quarta-feira, 22 de março de 2023

Ilha de Boipeba, na Bahia, ameaçada por mega empreendimento de luxo: comunidades lutam e MPF pede anulação de licença. Assine a petição!

 https://conexaoplaneta.com.br/blog/ilha-de-boipeba-na-bahia-ameacada-por-mega-empreendimento-de-luxo-comunidades-lutam-e-mpf-pede-anulacao-de-licenca-assine-a-peticao/#fechar









Ilha de Boipeba, na Bahia, ameaçada por mega empreendimento de luxo: comunidades lutam e MPF pede anulação de licença. Assine a petição!

A luta das comunidades tradicionais e dos ambientalistas contra a construção de um megaempreendimento na Ilha de Boipeba, no sul do estado da Bahia, vem de 2012. Mas, neste mês de março, ganhou contornos ainda mais intensos.

Fundada em 1537 pelos jesuítas, Boipeba integra o arquipélago de Tinharé, no município de Cairu, e é reconhecida pela UNESCO como Reserva da Biosfera e Patrimônio da Humanidade. É um dos lugares mais bonitos e ricos em biodiversidade do planeta e, por isso, um paraíso muito cobiçado pela especulação imobiliária e por gente poderosa.

José Roberto Marinho, presidente da Fundação Roberto Marinho e vice-presidente do conselho de administração do Grupo Globo, e o economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central no governo de Fernando Henrique Cardoso (além de ex-conselheiro de investimentos nas Ilhas Cayman) estão entre os empresários que, se conseguirem levar seu projeto adiante, vão causar danos irreparáveis à ilha e aos povos tradicionais que lá vivem.

Eles são sócios de Antônio Carlos de Freitas Vale e da Sonoio Participações Ltda. (conto sobre estes mais adiante) na empresa Mangaba Cultivo de Coco, sediada na Fazenda Ponta dos Castelhanos (fotos acima e abaixo), no povoado de São Sebastião, em Boipeba. 

Piscinas naturais em Ponta dos Castelhanos / Foto: Boipebatur/divulgação

Querem construir um projeto ambicioso, que prevê um resort de luxo com duas pousadas de mais de 3,5 mil m² cada uma, 82 casas – além de loteamento com 69 lotes para residências fixas e de veraneio -, parque aquático, píer para 150 barcos e infraestrutura náutica, aeródromo e um campo de golfe de 3,7 milhões de m². Imaginou o impacto? 

Trata-se do bioma Mata Atlântica (já tão castigado!) e ainda numa Área de Proteção Ambiental (APA), ou seja, protegida para preservar a natureza e “garantir o modo de vida tradicional das comunidades seculares dessa ilha, responsáveis por haver tanta beleza e equilíbrio ecossistêmico na região”, explica a engenheira ambiental Aline Matulja.

Em 2019, no processo no processo 1.14.001.000322/2014-10 (recomendações 01 e o2/2019), o Ministério Público Federal solicitou a interrupção do processo de licenciamento do empreendimento pelo INEMA – Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia. 

Também recomendou à Superintendência do Patrimônio da União (SPU/BA) que concluísse a regularização fundiária das comunidades tradicionais e fiscalizasse possível desvirtuamento da ocupação do imóvel da União, inscrito sob regime precário de ocupação. 

Sim, o que os empresários da Mangaba cobiçam são terras da União! Isso se chama grilagem.

E, por isso, o MPF ainda destacou, no documento, que “não existe fundamento legal para o INEMA realizar o licenciamento ambiental de um empreendimento sem a concordância do proprietário do imóvel em que será instalado, especialmente em se tratando de imóvel da União, portanto insuscetível de usucapião ou desapropriação”.

Engajamento e petição online

Figuras públicas como a liderança indígena Txai Suruí (em artigo para o jornal Folha de São Paulo), o ator Bruno Gissoni (foto 3), a cantora Mariana Aydar, o músico Pedro Pondé (foto 4) e o influencer e cantor Spartakus (foto 2 e neste post) têm se manifestado contra a obra em suas redes sociais e/ou nos posts do movimento Salve Boipeba (siga no FacebookInstagram e Twitter), criado por ambientalistas e integrantes das comunidades da região. 

Uma das vozes mais ativas desse movimento é o advogado, músico e cronista baiano Jailton Andrade (na foto 6, acima) que, no Instagram, nos atualiza sobre os fatos, dia a dia, com vídeos muito bem embasados, cheios de ironia e bom humor. Vale acompanhar.

Além do engajamento nas redes sociais, o movimento lançou uma petição ou abaixo-assinado – Proteja a Ilha de Boipeba (BA) contra megaempreendimento que ameaça natureza e comunidade – direcionado ao Ministério Público Federal (MPF), à Superintendência do Patrimônio da União na Bahia (SPU/BA), ao INEMA, ao prefeito de Cairu, Hildécio Meirelles, ao governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, e ao secretário estadual do Meio Ambiente (Sema), Eduardo Sodré Martins.

Perto de registrar 85 mil assinaturas, a petição já rendeu dois bons frutos.

O primeiro foi o encaminhamento de ofícios pelo MPF ao governador, ao secretário estadual do meio ambiente e ao SPU/BA, em 14 de março para o cancelamento da licença concedida ao tal empreendimento.

E, em 17 de março, Diego Casaes, diretor de campanhas da Avaaz, plataforma mundial de petições onde está hospedada a petição de Boipeba, entregou as assinaturas recolhidas, até a data, para o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho (foto abaixo).

Diego Casaes, da Avaaz (dir) entrega petição – que agora está com 85 mil assinaturas – para o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho / Foto: reprodução Instagram

Pedido de cancelamento da licença 

Assim que tomaram conhecimento da portaria do INEMA, os procuradores Ramiro Rockenbache Paulo Marques assinaram pedido de revogação da portaria do Inema e o encaminharam para o governador e o secretário do meio ambiente, indicando que a obra está em uma área pública federal reservada a comunidades tradicionais protegidas constitucionalmente como Cova da Onça, Monte Alegre, Moreré (foto abaixo), Boipeba, Garapuá e Batateira.

O MPF também enviou requerimento para a SPU-BA – que fundamentou a decisão do INEMA! , solicitando que qualquer inscrição de ocupação ou ato similar, que favoreça “a empresa Mangaba Cultivo de Coco – ou quaisquer de seus sócios ou sucessores, pessoas físicas ou jurídicas” – seja cancelado imediatamente.

E ainda pediu a avaliação da situação dos bens da União nas Ilhas de Tinharé e Boipeba, com o intuito de garantir seu uso sustentável em favor das comunidades tradicionais.

Para o MPF, a concessão da licença representa, ainda, ilegalidade de caráter fundiário porque as terras da Ilha de Boipeba são públicas, e, de acordo com a Lei Federal 9.386/98, devem ser prioritariamente e apenas destinadas ao uso sustentável pelos povos que nelas vivem.

Piscinas naturais na Praia de Morere / Foto: Boipebatur/divulgação

Os desembargadores ressaltam que o objetivo principal do MPF é assegurar os direitos dos povos e comunidades tradicionais. E destacam que a atuação do INEMA representa um obstáculo ao modo de ser, viver e existir dessas comunidades na Bahia.

“O órgão ambiental tem, em seus quadros, dezenas de servidores e servidoras dedicados e comprometidos com a temática socioambiental. Há, no entanto, grave postura no poder decisório”.

Para o MPF, o projeto Ponta de Castelhanos também viola diretrizes e recomendações do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental Tinharé-Boipeba

“Além de atingir diretamente ecossistemas costeiros de extrema vulnerabilidade, como manguezais e faixas de praia [restingas], prevê consumo de água desproporcional na ilha, remoção de vegetação de Mata Atlântica, pavimentação do solo, cercamento de terras e caminhos tradicionais, destruição de roças e a desconfiguração do modo de vida tradicional de centenas de famílias de pescadores, catadores e catadoras de mangaba e marisqueiras das comunidades [citadas acima]”.

Caneta do desmatamento

Para compreender melhor porque o INEMA tem atuado contra sua missão de defender o meio ambiente, ignorando as leis, é importante conhecer a trajetória de sua diretora-geral, Márcia Cristina Telles de Araújo Lima

Ela já comandou o órgão em 2012 e foi secretária do meio ambiente no governo de Rui Costa. Em 2021, chegou a acumular as funções de diretora do INEMA e secretária estadual do meio ambiente.

Para Jailton Andrade, um dos integrantes do movimento Salve Boipeba, com o posicionamento do MPF, sua permanência no INEMA torna-se cada vez mais insustentável. 

No vídeo, que ele publicou no Instagram, em 16 de março, ele conta detalhes dos feitos da moça, destacando o impacto ambiental – em números! –, que ela tem causado em mais de dez anos na administração pública, nos últimos três governos, com “sua caneta do desmatamento”. 

“Na gestão de Marcia Telles, a Bahia liderava ou ficava em segundo lugar entre os estados que mais desmatavam a Mata Atlântica. Também graças à ‘rainha da motosserra’, a Bahia ficou entre os cinco estados que mais desmataram o Cerrado”. Mas tem mais!

“Entre 2010 e 2020, a caneta de Marcia Telles desmatou 800 mil hectares de florestas, o que equivale, em campos de futebol, a somente 660 mil estádios Fonte Nova. Em dez anos, o INEMA autorizou o desmatamento de uma área equivalente a 90 ilhas de Boipeba! E essa destruição toda não sou eu que estou dizendo, não!”, destaca o advogado, que ainda acrescenta:

“Isso está numa carta assinada por 93 organizações ambientais da Bahia, enviada ao governador Rui Costa em maio de 2021, protestando contra a indicação de Marcia Telles para a secretaria do meio ambiente. E não foi a primeira carta: em outra, assinada pelos servidores do INEMA, em 2015, ela é denunciada por usurpação do poder, confisco do Fundo do Meio Ambiente e do Fundo de Recursos Hídricos, além de enfraquecer o Conselho Estadual do Meio Ambiente”.

Mas a jornada antiambiental da diretora do INEMA não termina aí: “Isso sem falar nas imensas quantidades de autorizações dadas para o uso gratuito de água pelo agronegócio do oeste baiano. A questão é tão grave que o Aquífero de Urucuia secou, de tantas tubulações que sugaram água para os latifúndios”, conta Andrade.

Quer mais? “Marcia Telles ainda liberou a licença de operação da ‘refinaria dos árabes’, com vários passivos ambientais e, por isso, o INEMA responde a uma ação civil pública”.

“Qual a parte que o INEMA não entendeu?”, pergunta MPF

O advogado baiano também destaca que, em 2022, o MPF se manifestou, em recomendação, explicando ao INEMA que a autorização para esse empreendimento era ilegal. E deu 15 dias para que o órgão se pronunciasse.

Oito meses depois, no início deste ano, o INEMA pediu mais 45 dias ao MPF para que todos os setores analisassem a recomendação de nove páginas.

Quarenta e cinco dias depois, em 7 de março, publicou a portaria 28.063 no Diário Oficial, autorizando a emissão de licença ambiental autorizando a Mangaba a suprimir vegetação nativa e fazer manejo da fauna em uma área de mais de 16,5 km2, que corresponde a 20% da ilha.

Enfim, Marcia Telles é diretora de um órgão ambiental, mas trabalha contra o meio ambiente; uma espécie de Ricardo Salles de saia, eu diria.

E Andrade arrematou: “Essa cúpula do INEMA, que o MPF chama de racista [em seu ofício], atua contra a população quilombola e comunidades pesqueiras”.

O MPF reconhece os esforços dos servidores e deixa claro que é a cúpula do órgão que está desrespeitando a lei federal, a lei estadual, “a Superintendência do Patrimônio da União, o Ministério Público Federal, a Defensoria Pública da União e toda a lei de regência dessa materia, além de toda proteção inclusive internacional dos povos tradicionais brasileiros” [Convenção da OIT], explica o advogado.

Por isso, o MPF questionou: “Qual foi a parte que o INEMA não entendeu? Ou não quer entender? O caso envolve área pública federal!”.

Sinais de ilegalidade

Agora, vamos aos sócios de José Roberto Marinho e Armínio Fraga. Quem destrinchou seus perfis, em vídeo muito bem explicado (no Instagram) foi, novamente, Jailton Andrade. Vale muito ouvi-lo neste caso também, mas já apresento um pouco deles, aqui, resumidamente.

Na trajetória de Antônio Carlos de Freitas Vale está registrado o envolvimento (junto com André Esteves, do mercado financeiro) “em esquema de sonegação fiscal descoberto pela PF na Operação Pouso Forçado”. Ele também “aparece no escândalo do Paradise Papers, que reuniu 13 milhões de documentos confidenciais, vazados em 2017, revelando esquema de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro em paraísos fiscais como as Ilhas Caymann”. Lembra do Armínio Fraga?

O quarto sócio da Mangaba é a empresa Sonoio Participações Ltda., “cuja dona é a Catenga Corporation, empresa offshore com sede em outro paraíso fiscal: as Ilhas Virgens Britânicas”, explica Andrade.

No final de seu relato, o advogado ainda levanta questões importantes, que listo aqui:

  • “De quem é a Fazenda Ponta de Castelhanos onde pretendem construir o empreendimento?
  • Se está estabelecida num terreno da União, como foi parar nas mãos dessa empresa?
  • Como uma empresa que tem como atividade o cultivo de coco tem autorização para construir um empreendimento desse porte?
  • E qual origem do dinheiro que vai ser usado para construir o empreendimento? De outro paraíso?”.

Em 20 de março, Jailton Andrade gravou seu último vídeo gravado sobre o caso. Nele, conta sobre o esforço da imprensa local para defender o empreendimento, baseada em mentiras. Além de muito bem embasado, o advogado baiano é bem humorado. Fica ainda mais fácil compreender os detalhes.

Aprovação de PEC e PL pode agravar situação

Vale lembrar que, em fevereiro deste ano, a Câmara dos Deputados aprovou uma Proposta de Emenda à Constituição – a PEC 39/2011 (tem doze anos!!) -, que “transfere gratuitamente a estados e municípios os terrenos da costa marítima ocupados pelo serviço público desses governos e, mediante pagamento, aos ocupantes particulares”.

Isso significa que “a União ficará apenas com as áreas não ocupadas, aquelas abrangidas por unidades ambientais federais e as utilizadas pelo serviço público federal, inclusive para uso de concessionárias e permissionárias, como para instalações portuárias, conservação do patrimônio histórico e cultural, entre outras” (saiba mais aqui).

O texto seguiu para o Senado, onde aguarda votação.

“Mas a situação pode se agravar ainda mais se a mesma Câmara conseguir aprovar, em maio, o PL 4444/2021, que tem embutida, em seu artigo 16, uma emenda jabuti referente à privatização das praias, criando uma Zona Especial de Uso Turístico no litoral e em orlas de rios e lagoas“, destaca Txai Suruí em artigo para a Folha de SP (como comentei mais acima).

Se esse PL for aprovado, a especulação imobiliária terá, a seu dispor, um patrimônio ambiental imensurável, composto pelos ecossistemas das praias e das orlas brasileiras, o que somente contribuirá para mais destruição ambiental e insegurança climática.

ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, ainda não se pronunciou sobre a situação da Ilha de Boipeba, nem a respeito da PEC 39/2011 e do PL 4444/2021. Ela e o Ibama – que já está a par do caso -, precisam responder aos apelos da população quilombola, dos pescadores e dos ambientalistas.

Assine a petição

Assine e compartilhe em suas redes sociais, com a hashtag #salveboipeba. Também marque órgãos ambientais como o Ibama, o Ministério do Meio Ambiente, o MPF, o SPU/BA, o INEMA, a secretaria estadual de meio ambiente e as autoridades do município de Cairu e do governo do estado da Bahia.

Cada apoio é essencial para barrar mais esta sandice antiambiental, de políticos e de bilionários irresponsáveis!

Foto: Boipebatur/divulgação (Ponta dos Castelhanos)

Químico que emerge do solo pode ser causa invisível do mal de Parkinson

 21/03/2023

Químico que emerge do solo pode ser causa invisível do mal de Parkinson

Redação do Diário da Saúde
Tricloroetileno pode ser a causa invisível do mal de Parkinson
O produto, conhecido por contaminar águas subterrâneas, pode estar chegando às casas pelo solo.
[Imagem: Dorsey et al. - 10.3233/JPD-225047]

Tricloroetileno

Um produto químico comum e amplamente utilizado em produtos de consumo pode estar alimentando o aumento da doença de Parkinson, a doença cerebral que mais cresce no mundo.

Nos últimos 100 anos, o tricloroetileno (TCE) tem sido usado para descafeinar café, desengordurar metais, lavar roupas a seco e como solvente industrial, mas também já esteve envolvido em vários casos de contaminação em várias partes do mundo.

O Dr. Dorsey Raya e colegas de várias instituições de pesquisa se juntaram agora para reunir indícios de que o TCE está fortemente envolvido com o risco de Parkinson - já se sabe que o composto causa câncer, está ligado a abortos espontâneos e doenças cardíacas congênitas.

A conexão entre TCE e Parkinson foi sugerida pela primeira vez em estudos de caso há mais de 50 anos. Nos anos seguintes, pesquisas em camundongos e ratos mostraram que o TCE entra facilmente no cérebro e nos tecidos do corpo e, em altas doses, danifica as partes produtoras de energia das células, as mitocôndrias. Em estudos com animais, o TCE causa perda seletiva de células nervosas produtoras de dopamina, uma característica da doença de Parkinson em humanos.

A equipe detalhou o uso generalizado do produto químico, as evidências que o ligam ao Parkinson e traçaram o perfil de sete indivíduos, incluindo um ex-jogador de basquete da NBA, um capitão da Marinha e um falecido senador dos EUA, que desenvolveram a doença de Parkinson depois de trabalhar com o produto químico ou estar exposto a ele no meio ambiente.

Monitoramento, remediação e banimento

A principal conclusão do estudo é que indivíduos que trabalharam diretamente com o tricloroetileno têm um risco elevado de desenvolver Parkinson. No entanto, os autores alertam que "milhões mais encontram o produto químico sem saber através do ar externo, águas subterrâneas contaminadas e poluição do ar interno".

Além de seus riscos para a água, que envolve o maior número de contaminações documentadas, o TCE volátil pode evaporar facilmente e entrar em casas, escolas e locais de trabalho, muitas vezes sem ser detectado. Hoje, essa invasão de vapor provavelmente está expondo milhões de pessoas que vivem, estudam e trabalham perto de antigas instalações de lavagem a seco, áreas militares e industriais ao ar interno tóxico.

A intrusão de vapor foi relatada pela primeira vez na década de 1980, quando se descobriu que o radônio evaporava do solo e entrava nas casas, aumentando o risco de câncer de pulmão. Hoje, milhões de lares são testados para o radônio, mas quase não há monitoramento do cancerígeno TCE.

Os autores propõem uma série de ações para enfrentar a ameaça à saúde pública que o tricloroetileno representa. Eles observam que os locais contaminados podem ser remediados e a exposição ao ar interno pode ser mitigada por sistemas de remediação de vapor, semelhantes aos usados para o radônio.

Finalmente, eles pedem o banimento do uso do tricloroetileno.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Trichloroethylene: An Invisible Cause of Parkinson’s Disease?
Autores: Dorsey E. Raya, Maryama Zafar, Samantha E. Lettenberger, Meghan E. Pawlik, Dan Kinel, Myrthe Frissen, Ruth B. Schneider, Karla Kieburtz, Caroline M. Tanner, Briana R. De Miranda, Samuel M. Goldman, Bastiaan R. Bloem
Publicação: Journal of Parkinson's Disease
Vol.: 13, no. 2, pp. 203-218, 2023
DOI: 10.3233/JPD-225047

Morar na cidade ou no campo? Pesquisa revela diferenças psicológicas

 20/03/2023

Morar na cidade ou no campo? Pesquisa revela diferenças psicológicas

Redação do Diário da Saúde
Morar na cidade ou no campo? Pesquisa revela diferenças psicológicas
Contrariamente à imagem que se tem da vida no campo, as pessoas que vivem lá apresentam maior incidência de problemas psicológicos.
[Imagem: Josep Monter Martinez/Pixabay]

Vida bucólica ou vida monótona?

Morar no campo, nas áreas rurais, há muito é idealizado como um modo tranquilo para se viver sem estresse e criar uma família sem os riscos da cidade grande. Além disso, ar livre, natureza, menos poluição e mais espaço apresentam grandes vantagens para o bem-estar.

Por isso, Olivia Atherton e colegas da Universidade de Houston tiveram uma surpresa quando decidiram comparar os moradores em áreas rurais e urbanas sob vários aspectos em um estudo de psicologia.

A equipe examinou se existem diferenças rural-urbanas nos níveis e mudanças nos traços de personalidade conhecidos como Cinco Grandes (extroversão, amabilidade, abertura, conscienciosidade, neuroticismo) e bem-estar (bem-estar psicológico, satisfação com a vida) ao longo da vida adulta.

Os dados indicam que as pessoas que vivem em áreas rurais tendem a ser mais ansiosos, mais deprimidos e mais neuróticos, bem como menos abertos a novas ideias e pontos de vista.

O estudo também revelou que aqueles que vivem no campo e aqueles que vivem na cidade têm praticamente os mesmos marcadores quando se trata de satisfação com suas vidas e propósito ou significado na vida.

A pesquisa também identificou disparidades no acesso a serviços psicológicos como um potencial fator negativo para o bem-estar das populações rurais.

"Será fundamental melhorar o acesso a serviços psicológicos em áreas remotas e identificar como as características e valores das comunidades rurais podem ser aproveitados para promover a saúde psicológica positiva.

"Dadas as consequências de longo alcance das disparidades de saúde rural para indivíduos, famílias e comunidades, há uma necessidade premente de identificar os mecanismos psicológicos, sociais e estruturais responsáveis pelas disparidades e as formas de intervir nesses mecanismos para melhorar a saúde das pessoas das zonas rurais," disse Atherton.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Rural-urban differences in personality traits and well-being in adulthood
Autores: Olivia E. Atherton, Emily C. Willroth, Eileen K. Graham, Jing Luo, Daniel K. Mroczek, Marquita W. Lewis-Thames
Publicação: Journal of Personality
DOI: 10.1111/jopy.12818

terça-feira, 21 de março de 2023

Crise climática já prejudica ecossistemas no planeta todo

 


Crise climática já prejudica ecossistemas no planeta todo

Novo relatório científico reforça a necessidade de substituição dos combustíveis fósseis e de uma transição energética com justiça social

ALDEM BOURSCHEIT · 

20 de março de 2023



Fogo devorando o Cerrado, bioma que estoca grandes quantidades de Carbono. Foto: Arthur de Magalhães Goulart/Creative Commons

Clima

clima

desmatamento

ipcc

mudanças climáticas




Parte inferior do formulário

Cientistas internacionais divulgaram nesta segunda-feira (20)  um novo relatório destacando que ambientes naturais planetários estão na mira da crise climática. Temperaturas em alta e eventos extremos afetam a biodiversidade, a produção de alimentos e sobretudo populações menos protegidas. Há soluções.

A síntese da sexta bateria de avaliações climáticas do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) das Nações Unidas destaca que ecossistemas naturais em terra, rios e mares estão ameaçados pela crise que ações humanas impuseram ao clima global.


Conforme Moacyr Araújo, coordenador da Rede Clima e vice-reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), não será possível manter uma boa saúde do clima planetário sem atentar para a conservação e recuperação de ambientes costeiro marinhos. 

“O grande pulmão do planeta é o fitoplâncton, que captura imensas quantidades de Dióxido de Carbono (CO2) e devolve Oxigênio (O2) para todos respirarem. Não há equilíbrio climático sem os oceanos”, destaca o cientista. Acordos tentam limitar em 1,5ºC o aumento médio da temperatura mundial, até 2030.

Nos territórios mundiais, a elevação mediana dos termômetros já é de 1,1ºC em relação à era pré-industrial. Nos mares e oceanos, a média é de 0,9ºC. Quanto mais quentes, menos capacidade esses ambientes têm de absorver calor, mais tempestades, inundações e perdas de biodiversidade virão.

“A ampliação de temperatura acidifica os oceanos e causa impactos como o branqueamento dos corais. Prejuízos como esses afetam toda a cadeia alimentar em águas salgadas”, completa Araújo. Cerca de 600 milhões de pessoas no mundo tiram seu sustento da pesca, traz a ONG Oceana.

“Espera-se que a insegurança alimentar relacionada ao clima e a insegurança hídrica aumentem à medida que o aquecimento aumenta. Quando os riscos são combinados com outros eventos adversos, como pandemias ou conflitos, eles se tornam ainda mais difíceis de administrar”, descreve o IPCC.

Por isso, a situação em terra também é alarmante. Formações naturais cuja destruição libera gigantescos estoques de Carbono seguem na mira do desmate que, junto ao agronegócio e à geração de energia, somam mais de 90% da contribuição nacional à crise do clima.

“Cada aumento no aquecimento se traduz em perigos que se agravam rapidamente. Ondas de calor mais intensas, chuvas mais fortes e outros eventos climáticos extremos exacerbam os riscos para a saúde humana e os ecossistemas”, destaca um comunicado do IPCC.

O Observatório do Clima resumiu os principais pontos do relatório divulgado hoje pelo IPCC. Confira aqui.

Na contramão, neste mês a Amazônia e o Cerrado bateram novos recordes em alertas para desmatamento, mostra o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A vegetação natural eliminada joga menos umidade na atmosfera, reduzindo as chuvas importantes para o agronegócio.




Alertas de desmatamento na Amazônia chegou a 8.590 km² em 2022. Foto: Carl de Souza/AFP

Para Araújo, da Rede Clima, o país deve recuperar o tempo perdido nos últimos anos [governo Jair Bolsonaro] e concentrar esforços para cortar emissões desses três setores. “Já reduzimos o desmate no passado”, lembra. Ações interministeriais encolheram as perdas na Amazônia de 2004 a 2012.

A nova estratégia federal para combater o problema em todos os biomas reúne 19 ministérios, conta o Ministério do Meio Ambiente.

“Também é necessário ampliar incentivos à agricultura de baixo carbono nos financiamentos de safras e investir em fontes alternativas de energia. Mas, não dá pra destruir Caatinga para colocar painéis solares ou ameaçar rotas de aves migratórias [com geradores eólicos]”, destaca o especialista. 

Só nas regiões Nordeste e Norte, projetos eólicos no mar somam 133 Gigawatts – quase 10 vezes a capacidade da hidrelétrica de Itaipu, no Paraná. Relatório da ONG Global Energy Monitor aponta a América Latina como liderança global em energias com menos impactos socioambientais.

Mas o espaço de tais fontes ainda é sombreado por investimentos em fontes fósseis ou degradantes de energia, como as usinas hidrelétricas. Amazônia e Cerrado têm juntos grande potencial inexplorado por esse modelo de geração e podem ser alvos de projetos nos próximos anos. 

Conforme Ilan Zugman, diretor da América Latina da ONG 350.org, países como Brasil e Colômbia têm potencial para liderar um modelo de geração de energia renovável centrado nas necessidades das pessoas.

“Os governos parecem estar mais atentos às demandas das comunidades por uma transição energética justa, mas precisam mostrar ações concretas, como proibir o fracking [técnica para extrair gás de xisto de grandes profundidades] e os subsídios ao petróleo e ao gás”, diz em nota da 350.org. 

Ações como essas serão fundamentais para populações mais vulneráveis aos efeitos da crise climática. Tempestades, inundações e secas atingem especialmente comunidades pobres ou vivendo em áreas de risco, como margens de rios, morros e litoral.

“O que foi feito até agora [pelos países] não fez as emissões decaírem como deveriam”, ressalta Mercedes Bustamante, presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e uma dos 93 revisores do relatório hoje divulgado pelo IPCC.

Este verão foi marcado pela morte de, pelo menos, 241 pessoas devido às fortes chuvas e deslizamentos de terras no litoral norte do estado de São Paulo. Populações de baixa renda forçadas a viver em áreas de risco costumam ser as primeiras vítimas em episódios como esses.

Mares e oceanos aquecidos transferem mais calor à atmosfera, ampliando a força e quantidade desses eventos climáticos extremos.

Conforme Bustamante, soluções para as crises associadas do clima e socioambiental passam pela adoção de um desenvolvimento socioeconômico global “resiliente ao clima”, que reconheça a crise global e adote meios para reduzir e enfrentar seus impactos. 

“Há opções viáveis de adaptação e mitigação à crise do clima, como reforçar políticas públicas setoriais e assegurar direitos, por exemplo das populações indígenas [cujos territórios mantêm biodiversidade e estoques de carbono]”, destaca a professora da Universidade de Brasília (UnB).

A lista de recomendações inclui a geração de energias limpas e descentralizadas, reduzir o uso de combustíveis fósseis em todos os setores e investir em transportes públicos e não poluentes, proteger populações vulneráveis e ampliar o financiamento para economias realmente limpas.

Todavia, uma pedra no sapato são as fontes para financiar tais ações. “Os níveis de financiamento são baixos e ofuscados pelos investimentos em fósseis. É urgente uma ação internacional [para reverter isso]”, pontua Paulo Artaxo, coordenador do Programa Fapesp sobre Mudanças Climáticas Globais.

“Os benefícios à saúde humana decorrentes apenas da melhoria da qualidade do ar seriam aproximadamente iguais ou até maiores do que os custos de reduzir ou evitar emissões. Mas um desenvolvimento resistente ao clima torna-se cada vez mais difícil a cada aumento no aquecimento global”, destaca o IPCC.

Este ano, os países devem revisar seu cumprimento das metas do Acordo de Paris, fechado em 2015 para conter a poluição que amplia o efeito estufa e aquece o planeta. Desde 1988, o IPCC informa governos, academia, população, ongs e setor privado, para que possam agir e conter a alta da temperatura média global.

  • Tweet
  • Share
  • Share

 

4º Congresso Brasileiro de Vida Silvestre

 




Começa no próximo sábado, dia 25/03, o 4º Congresso Brasileiro de Vida Silvestre. O evento trará discussões sobre a vida silvestre de forma compacta, propositiva e democrática, num evento técnico-científico que reúne comunidade acadêmica, técnicos, integrantes de organizações da sociedade civil, representantes de organizações governamentais e demais pessoas que atuam ou têm interesse na temática da vida silvestre. 

Organizado pelo Instituto Jurumi e A vida no Cerrado, o evento online está com inscrições abertas até o dia 23/03, quinta-feira. As inscrições custam R$ 50,00 para estudantes, e R$ 80,00 para profissionais. Nesta edição, apoiadores de ((o))eco terão um desconto de 30% no valor da inscrição. Leitores também ganham um benefício: basta digitar o código OECONOCBVS na área de confirmação de pagamento da inscrição para garantir um desconto de 23%!

Leia a nossa matéria para saber mais sobre o evento: https://oeco.org.br/salada-verde/congresso-brasileiro-de-vida-silvestre-esta-com-inscricoes-abertas/