Por Claudio Angelo, do Observatório do Clima
- quinta-feira, 05 janeiro 2017 00:01
Nesta
imagem do satélite Aqua, da Nasa, a Corrente do Golfo aparece como a
faixa vermelha
atravessando o Atlântico. Imagem: Nasa.
Cientistas chineses trabalhando nos EUA trouxeram nesta quarta-feira
uma notícia agridoce sobre um dos efeitos mais temidos do aquecimento
global. Um modelo climático feito por eles mostra que a corrente
oceânica que leva calor dos trópicos à Europa é mais vulnerável do que
se imaginava às mudanças do clima, e desligará completamente caso a
quantidade de gás carbônico na atmosfera siga aumentando. Por outro
lado, esse desligamento ocorreria em séculos, não em anos ou décadas.
Conhecida como circulação termoalina do Atlântico, essa imensa
esteira oceânica é um dos principais sistemas de regulação do clima da
Terra. Sua face mais conhecida é a Corrente do Golfo, uma corrente
quente que migra pela superfície do Atlântico tropical até as imediações
do Ártico. No Atlântico Norte, ela fica mais fria e mais salgada
(devido à evaporação da água no caminho), afundando e retornando aos
trópicos na forma de uma corrente fria submarina. A dissipação de calor
dessa corrente é o que mantém a Inglaterra e o norte da Europa com um
clima relativamente tépido, mesmo estando em uma latitude elevada.
Desde os anos 1980 os cientistas têm postulado que o aquecimento
global, ao derreter o gelo e a neve do Ártico, lançaria grande
quantidade de água doce no oceano, diluindo o sal da corrente e
impedindo que ela afundasse.
O efeito imediato seria a suspensão do
transporte do calor para a Europa, que mergulharia numa espécie de era
do gelo. Isso já aconteceu há 8.200 anos e resfriou o Velho Continente
por dois séculos. Poderia acontecer de novo de forma rápida e causar
problemas sérios à civilização, caricaturados no filme-catástrofe
O Dia Depois de Amanhã, de 2004.
Observações feitas até aqui, que são esparsas, têm mostrado que justamente desde 2004 esteira oceânica está em sua
menor potência nos últimos mil anos, provavelmente por causa do aquecimento global. Alguns cientistas temem que o colapso já tenha começado.
Ocorre que os modelos computacionais que simulam o clima da Terra no
futuro, usados pelo IPCC (o painel do clima da ONU), têm falhado
sistematicamente em apontar instabilidade no sistema. Por consequência, o
desligamento repentino da corrente é considerado pouco provável pelo
painel.
Entram em cena Wei Liu, da Universidade da Califórnia em San Diego
(hoje na outra costa do país, na Universidade Yale), e colegas. Em
estudo publicado nesta quarta-feira no site da revista
Science Advances,
o grupo aponta que os modelos padecem de um viés: uma distorção faz a
corrente parecer artificialmente mais estável do que é de fato.
A origem do problema está longe da Europa, no Atlântico Sul. Essa
região do oceano tropical, perto do equador, recebe chuvas constantes na
chamada Zona de Convergência Intertropical, o cinturão de tempestades
onde massas de ar aquecido dos dois hemisférios se encontram.
Liu e colegas dizem que os modelos do IPCC assumem que há mais água
doce oriunda dessas chuvas na corrente do que há de fato. Isso causaria
nos modelos uma ilusão de estabilidade – quanto mais água doce no
trópico, menor a diferença de salinidade perto do Ártico, portanto,
menos suscetível a perturbações a corrente seria. Esse viés, afirma Liu,
já havia sido sugerido por outros estudos no passado.
O que o chinês e seu grupo fizeram foi ajustar um dos modelos de
acordo com parâmetros de salinidade que eles consideravam mais
realistas. Mas não apenas isso: a correção do viés tornou a corrente
mais instável e vulnerável ao próprio aquecimento da água do mar – algo
que casa melhor com as observações. “O aquecimento reduz a densidade da
água e impede a convecção”, disse Liu ao
OC. “O método não é perfeito, mas é o melhor que podemos fazer agora para corrigir o viés e fazer uma projeção mais confiável.”
Os pesquisadores usaram o modelo ajustado para estimar o que acontece com a esteira oceânica caso o nível de CO
2 na
atmosfera duplique – algo que acontecerá por volta de meados do século
se medidas radicais de controle de emissões não forem tomadas.
Aqui vem a nota de alívio do estudo: o colapso da corrente ocorre nas simulações apenas 300 anos após a quantidade de CO
2 dobrar
na atmosfera. Questionado sobre se isso era uma boa notícia, Liu foi
cauteloso: “Sim, 300 anos são muita coisa comparado a uma vida humana,
mas mudanças notáveis podem ocorrer antes de a circulação colapsar”,
disse.
“Além disso, nosso resultado é baseado em um modelo e em um
cenário simples de aquecimento.” Liu e seus colegas não consideraram,
por exemplo, o fator que até agora tem sido invocado para explicar a
redução da corrente: o efeito do degelo da Groenlândia. Ao lançar
excesso de água doce sobre o oceano no Ártico, o derretimento poderia
agravar a situação de uma corrente que já seria impactada pelo
aquecimento da superfície.
Um efeito esperado dessa redução na corrente, por exemplo, é uma
mudança nos padrões de chuva em várias regiões do planeta. Um dos
lugares que seriam afetados é o Brasil. Estudos do grupo do geólogo de
Francisco Cruz, da USP, já mostraram que fases de redução da circulação
termoalina no passado corresponderam a chuvas torrenciais no Brasil,
devido ao deslocamento da Zona de Convergência Intertropical para o sul.
“Precisamos aplicar essa metodologia a mais modelos climáticos e a cenários de aquecimento global mais realistas”, afirmou Liu.