O presidente Jair Bolsonaro foi o primeiro a ventilar seu ressentimento à menina Greta, “é só uma pirralha”, disse ele. Trump retrucou “Greta precisa controlar sua raiva”.
Parece ser mesmo insuportável aos patriarcas olhar uma menina miúda, de
olhos firmes, e serem obrigados a silenciar-se diante de um “how dare you?”.
A pergunta não é sobre como eles ousam desqualificá-la pela juventude,
pelo gênero ou pela deficiência — é mais abstrata e impessoal: Greta
provoca-os sobre como ousam ocupar o poder e ignorar o justo para a
humanidade.
Greta ousou tanto que está na capa da prestigiosa revista Time
— é a pessoa do ano. Há quem a descreva como líder, personalidade ou
ativista. O melhor de todos os títulos é exatamente o mais simples: é a
pessoa do ano para o mundo. Uma pessoa “com uma mensagem”,
como ela mesma se define. Mas a política não é um espaço plural para as
mulheres, e menos ainda para as meninas com deficiência. Desqualificar o
pensamento de Greta é um gesto naturalizado pelo capacitismo entranhado
na misoginia: uma menina com autismo não pode ser alguém com ideias
razoáveis. Por isso, até mesmo o título pessoa lhe é espoliado pela
deficiência — a pessoa com deficiência é reduzida ao que falta ou excede
em seu corpo. No seu caso, o autismo ameaça a legitimidade de
apresentar-se em público sem sofrer desqualificações pela juventude ou
pela neurodiversidade.
Gente
bem-intencionada repete o coro de que Greta seria uma marionete, uma
alegoria para a participação de jovens na política de adultos. É verdade
que Greta não é uma cientista de jaleco branco com publicações
internacionais sobre os efeitos do aquecimento global. É só uma menina
que fincou os pés na porta do parlamento sueco em greves sistemáticas da
escola. “Algumas pessoas dizem que eu deveria estudar para ser uma
cientista climática, pois poderia ‘resolver a crise climática’. Mas a
crise climática já foi solucionada”, diz ela, em um sarcasmo sobre seu
lugar de mensageira da certeza — se não há dúvidas científicas sobre a crise climática, o que faltam são mensageiras do jargão científico. Ela é uma delas.
Se
rejeitar o título de marionete a aproxima da experiência de outros
jovens engajados em questões políticas, Greta enfrenta uma jornada muito
particular de desqualificação: é interpelada pela deficiência. Sua
resposta ao ódio capacitista é apropriar-se do diagnóstico médico do
autismo como uma “dádiva”, uma singularidade existencial que movimenta
seu estranhamento sobre o senso de normalidade do mundo. Acompanhá-la
exige um descentramento de quem se sente interpelado por ela: sua
epistemologia é binária, seus discursos são breves como seu senso de
urgência, suas alegorias sobre a crise climática seguem seus sentimentos
de finitude do planeta. Os que rejeitam ou se sentem incomodados pela
interpelação de Greta se unem e, em coro, esbravejam “pirralha raivosa”.
Como Greta, nós também acreditamos que “vivemos em um mundo estranho”.
Para nós, o mais estranho é que a rejeição ao debate político não se dá
por argumentos, mas por “cancelamento” ou “apagamento” de pessoas. Há
uma personificação do ódio — é a menina com deficiência que se torna o
alvo de quem ignora a crise climática. O mesmo ocorre com defensores de
causas feministas, anti-racistas ou de direitos humanos — são pessoas
ameaçadas por ousarem desafiar a normalidade de uma ordem política
desigual. O cancelamento dos mensageiros da democracia é uma das
características do esvaziamento do político pelo ódio e, mais
temerosamente, como diria Hannah Arendt, um forte sinal de fumaça das
políticas fascistas de banalidade do mal.
Debora Diniz é brasileira, antropóloga, pesquisadora da Universidade de Brown.
Giselle Carino é argentina, cientista política, diretora da IPPF/WHR.
Anvisa retira alerta de consumo para produtos que podem até “corroer a córnea”
Levantamento
inédito mostra que 93 produtos com glifosato tiveram classificação
reduzida sob Governo Bolsonaro – ao mesmo tempo que o cerco ao pesticida
se fecha no mundo
O cenário mundial não está favorável aos fabricantes de glifosato. O herbicida enfrenta vetos em países europeus e mais de 18.000 ações nos tribunais nos Estados Unidos que relacionam o seu uso a doenças como o câncer.
Mas, no Brasil, o agrotóxico mais vendido no mundo não só teve a licença de comercialização renovada como também, oficialmente, tornou-se menos perigoso aos olhos do Governo brasileiro.
Isso porque, após a reclassificação de toxicidade aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa), 93 produtos formulados à base de glifosato tiveram a
classificação de toxicidade reduzida, segundo um levantamento inédito
realizado pela Agência Pública e Repórter Brasil com base na publicação no Diário Oficial.
Antes,
24 produtos à base do herbicida eram considerados “Extremamente
Tóxico”. Agora não há nenhum produto enquadrado na categoria máxima de
toxicidade.
O levantamento mostrou ainda que três produtos se mantiveram na mesma classe toxicológica.
“Esse
alerta vai sair da embalagem do glifosato, um produto que pode corroer a
córnea. A embalagem agora será igual a de qualquer produto de uso
doméstico. Estamos seguindo contra todos os alertas que o mundo está
abrindo para o glifosato”, afirma Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da
Fiocruz.
A portaria que diminuiu a classificação toxicológica
dos produtos à base de glifosato foi publicada em julho deste ano.
Agora, só receberá o alerta máximo os pesticidas que causarem morte ao
serem ingeridos ou entrarem em contato com os olhos ou pele.
Especialistas acreditam que as mudanças vão afetar mais aqueles que manuseiam os produtos,
porque o símbolo de perigo, a caveira, passará a ser usado apenas no
rótulo de produtos que causem a morte ao serem ingeridos ou entrar em
contato com olhos e pele. Os demais agrotóxicos terão apenas um símbolo
de atenção.
Veja as mudanças na tabela:
No Brasil e no mundo
Há mais de 40 anos no mercado mundial, o glifosato é líder de vendas no Brasil e no mundo.
No Brasil, existem hoje 102 produtos técnicos,
duas pré-misturas e 123 produtos formulados à base do ingrediente ativo
glifosato. São usados para o controle de mais de 150 plantas
infestantes em variados cultivos – de soja e café até feijão, maçã e
uva. Em 2017, 173.000 toneladas de glifosato foram vendidas no Brasil,
segundo o Ibama.
Porém,
estudos acenderam o alerta sobre a segurança, correlacionando o uso do
pesticida com o aparecimento de doenças como depressão, autismo,
infertilidade, Alzheimer, Parkinson e câncer em diversas partes do corpo. Em 2015, após análise de diversos estudos a Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (Iarc) da Organização Mundial de Saúde concluiu que o glifosato era “provavelmente cancerígeno” para humanos.
Em
fevereiro deste ano, a Anvisa concluiu a reavaliação do glifosato, que
durou 11 anos, e entendeu que o produto não se enquadra nos critérios
proibitivos previstos na legislação brasileiras: não é classificado como
mutagênico, carcinogênico, tóxico para a reprodução e teratogênico (que
causa malformação fetal).
“A principal conclusão da
reavaliação é que o glifosato apresenta maior risco para os
trabalhadores que atuam em lavouras e para as pessoas que vivem próximas
a estas áreas”, informou a agência.
Agora, não há
previsão de uma nova avaliação por parte do governo, já que a legislação
não estipula um novo prazo, diferentemente do que acontece na União Europeia e nos Estados Unidos.
Gerente-geral
de toxicidade agência regulatória na época do começo da ação, Luiz
Cláudio Meirelles conta que o produto entrou em reavaliação devido às
suspeitas de doenças crônicas, como câncer e autismo.
“Uma das maiores preocupações eram os efeitos crônicos, aqueles que
apareceriam anos depois, após a pessoa ter exposição contínua ao
produto”, explica.
Hoje, Luiz Cláudio entende que o
caminho a ser tomado deveria ser o da proibição. “Hoje a situação do
glifosato é um caminho sem volta. Tudo que começa a ser apontado como
problemático na saúde e no meio ambiente, a ciência guia para uma condenação”, explica.
O glifosato é defendido pela Bayer, dona da Monsanto.
A reportagem questionou a empresa sobre a reavaliação da Anvisa, a
queda na classe toxicológica, os processos nos Estados Unidos e o
banimento na Europa. No entanto, a Bayer limitou-se em comentar os dois
últimos pontos. Por nota, a empresa informou que se solidariza com os
demandantes e suas famílias, mas que “o glifosato não foi a causa de
suas doenças”.
“Há um extenso trabalho de pesquisas sobre
o glifosato e os herbicidas à base do mesmo, incluindo mais de 800
estudos analisados pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos
(EPA), por agências europeias e outros reguladores no momento do
registro dessa molécula. Todas as agências regulatórias que analisaram
estes estudos chegaram à mesma conclusão: produtos à base de glifosato
são seguros quando usados conforme as instruções”, disse em nota.
Segundo
Ricardo Carmona, professor de Produção Vegetal na Faculdade de
Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília (UnB),
ainda não há no mercado um herbicida capaz de substituir o glifosato.
“Se o glifosato fosse proibido, não teríamos outro herbicida de ação tão
ampla que sozinho pudesse substituí-lo. Teríamos que aplicar pelo menos
dois, para controlar tipos diferentes de ervas daninhas, que
possivelmente seriam mais tóxicos, e aumentaria o uso dos agrotóxicos e
causaria consequências a saúde e ao meio ambiente”, diz.
Cerco ao glifosato pelo mundo
Nos
Estados Unidos, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos
(EPA) avaliou, em 2017, que o glifosato é “provavelmente não cancerígeno
para humanos”. No entanto, a Justiça americana tem decidido de maneira
oposta.
A Bayer — dona da Monsanto, primeira empresa a
vender agrotóxicos à base de glifosato — responde a mais de 18.000 ações
contra o glifosato, sendo que 5.000 dessas foram registradas apenas em
abril deste ano.
Em agosto e 2018 a Monsanto perdeu uma ação na Júri da Califórnia e foi condenada a pagar 289 milhões de dólares ao jardineiro Dewayne Johnson. A vítima enfrenta um linfoma. Segundo a defesa, ele teria desenvolvido a doença por utilizar nos jardins de uma escola na Califórnia os herbicidas Roundup e RangerPro, feito à base de glifosato.
Em
março deste ano, o Júri Federal de São Francisco entendeu que a
exposição ao glifosato foi um fator significativo para que o aposentado Edwin Hardeman desenvolvesse câncer, e determinou que a Bayer pague mais de 80 milhões de reais em indenização à vítima.
Edwin
enfrenta um linfoma não-Hodgkin, um tipo de câncer que tem origem nas
células do sistema linfático. Durante 20 anos ele utilizou o herbicida
Roundup, à base de glifosato, em sua propriedade. O produto é da empresa
Bayer/Monsanto.
Na Europa, o debate ocorre no sentido de
retirar o glifosato do mercado. Em julho deste ano, o Parlamento da
Áustria baniu o uso de glifosato no país, o tornando o primeiro membro
da União Europeia a tomar a medida.
Em 2017, o presidente da França, Emmanuel Macron,
prometeu proibir o glifosato no país até o fim de 2020. Porém, no
começo deste ano, afirmou que não seria possível banir o produto do
mercado dentro do prazo estipulado. Até o momento o herbicida já está
fora de 20 municípios franceses devido a leis municipais.
Na Alemanha,
o governo se comprometeu a retirar o glifosato do mercado até 31 de
dezembro de 2023, como parte de um programa de proteção de insetos
lançado neste ano.
Ações no Brasil
Em agosto deste ano, o Ministério Público do Trabalho
(MPT-MT), Ministério Público Federal (MPF-MT) e o Ministério Público
Estadual (MP-MT) do Mato Grosso iniciaram uma ação civil pública para
proibir a utilização de qualquer agrotóxico à base de glifosato no
estado.
O Mato Grosso é o maior exportador de soja do
Brasil, com mais de 16,2 milhões de toneladas apenas entre janeiro e
julho deste ano. As culturas do grão são as que mais usam herbicidas à
base de glifosato.
Segundo o MPT, a ação tem como enfoque
defender a saúde dos produtores rurais e o direito à vida. Os
promotores justificam que as condições climáticas do Mato Grosso não são
adequadas à bula de alguns dos principais produtos à base de glifosato,
que tem como especificações, por exemplo, que a aplicação seja feita
com a umidade relativa do ar mínima de 55% e com temperatura máxima de
28Cº, condições que não coincidem com o clima do estado em grande parte
do ano.
A próxima audiência da ação está marcada para 13 de novembro.
Esta
reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da
Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos
no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto. Este texto foi publicado originalmente no site da Agência Pública.
Correção
Luiz Cláudio Meirelles era gerente-geral de toxicidade à época das ações, e não diretor.
Correção
A portaria da Anvisa tratou de classificação toxicológica, e não de classificação de risco.
Como um acordo com a China provocou uma corrida ao abate de asininos e agora ameaça a espécie símbolo do Nordeste
Jumento Zé Mano na zona rural de Valente, na Bahia.Alexandre Guzanshe
Joana Suarez
11 Dec 2019 - 16:08 CET
Na feira de animais de Cansanção, a 350 quilômetros de Salvador,
três jumentos dóceis e aptos ao transporte de carga esperam na sombra
por um novo dono. Ali vende-se de tudo quanto é animal que sirva ao
sertanejo daquela terra seca, e o jegue já foi um dos mais populares.
Mas, aproximando-se dos três espécimes, com chapéu de couro bem
trabalhado, o agricultor José Araújo de Souza decreta: “Quem tem o seu
que o segure, porque o jegue vai acabar!”
O
jumento, jegue ou asno da espécie asinina chegou ao Brasil com os
portugueses há cinco séculos e adaptou-se tão bem ao clima semiárido que
se tornou símbolo do trabalho pesado no interior nordestino, “o maior
desenvolvimentista do sertão”, como cantou Luiz Gonzaga. No entanto,
começou a sumir da vista do sertanejo após um inusitado negócio com a China.
O
país asiático tem interesse, principalmente, no couro do animal
—matéria-prima para a produção do Ejiao, uma gelatina usada na medicina e
em cosméticos chineses, que movimentou o equivalente a R$ 22 bilhões em
2018. Já a carne é um subproduto consumido no norte.
A China
não consegue atender sozinha à demanda de criar até 10 milhões de
jumentos por ano para o abate, por isso importa o animal de países da
África e América do Sul. Nos últimos dois anos, o Brasil entrou com
força nesse mercado.
Essa investigação revela,
entretanto, um faroeste na cadeia de atravessadores de asininos do
Nordeste ao mercado chinês. Nos 2.600 quilômetros que percorremos em
setembro do Sertão ao Sudoeste da Bahia, que viu o boom do negócio, avistamos apenas 15 jumentos. Por mais de um ano, milhares foram submetidos a condições degradantes e abatidos sem rigor.
Quando chegamos à região, o negócio estava interrompido por força de uma ação judicial em resposta aos maus-tratos. O ciclo, porém, já vem sendo retomado nos antigos moldes.
Um negócio fácil
Que
o fiel companheiro do sertanejo poderia despertar o interesse de
grandes investidores estrangeiros foi uma surpresa até para autoridades
brasileiras. Nem a então ministra da Agricultura, Kátia Abreu, acreditou no pedido feito durante sua viagem à Ásia em 2015.
“Pareceu
piada”, escreveu no Twitter sobre um empresário chinês interessado em
importar asininos. “Inacreditável, mas sua demanda é de 1 milhão de
jumentos [por] ano”.
O Brasil nem sequer tem um milhão de
jumentos para vender. Em 2012, o IBGE contabilizou 902 mil animais no
país, sendo 97% (877 mil) no Nordeste. Mesmo assim, em julho de 2017, a
Bahia começou a exportar carne e couro à China, com meta de enviar 200
mil unidades por ano.
Vala na Fazenda Santa Izabel, na zona rural de Euclides da Cunha. Parte da fazenda foi arrendanda pelos chineses. Alexandre Guzanshe
Em
um ano e quatro meses após o acordo, mais de 100.000 jumentos foram
mortos nos três frigoríficos da Bahia autorizados pelo governo federal
—nos municípios de Amargosa, Itapetinga e Simões Filho. Outros
abatedouros registrados para a atividade estão em Estados onde há poucos
jegues para suprir o mercado. Se o ritmo de abate chegar à expectativa
chinesa, a espécie pode desaparecer em menos de cinco anos no Nordeste.
Comércio ao estilo faroeste
A redução drástica de jumentos ocorre porque sua cadeia é extrativista
—ele é pego na natureza e morto. Não há produção estruturada, normas de
criação, fiscalização de transporte ou medidas contra condições
precárias; tampouco há uma contagem recente de sua população. Nela, há
em média seis atravessadores, incluindo sertanejos, comerciantes,
transportadores, fazendeiros ou arrendatários, donos de abatedouros e de
empresas de logística aqui e na China.
No início, está o
sertanejo nordestino, que vende jumentos soltos ou de seu próprio
quintal por valor entre R$ 20 e R$ 50. Em alguns casos, até doa o animal
que apenas gera gastos à família. É o caso de Leonardo, de 16 anos, que
recolhia jegues sem dono para vendê-los. Na feira de Euclides da Cunha,
a 300 km de Salvador, era conhecido como o jovem que levava animais
para o abate. Na frente de colegas, garantiu que apenas ajudava um amigo
no transporte. “Mal sabia o que estava fazendo”, disse envergonhado,
arrancando risadas irônicas de quem estava perto.
Na
segunda etapa, está o pequeno comerciante, também sertanejo, que junta
um grupo de jumentos para revendê-los a transportadores ou fazendeiros.
Por exemplo: João Ferreira, que há duas décadas compra e vende jegues em
feiras de animais, mas que de tempos para cá diz que o comércio
minguou: “Tem caído muito o movimento”, comentou na feira de Cansanção.
Ferreira
contornou a queda do mercado vendendo os animais mais velhos e fracos a
atravessadores chineses. Cada animal saiu por R$ 100 aos estrangeiros,
enquanto na feira o jegue bom para trabalho custa R$ 300.
Na
terceira etapa, transportadores levam animais até fazendas baianas
habilitadas. Quando o abate se intensificou em 2017, uma centena de
propriedades rurais se cadastrou como criadora de asinino na Agência de
Defesa Agropecuária da Bahia (Adab).
Mas não há dados
sobre a criação formal no Brasil. Essas fazendas são, na realidade,
entrepostos para animais trazidos não só de municípios baianos como de
todo o Nordeste. Soubemos de transportadores que vinham de Maranhão,
Piauí, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte.
Para
trafegar com animais, o motorista deve portar a Guia de Trânsito Animal
(GTA), um documento obrigatório de controle dos serviços de defesa
agropecuária. Na prática, no entanto, transportadores viajavam sem
permissão. Para burlar a fiscalização, trafegavam à noite cortando
propriedades rurais.
Uma das fazendas habilitadas é a de
Herysnaldo Marinho, em Teofilândia. A propriedade consta como uma das 12
fornecedoras de jumentos ao frigorífico Cabra Forte, a 200 quilômetros
dali, em Simões Filho, na região metropolitana de Salvador.
Fazenda Piedade, na zona rural de Euclides da Cunha, onde ficam jumentos separados para o abate.Alexandre Guzanshe
As
GTAs indicam sua fazenda como o local de origem de jegues abatidos. Mas
chegando lá soubemos que os animais eram apenas abrigados na
propriedade enquanto o documento era forjado. Os jumentos desembarcavam,
segundo o fazendeiro, de um caminhão cujo dono era conhecido como
Moral, que percorria o Nordeste coletando animais.
Marinho
contou ter sido recentemente procurado pelo caminhoneiro, mas, dessa
vez, negou acordo. “Quando eu vi na televisão [as denúncias de
maus-tratos], eu parei, vi que não era coisa de Deus”, afirmou. Em sua
fazenda, garante, “era um dengo danado” com os jegues.
Com
a GTA em mãos, caminhoneiros podem levar a carga a frigoríficos das
cidades mais próximas —o quarto atravessador da cadeia. Nos
estabelecimentos com registro para comercializar asininos, o
transportador recebe, em média, R$ 240 por animal abatido.
Até
setembro, nenhuma empresa brasileira estava habilitada a exportar
asinino para a China —recentemente, o frigorífico Frinordeste, de
Amargosa, recebeu a permissão. Por isso, o transporte marítimo era feito
por companhias de logística do Vietnã e Hong Kong—
o quinto grupo de atravessadores. A HL Vietnam International e a
Fortune Freight (FFC International) compravam a carga de frigoríficos
—por entre R$ 300 e R$ 400 cada animal— e a despachava no porto de
Salvador.
Não localizamos compradores da sexta e última
etapa da cadeia, mas o desembarque era igualmente problemático na Ásia. A
carga chegava pelos portos de Haifom, no Vietnã, e de Hong Kong. “O
jumento entrava por contrabando”, informou Rui Leal, da Adab.
Na
China, uma peça de pele de jumento é comprada por até US$ 4 mil (R$ 16
mil). Já o produto final, uma caixa de Ejiao, custa US$ 186 (R$ 750).
O Ministério da Agricultura
não forneceu dados oficiais desse mercado. Pelos cálculos aproximados, o
comércio do jumento gerou, em pouco mais de um ano, uma receita bruta
em torno de R$ 40 milhões aos frigoríficos da Bahia,
últimos atravessadores brasileiros. Para se ter ideia, o Brasil
exportou no último ano US$ 5,4 bilhões (R$ 21 bilhões) de bovinos, sendo
US$ 1,26 bilhão (R$ 5,08 bilhões) apenas para a China.
“Os
jumentos estão indo de brinde para os chineses”, alertou Sônia Martins
Teodoro, representante da ONG SOS Animais de Itapetinga, que acompanha
denúncias de maus-tratos. O acordo, segundo ela, foi um agrado dos
governos brasileiro e baiano para atrair investimentos. A Bahia espera
abrigar grandes obras de infraestrutura chinesas nos próximos anos, como
parque industrial e a revitalização do porto de Aratu, construção de
ponte ligando Salvador a Itaparica e da Ferrovia de Integração
Oeste-Leste.
Jegues ficam confinados
Foi
o município de Itapetinga, no Sudoeste baiano, que protagonizou as
cenas mais duras de maus-tratos em 2018. Numa fazenda ao lado do
Frigorífico Regional Sudoeste, mais de 800 jumentos viviam caídos no
solo, com fome e sede. Outros 200 foram encontrados mortos.
Urubus
chamaram a atenção de moradores que denunciaram a fazenda. Em um vídeo
feito por eles, um jumento filhote tenta sair do corpo da mãe, fraca
demais para parir. Ambos morrem. Outro jumento, bastante fraco, agoniza
por não conseguir se livrar de corpos que o sufocam.
Em
novembro de 2018, após as denúncias, a Justiça da Bahia proibiu o abate.
Mas a pressão empresarial derrubou a liminar em setembro deste ano. O
Tribunal Regional Federal (TRF) da 1º Região entendeu que a suspensão
impôs “grave lesão à ordem e a economia da região” e provocou “perda de
investimentos nacionais e internacionais”, sem exemplificar o prejuízo.
Manifestação da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos no Farol da Barra, em Salvador. Alexandre Guzanshe
A
fazenda em Itapetinga era arrendada pela empresa chinesa de
intermediação Cuifeng Lin, homônimo de sua proprietária. Ela e o marido,
Zenan Wen, foram indiciados. A reportagem não conseguiu encontrá-los.
“Era
uma coisa terrível, nunca vista aqui”, lembrou o delegado de
Itapetinga, Irineu Andrade, que os responsabilizou por crimes de
maus-tratos e poluição do rio, causada pela decomposição dos animais.
“Não tinha alimento suficiente, os animais iam no rio beber água e
ficavam boiando, porque não conseguiam voltar [de tão fracos]”.
Dias
depois do escândalo, uma segunda fazenda foi interditada no município. O
dono João Batista, que recebia R$ 150 por caminhão carregado para
pernoite dos animais, foi multado. “Faz pena demais, você sofre junto
com eles”, afirmou Batista, que se arrependeu do acordo. “Os jegues já
saíam de Pernambuco passando necessidade e ficavam dois, três dias com
fome, chegavam aqui e ruíam todos os paus [das plantas]”.
Cinco
meses depois, em Euclides da Cunha, a 700 km de Itapetinga, novas
denúncias de maus-tratos surgiram envolvendo a Cuifeng Lin. Na fazenda
Santa Isabel, outros 800 animais viviam em condições precárias
semelhantes. Pelo menos outros 400 estavam mortos.
“Nunca
chegou um caminhão aqui com GTA”, observou Márcia Costa Miranda,
responsável pela propriedade. “Eu achava errado, porque tinha jumento
morrendo demais, mas eu não sou do órgão fiscalizador, ia fazer o quê?”
A
agricultora lembra que o grupo dava pouca ração aos animais
propositadamente. “Eles diziam que os desnutridos eram bons porque a
pele descolava melhor”, conta Miranda.
Três chineses e um
brasileiro da Cuifeng Lin coordenavam a chegada de caminhões carregados
no período que o abate estava suspenso judicialmente, e os jumentos se
acumulavam confinados numa área apertada e sem pasto.
Justificativa econômica
Por
conta da decisão judicial, Amargosa, município de 40 mil habitantes,
perdeu 150 empregos diretos e 200 indiretos com o fechamento do
Frinordeste. Por isso, empresários locais e a prefeitura apelaram contra
a ação, e boa parte da população aplaudiu.
“A gente
sente que as pessoas comemoraram a volta do abate”, afirmou o diretor da
rádio amargosense Vale FM, Eduardo Gordiano. “Aqui não chegou denúncia
de jumento maltratado, e o povo não se sensibilizou com o que aconteceu
em outras cidades”.
Dois brasileiros e dois chineses
compõem a sociedade da Frinordeste declarada à Receita Federal. Mas
segundo o empresário Walter Andrade Filho, o Walter do Couro, chineses
hoje detém a empresa. Ele é um dos quatro fornecedores de jegue
habilitados ao abatedouro, mas a atividade não compensava com a
exportação via atravessadoras asiáticas.
José de Jesus, de 59 anos, que pegou o jumento solto na rua e usa para trabalhar, não aceita vender.Alexandre Guzanshe
Com
a permissão da Frinordeste para vender a produção diretamente à China, a
expectativa é de reaquecimento do mercado. “Já está tudo certo para [o
abatedouro] voltar a funcionar”, disse Andrade Filho. “O povo está doido
pra abater os jegues”.
Ele acredita que isso estimulará a
produção regular: “Hoje, o jegue é pego na natureza, de graça ou a
preço baixo, mas se a China continuar comprando, a gente vai produzir”.
O
Frinordeste não concedeu entrevista. Já o dono do abatedouro Cabra
Forte (em Simões Filho), Reginaldo Filho, afirmou que a falta de
segurança jurídica do setor o levou a desistir da atividade. “É página
virada na nossa trajetória”, garantiu.
Rui Leal, da Adab,
defende que os frigoríficos só voltem a abater asininos se conseguirem
habilitação para exportar diretamente à China. Além do lucro maior,
seria possível rastrear quem compra o produto. “Em Amargosa, eles vão
comprar e exportar, então a aquisição e o transporte terão mais
controle”, explicou.
No dia 3 de dezembro, uma audiência
pública sobre o abate de jumentos foi realizada na Câmara dos Deputados,
em Brasília. Na ocasião, João Adrien, assessor de Assuntos
Socioambientais do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), se
mostrou contra a proibição do abate, por se tratar de uma alternativa
econômica, e defendeu a estruturação da cadeia produtiva. “Estamos
discutindo como fazer as regulamentações, exigir todo o guia de tráfico
animal, para que eles possam ser bem tratados”, afirmou na audiência.
Risco à saúde humana
Enquanto
isso, o Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, composto de
universidades e entidades de proteção aos animais, vem se mobilizando
para combater os maus-tratos aos jumentos. O grupo atuou nos episódios
de Itapetinga, onde a única solução foi abater os sobreviventes, e em
Euclides da Cunha, assumindo a tutela dos animais.
O Fórum hoje cuida de 200 animais sobreviventes, com apoio da ONG britânica The Donkey Sanctuary
e de doações individuais de brasileiros. Quase um ano após o episódio,
alguns jegues ainda estão vulneráveis. “Têm os que continuam
debilitados, que não conseguem se levantar sozinhos”, explicou a
veterinária Aline Rocha, que os acompanha diariamente.
Rocha
espera que, nos próximos meses, estejam aptos a serem doados a reservas
ecológicas. “A gente sente que está fazendo diferença, que eles estão
ficando sadios”, comemorou.
Observações em Euclides da
Cunha subsidiam pesquisas sobre enfermidades com jumentos, uma área
pouco estudada. Cerca de 5% dos animais morreram por doenças como mormo e
anemia infecciosa, segundo as análises. “A situação de estresse
intensifica as doenças, que vão sendo transmitidas entre eles como num
campo de concentração”, comparou o veterinário Pierre Barnabé Escodro,
professor Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
O mormo
é a maior preocupação nesse negócio informal. Trata-se de uma zoonose
de alta letalidade que pode ser transmitida ao ser humano.
Jumento produtivo
Na
produção de sisal, no município baiano de Valente, o jegue prova que
ainda tem utilidade ao Nordeste. Em sua cangalha, ele carrega folhas da
planta típica do semiárido até a máquina de processamento, e dali até o
varal onde os fios secam. Só ele para conseguir desviar de folhas que
espetam por entre caminhos estreitos.
José de Jesus, de
59 anos, trabalha com seu jumento Zé Mané de segunda a quinta-feira —nos
outros dias o animal folga. “É manso e bom de serviço”, elogia o
agricultor, que convive com o colega de trabalho há duas décadas.
A
manufatura do sisal, que emprega 3.000 famílias e cerca de 3.000
jegues, gerou R$ 40 milhões no ano passado. Segundo Misael Lopes, da
associação local, Valente deve ao jegue o título de Capital do Sisal:
“Isso é inegável”.
Outros usos sustentáveis para empregar
o jumento seriam terapia com equino, turismo rural e até produção de
leite. Professor de medicina veterinária da USP, Adroaldo José Zanella
tenta implementar estratégias de bem-estar e segurança dos jegues
nordestinos.
“Estamos tentando construir um Nordeste do
século XXI que possa conviver com os jumentos, pois um animal que está
aqui há 500 anos não pode acabar em cinco”, concluiu.
Esta reportagem independente foi produzida pela Wide Avenues em parceria com a Repórter Brasil e financiada por uma bolsa da The Donkey Sanctuary, uma ONG britânica dedicada a promover o bem-estar dos jumentos.
Graças a Bolsonaro, Brasil leva prêmio Fóssil do Ano durante a COP-25
Reinaldo Azevedo 13/12/2019 18h52
O Brasil ganhou nesta sexta-feira (13) o prêmio Fóssil do Ano, como "país que mais atrapalhou o clima em 2019". A premiação aconteceu no final da COP-25, conferência da ONU sobre mudanças climáticas. É a primeira vez que o país leva o prêmio em referência às suas ações ao longo de todo o ano.
O prêmio acusa o governo Bolsonaro de ter desmontado as políticas ambientais que levaram às reduções de emissões do país, enquanto criminaliza ambientalista. Também aponta o aumento nas taxas de desmatamento, nas invasões de terras o assassinato de três lideranças indígenas apenas nesta ... -
Quase 2 mil espécies são incluídas na lista vermelha de espécies ameaçadas
Sabrina Rodrigues quarta-feira, 11 dezembro 2019 18:28O tubarão-enfermeiro de cauda curta (Pseudoginglymostoma brevicaudatum) diminuiu cerca de 80% em 30 anos. Foto: UICN/Divulgação.A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) acaba de atualizar a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas.
A informação foi divulgada durante a Conferência do Clima da ONU (COP
25), realizada em Madri, na Espanha. A organização informa que 1.840
novas espécies foram incluídas no catálogo e que agora, existem 112.432
espécies na listagem.
As mudanças climáticas estão entre os fatores que contribuíram para o declínio de espécies. Uma das vítimas é um peixe de água doce da Austrália.
A UICN informa que 58% dessa espécie são diretamente afetadas pelas
mudanças do clima. Esses animais são altamente suscetíveis a secas
extremas causadas pela diminuição das chuvas e o aumento da temperatura.
Nativo do Oceano Índico Ocidental, a população do tubarão-enfermeiro de cauda curta (Pseudoginglymostoma brevicaudatum) diminuiu cerca de 80% em 30 anos. O Pseudoginglymostoma brevicaudatum passou da categoria Vulnerável (VU) na Lista da UICN para Criticamente em Perigo (CR).
Habitante das águas rasas, o tubarão- enfermeiro de cauda curta está
perdendo o seu habitat devido à degradação dos recifes de coral causada
em parte pelo aquecimento das águas do oceano.
A atenção também ficou voltada para o Papagaio Imperial (Amazona imperialis)
– endêmico de florestas da Dominica, localizada no arquipélago das
Pequenas Antilhas, no mar do Caribe. A frequência e a intensidade dos
furacões promoveram o aumento da mortalidade dessas aves e a destruição
dos seus habitats. Depois do furacão Maria, ocorrido em 2017, o mais
forte registrado na região, estima-se que agora existam menos de 50
desses indivíduos na natureza.
Novos desafios para a preservação da biodiversidade Para a diretora global do Grupo de
Conservação da Biodiversidade da UICN, Jane Smart, esta atualização
revela os impactos cada vez maiores das atividades humanas na vida
selvagem e levará questões importantes para os próximos encontros sobre
conservação e biodiversidade.
“O próximo ano será crítico para o
futuro do planeta, com o Congresso Mundial de Conservação da UICN, em
junho de 2020, um marco importante para definir a agenda de conservação
necessária para lidar com a emergência das espécies antes das decisões
tomadas pelos governos na Convenção da Biodiversidade, que acontecerá em
Kunming, China, em outubro de 2020”, declara Jane Smart.
Iniciativa considera a importância da cobertura vegetal e da
agricultura sustentável para a regulação da vazão da água, redução de
custos de tratamento e melhoria da qualidade hídrica
Baía da Guanabara. Fofo: Pixabay
Entre os meses de novembro e dezembro, produtores rurais serão
capacitados para adotarem práticas agropecuárias sustentáveis em
propriedades na Bacia Guapi-Macacu, no recôncavo da Baía de Guanabara. A
região concentra o principal manancial de abastecimento público da
porção leste da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que atende cerca
de 2 milhões de habitantes. O objetivo da proposta é garantir a
segurança hídrica a partir de Soluções baseadas na Natureza, levando em
conta a vocação agropecuária da bacia, a demanda crescente pela água e a
relevância da área para a conservação da biodiversidade e para a
prevenção de inundações.
Ao menos 13 instituições estão envolvidas no projeto, como o
Instituto Estadual do Ambiente (Inea), a Universidade Federal Rural do
Rio de Janeiro (UFRRJ) e a Embrapa. A iniciativa prevê a estruturação de
unidades executoras locais para a realização de atividades de
mobilização, assistência técnica e capacitação de proprietários rurais
para adoção de cadeias produtivas agropecuárias sustentáveis, como
sistemas agroflorestais, silvipastoris e sistemas em transição
agroecológica, de produção orgânica e de base agroecológica. A proposta
faz parte do laboratório de inovação Oásis Lab Baía de Guanabara,
iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, em
parceria com o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e a Federação das
Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).
“A cobertura florestal é extremamente importante para a regularização
da água, principalmente nesta bacia, que tem sido muito impactada por
eventos extremos, como a estiagem. A floresta é importante porque ela
contribui para aumentar a infiltração de água no solo e, com isso,
garantir que tenha maior vazão nesses períodos. Ela é fundamental para
assegurar a provisão de água e amenizar os impactos das épocas com
precipitação reduzida, além de diminuir processos de erosão e
assoreamento dos rios, garantindo melhor qualidade da água”, destaca
Marie Ikemoto, gerente de Gestão de Território e Informações
Geoespaciais do Inea.
Associada à falta de cobertura vegetal, há baixa disseminação de boas
práticas e sistemas produtivos sustentáveis na região, resultando em
baixa produtividade e renda nas propriedades rurais.
Laboratório de inovação
A proposta faz parte de um conjunto de projetos desenvolvidos ao
longo deste ano no laboratório de inovação Oásis Lab, que reúne cerca de
100 participantes de 50 instituições, empresas, indústrias, ONGs e
órgãos públicos, com o objetivo de fortalecer a segurança hídrica e a
resiliência costeiro-marinha na região hidrográfica da Baía de
Guanabara. Os participantes foram mapeados, engajados, capacitados e
cocriaram soluções e agendas integradas com o objetivo de viabilizarem
projetos inovadores desenvolvidos em conjunto.
“Mapeamos atores, iniciativas e instituições relevantes que atuam no
território para identificarmos o que vem gerando resultados positivos
para o meio ambiente e como potencializar isso por meio de uma aliança
estratégica para a conservação e recuperação da região e de sua
biodiversidade. Sabemos que muitas pessoas e empresas dependem
diretamente da Baía de Guanabara para a provisão de água, regulação
climática, cadeia da pesca, produção agrícola e turismo. Diante disso,
reunimos atores públicos e privados com experiência e conhecimento em um
laboratório de inovação para criar novas ferramentas para restaurá-la e
torná-la uma região que aproveita o seu potencial econômico, social e
de bem-estar”, afirma Thiago Valente, analista de Soluções baseadas na
Natureza da Fundação Grupo Boticário.
Mais da metade dos pontos críticos do clima identificados há uma
década estão agora “ativos”, alertaram um grupo de cientistas de ponta .
Isso ameaça a perda da floresta amazônica e das grandes camadas de
gelo da Antártica e da Groenlândia, que atualmente estão passando por
mudanças mensuráveis e sem precedentes muito antes do esperado.
Essa “cascata” de mudanças provocadas pelo aquecimento global pode ameaçar a existência de civilizações humanas.
Há evidências crescentes de que esses eventos são mais prováveis ??e
mais interconectados do que se pensava anteriormente, levando a um
possível efeito dominó.
Em um artigo da revista Nature, os cientistas pedem ações urgentes
para reduzir as emissões de gases de efeito estufa para evitar os
principais pontos de inflexão, alertando para o pior cenário possível de
um planeta menos habitável de uma “estufa”.
“Uma década atrás, identificamos um conjunto de possíveis pontos de
inflexão no sistema Terra, agora vemos evidências de que mais da metade
deles foram ativados”, disse o principal autor, professor Tim Lenton ,
diretor do Instituto de Sistemas Globais da Universidade de Exeter.
“A crescente ameaça de mudanças rápidas e irreversíveis significa que
não é mais responsável esperar e ver. A situação é urgente e precisamos
de uma resposta de emergência. ”
O co-autor Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam de Pesquisa
de Impacto Climático, disse:
“Não são apenas as pressões humanas na
Terra que continuam subindo a níveis sem precedentes.
“É também que, à medida que a ciência avança, devemos admitir que
subestimamos os riscos de provocar mudanças irreversíveis, onde o
planeta auto-amplifica o aquecimento global.
“É isso que agora começamos a ver, já a 1 ° C do aquecimento global.
“Cientificamente, isso fornece fortes evidências para declarar um
estado de emergência planetária, para desencadear ações mundiais que
aceleram o caminho em direção a um mundo que pode continuar evoluindo em
um planeta estável”.
No comentário, os autores propõem uma maneira formal de calcular uma
emergência planetária como risco multiplicado pela urgência.
Os riscos do ponto de inflexão agora são muito mais altos do que as
estimativas anteriores, enquanto a urgência está relacionada à rapidez
com que é preciso agir para reduzir o risco.
Sair da economia de combustível fóssil é improvável antes de 2050,
mas com a temperatura já a 1,1 ° C acima da temperatura pré-industrial, é
provável que a Terra cruze a barreira de proteção de 1,5 ° C até 2040.
Os autores concluem que apenas isso define uma emergência.
Nove pontos de inflexão ativos:
Gelo marinho do Ártico
Manta de gelo da Gronelândia
Florestas boreais
Permafrost
Circulação Meridional do Atlântico
Floresta amazônica
Corais de água quente
Manta de gelo da Antártica Ocidental
Partes da Antártica Oriental
O colapso das principais camadas de gelo na Groenlândia, Antártica
Ocidental e parte da Antártica Oriental comprometeria o mundo a cerca de
10 metros de elevação irreversível do nível do mar.
A redução de emissões pode retardar esse processo, permitindo mais tempo para as populações baixas se moverem.
As florestas tropicais, o permafrost e as florestas boreais são
exemplos de pontos de inflexão da biosfera que, se cruzados, resultam na
liberação de gases de efeito estufa adicionais, amplificando o
aquecimento.
Apesar da maioria dos países ter assinado o Acordo de Paris,
comprometendo-se a manter o aquecimento global bem abaixo de 2 ° C, as
atuais promessas de emissões nacionais – mesmo que sejam cumpridas –
levariam a 3 ° C de aquecimento.
Embora os pontos de inflexão futuros e a interação entre eles sejam
difíceis de prever, os cientistas argumentam: “Se podem ocorrer cascatas
prejudiciais de inflexão e uma inflexão global não pode ser descartada,
essa é uma ameaça existencial para a civilização.
“Nenhuma análise econômica de custo-benefício vai nos ajudar. Precisamos mudar nossa abordagem para o problema climático. ”
O professor Lenton acrescentou: “Talvez já tenhamos ultrapassado o
limiar de uma cascata de pontos de inflexão inter-relacionados.
“No entanto, a taxa em que progridem e, portanto, o risco que representam, pode ser reduzida cortando nossas emissões.”
Embora as temperaturas globais tenham flutuado ao longo de milhões de
anos, os autores dizem que os humanos agora estão “forçando o sistema”,
com a concentração de dióxido de carbono na atmosfera e a temperatura
global aumentando a taxas que são uma ordem de magnitude superior ao do
final da última era glacial.
Encerrada na manhã de domingo (15 de dezembro), um dia e meio após o
prazo, a COP25, a conferência do clima do Chile, em Madri, falhou em seu
objetivo de trazer a urgência da crise climática para dentro da
implementação do Acordo de Paris.
A
COP latino-americana, que precisou ser transportada para a Europa após a
recusa do Brasil e a convulsão social no Chile, fez pouco mais do que
reafirmar o Acordo de Paris. A própria presidente da COP25, a ministra
de meio ambiente do Chile, Carolina Schmidt, reconheceu estar
insatisfeita com o resultado obtido, em seu discurso de encerramento da
conferência.
A
decisão sobre mercados de carbono, tema central da Conferência, foi
adiada para a COP26, em Glasgow, na Escócia, entre outros motivos pela
posição brasileira em defesa de regras fracas que poderiam gerar a
chamada dupla contagem de redução de emissões para cumprimento de metas
de dois países devido à redução realizada por uma empresa em um deles e
comercializada com o segundo.
A
COP se realizou sob o peso dos movimentos de jovens e cidadãos que
explodiram em 2019, exigindo ação dos governos e elevaram a emergência
climática — a expressão do ano em língua inglesa. Também teve alertas
redobrados da comunidade científica, com dois novos relatórios do IPCC
(Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) e um do Pnuma
(Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), que avisou aos
negociadores que as emissões precisam cair 7,6% ao ano até 2030 se
quisermos nos manter na meta de 1,5oC.
Dentro
das salas de reunião na Feira de Madrid, local que abrigou a COP, a
desconexão entre a negociação, o clamor das ruas e as evidências
científicas era imensa. Uma condução fraca do processo pela presidência
chilena produziu um conjunto de documentos, o Chile Madrid Time for
Action, que faz um apelo vago aos países para “refletir” em 2020 sobre
como aumentar a ambição ”o máximo que puderem’ em suas NDCs
(Contribuições Nacionalmente Determinadas) e em financiamento climático,
o que é fundamental para países em desenvolvimento, em especial, os
mais pobres e mais vulneráveis.
O
espírito construtivo visto em 2015 na COP21, que produziu o Acordo de
Paris, mostrou-se enfraquecido. Antigos vilões climáticos, como Estados
Unidos e Austrália, voltaram a atrapalhar as negociações. Os EUA
entregando a carta de saída de Paris e a Austrália, com um governo que
nega as mudanças do clima enquanto o país literalmente pega fogo,
bloqueando decisões importantes. Juntou-se a eles um novo vilão: o
Brasil de Jair Bolsonaro, chefiado por um ministro do Meio Ambiente que
constrangeu a diplomacia brasileira na Espanha, dizendo que cobraria
recursos pelo desempenho ambiental do Brasil, apesar da explosão do
desmatamento e da violência contra povos indígenas.
“Na
COP25, o processo foi colocado acima das pessoas e do planeta. Com os
efeitos da crise climática piorando em todo o mundo, alguns governos em
Madri chegaram a apoiar a retirada da expressão “emergência climática”
das decisões da COP”, afirmou Carlos Rittl, secretário executivo do
Observatório do Clima. Em contexto completamente diferente do espírito
cooperativo que nos deu o Acordo de Paris, em Madri os suspeitos de
costume se juntaram a novos bloqueadores, como o Brasil. “A política
ecocida do governo do presidente Jair Bolsonaro manchou o trabalho da
delegação brasileira na COP25 e transformou um ex-campeão do meio
ambiente em um pária climático, cujo envolvimento na luta contra a
catástrofe climática corre o risco de se limitar a uma assinatura em um
acordo global”, concluiu Rittl.
Décadas após o abandono das terras agrícolas, a diversidade de
plantas e a produtividade lutam para se recuperar. Isso foi demonstrado
por uma nova pesquisa, publicada na revista Nature Ecology &
Evolution .
Pesquisadores do Centro Alemão de Pesquisa Integrativa em Biodiversidade (iDiv),
do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental (UFZ) e da Universidade de
Minnesota examinaram a diversidade e a produtividade das plantas em
campos que foram arados e abandonados para uso agrícola. Embora a
diversidade de plantas das pastagens locais tenha aumentado ao longo do
tempo, a produtividade das plantas não se recuperou significativamente.
A equipe internacional de pesquisadores examinou 37 anos de dados
vinculados à diversidade de plantas (riqueza de espécies, ou seja,
número de espécies) e à produtividade das plantas (ou seja, biomassa ou
quantidade de plantas) relacionadas a 21 pradarias e savanas em
Minnesota. A maioria desses campos havia sido arada e abandonada para
uso agrícola entre um e 91 anos antes. Os pesquisadores compararam as
parcelas com as terras próximas que não foram significativamente
afetadas pela atividade humana.
Eles descobriram que um ano após o abandono, os campos tinham, em
média, 38% da diversidade de plantas e 34% da produtividade das plantas
para a terra que nunca foi arada. 91 anos após o abandono, os campos
possuíam 73% da diversidade de plantas e 53% da produtividade das
plantas. Isso mostra que a diversidade de plantas de pastagem local
aumentou significativamente ao longo do tempo, mas se recuperou
incompletamente. A produtividade da planta não se recuperou
significativamente.
Os pesquisadores sugerem que a recuperação lenta e incompleta de
espécies em terras agrícolas abandonadas em Minnesota provavelmente está
ocorrendo em ecossistemas ao redor do mundo, onde a terra foi limpa
para agricultura, exploração madeireira ou outras atividades humanas.
“A quantidade de terra usada para fins agrícolas tem diminuído
lentamente, deixando cerca de 18 milhões de quilômetros quadrados de
campos antigos e recuperando florestas em todo o planeta”, disse o
co-autor Dr. Adam Clark, atualmente pesquisador de pós-doutorado no
Helmholtz Center para Pesquisa Ambiental (UFZ) e o Centro Alemão para
Pesquisa Integrativa em Biodiversidade (iDiv). “Nesses espaços, esforços
de restauração ativos muitas vezes podem ser necessários para restaurar
a biodiversidade e impedir a extinção de espécies.”
As táticas de restauração podem incluir o uso de queimaduras
prescritas, a dispersão de sementes, o uso do feno para remover os
nutrientes adicionados pela fertilização e a reintrodução de outros na
cadeia alimentar (por exemplo, herbívoros, predadores) empurrados para
fora da área.
“Quando coletados em escala global, registros fósseis indicam que
espécies de plantas estão extintas a taxas centenas de vezes mais
rápidas que a taxa de extinção natural”, disse o primeiro autor,
professor Forest Isbell, professor assistente da Faculdade de Ciências
Biológicas (CBS). “Nesse nível localizado, estamos vendo como a
atividade humana pode impactar a perda de espécies.”
Referência:
Forest Isbell, David Tilman, Peter Reich, and Adam T. Clark. “Deficits of biodiversity and productivity linger a century after agricultural abandonment“. Nature Ecology and Evolution 3:1533–1538, 2019. DOI: 10.1038/s41559-019-1012-1
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
Informe do German Centre for Integrative Biodiversity Research (iDiv), in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/12/2019
Segundo dados do Inpe, devastação do bioma bate recorde
para o mês. Em 2019, sistema de alerta indica aumento de quase 84% de
área desmatada em relação ao ano anterior.
O desmatamento na Amazônia voltou a bater recorde em novembro. Dados
divulgados nesta sexta-feira (13/12) pelo Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (Inpe) mostraram que a devastação do bioma cresceu
104% em relação ao mesmo mês de 2018.
Segundo o Sistema de
Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real (Deter), em
novembro 563,03 quilômetros quadrados de floresta foram devastados. Esse
foi o maior crescimento nas taxas de desmatamento para o mês desde o
início da série histórica em 2015.
O Deter indicou também um
aumento de 83,9% na devastação da floresta entre janeiro e novembro
deste ano em comparação com o mesmo período de 2018, passando de 4.878,7
quilômetros quadrados registrados no ano passado para 8.974,31
quilômetros quadrados.
A tendência de alta no desmatamento
apontada pelo Deter, que faz levantamento rápido de alertas de
evidências de alteração da cobertura florestal na Amazônia, foi
confirmada pela medição oficial, o Prodes.
O sistema de monitoramento mostrou que, entre agosto de 2018 e julho de 2019, o desmatamento da Floresta Amazônica cresceu 29,5%
em comparação com os 12 meses anteriores. Ao todo, a floresta perdeu
uma área de 9.762 km² (equivalente a sete cidades do Rio de Janeiro).
Foi a maior taxa de desmatamento registrada desde 2008.
Após a
repercussão internacional do aumento do desmatamento verificada a partir
de julho, o presidente Jair Bolsonaro acusou, sem provas, o Inpe de
mentir sobre os dados e exonerou o então diretor do instituto, Ricardo
Galvão, que havia rebatido as críticas do presidente. Por sua oposição
ao governo e defesa da ciência, o pesquisador acabou eleito pela revista
especializada Natureum dos dez cientistas que se destacaram em 2019.
O
Brasil abriga 60% da Floresta Amazônica, que é um regulador chave para
os sistemas vivos do planeta e também para o índice de chuvas no país.
Suas árvores absorvem cerca de 2 bilhões de toneladas de dióxido de
carbono por ano e liberam 20% do oxigênio do planeta.
Depois de
ter sido considerado uma história de sucesso ambiental, o Brasil vem
perdendo esse espaço, principalmente, desde a eleição de Bolsonaro, que
já declarou várias vezes a intenção de explorar a floresta e negou a
existência das mudanças climáticas. Devido ao discurso do presidente e à
agenda ambiental do governo, especialistas temem que o desmatamento
atinja níveis alarmantes nos próximos anos.