sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Espécie de lagarto pode 'despir' sua pele para fugir de predadores


Por Mariëtte Le Roux
AFP

Foto sem data obtida da publicação científica PeerJ em 8 de fevereiro de 2017 mostra espécie de lagarto Geckolepis Megalepis

Uma espécie de gecko (família de lagartos) recém-descoberta possui uma aptidão surpreendente: para fugir de seus predadores, o animal pode abandonar suas escamas e sua pele, que voltarão a crescer dentro de poucas semanas, revelaram cientistas nesta quarta-feira.

Geckolepis megalepis in life. Image credit: Frank Glaw.
Muitos lagartos podem se separar da sua cauda se esta for agarrada por um predador, mas esta espécie recém-descoberta (Geckolepis megalepis), de Madagascar, vai além para sobreviver.


Esses pequenos lagartos possuem longas e duras escamas, que se desprendem com uma "facilidade excepcional", o que lhes permite escapar da mandíbula de um predador, e conseguem se separar até mesmo da sua pele se for necessário, de acordo com um estudo publicado nesta quarta-feira na revista científica PeerJ.


Enquanto outras espécies de geckos podem perder sua pele quando são agarrados com muita força por um predador, os Geckolepis megalepis são capazes de fazer isso ao menor contato.


E, diferentemente das outras espécies de lagartos, que têm de esperar muito tempo para que suas escamas se regenerem, nos Geckolepis megalepis esse processo leva apenas algumas semanas.



Os cientistas acreditam que esse mecanismo de regeneração, ainda pouco compreendido, poderia ser aplicado na medicina regenerativa - por exemplo, para fazer membros amputados voltarem a crescer - e estão fazendo pesquisas nesse campo.

Empresário indonésio declara guerra ao plástico

(Arquivos) Turista caminha na praia de Kuta, em Bali, em meio a lixo acumulado na areia, no dia 19 de dezembro de 2016

Por Megan SUTHERLAND
AFP

Os turistas que visitam Bali levam a recordação de suas águas cristalinas, mas nas praias da Indonésia também se amontoam montanhas de plástico, uma praga que um empresário combate fabricando bolsas e caixas ecológicas.


Kevin Kumala, de 32 anos, fundou uma empresa que produz recipientes de cana-de-açúcar e lantejoulas de amido, produtos biodegradáveis que não geram resíduos tóxicos.


"Eu, que sou apaixonado por mergulho e surfe, encontro essa poluição de material plástico diante dos meus olhos", conta Kumala à AFP ao explicar o que o levou a se lançar na fabricação de substitutos biodegradáveis com sua companhia Avani Eco, que significa Eco Terra.


O problema da contaminação gerada pelo plástico em Bali é tamanho que "é preciso fazer alguma coisa", diz.


A Indonésia pode acabar em uma situação crítica devido ao acúmulo de dejetos plásticos em um país com um crescimento rápido e quase sem alternativas ecológicas.


Os rios e mares deste arquipélago de 17.000 ilhas e ilhotas estão cobertos por dejetos que provocam a morte de espécies marinhas e aumentam o risco de inundações.


Em janeiro, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, 40 das maiores empresas globais acordaram em desenvolver formas mais limpas de produzir e usar o material para evitar que os oceanos contaminados cheguem um dia a conter mais plástico do que peixes pela falta de medidas para enfrentar o problema.


'Esperança'
O produto mais popular da Avani Eco é uma bolsa à base de mandioca. Cada peça é vendida com uma mensagem impressa em letras maiúsculas: "NÃO SOU PLÁSTICO".


Para demonstrar que suas bolsas não são nocivas, o empresário se presta a um experimento: pega uma parte de mandioca de uma bolsa, a coloca em um copo de água fervente e observa como se dissolve rapidamente. Chega, inclusive, a beber alguns goles.


"Isto dá esperança aos animais marinhos. Não se asfixiam, nem ingerem materiais que podem ser perigosos", diz Kumala.


Uma bolsa de mandioca custa 4.000 rúpias (por volta de 32 centavos de dólar), mais que uma fabricada a partir de derivados de petróleo, que levam até 400 anos para se decompor totalmente. As da Avanti Eco levam meses e se diluídas em água, o processo é instantâneo, afirma Kumala.


'A Ásia se afoga'
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) lamentou em um relatório de 2015 que os plásticos ecológicos não consigam reduzir a quantidade esperada de detritos deste material nos mares do planeta.


A destinação do plástico ecológico engloba os procedentes de recursos naturais, como a cana-de-açúcar e o milho, e outros biodegradáveis.


São "soluções inovadoras" mas "ainda não sabemos o suficiente sobre esta tecnologia", observa Habib el Habr, um encarregado do Pnuma.


Na Indonésia, a coleta de lixo e os sistemas de eliminação são insuficientes para fazer frente ao uso do plástico, que não para de aumentar.


As autoridades não destinam ajuda pública ao tratamento dos resíduos de plástico, mas preveem impor às lojas a obrigação de que os consumidores paguem pelas sacolas de plástico convencionais, uma medida eficaz em outros países, diz um encarregado do ministério indonésio do Meio Ambiente, Tuti Hendrawati Mintarsih.


Apesar dos desafios, Kumala está convencido de que se pode remediar o problema. "Toda a Ásia se afoga em um oceano de contaminação plástica", lamenta.

Área protegida de Goiás adota uma nova categoria de unidade de conservação


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O município de Niquelândia hospedará a nova unidade de conservação. 
Foto: Governo de Goiás


Na noite de quinta-feira 02/02, a Reservas Votorantim Ltda e a Companhia Brasileira de Alumínio assinaram protocolo de intenções com o governo de Goiás para criação da Reserva Particular de 


Desenvolvimento Sustentável Legado Verdes do Cerrado (GO), no município de


Niquelândia, com o foco na preservação do bioma Cerrado. Com 32,5 mil hectares, ela será a primeira unidade de conservação no estado de Goiás — e uma das primeiras do País — a ser enquadrada nesta nova modalidade.


A unidade de conservação Legado Verdes do Cerrado será composta por duas áreas geridas equilibradamente pelas empresas signatárias: a Fazenda Engenho, com 27,4 mil hectares, e a Fazenda Santo Antônio da Serra Negra, com 5,1 mil hectares). Da área total, 84% será destinada à conservação do Cerrado e 16% à atividades econômicas sustentáveis.  A unidade será também um potencial ativo turístico e de pesquisas, permitindo estudos e desenvolvimento de trabalhos com a coleta de diversas espécies de plantas nativas, sementes e frutos.


Reserva Particular de Desenvolvimento Sustentável (RPDS)


Durante a reunião de 2017 do Fórum de Governadores do Brasil Central, na quinta-feira, os governadores do Distrito Federal e dos estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Tocantins assinaram um protocolo de intenções pelo qual pretendem levar ao Congresso Nacional e ao Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) a ideia desta nova categoria de unidade de conservação, para que ele seja incluído no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).


A RPDS difere da Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN) por permitir que a unidade de conservação seja utilizada também para atividades de pesquisa, educação, turística e recreativas. A modalidade que permite a compatibilização da conservação da biodiversidade com o manejo sustentável dos recursos e o desenvolvimento de atividades econômicas que não descaracterizem a cobertura vegetal nativa existente e nem prejudiquem a função ambiental da área. Este modelo já existe em São Paulo e no Amazonas e será implantando também em Goiás.


O governador de Brasília, Rodrigo Rollemberg saudou a iniciativa. “É uma boa ideia no sentido de preservar áreas do Cerrado, áreas de mananciais e, ao mesmo tempo, aliar a preservação com pesquisa científica e desenvolvimento econômico de forma sustentável (…) Queremos levar essa experiência a outras unidades da Federação”, observou.

*Com informações da Secima/GO e Agência Brasília

“Querem oficializar grilagem”, diz Izabella

Por Claudio Angelo, do Observatório do Clima
Izabella Teixeira. Foto: Ibama.
Izabella Teixeira. Foto: Ibama.


O movimento de parlamentares do Amazonas de reduzir unidades de conservação no sul do Estado é uma tentativa de “oficializar a grilagem” de terras da União e expõe o Brasil à “vergonha internacional”. Quem diz é Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente, em cuja gestão foram criadas as cinco áreas protegidas que ora são alvo da bancada.


“Eu acho um vexame que o Brasil, que é referência no mundo, passe por um retrocesso de anular a criação de áreas tão importantes para a conservação da biodiversidade em nosso país”, afirmou a ex-ministra ao OC. “Querem oficializar a grilagem. Isso abre um precedente seriíssimo para as outras regiões. Não tem explicação, não tem cabimento.”


A demanda de cortar quatro áreas protegidas criadas pela ex-presidente Dilma Rousseff em seu último dia de mandato e extinguir uma quinta foi apresentada na última terça-feira por sete parlamentares do Amazonas ao ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha (PMDB-RS).



Segundo informou o Instituto Socioambiental, o governo abraçou a proposta e a encaminhará ao Congresso como projeto de lei ou Medida Provisória. Reportagem do jornal O Estado de S.Paulo afirma que o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho (PV-MA), não foi consultado a respeito.



Pois deveria, já que as terras que os parlamentares amazonenses querem liberar para os produtores rurais do sul do Estado são dele.


“O Ministério do Meio Ambiente é o dono das terras”, diz a ex-ministra. Elas foram tituladas para o Instituto Chico Mendes, órgão do MMA, em agosto de 2014, após um processo que durou quase dois anos no Programa Terra Legal, do extinto Ministério do Desenvolvimento Agrário. O programa visa regularizar a posse de terras na Amazônia, destinando terras devolutas a usos diversos – de assentamentos a terras indígenas, de expansão urbana a parques nacionais.


Na ocasião, 3 milhões de hectares de terras federais foram oferecidos para conservação – com anuência do governo do Estado, do Incra e da Funai.


Em 2016, após mais dois anos de estudos e consultas, foram criadas cinco unidades: a Reserva Biológica Manicoré, o Parque Nacional de Acari, a Floresta Nacional de Aripuanã, a Floresta Nacional de Urupadi e a Área de Proteção Ambiental Campos de Manicoré. Juntas elas somam 2,69 milhões de hectares – área menor do que a destinada ao MMA, já que, segundo Izabella, foi preciso fazer uma série de ajustes no desenho das unidades para acomodar interesses locais diversos.


“Criamos uma área menor porque foi onde havia convergência, para minimizar o conflito”, diz. “São as primeiras unidades criadas já com regularização fundiária.”



A proposta dos parlamentares, ora em avaliação no governo Temer visa extinguir a APA Campos de Manicoré e reduzir as outras unidades. No total, a área sob proteção cairia 40%, para 1,6 milhão de hectares.


O problema é que, como toda a área das unidades já está regularizada e titulada para o ICMBio, o eventual projeto de lei para reduzi-las estaria, na prática, dando 1 milhão de hectares de terras da União para o setor produtivo, o que é ilegal – daí a ex-ministra falar em “oficializar a grilagem”.


“O Congresso vai descumprir a lei que ele mesmo criou, a lei do Terra Legal. Todo mundo sabe que um dos principais problemas do desmatamento na Amazônia é a questão da regularização fundiária. O governo fez um programa de regularização. E [os parlamentares] querem fazer uma lei para desfazer o que a lei vigente manda fazer. Isso é um vexame”, dispara Izabella.


Mico internacional 
Segundo a ex-ministra, o movimento também põe em xeque a credibilidade internacional do Brasil, já que o país hoje capta recursos de doadores no exterior para financiar a conservação – por meio do programa Arpa (Áreas Protegidas da Amazônia). O Estado do Amazonas é um dos beneficiários do programa.


Em seu discurso de posse como ministro das Relações Exteriores de Michel Temer, o senador José Serra (PSDB-SP) disse que uma das prioridades de sua política externa seria assumir a “especial responsabilidade” que cabe ao Brasil em matéria ambiental. “Se fizermos bem a lição de casa, poderemos receber recursos caudalosos de entidades internacionais interessadas em nos ajudar a preservar as florestas”, discursou Serra.


Com a taxa de desmatamento subindo por dois anos consecutivos e unidades de conservação sendo reduzidas com o aval do Palácio do Planalto, a tendência é que os doadores comecem a rarear – e as pressões internacionais sobre o Brasil voltem a crescer como durante o governo FHC, quando a criação de um mosaico de áreas protegidas no sul do Amazonas foi proposta pela primeira vez.



"Mentira completa"

Ao apresentarem a proposta de redução das áreas a Padilha, os parlamentares amazonenses, liderados por Átila Lins (PSD), alegaram que as unidades estão causando “prejuízos” e paralisação de investimentos no agronegócio na região, e estariam colocando o setor produtivo “em pânico”.


O manifesto entregue a Padilha, segundo o jornal A Crítica, aponta “vícios de legalidade” no decreto de criação das áreas e “ausência de estudos técnicos e consultas públicas”.


Izabella Teixeira contesta: “Dizer que não houve consulta é de uma mentira completa, porque houve consulta em dois momentos: na regularização fundiária e na criação das unidades”. Segundo ela, as unidades deveriam ter sido criadas em 2015 o foram somente no ano seguinte por conta da burocracia.


“Querem argumentar que vão desfazer isso porque não foram ouvidos? No mínimo eles deveriam explicitar os interesses que estão por trás disso. Está na hora. Já que o Brasil é um país que se renova com sua transparência, explicitem os interesses. Sejam objetivos. Digam que de fato está por trás disso.”


Questionada sobre que interesses ela acha que seriam esses, a ex-ministra não quis responder.
O sul do Amazonas é uma região ainda rica em florestas virgens, que protege o coração do Estado, a maior área de mata tropical preservada contínua do planeta. Está na confluência de três frentes de grilagem – de Rondônia, do Pará e de Mato Grosso – e é a principal zona de expansão madeireira do Estado. Grileiros, madeireiros ilegais e pecuaristas têm interesse nos estoques de terra e floresta do local.


A região também é o principal foco de desmatamento do Estado. Segundo levantamento do Ibama a partir da dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o desmatamento nos cinco municípios onde estão as áreas protegidas contestadas aumentou entre 2011 e 2015 – de 27% para 36% do desmatamento total do Amazonas.


“Peço à Casa Civil, rogo ao ministro Padilha, que foi meu colega na Esplanada, que analise politicamente antes de qualquer posição do governo. Vamos para um debate de quais são os reais interesses por trás disso”, concluiu Izabella.

Republicado do Observatório do Clima através de parceria de conteúdo.

ICMBio define normas para concessões em unidades de conservação


ICMBio busca acelerar parcerias para aprimorar serviços de visitação nos parques nacionais, modelo bem sucedido em várias unidades. Um dos projetos prevê concessões na Floresta Nacional de São Francisco de Paula. Foto: Aquiles Bastiani Naressi
ICMBio busca acelerar parcerias para aprimorar serviços de visitação nos parques nacionais, 
modelo bem sucedido em várias unidades. Um dos projetos prevê concessões na Floresta Nacional
 de São Francisco de Paula. Foto: Aquiles Bastiani Naressi


Em 02 de fevereiro, última quinta-feira, o Diário Oficial da União (DOU) trouxe em suas páginas a Instrução Normativa (IN) nº 02 do ICMBio, de 30 de janeiro de 2017. A norma define o planejamento, a execução e o monitoramento dos contratos de concessão para prestação de serviços de apoio à visitação em unidades de conservação (UC).


As concessões são um instrumento pelo qual o ICMBio repassa a uma empresa ou organização da sociedade civil a exploração de serviços e atividades de visitação em UCs, como cobrança de ingressos, transporte de visitantes, restaurantes e lojas de conveniências. Com isso, além de obter retorno financeiro, o Instituto promove, em parceria com os concessionários, melhorias na estrutura de uso público das unidades.


“A Constituição Brasileira diz que o acesso à natureza é um direito básico e a lei do SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza) diz que um dos objetivos dos parques nacionais é promover a recreação na natureza e o turismo ecológico. Essas concessões resgatam, portanto, uma dívida histórica do Brasil para com a sua população”, afirma o coordenador-geral de Uso Público do ICMBio, Pedro Menezes.


No final do ano passado, o Instituto apresentou os projetos de concessão de serviços de visitação em três unidades federais: Parque Nacional de Brasília (DF), Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO) e Parque Nacional do Pau Brasil (BA). No momento, está aberto processo seletivo para realização de três estudos de viabilidade em unidades: Reserva Extrativista Rio Unini (AM), Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais (PE) e Florestas Nacionais de Canela (RS) e de São Francisco de Paula (RS). Além disso, o ICMBio já mantém concessões bem sucedidas nos Parques Nacionais da Tijuca (RJ), do Iguaçu (PR), da Serra dos Órgãos (RJ) e de Fernando de Noronha (PE).


De acordo com a IN, os novos projetos de concessão ficarão a cargo de um Comitê Especial de Concessão (CEC), que terá a finalidade de dar andamento dos processos. A este órgão caberá elaborar (ou providenciar a elaboração) dos documentos darão subsídios necessários para assegurar a viabilidade técnica, operacional e ambiental das atividades e serviços listados no objeto da concessão.


Uma vez aprovado e analisado, a Diretoria de Planejamento instituirá Comissão Especial de Licitação, que ficará encarregada de elaborar editais, minutas de contrato e demais documentos necessários ao lançamento público do processo licitatório.


Encerrado este processo licitatório e assinado o contrato de concessão, a Diretoria de Planejamento designará Comissão de Fiscalização, que ficará encarregada de acompanhar a execução do contrato para assegurar o cumprimento das condições acertadas. O monitoramento dos contratos de concessão já em curso deverá ser ajustado às regras da Instrução Normativa.



*Com informações da Comunicação ICMBio

Cinco parques para valorizar a Caatinga


A Caatinga é uma caixa de surpresas para aqueles que acreditam que não há vida ou beleza no sertão nordestino. O clima seco e a aridez do solo escondem a rica biodiversidade que existe no bioma. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), a Caatinga é o lar de 178 espécies de mamíferos, 591 de aves, 177 de répteis, 79 de anfíbios, além de 241 espécies de peixes e 221 espécies de abelhas. Presente em todos os estados da região nordeste e em Minas Gerais, o bioma corresponde a 11% do território brasileiro. Apesar disto, a Caatinga é ameaçada pelo desmatamento indiscriminado e, infelizmente, é um dos biomas menos protegidos do país, onde pouco mais de 1% das unidades de conservação oferecem proteção integral.



Na linha de frente da resistência estão algumas Unidades de Conservação que, além de essenciais para conservação, guardam cenários que mostram ao visitante os muitos encantos do bioma.  Para mostrar um pouco desse ainda pouco reconhecido (e protegido) bioma, o WikiParques selecionou cinco unidades que colaboram para preservar a Caatinga:



Parque Nacional da Chapada Diamantina (BA)
O cartão-postal do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Foto Heris Rocha
O cartão-postal do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Foto Heris Rocha


A Chapada Diamantina é uma das regiões de ecoturismo mais conhecidas do país, porém muitos visitantes não percebem que os cenários exuberantes que o cercam pertencem à Caatinga. O Parque Nacional da Chapada Diamantina foi criado em 1985 e é uma das maiores áreas protegidas do bioma, com 152.141 hectares de extensão. No parque, além dos chapadões que compõe o cenário oficial do parque, as trilhas, cachoeiras, poços e grutas encantam os visitantes. A Chapada Diamantina é mais um exemplo da rica biodiversidade da Caatinga. O parque já registrou mais de 250 espécies de aves, dentre elas o beija-flor-gravatinha-vermelha, endêmico da região. Outros personagens da fauna local são o tamanduá-bandeira, o macaco prego, a jaguatirica, capivara e lagartos. 


Parque Nacional do Catimbau (PE)
As imensidões da Caatinga no Parque Nacional do Catimbau. Foto: Bruno Vinícius
As imensidões da Caatinga no Parque Nacional do Catimbau. Foto: Bruno Vinícius


O Parque Nacional do Catimbau foi criado em 2002 e, com seus 62.300 hectares de extensão, é uma importante área de conservação da Caatinga. Um dos destaques do parque são os sítios arqueológicos e as pinturas rupestres que remontam a um passado de até 6 mil anos atrás. As paisagens naturais do parque, por sua vez, garantem que o tempo presente não passará desapercebido, e os visitantes podem contemplar os cânions, cavernas e os formatos curiosos das rochas esculpidas pela erosão. Na fauna, espécies típicas do bioma como a raposa, o tatu-peba, os gaviões e as seriemas ajudam a provar a riqueza da biodiversidade da Caatinga.


Parque Nacional Serra da Capivara (PI)
Vista aérea do Baixão da Pedra Furada, no Parque Nacional Serra da Capivara. Foto: Pedro Nassar
Vista aérea do Baixão da Pedra Furada, no Parque Nacional Serra da Capivara. 
Foto: Pedro Nassar


Reconhecido como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO desde 1991, o Parque Nacional Serra da Capivara preserva não apenas uma porção da Caatinga e sua fauna e flora, mas um pedaço da pré-história brasileira. O passado está “ilustrado” pelo parque através de pinturas rupestres que colorem os paredões rochosos e as grutas com histórias de um mundo que não existe mais. Os sítios arqueológicos não são o único motivo para conhecer o parque que possui monumentos geológicos, formações rochosas e desfiladeiros que impõe a magnitude e a força da Caatinga. A fauna do parque também não fica para trás, há registro de mais de 200 espécies de aves e de mais de 30 mamíferos, entre eles a onça-pintada.


Parque Nacional de Sete Cidades (PI)
As curiosas formações rochosas do Parque Nacional de Sete Cidades. Foto: Otávio Nogueira
As curiosas formações rochosas do Parque Nacional de Sete Cidades. Foto: Otávio Nogueira



O Parque Nacional de Sete Cidades, no Piauí, é outro lugar onde a beleza cênica dos paredões e formações rochosas servem de moldura para uma viagem ao passado ilustrada por pinturas rupestres. Passado e presente se misturam nos mais de 6 mil hectares do parque, que também é uma zona de encontro da Caatinga com o Cerrado. Pés de pequi e juazeiros se juntam na mesma paisagem que une flora e fauna típica dos dois biomas. A mistura só enriquece ainda mais as belezas naturais do parque que também possui cachoeiras, poços e lagos que garantem um refresco ao clima quente do Piauí.
Parque Nacional Serra das Confusões (PI)
Paredão rochoso do Parque Nacional Serra das Confusões. Foto Joaquim Neto
Paredão rochoso do Parque Nacional Serra das Confusões. Foto Joaquim Neto



Também localizado no Piauí, o Parque Nacional Serra das Confusões foi criado em 1998 e possui impressionantes 823.843 hectares de extensão, que o colocam na posição de maior parque do Piauí, décimo do país. Igualmente impressionante são as paisagens do parque que está situado entre as bacias hidrográficas dos rios Parnaíba e São Francisco. Grutas, rios, mirantes e formações rochosas compõem o cenário que inclui o fotogênico Desfiladeiro das Andorinhas. Na fauna do parque estão duas espécies ameaçadas de extinção, o gato-maracajá e a onça-parda.

Carnívoros são mais ameaçados por estradas do que se tem conhecimento, diz estudo


Por Sabrina Rodrigues
Onça parda (Puma concolor): animal ameaçado de extinção é morto ao tentar atravessar a via. Foto: Valdir Santos.
Onça parda (Puma concolor): animal ameaçado de extinção é morto ao tentar atravessar a via. 
Foto: Valdir Santos.


Há tempos se sabe que as estradas ameaçam a fauna silvestre, no Brasil e no mundo, mas os efeitos danosos dos atropelamento sobre os carnívoros terrestres foram subestimados pelos programas de conservação dessas espécies. É o que concluiu uma pesquisa desenvolvida por pesquisadores da Alemanha e de Portugal publicada  e publicada no final de janeiro pela revista científica Global Ecology and Biogeography.


As estradas, segundo o estudo, causam a mortalidade direta e isolam as populações de carnívoros, o que pode afetar sua viabilidade a longo prazo. Os carnívoros mais expostos às estradas pertencem às famílias Felidae (felinos), Ursidae (ursos), Mustelidae (Mustelídeos), Canidae (Canídeos), Procyonidae (Procionídeos). Para chegar a tal conclusão, os pesquisadores consideraram 232 espécies de carnívoros em todo o mundo dentro de um total de 270 espécies existentes e a partir dessa separação avaliaram qual dessas espécies estavam sendo mais ameaçadas por estradas.


Os carnívoros que habitam a América do Norte e a Ásia são os que mais sofrem com a estradas, seguidos dos habitantes da América do Sul e da Europa. Mesmo em regiões com densidade de estradas considerada relativamente baixa observou-se a ocorrência de ameaça.


Negligência
Uma das questões levantadas pelos pesquisadores é que algumas espécies como a onça-parda (Puma concolor), o urso negro americano (Ursus americanus) e o urso-pardo (Ursus arctos) estão com a sobrevivência gravemente ameaçada por estradas, mas que esse perigo não tem sido levado em pauta até o momento.


O estudo alerta que aproximadamente um terço dos carnívoros mais afetados não foram identificadas pela IUCN como ameaçados por estradas. Os pesquisadores apontam para a necessidade de reavaliar a classificação de algumas espécies como por exemplo, o texugo japonês (Meles anakuma) e a marta japonesa (Martes melampus), da família dos Mustelídeos, gravemente ameaçados por esse problema e que estarão extintos em nove e dezessete anos e, mesmo assim, estão classificados pela IUCN como pouco preocupante.



Fonte: EurekAlert.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A eterna catástrofe ambiental argentina



É possível investir US$ 5,2 bilhões para reverter a contaminação de um rio de apenas 64 quilômetros e praticamente não se obter resultado? A Argentina está demonstrando que sim.
 
 
 
Essa quantia é a que, segundo reconheceu o governo no final de 2016 perante a Suprema Corte de Justiça do país, o Estado destinou desde julho de 2008 à recuperação do Riachuelo, o rio que margeia a cidade de Buenos Aires pelo sul e que é apontado como um dos piores exemplos de contaminação industrial na América Latina e no mundo.
 
 
 
No entanto, em essência, a situação continua sendo a mesma desde meados do século 19, quando as notícias já descreviam o estado de putrefação desse curso de água. Hoje, estima-se que cerca de oito milhões  de pessoas vivem na bacia, em grave emergência sanitária e ambiental. “O Riachuelo continua cumprindo a mesma função de desaguadouro das atividades econômicas e humanas da cidade de Buenos Aires e de grande parte do Conurbano, como nos últimos 200 anos”, pode-se ler em um informe da Autoridade da Bacia Matanza Riachuelo (Acumar), o órgão oficial encarregado de sua limpeza.
 
 
A IPS teve acesso ao relatório, de mais de 200 páginas, apresentado pela Acumar à Suprema Corte, no dia 30 de novembro. “Não só está altamente contaminado, como continua sendo contaminado”, acrescenta o documento, explicando que atualmente são lançadas nas águas cerca de 90 mil toneladas anuais de metais pesados e outras substâncias prejudiciais.
 
 
 
Com o nome de Matanza, o rio nasce na província de Buenos Aires, atravessa 14 municípios e depois marca o limite sul da capital argentina, já com a denominação de Riachuelo, até sua desembocadura no rio da Prata, bem perto do estádio de futebol do Boca Juniors. Suas margens começaram, na época da colônia espanhola, a receber locais para salgar carnes de mulas ou ovelhas e curtumes onde se trabalhava com a pele de bovinos.
 
 
 
Lançar os dejetos no rio se converteu em uma prática habitual, que o transformou em uma verdadeira cloaca a céu aberto, e isso continuou com indústrias mais modernas, como petroquímicas e frigoríficos. Nas últimas décadas, foram muitas as promessas oficiais de limpar o rio. Aquela da qual os argentinos mais se lembrem talvez seja a de María Julia Alsogaray, secretária de Ambiente do presidente Carlos Menem (1989-1999), que anunciou que faria a limpeza em apenas mil dias. Entusiasmado, o próprio Menem declarou que, uma vez terminada a tarefa, ele nadaria no Riachuelo.
 
 
 
Entretanto, o rio continuou sendo foco de doenças para a população, Menem se absteve de nadar para cuidar de sua saúde e Alsogaray acabou presa por corrupção. Parecia que essa história poderia começar a mudar em julho de 2008. Pelo menos foi no que acreditou a comunidade ambientalista do país, que nesse momento qualificou de maneira unânime como “histórica” a sentença da Suprema Corte ordenando às autoridades nacionais, provinciais e da capital que limpassem o rio.
 
 
 
A resolução se baseou em um artigo incorporado à Constituição do país em 1994, que garante a todos os habitantes do país viver em “um ambiente saudável”. Entretanto, os escassos progressos alcançados nesses últimos anos ficaram cruamente expostos na audiência realizada em 30 de novembro no tribunal. Nesse dia, o presidente da Suprema Corte, Ricardo Lorenzetti, especialista em ecologia – e que no ano passado foi premiado pela Organização de Estados Americanos (OEA) como embaixador da Boa Vontade para a Justiça Ambiental –, não escondeu sua decepção.
 
 
 
Durante essa audiência, a diretora operacional da Acumar, Gabriela Seijo, destacou que, por exemplo, até agora foram construídas apenas 3.147 das 17.771 moradias planejadas para reassentar as famílias que vivem com maior exposição à contaminação. “Se continuarmos nesse ritmo terminaremos em 2036”, afirmou. Diante desse cenário, o ministro de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, rabino Sérgio Bergman, tentou jogar a responsabilidade sobre os governos de Néstor Kirchner (2003-2007), que era presidente quando foi criada a Acumar, e de sua viúva e sucessora, Cristina Fernández (2007-2015), no cargo quando o tribunal emitiu sua sentença.
 
 
 
“O estado que encontramos foi desolador. Não só porque o Riachuelo estava degradado e contaminado igual ou pior do que na época da sentença, mas porque também a ferramenta para saneá-lo, a Acumar, não estava em condições de poder cumprir a ordem judicial”, pontuou Bergman à Suprema Corte. Mas o governo de Mauricio Macri, no poder desde dezembro de 2015, e o próprio Bergman, já cumpriram o primeiro ano no governo e não conseguiram avançar nos objetivos da Acumar, um órgão com 900 empregados, muitos deles incorporados em 2016.
 
 
 
Segundo foi informado, foram realizadas 34.759 inspeções em indústrias e ocorreram 57 fechamentos, mas todos de escassa duração e sem um impacto ambiental relevante. Segundo a Acumar, atualmente vivem na bacia seis milhões de pessoas, pelo menos 10% em cerca de 60 assentamentos precários. “É certo que a gestão da Acumar nunca foi boa. Mas este último ano foi o mais desastroso de todos. Tanto que seu presidente nem mesmo se apresentou à audiência na Suprema Corte”, indicou à IPS o advogado Andrés Napoli, presidente da Fundação Ambiente e Recursos Naturais (FARN), uma das cinco organizações não governamentais designadas pelo tribunal para controlar o cumprimento da sentença.
 
 
 
Efetivamente, Julio Torti não foi à audiência de novembro, e poucos dias depois da infeliz apresentação de outros funcionários do órgão, apresentou sua renúncia. O presidente Macri nomeou para seu lugar a então deputada Gladys González, da governante coalizão de centro-direita Mudemos, conhecida por seus antecedentes em matéria ambiental.
 
 
 
Napoli contou que, depois da audiência, apresentou à Acumar um pedido de informações para que explique como foram gastos os US$ 5,2 bilhões e anunciou que, se a resposta não for satisfatória, apresentará uma denúncia penal para que sejam investigados possíveis atos de corrupção. “Apenas foi limpo um pouco das margens do rio e retirados muitos barcos que estavam afundados há décadas”, ressaltou à IPS o diplomata Raúl Estrada Oyuela, membro da Associação de La Boca, o emblemático bairro de Buenos Aires onde o Riachuelo conflui com o rio da Prata.
 
 
 
“Mas não há vontade política em atacar o problema central, que é a contaminação da água, do solo e do ar, porque isso implicaria mexer nos interesses das indústrias, que naturalmente seriam obrigadas a fazer grandes investimentos se fossem forçadas a aderir a um processo de produção limpa”, enfatizou Estrada, que conta com prestígio internacional em temas ambientas e foi presidente do comitê que, em 1997, deu vida ao Protocolo de Kioto sobre mudança climática. 
Fonte: Envolverde

Segue o seco


Por Alexandre Costa
Carcaça de vaca no interior da Bahia durante a seca recorde. Foto: Marcelo Casal Jr./Agência Brasil.
Carcaça de vaca no interior da Bahia durante a seca recorde. 

Foto: Marcelo Casal Jr./Agência Brasil.




As carcaças de cágados no piso seco do Cedro, primeiro grande açude do Ceará, construído ainda no século 19, são uma imagem triste e impactante desta que já é a maior seca do registro histórico no Estado, iniciado em 1910 (e provavelmente na região Nordeste como um todo).



Com efeito, o período de 2012 até 2016 igualou-se ao de 1979 a 1983 como a mais prolongada sequência de anos com chuvas abaixo do normal em território cearense e a média de cinco anos é a menor jamais registrada (521 mm, contra 566 mm para 1979-1983).




No Nordeste como um todo, segundo a Agência Nacional de Águas, a seca excepcional, de categoria máxima (a mais intensa da classificação, com perdas generalizadas na agropecuária, comprometimento dos corpos hídricos e impactos de longo prazo sobre o ecossistema) se alastrou por todos os Estados, do Maranhão à Bahia.




Graças à combinação de ações de convivência com o semiárido (como o programa de cisternas), programas sociais e intervenções de infraestrutura hídrica, os maiores dramas históricos do Nordeste, a migração em massa e os saques, ainda não se manifestaram, pelo menos não na escala vista até mesmo há poucas décadas. Mas isso não quer dizer que a situação não seja grave.



A economia tem sido brutalmente afetada, com perdas acumuladas, só de 2012 a 2015, da ordem de R$ 104 bilhões e um recuo médio no PIB de 4,3% ao ano. O colapso hídrico já atingiu não apenas comunidades rurais, mas inúmeras cidades do interior, como foi o caso de Crateús, onde filas intermináveis se formaram para que as famílias tivessem acesso à água de um poço com dessalinizador, no limite de 40 litros por família por dia, quantidade bastante aquém da recomendação da Organização Mundial da Saúde para beber, cozinhar e fazer higiene



Hoje, o colapso ronda as metrópoles da região. O monitoramento do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) e do Portal Hidrológico do Ceará mostra que a maior parte dos açudes encontra-se abaixo dos 10% em volume, incluindo os reservatórios de grande porte, críticos para o abastecimento urbano em larga escala. É o caso do Castanhão, principal fonte de abastecimento para a Região Metropolitana de Fortaleza, cujo estoque de água corresponde a meros 4,9% do seu volume, assim como do Banabuiú, terceiro maior reservatório cearense (0,4%) e do Boqueirão (4,1%), importante açude paraibano. Em situação não muito melhor estão o Armando Ribeiro Gonçalves (Rio Grande do Norte, com 13,7%), e o Orós (Ceará, 11,6%).



Para recompor os estoques hídricos da região, seria necessária uma sequência de anos de chuva acima da média (além de medidas restritivas ao uso na indústria e grande agricultura) Como se não fosse o bastante, os prognósticos para a estação chuvosa de 2017 não estão se mostrando favoráveis. Pelo contrário: segundo dados divulgados nesta semana pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTIC), a probabilidade de chuva abaixo do normal entre fevereiro e abril no Nordeste é de 40%, contra 35% para chuvas na média e 25% para chuvas acima da média. Segue o seco.



Eventos extraordinários como esse dificilmente podem ser associados a uma única causa. É verdade que o Nordeste setentrional é particularmente sensível à variabilidade climática natural, com as chuvas tendendo a diminuir ou aumentar de acordo com os padrões de temperatura oceânica no Pacífico e Atlântico. No momento, os modos de variabilidade de longo prazo em ambos os oceanos estão em fase desfavorável para as chuvas na região. Embora a chamada variabilidade interanual permaneça, essa variabilidade de mais longo prazo (decadal a multidecadal) a modula, aumentando probabilidades maiores de ocorrência de eventos de El Niño, no Pacífico, e de aquecimento anômalo na porção norte da bacia do Atlântico, em ambos os casos contribuindo para a redução das precipitações.



A degradação ambiental na escala local, com o desmatamento comprometendo matas ciliares e nascentes e assoreando rios e reservatórios também precisa ser colocada nessa contabilidade. Uma inadequada e insuficiente política de resíduos e saneamento contribui também para o comprometimento da qualidade da água na região.



Mas é preciso dizer que a vulnerabilidade da região é amplificada por conta das escolhas dos modelos de desenvolvimento. A multiplicação das obras hídricas não levou em conta em geral as necessidades da maioria da população e visou essencialmente ao favorecimento de determinadas atividades econômicas, como o agronegócio e setores industriais hidrointensivos.



A maior dessas usinas, localizada no Complexo do Pecém, no Ceará, é capaz de consumir até 800 litros de água por segundo, o equivalente ao consumo de uma cidade de meio milhão de habitantes, além de emitir mais CO2 do que todo o setor de transportes do Estado
É particularmente gritante a instalação de termelétricas fósseis na região que tem a maior vocação para geração de eletricidade a partir das fontes solar e eólica. Sugere um misto de irresponsabilidade, ignorância e, sobretudo, atendimento a lobbies corporativos e interesses econômicos escusos. A maior dessas usinas, localizada no Complexo do Pecém, no Ceará, é capaz de consumir até 800 litros de água por segundo, o equivalente ao consumo de uma cidade de meio milhão de habitantes, além de emitir mais CO2 do que todo o setor de transportes do Estado, conforme dados do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa).


O pesadelo só se amplia, com a chegada de uma siderúrgica (a CSP, Companhia Siderúrgica do Pecém) e os planos de implantação de uma refinaria e uma mina de urânio.



Por fim, mas não menos importante, já que mencionamos as emissões de dióxido de carbono, precisamos falar das mudanças climáticas. Uma lei física muito simples (conhecida por nós, cientistas, como a equação de Clausius-Clapeyron) diz que uma atmosfera mais quente é capaz de armazenar mais vapor d’água e que a implicação direta disso é que, em mundo mais quente, as secas extremas, assim como as tempestades severas, se tornarão mais intensas e mais frequentes. As projeções climáticas para o Nordeste brasileiro apontam em geral para um clima mais seco, mesmo que a precipitação total média não se reduza, com a evaporação e evapotranspiração acompanhando a escalada das temperaturas. Embora ainda não se tenha o conhecimento científico necessário para estabelecer isso, é possível que estejamos em plena alteração da “normal climatológica” para a região.



É possível até que a perda acelerada de gelo no hemisfério norte, que já começa a alterar as correntes do Atlântico, interferindo na distribuição de calor, tenha alguma conexão com condições recorrentes de seca, já que a posição da Zona de Convergência Intertropical – principal sistema das chuvas na porção setentrional do Nordeste – é fortemente ditada pelos padrões térmicos oceânicos.


O Nordeste precisa se preparar para enfrentar as mudanças globais do clima e os desafios locais de justiça socioambiental. Precisa cuidar de seus aspectos mais vulneráveis: preservar o bioma singular da caatinga, fundamental para manter solo e rios; zelar pelos seus estoques hídricos em todas as escalas (das cisternas aos maiores reservatórios) e utilizá-los de forma parcimoniosa; reavaliar o modelo de desenvolvimento, privilegiando a agricultura familiar e cadeias industriais de baixo impacto ambiental e hídrico.



E pode também fazer valer suas virtudes e vocações: fortalecer a resiliência das comunidades, aprendendo não apenas com o conhecimento acadêmico, mas também pela sabedoria dos povos tradicionais; aproveitar as fontes energéticas renováveis, especialmente a solar, aliando seu potencial de geração de empregos (atestada pelo relatório do Departamento de Energia dos EUA que mostra que a solar responde por nada menos que 43% da mão-de-obra empregada naquele país em geração de eletricidade) com a economia de água e corte nas emissões de CO2.

Republicado do Observatório do Clima através de parceria de conteúdo.

Vaquita marinha está a um passo da extinção


Por Sabrina Rodrigues
Vaquita marinha. Foto: Paula Olson/Wikipedia.
Vaquita marinha. Foto: Paula Olson/Wikipedia.


Também conhecido como o boto-do-pacífico, a vaquita, espécie endêmica do Golfo da Califórnia, está prestes a desaparecer, se nada for feito para rever a atual situação em que se encontra. O mais recente relatório publicado pelo Comitê Internacional para a Recuperação da Vaquita (CIRVA) afirmou que em um ano o número de vaquitas caiu pela metade: havia 60 cetáceos em 2016, agora só restam 30. O Fundo Mundial para a Natureza no México (WWF- MX) descreveu a situação como dramática e pediu ao governo mexicano para proibir imediatamente a pesca ilegal dentro do habitat desses animais.



O relatório da CIRVA afirmou ainda que houve um declínio de mais de 90% nos últimos 5 anos. O governo mexicano contestou os dados do novo relatório e questionou o método utilizado pelo grupo para calcular o atual tamanho da população de vaquitas.



A vaquita (Phocoena sinus) é um cetáceo da família Phocoenidae. O animal se parece com um golfinho e mede aproximadamente um metro e meio e chega a pesar uns 50 quilos. É o menor cetáceo do mundo.


Fonte: El País

DECLARAÇÃO DE QUÉBEC Sobre a preservação do "Spiritu loci"

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INTRODUÇÃO 

Reunião na histórica cidade de Québec (Canadá) de 29 de setembro a 4 de outubro, 2008, a  convite do ICOMOS, Canadá, na ocasião da 16ª Assembléia Geral do ICOMOS e dos festejos  do aniversário de 400 anos da fundação de Québec.


 Os participantes assumem a seguinte Declaração de princípios e recomendações para a  preservação  do  spiritu  loci  através  da  proteção  do  patrimônio  tangível  e  intangível,  considerado uma forma inovadora e eficiente de assegurar o desenvolvimento sustentável e  social no mundo inteiro.

REPENSANDO O ESPIRITO DO LUGAR 


1. Reconhecendo que o espírito do lugar é composto por elementos tangíveis (sítios,  edifícios, paisagens, rotas, objetos) bem como de intangíveis (memórias, narrativas,  documentos  escritos,  festivais,  comemorações,  rituais,  conhecimento  tradicional,  valores, texturas, cores, odores, etc.) e que todos dão uma contribuição importante  para formar o lugar e lhe conferir um espírito, declaramos que o patrimônio cultural  intangível confere um significado mais rico e mais completo ao patrimônio como um  todo, e deve ser considerado em toda e qualquer legislação referente ao patrimônio  cultural e em todos os projetos de conservação e restauro para monumentos sítios,  paisagens, rotas e acervos de objetos.

 2. Considerando que o espírito do lugar é complexo e multiforme, exigimos que os  governos  e  outros  interessados  convoquem  a  perícia  de  equipes  de  pesquisa  multidisciplinar e especialistas com tradição para melhor compreender, preservar e  transmitir este espírito do lugar.


3. Como  o  espírito  do  lugar  é  um  processo  em  permanente  reconstrução,  que  corresponde  à  necessidade  por  mudança  e  continuação  das  comunidades,  nós  afirmamos que pode variar ao longo do tempo e de uma cultura para outra, em  conformidade  com  suas  práticas  de  memória,  e  que  um  lugar  pode  ter  vários  espíritos e pode ser compartilhado por grupos diferentes.



IDENTIFICANDO AS AMEAÇAS AO ESPÍRITO DO LUGAR 



4. Considerando  que  mudança  climática,  turismo  em  massa,  conflitos  armados  e  desenvolvimento  urbano  induzem  transformações  e  ruptura  das  sociedades,  precisamos  melhorar  nosso  entendimento  sobre  estas  ameaças  para  poder  estabelecer medidas preventivas e soluções sustentáveis.  Recomendamos  que  entidades  governamentais  e  não  governamentais  e  organizações do patrimônio local e nacional desenvolvam planejamento estratégico a  longo prazo para prevenir a degradação do espírito do lugar e seu entorno. Os  habitantes  e  autoridades  locais  deveriam  também  ser  conscientizados  sobre  a  proteção do espírito do lugar, para que assim estejam melhor preparados a lidar com  as ameaças de um mundo em transformação.


5. À medida que aumenta o compartilhamento dos lugares empossados com diferentes  espíritos  por  vários  grupos,  aumenta  o  risco  de  competição  e  conflito.   Reconhecemos  que  estes  sítios  requerem  gestão,  planejamento  e  estratégias  específicas,  ajustadas  ao  contexto  pluralístico  das  sociedades  multiculturais  modernas.  


Como as ameaças ao espírito do lugar são especialmente poderosas entre grupos  minoritários, sejam nativos ou recém‐chegados, recomendamos que estes grupos  sejam  os  primeiros  e  mais  importantes  a  se  beneficiar  de  políticas  e  práticas  específicas.



PROTEGENDO O ESPIRITO DO LUGAR 


6. Como hoje em dia na maioria dos países do mundo o espírito do lugar, sobretudo  seus  componentes  intangíveis,  atualmente  não  se  beneficiam  de  programas  de  educação formal ou de proteção legal, recomendamos a implementação de reuniões  e  consultorias  com  peritos  de  diferentes  origens  e  recursos,  pessoas  das  comunidades locais, e o desenvolvimento de programas de treinamento e políticas  jurídicas para uma melhor proteção e promoção do espírito do lugar.


7. Considerando que modernas tecnologias digitais (bancos de dados, websites) podem  ser  usadas  eficaz  e  efetivamente  a  um  custo  muito  baixo  para  desenvolver  inventários  multimídia  que  integrem  elementos  tangíveis  e  intangíveis  do  patrimônio, nós incisivamente recomendamos seu amplo uso para melhor preservar,  disseminar  e  promover  os  sítios  do  patrimônio  e  seu  espírito.  Estas  tecnologias  facilitam a diversidade e renovação constante da documentação sobre o espírito do  lugar.


TRANSMITINDO O ESPIRITO DO LUGAR


8. Reconhecendo que o espírito do lugar é essencialmente transmitido por pessoas e  que a transmissão é parte importante de sua conservação, declaramos que é por  meio de comunicação interativa e participação das comunidades envolvidas que o  espírito do lugar é preservado e realçado da melhor forma possível. A comunicação  é, de fato, a melhor ferramenta para manter vivo o espírito do lugar.


9. Dado  que  geralmente  as  comunidades  locais  estão  mais  bem  posicionadas  para  compreender o espírito do lugar, sobretudo no caso de grupos culturais tradicionais,  nós afirmamos que são também aquelas melhor equipadas para sua salvaguarda e  que estas devem estar intimamente associadas em todos os esforços para preservar  e  transmitir  o  espírito  do  lugar.   Meios  de  transmissão  não‐formais  (narrativas,  rituais,  atuações,  experiência  e  práticas  tradicionais  etc.)  e  formais  (programas  educativos,  bancos  de  dados  digitais,  websites,  ferramentas  pedagógicas,  apresentações  multimídia,  etc.)  deveriam  ser  fomentados,  porque  não  apenas  garantem  a  proteção  do  espírito  do  lugar  mas,  acima  de  tudo,  protegem  o  desenvolvimento sustentável e social da comunidade.


10. Reconhecendo  que  a  transmissão  intergeracões  e  transcultural  desempenha  um  papel importante na disseminação sustentada e na preservação do espírito do lugar,  recomendamos a associação e o envolvimento das gerações mais novas, bem como  de grupos culturais diferentes associados ao lugar, na tomada de decisões políticas e  gestão do espírito do lugar.