quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Grupo financia conservação do único felino endêmico do Brasil

Grupo financia conservação do único felino endêmico do Brasil

Por Carolina Lisboa
Gato-do-mato-pequeno (Leopardus emiliae). Foto: Projeto Caatinga Potiguar (UFRN-WCS).
Gato-do-mato-pequeno (Leopardus emiliae). Foto: Projeto Caatinga Potiguar (UFRN-WCS).

Dentre os felinos neotropicais, o gato-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus) é um dos menos conhecidos e mais ameaçados, classificado como Em Perigo (EN) de extinção pela Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção e Vulnerável (VU) pela Lista Vermelha da IUCN. As populações do Nordeste, Norte e Centro-Oeste foram recentemente descritas como uma espécie distinta, Leopardus emiliae, o que torna ainda mais urgente as ações para a conservação desta nova, endêmica e desconhecida espécie.

Apesar do pequeno porte, de 2,4 kg em média, o felino enfrenta grandes problemas. A Caatinga, onde está concentrada a maior quantidade de registros da espécie, possui apenas 2% de sua área coberta por Unidades de Conservação (UCs) de proteção integral, e mais de 45% da sua cobertura vegetal original já foi perdida ou fragmentada. A exploração dos recursos do semiárido por uma população humana de 23 milhões de habitantes vêm ameaçando a espécie, que é vítima da pecuária extensiva, extração de lenha, caça predatória, atropelamentos e retaliação por se alimentarem dos animais de criação em áreas rurais.

Esta situação crítica levou um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte a reunir esforços para a conservação do gato-do-mato-pequeno. Desde 2013, os pesquisadores vêm estudando sua distribuição e identificando áreas prioritárias no estado, além de desvendar as principais ameaças a essas populações. Os primeiros resultados foram publicados recentemente numa importante revista científica da área de mastozoologia.


Segundo o biólogo Paulo Henrique Marinho, coordenador do projeto, os esforços até o momento foram concentrados em conhecer a espécie em áreas privadas. “As áreas privadas são importantes por serem onde está a maior parte do que resta da Caatinga. Agora pretendemos focar nossas ações em uma importante UC do Bioma, para garantir mais efetividade nas ações de conservação da espécie”, frisou ele.
Foto: Projeto Caatinga Potiguar (UFRN-WCS).
Foto: Projeto Caatinga Potiguar (UFRN-WCS).

Recentemente, o grupo recebeu um reforço do The Mohamed bin Zayed Species Conservation Fund, um fundo privado e filantrópico que financia iniciativas de conservação de espécies no mundo inteiro, por meio do projeto “Ecologia e conservação do gato-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus) no Parque Nacional de Furna Feia, na Caatinga semiárida brasileira”.

O financiamento prevê um monitoramento de longo prazo que possibilitará o desenvolvimento de estratégias de conservação do gato-do-mato, por meio da definição de seu status populacional, preditores de ocorrência e percepção humana sobre a espécie. Os resultados do projeto também subsidiarão o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Pequenos Felinos do ICMBio e o Plano de Manejo do Parna Furna Feia, que se encontra em elaboração.


De acordo com Paulo Marinho, a equipe de pesquisadores irá atuar junto com a gestão do Parque Nacional para conhecer a população de gatos que existe ali e traçar estratégias para mantê-la. “Mas para isso, precisamos de recursos, e o The Mohamed bin Zayed Fund entrou com seu aporte financeiro e credibilidade, nos tornando um dos 1.676 projetos apoiados por eles, que envolvem 1.132 espécies e subespécies”, explicou.


Os estudos serão desenvolvidos no Furna Feia, o primeiro e único Parque Nacional do Rio Grande do Norte, criado em 2012. O Parque possui 8.517,63 hectares e está localizado entre os municípios de Baraúna e Mossoró. A UC protege importantes fragmentos de Caatinga, além de conter um valioso patrimônio espeleológico e arqueológico.
Foto: Projeto Caatinga Potiguar (UFRN-WCS).
Foto: Projeto Caatinga Potiguar (UFRN-WCS).

MPF entra com ação para ICMBio fazer plano de manejo de Floresta

MPF entra com ação para ICMBio fazer plano de manejo de Floresta

Por Sabrina Rodrigues*

A Floresta Nacional Mário Xavier fica no município de Seropédica, Rio de Janeiro. Foto: Gian Cornachini/Flickr.
A Floresta Nacional Mário Xavier fica no município de Seropédica, Rio de Janeiro. 
Foto: Gian Cornachini/Flickr.

O Ministério Público Federal no Rio de Janeiro (MPF/RJ) ingressou com ação civil pública contra o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para que seja elaborado e apresentado um plano de manejo para a Floresta Nacional (Flona) Mário Xavier, localizada no município de Seropédica, Rio de Janeiro. O MPF estabeleceu o prazo máximo de dezoito meses para que o plano seja concluído.

Documento importante para a gestão e para estabelecer o uso sustentável dos recursos naturais em uma unidade de conservação, o plano de manejo está previsto na Lei 9.985/2000. O MPF ressalta a importância de se elaborar o plano de manejo da unidade. “O atual panorama na Floresta não corresponde à sua importância ambiental. A expansão urbana e as grandes obras são as maiores pressões sobre a unidade de conservação, diante disso, é necessária a ação judicial para assegurar a preservação da unidade”, afirma o procurador da República Sérgio Suiama.

O MPF informa que buscou resolver a questão por meio de uma recomendação feita em julho de 2015 para que o ICMBio elaborasse, no prazo de 60 dias, o Plano de Manejo da Flona, mas que nenhuma providência foi tomada pelo Instituto.

Administrada pelo ICMBio, a Flona Mário Xavier foi criada em 1986 através do Decreto Federal nº 93369. Com aproximadamente 495 hectares, a Floresta abriga espécies de aves, anfíbios e pequenos mamíferos.

Até o encerramento desta matéria, o ICMBio não retornou contato.

A Assessoria de Comunicação do MPF Rio de Janeiro não soube informar qual a pena aplicada caso o ICMBio não cumpra o estabelecido.

*Com informações da Assessoria de Comunicação do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro

“Não podemos repetir Copenhague”, diz brasileiro

“Não podemos repetir Copenhague”, diz brasileiro

Por Claudio Angelo e Luciana Vicária, do Observatório do Clima*
O embaixador José Marcondes (centro) dá entrevista na conferência de Fiji. Foto: Cristina Amorim/Ipam.
O embaixador José Marcondes (centro) dá entrevista na conferência de Fiji. Foto: Cristina Amorim/Ipam.


Acabou o amor. Em sua primeira entrevista coletiva na COP23, o negociador-chefe do Brasil, José Antonio Marcondes, evocou a fracassada cúpula do clima de Copenhague, em 2009, para queixar-se de tentativas de alguns países desenvolvidos de mudar as regras de ajuda financeira climática às nações em desenvolvimento e sua recusa em prorrogar o Protocolo de Kyoto até 2020. Os dois movimentos, segundo o embaixador brasileiro, trazem para a conferência de Fiji-Bonn o risco de fracasso na implementação rápida do Acordo de Paris.


“Não podemos correr o risco de repetir Copenhague, onde o mundo fracassou em concordar sobre a ação climática”, disse Marcondes. “Levamos seis anos para refazer o que falhamos em fazer em Copenhague.”


A irritação diplomaticamente manifestada pelo brasileiro indica o fim do clima de entendimento que havia entre os países ricos e pobres em 2015, quando o Acordo de Paris foi firmado. Ele cede lugar em 2017 em Bonn à velha polarização Norte-Sul que empatou as negociações de clima por 20 anos e levou Copenhague ao naufrágio. “Não podemos destruir as pontes que construímos com tanto cuidado em Paris”, afirmou o brasileiro.
Quem abala a ponte, para variar, é o dinheiro.


O Brasil e outros países emergentes vêm denunciando uma suposta tentativa dos países desenvolvidos de criar uma diferenciação entre os pobres da Terra na hora de conceder financiamento no Fundo Verde do Clima. Segundo Marcondes, há um movimento dos países desenvolvidos de “criar gradações entre países ou de restringir a possibilidade de alguns países de renda média a alta” de acessar mecanismos como o Fundo Verde do Clima, principal instrumento financeiro a auxiliar o Acordo de Paris.


Na última reunião do Fundo Verde do Clima, em outubro, o Reino Unido vetou um projeto conjunto da Argentina e do Paraguai, alegando, entre outras coisas, tratar-se de países de renda média. Questionado pelo OC, o enviado especial do Reino Unido para Mudança Climática, Nick Bridge, disse que o problema era de qualidade dos projetos.


Para os emergentes, a restrição a financiá-los não faz sentido, já que são justamente esses países – China, Índia, Brasil, Turquia, Indonésia e México, entre outros – os que mais emitem gases de efeito estufa, e onde os financiamentos poderiam ter o maior impacto.
Sem acordo sobre dinheiro, toda a conversa sobre o livro de regras do Acordo de Paris, que deveria ser rascunhado em Bonn nesta semana e na próxima, fica prejudicada.


O embaixador brasileiro também reclamou do fato de os países desenvolvidos estarem querendo silenciosamente enterrar o Protocolo de Kyoto, o acordo morto-vivo do clima que estabelece obrigações apenas para os países desenvolvidos. O mundo concordou na COP18, em Doha, em 2012, a prorrogar Kyoto até 2020. A extensão do protocolo, embora tenha efeito muito reduzido sobre o clima, permitiria manter o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, pelo qual o Brasil capta recursos internacionais para projetos em energia, por exemplo. Até hoje os países ricos não ratificaram a extensão, catimbando até que Paris esteja implementado para deixar Kyoto morrer.

O Brasil justifica seu apego a Kyoto na forma de “ação acelerada”, dada a “urgência” da crise climática. “Nós favorecemos a ação acelerada antes de 2020, e estamos pedindo a todos os países que ratifiquem a emenda de Doha. Nesta COP estamos decepcionados com o fato de que nem todos os países têm estado em posição de fazê-lo, o que dá margem a todo tipo de questionamento.”


Saia Justa
Na conversa com os jornalistas, o embaixador perdeu a diplomacia ao responder a uma pergunta de uma jornalista da revista Malta Business Weekly. Ela pediu que Marcondes falasse sobre a proteção “do que resta da floresta amazônica”.


“A senhora provavelmente nunca esteve no Brasil, ou não recentemente”, atacou Marcondes, em inglês. Fora do microfone, a jornalista retrucou, em português: “Estive, sim”! O negociador brasileiro, então, prosseguiu: “A floresta está de pé, tem uma cobertura bem vasta e temos capacidade de conservá-la.” Marcondes comparou a queda do desmatamento em 2016 se comparado ao recorde de 2004 – embora o desmatamento tenha acelerado após 2012 e só voltado a desacelerar em 2016 – e reforçou o comprometimento do Brasil com a redução da derrubada da floresta.


Em seguida, foi questionado sobre a MP do Trilhão, o subsídio de centenas de bilhões de dólares ao setor de óleo e gás proposto pelo governo Temer. “Estamos monitorando isso com cuidado”, desconversou.
*Colaborou Cristina Amorim, do Ipam.

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MP 795, subsídio na contramão


Por Alfredo Sirkis

Exploração de petróleo na Bacia de Santos. Fonte: Rodrigo Paiva, Greenpeace.
Exploração de petróleo na Bacia de Santos. Fonte: Rodrigo Paiva, Greenpeace.


A austeridade, no Brasil, tem sido feroz. Até as doações obtidas a fundo perdido para a proteção do meio ambiente, como aquelas do Fundo Amazônia, quando se destinam a órgãos públicos, vão caindo sob os efeitos do "contingenciamento”, como se orçamento fossem. Acabam congeladas. 


Uma austeridade feroz…e burra. Pois tem a chancela do arauto dessa austeridade, a do ministro Henrique Meireles, o maior desperdício da nossa história encarnado na MP 795/17, que dá de mão beijada à indústria do petróleo quase um trilhão de reais em subsídios, até 2040. 


A MP original foi enviada sorrateiramente, sem consulta, em agosto, ao Ministério do Meio Ambiente, e demorou em ser identificada na sua maligna enormidade. O relator, deputado Júlio Lopes, conseguiu piorá-la ainda mais estendendo sua vigência. Agora ela precisa ser votada até dezembro para não seguir para seu lugar merecido, a lata de lixo da história. Por isso,  há quem queira votá-la agora, possivelmente para melhor queimar o filme da Brasil na COP 23, em Bonn.


“O petróleo encontra-se no limiar de uma lenta, mas profunda implosão.”

O petróleo encontra-se no limiar de uma lenta, mas  profunda implosão. Antes mesmo da decisão da indústria automobilística global de entrar de cabeça na era da eletrificação, o seu preço já se estabilizara num patamar baixo pelo excesso de oferta que os recentes cortes de produção da OPEP não remediaram. Sua agonia certamente será mais lenta e longa que a do carvão, mas é inevitável, inexorável. Até porque para a humanidade ter a menor chance de conter a temperatura do planeta abaixo dos dois graus Celsius – quanto mais 1.5° C –  será preciso manter enterrados cerca de 60% das atuais reservas identificadas. Futuramente esse petróleo não extraído possivelmente terá valor enquanto stranded asset: recurso interdito. 


Cientes dessa situação,  grandes produtores como a Noruega, mas também a própria Arábia Saudita, buscam vários tipos alternativas para um futuro menos “petrodependente”. Mas no Brasil, esse país de fantasia que se julga o futuro Texas do início século 20, ainda imagina-se poços off shore do pré-sal, como um novo Eldorado. Ufanemo-nos brasileiros que esse ainda será um grande motor do nosso desenvolvimento. Voltaremos ao Poço do Visconde, de Monteiro Lobato. Podes crer, Jeca Tatu…


“Essa confiança cega na perenidade do combustível fóssil não chega ao ponto de admitir o “livre jogo” do capitalismo como senhor do seu destino”.
Essa confiança cega na perenidade do combustível fóssil não chega ao ponto de admitir o “livre jogo” do capitalismo como senhor do seu destino. Não confia mais no próprio taco. Duvida de suas peremptórias verdades, mas não dá o braço a torcer. Um pânico interior o faz se pendurar, mais uma vez, qual playboy perdulário, na bolsa da Viúva. 


Um país em profunda recessão, submetido a essa feroz austeridade que enxota até as doações recebidas para sublinhar sua radicalidade, deverá subsidiar generosa e duradouramente essa indústria, não obstante sua prometida obsolescência e, não obstante, o consenso internacional sublinhado até pelo FMI de que é fundamental ir acabando com todo tipo de subsídios a combustível fóssil. Globalmente são mais de 650 bilhões anuais em subsídios diretos e mais de 5 trilhões indiretos, o que inclui os custos de saúde e outros de suas externalidades negativas climáticas e ambientais locais, nas quais se inclui sete milhões de mortes prematuras, em todo planeta,  por conta do ar poluído. Não há mais o que dizer sobre a MP 795 a não ser que seu lugar é na lata de lixo da história.
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A COP do Sísifo

A COP do Sísifo

Por Alfredo Sirkis gifsimpsonsDe Bonn - É recorrente às COPs essa sensação de estar girando em falso, de muita conversa pouca ação e menos ainda resultado. Há conferências onde se sente um pequeno progresso palpável, aquém do necessário, mas progresso, afinal. Ele nem sempre vem do processo negociador, 

frequentemente de algum avanço político em um país importante ou um registro de redução de emissões global ou nacional. Nada disso acontece na COP23. Sua pauta nada tem de muito substantivo, trata-se de esmiuçar a aplicação do Acordo de Paris, o manual de implementação de suas regras, a discussão de como discutir. No entanto, o contexto político e científico internacional produz más notícias que são reverberadas dentro da COP.


Vínhamos acompanhando com interesse a possibilidade de as emissões por queima de combustível fóssil terem atingido o seu “pico” em 2013 já que elas vinham estáveis — e até com uma ligeira queda– coincidindo com anos de crescimento do PIB mundial. Isso é importante pois já havíamos tido, no passado, que a redução de emissões de CO2 mundiais ocorre sempre em anos recessivos. Dessa vez havia algo diferente. 


Agora, cientistas do Carbon Budget Project anunciam uma projeção de aumento de 2% das emissões, em 2017, o que seria o primeiro aumento, no agregado, desde a estabilização. Isso teve um efeito de ducha fria; corresponderia a um aumento de emissões de mais de 3%, na China, dado o uso mais intenso de suas térmicas a carvão por causa da seca que afetou as hidroelétricas (algo com tendência a se repetir) e de uma redução menor das emissões nos EUA, onde o “efeito Trump” ainda não apareceu, mas poderá, mais adiante, se intensificar em função da desregulamentação das normas nacionais da EPA (Agência Ambiental Federal).

Cabem certas ressalvas. A primeira é que o ano não acabou. Além disso, a fonte que vem registrando com precisão as emissões de CO2, por queima de combustível fóssil, é a Agência Internacional de Energia (IEA), de modo que, para seguirmos a série histórica, teríamos que ter seus dados mais antigos, e não compará-los com o de fontes diferentes. Por outro lado, as emissões por energia são a parte do leão dos gases-estufa. Teríamos que acrescentar as emissões por desmatamento que, em 2015 e 2016, aumentaram no Brasil e na Indonésia, e as “exponenciais” provenientes da decrescente capacidade dos oceanos e das florestas de absorverem carbono, das geleiras derretendo e do permafrost liberando metano (CH4).
 
“Trump parece muito isolado, mas acaba inspirando outros países carvoeiros como a Polônia, que agora canta de galo mais alto com seu governo de extrema-direita, disposto a resistir mais às pressões europeias.”.
 
Tanto que, apesar dessa estabilização nos relatórios de emissões de CO2/energia, a concentração de gases-estufa na atmosfera medidas em partes por milhão (ppm) continuaram a subir em todo esse período. Já andamos pelos 401 ppm e em alguns observatórios já se detectaram concentrações de 407 ppm.

Lidamos com uma situação geopolítica adversa. Trump parece muito isolado, mas acaba inspirando outros países carvoeiros como a Polônia, que agora canta de galo mais alto com seu governo de extrema-direita, disposto a resistir mais às pressões europeias. A próxima COP, que irá abrir a discussão da descarbonização de longo prazo, a COP 24, será em Katovice, o locus de uma enorme siderúrgica da época do comunismo, a Huta Katovicza, em uma região cuja economia ainda depende bastante do carvão. Não vai surpreender ninguém se ocorrerem, no ano que vem, manifestações carvoeiras contra a COP, com crucifixos e fotos do Trump, desprezado ao redor do planeta, mas admirado na Polônia que assim irá sediar — sabe-se Deus o porquê– sua terceira COP.

Um dado interessante em Bonn atual vem sendo o ativismo do governador Jerry Brown, que junto com seu antecessor, Arnold Schwarzenegger, vem estrelando numerosos eventos em representação do que eu chamaria de U(d)SA: United Decarbonizing States of America, que formam a quinta economia do mundo. Brown negocia diretamente com a China, agita incessantemente as plateias, mas deixa transparecer uma certa angústia. No evento da IRENA que participei, mencionou o “duelo entre o pessimismo do intelecto e o otimismo do coração, de um pensador que não vou aqui mencionar”. Referia-se evidentemente ao filósofo italiano Antonio Gramsci, mas por prudência não nominou, para que a mídia não o acuse de comunista.
O clima da COP é de uma certa “deprê” e sua surpreendente falta de organização não ajuda muito. Distâncias enormes, péssima sinalização, grande perda de tempo o tempo todo. A proverbial organização alemã dessa vez não compareceu. Saudades de Marraquexe. Ah, os marroquinos, esses sim, sabiam como organizar uma COP…


Já o Brasil, preocupa. Poderia estar trazendo notícias como a inflexão do desmatamento na Amazônia que, depois de dois anos horríveis, apresenta agora queda de 16%, segundo o PRODES. O foco das atenções, no entanto, se dirige para a esdrúxula MP 759, tramitando no Congresso, que pode subsidiar a indústria de petróleo em quase um trilhão de reais até 2040. Laurance Tubiana, que co-presidiu a Conferência de Paris me perguntou: “Que loucura é essa? Isso é verdade???” Expliquei que ainda fazia parte das (más) intenções e que essa MP, se não for aprovada até dezembro, cai. Trata-se então de balançar o pé de jaca!

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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Folha de S. Paulo – Desmatamento agrega ao PIB apenas 0,013% ao ano, diz estudo

FABIANO MAISONNAVE
EM BONN (ALEMANHA)

Descrito como o "avanço da fronteira agrícola", o aumento da área desmatada na Amazônia acrescentou, em média, apenas 0,013% por ano ao PIB brasileiro na última década, segundo estudo apresentado por oito ONGs ambientalistas nesta segunda–feira (13), durante a Conferência do Clima, em Bonn (Alemanha).

De acordo com o relatório, que propõe um "mapa do caminho" para zerar o desmatamento, a área média derrubada por ano entre 2007 e 2016 (7.502 km²) teve o potencial de acrescentar anualmente cerca de R$ 453 milhões em valor bruto de produção agropecuária.

Responsável por esse cálculo, o pesquisador Paulo Barreto, da ONG Imazon, explica que o valor bruto da produção estimada pelo governo foi dividido pela área total desmatada. Na média, cada hectare desflorestado produziu R$ 604/ano.

O grande vilão é a pecuária extensiva. Além de ser responsável por 65% do desmatamento na Amazônia, a atividade tem uma lotação média de menos de uma cabeça por hectare. São 100 mil km² de pastos degradados na região, segundo dado do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) de 2014, área pouco maior do que Portugal.

Para o relatório, uma das evidências do desempenho econômico ruim está no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) baixo dos municípios amazônicos, vítimas da lógica do "boom–colapso".
"Num primeiro momento, o acesso fácil aos recursos naturais produz uma explosão de riqueza no município. Essa riqueza, contudo, fica concentrada nas mãos de poucos e vai se esgotando em poucos anos. O resultado final são cidades inchadas, com infraestrutura deficiente, sem empregos de qualidade e com concentração de renda", diz o estudo.

Além do pouco retorno econômico, o desmatamento contribui para o aquecimento global: as mudanças no uso da terra foram responsáveis por 51% das emissões de gases de feito estufa do Brasil no ano passado. Com isso, o país mantém a posição de sétimo maior poluidor mundial, segundo o Seeg (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa).

As ONGs cobram do governo metas mais ambiciosas do que a apresentada no Acordo de Paris, em 2015, quando qual o Brasil se comprometeu a acabar com o desmatamento ilegal até 2030.

"Levado ao pé da letra, o compromisso internacional do Brasil se resume meramente a cumprir a lei (num prazo de 15 anos) e remete–se a apenas a um bioma. O cerrado, alvo de grandes desmatamentos, não foi incluído na atual NDC [a contribuição pretendida por cada país para combater a mudança climática]", diz o estudo.

No lugar, as ONGs propõem diversas medidas divididas em quatro eixos: políticas públicas ambientais efetivas e perenes; incentivo a usos sustentáveis da floresta e melhores práticas agropecuárias; a restrição drástica do mercado para produtos associados a novos desmatamentos; e engajamento de eleitores, consumidores e investidores contra o desmatamento.

Entre as medidas apontadas está a criação de unidades de conservação nos 700 mil km² de terras públicas não destinadas, o equivalente a duas Alemanhas. No ano passado, ao menos 24% do desmatamento se concentrou em terras com essa classificação, alvo preferencial dos grileiros.
"Todos os elementos para alcançar o desmatamento zero já existem, como mostram as quedas até 2012. Mas ainda estamos desmatando em média 5 mil km² por ano. É muito", diz Paulo Moutinho, pesquisador sênior do Ipam, durante a apresentação do relatório, em Bonn.

As ONGs que subscrevem o relatório são: Ipam, ISA, Greenpeace, Imazon, Imaflora, WWF, ICV e The Nature Conservancy.


Valor Econômico – China puxa novo recorde nas emissões de CO2 neste ano

Valor Econômico – China puxa novo recorde nas emissões de CO2 neste ano


As emissões de dióxido de carbono pela queima de combustível fóssil voltaram a subir após três anos. Serão lançados neste ano na atmosfera 37 bilhões de toneladas de CO2, aumento de 2% em relação a 2016, devido principalmente ao crescimento econômico mais forte da China, segundo relatório do Global Carbon Project, consórcio internacional de pesquisa, divulgado ontem na Alemanha.

"Já deveríamos estar reduzindo as emissões globais para podermos alcançar [emissão] zero a tempo de manter a mudança climática sob controle", disse Corinne Le Quéré, professor da Universidade de East Anglia e principal autor do estudo. "Todo ano em que as emissões aumentam significa que teremos de reduzir mais as emissões [no futuro], ou teremos níveis mais altos de mudança climática."

Gases de carbono representam apenas 0,4% da atmosfera, mas são os principais do efeito estufa.

"O mundo ainda não alcançou o pico de emissões", diz o relatório. Ele aponta que as emissões de CO2 caíram em 22 países que respondem por 20% das emissões globais, mas aumentaram em 101 países que juntos representam 50% da poluição. Estima–se que a China – maior poluidora global – aumentará suas emissões em 3,5% neste ano. Uma das explicações para isso é que a desaceleração econômica da China na primeira parte desta década foi mais acentuada dos que os dados oficiais sugeriram.

Incluindo as emissões provocadas pelo desmatamento, 2017 deverá se igualar o recorde de missão de 41 bilhões de toneladas de CO2 registrado em 2015. A China será responsável por 28% desse total.

Os EUA, segundo maior poluidor, com 15% do total, reduziram suas emissões em 1,2% ao ano por uma década. Neste ano, o ritmo vai desacelerar para 0,4%, refletindo a alta no uso de petróleo e carvão. Em 2017, o consumo de carvão nos EUA deverá crescer pela primeira vez em cinco anos, cerca de 0,5%.

A alta nas emissões de CO2 sugere que o mundo está se afastando do rumo estabelecido pelo Acordo de Paris há dois anos, no qual os países concordaram em limitar o aumento na temperatura global em 20 C em relação ao período pré–industrial. Cientistas alertam que as promessas de redução de emissões dos países não bastam para o cumprimento dessa meta.

"As emissões estão seguindo o que os países prometeram, mas o que os países prometeram não está nem perto do suficiente para cumprir os objetivos de Paris", disse Glen Peters, coautor do relatório e diretor do Centro para Pesquisa de Mudança Climática em Oslo.

Valor Econômico – Na era Trump, EUA promovem o carvão na conferência do clima

Valor Econômico – Na era Trump, EUA promovem o carvão na conferência do clima


Por Daniela Chiaretti | De Bonn

Pela primeira vez na história das conferências climáticas, os EUA não têm um pavilhão oficial no evento. O que existe, um grande iglu branco logo fora da entrada principal da CoP–23, em Bonn, na Alemanha, foi bancado pelo bilionário Michael Bloomberg, ex–prefeito de Nova York, e estruturado por organizações como o WWF e o WRI. É a materialização de um país dividido na questão climática.

A participação dos EUA na conferência (presidida por Fiji e sediada pela Alemanha) exibe dois polos opostos. A que vem sendo chamada de "delegação alternativa" tem empresários, religiosos, cientistas, senadores e governadores democratas como o californiano Jerry Brown, à frente de um Estado voltado para a economia limpa.

Na outra ponta, o único evento patrocinado por aliados do presidente Donald Trump ocorreu ontem e não podia ser mais provocador. Promovia o carvão – num evento que estimula energias renováveis – e energia nuclear, numa Alemanha que se esforça para banir este tipo de energia de sua matriz. "É um evento produzido para o público interno de Trump", disse ao Valor Alden Meyer, diretor da ONG americana UCS.

O painel "O papel de combustíveis fósseis mais eficientes e da energia nuclear na mitigação climática" ocorreu numa sala com 200 lugares. Duas horas antes, já havia mais de 300 pessoas na fila. Minutos antes dos painelistas falarem, Jay Inslee, governador do Estado de Washington, entrou na sala e dirigiu–se aos jornalistas: "Donald Trump não pode nos parar. Ele não tem autoridade constitucional para impedir que eu baixe um decreto colocando um teto para a poluição por carbono", disse.

Inslee lembrou que a US Climate Alliance, fundada no dia seguinte ao anúncio de Trump que os EUA sairiam do Acordo de Paris, tem governadores de 14 Estados e Porto Rico, mais de 400 prefeitos e mais de 2.500 cidades, Estados, empresas, instituições acadêmicas e grupos religiosos no movimento chamado "We Are Still In" (Ainda Estamos Dentro). "Se fôssemos um país, seríamos a terceira economia do mundo", disse. A governadora de Oregon, Kate Brown, também democrata, emendou: "Trump rejeita a economia do futuro. Somos o primeiro Estado que baniu a eletricidade gerada por carvão. Se você quer ampliar sua economia, foque nos empregos do futuro".

Francis Brooke, conselheiro do vice–presidente Mike Pence e moderador do painel, disse que "estamos felizes em discutir clima com qualquer um. Alguns dizem que nosso evento é provocativo. Prefiro dizer que é controverso. Queremos uma discussão honesta que proporcione segurança energética."

George David Banks, assessor especial de Trump para ambiente e energia, citou dados da Agência Internacional de Energia de que há 1.600 novas usinas de carvão em 62 países do mundo. "Quando os combustíveis fósseis serão usados, serão da forma mais limpa e eficiente possível. As renováveis têm futuro brilhante, mas dizer que é possível ter segurança energética com eólica e solar é ingênuo".

Barry K. Worthington, diretor executivo da United States Energy Association, disse que "o mundo continuará por muitos anos a usar combustíveis fósseis", que terão uma fatia não menor a 40% do mix energético global em 2050. Para ele, esse é o caminho inevitável para dar acesso a energia a mais de um bilhão de pessoas em países pobres. Nesse momento, quase toda a plateia o interrompeu e começou a cantar uma música de protesto contra o carvão.

Os jovens se retiraram, e o evento seguiu com a fala de representantes da empresa de carvão Peabody, da nuclear NuScale Power e da exportadora de gás Tellurian.

Nas discussões das regras de implementação do Acordo de Paris, os negociadores americanos, liderados até agora pelo veterano Trigg Talley, continuam seguindo os pontos que sempre foram caros aos EUA. Querem um sistema único de regras de transparência e contabilidade de emissões, que tenha flexibilidade, mas seja o mesmo para todos. Recusam a ideia de dois sistemas separados, para países desenvolvidos e em desenvolvimento. "Eles dizem que não têm nenhuma ordem de Washington e que seguem como vinham fazendo antes", diz um observador.

Em financiamento, contudo, os americanos seguem a ordem de Trump de que não haverá mais dinheiro americano para o clima. Nos próximos dias espera–se a chegada do diplomata americano Thomas Shannon para liderar os negociadores. Ele já foi embaixador dos EUA no Brasil e é subsecretário de Estado para Assuntos Políticos. "Isso pode ser bom para o Brasil", avalia um diplomata.

A jornalista viajou à CoP–23 a convite do Instituto Clima e Sociedade (ICS)

O Globo – Projeção indica que emissão de gases–estufa aumentará 2% em 2017

Liberação de poluentes no mundo volta a subir após três anos de estabilidade

As emissões mundiais de gases de efeito estufa devem registrar aumento em 2017, após três anos de estabilidade, revela um estudo apresentado ontem pelo Projeto Global Carbon durante a Conferência do Clima de Bonn (COP–23), na Alemanha.

De acordo com o levantamento, a liberação de poluentes relacionados à indústria e à queima de combustíveis fósseis deve aumentar 2% este ano na comparação com 2016 e alcançar o recorde de 36,8 bilhões de toneladas, após manter–se em níveis semelhantes desde 2014.
“O mundo não atingiu o ‘pico’ de emissões”, analisaram os autores do documento, que está em sua 12ª edição. “Isso mostra que é necessário atuar com mais resolução. Temos que esquecer qualquer autocondescendência”.

— É uma grande decepção — analisou Corinne Le Quéré, pesquisadora da Universidade East Anglia (Reino Unido) e membro da equipe de 76 cientistas que assinam o estudo. — Com a estimativa de 41 bilhões de toneladas de CO2 emitidas em 2017, pode faltar tempo para limitar o aumento da temperatura global em até 2 graus Celsius, e menos ainda em até 1,5 grau, como estabeleceu o Acordo de Paris há dois anos.

Responsável por 28% das emissões de gases–estufa, a China é apontada como a maior culpada pelo aumento dos poluentes. O país passou por forte crescimento industrial e, devido a episódios de seca, reduziu sua produção hidrelétrica, apelando para os combustíveis fósseis.

PATRIMÔNIOS EM RISCO A pressão contra os diplomatas reunidos em Bonn foi aumentada por outro relatório divulgado ontem pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). De acordo com o órgão, as mudanças climáticas duplicaram o número de sítios naturais com status de patrimônio da Humanidade considerados sob ameaça de extinção.

Dos 241 sítios naturais classificados no Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), 62 estão agora “ameaçados pela mudança climática” em comparação aos 35 registrados em 2014 (de um total de 228), ano em que se divulgou o informe anterior, intitulado “Horizonte do patrimônio mundial”.

Na lista estão Machu Picchu (Peru), as ilhas Galápagos e a Grande Barreira de Corais da Austrália. Em todos os casos, além das mudanças climáticas, há outros fatores influenciando, como turismo e poluição.

“Este informe envia uma mensagem clara para os delegados reunidos em Bonn: a mudança climática atua rapidamente e afeta os tesouros mais apreciados do nosso planeta”, comentou a diretora–geral da UICN, Inger Andersen, em um comunicado. “A amplitude e o ritmo com os quais se degrada nosso patrimônio natural acentuam a necessidade de ações e de compromissos nacionais urgentes e ambiciosos para aplicar o Acordo de Paris”.

Folha de S. Paulo – Brasil cobra ambição na COP, mas não faz 'lição de casa' climática

ANA CAROLINA AMARAL
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM BONN (ALEMANHA)

Dono da maior floresta tropical do mundo, movido a hidrelétricas e ainda um país em desenvolvimento, o Brasil não tem inimigos nas negociações climáticas da ONU. Seu time de diplomatas é elogiado por todas as delegações pela atuação propositiva e conciliadora.
Da porta de casa para dentro, no entanto, a soma de decisões recentes do governo federal e projetos de lei que tramitam pelo Congresso resulta num saldo preocupante para a delegação brasileira na COP–23 do Clima, que abarca membros do Executivo, parlamentares, empresas e ONGs.

A percepção dos atores ouvidos pela reportagem é que o país, mais do que estar longe das suas metas climáticas, caminha na direção oposta a elas.

"Para cumprir sua meta climática, o Brasil precisa primeiro parar de retroceder no tempo", afirma Carlos Rittl, secretário–executivo do Observatório do Clima, ONG que reúne 35 organizações ligadas a questões do clima.

Ele cita uma série de projetos que tramitam pelo Congresso com mensagem contrária ao Acordo de Paris, como a apelidada "Lei da Grilagem" (lei 13.465/2017), que anistia invasões de terras públicas feitas entre 2004 e 2011 e o projeto de lei do Jamanxim (PL 8107/17), que visa a entregar 350 mil hectares da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, a ocupantes que, em sua maioria, chegaram ao local após a criação da área protegida.

As decisões do governo também preocupam o grupo, como o corte pela metade no orçamento do Ministério do Meio Ambiente, que desde o ano passado depende do Fundo Amazônia para manter as fiscalizações do Ibama.

MP DO TRILHÃO
A mais recente delas pegou toda a delegação brasileira de surpresa: a MP 795, apelidada de MP do Trilhão, abre mão da arrecadação de impostos que podem chegar em R$ 1 trilhão até 2040 como incentivo a empresas interessadas na exploração de petróleo e gás a partir das reservas do pré–sal.

"A gente está andando na contramão da nossa história e da história das negociações climáticas", aponta Rittl.

Para além das contradições com as metas de redução de emissões de gases do efeito estufa, "a isenção às petrolíferas também não condiz com o maior apelo fiscal da história feito pelo governo com o teto dos gastos públicos", lembra o senador Jorge Viana (PT–AC). Para ele, neste momento "a maior ameaça às metas climáticas no país não é nenhum do setor da economia, é a política brasileira".

Nesta segunda, o ministro do Meio Ambiente Sarney Filho e um grupo de parlamentares que acompanha a COP decidiram em reunião trabalhar pela obstrução da MP 795 no Congresso. Como o projeto tramitou "às escondidas" por pelo menos dois meses entre Palácio do Governo e Câmara, o processo foi lento e deve expirar em 15 de dezembro.

O grupo de parlamentares na COP–23 conta com os feriados e a aproximação do recesso para que a MP não cumpra os prazos regimentais do Congresso.

METAS BRASILEIRAS
As metas enviadas pelo Brasil ao Acordo de Paris prometem reduzir as emissões de carbono em 37% (com relação a 2005) até 2025 e em 43% até 2030, com previsão de medidas em todos os setores da economia: do combate ao desmate ilegal, que deve ser zerado até 2030, até uma expansão de fontes renováveis como a solar e a eólica na matriz energética.

Marcelo Furtado, facilitador de um grupo de mais de 160 organizações –a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura–, aposta no potencial de medidas como o Cadastro Ambiental Rural, que mapeia os limites das propriedades e, assim, permitiria identificar desmatadores ilegais.

De acordo com ele, o cumprimento das metas climáticas brasileiras depende do fortalecimento dos marcos regulatórios. "O Brasil precisa mostrar que aqui se cumpre a lei; quem se esforça para estar dentro da lei não pode ser tratado igual ou pior do que quem trabalha na ilegalidade", aponta.

Da porta para fora, o negociador–chefe do Brasil na COP–23, embaixador Antônio Marcondes, exige que os países desenvolvidos cumpram seus compromissos com o Protocolo de Kyoto, estendido até 2020. E sopra da porta para dentro, em reunião da delegação brasileira, "apelo para que o Congresso também ratifique [a extensão do acordo], para que a gente possa avançar na ambição das metas climáticas".