sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Numa sociedade drogada pelo petróleo, só se enxergam os números do PIB. Não adianta aumentar o PIB se isso acelerar ainda mais a degradação do planeta!A continuidade desse processo nos levará ao colapso de nosso modo de vida




Numa sociedade drogada pelo petróleo, só se enxergam os números do PIB



Numa sociedade drogada pelo petróleo, só se enxergam os números do PIB. Entrevista especial com Tomas Togni Tarquinio

Por João Vitor Santos, IHU

“O planeta consome aproximadamente 90 milhões de barris [de petróleo] por dia. Se empilhados um barril sobre o outro (0,80 cm de altura por 0,50 cm de diâmetro), teríamos uma coluna da ordem de 75 mil quilômetros”. Tomás Togni Tarquinio usa o exemplo para tentar clarear ainda mais o quanto a sociedade de nosso tempo é dependente das energias geradas a partir de fontes fósseis, do petróleo. Se por um lado já percebemos alguns lampejos sobre a importância de racionar o consumo de água, quando o assunto é petróleo vivemos ainda na escuridão. “Consumimos diariamente mais petróleo do que água potável”, compara. 

Para ele, ainda vivemos como cegos, correndo atrás de melhores performances do Produto Interno Bruto – PIB. “É muito fácil propor o crescimento do PIB, é uma solução reconfortante para a população. O difícil é manter um discurso revelando os limites que a crise ecológica nos impõe. As propostas políticas não supõem que vivemos em um planeta finito”, dispara, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.


E essa ainda não é uma questão só de políticos e do poder público. A sociedade de hoje é ávida pela geração de mais e mais tecnologia, só que não se dá conta de que, além de a automatização minar postos de trabalho, para fabricar e manter essas máquinas em funcionamento é preciso sempre mais e mais energia.

“A continuidade desse processo nos levará ao colapso de nosso modo de vida e cujas consequências serão dramáticas. O que nos resta a fazer é procurar soluções que permitam que a humanidade se adapte a estas novas condições e desde agora”, aponta. Assim, observa que não adianta aumentar o PIB se isso acelerar ainda mais a degradação do planeta. Para romper com isso é preciso se dar conta de que vivemos entorpecidos pelas energias fósseis.

Ou, como Tarquinioformula: “a sociedade está drogada pelo petróleo”.


Também é preciso vigilância, porque, como aponta o pesquisador, não basta apenas converter o uso de energias fósseis para as chamadas energias limpas, como o carro elétrico, por exemplo, por ser apenas uma solução parcial ao drama.

“O importante é saber como será feita a eletricidade, com carvão, gás natural, petróleo? É verdade que o veículo elétrico reduz a poluição atmosférica nas cidades, mas não elimina as emissões de CO2 se a eletricidade for produzida com carvão.

Estas emissões estarão sendo produzidas e concentradas em pontos fixos, nas grandes usinas termoelétricashidroelétricas ou nucleares, e não mais em pontos móveis como ocorre com os veículos com motor térmico”, adverte.


Tomás Togni TarquinioTomás Togni Tarquinio (Foto: Reprodução YouTube)
 
Tomás Togni Tarquinio iniciou estudos de Economia na Pontifícia Universidade Católica – PUC-SP e na Universidade de Chile. Licenciou-se em Etnologia/Antropologia na Universidade Paris VII. Ainda realizou doutorado em Economia Industrial, em Paris I, e pós-graduação em Prospectiva de Energia/Recursos Naturais, pela EHESS Paris. Trabalhou na interface ecologia/desenvolvimento em várias instituições francesas (GERPA, Groupe EDEN, Holos), europeias e internacionais (UE, OCDE, IPEE, Uruguai, Bolívia, Peru, Portugal, Espanha, Equador) e Brasil (Paraná, Amapá). Foi secretário de Governo do Amapá, gerente no Ministério do Meio Ambiente e assessor no Senado Federal.


Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Recentemente, em artigo publicado, o senhor afirma que “o crescimento do PIB não resolve o problema do emprego, da distribuição da renda e tampouco o da crise ecológica” . Gostaria que retomasse essa reflexão e analisasse por que o crescimento do Produto Interno Bruto – PIB a qualquer custo parece ser a única grande meta dos governos?


Tomás Togni Tarquinio –  Crescimento de PIB indica que houve crescimento da extração de recursos naturais do país ou do planeta para produzir bens e serviços. Crescer significa aumentar a produção econômica, ou seja, transformar recursos naturais em outras coisas. E estas transformações são possíveis graças ao emprego de máquinas movidas a energia. E a energia substitui o trabalho humano com muito mais eficiência. Há aumento de produtividade. E redução do emprego. E produzir significa mais veículos, mais petróleo, mais minério. E mais gases de efeito estufa.


Se pautar pelo crescimento do PIB é ficar reduzido a uma visão de curto prazo e à qual se adequam bem os políticos que nunca levam em consideração a questão da finitude de nosso planeta terra. 


Os políticos anseiam por respostas imediatas aos problemas, inclusive ambientais e ecológicos.

Infelizmente, o tempo político é diferente dos tempos da natureza. É muito fácil propor o crescimento do PIB, é uma solução reconfortante para a população. O difícil é manter um discurso revelando os limites que a crise ecológica nos impõe. As propostas políticas não supõem que vivemos em um planeta finito, fato que os conduz a pensar que o crescimento exponencial dos recursos naturais vai durar indefinidamente. Acreditam que a tecnologia vai resolver as questões do esgotamento dos recursos, da perda de biodiversidade, das poluições e das mudanças climáticas.


Limites do planeta

 

 

Na verdade, ainda não assimilaram que não podemos continuar indefinidamente a extrair recursos do planeta, que estes se esgotarão, que a terra tem apenas 12,7 mil quilômetros de diâmetro e 40 mil de circunferência. E que ela já era deste tamanho milhões de anos antes da revolução industrial.

Os governantes não se preocupam com os signos de esgotamento dos recursos naturais: por exemplo, atualmente é preciso cada vez mais investimento para extrair da mina uma mesma quantidade de minério, seja cobre, petróleo ou outro. É preciso cada vez mais capital para se obter uma mesma quantidade de matérias-primas. Mas chegará um momento em que haverá queda da produção por falta de matérias-primas em quantidades suficientes.


IHU On-Line – Como o investimento em inteligência artificial pode contribuir não só para o crescimento do PIB, mas para a geração de emprego, o combate às desigualdades e a redução dos impactos da crise ambiental?


Tomás Togni Tarquinio – A inteligência artificial não é diferente de outros processos de aumento da produtividade que levaram à redução da participação do trabalho humano na produção de bens e serviços. O trabalho humano foi substituído por máquinas, aumentando a produtividade e o emprego de energias, particularmente fósseis. Aumenta-se a produtividade e com isto o PIB.


Este processo deveria ser bem avaliado na medida em que é implementado nas sociedades. Ele continua o processo de substituição do trabalho humano por máquinas e robôs que não pagam impostos que são cobrados do trabalho humano, contribuindo para o aumento de déficit público e para a concentração de renda. Quando um trabalhador é substituído por uma máquina que tem uma eficiência 40 vezes maior, esta máquina não recebe salário, não recolhe INSS, nem imposto de renda. 


E a máquina depende de energia para funcionar e contribui para o aquecimento global, pois ainda 85% das energias empregadas no planeta são fósseis, emissoras de gases de efeito estufa.


IHU On-Line – No que diz respeito à inteligência artificial, há inúmeros projetos na área de transportes que propõem alternativas aos veículos movidos a combustíveis fósseis. Como avalia essas iniciativas? Em que medida levam a uma outra cilada, livrando a necessidade de uso de combustíveis?


Tomás Togni Tarquinio – O setor de transporte mundial é tributário do petróleo em 95% do total de energia consumida por este setor. Tudo que foi movido ou está em movimento foi feito graças ao petróleo.

A questão da substituição de veículos alternativos elétricos por veículos com motor térmico depende de com qual energia primária ele vai funcionar. O importante é saber como será feita a eletricidade, com carvão, gás natural, petróleo? É verdade que o veículo elétrico reduz a poluição atmosférica nas cidades, mas não elimina as emissões de CO2 se a eletricidade for produzida com carvão. Estas emissões estarão sendo produzidas e concentradas em pontos fixos, nas grandes usinas termoelétricashidroelétricas ou nucleares, e não mais em pontos móveis como ocorre com os veículos com motor térmico.


Há um outro problema. O rendimento do veículo elétrico é muito baixo, pois ele transforma em energia mecânica na roda do veículo algo em torno de 15% da energia total destinada ao veículo.


Outra questão, ainda, é que não sabemos fazer baterias eficientes. As melhores são feitas de lítio e trata-se de um recurso não renovável e existente em poucos países. Será impossível manter um parque de veículos mundial da ordem de 1,5 bilhão funcionando com baterias de lítio. Sem falar como fazer para transportar sobre um veículo elétrico uma carga de 30 toneladas.


IHU On-Line – Segundo suas reflexões, projetos de crescimento econômico tendem a se tornar insustentáveis porque se apoiam no desenvolvimento de tecnologias que, além de reduzirem postos de trabalho, dependem cada vez mais de energias, especialmente fósseis. Pode nos dar exemplos de projetos de desenvolvimento que estão sendo feitos desse modo? Que alternativas a esse cenário podemos conceber?


Tomás Togni Tarquinio – O melhor exemplo de insustentabilidade é o nosso modo de produção e consumo dominante, que são processos de desenvolvimento clássicos cujo indicador de performance principal é o PIB.

Os diversos indicadores que dispomos nos confirmam que atualmente não há nenhuma inflexão nas emissões de CO2 no processo de produção e consumo mundial.


Os defensores do crescimento continuam acreditando que vão alcançar um desenvolvimento verde, reduzindo as emissões de CO2 com o emprego de energias renováveis, mantendo níveis elevados de produção e consumo, solucionando a perda de biodiversidade, o esgotamento dos recursos naturais e combatendo as poluições em um planeta que contará com uma população superior a 9 bilhões de habitantes.

Mas, até hoje, não há uma inflexão das degradações ambientais. Ao contrário, elas aumentam. Os indicadores confirmam. As emissões mundiais de CO2 crescem anualmente a uma taxa de 3% superior ao que seria necessário para estabilizar a temperatura média do planeta em 2ºC, no final do século XXI.



Para reduzir as emissões de CO2 atuais seria necessário que o crescimento do PIB mundial fosse inferior em 1,5% ao ano. O que não ocorre. Desde o ano 2000, até hoje, as emissões de CO2 praticamente dobraram em quantidade. O crescimento do consumo de energia foi de 40% no mesmo período. Apenas no Brasil, desde 2000, o número de veículos aumentou de 30 milhões para 98 milhões em 2017.


Rumo ao colapso

 

A continuidade desse processo nos levará ao colapso de nosso modo de vida e cujas consequências serão dramáticas. O que nos resta a fazer é procurar soluções que permitam que a humanidade se adapte a estas novas condições e desde agora.


Em 2017, o consumo mundial total de energia primária foi da ordem de 14 bilhões de Tep [tonelada equivalente de petróleo]; deste total, as energias fósseis respondem por 12,0 bilhões de Tep. Ou seja, 85% do total do consumo mundial de energias no planeta hoje são fósseis. E são essas energias que mais crescem ainda hoje em termos absolutos. O aumento da produção mundial de carvão é maior do que a produção de energia solar e eólica.


Aproximadamente, 70% da eletricidade é produzida por energias fósseis e o carvão responde por 40% da produção de eletricidade mundial. E as energias fotovoltaica e eólica representam 1% do consumo mundial de energia primária atualmente.


IHU On-Line – Como o senhor avalia as contestações que estão sendo feitas à tese de que não há aquecimento global e de que há uma ideologização da questão ecológica?


Tomás Togni Tarquinio – O desprezo pelas fontes científicas é um dos aspectos. O IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] mobiliza mais de 3 mil cientistas do planeta e emite pareceres bastante fundamentados. Os contestadores nem sequer se dão conta da quantidade de petróleo que consumimos a cada dia. Esta quantidade permite dar uma ideia do que é emitido de CO2 diariamente pela combustão desta fonte de energia.


O planeta consome aproximadamente 90 milhões de barris por dia. Se empilhados um barril sobre o outro (0,80 cm de altura por 0,50 cm de diâmetro), teríamos uma coluna da ordem de 75 mil quilômetros. Se fosse um oleoduto, ele daria duas voltas em torno da terra pela linha do Equador.


Per capita, cada cidadão do Planeta teria direito a dois litros diários de petróleo. Ou seja, consumimos diariamente mais petróleo do que água potável. A sociedade está drogada pelo petróleo.


IHU On-Line – Como o senhor tem acompanhado as primeiras ações do governo de Jair Bolsonaro no que diz respeito a questões ambientais e de desenvolvimento econômico?


Tomás Togni Tarquinio – Um governo negacionista, infelizmente. E está tomando atitudes com vistas a dar continuidade ao processo de devastação dos recursos naturais brasileiros. Entregá-los à exploração agrícola, mineira, florestal industrial. Um retrocesso sem tamanho.


IHU On-Line – O senhor destacaria alguma ação no mundo a qual considera um exemplo em termos de redução da dependência de combustíveis fósseis?


Tomás Togni Tarquinio – Muito poucas experiências e em geral no setor primário. São epifenômenos. Nada de substantivo está sendo feito para se evitar o aquecimento global. Seriam necessárias decisões radicais: dividir o consumo de energias fósseis por pelo menos um fator 3 para alcançarmos uma temperatura média de 2ºC no final do século. Mas, pelo que está ocorrendo, poderemos chegar aos 2º Celsius ainda em meados deste século.

Para restarmos no objetivo de 2º Celsius no final do século XXI, é preciso reduzir as emissões de CO2 para menos de 1,5% por ano.

Mas o que ocorre é exatamente o contrário. As emissões mundiais de CO2 são da ordem de 1,5% ao ano, ou seja, em defasagem de 3% acima dos objetivos definidos na COP 21. Com esses indicadores, a trajetória que seguimos é para um aumento da temperatura de 3,7ºC a 4,0ºC no final do século.


Assim, a escalada de aumento de emissões de CO2 é da ordem de 3% por ano. Sem nenhum progresso tecnológico e ações visando descarbonizar a sociedade, será necessário reduzir o crescimento do PIB mundial atual de 1,5% ao ano para alcançarmos o objetivo de 2,0ºC por ano.


Como alternativa urgente no plano mundial, há que dividir as atuais emissões de CO2 por um fator 3, particularmente as de origem fóssil. Mas nada disso foi feito, nem está sendo feito para os próximos anos. A matriz energética mundial continuará tributária de energias fósseis nos próximos 15 anos.


Por essa razão e desde já, é necessário nos acostumarmos com a ideia de que não será possível fazer tudo que é necessário fazer. Se antes pensávamos em reduzir ao mínimo os impactos das mudanças climáticas sobre o planeta e a sociedade, hoje não será mais possível. O que importa hoje é tratar da adaptação a esse mundo diferente. Se antes pensávamos em melhorar a eficiência no uso de matérias-primas e energia, hoje esse fluxo de consumo cresce mais rapidamente que o PIB mundial.


Se tínhamos veleidades quanto à preservação da biodiversidade, esse objetivo não é mais alcançável. Assistimos a um desabamento completo das populações vegetais e animaisno planeta, da ordem de 40% no caso de animais (58% dos vertebrados, por exemplo). E outro fator importante, como manter a paz social durante o período agudo.
IHU On-Line – Já tendo passado pela dura experiência da repressão, inclusive como preso político, como tem acompanhado o avanço de posições totalitárias em todo o mundo? E, nesse quesito, como observa a atual conjuntura brasileira?


Tomás Togni Tarquinio – Um retrocesso sob todos os pontos de vista. Economicamente neoliberaisconservadores e autoritários. No tocante às questões ecológicas e ambientais, defendem ideias que não têm mais curso no planeta. Mesmo que os países façam muito pouco para melhorar as condições ecológicas e ambientais, não renegam todo o conhecimento que as instituições internacionais e nacionais têm da questão. Assistimos a uma contrarrevolução conservadora, justamente quando o 1% mais rico do planeta detém 82% da riqueza mundial, segundo a Oxfam.


(EcoDebate, 17/01/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.


[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Diga não ao projeto de lei que autoriza a caça de animais silvestres

Diga não ao projeto de lei que autoriza a caça de animais silvestres

Recentemente estamos vivendo no nosso país uma série de retrocessos que vão contra toda a luta pelos direitos dos animais até hoje. Proibida desde 1967, a caça de animais silvestres na verdade nunca deixou de existir no Brasil e esse é um dos principais fatores que levam à extinção de várias espécies ameaçadas. Mas um projeto tramita na Câmara dos Deputados prevê a regulamentação do exercício de caça no país. Trata-se do Projeto de Lei 6268/16 de autoria do deputado Valdir Colatto (PMDB-SC), membro da bancada ruralista.

O projeto anula a Lei de Proteção à Fauna (Lei 5.197/67), que proíbe o exercício da caça profissional. Defensores do projeto de lei justificam que é preciso conter algumas espécies, pois são consideradas invasoras e oferecem perigos ao ecossistema. O projeto de lei também retira da Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98) o agravamento até o triplo da pena de detenção de seis meses a um ano, e multa, por matar, perseguir, caçar, apanhar ou utilizar animais sem licença se isso for feito durante caça profissional. Isso sem dúvida é um retrocesso enorme para o nosso país.

Hoje, a caça ao javali é permitida pelo IBAMA desde 2013, essa espécie não é nativa da fauna brasileira e por isso não existem predadores naturais no Brasil. Estes animais europeus foram introduzidos no Rio Grande do Sul na década de 90 e tiveram sua criação permitida por órgãos do governo, a princípio para servir como carne “exótica”. A carne do javali não foi bem recebida pelos brasileiros, e por isso, sem medidas preventivas de controle e fiscalização eficientes, os javalis eram soltos por antigos criadores ou fugiam e encontravam um ambiente favorável para reprodução, ao longo dos anos, a população de javalis cresceu massivamente. Agora a espécie é considerada uma “praga invasora” e como resultado, milhares de animais agora são injustamente submetidos à perseguição e a uma morte cruel como “solução” para um problema que foi causado e perpetuado pelo homem.

Reconhecemos que, ainda assim, este é um problema ambiental, sanitário e social crítico e que precisa ser atendido. No entanto, incentivar que a população pratique a caça é uma medida arriscada e imoral que vai contra os esforços do país para promover práticas de bem-estar animal. A crueldade da matança estende-se não só a esses animais, como também aos cães, que estão sendo criados para matar esse animais silvestres, muitos cães morrem durante a caçada ou são abandonados pelos caçadores, por não terem mais utilidade. Além de ser desumana, a matança de animais silvestres também prejudica outras espécies.

 O restante da fauna também está ameaçado pelas armadilhas, perseguição por cães e ferimentos de bala e muitas vezes, enfrentando horas de sofrimento antes de morrer. A arara azul, a onça pintada, o mico leão dourado, a capivara e tamanduá são alguns dos integrantes de uma lista com mais de 350 animais nativos estão ameaçados.

A caça na verdade serve para o gozo dos caçadores, uma verdadeira exteriorização do prazer pelo abate ou simplesmente para o tráfico de material biológico. A caça de animais silvestres nativos de nossa fauna deve ser repudiada, continuar sendo crime e fiscalizada, assim como também imploramos que a caça do javali europeu volte a ser proibida encontrando soluções éticas para o controle. Afinal, não é justo que os animais silvestres sejam responsabilizados e punidos por problemas causados pela nossa sociedade. Nossa fauna, já tão pressionada e devastada, deve ser protegida e não destruída. Imploramos que esse holocausto animal termine, por isso peço a sua ajuda nessa luta.

Matança de javalis atinge também os cães e novas raças de cães estão sendo criadas para matá-los

Matança de javalis atinge também os cães e novas raças de cães estão sendo criadas para matá-los 
 
Com a liberação da caça de javalis pelo IBAMA (n.3/2013), a crueldade da matança estendeu-se não só a esses animais, como também aos cães, que morrem durante a caçada ou são abandonados depois pelos caçadores, por não terem mais utilidade. Hoje, considerados "pragas”, os javalis são mortos de forma cruel e desumana, assim como os cães que são criados, treinados e vendidos para matá-los.


Foto cedida pela pagina do facebook (Ocupa Ibama, Pare O Massacre Dos Javalis No Brasil)

De 8 a 11 cães treinados são liberados para rastrearem o javali no mato, e quando a "presa” é encontrada, os cães cercam o animal e começa o combate. São necessários vários cães para agarrar um javali. Eles mordem orelhas, focinho e patas, e normalmente também são atacados pelos javalis que tentam se defender. Todos saem machucados. E agonizam até morrer. Tanto os javalis, quanto alguns cães. É um verdadeiro show de horrores. O que a princípio denominou-se "controle populacional” transformou-se em prática esportiva e um meio lucrativo, pois além dos caçadores assassinarem os javalis por diversão, um comércio paralelo tomou impulso– o de criação de novas raças de cães e treinamento deles para essa finalidade. (Veja o vídeo aqui)
 
Foto cedida pela pagina do facebook (Ocupa Ibama, Pare O Massacre Dos Javalis No Brasil)

Em 2015, a World Animal Protection divulgou uma matéria onde constava o número de caçadores registrados – cerca de 7 mil cadastrados legalmente, sem contar os que fazem isso de forma ilegal. A matéria lembrou também sobre a introdução desses animais no Brasil - A espécie, que é nativa da Europa, foi introduzida no Rio Grande do Sul na década de 90 e teve sua criação permitida por órgãos do governo – para servir para consumo como carne "exótica”, e com a falta de fiscalização eficiente, os javalis, que fugiam ou eram soltos por criadores decepcionados com o fracasso do comércio da carne, foram se reproduzindo , crescendo de forma descontrolada ao longo dos anos. No entanto, há fontes que afirmam que os animais foram introduzidos no início do século passado, para satisfazer o capricho de caçadores da nobreza europeia radicados nos pampas.

No entanto, há fontes que afirmam que os animais foram introduzidos no início do século passado, para satisfazer o capricho de caçadores da nobreza europeia radicados nos pampas.  Hoje, considerados "pragas”, esses animais são mortos de forma cruel e desumana, assim como os cães que são criados, treinados e vendidos para matá-los (Veja o vídeo aqui)

Aqui o javali tem morte lenta e dolorida, com mordidas de cães que vão arrancando pedaços de seu corpo enquanto o animal ainda esta vivo, isso é crime e esta no Decreto lei N° 24.645 artigo VI . Foto: Vídeo reprodução

O IBAMA admite que o javali europeu é encontrado hoje em mais de 10 estados, porém não informa o número de animais existentes o que nos faz indagar se a ¨solução¨ apresentada por eles, liberando a caça, não seria apenas para atender os caçadores e criadores clandestinos de javalis e cães para caça. Sendo assim, se o problema é tão grave e de saúde pública, só podemos acreditar que vai piorar. Uma vez que atualmente temos no Brasil cerca de 20 milhões de cães abandonados, somaremos a isso o número de novas raças criadas e posteriormente abandonadas à própria sorte. As criações clandestinas desses animais circulam abertamente nas redes sociais sem a menor fiscalização, e muitas páginas estão sendo ameaçadas por denunciá-los.
 
Muitos cães depois da caça ficam gravemente feridos. Foto cedida pela pagina (Ocupa Ibama, Pare O Massacre Dos Javalis No Brasil)

Sobre a criação de novas raças de cães, um veterinário Cristiano Wick desenvolveu uma raça específica para caçar javalis no quintal de sua casa, em Novo Hamburgo -RS. Denominado javalizeiro pampeano, o cão foi criado a partir de cruzamentos entre quatro raças. Do dogo argentino, o rhodesian ridgeback, o veadeiro pampeano e o galgo. Segundo ele, "Após dez anos de experimentos, estamos no ápice do projeto”. "A cachorrada está como a gente quer.” "Faço por diversão”.  Não podemos esquecer a situação atual da Espanha, onde há inúmeras fazendas de cães da raça galgo, criados e vendidos para caçadores e depois abandonados ou enforcados no meio do mato, porque ficaram feridos durante a caçada e não tem mais "serventia”.

Galgos são mortos ou abandonados depois que termina a caça na Espanha.
 
Em março desse ano, o senado debateu sobre os javalis na Comissão de Agricultra e Reforma Agrária (CRA), e a presidente, senadora Ana Amélia (PP-RS), comparou os javalis ao mosquito Aedes aegypti, e ressaltou que é preciso esclarecer a população de forma a "reduzir” as críticas por parte de grupos de defesa de animais. Ela disse ainda que as ONGS protetoras dos animais são muito ativas, enquanto as pessoas que são vítimas dos javalis não conseguem usar igualmente as redes sociais para mostrar o estrago de suas lavouras.
 
 Morto, abandonado pelo caçador depois de ferido. Foto: Ocupa Ibama, Pare O Massacre Dos Javalis No Brasil

Os senadores Waldemir Moka (PMDB-MS), Blairo Maggi(PR-MT) e Wellington Fagundes (PR-MT) , também relataram prejuízos causados pelos javalis, em propriedades rurais de seus estados. Parece que senado e IBAMA estão afinados na guerra contra os javalis. Porém, fora o número do prejuízo material dos donos de lavouras, parecem não ter nenhuma visão futura sobre o destino de cães abandonados pós caçadas, nem dos criadores clandestinos de javalis que aproveitam-se da autorização para alimentar caçadores psicopatas. Liberar a caça, é assassinar animais por diversão, é liberar escravidão e abandono de cães, é liberar clandestinidade de criadores, é liberar o uso de armas. Falta planejamento e bom senso, ou sobram interesses ?
 
Foto cedida pela pagina do facebook (Ocupa Ibama, Pare O Massacre Dos Javalis No Brasil)
 
Por: Vânia Dornelles


Deputado defensor da liberação da caça de animais vai comandar órgão de proteção florestal

Deputado defensor da liberação da caça de animais vai comandar órgão de proteção florestal

Anunciado nessa quarta-feira (16) pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, como novo secretário do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), o deputado Valdir Calatto (MDB-SC) é autor de projeto de lei que libera a caça de animais silvestres no país. A proposta permite a caça até em unidades de conservação ambiental, retira o porte de armas de fiscais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e, ao mesmo tempo, flexibiliza a posse para proprietários rurais.

Entre outras mudanças na legislação, o texto ((PL 6268/16) também libera o abate de animal considerado nocivo às atividades agropecuárias, mediante apresentação de laudo pelo órgão competente, e a comercialização de espécies silvestres. Permite, ainda, que zoológicos vendam animais a criadouros particulares.

Segundo o Ruralômetro, ferramenta jornalística para consulta sobre os deputados federais produzida pela Repórter Brasil, Colatto é autor de nove projetos de lei prejudiciais ao meio ambiente e aos povos do campo. O emedebista, que não conseguiu se reeleger em 2018, é um dos líderes da bancada ruralista, que foi presidida ano passado pela atual ministra da Agricultura.

 
O deputado catarinense propõe, entre outras coisas, a suspensão da lista do Ministério do Meio Ambiente que relaciona espécies da fauna e da flora que devem ser protegidas, a transferência da União para os municípios da prerrogativa de estabelecer os limites das áreas de preservação permanente (APP) urbanas e a revisão da norma do Incra que desapropria, para reforma agrária, terras onde for encontrado trabalho escravo.

Mudança de ministério
O Serviço Florestal Brasileiro, que será comandado por Colatto, fazia parte da estrutura do Ministério do Meio Ambiente até 31 de dezembro, mas foi incorporado ao Ministério da Agricultura em um dos primeiros atos do presidente Jair Bolsonaro. A mudança faz parte da mesma medida provisória que retirou da Fundação Nacional do Índio (Funai) a responsabilidade sobre a demarcação de terras indígenas e a transferiu para a Agricultura, tradicional reduto dos representantes do agronegócio.

O SFB “tem a missão de promover o conhecimento, o uso sustentável e a ampliação da cobertura florestal, tornando a agenda florestal estratégica para a economia do país”, de acordo com sua página de apresentação na internet. Pelo novo formato dado pelo governo, a proteção das florestas nacionais ficará sob responsabilidade do Meio Ambiente e a parte das florestas plantadas em propriedades privadas para a atividade econômica ficará com a Agricultura.

O projeto que libera a caça enfrenta forte resistência de entidades ambientalistas. A ONG Hachí, de proteção animal, protocolou na Câmara em 2017 um manifesto de repúdio à proposta assinado por 130 organizações com críticas ao que chamam de ausência de critérios técnicos, jurídicos ou competência executiva para a emissão das autorizações de abate.

Regulamentação moderna
O Congresso em Foco não conseguiu contato com o deputado até o fechamento desta reportagem. Mas, em entrevista à Agência Câmara, no ano passado, Colatto defendeu a mudança na legislação. Ele disse que só critica seu projeto quem não leu o texto. Segundo o deputado, sua intenção é propor uma regulamentação moderna, que já existe em vários países do mundo. Para o catarinense, é preciso proteger a produção agrícola, o que exige o controle de animais, em especial os exóticos, ou seja, aqueles que não são naturalmente daqui.

"A questão do prejuízo econômico que pode acontecer, como por exemplo o javali hoje, que está destruindo as propriedades, a própria capivara, outros animais que trazem prejuízo econômico e também doenças. Por que que existem tantas pessoas no planeta? 7 bilhões e meio. Porque a agricultura produz alimento para esse povo tudo, né. Agora eu pergunto: nós vamos sobreviver, conviver só com a natureza? Não existe mais isso."

Retrocessos
A proposta também autoriza o estabelecimento de campos de caça em propriedades privadas e a criação e manutenção de animais silvestres em criadouros comerciais. Pelo texto, animais silvestres provenientes de resgates em áreas de empreendimentos sujeitos a licenciamento ambiental poderão ser abatidos, segundo a WWF-Brasil. “Se aprovado, esse projeto trará um enorme retrocesso para a biodiversidade brasileira. O abate de animais poderá se dar inclusive em unidades de conservação”, afirma o coordenador de Políticas Públicas do WWF-Brasil, Michel Santos.

Na última terça (15), Colatto disse que o governo Bolsonaro “começa mal” ao reincorporar à presidência da Fundação Nacional do Índio (Funai) o general Franklimberg Ribeiro de Freitas, que havia deixado o cargo sob pressão dos ruralistas no governo Michel Temer. Em suas redes sociais, Colatto escreveu que o militar havia deixado o comando da Funai pedido da Frente Parlamentar Agropecuária "por ser onguista e petista". "Começamos mal na Funai", resumiu.

Ele também criticou, no mesmo post, a exoneração da diretora de Proteção Territorial da Funai, Azelene Inácio, a pedido do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.

Ela é investigada pelo Ministério Público por conflito de interesse. "É a única indicada pela FPA que enfrentava o PT e as ONGs do deputado Nilton Tatto (líder da ONG ISA – Instituto Socioambiental)", lamentou Colatto. Tatto é o relator da proposta na Comissão de Meio Ambiente na Câmara e deu parecer pela rejeição.

O Estado de S. Paulo – Salles: projeto em vigor será mantido

O Estado de S. Paulo – Salles: projeto em vigor será mantido


O Ministério do Meio Ambiente informou ontem que não suspenderá convênios ou parcerias com ONGs que estejam em execução. Esta semana a pasta divulgou ofício determinando a suspensão de convênios com o terceiro setor por 90 dias. Técnicos e entidades temiam a paralisação de projetos. “Para aqueles (convênios) em execução, serão solicitados desembolsos e plano de trabalho”, disse o ministro Ricardo Salles ao jornal Folha de S. Paulo. Segundo ele, serão suspensas ações já assinadas, mas ainda não iniciadas. Todos os projetos da pasta serão avaliados.

O Estado de S. Paulo – Quando a Antártida era uma floresta

O Estado de S. Paulo – Quando a Antártida era uma floresta


Na primeira mostra pós-incêndio, Museu Nacional reconstrói continente antes do gelo

Roberta Jansen / RIO

Expedições. Réplica de Plesiossauro está na mostra aberta em centro cultural no Rio
Aespessa camada de gelo que recobre toda a Antártida esconde um passado muito diferente do atual mundo branco, gelado e praticamente estéril, isolado no extremo sul do planeta. Escavações paleontológicas comprovam que o continente já abrigou uma frondosa floresta tropical e as mais diferentes espécies de animais, inclusive dinossauros e répteis gigantes.

Boa parte dessa pesquisa está sendo feita por cientistas brasileiros e, agora, poderá ser vista pelo público. O diretor do Museu Nacional, o paleontólogo Alexander Kellner, e a paleontóloga Juliana Sayão apresentaram ontem as novas descobertas do Projeto Paleoantar, ligado ao Programa Antártico Brasileiro. O material novo e o mais antigo está reunido todo pela primeira vez na exposição Quando Nem Tudo Era Gelo – Novas Descobertas no Continente Antártico, no Centro Cultural Museu Casa da Moeda, no Rio.

Trata-se da primeira exposição aberta pelo Museu Nacional desde o incêndio de 2 de setembro. “Essa exposição, aberta pouco mais de quatro meses depois da tragédia que se abateu sobre nossa instituição, tem inúmeros significados. É a primeira desde o incêndio, acontece no prédio que foi a primeira sede do museu e será uma oportunidade incomparável para o público conhecer uma Antártida apresentada de forma única e surpreendente”, disse Kellner. Grande parte do material da exposição estava num anexo não afetado pelo fogo.

Características. Atualmente, a temperatura média no verão da Antártida é de -35°C no interior do continente e de 0°C na península. A temperatura mais baixa já registrada na Terra (- 89°C negativos) ocorreu nas proximidades do Polo Sul. Por isso, o continente nunca foi permanentemente habitado pelo homem.

Mas nem sempre foi tão frio assim. Durante a maior parte do Cretáceo (de 144 milhões a 65 milhões de anos atrás), um clima bem ameno prevaleceu na Antártida, favorecendo o crescimento de plantas e o surgimento de animais. Fósseis desenterrados cada vez com mais frequência revelam flora e fauna das mais exuberantes. Árvores com mais de 4 metros de altura e diferentes espécies de samambaias compunham essa floresta tropical.

Para os pesquisadores, a compreensão da pré-história da Antártida é fundamental para diferentes áreas de conhecimento. “A exposição é uma forma de facilitar o entendimento das pessoas sobre questões que afetam as vidas de todos nós, como o calor excessivo no Rio, por exemplo”, disse Juliana.

Correio Braziliense – Índios serão ouvidos e a Amazônia, preservada / Entrevista / Tereza Cristina

Correio Braziliense – Índios serão ouvidos e a Amazônia, preservada / Entrevista / Tereza Cristina


Hamilton Ferrari
Dad Squarisi
Denise Rothenburg

Uma das duas mulheres que compõem a equipe ministerial do presidente Jair Bolsonaro, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, se diz empenhada em adotar novas práticas no setor para favorecer os produtores rurais, sobretudo os pequenos. Ela demonstra preocupação com a falta de recursos para o crédito agrícola, principalmente com o oficial. O orçamento apertado da União restringe as políticas de concessão de subsídios.

A ministra garante que vai facilitar o empreendimento dos agricultores e instituir o “autocontrole” nas indústrias fiscalizadas pela pasta: o empresário é responsável pela qualidade do produto e o Estado fiscaliza. Para Tereza Cristina, trata-se de mudança de paradigma. Segundo ela, o brasileiro parte do pressuposto de que o setor privado pratica ações irregulares. Precisa, por isso, da tutela do governo para manter-se na linha. Desvios, segundo a ministra, constituem exceção, não regra.

Ressaltou que a Amazônia será preservada, sem descartar a possibilidade de outras nações contribuírem para manter a floresta de pé. Ao longo da gestão, pretende conquistar novos parceiros comerciais e manter os já existentes — incluídos os países árabes que, com a hipótese da transferência da Embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, poderão cobrar explicações na mesa de negociações.

Ex-presidente da Frente Parlamentar de Agricultura na Câmara dos Deputados, Tereza Cristina disse que, se necessário, se licencia do cargo para votar com o DEM, partido a que é filiada: “Voto em Rodrigo Maia para a Presidência da Câmara”. A ministra da Agricultura concedeu entrevista para o Correio, em casa.


Como está a questão da falta de dinheiro para o crédito agrícola?
O orçamento está cada vez mais apertado. O volume de recursos se mantém, mas a agricultura cresceu mais que o crédito oficial. Temos de achar uma saída.

Qual seria ela?
Temos de trabalhar melhor o seguro rural para termos uma base que atenda mais produtores. Começamos as discussões agora no governo, mas vínhamos falando disso na Frente Parlamentar (de Agricultura). Vamos ter que achar outras ferramentas de crédito no mercado. Hoje, se os juros no Brasil caem, fica mais fácil para o produtor tomar um crédito que não seja muito mais caro do que o oficial e não seja tão burocrático. Aliás, isso já acontece. Onde é que o grande produtor toma recursos, já que tem uma limitação por CPF para a tomada do crédito oficial? Ele vai ao mercado. E quem são os grandes emprestadores? São as traders — investidor do mercado financeiro que busca ganhar dinheiro com operações de curto prazo. Esse dinheiro é caro, porque é dólar e mais alguma coisa. O grande produtor vai ter que trabalhar mais com esse tipo de crédito. Agora, nós temos o pequeno e o médio. Uma rodada de negociações está agendada para a semana que vem com o novo vice-presidente do Banco do Brasil (Ivandré Montiel da Silva). O assunto é importantíssimo e a indefinição causa instabilidade.

Os presidentes dos bancos públicos disseram, quando empossados, que se impunha reduzir subsídios para conseguir fechar as contas. Como é que fica o setor?

Não é bem um subsídio o que a agricultura tem. Nosso juro era tão alto que foi preciso o governo dar um juro menor. É ótimo emprestar para a agricultura, porque se trata de dinheiro de curtíssimo prazo. Mas, sem o seguro, os bancos resistem por causa do risco climático, o maior problema para o setor. Essa é uma variável que está na mão de São Pedro.

Há alguma proposta de abdicar do subsídio para ajudar no equilíbrio fiscal?
Não. A agricultura vai brigar até o último minuto. Os juros do Brasil são os mais altos do mundo. São taxas incompatíveis com a nossa inflação e outros indicadores econômicos. Nós precisamos conseguir um seguro diferente do que temos hoje — um seguro de renda porque, quando se perde a lavoura, não basta ter dinheiro para pagar o financiamento. Nos Estados Unidos, quando há um acidente climático, o produtor recebe um cheque em casa pelo correio do seguro de renda. Ele fica muito tranquilo, porque sabe que vai poder voltar a produzir, além de não criar esse ciclo de riqueza e pobreza existente na agricultura brasileira. O produtor vem empobrecendo e perdendo competitividade no Brasil. A infraestrutura é quase zero. Nós ainda escoamos a produção por uma matriz antieconômica. Mesmo assim, a nossa balança comercial vem sendo positiva nos últimos anos graças à agricultura. Não podemos perder a galinha dos ovos de ouro. Principalmente para o pequeno produtor rural. Ele não pode perder o crédito subsidiado enquanto não sair da condição engessada em que se encontra.

Em relações às exportações, o que a senhora tem a dizer?
Nós temos dois desafios. Um é a manutenção dos mercados existentes. Não podemos perder o que já conquistamos. Isso é uma das ações em que estamos trabalhando. A outra é a abertura de novas frentes. A negociação com a União Europeia e Mercosul estagnou. O protecionismo é um grande problema. Mas vamos avançar. A Europa é um mercado importante.

A senhora acha que a relação do governo Bolsonaro com o Mercosul ficou estremecida?
O governo deu uma endurecida, e precisava mesmo. Há momentos em que é necessário recuar para depois avançar, mas nunca dissemos que nós estaríamos fechados ao diálogo. Estamos conversando com embaixadores de vários países que têm comércio com o Brasil e querem intensificar as trocas, outros que querem abrir. Conversamos com autoridades dos Emirados Árabes. Eles importam 90% do alimento que consomem. O Brasil sempre vai ser um parceiro muito importante para quem precisa de alimentos.

Por falar em árabes, Houve algum estremecimento em relação ao comércio após o caso da mudança da embaixada brasileira em Israel?
Não. Houve uma preocupação, nenhum boicote. Os países árabes são grandes importadores de aves. Nós estamos sentando e conversando, mas acredito que tudo vai caminhar bem. Há um momento de ajuste no começo do novo governo. Nós ficamos 14 anos com outro direcionamento e, agora, este governo vai dar o tom de como fazer.

Uma das preocupações é a demarcação de terras indígenas. Como vai ser isso? Há um risco de revisão das áreas já demarcadas? Como ficarão os índios mais isolados?
A grande maioria dos mais isolados já tem as suas terras com abundância. Hoje, 13% do território nacional é terra indígena. Nós só usamos 9% para a agricultura. O grande problema não são os índios isolados, mas as áreas das cidades. Em São Paulo, por exemplo, o Vale do Anhangabaú é dos índios. Em Santa Catarina, o Morro dos Cavalos. Esse é o problema. O conflito é que já tem gente lá. Precisamos harmonizar isso para ter um entendimento legal. Hoje, tudo se judicializa. Precisamos de leis claras que definam o marco temporal para as demarcações.

Os índios serão ouvidos?
Com certeza. Eu tenho recebido muitas mensagens. Na Frente Parlamentar de Agricultura, conversei muito com os índios nos últimos três anos. É claro que há os radicalmente contra qualquer mudança. Há outros que querem ser ouvidos e dizem que querem falar diretamente, sem intermediários. No Incra, vamos ter departamentos para cuidar disso.

Nós vamos preservar a Amazônia ou haverá avanço do desmatamento?
Vejo uma grande preocupação principalmente dos militares, como o general Heleno e outros que conhecem a Amazônia. Eu nunca vi alguém falar que quer tirar. Há uma grande confusão proposital: que o ministério vai abrir a Amazônia para a agricultura. Não é verdade. Muito pelo contrário. Nós temos que ter uma discussão bem-feita, séria e técnica do que é Amazônia e do que é Amazônia Legal, que vai até a divisa com Mato Grosso do Sul. Essa extensão foi feita por causa da Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia), que é um programa de crédito. O estado queria ficar com os benefícios, assim como, no ano passado, passou no Congresso uma extensão de área para Minas Gerais sob o guarda-chuva da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste). Isso tudo avançou pelos benefícios e não pelo bioma. Tem que ter muito cuidado nessas discussões. Ninguém vai abrir a Amazônia, mesmo porque produzir lá é muito complicado, pode desertificar a região. Temos terras de sobra para produzir fora da Amazônia e aumentar a produtividade.

O que mais será proposto pelo ministério? 
Outro tema polêmico de que vamos tratar é a questão do autocontrole, em que cada um faz o seu papel. Hoje, nós temos a indústria que cresceu muito. O governo não dá conta de ter fiscais em todos os lugares ao mesmo tempo, principalmente fixos. A proposta é dividir tarefas. Isso já se faz no mundo há algum tempo. É preciso ter um compromisso. A indústria precisa cumprir seu papel: o que ela prometer, vai ter que cumprir fielmente. Nós vamos ter que fiscalizar e auditar a qualidade do produto e o sistema. Agora, toda a parte de saúde pública, o ministério terá de fazer. Cada um cuida da sua caixinha. As indústrias que forem pegas contrariando o protocolo terão que ter sanções firmes, multa e fechamento, dependendo do grau da infração cometida. O governo tem hoje uma burocracia que trava, às vezes, a iniciativa privada. O autocontrole é para facilitar, mas não deixar cobrar.

A senhora é parlamentar. Como a senhora vai se posicionar na eleição para a Presidência da Câmara?
Todos os ministros que são parlamentares têm a obrigação de ajudar o governo porque é a nossa função. Antes de ser ministra, eu sou deputada federal. Eu estou ministra. Nós sabemos o que o governo pensa e quer. Não há nenhuma recomendação. Isso é um assunto do Legislativo. Eu, que sou do DEM, vou seguir a orientação do meu partido. Se precisar, vou sair do governo para tomar posse no meu segundo mandato por alguns dias e, com certeza, votar no Rodrigo Maia.

"Ninguém vai abrir a Amazônia, mesmo porque produzir lá é muito complicado, pode desertificar a região. Temos terras de sobra para produzir fora da Amazônia e aumentar a produtividade”