sexta-feira, 21 de março de 2025

Pesquisadores denunciam risco de contaminação por mercúrio de mananciais que abastecem o DF

 Brasil de Fato

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Pesquisadores denunciam risco de contaminação por mercúrio de mananciais que abastecem o DF

Estudo revela que houve um aumento de 250% de mercúrio no solo que cerca estação que abastece Planaltina e Sobradinho

19.maio.2024 às 14h13

 Brasília (DF)

 Júlio Camargo


ia.

 

Estudos em andamento, que estão sendo realizados por pesquisadores da Universidade de Brasília no campus de Planaltina, apontam a presença de alto nível de mercúrio no solo e na vegetação em toda a área de borda da Estação Ecológica de Águas Emendadas (Esec-AE) e até 2 quilômetros dentro da unidade de conservação.

Apesar de o nível de contaminação na área de tratamento de água estar ainda em níveis aceitáveis, grande parte do solo da região está severamente comprometido. O estudo revela que houve um aumento de 250% da presença de mercúrio no solo que cerca a Estação.

De acordo com a pesquisa, a causa do problema se deve à queima de combustível fóssil (gasolina e diesel) e intensa atividade de automóveis nas rodovias da região. 

mercúrio, além de ser altamente tóxico, cancerígeno e causador de danos neurológicos, apresenta duas características que agravam a situação. A primeira é o fator de bioacumulação, ou seja, uma vez ingerido, o elemento não sai do corpo humano, só acumula. A segunda é a biomagnificação, o que significa um aumento progressivo do nível de concentração em organismos vivos.

Por sua periculosidade que afeta água, ar, solo, plantas, animais e seres humanos, o elemento foi considerado pela Convenção de Minamata do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente como um "poluente global de controle primário". O elemento pode inclusive estar na forma de vapor, se disseminar pelo ar e afetar a respiração. O relatório da convenção recomenda fortemente a produção de inventários de emissões antrópicas e mobilização para os ecossistemas aquáticos e terrestres e o monitoramento das concentrações de mercúrio em regiões geograficamente representativas.

A área mais afetada pelo mercúrio é a BR-020, exatamente onde está localizada a Estação de Captação de Água da Caesb no córrego do Fumal, que leva água para a Estação de Tratamento de Água (ETA) de Pipiripau. Esse setor é responsável pelo abastecimento de toda a cidade de Planaltina do DF e parte de Sobradinho, fornecendo recurso hídrico para cerca de 200 mil pessoas.



"Precisamos urgentemente chamar a atenção dos dirigentes públicos em todos os níveis, das cidades, municípios, estados e do governo federal. O que está acontecendo no nosso país, e no caso específico da região de Águas Emendadas, é assustador. É urgente que o governador Ibaneis tome uma decisão imediata na proteção e recuperação dessa área. Uma parte já está perdida, talvez não se recupere mais. Mas nós precisamos fazer alguma coisa para salvar Águas Emendadas", alerta Rosângela Corrêa, pós-doutora em Ecologia Humana e diretora geral do Museu do Cerrado.

Corrêa alerta que a Estação Fumal fica perigosamente próxima à rodovia BR-020, área com alto índice de contaminação. "Ou seja, mesmo que o índice de mercúrio na Estação Fumal esteja dentro dos limites de referência (o que ainda precisa ser esclarecido), ainda assim pode ser potencialmente danoso à vida dos seres humanos e à biodiversidade", explica.

Ameaças

De acordo com o pesquisador Lucas Monteiro, doutorando em Geoestatística da UnB, a estação ecológica de Águas Emendadas, tornou-se um tipo de ilha que, apesar de muito bem preservada, é bastante vulnerável por sua proximidade com os riscos externos correntes nas rodovias locais.

"Não não adianta deixar tudo preservado dentro da estação se o entorno está gravemente comprometido por atividades antrópicas. Podemos comparar desde 1985 uma grande mudança no uso e ocupação em torno da Esec-AE. Houve ao redor um crescimento das áreas urbanas e expansão de setores que foram completamente convertidos para monocultura das lavouras de soja", observa.

O período histórico presente é marcado pelo alto índice de emissão de mercúrio, que pode se dar por fontes naturais como erupções vulcânicas, desgastes de rocha e, particularmente desde a Revolução Industrial, pelas emissões industriais de queima de carvão e mineração de ouro.

Na  escala local, Lucas ressalta que "por aqui, as principais fontes de emissão são os incêndios florestais, o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis como gasolina e diesel. Seja na forma líquida ou na forma de vapor, o mercúrio pode ser facilmente disseminado no ar, na água e no solo. Acaba sendo transferido para invertebrados, como insetos, formigas, aranhas e besouros que servem de alimento para animais como aves, anfíbios, répteis e pequenos mamíferos. Também se dissemina para plantas, peixes e seres humanos".



Devastação ambiental

O processo de devastação ambiental em voga na região é um fator preocupante nessa situação. Lucas afirma que isso "pode influenciar o ciclo biogeoquímico do mercúrio. Temos aqui uma grande perda de habitat, já perdemos cerca de 50% das áreas naturais do cerrado, isso são mais de 99 milhões de hectares. E outro ponto importante são as áreas queimadas. Somente nos anos de 2020 a 2023 foram mais de 2 milhões de hectares no bioma Cerrado".

A resolução 420/2009 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) define como limite de prevenção a quantidade de 0,5 miligramas de mercúrio por cada quilo de solo.

Apesar da concentração do elementar estar dentro da meta aceitável na área da Esec-AE, nas rodovias próximas encontra-se uma quantidade cerca 40 vezes superior ao limite de prevenção. "Comparando com estudos internacionais que incluem países como China, Nova Zelândia, Canadá, Paquistão, Grécia e Japão, o Brasil fica atrás somente do Paquistão. O Brasil fica numa situação de contaminação maior do que o permitido na legislação nacional e também na média global", declara Monteiro.

O coordenador da entidade Guardiões das Águas Emendadas (GAE) e morador do Núcleo Rural Bonsucesso, Marcelo Benini, acrescenta também que esses fatores de risco são ameaças crescentes devido aos "projetos do GDF como o asfaltamento da rodovia DF-131 e o alargamento de faixas da DF-128, que tendem a aumentar o fluxo de veículos e o nível de contaminação. São ameaças às áreas rurais e ao município de Planaltina, em Goiás. Cerca de 109 mil pessoas têm sua fonte de captação de água a apenas 50m da rodovia DF-128".



Ele também explica que já solicitou informações do GDF e questionou sobre qual a capacidade da rede de tratamento de água no DF em analisar o problema e tomar soluções de acordo com as indicações da pesquisa realizada pela UnB. Segundo Benini, "na resposta, a Caesb não deu nenhuma explicação, nem uma palavras sequer. Se limitou a anexar um relatório de uma empresa privada. Esse relatório apenas aponta que o índice de mercúrio está dentro do limite de 0,0002 mg/l estabelecido pela Resolução Conama 357 para águas de classe 2".

Classe 2 se refere a águas destinadas ao abastecimento doméstico após tratamento convencional, à proteção das comunidades aquáticas, à recreação de contato primário, irrigação de hortaliças e frutíferas e à criação natural e/ou intensiva de espécies destinadas à alimentação humana.

Benini critica o parâmetro utilizado. "Como assim a Caesb usa como parâmetro o índice de classe 2 para uma água que nasce dentro de uma Unidade de Conservação de proteção integral e é captada lá mesmo? A água de Águas Emendadas deveria ser uma água de 'classe especial', de maior nível de pureza. Classificar a água da Esec-AE como classe 2 é flexibilizar o nível de contaminação dessas águas e vai contra a resolução da Conama."

Estação Ecológica



A Estação está localizada no coração do Cerrado brasileiro, Mais precisamente a 50 quilômetros da capital federal e a 5 quilômetros de Planaltina. Sob a tutela do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), a área de 10.547 hectares se destaca como um oásis de preservação ambiental, pesquisa científica e educação conservacionista.

Criada em 1968, a Estação ostenta um título de relevância internacional. Em 1992, foi reconhecida pela Unesco como área nuclear da Reserva da Biosfera do Cerrado. Mais do que um mero rótulo, essa distinção reforça o valor inestimável do local para a biodiversidade e o equilíbrio ambiental do planeta.

Com visitação controlada, a Estação abre suas portas para visitantes que desejam mergulhar na riqueza natural do Cerrado, dispõe de trilhas ecológicas com guias para paisagens exuberantes de fauna e flora.

Possíveis soluções

Visando possíveis soluções para o problema, Marcelo Benini acredita que "é preciso interromper imediatamente os projetos de alargamento de faixas/duplicação da DF-128 e o viaduto que vai ligar a BR-020 à DF-128. Essas obras irão agravar ainda mais o risco de contaminação dos mananciais".

Lucas Monteiro aponta que outras medidas seriam a implementação de barreiras vegetais e gesso agrícola, que possui grande aderência ao mercúrio e que poderia contar o elemento, evitando a passagem para a água.

Questionado pelo Brasil de Fato sobre as evidências da pesquisa, o GDF informou que "a qualidade da água produzida a partir desse sistema é monitorada, rigorosamente, pela Caesb e atende a todos os padrões de potabilidade exigidos para o abastecimento da população. O Ibram tem conhecimento do estudo realizado pela UnB e informa que as pesquisas apresentam níveis que não são considerados alarmantes, contudo, demonstram uma contribuição importante de poluentes provenientes de emissões veiculares na ESEC-AE e uma capacidade das bordas da unidade de reter esse poluente de forma a reduzir consideravelmente sua concentração no interior".

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Edição: Márcia Silva

É um mito acreditar que indígena seja sinônimo automático de preservação total da natureza

 


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É um mito acreditar que indígena seja sinônimo automático de preservação total da natureza

18/03/2025

 


  

 

Indígenas preservam, mas há controvérsias.

Escrevo estas linhas no Dia Internacional de Combate à Islamofobia, 15 de março. Infelizmente, há pessoas preconceituosas que generalizam, como se todo islâmico fosse fundamentalista religioso, quando se sabe que a esmagadora maioria dos membros dessa religião está longe de sê-lo. Da mesma forma que médico não é sinônimo automático de ética, professor não é sinônimo automático de compromisso com a verdade e nem clérigo é sinônimo automático de vida pura ou santidade, indígena também não é sinônimo automático de preservação da natureza.

Nas grandes reservas indígenas com densidade populacional baixa, principalmente na Amazônia, segundo indicam muitos estudos, a preservação da natureza acontece de forma muito mais eficiente do que na maioria das áreas sob outras formas de manejo, principalmente as áreas da sociedade não indígena. Mas daí para o mito de que indígena é sinônimo automático de preservação, a inverdade chega a ser tão grande quanto o mito de que islâmico seja sinônimo de fundamentalista ou terrorista.

Conheço a Terra Indígena Laklaño-Xokleng desde criança. Depois, enquanto cursava o ensino superior na Universidade de Blumenau (Furb), fiz estágio de arqueologia de salvamento, orientado pelo precocemente falecido Dr. Alroino Baltazar Eble, da UFSC. Dormíamos na casa-sede, entre os rios Itajaí Norte e Plate, quando a área era conhecida como Reserva Indígena de Ibirama, já que o município de José Boiteux ainda não existia.

Muitos anos depois, já formado e mais amadurecido na visão de mundo, descendo de Rio do Sul, dei carona a um indígena, de Ibirama a Blumenau. Tivemos tempo para uma longa conversa. Depois de muitas perguntas que dirigi ao indígena, cujo nome infelizmente esqueci, cheguei à conclusão de que havia mais fauna cinegética preservada junto ao Centro de Blumenau do que na mencionada reserva.

Há uns 15 anos, correu a notícia de que um cacique dessa mesma Terra Indígena, em Santa Catarina, havia caçado uma anta fora da reserva. Não seria problema nenhum, se não se tratasse de uma das últimas antas existentes na região. Em 23 de junho de 2023, a imprensa nacional divulgou a denúncia de que alguns caciques do Xingu estariam coniventes com desmatamentos, fato que, espera-se, seja exceção.

Há cerca de 10 anos, um ex-aluno que estagiava em Mato Grosso viu passar, no rio Teles Pires, uma canoa de alumínio e motor de popa abarrotada de macacos mortos, conduzida por indígenas. Numa recente reunião em Brasília, lideranças indígenas lotaram o auditório do Ibama, quase todos usando cocares de penas amarelas, obtidas, conforme cálculos, de cerca de 200 ararajubas, uma ave ameaçada de extinção, da família dos papagaios e araras.

Há poucos anos, passando defronte à Reserva Biológica Estadual do Sassafrás, em Doutor Pedrinho, junto com três colegas da Acaprena, vimos, desolados, a antiga e boa casa do zelador da reserva, Sr. José, destruída e queimada pelos indígenas da Terra Indígena Laklaño-Xokleng, bem como outra edificação defronte à casa. Paramos e, dois de nós, adentramos a reserva a pé por cerca de um quilômetro, apesar dos protestos de um indígena morador fronteiriço que não queria permitir nossa entrada. Argumentamos que não se tratava de Terra Indígena e entramos.

Logo nas primeiras centenas de metros da trilha, vimos vários troncos de xaxins-monos recém-cortados, da espécie Dicksonia sellowiana, oficialmente considerada ameaçada de extinção, alguns com quase 40 centímetros de diâmetro. Logo adiante, no fundo de um pequeno vale à nossa esquerda, ouvimos golpes de instrumento manual que poderia ser uma foice ou facão, sinal de que os cortes também aconteciam no dia e no momento em que estávamos lá.

De volta ao carro e à estrada, 1,5 quilômetro adiante, ainda no alto da serra, seguindo em direção a Doutor Pedrinho, na região conhecida como Aldeia Bugio, área ocupada pelos indígenas, havia um mostruário para comercialização de rostos humanos e outras figuras esculpidas na mesma espécie de xaxim ameaçado de extinção que vimos cortado dentro da reserva biológica.

Numa reserva biológica, não se pode cortar nada, muito menos comercializar produtos dela extraídos. No caso de espécies ameaçadas, até mesmo no interior de propriedades privadas, o corte é proibido, salvo exceções, sob rigoroso controle das autoridades ambientais. Tripla contravenção, neste caso por nós testemunhada, ao que tudo indica, perpetrada por indígenas.

A mídia, de vez em quando, divulga casos de crimes cometidos em um consultório, mas isso não torna toda a classe médica suspeita. Por outro lado, ninguém, com o mínimo de bom senso, vai acreditar que todos os médicos sejam honestos e éticos. Ou que basta ser padre, pastor ou outro tipo de clérigo para ser considerado “santo” aqui na Terra. Na outra ponta, a divulgação de crimes cometidos por clérigos não permite que ninguém os generalize como ladrões, corruptos ou abusadores sexuais. Isso seria um mito. Da mesma forma, embora sem generalizar, é um mito acreditar que indígena seja sinônimo automático de preservação total da natureza.

Inúmeras tribos e aldeias já contatadas ao longo do tempo adquiriram hábitos e comportamentos dos ditos “civilizados”, como, por exemplo: uso de ferramentas como facões e utensílios agrícolas; caça facilitada por armas de fogo e por cães treinados para caça – novidades que antes não existiam para os povos originários; energia elétrica e uso de eletrodomésticos; abertura de estradas; uso de veículos, barcos a motor velozes e até aviões. Muitas tribos recebem turistas e visitantes, que provam da alimentação indígena, incluindo carne de caça, o que implica automaticamente em um significativo aumento da pressão de caça e assim por diante.

Impõe-se, então, uma imperiosa necessidade de regramentos diferentes daqueles que norteavam a outrora relativamente eficiente relação original dos povos originários com a natureza, ao mesmo tempo em que a sociedade não indígena precisa aprender muito com eles.

Isso é fundamental para que a atual e as futuras gerações, de todos os povos e etnias, possam continuar desfrutando de um meio ambiente minimamente saudável e equilibrado, com eficaz proteção da peça mais importante e central de todas as complexas relações do homem com a natureza: a proteção da biodiversidade.

 

Pressões humanas são fator que mais influencia a densidade de cervídeos na Mata Atlântica, diz estudo

 

Pressões humanas são fator que mais influencia a densidade de cervídeos na Mata Atlântica, diz estudo
19 de março de 2025

Estimativa mais robusta já realizada no bioma mostra que entre as principais influências antrópicas estão caça, predação por cachorros domésticos, doenças do gado e competição com javalis. Cientistas usaram método inovador, que inclui cães treinados e análise do DNA fecal

André Julião | Agência FAPESP – Um grupo de pesquisadores apoiado pela FAPESP estimou pela primeira vez em toda a Mata Atlântica a densidade populacional das cinco espécies de veado do bioma. Com isso, puderam mensurar os principais fatores que influenciam a quantidade de cervídeos por quilômetro quadrado (km2) em áreas florestais.

Os resultados apontam uma forte relação entre a baixa densidade de animais e pressões humanas, como caça, predação por cães domésticos, doenças transmitidas pelo gado e competição com javalis, uma espécie invasora que consome os mesmos recursos que os veados.

O estudo foi publicado no Journal of Applied Ecology.

“Os cervídeos que vivem em florestas são os mais difíceis de serem avistados e, por isso, de terem sua densidade populacional avaliada. Essa é uma métrica essencial para a conservação e que só agora conseguimos obter depois de mais de uma década de esforços”, conta Márcio Leite de Oliveira, professor da Universidade de Araraquara (Uniara) e primeiro autor do artigo.

Oliveira realizou parte do estudo durante seu pós-doutorado, realizado com bolsa da FAPESP no Núcleo de Pesquisa e Conservação de Cervídeos (Nupecce) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Jaboticabal.

As estimativas se baseiam em amostras coletadas em 31 pontos de 21 unidades de conservação representativas da Mata Atlântica, do Nordeste ao Sul do país. As fezes dos cervídeos foram localizadas por cães especialmente treinados para esse fim. Os pesquisadores, então, identificaram a espécie por meio da análise do DNA fecal.




O método, desenvolvido pelo grupo para a estimativa da densidade e usado anteriormente em outros estudos, inclui ainda estatísticas que levam em conta a taxa de defecação de cada espécie (leia mais em: revistapesquisa.fapesp.br/no-mato-com-cachorro/ e agencia.fapesp.br/37372/)

Por conta da robustez dos dados, eles foram incluídos como indicadores no Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Ungulados, política pública do Ministério do Meio Ambiente (MMA) para esse grupo de animais.

No estudo publicado agora, os pesquisadores registraram ainda dados ambientais, como tipo de vegetação, altitude e declividade. Por fim, foi feito um levantamento em cada local para identificar as ameaças causadas por humanos, às quais eram atribuídas um índice de 0, 1 ou 2, sendo zero ausência total e dois uma alta prevalência.

“Embora a relação direta entre a densidade populacional dos veados e as ameaças fosse esperada, nunca se havia demonstrado isso de forma tão robusta como fizemos agora. O trabalho, portanto, traz um forte conjunto de evidências para subsidiar o manejo das áreas protegidas e a conservação das espécies”, explica Oliveira.

Situação

A menor densidade encontrada foi de 0,14 indivíduo por km2 para o veado-mateiro (Mazama rufa) no Parque Nacional das Araucárias, em Santa Catarina. A maior foi na Reserva Biológica de Sooretama, no Espírito Santo, com 18,17 veados-roxos (Passalites nemorivagus) por km2.

O caso do veado-roxo, porém, foi uma exceção. Entre as áreas amostradas, as densidades médias ficaram entre 1,47 e 3,42 indivíduos por km2.

A influência antropogênica (resultante da ação humana) teve o maior peso na densidade de veados, superior a fatores naturais como altitude, declividade e latitude. Além da correlação com a fiscalização ambiental e índices de exploração vegetal dos locais analisados, foram ainda verificadas a presença de caçadores, cães domésticos (que podem predar os veados), gado (que transmite doenças) e javalis (que competem por recursos e também podem transmitir doenças).

No entanto, em um caso a presença humana foi favorável aos animais: a quantidade de guarda-parques. “A densidade de profissionais trabalhando na fiscalização das unidades de conservação influenciou a densidade de veados. Quanto mais guarda-parques, mais cervídeos podiam ser detectados numa área”, conta Oliveira.

Outro estudo do grupo já havia mostrado a importância de áreas protegidas para os veados. Na ocasião, os pesquisadores apontaram que proteger apenas mais 2% da área da Mata Atlântica traria ganho para a conservação de pelo menos três espécies de cervídeos (leia mais em: agencia.fapesp.br/40009/).

“O trabalho publicado agora traz um parâmetro da atual situação dos cervídeos da Mata Atlântica. O ideal seria refazer essas estimativas a cada cinco ou dez anos e verificar onde ela se manteve, onde aumentou e onde diminuiu. Dessa forma se poderia fazer uma conservação guiada por evidências”, conclui o pesquisador.

Outros coautores também realizaram suas pesquisas com bolsas da FAPESP (17/00331-817/02200-8 e 19/07655-9), sob orientação de José Maurício Barbanti Duarte, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Unesp e coordenador do Nupecce.

Além de Barbanti, o estudo tem entre os orientadores Fernando de Camargo Passos, coordenador do Laboratório de Biodiversidade, Conservação e Ecologia de Animais Silvestres (LabCeas) da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O artigo Lower ungulate population density in rainforests under anthropogenic influences pode ser lido em: https://besjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/1365-2664.14858.
 

Por que reduzir o desmatamento ajuda a conter a inflação?

 https://umsoplaneta.globo.com/opiniao/colunas-e-blogs/alexandre-mansur/post/2025/03/por-que-reduzir-o-desmatamento-ajuda-a-conter-a-inflacao.ghtml

Por que reduzir o desmatamento ajuda a conter a inflação?

Os economistas precisam começar a calcular a participação da floresta na manutenção das chuvas que geram eletricidade barata e controlam o preço dos alimentos

20/03/2025 08h00  Atualizado agora





A inflação continua sendo uma das maiores preocupações dos brasileiros. Em janeiro de 2025, o IPCA acumulado em 12 meses alcançou 4,49%, com destaque para o aumento no preço dos alimentos e da energia elétrica. Só os alimentos subiram mais de 7% no ano anterior, refletindo os impactos das quebras de safra provocadas por eventos climáticos extremos. Esse cenário levou o presidente Lula e sua equipe econômica a reforçarem a prioridade no controle da inflação como medida essencial para garantir o poder de compra da população, especialmente dos mais pobres, que sentem de forma mais dura o peso do encarecimento do custo de vida. O que poucos percebem é que, para reduzir a inflação, é preciso conservar as florestas.

A relação entre a manutenção da floresta brasileira e o controle dos preços é óbvia, embora ainda pouco considerada pelos economistas.

A floresta é essencial para produzir as chuvas que geram eletricidade mais barata. Segundo estudo do projeto Amazônia 2030, o desmatamento na Amazônia impacta diretamente a segurança energética do Brasil. A pesquisa quantificou, pela primeira vez, o quanto a derrubada da vegetação reduz o volume de chuvas, diminui a capacidade de geração das hidrelétricas e aumenta o uso de fontes mais caras e poluentes, como as termelétricas.

Com menos água disponível, aumenta-se o uso de fontes mais caras e poluentes. Isso resulta no aumento do custo da energia elétrica, repassado ao consumidor e pressionando a inflação. Pela primeira vez, a equipe desenvolveu uma metodologia para quantificar a perda na geração elétrica e o prejuízo causado pela retirada de vegetação em cada trecho da Amazônia por onde passou o vento que deveria ter levado umidade para as bacias de captação de cada hidrelétrica.

As chuvas da floresta também são essenciais para a agricultura. Diversos estudos comprovam que os chamados "rios voadores" da Amazônia transportam umidade para o Centro-Oeste e o Sudeste do Brasil, irrigando as lavouras de soja, milho e cana-de-açúcar no Mato Grosso, interior de São Paulo e outros polos agrícolas. Em 2023 e 2024, estiagens intensas afetaram severamente essas regiões, provocando quebra de safra e contribuindo para a inédita retração de 1,3% no PIB do agronegócio brasileiro em 2024. Essa queda na produção fez com que os preços dos alimentos disparassem nos supermercados, contribuindo diretamente para a inflação.

A relação entre a floresta e as chuvas, e entre as chuvas e o preço da energia e alimentos, está clara. Energia e alimentos são os itens mais pesados na cesta de produtos que influenciam o custo de vida dos brasileiros. É isso que mais pressiona a inflação para cima ou para baixo. Ora, se a relação está evidente, está mais do que na hora de os economistas brasileiros começarem a criar métodos para relacionar o status das florestas com a inflação.

O Banco Central tem por missão proteger a moeda brasileira. Deveria, por obrigação, estabelecer metas de redução do desmatamento até chegarmos a zero e começarmos a recuperar a floresta. Garantir florestas de pé não é apenas uma política ambiental, mas uma política econômica estratégica para estabilizar preços e proteger a economia do Brasil.

 

Aves do litoral brasileiro estão contaminadas com microplásticos

 

Aves do litoral brasileiro estão contaminadas com microplásticos

quinta-feira, 20 de março de 2025

Site logo image Conexão Planeta Lagos do mundo todo estão mudando de cor: ser humano e mudanças climáticas são possíveis responsáveis

 

Lagos do mundo todo estão mudando de cor: ser humano e mudanças climáticas são possíveis responsáveis