígenas, pelos rios e por todas as espécies da natureza.”
Para o senador João Alberto Capiberibe a floresta é um ativo extremamente importante para o Brasil e as assinaturas devem resultar em uma política de Estado que possa ser implementada.
“Estamos aqui discutindo o futuro do país. Temos duas grandes contribuições do Brasil para o planeta, a primeira é a produção de alimentos e a segunda é a contribuição para a mitigação das mudanças climáticas. São dois papeis que não podem ser tratados de forma irresponsável. Além disso, tem a questão da biodiversidade que estamos perdendo sem conhecer totalmente. O Brasil precisa olhar para o fim do desmatamento como investimento para mitigar as mudanças climáticas”, afirma o diretor-executivo do IPAM, André Guimarães.
A sugestão de lei pode ser aprovada na Comissão de Direitos Humanos e seguir para outras comissões no Senado. Assista à audiência em: http://bit.ly/2Hq2EKV

domingo, 8 de abril de 2018

Aplicativo Plantadores de Rios ajuda na preservação de nascentes


Aplicativo Plantadores de Rios ajuda na preservação de nascentes


Nascente
Nascente. Foto: Fábio Pozzebom/Agência Brasil

Agência Rádio Mais
O Brasil possui cerca de 12% das reservas de água doce presentes no mundo. Apesar disso, há áreas críticas, onde a escassez hídrica deixou de ser apenas uma ameaça. A maioria das pessoas só percebe que a situação hídrica está em risco quando a localidade onde moram passa por racionamentos ou cortes de água. Para conscientizar e alertar as pessoas de que, muitas vezes, os problemas relacionados à falta de água começam nas nascentes dos rios, está disponível para a população o aplicativo Plantadores de Rios.

A ferramenta põe em contato pessoas ou instituições dispostas a investir ou restaurar áreas vulneráveis com os proprietários de áreas rurais responsáveis pelas localidades ameaçadas. O ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, explica como a ferramenta funciona.

“A pessoa entra em um aplicativo, na hora em que ela olha, ela pode saber onde tem nascentes perto dela, em quilômetros ao redor dela. E ela pode adotar uma nascente. Olha, essa nascente aqui precisa de plantio de árvore, precisa de uma cerca. Então a pessoa pode adotar essa nascente. Por meio da internet, ele entra em contato com o proprietário, diz que quer adotar a nascente e o proprietário fecha um relacionamento entre eles.”

Com acesso aos dados de localização do dispositivo, o Plantadores de Rios identifica e sinaliza, em um mapa, locais com vários tipos de nascentes. Existem aquelas que precisam de plantio, as que têm vegetação, as nascentes adotadas pelo usuário, entre outras. É possível escolher o raio de busca, que pode variar entre um e 15 quilômetros.

O diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro, Raimundo Deusdará, explica que o aplicativo facilita a participação das pessoas e empresas que pretendem colaborar com a preservação das nascentes.
“Qualquer pessoa urbana, certamente todos nós fazemos o uso da água. Ou qualquer empresa jurídica, que faça muito o uso da água, possa dizer: olha, independente das ações do estado, do município, da união e das ONG’s, eu pessoalmente quero ajudar. E ele se relaciona direto com o produtor. Sua relação privada e faz a sua contribuição. Estou fazendo minha parte, estou adotando uma nascente.”

O aplicativo Plantadores de Rios está disponível gratuitamente para download em celulares com sistema operacional Android e iOS. Após baixar a ferramenta, o usuário deve se cadastrar com número do CPF, para pessoas físicas, ou do CNPJ, para pessoas jurídicas, e endereço de e-mail.
A ferramenta é uma iniciativa de vários órgãos e instituições, entre eles a Agência Nacional das Águas (ANA), uma das dez agências reguladoras brasileiras. No Congresso Nacional, se discute o Projeto de Lei 6621, de 2016, que promete melhorar a gestão das agências reguladoras.

O PL é de autoria do presidente do Senado, Eunício Oliveira, e quer unificar as regras sobre gestão, poder e controle social das agências, a fim de dar mais autonomia, transparência nas atividades e evitar que essas autarquias sofram interferência do setor privado. Caso o PL seja aprovado na Câmara, assim como no Senado, o presidente passará a nomear os diretores de agências reguladoras com base em listas tríplices. Os nomes da lista serão escolhidos após uma pré-seleção baseada na análise do currículo dos candidatos que atenderem a um “chamamento público”.

Reportagem, Paulo Henrique Gomes

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/04/2018

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Artigo discute os pontos fracos dos estudos de impacto ambiental em projetos de infraestrutura

Artigo discute os pontos fracos dos estudos de impacto ambiental em projetos de infraestrutura



construção de estrada
Foto: EBC

Caros Colegas
O artigo [Road Risks & Environmental Impact Assessments in Malaysian Road Infrastructure Projects] anexo acaba de aparecer como o principal artigo em Jurutera: The Journal of Malaysian Engineers. É um artigo que todo cientista ambientalista e conservacionista deveria ler.
É uma tentativa de explicar as muitas fraquezas e desvantagens dos Estudos de Impacto Ambiental (EIAs) em linguagem clara para os engenheiros de construção – as pessoas que realmente projetam e supervisionam a construção de novas estradas e outros projetos de infraestrutura.
A coisa boa sobre este artigo é que você poderia substituir “Malásia” com qualquer país que você deseja e seria tão relevante quanto. Os problemas descritos aqui aplicam-se praticamente em todos os lugares, e mais especialmente em nações em desenvolvimento, onde a grande maioria dos novos projetos de infraestrutura e desenvolvimento está ocorrendo agora.
Para acessar o artigo, no formato PDF, clique no link 180405Alamgir et al. 2018-Environmental Impact Assessments
Por favor, passe este artigo para outras pessoas – é breve e simples, e acerta na cabeça para muitas das preocupações críticas sobre os EIAs.
Tudo de bom a todos(as),
Bill
William F. Laurance, PhD, FAA, FAAAS, FRSQ
Distinguished Research Professor
Australian Laureate & Prince Bernhard Chair in International Nature Conservation (Emeritus)
Director of the Centre for Tropical Environmental and Sustainability Science (TESS)
Director of ALERT (ALERT-conservation.org)


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/04/2018

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Demanda por carne barata também é causa de extinção das espécies


  • “As alterações climáticas e a destruição do habitat não são os únicos culpados por tantos animais em extinção. O impacto da demanda dos consumidores por carne barata é igualmente devastador e é vital que enfrentemos esse problema se quisermos ter uma chance de reduzir seu efeito sobre o mundo ao nosso redor”.

    A mensagem acima é de Philip Limbery, executivo da ONG Compassion in World Farming, em seu livro “Dead Zone – Where the Wild Things Were” (“Zona Morta – onde as coisas selvagens estão”, em tradução literal). Pode servir também como uma espécie de cartão de visitas do trabalho de Limbery, ativista ambiental que já conseguiu compromissos antes inacreditáveis dos mais renhidos representantes da indústria de alimentos no que diz respeito a uma consciência maior sobre a forma de lidar com animais. Por influência dele, por exemplo, o McDonald’s, uma das cerca de 800 empresas visitadas pelo pessoal de sua organização, só está usando ovos caipiras na Grã-Bretanha e em toda a cadeia localizada na Europa Ocidental.

    Li um de seus artigos recentes publicado na edição digital da revista “Ressurgence & Ecologist”. Lymbery é uma daquelas pessoas que dedica a vida por uma causa mas que prefere sempre o diálogo do que o enfrentamento para fazer valer seu ponto de vista. Está sendo assim atualmente, desde quando o ativista fez uma importante ligação entre a extinção de espécies e a prática da agricultura intensiva. Foi quando visitou a praia de Boulders, na África do Sul, famosa por seus pinguins:

    "Eu queria ir ver os pinguins africanos. Enquanto estava na praia, li um aviso que dizia que a grande ameaça aos pinguins era uma redução no suprimento de comida – sobretudo sardinhas e anchovas - devido à sobrepesca. Percebi, pelo trabalho que fiz no Pacífico olhando para a pescaria de anchovas para fazendas industriais, que a razão pela qual o outrora numeroso pinguim africano está agora em extinção é que estamos transportando enormes quantidades desses pequenos peixes pelágicos para fora do oceano a fim de triturá-los e fazer farinha de peixe para alimentar animais criados industrialmente. Isso deixando os pinguins - assim como os papagaios-do-mar no Hemisfério Norte - famintos. Foi um elo que me fez refletir sobre quantos vínculos mais podem existir entre a agricultura industrial, que mantém os animais enjaulados, apertados e confinados, e o fim da vida selvagem”, escreve ele no artigo.

    Lymbery foi mais longe com suas reflexões a respeito dessa ligação. Para ele, alguns ambientalistas mais conservadores sempre tiveram dificuldade para fazer o link entre o gado tratado pelas indústrias alimentícias a fim de ser consumido pelo homem e seu efeito sobre o ambiente natural. Esses mesmos conservadores acreditam que o confinamento dos animais é bom para a vida selvagem, pois deixa espaço para que os bichos se espalhem mais na natureza.

    “Nada pode estar mais longe da verdade, porque colocando os animais nessas gaiolas, o que se precisa fazer é guardar vastas extensões de terra arável em outros lugares para produzir alimentos para eles, o que desperdiça grande parte do valor da colheita para ser convertida em carne, leite e ovos. Para mim, isso é loucura”, desabafa ele.

    Sim, as pessoas entendem que botar bichos confinados em gaiolas, como as galinhas usadas pela indústria alimentícia, é cruel, entende Lymbery. Mas agora é preciso levar adiante mais uma informação: além de cruel, também está colaborando para a extinção de algumas espécies, como o próprio pinguim africano, protagonista dessa história. Por causa disso, a organização que Lymbery coordena está lançando uma mega campanha de comunicação sobre o tema, envolvendo palestras, exposição interativa e uma Conferência que aconteceu em Londres no ano passado.

    Basicamente, o que Lymbery e seu time quiseram demonstrar é que, sobretudo a pecuária industrial é um dos principais propulsores do declínio da vida selvagem.

    “Nós, do movimento verde, temos obrigação de tentar parar esse processo”, diz ele no artigo para a revista.

    O barulho foi feito. A conferência foi um sucesso, envolveu vários líderes das principais indústrias de alimento, e debateu também sobre o papel da pecuária nos direitos humanos. Falou-se ainda sobre as implicações da ética e da saúde humana na hora de comer animais; sobre desmatamento e emissões de gases de efeito estufa; sobre os limites planetários. Houve momento também de expor casos de inovações técnicas, incluindo hambúrgueres à base de vegetais, imitando carnede tal maneira que chegam a ‘sangrar’ com um belo suco de beterraba.

    Mas teve quem criticasse o encontro. No blog Global Food Justice, a ativista ambiental Merisa Thompson tocou num ponto extremamente delicado e muito oportuno. A questão é: até que ponto as soluções apontadas em tais encontros, como esse hambúrguer de vegetais mesmo, é um caminho para uma mudança?

    “Ocorre que tais 'soluções' tendem a ocorrer dentro de estruturas estabelecidas de poder, no lugar de desafiá-las”, escreveu Thompson.

    Como eu disse no início do texto, Lymbery não é de comprar briga, muito pelo contrário. De qualquer maneira, vai levar adiante o assunto numa outra Conferência que está sendo preparada para acontecer em Bruxelas. Nesse encontro, vai ser debatida a necessidade de se diversificar as proteínas e a redução da dependência humana em carnes e laticínios. O fim das exportações de animais vivos, das crueldades mais odiosas que os humanos cometem, também será parte da agenda desse encontro e torço, pessoalmente, para que este tema seja debatido à exaustão, a fim de tornar a proibição uma espécie de política pública universal.

    São mensagens mais do que urgentes, necessárias. Já está passando da hora de assumirmos uma conduta mais humana e respeitosa para com as vidas de outras espécies.

O caminho para um consumo mais consciente

  • O caminho para um consumo mais consciente

    Estávamos no meio da tarde, entre uma e outra atividade para preparar o Protocolo Comunitário, sob um calor amazônico que só quem viveu sabe o que é. As redes do barco onde passáramos já uns cinco ou seis dos dez dias previstos para a viagem ao Arquipélago do Bailique, no Amapá, quase fronteira com a Guiana Francesa, estavam paradas. Não havia brisa e as águas da Foz do Amazonas pareciam um espelho, de tão quietas. O cenário deixava a cabeça meio sonolenta, sobretudo depois de um bom prato de açaí. Mas ninguém dormia. E a conversa ia se arrastando, até que alguém decidiu propor uma brincadeira de memória. Do que mais sentíamos falta ali, tão longe dos centros urbanos onde morávamos?

    Éramos um grupo de cerca de dez pessoas e viajávamos  a convite do Grupo de Trabalhos Amazônicos (GTA). Ninguém se conhecia antes do início da viagem, mas àquela altura parecíamos todos amigos de infância. E começamos a listar, de memória, nossas saudades. Não valia gente ou bicho, só coisas. Foi divertido. Lembro que botei na roda da brincadeira o gosto da “minha” geleia de framboesa misturada ao queijo sobre uma torrada sem glúten. Teve quem citasse a cadeira preferida, o chá, um livro que esquecera de levar na viagem. Os sentidos iam se aguçando, as lembranças tinham sabor, cheiro.

    Lembrei-me disso hoje. Estou em processo de mudança de casa e, como sói acontecer, abismada com a quantidade de coisas que acumulei vida afora sem a menor necessidade. Objetos que nem mesmo me fizeram falta naquela viagem tão longa, numa situação de pouco conforto. Há de ter explicações para essa compulsão por ter, mais ainda por guardar sem sentido. Mas o que me interessa refletir aqui neste espaço é, justamente, o consumo. Porque é o ato de consumir que impulsiona  a produção industrial e que vai impactar diretamente as pessoas que precisam ser deslocadas por causa de grandes empreendimentos e o meio ambiente.

    Ou seja, é tudo uma grande rede e depende – e muito – de nós, cidadãos comuns, a pavimentação para um caminho sustentável da economia. Depende, em última instância, de criarmos novos hábitos, com valores revistos para fazermos frente às exigências de uma nova ordem mundial.

    Decidi buscar informações sobre o consumidor brasileiro e, por coincidência, neste mesmo dia em que me deixava refletir, recebi da assessoria do site especializado em trocas pela internet, o OLX, a informação de que o número de pessoas que negociaram seus itens com sucesso nos últimos três anos aumentou 392% (70% ao ano) mostrando uma mudança nos hábitos de consumo do brasileiro. Ou seja: em vez de comprar em lojas, o povo estaria mais interessado em trocar seus pertences.

    E temos também, em evidência neste cenário, “a crise”. Uso aspas porque ouvimos que estamos em crise há dez anos, desde que o Lehman Brothers, quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos, declarou falência há dez anos. Desde então, várias outras situações extremas no setor econômico e financeiro nos deixaram sob tensão, mas a crise teve início lá.

    Aqui no Brasil demoramos um pouco a senti-la. Mas hoje, por conta dos revezes palacianos, de empresários corruptores e políticos corruptos, estamos navegando em mares que ainda não nos oferecem garantia. Sendo assim, um estudo chamado “O Brasil Pós-crise: Transformações que vieram para ficar”, feito por profissionais da agência Publicis e pelo Instituto Locomotiva e divulgado no mês passado, mostrou que 93% dos brasileiros entrevistados assumiram que mudaram seus costumes por causa da crise.

    "Oitenta por cento diminuíram o consumo de alguma categoria de itens, 53% migraram para marcas com preços mais baratos e 24% pararam de comprar algum tipo de produto por conta da piora do ambiente econômico", diz o texto que apresentou a pesquisa.

    O presidente do Instituto Locomotiva,Renato Meirelles, diz que a crise resultou em uma melhora na maturidade do brasileiro.

    "Uma coisa é adiar o sonho de viajar pela primeira vez de avião. Outra coisa é descobrir como é bom viajar de avião e ter que voltar a fazer São Paulo-Fortaleza dentro de um ônibus", diz Meirelles.

    De qualquer maneira, é sempre bom começar mais cedo. As crianças devem perceber, no comportamento dos pais, um desejo de mudança. Para elas é mais fácil absorver. Sim, estou falando de menos coisas e mais contato com o que já existe e está aí, em natura. Ensinar que ser não é ter pode ser um bom caminho.

    Para isso, o Instituto Akatu de Consumo Consciente, organização que sempre martelou sobre o tema, enviou sugestões ao Conselho Nacional de Educação (CNE), que foram aprovadas e inseridas na versão final da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada em dezembro passado pelo Ministério da Educação (MEC). A BNCC é um documento previsto na Constituição de 1988 com o objetivo de organizar e determinar o conteúdo mínimo que deve ser ensinado em todas as escolas públicas e privadas do país.

    Para se ter uma ideia, para o primeiro ano a turma do Akatu, que desenvolve desde 2008 as sugestões para as escolas mas só agora foi ouvida, sugeriu que, na área de Ciências, as crianças pudessem ouvir de seus professores que é possível comparar características de diferentes materiais presentes em objetos de uso cotidiano, "discutindo sua origem, seu descarte, e como usá-los de forma mais consciente". Já para o ano seguinte, a proposta de inserção temática foi relacionada com a área de Geografia, sobre mobilidade: "comparar diferentes meios de transporte e de comunicação, indicando o seu papel na conexão entre lugares, e discutir o seu uso mais consciente de modo a reduzir os riscos para a vida e para o meio".

    Teremos, assim, a possibilidade de criar gerações mais atentas a um dos grandes gargalos que empatam o caminho de um desenvolvimento que, verdadeiramente, leve em conta as causas de pessoas e do meio ambiente.

Robôs e legislação ambiental marcam fim da globalização?



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Desglobalização: será que a globalização está mesmo indo embora?[Imagem: CC0 Public Domain/Pixabay]

Fim da globalização
Há décadas que nos dizem que a globalização é uma força irresistível, e que todos devem se juntar à onda ou "ficarão fora do mercado".
Contudo, para um professor da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, fatores que vão desde a automação e a impressão 3D, até legislações ambientais e expectativas dos clientes estão sinalizando o início do fim para a fabricação globalizada.
O professor Finbarr Livesey afirma que, embora a globalização digital continue em ritmo acelerado, já podem ser vistos os primeiros sinais de uma mudança radical na produção e na distribuição de bens, com as cadeias de suprimentos globais encolhendo à medida que as empresas começam o deslocar sua produção de volta para casa - para os seus países de origem ou para os seus mercados consumidores.

Volta produção, empregos não voltam
Livesey argumenta que vários dos principais pressupostos sobre a globalização e a terceirização já estão errados e que a economia global está mudando sutilmente de uma forma que ainda está por ser captada pelos indicadores macroeconômicos.
"Os robôs estão se tornando mais baratos do que a mão de obra no exterior, a preocupação climática e os voláteis mercados de combustíveis fósseis estão restringindo as pegadas de carbono, e os consumidores esperam cada vez mais produtos sob medida com entrega expressa. Distribuir a produção por todo o planeta já está fazendo cada vez menos sentido econômico," diz Livesey. "Continuar contando as conhecidas histórias sobre a economia global não é mais uma opção, à medida que mudanças tecnológicas e políticas fazem zombaria de qualquer consenso passado."
No entanto, ele adverte contra falsas reivindicações de que essas mudanças sejam uma vitória para o protecionismo: as tecnologias que permitem o retorno da produção para as economias de alto custo não deverão significar o prometido retorno dos empregos - a produção volta automatizada.
Além disso, lembra Livesey, o regionalismo nunca desapareceu de fato. Uma porcentagem significativa das exportações continua a desembarcar na mesma área terrestre de onde se originam: cerca de 50% na Ásia e na América do Norte, e até 70% no caso da Europa.

Casos de desglobalização
O professor chama a atenção para exemplos do que ele acredita serem "fracos sinais precoces de mudança" - como grandes empresas estão começando a fazer uma curva de 180º na globalização.
A nova Speedfactory da Adidas usa automação e impressão 3D para produzir tênis de alta tecnologia - não na China ou no sul da Ásia, mas na Alemanha. "E nos disseram que os têxteis nunca voltariam," lembra Livesey.
A poderosa General Electric recentemente rejuvenesceu uma enorme "cidade fantasma" no estado de Kentucky (EUA) quando percebeu que os aparelhos poderiam ser fabricados ao mesmo custo ou mais baratos nos EUA do que na China.
A Foxconn, empresa que fabrica os circuitos do iPhone, espichou as orelhas quando se sugeriu que robôs poderiam substituir um milhão de trabalhadores chineses - e que a produção poderia até mesmo se mudar para os EUA como resultado disso.
Em última análise, a jornada da produção rumo ao cliente pode ser medida em metros, em vez de continentes. Por exemplo, a Espresso Book Machine da Livraria de Harvard usa informações de arquivos digitais para imprimir e encadernar novos livros na loja conforme o cliente os pede.
O professor Livesey destaca ainda as patentes de impressão 3D móvel solicitadas pela Amazon em 2015 como indicadores de uma direção hiper-local, e não hiper-global, para a produção.
"Embora [a tecnologia da Amazon] não seja atualmente viável, pode vir um momento em que o produto que você comprou seja impresso no caminho para sua casa," finalizou.

Água potável é extraída do ar do deserto



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Água extraída do ar

No ano passado, uma equipe norte-americana usou um material ultraporoso, conhecido como MOF (sigla em inglês para estrutura metal-orgânica), para coletar água potável do ar ambiente usando apenas energia solar.

Agora eles demonstraram que esse sistema de extração de água da atmosfera pode funcionar em condições reais. Ele foi testado em campo no ar muito seco da cidade de Tempe, localizada na área desértica do Arizona, nos EUA.

A demonstração incluiu algumas melhorias significativas em relação ao conceito inicial. O sistema, baseado em materiais relativamente novos e de grande área superficial - as estruturas metal-orgânicas ou MOFs - extraiu água potável mesmo do ar extremamente seco do deserto, onde a umidade relativa medida foi de apenas 10% durante o teste.

Os métodos atuais para extração de água do ar exigem níveis muito mais altos - 100% de umidade para métodos de coleta de neblina e acima de 50% para sistemas de coleta de orvalho baseados em refrigeração, que também exigem grandes quantidades de energia para resfriamento.

Assim, o novo sistema é promissor para preencher uma necessidade não atendida de água mesmo nas regiões mais secas do mundo - embora ainda haja trabalho a ser feito para passar dos protótipos para um produto em escala comercial.

Coleta de água potável do ar
Colocado sobre o telhado de um prédio no campus da Universidade do Estado do Arizona, o aparelho foi alimentado exclusivamente pela energia solar. Embora o protótipo use um MOF muito pequeno, extrapolando as medições reais os resultados são equivalentes a mais de um quarto de litro de água por dia por quilograma de MOF.

Os pesquisadores afirmam que, com uma escolha do material ideal, algo a que eles vão se dedicar a partir da agora, a produção de água pode atingir três vezes a da versão atual.

Outro ponto que merecerá atenção é que a versão atual só pode operar em um único ciclo de noite e dia utilizando a energia solar. "Mas a operação contínua também é possível, utilizando fontes de calor abundantes de baixa qualidade, como biomassa e calor residual," disse o pesquisador Hyunho Kim.
A equipe testou a água produzida pelo sistema e não encontrou vestígios de impurezas. Os testes feitos com espectrometria de massa mostraram que "não há nada do MOF que vaze para a água. Isso mostra que o material é realmente muito estável e podemos obter água de alta qualidade," disse a professora Evelyn Wang, coordenadora da equipe.

Veja outros resultados de esforços para coletar água potável da neblina ou da umidade ambiente:
Bibliografia:

Adsorption-based atmospheric water harvesting device for arid climates
Hyunho Kim, Sameer R. Rao, Eugene A. Kapustin, Lin Zhao, Sungwoo Yang, Omar M. Yaghi, Evelyn N. Wang
Nature Communications
Vol.: 9, Article number: 1191
DOI: 10.1038/s41467-018-03162-7

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Lufadas de ar fresco para se pensar numa nova ordem mundial

  • Lufadas de ar fresco para se pensar numa nova ordem mundial

    Vou começar fazendo um convite aos leitores que, verdadeiramente, se interessam pelo tema desenvolvimento sustentável, levando em conta a porção de mudanças climáticas que incide sobre os debates. José Eli da Veiga, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-SP) vai entrevistar o climatologista Carlos Nobre, um dos maiores especialistas do mundo na área de mudanças ambientais globais e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A conversa vai girar sobre “Sistema Terra” e vai ao ar, ao vivo, pelo site do Instituto de Economia Agrícola (IEA) no dia 10 às 10h.

    É só conhecer um pouco do perfil de entrevistador e entrevistado para saber que não vai ser uma entrevista para deixar os ouvintes na zona de conforto. Sempre que lhe dão chance de falar, Carlos Nobre faz questão de frisar a preocupação com relação ao desmatamento da Amazônia. Para ele, estamos prestes a perder um tesouro. E faz questão também de ajudar a fazer as ligações necessárias entre desmatamento e outros terrores que atacam o homem. Como a fome, por exemplo.

    Feito o convite, sigo estimulando os leitores, agora, a acompanharem comigo outras notícias, também muito pouco alvissareiras, sobre a preocupação com nossos tesouros. Pois tesouros também não serão as pessoas que habitamos o planeta? E, da mesma forma impactados pelas mudanças climáticas e pela ação destruidora do próprio homem, muitos estão sofrendo com o retrocesso, em pleno século XXI, que os levam diretamente ao estado de extrema pobreza no Brasil. Em recente artigo, o coordenador de projetos do Ibase Francisco Menezes faz uma avaliação sobre os resultados do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) de 2016 publicados em novembro do ano passado:

    “É muito preocupante que, no que diz respeito à extrema pobreza, o Brasil voltou, em apenas dois anos, ao número de pessoas registradas dez anos antes, em 2006. Entre 2014 e 2016 o aumento desse contingente foi de 93%, passando de 5,1 milhões para 10 milhões de pessoas. Em relação aos pobres, o patamar de 2016 – 21 milhões – é o equivalente ao de oito anos antes, em 2008, e cerca de 53% acima do menor nível alcançado no país, de 14 milhões, em 2014. Entre tantas consequências, o espectro da fome, que havia sido superado nesse período, como constatou a FAO, pode estar voltando com maior rapidez do que se possa imaginar”, escreveu ele.

    Tem que ter vontade política para superar a fome, a pobreza, a extrema miséria, alerta José Graziano da Silva, diretor da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em artigo publicado anteontem (2) no jornal “Valor Econômico” e republicado no site da ONU. Graziano estende a preocupação e lembra que “a crise dos últimos anos devolveu 18 milhões de latino-americanos e caribenhos à condição anterior de carência. A desigualdade voltou a crescer, e a fome, depois de quase três décadas de recuos sucessivos, ergueu a cabeça novamente na região”.

    “Entre 2015 e 2016, mais 2,4 milhões de pessoas foram enredadas nas malhas da desnutrição e da subnutrição, totalizando 42,5 milhões de cidadãos que subsistem hoje sem uma dieta suficiente e digna. Outros 130 milhões de latino-americanos e caribenhos persistem abaixo da linha de pobreza. A música da inclusão, de fato, parou de tocar”, escreveu ele.

    É uma questão suprapartidária, uma demanda incontornável, e tanto quanto possível, diante dos tempos bicudos de crises de todas as categorias, no Brasil e no mundo, há pessoas pensando a respeito. No mês passado,  a 35ª Conferência Regional da FAO, na Jamaica, registrou um comparecimento recorde em 40 anos de presença da organização na América Latina e Caribe. A agenda da segurança alimentar tenta abrir brechas para se impor com a necessária urgência que inspira.

    Não há uma solução para o problema, mas várias. A fome tem facetas, pode ser causada pelas mudanças climáticas que causam efeitos severos de seca ou tempestade, como pode também, tão simplesmente, ser uma questão não de falta de alimentos, mas de falta de dinheiro para ter acesso aos alimentos.

    E vamos falar sobre desigualdade, outro tema comum que só costuma ganhar contornos mais fortes quando há relatórios ou livros demonstrando o fosso enorme entre pobres e ricos que só faz crescer. No site da Oxfam, organização empenhadíssima em manter o assunto para tentar buscar soluções, há histórias que demonstram como tudo o que foi escrito aqui até agora está interlidado, inclusive o convite inicial de um bate-papo com um especialista em mudanças climáticas.

    O site conta o caso de Lan, uma mulher vietnamita de 32 anos com dois filhos pequenos e um marido doente que precisou migrar da região rural para tentar ganhar a vida na província de Dong Nai, a 1.500 km de sua casa. Quem toma conta dos meninos é a mãe de Lan, para que ela possa trabalhar nove a dez horas por dia numa fábrica de calçados seis dias por semana ao preço de 1 dólar por hora. Para mandar dinheiro para os filhos, Lan ainda trabalha aos domingos, seu único dia de folga, num restaurante e duas noites na semana ela costura para um alfaiate.

    “A maior parte do meu salário vai para os meus filhos. Não posso deixá-los passarem fome ou sentir que eles não são tão bons quanto as outras crianças. Eles não são iguais a outras crianças porque não temos dinheiro. Eu posso morrer de fome, mas meus filhos não podem”, diz ela, à reportagem do site da Oxfam.

    Investir num novo modelo econômico, que leve em conta as mudanças climáticas e dê às pessoas o controle das próprias vidas é a forma sugerida pelos economistas espalhados pelo mundo sob o chapéu da New Economics Foundation. Basicamente é priorizar o desenvolvimento local e atentar para o fato de que “a mudança não começa nos corredores do poder”. Vale a pena conferir a agenda da NEF, sobretudo num dia como o de hoje, de tantas polarizações equivocadas. Há lufadas de ar fresco que podem fazer bem.

Movimentos contra a mineração crescem entre os emergentes


“A Mineradora Anglo American informou nesta sexta-feira (30) que voltou a paralisar as atividades na quinta-feira (29), após registrar um novo vazamento, 17 dias depois de um primeiro caso que levou à poluição de um manancial em Minas Gerais. A paralisação durará um mês, enquanto a empresa realiza testes de segurança no mineroduto do Minas-Rio, que percorre 529 quilômetros entre Conceição do Mato Dentro (MG) e o porto do Açu, em São João da Barra (RJ)”.

Leio a notícia, publicada pelo jornalista Julio Ottoboni no site da Envolverde e meu pensamento segue longe, aflito com os ditos e não ditos da dramática relação entre homens, desenvolvimento e meio ambiente. São três protagonistas que terão seus destinos enredados para todo o sempre, com pitacos de dor e morte em todos os capítulos. Estranho mesmo que, com tantos incentivos e investimentos tecnológicos anunciados, com a entrada em cena da Quarta Revolução Industrial, que promete a convergência do digital com o físico e o biológico, empresas ainda cometam atrocidades desse tipo.

Os cuidados com a natureza deveriam ser o limite para o desenvolvimento econômico, e isso não é conversa de quem abraça árvores. Estudos e mais estudos já foram feitos por cientistas, provando, comprovando, que a ação do homem destrói o meio ambiente. O fim desse drama poderá ser um nível de desconforto cada vez maior para os cidadãos com recursos médios viverem o dia a dia no planeta. Para os pobres, possivelmente nem haverá possibilidade de sentir o desconforto.

Há década e meia estamos nessa estrada, de jornalistas que encaminham o assunto para informar aos  cidadãos comunso que tem sido feito pelo setor produtivo. Tudo o que posso afirmar a vocês, com base no muito que tenho ouvido e lido sobre o tema, é que há avanços, sim. Mas são poucos diante da enormidade das questões. Só para ilustrar o que estou dizendo, se é que é preciso ainda mais provas, ontem assisti, na Netflix, a um episódio do seriado britânico “As Casas mais Extraordinárias do Mundo” e, lá pelas tantas, o entrevistado teve coragem de dizer aos dois apresentadores (Piers Taylor e Caroline Quentin), que antes de erguer sua supercasa precisou “limpar o terreno”. O que ele queria dizer é que muitas árvoresforam sacrificadas para seu bel prazer. E não demonstrava um pingo de constrangimento ao dizê-lo.

Mas este exemplo é apenas uma gota no oceano. Voltemos à questão da mineração que, como se sabe, é uma atividade extremamente poluente, embora a maioria dos executivos que trabalha em empresas do ramo negue esta afirmação.Solos e água do entorno de qualquer abertura de mina, no entanto, correrão sempre perigo de serem contaminados.No caso da Anglo American, o próprio presidente da empresa assume que houve vazamento. Entre cinco e oito minutos, algumas toneladas de minério foram absorvidas pelas águas de um ribeirão. Pessoas moram perto do rio. Nada a temer?

A América Latina e a África são dois continentes que têmmuito o que oferecer, em seus solos, aos donos de mineradoras.Mas os abusos e perigos têm sido tão ostensivos que há muito movimento já no sentido de tentar minimizar as atividades mineradoras nesses locais.

Costa Rica, por exemplo, país que viveu neste domingo (1º) seu dia de eleições polarizadas e elegeu Carlos Alvarado, tem um histórico interessante de preservação, com políticas ambientais pioneiras, como a criação do sistema nacional de unidades de conservação, sistemas de trocas de dívida externa por projetos de preservação ambiental e o desenvolvimento de corredoresecológicos. Quem conta isso é Bruno Milanez, engenheiro, pesquisador, membro da Rede Brasileira de Justiça Ambiental e um dos autores do livro “Desastre no Vale do Rio Doce: antecedentes, impactos e ações sobre a destruição”, no artigo intitulado “Costa Rica: o verdadeiro ouro do futuro” do livro “Diferentes formas de dizer não”, editado pela Fase.

Segundo Milanez,na Costa Rica há uma legislação ambiental que impõe uma série de restrições e condições quanto à realização da atividade de extração mineral. Se for de interesse nacional, as concessões de lavra podem ser negadas, e pronto.

“Ao invés de colocar a extração de mineral como prioritária em relação às outras atividades (como no caso da legislação brasileira), o Código da Costa Rica aponta para a necessidade de definir usos do território que tenham prioridade sobre a mineração”, escreve Milanez.

Além da atuação governamental, os cidadãos costa-riquenhos decidiram também se unir e fazer uma resistência contra a mineração em seu país.

“Experiências anteriores de contaminação, fechamento repentino de minas e não pagamento de compensações parecem ter criado um sentimento negativo com relação à mineração... governos locais passaram a questionar as decisões do governo nacional por entenderem que a mineração gerava não apenas degradação ambiental, mas também o empobrecimento da população”, escreve Milanez em seu artigo.

A lei nacional da Costa Rica restringindo as atividades de mineração foi promulgada em 2010 e se junta a leis semelhantes em Argentina e Colômbia.

Já El Salvador, o menor e um dos mais pobres países da América Latina, decidiu proibir totalmente a mineração de ouro em seu país há um ano. Ao jornal “The New York Times”, Keith Slack, diretor de programa global para indústrias extrativas da ONG Oxfam America, disse que “há um crescente questionamento sobre a mineração como um motor de desenvolvimento econômico”. E que a decisão de El Salvador "definitivamente fortalece a voz das comunidades que estão levantando as questões."

Na Colômbia, também há um ano, a cidade de Cajamarca disse não, num plebiscito, a projetos de mineração. No site “El Espectador” , há notícias de que os cidadãos estão se concentrando em outras atividades e que não há crise por lá.

Para ajudar os cidadãos da América Latina na luta por seus territórios, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) criou a Convenção 169, que entrou em vigor internacionalmente em 1991 (somente em 2003, com o governo Lula, entrou em vigor aqui no Brasil), um importante instrumento legal, que obriga os governos a consultarem os povos indígenas quando os projetos afetam suas comunidades. Como se sabe, pelos inúmeros conflitos que acontecem entre empresas que exploram recursos naturais e as pessoas que vivem no entorno do empreendimento, tal ferramenta nem sempre é levada em conta.

Continuo puxando o fio da memória e vou para 1992, quando um grupo de empresários se juntou e criou também uma espécie de ferramenta, também para ajudá-los a lidar com os limites para o crescimento que, até a década de 70, eles consideravam infinito. O suíço Stephan Schmidheiny compilou os debates num livro que se chamou “Mudando o rumo”, onde há promessas e muitas certezas que hoje, mais de vinte anos depois, já foram descartadas.

Puxei aqui da estante o livro e pinço dele uma das muitas frases de efeito consideradas pelo grupo de empresários preocupados com o rumo do mundo. É de Shinroku Morohashi, na época presidente da Mitsubishi Corporation, que pode bem explicar porque, além dos preços e das dificuldades de mercado, a atividade da mineração tem sido tão combatida e evitada:

“Acreditamos que uma empresa não pode continuar existindo sem a confiança e o respeito da sociedade por seu desempenho em termos ambientais”.