Por Alexandre Costa
- quarta-feira, 08 fevereiro 2017 23:56
Carcaça de vaca no interior da Bahia durante a seca recorde.
Foto: Marcelo Casal Jr./Agência Brasil.
As carcaças de cágados no
piso seco do Cedro,
primeiro grande açude do Ceará, construído ainda no século 19, são uma
imagem triste e impactante desta que já é a maior seca do registro
histórico no Estado, iniciado em 1910 (e provavelmente na região
Nordeste como um todo).
Com efeito, o período de 2012 até 2016
igualou-se ao de 1979 a 1983 como a mais prolongada sequência de anos
com chuvas abaixo do normal em território cearense e a média de cinco
anos é a menor jamais registrada (521 mm, contra 566 mm para 1979-1983).
No Nordeste como um todo, segundo a Agência Nacional de Águas, a seca
excepcional, de categoria máxima (a mais intensa da classificação, com
perdas generalizadas na agropecuária, comprometimento dos corpos
hídricos e impactos de longo prazo sobre o ecossistema) se alastrou por
todos os Estados, do Maranhão à Bahia.
Graças à combinação de ações de convivência com o semiárido (como o
programa de cisternas), programas sociais e intervenções de
infraestrutura hídrica, os maiores dramas históricos do Nordeste, a
migração em massa e os saques, ainda não se manifestaram, pelo menos não
na escala vista até mesmo há poucas décadas. Mas isso não quer dizer
que a situação não seja grave.
A economia tem sido brutalmente afetada,
com perdas acumuladas, só de 2012 a 2015, da ordem de R$ 104 bilhões e
um
recuo médio no PIB de 4,3% ao ano.
O colapso hídrico já atingiu não apenas comunidades rurais, mas
inúmeras cidades do interior, como foi o caso de Crateús, onde filas
intermináveis se formaram para que as famílias tivessem acesso à água de
um poço com dessalinizador, no limite de 40 litros por família por dia,
quantidade bastante
aquém da recomendação da Organização Mundial da Saúde para beber, cozinhar e fazer higiene
Hoje, o colapso ronda as metrópoles da região. O monitoramento do
Instituto Nacional do Semiárido (Insa) e do
Portal Hidrológico do Ceará mostra
que a maior parte dos açudes encontra-se abaixo dos 10% em volume,
incluindo os reservatórios de grande porte, críticos para o
abastecimento urbano em larga escala. É o caso do Castanhão, principal
fonte de abastecimento para a Região Metropolitana de Fortaleza, cujo
estoque de água corresponde a meros 4,9% do seu volume, assim como do
Banabuiú, terceiro maior reservatório cearense (0,4%) e do Boqueirão
(4,1%), importante açude paraibano. Em situação não muito melhor estão o
Armando Ribeiro Gonçalves (Rio Grande do Norte, com 13,7%), e o Orós
(Ceará, 11,6%).
Para recompor os estoques hídricos da região, seria necessária uma
sequência de anos de chuva acima da média (além de medidas restritivas
ao uso na indústria e grande agricultura) Como se não fosse o bastante,
os prognósticos para a estação chuvosa de 2017 não estão se mostrando
favoráveis. Pelo contrário: segundo
dados divulgados nesta semana pelo
Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTIC), a probabilidade de chuva
abaixo do normal entre fevereiro e abril no Nordeste é de 40%, contra
35% para chuvas na média e 25% para chuvas acima da média. Segue o seco.
Eventos extraordinários como esse dificilmente podem ser associados a
uma única causa. É verdade que o Nordeste setentrional é
particularmente sensível à variabilidade climática natural, com as
chuvas tendendo a diminuir ou aumentar de acordo com os padrões de
temperatura oceânica no Pacífico e Atlântico. No momento, os modos de
variabilidade de longo prazo em ambos os oceanos estão em fase
desfavorável para as chuvas na região. Embora a chamada variabilidade
interanual permaneça, essa variabilidade de mais longo prazo (decadal a
multidecadal) a modula, aumentando probabilidades maiores de ocorrência
de eventos de El Niño, no Pacífico, e de aquecimento anômalo na porção
norte da bacia do Atlântico, em ambos os casos contribuindo para a
redução das precipitações.
A degradação ambiental na escala local, com o desmatamento
comprometendo matas ciliares e nascentes e assoreando rios e
reservatórios também precisa ser colocada nessa contabilidade. Uma
inadequada e insuficiente política de resíduos e saneamento contribui
também para o comprometimento da qualidade da água na região.
Mas é preciso dizer que a vulnerabilidade da região é amplificada por
conta das escolhas dos modelos de desenvolvimento. A multiplicação das
obras hídricas não levou em conta em geral as necessidades da maioria da
população e visou essencialmente ao favorecimento de determinadas
atividades econômicas, como o agronegócio e setores industriais
hidrointensivos.
A
maior dessas usinas, localizada no Complexo do Pecém, no Ceará, é capaz
de consumir até 800 litros de água por segundo, o equivalente ao
consumo de uma cidade de meio milhão de habitantes, além de emitir mais
CO2 do que todo o setor de transportes do Estado
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É particularmente gritante a instalação de termelétricas fósseis na
região que tem a maior vocação para geração de eletricidade a partir das
fontes solar e eólica. Sugere um misto de irresponsabilidade,
ignorância e, sobretudo, atendimento a lobbies corporativos e interesses
econômicos escusos. A maior dessas usinas, localizada no Complexo do
Pecém, no Ceará, é capaz de consumir até 800 litros de água por segundo,
o equivalente ao consumo de uma cidade de meio milhão de habitantes,
além de emitir mais CO
2 do que todo o setor de transportes do Estado, conforme
dados do SEEG (Sistema
de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa).
O pesadelo só se
amplia, com a chegada de uma siderúrgica (a CSP, Companhia Siderúrgica
do Pecém) e os planos de implantação de uma refinaria e uma mina de
urânio.
Por fim, mas não menos importante, já que mencionamos as emissões de
dióxido de carbono, precisamos falar das mudanças climáticas. Uma lei
física muito simples (conhecida por nós, cientistas, como a equação de
Clausius-Clapeyron) diz que uma atmosfera mais quente é capaz de
armazenar mais vapor d’água e que a implicação direta disso é que, em
mundo mais quente, as secas extremas, assim como as tempestades severas,
se tornarão mais intensas e mais frequentes. As projeções climáticas
para o Nordeste brasileiro apontam em geral para um clima mais seco,
mesmo que a precipitação total média não se reduza,
com a evaporação e evapotranspiração acompanhando a escalada das
temperaturas. Embora ainda não se tenha o conhecimento científico
necessário para estabelecer isso, é possível que estejamos em plena
alteração da “normal climatológica” para a região.
É possível até que a perda acelerada de gelo no hemisfério norte, que
já começa a alterar as correntes do Atlântico, interferindo na
distribuição de calor, tenha alguma conexão com condições recorrentes de
seca, já que a posição da Zona de Convergência Intertropical –
principal sistema das chuvas na porção setentrional do Nordeste – é
fortemente ditada pelos padrões térmicos oceânicos.
O Nordeste precisa se preparar para enfrentar as mudanças globais do
clima e os desafios locais de justiça socioambiental. Precisa cuidar de
seus aspectos mais vulneráveis: preservar o bioma singular da caatinga,
fundamental para manter solo e rios; zelar pelos seus estoques hídricos
em todas as escalas (das cisternas aos maiores reservatórios) e
utilizá-los de forma parcimoniosa; reavaliar o modelo de
desenvolvimento, privilegiando a agricultura familiar e cadeias
industriais de baixo impacto ambiental e hídrico.
E pode também fazer valer suas virtudes e vocações: fortalecer a
resiliência das comunidades, aprendendo não apenas com o conhecimento
acadêmico, mas também pela sabedoria dos povos tradicionais; aproveitar
as fontes energéticas renováveis, especialmente a solar, aliando seu
potencial de geração de empregos (atestada pelo
relatório do Departamento de Energia dos EUA que
mostra que a solar responde por nada menos que 43% da mão-de-obra
empregada naquele país em geração de eletricidade) com a economia de
água e corte nas emissões de CO
2.
Republicado do Observatório do Clima através de parceria de conteúdo.