A frase dura, pronunciada pelo ministro Gilmar Mendes,
durante sessão do TSE que barrou o registro do candidato Arruda ao governo do
DF, reflete a opinião média que prevalece em todo o país, com relação à
emancipação política de Brasília, fixada de maneira ligeira e oportunista na
Constituição de 1988. ...
Gilmar Mendes foi impiedoso e certeiro com relação à
política do Distrito Federal. Durante a leitura de seu voto, o ministro
classificou o tipo de política que vem sendo feita aqui de rastaquera,
expressão que tanto pode ser usada como fuleira e baixa, como relativa a
ostentação, própria dos novos ricos, no caso no DF.
E ao fazer uma reflexão, me veio a cabeça a entrevista
concedida por José Roberto Arruda em 28/09/2010 no Correio Braziliense.
De pouca educação ou delicadeza, oportunista ou não, falando a verdade ou
não, mentindo ou não, Arruda foi enfático “Eleger Roriz é mostrar que o crime
compensa”.
Naquela dia ao ler a entrevista, diante de um amigo, o clã
da família, Joaquim Roriz chorou. O mesmo Roriz que hoje dá apoio a candidatura
de Arruda. Sua filha Jaqueline Roriz nada falou. Arruda, em 2010 declarou apoio
a Agnelo Queiroz.
No governo de Arruda, não foram poucos os rorizistas que
reclamaram que eram perseguidos e ameaçados. Segundo eles, Arruda queria
destruir a todos. Se Arruda, naquela oportunidade, tinha razão, ninguém sabe.
Hoje Arruda diz que é o único com condições de unir todos os grupos e juntou-se
outra vez a família Roriz. Hoje ele, Arruda, fala mal de Agnelo.
Na entrevista concedida ao jornalista Marcelo Tokarski, o
ex-governador Arruda rompia o silêncio de quase um ano depois da Operação Caixa
de Pandora, que o levou a prisão.
Arruda afirmou em 2010 que votar em Weslian Roriz
significaria dizer que o crime compensa, “é a vitória do coronelismo, a vitória
das piores práticas políticas que o Brasil já assistiu. A vitória do clã Roriz
significa dizer: o crime compensa..” Além disso, chamava Roriz de quadrilheiro,
de atrasado, de incompetente, de destruidor de Brasília.
Para quem não sabe o ministro Gilmar Mendes, é umas das
maiores autoridades em Direito Público de nosso país. Sabe tanto o que fala,
que divide os seus conhecimentos por meio do IDP - Instituto de Direito
Público, e ao pronunciar a frase que sintetizou a política do DF, talvez
nem se recordasse da entrevista concedida por Arruda, que transcrevemos abaixo,
caso contrário, "rastaquera" teria soado como elogio aos podres
poderes.
Entrevista abaixo.
Às vésperas de completar um ano do escândalo político que abalou o Distrito
Federal, o ex-governador José Roberto Arruda, que ficou preso por dois meses e
teve o mandato cassado pela Justiça Eleitoral, decidiu romper o silêncio.
Ao
justificar o fim da “reclusão”, como classifica seu isolamento, Arruda
argumenta que não poderia se omitir diante do cenário eleitoral do DF. “Pensei
muito antes de romper esse silêncio e essa reclusão a que me impus. Mas chegou
um momento que eu cheguei à seguinte conclusão: Ou eu falo agora ou mais tarde
poderei ser acusado do pior dos atos, que é a omissão”, afirmou.
Para o ex-governador, a eleição de Weslian Roriz (PSC) nada mais seria do que
uma manobra para a volta de seu marido, Joaquim Roriz, ao poder. “Meu voto é
contra o Roriz e tudo o que ele representa. Contra essa tentativa desesperada
de indicar alguém da família para continuar no poder, contra esse nepotismo
atrasado que tenta dissimular uma ambição sem limites”, afirmou.
Na avaliação
de Arruda, uma eventual vitória do clã Roriz nas urnas representaria a volta do
coronelismo. “A eleição do Roriz é a eleição do Durval (Barbosa, ex-secretário
de Relações Institucionais e pivô do escândalo), é a eleição do (Édson) Sombra
(jornalista envolvido na suposta tentativa de suborno que levou o Superior
Tribunal de Justiça a decretar a prisão de Arruda), é a vitória do coronelismo,
a vitória das piores práticas políticas a que o Brasil já assistiu. A vitória
do Roriz significa dizer o seguinte: o crime compensa”, afirmou.
Questionado se estaria defendendo o voto no petista Agnelo Queiroz — que tem
como vice em sua chapa Tade Filippelli (PDMB), ex-aliado de Roriz e do próprio
Arruda —, o ex-governador preferiu contemporizar.
“Acho que o Agnelo está longe
de ser o candidato dos meus sonhos. Mas a eleição é plebiscitária. Depois de
toda a tristeza que se abateu sobre a cidade, e eu sou em grande parte
responsável por isso, depois de toda a frustração, eu não tenho o direito de
induzir ou pedir voto para ninguém, mas eu tenho a obrigação moral de dizer o
meu: eu voto contra o Roriz.”
Durante uma hora e meia em que recebeu o Correio em sua casa, onde diz só sair
a cada 15 dias para ir ao médico ou resolver alguma questão pessoal, Arruda
relembrou, sempre ao lado da mulher, Flávia, os dias na prisão, se disse vítima
de um complô executado pelo ex-secretário de Relações Institucionais — mas
“arquitetado” por Joaquim Roriz — e afirmou estar retomando aos poucos sua
vida, mas longe da política.
“Quero voltar a ser engenheiro. Estou me preparando
para isso, devagar, me reciclando. Tenho 56 anos. Quero viver de maneira mais
simples, mais tranquila, longe do poder.” Leia a seguir os principais trechos
da entrevista concedida com exclusividade ao Correio.
“A eleição da mulher do Roriz é a eleição do Durval”
O que mudou na sua vida? Como o senhor viveu nos últimos meses?
É a primeira vez que eu falo, depois de 60 dias preso e cinco meses e tanto em
casa. Estou rompendo o silêncio. O que eu estou passando é a terapia da dor, do
sofrimento. Eu não desejo para ninguém, mesmo para os meus algozes, ter que
passar pelo que eu, a Flávia e a minha família temos passado.
Em primeiro
lugar, fiquei 60 dias preso num cubículo menor do que essa mesa em que estamos,
sem janela, sem banheiro. Eu, para usar o vaso sanitário, era escoltado por
dois guardas fortemente armados e não podia sequer fechar a porta do box. Sofri
todas as humilhações, todas as pressões psicológicas que um ser humano pode
sofrer. Comecei a sentir dores no coração e picos de pressão muito fortes, e só
12 dias depois é que foi permitida a presença de um cardiologista.
E aí eu fui
submetido a um cateterismo. Depois repousei na UTI até as 5h da manhã e fui
levado de volta ao cárcere. Nos cinco dias seguintes sequer conseguia levantar
da cama. Como tinha uma cama-beliche, e como a luz não apagava nem de noite, a
maneira que eu tinha de dormir, poucas horas por noite, era colocando um
cobertor na parte de cima da beliche para tentar tampar pelo menos a incidência
direta da luz.
E mesmo com medicamentos era muito difícil eu dormir. Eu tinha
apenas 15, 20 minutos por dia de oxigênio, quando a Flávia me levava o almoço.
Era o tempo que ela podia estar comigo. E é o único contato que eu tinha com o
mundo externo. Era proibido de ler jornal, de ver televisão, de qualquer
comunicação com o meio externo.
E como foi quando saiu da prisão?
Depois que eu voltei para casa, tanto eu quanto a Flávia, e a nossa família,
que me deu muito apoio, e os poucos amigos, poucos e verdadeiros amigos que
restaram, eu me impus a uma reclusão. Então, há mais de cinco meses que eu
praticamente não saio de casa, com raríssimas exceções, para ir ao médico,
resolver algum assunto, mas passo 10, 15 dias sem sair de casa. E tudo isso faz
parte da terapia do sofrimento. Acho que a dor ensina mais do que a alegria, a
derrota ensina mais do que a vitória.
O que aprendeu com tudo isso?
Em primeiro lugar, estou num processo de aprimoramento humano, de dar mais
valor às questões espirituais. Para mim, a política, a vida profissional, a ambição,
a vaidade, tudo isso era minha prioridade. Hoje, minha prioridade é minha
família, minha vida pessoal, a saúde. Estou aprendendo a conviver com o
abandono, com a ingratidão, com a traição, sem raiva, sem mágoa, sem julgar
ninguém. De cada 100 amigos que eu imaginei que tinha, um apareceu para me dar
um abraço.
Não fico contando os outros 99. Fico apenas relacionando aqueles
poucos e verdadeiros que estão presentes num momento tão difícil. E também não
fico julgando aqueles que não vieram — uns por medo, outros por covardia,
outros por oportunismo. Cada um tem suas razões. Não julgo ninguém. Eu, que era
tão cartesiano, materialista, hoje sou uma pessoa muito mais próxima de Deus.
Vou fazer uma figura de imagem que talvez não seja de bom gosto, mas é a que
melhor representa o que eu sinto: Deus está me dando o privilégio de assistir
ao meu próprio velório. E aí eu vejo quem apareceu, quem chorou de verdade,
quem gosta de mim, quem foi apenas para cumprir uma missão social, os que foram
com ironia, os que não apareceram, os que fingiram que não me conheciam.
Mas o
mais interessante é que Deus está me dando ainda outro privilégio. Terminando o
velório, ele está dizendo: ‘Agora você levanta e pode continuar vivendo um
pouquinho mais’. São raras as pessoas que conseguem ter alegrias tão grandes
quanto eu tive e tristezas tão profundas. É um grande aprendizado.
Estamos a poucos dias da eleição. Como o senhor avalia a candidatura de
Weslian, mulher de Roriz?
Em primeiro lugar, quero dizer que pensei muito antes de romper essa reclusão a
que me impus. Há quase nove meses me impus a esse silêncio. Mas chegou um
momento, face à questão política e às questões jurídicas envolvidas, que
cheguei à conclusão: ou falo agora ou me calo para sempre. Ou falo agora ou
mais tarde poderei ser acusado do pior dos atos, a omissão. O que eu penso, e
aí não vai nenhum sentimento de vingança, de ódio, com todo o respeito por
todas as pessoas, inclusive pelo Roriz, eu acho que a eleição da mulher dele é
a eleição do Durval, é a eleição do Sombra, é a vitória do coronelismo, a
vitória das piores práticas políticas que o Brasil já assistiu. A vitória do
clã Roriz significa dizer: o crime compensa.
Qual foi o seu grande erro?
O grande erro do meu governo foi ter permitido que não apenas o Durval, mas
alguns outros rorizistas, que vinham no poder há 20 anos, de forma oportunista,
quando viram que eu ia ganhar, quando viram que a derrota da Abadia era
inevitável, pularem para o meu barco na última hora, e eu, generosamente,
ingenuamente, os mantive depois no governo. Para você ter uma ideia, os mesmos
deputados distritais que quando eu ganhei a eleição me fizeram pressão para eu
deixar o Durval no governo, porque eu não queria deixá-lo — embora ele tivesse
me ajudado na campanha —, fizeram pressão e eu acabei cedendo. E aí cometi um
erro. Mesmo tendo deixado ele num cargo assim meio honorífico, sem gestão
financeira, a verdade é que eu deixei ele no meu governo. Vendo hoje o filme,
eu tinha que ter cortado o mal pela raíz.
Essa pressão dos distritais incluiu cobrança de mensalão?
Hoje fica claro por que tantos deputados gostavam dele (Durval). Parece
evidente que houve mensalão em Brasília, mas foi o mensalão do Roriz, e não
meu. As imagens (dos vídeos) são todas anteriores ao meu governo.
Esses rorizistas que o senhor deixou no governo já tinham a intenção de
miná-lo depois?
Você acha que é por acaso que, na única vez em que eu fui ao gabinete desse
Durval, em 2005, a única vez em que eu o visitei, fiquei lá (no gabinete da
Codeplan) 20 e poucos minutos, será que é coincidência o Roriz ter me ligado?
Exatamente naquela hora? E eu pergunto: por que cortaram isso da fita? Graças a
Deus, agora, um ano depois, é a Polícia Federal, é a perícia oficial que vem
confirmar o que dissemos antes, que as fitas foram editadas, manipuladas para
enganar a opinião pública. Fitas de 2003, 2004, 2005 e 2006, quando o
governador era o Roriz, foram apresentadas de maneira violenta na mídia como se
tivessem sido no meu governo. Será que era eu que tinha que ter sido preso?
O
Durval responde a 32 processos por corrupção, todos, eu repito, todos, sem
exceção, corrupção praticada no governo Roriz, quando ele era presidente da
Codeplan. O que eu tenho com isso? Ele não responde a nenhum processo no meu
governo. Até porque, embora eu tenha cometido o erro de ter deixado uma figura
com esse tipo de formação, de deformação de caráter, eu não posso esquecer que
ele (Durval) tem um irmão deputado (Milton Barbosa), aliás candidato à
reeleição com uma campanha caríssima. Eu cedi a essas pressões, esse foi o meu
grande erro. E ele ficou no governo, sorrateiro, bajulador, até o momento de
dar o golpe. Foi na verdade uma armação bem arquitetada. Há uma frase
interessante, que é bíblica, que os filhos das trevas são mais perspicazes que
os filhos da luz. Então, essas pessoas que se dedicaram a arquitetar o mal o
fizeram com tal competência que convenceram a sociedade, através da mídia, com
aquele bombardeio de imagens agressivas, que toda aquela corrupção que se
passou no governo Roriz na verdade teria sido no meu governo. Porque não
aparecia a data (nos vídeos).
Mas por que essa “armação”? Por quem ela foi arquitetada?
Vínhamos num projeto de governo com ampla aprovação, tínhamos duas mil obras em
execução, tínhamos tirado as vans irregulares da cidade, tirado os camelôs,
acabado com as invasões. Eu fazia um governo de ruptura, colocava ordem na
cidade. E quando tudo isso estava indo tão bem, quando Brasília estava
garantindo o privilégio de fazer a abertura da Copa de 2014, quando tinha 200
escolas de educação integral, as vilas olímpicas aí, o maior conjunto de obras
no sistema viário desde a construção da cidade, quando tudo isso estava dando
certo, vem essa armação dos interesses contrariados.
O Roriz é um grande líder
dos interesses contrariados. O Roriz reúne hoje todos aqueles que invadiam
terras, que operavam o transporte irregular, que faziam o comércio irregular,
que desejam aumentar a área de Brasília para fazer mais loteamentos, para
acabar mais com a qualidade de vida. Ele reúne todos esses interesses que o meu
governo contrariou.
O Roriz diz que o suposto esquema operado pelo Durval pode ter começado no
governo dele, mas que ele não sabia. É possível?
Quem sou eu para julgar os outros? O que eu tenho absoluta certeza, e parece
que sobre isso não paira dúvida na cidade, é que Durval e Sombra são braços
armados do Roriz. Vão lá, armem uma arapuca para tirar esse Arruda da minha
frente. Será que se eu fosse candidato à reeleição o quadro político era esse?
Ele sabia que não.
Por que então manter o Durval no seu governo?
A pressão política que eu aceitei foi manter o Durval num cargo sem gestão
financeira. Ele não responde a nenhum processo por ato que praticou no meu
governo, porque no meu governo ele não praticou ato nenhum. No meu governo ele
era aspone mesmo, é isso. Toda vez que eu precisava do voto do irmão dele eu
pedia para ele. Agora, ninguém me pediu para manter esquema de corrupção porque
não tiveram coragem de fazê-lo.
Mas então ele manteve à revelia algum esquema de corrupção?
Acho que o Durval manteve, residualmente, algum poder. Primeiro, pelo dinheiro
que acumulou nos oito anos do governo Roriz. Segundo, pelos grandes empresários
que ele representava. Você acha que ele estava sozinho? Imagine uma empresa que
faturava R$ 100 milhões por ano e que no meu governo passou a faturar zero. Eu
estou dizendo uma coisa que naquele momento da comoção ninguém conseguia ver.
Há uma coisa interessante: a ligação do Durval e do Roriz é muito mais antiga.
Foi o Durval quem fez o vídeo da Estrutural que derrotou o Cristovam (Buarque)
em 1998.
Ele era o (delegado) titular da 3ª DP do Cruzeiro, foi ele que filmou
o que se intitulou depois de “massacre da Estrutural”, que, exibido no programa
eleitoral, foi responsável pela derrota do Cristovam. Em 2002, o Durval foi o
braço armado do Roriz para mais uma vez derrotar o (Geraldo) Magela com as
urnas da Linknet, ou nós já esquecemos disso? Quem armou a farsa das urnas da
Linknet? Doutor Durval. Em 2006, quando eles viram que não conseguiam ganhar
com a Abadia, vêm para o meu lado de maneira oportunista e preparam o golpe
para me derrubar em seguida para asfaltar a volta do Roriz. Quer dizer, estas
pessoas que se reúnem em torno do Roriz, não é a primeira vez em que eles
atacam alguém, não sou a primeira vítima.
Mas e a prisão do senhor?
Foi a armação mais clara possível. Eles viram que, apesar de toda a delação que
tinham feito, não estavam conseguindo me derrubar, e eu continuava bem avaliado
pela sociedade, que no mínimo desejava que eu terminasse o meu governo, que eu
concluísse as obras. Quando eles viram que estavam perdendo, inventaram então o
segundo golpe. Chega a ser ridículo: duas pessoas que compartilhavam o mesmo
escritório, que trabalhavam juntas. Um era o diretor comercial e outra era o
presidente do mesmo jornal, aliás, um veículo de informação pouquíssimo
conhecido, mas sempre muito bem aquinhoado com verbas públicas.
Essas duas
pessoas, que trabalhavam no mesmo escritório, resolvem um entregar propina
para o outro, e em vez de fazê-lo no escritório que ambos frequentavam, ou de
fazer na casa de um deles, que ambos frequentavam — como está fartamente
documentado em vídeos feitos por ele (Sombra) mesmo —, eles resolvem se
encontrar numa lanchonete no Sudoeste.
Foi um falso flagrante que me levou à
prisão. E, tendo me levado à prisão, me calaram a boca. E enquanto eu estava
amordaçado, os mesmos que haviam me pedido a nomeação do Rogério Rosso para o
lugar do Durval na Codeplan, os mesmos que elegeram o Rosso como preposto do
Durval e do Roriz, me agrediam no Legislativo. Fácil, né, chutar cachorro
morto? Todo este plano diabólico deu certo. Vamos reconhecer a competência
deles. São pessoas capazes, acostumadas a trafegar nos subterrâneos da
política. E que portanto, lá, são imbatíveis.
Como o senhor avalia o fato de Roriz ter renunciado e colocado a mulher no
lugar?
Como é triste ver pessoas que sempre tiveram o meu respeito naquela imagem
melancólica, fraudulenta, tão bem traduzida pela filha do casal: “Meu pai
indicou minha mãe”. É a oligarquia consciente, o contrabando da candidatura, o
abuso da confiança dos cidadãos, o desrespeito à Justiça. Mas, vindo do Roriz,
nada mais assusta, pela sua capacidade infinita de trapacear, de jogar sujo.
E ela pode ganhar nas urnas?
Claro. Na política, com as atuais regras, o poder econômico, o jogo sujo é
ferramenta da maior utilidade no processo eleitoral. Não é à toa que o
coronelismo sobrevive em vários estados e até na capital do país. Não vai aqui
no meu coração nenhum sentimento de vingança, de ódio, nada pessoal. Eu estou
apenas cumprindo uma responsabilidade que tenho, uma responsabilidade pública,
como ex-governador.
O que está em jogo são dois projetos diferentes para
Brasília. Um projeto que eu liderava, que era um projeto de mudança, de
ruptura. Demiti 15 mil servidores sem concurso. Vocês se lembram dos
camelódromos no Setor Comercial? Se lembram dos esqueletos que implodi, das 5
mil vans que tirei das ruas? Vocês sabem que o meu governo foi o único na
história de Brasília que nunca deu aumento na passagem de ônibus, e ainda assim
eu obriguei os empresários a comprar 1.950 ônibus novos? O meu governo terminou
a obra do metrô de Ceilândia, parada há 13 anos.
O meu governo fez mil salas de
aula, 200 escolas integrais. Este governo de ruptura, que proibia as invasões,
que prendeu grileiros, regularizava os condomínios, colocava ordem na cidade. E
com isso eu contrariei objetivamente os interesses daqueles que querem a
bagunça, e que são liderados pelo Roriz. O Roriz está aí em campanha, e ele não
esconde de ninguém.
Ele é a favor das vans, do comércio irregular, nunca coibiu
as invasões de terra, as construções irregulares, e é por isso que Brasília vem
se tornando essa bagunça. Eu dei uma freada de arrumação e, quando tudo isso estava
sendo feito, alguém nos derruba. São projetos diferentes. O que está em jogo
não é nada pessoal. O que está em jogo é o seguinte: Brasília quer voltar ao
passado da bagunça e da desordem ou quer insistir na organização da cidade?
O Agnelo leva essa bandeira?
O Agnelo está longe de ser o candidato dos meus sonhos. Mas a eleição é
plebiscitária. Depois de toda a tristeza que se abateu sobre a cidade, e eu sou
em grande parte responsável por isso, não tenho o direito de induzir ou pedir
voto para ninguém, mas tenho a obrigação moral de dizer o meu: eu voto contra
Roriz.
A delação de Durval começou em setembro de 2009, época em que havia o
movimento para tirar Roriz do PMDB. Foi a gota d’água?
Não tenho dúvida de que a saída dele do PMDB foi a gota d’água, até as datas
coincidem. Ele saiu do PMDB em 16 de setembro e a delação foi feita no dia 19.
E um dia antes o TJDFT tinha aceitado uma denúncia contra o Durval.
Não fosse a saída de Roriz do PMDB o senhor acha que eles teriam levado
adiante esse plano a que o senhor se refere?
É difícil saber, porque eu não sei pensar com a cabeça deles. Eu estou dizendo
o que eu penso do Roriz abertamente. Ele nunca diz, ele usa os braços armados
para me atacar. O Roriz nunca teve coragem de me enfrentar diretamente. Em
1994, eu tinha sido secretário de Obras do governo dele, ele não me queria
candidato a senador. Escolheu a Márcia Kubitschek e o Pedro Teixeira. Eu tive
que bater voto na convenção para ganhar a disputa e depois ser candidato ao
Senado. Em 1998, disputei a eleição contra ele, que nunca compareceu a um
debate onde eu estava, nunca teve coragem de debater comigo. Em 2002, ele
apoiou fortemente outros candidatos para tentar ver se eu não seria eleito
deputado federal e eu fui o mais votado. Em 2006, ele também se acovardou.
Quando viu que eu estava com a candidatura mais forte do que a da Abadia, se
afastou dela. Ele nunca me enfrenta diretamente, ele escala esses seus braços
armados para fazer um tipo de jogo sujo que não tem coragem de fazer.
Dizem que o senhor teria muita coisa contra Roriz e que implodiria a
candidatura do grupo ligado a ele. É verdade?
Primeiro, não tenho. Segundo, todas as vezes em que tentaram me oferecer, eu
rechacei. Não tenho vídeo, não faço gravação de ninguém, acho isso hediondo,
uma prática terrivelmente suja. Não tenho absolutamente nada, nenhum tipo de
arma, nem contra o Roriz nem contra ninguém. A minha diferença com o Roriz não
é apenas na forma de governar. Eu tentei fazer um governo de ruptura, que
organizava a cidade. O Roriz tem uma visão diferente: é o governo da
desorganização, da bagunça, da invasão de terra, da ilegalidade. Essa é uma
diferença. Mas as nossas diferenças não param aí, as nossas diferenças também
são na maneira de fazer política. O Roriz usa todas as armas, acha que os fins
justificam os meios. Se há um obstáculo intransponível, destrói-se o obstáculo.
Ele só decidiu me destruir quando descobriu que, fora do PMDB e com o nível de
aprovação que eu estava, teria dificuldades para voltar ao poder.
Em depoimento ao Ministério Público Federal, o senhor falou que foi achacado
pela promotora Deborah Guerner. E depois o próprio Durval confirmou que
entregou dinheiro a Deborah a mando de Roriz. Essas pressões vinham também do
MP do DF?
Vinham. E nunca passou pela minha cabeça que esses 20 anos de desmandos que o
Roriz comandou em Brasília tivessem criado raízes nos outros poderes. As coisas
que eu encontrava erradas no governo eu tomava a medida que me cabia, que era
enviá-las ao MP. E lá elas paravam, sei lá por que.
Só no fim soube-se a razão.
Então, infelizmente, e a constatação não é minha, é deles próprios: se o Durval
confessa que entregava dinheiro a uma procuradora a mando do Roriz, e se ela
própria me diz que recebia esses recursos, em função disso três anos depois da
renúncia do Roriz no Senado ele não havia sequer sido processado. Então o
assunto é muito mais grave do que se imagina. Sinceramente, nunca passou pela
minha cabeça que esses tentáculos do poder de corrupção do Roriz tivessem
penetrado tanto em outras esferas. Infelizmente, tenho que reconhecer que isso
ocorreu.
Mas Durval agia sozinho?
Seria ingenuidade da minha parte, a essa altura da vida, dizer que o Durval
estava sozinho nisso. Ele é apenas um bem mandado de um esquema muito maior,
liderado pelo Roriz, que tem braços no poder econômico. E que desejam que as
facilidades voltem. Eu acabei com elas. É verdade que eu errei ao aceitar
pressões. Agora, o Durval tem um irmão que é deputado, tinha voto. E tinha outros
deputados que eram muito gratos a ele, hoje se sabe até porque. Tive que
aceitar isso, mas confesso que aí cometi um erro. E não por falta de aviso de
que deveria tirá-lo do governo.
Logo no início?
Antes de tomar posse. E eu, depois das pressões políticas, tomei uma medida que
julguei muito salomônica: deixo ele num cargo no governo, mas tiro dele o poder
de presidir a Codeplan. Só que minha ingenuidade foi grande. O mesmo grupo que
apoiava o Durval me traz alguns nomes para eu analisar para a Codeplan. O
primeiro era do atual governador, que tinha recebido 54 mil votos (como
candidato a deputado) no PMDB, um homem muito educado, bem preparado, e eu
aceitei. E o que os fatos hoje demonstram? Que ele foi para a Codeplan como
preposto do Durval. Hoje ele é um governador que, por melhores que sejam suas
intenções, tem uma limitação, é refém do Durval. Não é segredo para ninguém das
ligações das pessoas mais próximas ao Rogério Rosso hoje que despacham com o
Durval, que obedecem as suas ordens. Brasília pode até não saber, mas o
governador de fato hoje é o Durval. E eleger o Roriz é outra vez eleger o
Durval, o Sombra e esse grupo de pessoas que tanto mal tem feito a Brasília. E
agora tudo isso se confirma, quando o Rosso vem apoiar a mulher do Roriz.
O senhor teve seu julgamento político. Como lida com a Justiça?
Num primeiro momento, com o bombardeio de vídeos, com o tamanho do escândalo
que se montou, eu entendo as decisões que foram tomadas, tanto no âmbito do
Ministério Público quanto no Poder Judiciário. Mas a gente não pode subestimar
nem o MP e nem a Justiça. O aprofundamento das investigações está levando,
naturalmente, a outros caminhos. E cada vez mais essa armação está ficando
clara. É a Polícia Federal que, um ano depois do episódio, dá a público a primeira
perícia. E qual o resultado? Que a fita foi cortada, editada criminosamente
para proteger alguém. Os meus advogados me pedem que não entre no detalhe
dessas questões, mas o que eu posso dizer é que hoje já existem provas
contundentes da edição, do corte. Vocês sabem que o dinheiro na meia, o
dinheiro na bolsa, o dinheiro sei lá mais aonde aconteceu no governo do Roriz,
e não no meu. E mais: se eu tivesse cedido às chantagens do Durval, ele teria
me denunciado?
Ele estaria feliz da vida comigo. Ele buscou montar essa
denúncia no momento em que seus interesses foram contrariados. E não apenas o
interesse dele, o interesse dele era contrariado no mesmo momento em que o
interesse político do grupo que o Roriz representa era contrariado, que
interesses econômicos poderosos eram contrariados. Infelizmente, eu tenho que
constatar que todos esses interesses econômicos estão aí com as suas
candidaturas para domingo que vem. O irmão do dono de Linknet é candidato, o
irmão do Durval é candidato. São dezenas de candidatos com chances grandes de
eleição que representam interesses econômicos claros, contratuais com o GDF.
Grande parte do nosso poder político busca eleição para defender interesses
econômicos e contratuais diretos com o GDF.
O senhor fala de atuais deputados que são candidatos…
Atuais… (Falo) de personagens da política local. Os grupos econômicos de
Brasília começam pequenininhos, vão crescendo e, na hora em que querem dar um
pulo para ficar enormes, elegem um deputado. Para defender o quê? Os seus interesses.
Essa mistura da vida política com os contratos do GDF é explosiva, muito ruim
para a vida da cidade. Procurei combater, com muitas dificuldades. Hoje eu
entendo por que demorei mais de dois anos para fazer a concorrência do lixo. E
por que todo edital que eu mandava para o MP não servia.
Além de Deborah, que o senhor já citou, o Leonardo Bandarra,
ex-procurador-geral do MP do DF, tinha participação nesse esquema?
Não julgo ninguém. A única coisa que eu constato é que forças internas do MP
atuavam no sentido de que eu não conseguisse fazer a licitação do lixo, porque,
quando consegui, o preço diminuiu 17%. Portanto, alguém era beneficiado antes,
enquanto os contratos eram emergenciais. Forças internas no MP pegaram o
processo da bezerra de ouro e colocaram na gaveta por três anos. Forças
internas não analisaram a auditoria de Corumbá IV, que é o megawatt/hora mais
caro da história do Brasil. Tudo isso está lá no Ministério Público local, devo
dizer. Então, alguma coisa acontecia. Como e por que eu não sei responder.
Quanto ao Bandarra, ele foi um dos que me avisou que eu deveria tirar o Durval
e sempre se houve comigo com toda a correção.
O senhor fez delação premiada com o MP Federal?
Não existe essa possibilidade. Só faz delação quem é criminoso, quem tem culpa.
Eu não tenho. Não faço nada escondido de ninguém. Tudo o que tenho que falar eu
estou falando aqui, com gravador ligado, pode ser publicado no jornal. Agora, o
que eu sinto, nos poucos depoimentos que tive, no âmbito do Ministério Público Federal
e no próprio Poder Judiciário, é que há um desejo muito claro de esclarecer a
situação como um todo, fora daquele clima de comoção dos dias do escândalo.
E daqui para a frente?
Só consigo ver nesse momento o curto prazo. Nossas prioridades aqui em casa
são: primeiro, retomar a minha saúde. Hoje eu tenho um artéria entupida, estou
com uma carga de medicamentos muito grande, estou voltando a fazer meus
exercícios físicos de maneira ainda muito lenta. Enfim, a primeira prioridade é
recuperar a saúde. A segunda é recuperar a cabeça. E o que envolve essas duas
prioridades é a vida familiar. A minha prioridade é ser feliz com a minha
mulher, a minha filha. Isso é muito mais importante do que vida pública, do que
qualquer outra coisa. Eu cumpro aqui esse meu dever de dizer as coisas que
penso com muito respeito às opiniões divergentes, mas louco para virar essa
página e voltar para a minha reclusão, porque, com essas regras, não volto para
a política. A política hoje não exerce sobre mim nenhum fascínio.
E o poder?
O poder… Eu experimentei os dois lados do poder. Graças a Deus, quando fui
governador, não mudei para a casa oficial, continuei dirigindo meu carro nos
fins de semana, poucas vezes usava gravata. Não tirei os pés do chão. Sob esse
aspecto, o baque não é grande. Agora, o lado negativo do poder dói muito. O
lado do abandono, da ingratidão… Há dois tipos de sofrimento. Um é o pessoal,
nosso. Nós dois aqui (referindo-se a ele e a mulher, Flávia) somos pessoas
comuns. Há um ano a gente não vai a um restaurante, a um cinema. Sabe por quê?
A gente tem vergonha na cara. Nós nos impusemos essa reclusão, em respeito a
tudo o que aconteceu. Eu não saio de casa, recebo pouquíssimas pessoas, não
interferi no processo político, fiquei quieto. Sofri todas as traições e os
abandonos, as ingratidões que um homem público pode sofrer. O meu partido
nacional, eu era o único governador, eu os ajudei sempre em tudo o que me
pediram, e me abandonaram na primeira curva. Sofri todo tipo de execração
pública, de humilhação. Mas esse é o meu, o nosso sofrimento pessoal. Mas ele é
muito pequeno, e menos importante, do que o sofrimento da cidade. Nas poucas
vezes que saio dirigindo o meu carro… Eu vou confessar uma coisa: me dá um nó
na garganta. Eu às vezes choro de tristeza, porque é duro ver obras paradas. É
muito duro ver obras concluídas sem terminar. Aquelas marginais que eu fiz ali
perto do zoológico, não conseguiram fazer uma graminha no canteiro central nem
postes de iluminação. Há pistas de 8km duplicadas que falta uma ponte de 10
metros e eles não conseguem fazer. A Linha Verde era para ter inaugurado em
junho e está aí até hoje, enrolando. As vilas olímpicas estão prontas e com
cadeado no portão. À exceção da de Samambaia, que eu tive tempo de inaugurar.
As crianças podiam estar fazendo esportes, nadando, fugindo das drogas. Me dói
muito ver as invasões de terra voltarem, nas nossas barbas. As vans piratas na
rua. Os camelôs voltando para o centro da Ceilândia, para o Conic. Isso me dói.
Era um projeto de cidade que estava sendo construído e aprovado e que está
sendo destruído. Essa é uma dor muito profunda. Mas volto a dizer: não acredito
em crime perfeito.
O senhor sofreu algum tipo de hostilidade na rua?
Não, graças a Deus, não.
E manifestações positivas?
Muitas. Mas eu também tenho tido, nós dois temos tido, muito respeito pela
opinião pública. Uma pessoa que passa o que eu passei não pode ficar se
exibindo. Eu me impus a uma reclusão. Eu raramente vou a algum lugar. Esses
dias eu fui a um enterro de um amigo querido e falaram mal do morto… Então é
melhor não ir a lugar nenhum. Estou aprendendo a ter paciência, tranquilidade.
Tem uma frase de um personagem do Guimarães Rosa que diz assim: “a esperteza
quando é muito vira bicho e come o dono”. Tem muito esperto pela cidade
comemorando o crime perfeito antes da hora.
Essa primeira entrevista é o início de uma saída desse período de reclusão?
Não, eu volto para a reclusão. Porque eu acho que a reclusão a que nós nos
impomos é respeitosa em relação às investigações. É saudável para nossa vida
pessoal, nós precisamos voltar a ter paz. Eu tenho lido muito, escrito,
pensado, conversado muito, e faço hoje uma constatação. Agora, em 15 de
novembro, faço 35 anos como formado de engenheiro. Vai ter até uma festa lá na
minha escola de engenharia em Itajubá (MG), que eu também não vou. Nesses 35
anos, a metade do tempo eu fui engenheiro. Na outra metade entrei na política.
Fui muito mais feliz profissionalmente como engenheiro. E eu quero voltar a ser
engenheiro. Estou me preparando para isso, devagar, me reciclando. A partir do
ano que vem quero retomar minha vida de engenheiro. Tenho 56 anos, uma filha de
2 anos. Quero viver de maneira mais simples, mais tranquila, longe do poder.
Política nunca mais?
Com essas regras políticas que estão vigentes eu não mais serei candidato. Tem
que mudar muita coisa: financiamento público de campanha, voto facultativo,
voto distrital misto. Sem isso, é loucura. Não sou eu que estou deixando a
política não. Pimenta da Veiga, um dos grandes políticos de Minas Gerais, não
disputou mais eleição. Roberto Brant não quis mais disputar eleição. O ministro
Nelson Jobim me disse uma vez que o exercício correto do mandato era impeditivo
para uma nova eleição. Ser candidato com as atuais regras é quase uma roleta
russa. Não há campanha política, em nenhum estado brasileiro e em nenhum
partido, que seja imune a uma verificação séria das suas contas. Com as atuais
regras, você pega alguma coisa errada ali ou alguma coisa errada aqui. Mas em
todo lugar tem coisa errada. Basta ver a atual campanha em Brasília. É tudo
claro, não vê quem não quer. É só sair contando as placas na cidade que você vê
quanto custa. Já fui senador, deputado, governador, e eu tenho uma
responsabilidade pública que independe do mandato. Por isso estou falando. Essa
responsabilidade pública não me dá o direito de pedir voto para ninguém nem de
induzir voto para ninguém, mas ela me dá a obrigação de dizer o que penso. Por
isso o meu voto é contra tudo o que o Roriz representa. Não é nem contra ele ou
sua mulher, mas contra tudo o que eles representam.
O senhor está escrevendo um livro?
Dizem que sim…
Fonte: Edson Sombra, com informações do blog do ARI CUNHA e
do Correio Braziliense - 31/08/2014 - - 16:55:38
Exorcizando Brasília
Há 28 anos acompanho as eleições do
Distrito Federal. Como repórter, seguindo os candidatos; como colunista
e, depois, dentro das redações, na função de editora. Vi Joaquim Roriz
ser governador três vezes. Vi o crescimento fenomenal de Cristovam
Buarque durante a campanha que o elegeu governador.
Vi e revi a
capacidade de argumentação ilimitada de José Roberto Arruda, que
conseguiu a proeza de não concluir dois mandatos, um de senador e um de
governador, e ainda assim estar liderando as intenções de voto para o
governo da capital. Vi políticos poderosos de Brasília nascerem,
renascerem e serem execrados publicamente, e continuarem interferindo na
política local. Brasília foi com eles. Para o bem e para o mal...
A capital viveu e vive uma campanha delicada, como boa parte do Brasil —
algumas são mais sujas; outras nem tanto. Não posso deixar de concordar
com o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal
Superior Eleitoral, quando ele diz que a política no DF é rastaquera —
às vezes, mais do que isso. Tanto concordo que entendo ter ele todo
direito de criticar a autonomia política da cidade ao tomar conhecimento
de mais um vídeo comprometedor, que retrata uma conversa de Arruda com o
advogado Eri Varela a respeito de especulações sobre o julgamento no
TSE. Gilmar, no entanto, foi voto vencido no julgamento que colocaria
uma pá de cal na candidatura até agora preferida do eleitor brasiliense,
a despeito de todas as acusações.
Essa Brasília subterrânea e suja de fato, seja qual for ou de que
partido for o personagem gravado ou grampeado, é abjeta. Mas a cidade
que vive e respira, que tem direito a voto, que vai além das cercanias
da Esplanada dos Ministérios e da Praça do Buriti, nada tem a ver com as
“sacanagens” que lhe são impostas dia a dia. A Brasília limpa, que
execra políticos descomprometidos e desonestos, quer honrar o direito ao
voto. Tirar esse direito da capital não vai melhorar a qualidade de
seus políticos.
É uma questão de tempo e depuração, tanto em Brasília quanto no resto
do país. Quanto mais educado e informado o cidadão, mais consciente do
valor do voto ele será. E mais exigente quanto à lisura dos governantes
ele será. Sejam azuis, vermelhos, amarelos, verdes ou brancos. Se
errarem, terão de ser punidos, com cadeia, inclusive. Portanto, agora é
hora de exercer nossa autonomia.
À população, resta o apelo: assista aos programas eleitorais, exerça
uma postura crítica e acompanhe os debates. Um deles será promovido pelo
Correio Braziliense e pela TV Brasília, na próxima terça-feira, 2 de
setembro, às 22h30, com transmissão também ao vivo pelo site
www.correiobraziliense.com.br e pelas redes sociais. Participe usando a
hashtag #debateCorreioTVBSB. Um bom momento para brindar a democracia.
Fonte: Por ANA DUBEUX, Correio Braziliense - 31/08/2014 - - 12:18:30
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