Racismo ambiental. A emergência climática pode ser enfrentada por
todos, ricos e pobres. Ou todos enfrentaremos um desastre em escala
bíblica. Entrevista especial com Henrique Cortez
Por Patricia Fachin,
IHU
O fracasso da COP25 realizada em
Madri no mês de dezembro não é uma novidade, apesar do crescimento de
manifestações globais e da Greve Global pelo Clima, realizada em vários países em setembro deste ano. “Com exceção do Acordo de Paris, as
COPs são
marcadas pelos fracassos. Ao longo do tempo, a sociedade civil vem
aumentando sua compreensão e engajamento pelas mudanças necessárias
diante da
emergência climática, mas os países e seus negociadores caminham na direção contrária”, diz o jornalista Henrique Cortez à
IHU On-Line.
Na avaliação dele, a falta de avanço nas
Conferências Climáticas indica que “
descarbonizar a economia é
um desafio que as lideranças políticas e econômicas dos países não
querem enfrentar, por diversas razões”. Entre elas, porque o
comprometimento com a
redução das emissões de gás carbônico “abalaria
o atual modelo e sua estrutura de poder e, em segundo, porque é algo
inédito, que ninguém sabe como realmente seria”, afirma. Segundo ele,
o negacionismo climático que predomina em alguns setores da sociedade e
atores políticos “é um dos aspectos de um evidente movimento anticiência
e anti-humanista”, que implica em “retrocessos civilizatórios”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail,
Cortez também comenta a agenda ambiental do primeiro ano do governo
Bolsonaro e a proposta de elaborar uma Constituição da Terra, que tem sido discutida na
Itália. “A ideia de um
constitucionalismo universal é a mais correta, porque vivemos em uma
casa comum e compartilhamos o mesmo futuro. É uma proposta lúcida e avançada, mas ainda longe de uma compreensão global”, conclui.
Henrique Cortez (Foto: Arquivo pessoal)
Henrique Cortez é jornalista especializado em meio ambiente, consultor em comunicação ambiental e editor do sítio
EcoDebate, um dos parceiros estratégicos do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Que avaliação faz do ano de 2019 em termos ambientais?
Henrique Cortez – 2019 foi um ano dos mais trágicos em termos socioambientais nas últimas décadas.
IHU On-Line – Em 2019 assistimos ao desastre em Brumadinho,
houve recordes de queimadas na Amazônia e vazamento de óleo no litoral
brasileiro. Como o senhor interpreta esses desastres ambientais?
Henrique Cortez – As três tragédias a que se refere não estão diretamente associadas, mas têm em comum que nascem da
lógica do desenvolvimentismo predatório e
que deixarão sequelas por muito tempo. São três desastres amplamente
conhecidos, então, não é necessário descrevê-los. Prefiro discutir a
lógica do modelo de desenvolvimento que orienta e justifica terríveis
danos socioambientais.
O desenvolvimentismo a qualquer custo se esforça pelo maior lucro,
mesmo com o maior dano possível. É um modelo predatório que favorece a
poucos e prejudica a todos. É, na realidade, uma ganância estúpida,
porque vivemos em um planeta finito, com recursos igualmente finitos,
logo o desenvolvimento baseado na
expansão infinita da economia não funcionará por muito tempo. Pena que reconhecer o óbvio nem sempre seja simples.
IHU On-Line – A agenda ambiental do governo Bolsonaro foi
bastante criticada neste primeiro ano. Que balanço geral faz do modo
como o governo conduziu a pauta ambiental e quais foram os erros e
acertos na condução da política ambiental?
Henrique Cortez – Prefiro defini-la como agenda antiambiental do governo
Bolsonaro. Este foi um ano marcado por
retrocessos na legislação, na
conservação e na
agenda socioambiental.
Bolsonaro, desde sempre, expressou seu desprezo pelas questões
ambientais, não apenas pela sua notória ignorância no tema, mas porque
possui uma visão de mundo da primeira metade do século XX.
É estranho, mas a atual versão tosca e bruta do
desenvolvimentismo usa
argumentos semelhantes aos que os capitães da indústria, mineradores,
banqueiros e políticos populistas usavam na década de 30 do século
passado. E já sabemos o que veio em seguida.
Mas é hora de parar com a desculpa esfarrapada de que o
desenvolvimentismo a qualquer custo gera
impostos, emprego e renda. O desenvolvimento predatório privatiza o
lucro e socializa o prejuízo. Ou para quem precisa de desenho — poucos
ganham e muitos perdem.
IHU On-Line – No Brasil e em alguns outros países têm havido
um movimento político de contestação das mudanças climáticas e também de
outras pautas ambientais no sentido de negá-las. Como o senhor
compreende esse fenômeno e quais são os riscos ambientais, sociais e
políticos desse tipo de postura?
Henrique Cortez – O negacionismo climático é um dos aspectos de um evidente
movimento anticiência e
anti-humanista, empenhado em diversos retrocessos civilizatórios, em alguns temas até antes do pré-iluminismo.
Negacionismo climático, terraplanismo,
movimento antivacina,
criacionismo,
fundamentalismo religioso,
supremacismo,
messianismo político etc.,
que se acreditava superados, retornam com vigor e violência, em defesa
de uma visão de mundo binária, maniqueísta, que, acima de tudo, é
inimiga da diversidade biológica, etnocultural, ideológica, religiosa
etc. Retrocessos civilizatórios são assustadores. Não importa se os
retrocessos são justificados por razões políticas, ideológicas ou
religiosas, porque eles nos fazem menos humanos do que poderíamos ser.
IHU On-Line – Muitos ambientalistas avaliam que a COP25 foi
um fracasso. Compartilha desse diagnóstico? Se sim, a que atribui o
resultado, num ano em que se intensificaram as manifestações sobre as
mudanças climáticas?
Henrique Cortez – Com exceção do Acordo de Paris, as
COPs são marcadas pelos
fracassos.
Ao longo do tempo, a sociedade civil vem aumentando sua compreensão e
engajamento pelas mudanças necessárias diante da emergência climática,
mas os países e seus negociadores caminham na direção contrária.
Em geral, os países são a favor de tudo, desde que o tudo se refira aos outros.
Descarbonizar a economia significa uma imensa
modificação no modelo econômico,
ou seja, algo que nenhum líder político arriscará. Nada é mais
importante para um político do que a sua própria sobrevivência política.
IHU On-Line – Neste ano, assistimos a algumas manifestações
internacionais em prol do clima, denunciando os efeitos das mudanças
climáticas e cobrando ações políticas dos governos. Figuras como o Papa
Francisco e a ativista Greta têm sido tomados como referência na
mobilização pela questão climática. Ao mesmo tempo, a Organização
Mundial Meteorológica – OMM divulgou a informação de que os níveis de
dióxido de carbono, metano e óxido nitroso atingiram concentração
recorde. Que efeito esse tipo de mobilização e de informação tem gerado?
Qual é o impacto dessas figuras e dessas informações na luta pelo
clima?
Henrique Cortez – Como disse, uma parcela da
sociedade já compreendeu que caminhamos para o desastre e está se
mobilizando, na tentativa de evitar o pior. Ainda é uma pequena parcela,
mas luta para ser ouvida e ampliar a compreensão do que nos espera.
O Papa Francisco e Greta Thunberg são lideranças muito diferentes,
mas compartilham a visão de futuro e a crítica de que estamos no caminho
errado. Eles nos lembram de que a atitude
ecocida também é suicida. E, exatamente por isto, enfrentam resistências e críticas desqualificadoras.
Espero que as manifestações aumentem e que mais e mais pessoas
compreendam a dimensão da crise que se aproxima, permitindo, inclusive,
que surjam novas lideranças políticas, realmente comprometidas com as
mudanças necessárias, por mais difíceis que sejam. Não é possível
discutir alternativas de futuro com
lideranças políticas e econômicas presas ao passado.
IHU On-Line – Desde o Protocolo de Quioto, há uma dificuldade
de os países chegarem a alternativas para enfrentar a crise climática.
Por quê? Quais são as dificuldades de tratar essa questão?
Henrique Cortez – Descarbonizar a economia é um
desafio que as lideranças políticas e econômicas dos países não querem
enfrentar, por diversas razões. Em primeiro, porque abalaria o atual
modelo e sua estrutura de poder e, em segundo, porque é algo inédito,
que ninguém sabe como realmente seria.
Governos de países como
EUA,
Rússia,
Austrália,
Arábia Saudita, e agora o
Brasil, são assumidamente
negacionistas climáticos porque querem preservar a
economia emissora de carbono. Descarbonizar a economia para estes governos é uma blasfêmia.
Apegar-se ao passado impede a compreensão do futuro e isto vale para
governos e pessoas. No momento, poucos estão realmente comprometidos com
um futuro minimamente aceitável. E não vejo que isto vá mudar na
próxima década.
IHU On-Line – Qual a sua avaliação de movimentos como o
Fridays for Future? Por que a Europa e os EUA aderiram às greves pelo
clima com muito mais força que os países do Sul?
Henrique Cortez – Movimentos como o Fridays for
Future são exemplos de uma sociedade civil cada vez mais consciente dos
desafios e das necessidades de mudança, não apenas na
questão climática, mas também por uma sociedade mais justa e igualitária. Os temas de fundo são variados, mas críticos ao modelo atual.
Não sei por que isto ainda é mais forte na
Europa e nos
EUA do que nos países do
hemisfério Sul,
mas acredito que seja pela grande disparidade nos problemas do
cotidiano. Ainda estamos discutindo educação, saúde, saneamento,
habitação, desigualdade, geração de emprego e renda, enquanto que vários
desses temas já foram superados nos
EUA e
Europa.
Além da nossa histórica alienação, também estamos tentando melhorar a
nossa vida hoje, sem conseguir como refletir no futuro. A sobrevivência
do indivíduo ainda pesa mais do que a sobrevivência do coletivo.
IHU On-Line – A partir do resultado da COP25, quais são as
expectativas em torno do anúncio das metas climáticas a serem anunciadas
pelos países signatários do Acordo de Paris em 2020, na COP26 em
Glasgow?
Henrique Cortez – Sinceramente, expectativa alguma.
Ao contrário, com a crescente ascensão global do populismo, acho que os
eventuais avanços serão milimétricos.
IHU On-Line – No atual cenário de crise migratória, crise
econômica e tensões internas em vários países do mundo, qual a
perspectiva de a pauta ambiental ganhar destaque no próximo ano?
Henrique Cortez – A sociedade aos poucos vai percebendo que a
agenda socioambiental não
é acessória e, por isto, deve estar no centro das discussões nacionais e
internacionais. A distância entre a vontade da sociedade e as decisões
de seus governos deve aumentar. Não sei se este distanciamento cada vez
maior caminhará na direção de um rompimento, mas, cedo ou tarde, a
sociedade se fará ouvir.
Não apenas no próximo ano, mas também na próxima década, não vejo
mudanças significativas. As mudanças virão quando deixarem de ser
consenso científico para tornarem-se consenso na sociedade, pouco
importando se do hemisfério
Sul ou
Norte.
IHU On-Line – Em que medida a concepção de uma outra
economia, como a que tenta inspirar o Papa Francisco, pode contribuir
tanto para repensar a economia quanto a crise climática e social?
Henrique Cortez – Acho a reflexão proposta pelo
Papa Francisco por
uma ‘economia que dá vida e não mata’ importante e necessária, mas não
acho que esteja sendo acolhida. Mesmo dentro da igreja e na maioria dos
fiéis, as ideias do
Papa Francisco ainda são relativizadas, quando não ignoradas.
A Encíclica Laudato Si’, por exemplo, é primorosa na defesa do cuidado da
casa comum.
Deveria ser pauta de discussão, mas é amplamente ignorada. Mudar é algo
difícil para qualquer pessoa e, para sociedades e seus governos, é
imensamente mais difícil. Mas acho importante que ele continue indicando
novos caminhos. É o certo a fazer e ele parece comprometido com isto.
“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”.
IHU On-Line – Quais são as perspectivas na pauta ambiental para o próximo ano do governo Bolsonaro?
Henrique Cortez – Trágicas, não apenas no próximo
ano, mas em todo o mandato. Transtorno delirante persistente, suposições
conspiracionistas, achismo militante,
desenvolvimentismo predatório e o
racismo ambiental agora são orientadores de políticas públicas.
Na melhor das hipóteses, a
agenda antissocioambiental deve evoluir ao longo do mandato. Na pior, deve se acelerar, na lógica de “
Après nous le déluge” (Depois de nós, o dilúvio).
IHU On-Line – Qual deve ser o peso da agenda ambiental nas eleições de 2020?
Henrique Cortez – A agenda ambiental sempre foi ignorada em
eleições municipais.
As pessoas, em geral, pensam nos prefeitos como ‘síndicos’ municipais,
essencialmente responsáveis pela zeladoria das cidades. Além disso, com
tantos desafios na saúde, educação, habitação, transportes urbanos,
parece que a questão ambiental é irrelevante. Não é, ao contrário, a
ecologia urbana é central nesses temas, mas isto não é percebido pela
população e menos ainda pelos políticos. Sintetizando, creio que a
agenda ambiental não terá peso nas
eleições de 2020.
IHU On-Line – Na Itália, alguns têm proposto uma Constituição
da Terra como um instrumento para “salvar” o Planeta. Como vê essa
possibilidade? Um constitucionalismo universal seria uma via alternativa
para resolvermos os problemas de hoje?
Henrique Cortez – A ideia de um constitucionalismo universal é a mais correta, porque vivemos em uma
casa comum e compartilhamos o mesmo futuro. É uma proposta lúcida e avançada, mas ainda longe de uma compreensão global.
A crescente postura
soberanista e antiglobalista, compartilhada pelo governo
Bolsonaro, caminha na direção contrária e ainda é a visão dominante. Uma visão equivocada, porque as
crises socioambientais não reconhecem fronteiras ou bandeiras. É uma grave tolice egocêntrica, desconectada da realidade.
IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Henrique Cortez – Para muitos, um aquecimento de
2°C até o final do século está dentro dos limites do aceitável e, por
isto, quaisquer ações só se justificam para um aquecimento potencial
maior do que isto.
Mas isto supõe um evidente
racismo ambiental, que acredita que os maiores impactos serão nos países mais
pobres, concentrados no
hemisfério Sul.
De fato, os países pobres sofrerão mais e mais rápido, mas os países
ricos também serão afetados. Os ricos poderão morrer por último, mas
também morrerão.
Então, a
emergência climática pode ser enfrentada por todos, ricos e pobres. Ou todos enfrentaremos um
desastre em escala bíblica.
(EcoDebate, 23/12/2019) publicado pela
IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da
Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]