sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Fique sabendo o que aconteceu entre 25 e 31 de janeiro de 2019

InícioFique sabendo o que aconteceu entre 25 e 31 de janeiro de 2019

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Não à transferência do processo de demarcação de seus territórios para as mãos do agronegócio, não à flexibilização do licenciamento ambiental para que mais rompimentos de barragem aconteçam: a resposta dos povos indígenas às propostas do governo federal tomou as ruas e ocupou 60 regiões do país com atos, protestos e bloqueios de rodovias

Pesquisador descobre dez novos sítios arqueológicos no interior da Amazônia

O Instituto Mamirauá mapeou cerca de dez sítios arqueológicos no início de janeiro, em duas Unidades de Conservação do Amazonas: a Estação Ecológica (ESEC) Jutaí-Solimões e a Reserva Extrativista (RESEX) Rio Jutaí. Os vestígios encontrados parecem ser pertencentes a populações produtoras de cerâmica que viveram na região há três mil anos. A coleta nos recém-descobertos sítios arqueológicos revelou fragmentos de dois conjuntos cerâmicos da história pré-colonial amazônica: as tradições Pocó e Polícroma, ambas importantes na caracterização das comunidades que as produziam. Saiba mais aqui.

Invasões no Parque Estadual da Costa do Sol (RJ) serão tratadas com mais rigor

As áreas de proteção do Parque Estadual da Costa do Sol, no Rio de Janeiro, estão sendo loteadas irregularmente desde o ano passado por grileiros e também por narco-milicianos, como aponta o administrador do parque, Marcelo Morel. Relatórios sobre a situação estão sendo encaminhados para a 1ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Cabo Frio, que, na quinta-feira, 24, ajuizou uma ação civil pública em defesa do meio ambiente junto à Comarca de Arraial do Cabo, denunciando as invasões e pedindo a demolição dos imóveis construídos em áreas invadidas. Saiba mais aqui.

Chapada Diamantina ganha roteiros de Turismo de Base Comunitária

“Em Cantos da Chapada Diamantina” é a nova proposta de Turismo de Base Comunitária com seis roteiros que passaram a ser comercializados a partir do dia 24 de janeiro. Cada um deles tem duração de um a três dias e percorre atrativos naturais e culturais, hospedagem na casa de moradores da região, oferecendo experiências de colheita em plantações agroecológicas e conhecimento da fabricação artesanal de rapadura. Além da vida tradicional do campo, a visita também proporciona conhecimento acerca de organização comunitária e democratização da terra, já que as comunidades rurais visitadas são assentamentos de reforma agrária do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Saiba mais aqui.

Moradores de quilombo temem por ruptura de duas barragens em Oriximiná (PA)

Após o rompimento da barragem de minérios em Brumadinho – assim como a de Mariana (2015), ambas em Minas Gerais –, moradores do Quilombo Boa Vista Trombetas (PA) temem por sua segurança. O quilombo possui 120 famílias e está a 430 metros de distância de 2 das 46 barragens da Mineração Rio de Norte (MRN) no país. Segundo a empresa, as duas barragens – Água Fria e A1 – são consideradas de baixo dano potencial associado, além de possuirem planos de ação de emergência. Em uma vistoria do Ibama há dois anos, recomendou-se que as duas barragens passassem de baixo para alto dano potencial associado, e foram solicitados um Estudo de Ruptura Hipotética e a Elaboração do Plano de Ação de Emergência. Saiba mais aqui.

Lafaiete (MG) tem sua primeira comunidade quilombola certificada

A comunidade quilombola do Mato Dentro, localizada no município de Conselheiro Lafaiete (MG), comemorou sua certificação pela Secretaria Estadual de Desenvolvimento Agrário no fim de janeiro. No dia 31 de outubro de 2018, a comunidade foi certificada pela Fundação Cultural Palmares por meio da Portaria n° 283. Saiba mais aqui.

A pedido do MPF e da AGU, Justiça do Amapá suspende decisão que autorizava exploração na Floresta Estadual

No dia 30 de janeiro, a Justiça do Amapá suspendeu a decisão da Comarca de Tartarugalzinho (AP) que determinava ao Instituto de Meio Ambiente e Ordenamento Territorial (Imap) conceder autorização de exploração em área da Floresta Estadual do Amapá (Flota). A decisão da Comarca autorizava que o Imap realizasse supressão vegetal e práticas agrícolas em áreas sem comprovação do domínio. No entanto, no ano passado a Justiça Federal já havia determinado que o Imap e o Estado do Amapá deixassem de emitir a autorização. Saiba mais aqui.

MPF quer retirada de salinas de áreas de preservação e realocação da produção do sal

O Ministério Público Federal ingressou com diversas ações públicas contra 18 empresas salineiras do Rio Grande do Norte, as quais estão ilegalmente em Áreas de Proteção Ambiental (APPs). Nessas áreas, que representam apenas 10% do total ocupado pelas salineiras, é impedida por lei a regularização das empresas. Foi estabelecido um prazo de até oito anos para a total desocupação do território e determinação da compensação ambiental a partir da elaboração de Planos de Recuperação de Áreas Degradadas (Prads), conforme o que já foi mapeado e sugerido pelo Grupo de Trabalho do Sal (GT-Sal). Saiba mais aqui.

Mulheres Indígenas do Baixo Tapajós declaram em carta: “Nossa terra não é mercadoria!”

Reunidas em Santarém (PA), no período de 09 a 13 de janeiro, mulheres indígenas de diversas etnias – Arapium, Apiaká, Arara Vermelha, Borari, Jaraqui, Kumaruara, Maytapu, Munduruku, Munduruku Cara­ Preta, Tapajó, Tapuia, Tupayú e Tupinambá – discutiram estratégias de resistência e defesa dos territórios indígenas. Na carta do encontro, elas afirmam: “o presidente nos comparou a animais no zoológico presos em jaula ao se referir a nossa vida dentro dos nossos territórios tradicionais. Ele faz afirmações absurdas sobre nosso modo de vida e sobre nossos desejos enquanto cidadãs brasileiras. Sim, somos brasileiras! Somos indígenas! Queremos respeito a nossa cultura, tradição e espiritualidade! Queremos nossos territórios demarcados! Nossa terra não é mercadoria! Resistiremos!”. Saiba mais aqui.

Tragédia em Brumadinho (MG) afeta também aldeia indígena

A lama de rejeitos da barragem Brumadinho, em Minas Gerais, seguiu no Rio Paraopeba e atingiu a aldeia Nao Xohã do povo Pataxó, localizada a 22 km de Brumadinho. Na aldeia, vivem 18 famílias que usavam o rio cotidianamente para pescar, banhar e lavar roupa. Um dos grandes problemas é o acesso limitado à água potável. Saiba mais aqui e aqui.

Nova hidrelétrica prevista para a Amazônia

O Secretário especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, o General Santa Rosa, afirmou em entrevista o plano do governo de construir uma hidrelétrica no Rio Trombetas, em Oriximiná (PA). Se concretizada a hidrelétrica, os territórios de povos indígenas e das comunidades quilombolas que vivem na região correm o risco de serem inundados. Saiba mais aqui.

Saiu nos Diários Oficiais

Presidente da Funai prorroga por mais três anos a proteção da TI Ituna/Itatá (PA)
O presidente Franklimberg de Freitas publicou, no DOU de 25/01/2019, uma portaria que prorroga por mais três anos a restrição de ingresso, locomoção e permanência de pessoas estranhas aos quadros da Funai na Terra Indígena Ituna/Itatá, no Pará. O instrumento tem como objetivo proteger os índios isolados que vivem nessa terra, que mesmo com a Restrição de Uso, tem sido invadida por madeireiros. Acesse.
Fundação Cultural Palmares certifica quatro Comunidades Quilombolas
Com portarias publicadas no DOU em 31/01/19, o Presidente da Fundação Palmares certificou quatro comunidades quilombolas, sendo uma na Bahia (Comunidade Fazenda Gado Bravo e Adjacências, município de Filadélfia); duas em Minas Gerais (Comunidade Lapão, em Januária e Comunidade Capivari, em Serro); e uma no Maranhão (Comunidade e Povoado São Lourenço e Lagoinha, em Presidente Juscelino). Acesse aqui.
Funai nomeia candidatos habilitados em Concurso Público
Presidente da Funai publica no DOU de 30/01/2019 a Portaria N° 98, na qual o nomeia, em caráter efetivo, os candidatos habilitados em Concurso Público e define as unidades de lotação dos candidatos. Acesse aqui e aqui.
No dia 31/01/2019, a Funai publicou no DOU uma retificação da Portaria N° 98, que além de pequenas mudanças, como trocar unidade de lotação por município de lotação, o anexo contendo os 106 candidatos alocados também foi alterado. Confira aqui e aqui.
SESAI prorroga prazo para revisão da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas
A Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) publica Portaria Nº 3, na qual prorroga o prazo de duração do Grupo de Trabalho para discussão e revisão da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI). O GT terá o prazo de 180 dias a contar de 1º de dezembro de 2018 para a revisão da PNASPI. Saiba mais aqui.
Segurança de Barragens no Estado do Pará
Em publicação de Diário Oficial do dia 30 de janeiro no estado do Pará, foi instituído o Grupo de Trabalho de Estudos e Segurança de Barragens, que visa discutir assuntos referentes a segurança das barragens de Mineração no estado, buscando controlar a situação de risco que possa haver. Saiba mais aqui (DOE PA 30/01/2019).
Sobreposição de Territórios
Diante da sobreposição dos territórios quilombolas Alto Trombetas 1 e 2 e a Reserva Biológica do Rio Trombetas, foi celebrado Termo de Compromisso entre a Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Alto Trombetas (ACRQAT) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O objetivo é o estabelecimento de regras para coleta e comercialização da castanha-do-pará, importante fonte de renda e subsistência para as comunidades, a fim de assegurar a sobrevivência digna das famílias quilombolas, sem prejuízo da conservação dos recursos naturais protegidos pela Unidade de Conservação. Saiba mais aqui (DOU 28/01/2019).
Implementação do Programa Agenda Ambiental
Foi celebrado Termo de Adesão entre a União, por intermédio do Ministério do Meio Ambiente (MMA), e a Companhia Brasileira de Trens Urbanos, pela Superintendência Regional de Trens Urbanos do Recife. O objetivo da celebração é a integração de esforços para o desenvolvimento de projetos destinados à implementação do Programa Agenda Ambiental na Administração Pública, visando promover a conscientização de uma cultura anti-desperdício e a utilização coerente dos recursos naturais e dos bens públicos. Acesse (DOU 30/01/2019).
Gestão de UC
Houve modificação na composição do Conselho Deliberativo da Reserva Extrativista Renascer, localizada no estado do Pará. Além disso, foi aprovado o Regimento Interno do Núcleo de Gestão Integrada (ICMBio) Carajás, também localizada no estado paraense. Saiba mais aqui e aqui (DOU 28/01/2019).

Documentário inédito "O Amanhã é Hoje" expõe impactos das mudanças climáticas na vida de brasileiros

Documentário inédito "O Amanhã é Hoje" expõe impactos das mudanças climáticas na vida de brasileiros

Esta notícia está associada ao Programa: 
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Com lançamento nesta quinta-feira (6/12) na Conferência de Clima da ONU, na Polônia, filme traz histórias de pessoas afetadas pelas mudanças climáticas no Brasil - e mostra que a preservação da floresta amazônica é fundamental para o futuro de todos.
Os impactos das mudanças do clima já alcançam os brasileiros, estejam eles na cidade ou no campo, no norte ou no sul do país, e suas consequências são profundamente sentidas. Algumas dessas histórias estão no documentário “O Amanhã é hoje - o drama de brasileiros impactados pelas mudanças climáticas”, lançado nesta quinta-feira (6/12) no Espaço Brasil da COP 24, a Conferência do Clima da ONU, que está sendo realizada em Katowice, na Polônia. A iniciativa, de sete organizações da sociedade civil, conta como 6 pessoas em 5 estados brasileiros tiveram suas vidas modificadas por conta das alterações do clima. Assista o documentário aqui: www.oamanhaehoje.com.br.
Entre os casos apresentados pelo documentário estão o de uma jovem indígena que tornou-se brigadista voluntária depois de um incêndio florestal sem precedentes atingir a terra indígena de seu povo, os Krikati; o da pequena agricultora do sertão de Pernambuco que enfrentou seis anos de seca; o da comunidade caiçara centenária do litoral paulista obrigada a mudar de lugar em razão erosão causada pelo avanço do mar; o comerciante fluminense que testemunhou seu negócio ser destruído pelas chuvas e deslizamentos que deixou centenas de mortos em Friburgo (RJ), em 2011; o do produtor de ostras catarinense penalizado pelo aumento da temperatura do mar; o da mulher que perdeu dois carros, em Santos (SP), para as ressacas cada vez mais violentas que avançam na costa brasileira. Assista aqui o trailer:
O documentário traz também depoimentos de especialistas como o professor de Economia da USP Ricardo Abramovay, do pesquisador Carlos Souza, do Imazon, e do climatologista José Marengo, do INPE. Eles assinam dois pareceres inéditos que revelam como o desmatamento, em especial da Amazônia, agrava os impactos do clima na produção agropecuária, no fornecimento de água do país, na emissão de gases de efeito estufa, nos incêndios florestais, entre outros, afetando ainda mais brasileiros. Acesse:
"Os relatos mostram que manter a Amazônia em pé é fundamental não só para quem vive lá. O governo tem o dever de preservar nossas florestas e cumprir suas metas de redução de emissões porque isso significa proteger todos os brasileiros", afirma Fabiana Alves, do Greenpeace.
O documentário é uma realização da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Artigo 19, Conectas Direitos Humanos, Engajamundo, Greenpeace, Instituto Alana e Instituto Socioambiental (ISA).
Informações para a imprensa
Greenpeace
11 3035-1167 e 11 95640-0443
imprensa.br@greenpeace.org
Engajamundo
11 973731171
pedrolac@engajamundo.org

Crimes socioambientais e o modelo de educação cartesiana, artigo de Eloy F. Casagrande Jr


Crimes socioambientais e o modelo de educação cartesiana, artigo de Eloy F. Casagrande Jr



desenvolvimento insustentável

[EcoDebate] Muita reflexão pode ser feita sobre os crimes ambientais da Vale em Brumadinho e da Samarco em Mariana, em Minas Gerais. Quando um “acidente” que poderia ser evitado acontece, não existe somente uma causa, geralmente é um escalonamento de erros técnicos e humanos, negligencia e excesso de confiança. Podemos citar outros casos semelhantes, sem a grande perda de vidas como estes, mas com enormes impactos socioambientais, quando houve vazamentos de óleo cru de duas refinarias da Petrobrás.

Primeiro no Rio de Janeiro, no ano 2000, quando 1,3 milhões de litros de óleo cru foram lançados na baía de Guanabara pela Refinaria Duque de Caxias. A mancha de óleo se estendeu por uma faixa superior a 50 quilômetros quadrados, atingindo o manguezal da área de proteção ambiental de Guapimirim e diversas praias que são banhadas pela baía. Seis meses depois, no município de Araucária, no Paraná, era a vez do vazamento na Refinaria Getúlio Vargas, onde 4 milhões de litros de óleo cru que poluiu os rios Barigui e Iguaçu até as proximidades do município de Balsa Nova, a mais de 40 km rio abaixo.

Nos dias que sucederam ao vazamento, o cenário era de destruição. Em alguns trechos era possível ver a mancha escura do óleo cobrindo o leito do rio e muitos animais mortos. Em ambos os prejuízos econômicos também foram grandes ao impedir o sustento de pescadores e ribeirinhos que vivem nas regiões. Como no caso das barragens de minérios, foi necessária uma segunda tragédia para que as empresas tomassem uma outra atitude quanto as medidas de correção e prevenção a serem implementadas. Se compararmos os casos, vemos que mesmo após ter sido acendida uma luz vermelha, no caso da baía de Guanabara e de Mariana, pouco foi feito para se evitar um segundo “acidente” de maiores proporções.


Porque isto ocorre? Podemos falar da importância dos lucros da empresa e dos seus acionistas sobrepondo-se a preservação ambiental, como também da negligencia do poder público em todas suas esferas, dos licenciamentos facilitados a falta de uma fiscalização mais rígida, da pressão em cima de prefeitos, de lobbies de vereadores, deputados e senadores, que tendo campanhas financiadas por estes setores, os defendem sem ver as consequências dos seus atos. No entanto, podemos também analisar mais profundamente estas ações pelo viés da educação. Todos os atores destas tragédias bem ou mal, receberam uma formação e foram eles que tomaram as decisões, independente dos cargos que ocupam.

Técnicos, engenheiros, doutores, CEOs ou mesmo políticos, que tenham cursado apenas o ensino médio, passaram uma boa parte de suas vidas em salas de aulas. Como foi esta formação? O que aprenderam além das leis da física, das fórmulas matemáticas, dos cálculos para construírem tubulações ou barragens, sobre gestão administrativa, gerenciamento de segurança e saúde no trabalho, sistemas de gestão ambiental, marketing político ou empresarial? Que valores lhes foram transmitidos? Quais as questões morais e a ética foram discutidas de acordo com suas profissões? Como a visão mecanicista cartesiana, sem o desenvolvimento da aprendizagem crítica e reflexiva induz a um comportamento egoísta e predador?


O Brasil tem desde 1999, a Lei no 9.795/99, Lei da Educação Ambiental (EA), como ficou conhecida. Aprovada pelo seu Congresso Nacional e sancionada por um presidente, que no seu Artigo 1o, deixa claro o seu propósito: “Entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade.”


No artigo 4°, são expressos os princípios básicos da EA, citando aqui alguns principais e destacando o direcionamento transdisciplinar que tem devia ter:

 I – o enfoque humanista, holístico, democrático e participativo;

II – a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o socioeconômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade;

III – o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, na perspectiva da inter, multi e transdisciplinaridade;

IV – a vinculação entre a ética, a educação, o trabalho e as práticas social.


No Artigo 9o, que trata da EA no Ensino Formal, deixa claro que a educação ambiental deve ser inserida na educação escolar e desenvolvida no âmbito dos currículos das instituições de ensino públicas e privadas, englobando a) educação infantil; b) ensino fundamental e c) ensino médio; II – educação superior; III – educação especial; IV – educação profissional e V – educação de jovens e adultos.


E finalmente no Artigo 10o, também se chama a atenção para a transversalidade que a EA deveria ter: “A educação ambiental será desenvolvida como uma prática educativa integrada, contínua e permanente em todos os níveis e modalidades do ensino formal.” Deixando claro no inciso 1o: “A educação ambiental não deve ser implantada como disciplina específica no currículo de ensino”.
Basta uma rápida vista nos currículos dos cursos das nossas instituições de ensino, de todos os níveis, para ver que isto não acontece.

A tradição da educação mecanicista cartesiana se sobrepõe aos valores socioambientais. No ensino médio, isto se expressa no modelo da decoreba e dos testes, onde o preparo se concentra para o aluno passar no vestibular e alcançar uma vaga na universidade. Quanto ao ensino superior, o foco fica no “saber fazer”, apertar o botão, fazer funcionar, com pouca ou nenhuma consideração pela ética, preservação ambiental e proteção social.


A preocupação não é mais formar cidadãos, mas “soldados” para o capital! Vemos isto praticamente em todos os cursos, principalmente na áreas das exatas, do ensino das engenharias, passando pela administração, o direito e a economia. O modelos se repete, onde a regra é se colocar uma disciplina isolada para tratar dos “assuntos da natureza”, sem uma visão sistêmica e interdisciplinar.


A transversalidade significa que cada disciplina do curso deveria ser conduzida com uma interface ambiental, demonstrando que os procedimentos e os métodos ali ensinados têm consequências danosas para o meio ambiente e as pessoas. Infelizmente o futuro profissional não vê nada disto, sendo que os próprios currículos engessados ditados pelo Ministério de Educação (MEC) muitas vezes não permitem a mudança.


Ao passarem para a vida profissional, onde o mercado da competição dita regras, estes profissionais se tornam cordeiros obedientes que seguem seu pastor. Não há espaços para questionamentos (pois não aprenderam!), e os que o fazem, sofrem discriminação, são ridicularizados em público, excluídos de decisões importantes, taxados de tolos por não “quererem ganhar dinheiro fácil” ou “ecochatos” e outros pejorativos que ambientalistas já estão acostumados a ouvir.


Por outro lado, fora dos bancos escolares, vemos a partir dos anos 90, em todas as mídias, documentários, campanhas, filmes, acordos internacionais da Organização das Nações Unidas (ONU), alertas das Organizações Não Governamentais (ONGs) ambientalistas, que o caminho do desenvolvimento econômico que o mundo adotou é insustentável a médio e longo prazo!

Não se pode dizer que não temos conhecimento dos fatos, como das mudanças climáticas devido o Aquecimento Global, a poluição dos nossos meios hídricos, do ar e do solo, da extração irresponsável de recursos naturais não renováveis, da perda da nossa biodiversidade, e que tudo, isto pode levar a extinção da nossa própria espécie!


Para quem ainda tem dúvidas que civilizações inteiras desaparecem por decisões inconsequentes em relação ao meio ambiente, sugiro a leitura do livro “Colapso”, do Dr. Jared Diamond. Lá encontrarás relatos muito interessantes além das ficções sobre o fim do mundo produzidas para o cinema por Hollywood!


Sim, crimes ambientais poderiam ser evitados se soubéssemos educar nossas crianças, nossos jovens, nossos profissionais, de outra forma. Ou como dizia Paulo Freire: “Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda.”


Prof. Eloy F. Casagrande Jr. PhD em Eng. de Recursos Minerais em Meio Ambiente pela Universidade de Nottingham (Reino Unido); Pós-doutor em Inovação e Sustentabilidade pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa (Portugal), Coordenador do Escritório Verde e professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Campus Curitiba.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/02/2019


"Crimes socioambientais e o modelo de educação cartesiana, artigo de Eloy F. Casagrande Jr," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 7/02/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/02/07/crimes-socioambientais-e-o-modelo-de-educacao-cartesiana-artigo-de-eloy-f-casagrande-jr/.

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Mais de 25 mil tubarões foram abatidos para exportação criminosa para a China


 

De Óscar Castilla C. e Leslie Moreno Custodio, para o OJO Publico
 

A megaoperação da alfândega peruana interveio contra o envio de remessas de barbatanas de tubarão de origem suspeita que seriam enviadas para a Ásia. Até o momento, foi estimado em mais de 25 mil animais mortos nos mares da fronteira com o Equador, vários deles na lista de espécies ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Uma das maiores remessas de barbatana de tubarão suposta origem ilegal no Peru -25 toneladas no valor de US $ 630.000 e teve a China como destino foi apreendida pela Aduana da Superintendência Nacional de Administração Tributária (SUNAT) em Callao durante uma megaoperação para combater supostas organizações dedicadas à extração e ao tráfico de espécies aquáticas em perigo de extinção.

A operação – realizada na semana passada pela Brigada de Operações Especiais (BOE) da Alfândega – descobriu vários contêineres com entre 100 e 150 sacas que continham milhares de barbatanas dorsais de espécies que foram preliminarmente identificadas como pertencentes ao tubarão azul ( prionace glauca ) e ao tubarão raposa ( Alopius pelagicus ), entre outros, incluídos na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza ( IUCN ).

O número de espécimes abatidos pode crescer nas próximas horas quando for concluída com a revisão total de 25 toneladas de material encontrado em armazéns do porto Callao. “O preço desta exportação de barbatanas parece pouco (US $ 630.000) em comparação com o valor do ouro, madeira e outras matérias-primas enviados ao exterior, mas o dano final à natureza e ao ecossistema marinho é inestimável”, disse um dos responsáveis ​​pelas investigações.

A investigação estabeleceu que as empresas Angaff SAC, Huiman SAC e Lamarqocha Inversiones SAC com sede em Lima; Inversiones Peru Flippers de Callao EIRL; e Tide Blue EIRL de Tumbes são os donos das cargas. De acordo com informações financeiras, essas empresas foram criadas nos últimos cinco anos e fazem importações do Equador e exportações para a China continental e Hong Kong, mercados que vendem barbatanas de tubarão em restaurantes ou industrializar por suas propriedades afrodisíacas alegados.
“Estima-se que mais de 25 mil
espécimes de tubarão foram abatidos,
de acordo com o número de barbatanas
interceptadas pela alfândega”
Atualmente, o Peru é o terceiro exportador mundial de barbatanas de tubarão e o maior fornecedor latino-americano desse produto para a China, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). O Equador está proibido de exportar as barbatanas de tubarão .

INTERVENÇÃO A Brigada de Operações Especiais (BOE) da Alfândega descobriu vários 
contêineres com sacos de polietileno que tinham a China como destino. 
Foto: Ojo-Publico.comOlho – Público . com

Empresas sob investigação

As autoridades aduaneiras estabeleceram que uma das maiores empresas Lamarqocha Inversiones SAC é constituída com Amadeo Saenz 2016 Astuñaupa como gerente geral, e Xiaoou Zheng chinês de origem e Lucila Sáenz Astuñaupa como fundadores. O exportador enviou remessas para a China por mais de US $ 7 milhões entre julho de 2016 e setembro de 2018.

Huiman também SAC, fundada em 2016 em Lima e cujos gestores Clotilde Huiman Cordova, advogado para o exportador, e seu marido Jorge Castillo Silva, fez importações do Equador por US $ 350 bilhões e as exportações para a China por US $ 880.000.

VULNERÁVEL. A raposa tubarão nesta foto é caracterizada por sua cauda longa 
e se tornou uma espécie cobiçada por pescadores de todo o mundo. 
Foto: Nicolas Voisin / Oceana.
A alfândega também interveio na empresa chalaca Inversiones Peru Flippers, criada em 2015 e cujo gerente e proprietário é Juan Quispe Huamaní. Essa empresa fez exportações para Hong Kong por mais de US $ 421 mil a partir de novembro de 2016. Enquanto isso, a Marea Blue, criada em 2017 e administrada por Miguel Ángel Vera Chevez, fez exportações para Hong Kong por US $ 57 mil. que vai de 2018.

Fontes do setor que combate o tráfico de barbatanas de tubarões revelaram a inação do Estado na luta contra as organizações dedicadas à extração e contrabando de espécies aquáticas em risco de extinção. As entidades encarregadas de articular essas ações são a Polícia Nacional, o Ministério Público Especializado em Assuntos Ambientais e a Agência Nacional de Saúde Pesqueira ( Sanipes ) do Ministério da Produção .

INVESTIGAÇÃO Cada um dos contêineres interpostos carregava entre 100 e 150 sacas 
com milhares de barbatanas de tubarão.  Foto: Ojo-Publico.com.Olho – Público . com .

Olho – Público . com soube que a Alfândega está em processo de investigação para estabelecer a origem real da carga, que poderia permanecer imobilizada por até 30 dias úteis, se disponível. Esta é a maior apreensão de barbatana de tubarão nos últimos anos. Desde 2015, as autoridades peruanas apreenderam mais de 27 toneladas de barbatanas desta espécie em diferentes operações realizadas nas localidades de Tumbes, Ancash e Lima.

O Ministério Público também pode levar o caso ao Judiciário pelo crime de extração ilegal de espécies aquáticas. Questionado sobre as ações habituais nestes processos, o promotor público do Ministério do Meio Ambiente Julio Guzmán disse que se o caso veio à judicializarse e acabou em uma frase (a infracção é punível com até cinco anos de prisão) a carga pode chegar a incinerado por não tem uso gastronômico ou industrial no Peru.

Fornecedores e outros suspeitos

A última operação contra essas organizações ocorreu em março passado, quando o Sunat apreendeu quase duas toneladas de barbatanas de tubarão em Chimbote (Ancash) . Então, a carga – fornecida pela Tumbes e contida em 51 malas avaliadas em US $ 31 mil – não possuía a documentação que comprova sua origem. O caso contra o acusado Poly Dicks Pinto Gonzales, pai de Brian Pinto Panduro, um dos proprietários da Angaff Peru; e os irmãos Jorge Roldán e María Amelia Ángulo Sánchez; Já está no Judiciário.

Alfândega do Sunat também identificou a empresa Genesis Naomi de Tumbes como um dos fornecedores de barbatanas de tubarão, como parte de suas investigações. A empresa, criada em 2014 e de propriedade e gerenciada por Mario Lucio Maceda Vidal , fez importações do Equador para mais de US $ 1,2 milhão entre 2015 e 2016. Este personagem foi mandado para a prisão depois de ser acusado como membro da organização ” Os Piratas de Puerto Pizarro “que opera na zona norte do Peru.
“O tubarão-azul e o tubarão estão
em risco de extinção, segundo
O tráfego dessas espécies – cuja origem real é “lavada” na exportação – segue globalmente, apesar do fato de que sua captura tem restrições em certos países e que poderia levá-los à extinção se o seu comércio não fosse controlado, de acordo com a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção ( CITES ). Na Conferência das Partes, a ser realizada no Sri Lanka em 2019, a proposta do Peru de realizar um inventário das barbatanas dessas espécies com o objetivo de limitar as licenças para seu comércio poderia ser aprovada.

O Peru tornou-se a rota de saída para países com proibições como o Equador, devido à alta demanda do mercado asiático. De acordo com o Departamento de produtos da pesca PromPerú, o país exportou mais de 360 ​​toneladas de barbatanas de tubarão nos últimos dois anos, que estavam cotadas a US $ 10 milhões em FOB (valor utilizado para calcular os montantes das exportações) valor.
Autores:
Óscar Castilla C.
OJO Publico – É uma mídia digital produzida no Peru  de jornalismo investigativo e novas narrativas que visa oferecer um coquetel cada vez mais raro: histórias relevantes, notícias reais, textos bem escritos e ferramentas de informação inovadoras sobre temas urgentes da agenda pública nacional. É uma equipe de repórteres experientes que aceitam o desafio dos leitores: desconfortáveis ​​com o poder, vigilantes da democracia, põem nossos olhos no serviço do interesse do cidadão em vez de promover os interesses dos outros. 

Neste lugar, o absurdo disfarçado de jornalismo, as fofocas infundadas e as cortinas de fumaça são proibidas. Tudo o que já resta no quiosque da esquina. Aqui praticamos a máxima que orienta os grandes empreendimentos da imprensa livre: publicamos as histórias que gostaríamos de ver e ler para sermos verdadeiramente informados. Estamos comprometidos com a vigilância e o controle do poder estatal e corporativo, do crime organizado transnacional, da corrupção em todas as suas formas e de outras ameaças contra o interesse público, o meio ambiente e os direitos humanos.

O histórico da barragem da Vale. E o risco de liquefação

Por Estêvão Bertoni, Nexo Jornal – 
 
Dissertação de mestrado defendida em 2010 por funcionário da mineradora diz que barragem que se rompeu tinha nove camadas suscetíveis à liquefação, processo que podia levar estrutura a ruir


A barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, da Vale, que se rompeu em 25 de janeiro de 2019 em Brumadinho (MG), possuía nove camadas  com potencial de liquefação, processo no qual o material sólido do reservatório passa a se comportar como fluido, o que pode levar a estrutura a se romper.


O dado foi observado pelo engenheiro geotécnico Washington Pirete da Silva, que trabalha na mineradora há mais de 22 anos, e consta de sua dissertação de mestrado de 2010.


O risco de liquefação também havia sido registrado por engenheiros que vistoriaram a barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana, antes da tragédia que matou 19 pessoas e deixou um rastro de destruição até o litoral do Espírito Santo, em 5 de novembro de 2015.


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presso O histórico da barragem da Vale. E o risco de liquefação Estêvão Bertoni 05 Fev 2019 (atualizado 06/Fev 16h05) Dissertação de mestrado defendida em 2010 por funcionário da mineradora diz que barragem que se rompeu tinha nove camadas suscetíveis à liquefação, processo que podia levar estrutura a ruir Foto: Adriano Machado/Reuters Policial federal fotografa área da barragem 1, da Vale, em Brumadinho, após estrutura ruir A barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, da Vale, que se rompeu em 25 de janeiro de 2019 em Brumadinho (MG), possuía nove camadas com potencial de liquefação, processo no qual o material sólido do reservatório passa a se comportar como fluido, o que pode levar a estrutura a se romper. O dado foi observado pelo engenheiro geotécnico Washington Pirete da Silva, que trabalha na mineradora há mais de 22 anos, e consta de sua dissertação de mestrado de 2010. O risco de liquefação também havia sido registrado por engenheiros que vistoriaram a barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana, antes da tragédia que matou 19 pessoas e deixou um rastro de destruição até o litoral do Espírito Santo, em 5 de novembro de 2015. “O principal mecanismo de ruptura em barragens de rejeitos alteadas para montante [que crescem para dentro, como a barragem 1 e Fundão] ocorre por processos de liquefação induzidos por carregamentos estáticos [quando há uma carga que permanece estável ao longo do tempo] e transientes e isto está diretamente relacionado às baixas densidades dos rejeitos dispostos de forma hidráulica na barragem e à gestão inadequada da operação nestas barragens”, escreve Silva. Seu trabalho que analisa a barragem 1 é intitulado “Estudo do potencial de liquefação estática de uma barragem de rejeito alteada para montante aplicando a metodologia de Olson (2001)” e foi defendido na Escola de Minas da Ufop (Universidade Federal de Ouro Preto). Na Vale, Silva é responsável pela Gestão em Projetos Geotécnicos aplicados na Mineração e Estudos de Alternativos de Disposição de Rejeitos. A ruptura da barragem, que funcionava havia mais de 40 anos, deixou, até esta terça-feira (5), 134 mortos e 199 desaparecidos. O histórico da barragem 1 A estrutura que recebia rejeitos de minério de ferro em Brumadinho começou a ser projetada em 1974 e foi finalizada em 1976, quando começou a operar. Do início de seu funcionamento até 2007, ela cresceu 63 metros (uma média de dois metros por ano). Barragens de rejeitos estão permanentemente em obras porque são feitas por camadas, num processo chamado de alteamento (até 2007, nove alteamentos foram feitos). A 1 teve diversos projetistas e foi tocada por diferentes empreiteiras ao longo dos anos. A Vale só assumiu a direção da Mina Córrego do Feijão em 2003. As atividades no local começaram em 1956, sob responsabilidade da Companhia de Mineração Ferro e Carvão. Em 1973, três anos antes de a barragem começar a operar, passou para o controle da Ferteco Mineração, até ser transferida para a Vale, 30 anos depois. A mina empregava 613 funcionários diretos e 28 terceirizados até o final de 2018. Em 2007, a parede frontal da barragem tinha 81 metros de altura (pouco mais de duas vezes o tamanho do Cristo Redentor, no Rio). Diferentemente do que se pensava, ela misturou dois tipos de alteamentos. Começou a montante (quando os “degraus” crescem para dentro do reservatório) e, em 1984, cresceu pelo modelo de linha de centro (ou seja, a estrutura é erguida para o alto, em linha reta). Em 1990, o método a montante foi retomado. Os problemas Em seu trabalho, Silva chama a atenção para um detalhe ocorrido no quarto alteamento, realizado em 1995: o eixo da parede frontal foi deslocado 60 metros para o interior do reservatório. Isso significa que o próximo degrau seria construído mais ao fundo, em cima do rejeito anteriormente depositado, o que aproximava a parede de contenção da barragem dos rejeitos com mais água (quanto mais distante a lama permanecer da frente da barragem, menor o risco). “Essa decisão foi tomada no sentido de se garantir uma maior condição de segurança para a estrutura. Embora satisfatória do ponto de vista geométrico por parte da projetista, o sistema de fluxo interno à barragem não se mostrou adequado, induzindo o aparecimento de diversas surgências ao longo do pé do dique do quarto alteamento e rápida elevação das leituras piezométricas”, escreve o engenheiro. As surgências a que Silva se refere são espécies de vazamentos ou aparecimento de bicas d’água, que podem sinalizar que o material interno está sendo carregado para fora, configurando um risco de ruptura. Os piezômetros são aparelhos que medem o nível de água na estrutura e precisam ser monitorados constantemente. Uma investigação conduzida pela Samarco em 2016 mostrou que uma alteração geométrica no eixo, com a criação de um recuo na forma de um S, foi o que levou ao desastre com a barragem de Fundão, em Mariana. O método de recuo do eixo não é recomendado por engenheiros, por ser uma solução que apresenta riscos. A falta de diretrizes Silva diz em seu estudo que, de 1976 a 2005, ou seja, por quase 30 anos, “a barragem era operada sem uma diretriz quanto à disposição dos rejeitos”. “Esta operação ao longo dos alteamentos da primeira fase resultou na formação de um depósito de rejeito não uniforme”, escreveu. Nas barragens, os rejeitos arenosos, que ficam à frente, precisam ser separados dos rejeitos finos (lama) jogados ao fundo. Manuais de operação de barragens estipulam até uma distância mínima da “praia” (formada pela areia) para manter a estrutura segura. No caso de Fundão, a praia tinha que ter, no mínimo, 200 metros. Uma distância menor significava risco, porque a lama (com água) estaria muito próxima da parede de contenção. Apenas em 2006, afirma o engenheiro, houve uma mudança no método de disposição dos rejeitos na barragem 1 “e um entendimento melhor quanto à importância desta operação”. Silva ressalta, no estudo, que o “manejo da disposição dos rejeitos e o controle do nível da água do reservatório constituem aspectos essenciais para a garantia da segurança da estrutura”. Os pontos suscetíveis O engenheiro da Vale afirma que não havia uma “homogeneidade do sistema de disposição de rejeitos”, por causa de “problemas da falta de um controle efetivo quando da implantação da primeira fase do empreendimento”. Sem separação efetiva entre lama e areia, havia áreas críticas espalhadas pela estrutura. Ele identifica “nove camadas com maior potencial ou susceptibilidade à liquefação”, mas define como “pouco provável” um gatilho para desencadear o processo. Esse gatilho pode ser uma perturbação, como uma movimentação de terra, por exemplo. Para ele, não haveria a necessidade de avaliar potenciais riscos de ruptura por liquefação, pois “o potencial do gatilho é baixo em função da gestão operacional da barragem 1”. Silva elogia a equipe responsável pela manutenção do reservatório. “Os procedimentos operacionais da barragem 1 da Mina do Córrego do Feijão incluem o controle absoluto do nível de água do reservatório por meio de um sistema extravasor dotado de stop logs [pequenas comportas], a manutenção de uma praia de rejeitos com extensão mínima de 100 m e uma gestão no manejo da disposição dos rejeitos feito por uma equipe técnica bastante qualificada. Estes elementos, associados aos resultados positivos das análises desenvolvidas nesta dissertação, garantem uma boa segurança do empreendimento e seu baixo potencial a gatilhos de liquefação estática”, escreve. O Nexo ouviu o doutor em engenharia e professor José Marques Filho, vice-presidente do Comitê Brasileiro de Barragens. Ele afirma que controlar a água em barragens como a da Vale é essencial para manter sua segurança e impedir que ocorra a liquefação. Como ocorre o processo de liquefação? JOSÉ MARQUES FILHO As partículas [do rejeito] são muito fininhas, muito pequenas. Algumas são arenosas, outras são argilosas, e têm cargas elétricas. Se você pegar uma massinha com pouca água, você consegue moldar e fica durinha. Quanto mais seco estiver, mais duro vai ficar. Por isso que você compacta. Quando vai tendo mais água e descargas elétricas, esse material começa a ficar mais separado um do outro, em suspensão, e fica muito deformável, porque aquele atrito de partícula com partícula começa a diminuir, assim como a adesão entre elas. Então, elas se separam. É como se houvesse uma suspensão, e o material se movimenta, porque a água passou a ser predominante com relação à argila. Conforme vai aumentando a quantidade de água, vai aumentando a solução líquida. Como ocorre numa barragem esse processo, que tem a parede frontal mais seca e arenosa para barrar a água ao fundo? JOSÉ MARQUES FILHO Se você tiver bastante água no meio daqueles poros, qualquer mudança que você tenha, a força da água vence e passa a ser uma solução. Pode não ser o material da frente que teve a liquefação, pode ser o de trás, mas se ele se liquefazer, ele vai empurrar o da frente. Uma coisa é o material sólido, você pode colocar um em cima do outro. Se você colocar um material mais úmido ele escorre, porque ele faz uma força lateral. Então para manter em segurança é preciso tirar a água? JOSÉ MARQUES FILHO Tem que tirar, drenar e não pode perturbar. Porque às vezes ele está quieto, e se você perturba, ele se mexe e cai. Existem várias maneiras. Pode ser uma liquefação estática e dinâmica. O material está bem no limite de ficar fluido, aí você cutuca e ele escorre. E essa perturbação pode ser o quê? JOSÉ MARQUES FILHO Pode ser um sismo ou você pode estar escavando perto. Pode ser um monte de coisa. Se mexeu o maciço ou se você fez furos perto, pode gerar um problema. O ideal é estar com os drenos sempre funcionando, controlando a barragem para que não tenha esse estado de solução. O sr. viu o vídeo da ruptura da barragem? Houve liquefação? JOSÉ MARQUES FILHO Pode ter sido, sim. Pode ser também uma mistura de fenômenos, porque tem uma parte arenosa, argilosa, mas há uma chance de ter sido liquefação. Eu não posso falar com certeza. ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto nomeou de forma equivocada o trabalho de mestrado de Washington Pirete da Silva. Na realidade, o termo correto é dissertação, e não tese. O texto foi corrigido às 11h30 de 6 de fevereiro de 2019.

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Aquecimento global: Planeta Azul ficará ainda mais azul à medida que Terra esquenta

Por: Matt McGrath, Fonte: BBC News Brasil –



 

 
O aumento das temperaturas mudará a cor dos oceanos do mundo, tornando-os mais azuis nas próximas décadas, dizem cientistas.

Eles descobriram que o aquecimento global alterará a presença de fitoplâncton, os minúsculos organismos marinhos que absorvem e refletem a luz.

Os cientistas dizem que haverá menos deles nas águas nas próximas décadas. Isso levará a uma mudança de cor em mais de 50% dos mares do mundo até 2100.

O fitoplâncton desempenha um papel extremamente importante nos oceanos.
Fitoplâncton, que absorvem e refletem a luz dos oceanos, visto por meio de um microscópio
Além de transformar a luz solar em energia química e consumir dióxido de carbono, eles estão no primeiro degrau da cadeia alimentar marinha.

Eles também desempenham um papel importante na forma como vemos os oceanos com nossos olhos.

Quanto mais fitoplâncton houver na água, menos azul será o mar. O mais provável será uma cor esverdeada.

Pesquisas anteriores mostraram que, com o aquecimento, os oceanos terão uma redução no fitoplâncton em vários lugares.

Este novo estudo modela o provável impacto que essas mudanças terão sobre a cor do oceano e do planeta à medida que o mundo se aquece.

“O que descobrimos é que a cor vai mudar. Provavelmente não tanto a ponto de você enxergar a olho nu, mas certamente os sensores serão capazes de perceber que há uma mudança”, disse a autora do estudo, Stephanie Dutkiewicz, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) em Cambridge, nos Estados Unidos, em entrevista à BBC News.

“E provavelmente será um dos primeiros sinais de alerta de que mudamos a ecologia do oceano.”
Além das mudanças no azul dos oceanos, também é provável que vejamos mudanças na área verde
Os pesquisadores apontam que as alterações são um impacto indireto da mudança climática. Como o aquecimento está afetando a circulação dos mares, isso está mudando a quantidade de alimentos disponíveis para o fitoplâncton.

Outra diferença em relação a estudos anteriores é que, desta vez, os pesquisadores estão olhando apenas para medições feitas por satélites da luz refletida pelo fitoplâncton.

No passado, cientistas usavam medições de satélites da clorofila – pigmento no fitoplâncton que absorve luz – para tentar entender o impacto da mudança climática.

No entanto, eles tiveram problemas para estabelecer a diferença entre a variação natural e o aquecimento induzido pelo homem sobre esse pigmento verde. Eles acreditam que demorará de 30 a 40 anos até que eles possam dizer com certeza que a mudança climática está causando um impacto na clorofila.

“O que mostramos é que a cor na faixa verde/azul vai mostrar esse sinal de mudança mais cedo. Em alguns lugares, talvez na próxima década”, disse o Dr. Dutkiewicz.

“O oceano vai apresentar uma mudança de cor nas próximas décadas maior do que veríamos na clorofila. A mudança de cor será mais um sinal de alerta.”
Padrões naturais vistos no rio ucraniano Dnepr coberto por cianobactérias como resultado da evolução do fitoplâncton em estações quentes
Os pesquisadores acreditam que o Atlântico Norte será um dos primeiros lugares a refletir a mudança – seguido por regiões no Oceano Antártico.

A equipe modelou o que aconteceria com os oceanos até o final deste século se a temperatura média do mundo esquentasse em 3º C, o que é próximo ao cenário previsto caso cada país siga as promessas que fizeram no acordo climático de Paris.

“Haverá uma diferença notável na cor de 50% do oceano até o final do século 21”, disse o Dr. Dutkiewicz.

“Isso pode ser potencialmente muito grave. Diferentes tipos de fitoplâncton absorvem a luz de maneira diferente, e, se a mudança climática levar uma comunidade de fitoplâncton a invadir o espaço de outra, isso também mudará os tipos de cadeias alimentares que eles podem suportar.”

A equipe também acredita que o mundo verá mudanças em algumas das tonalidades verdes vistas também nos oceanos.

Isso acontecerá porque algumas espécies de fitoplâncton responderão bem a um ambiente mais quente e criarão proliferações maiores e mais diversas de organismos marinhos. É provável que isso apareça com mais intensidade em regiões verdes perto do equador e dos polos, dizem os pesquisadores.

O estudo foi publicado na revista Nature Communications. (#Envolverde)